Mostrar mensagens com a etiqueta Estereótipos. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Estereótipos. Mostrar todas as mensagens

12.8.22

Leona Fonseca é cigana e desmistifica a sua cultura no Tiktok. "Alguém tinha de o fazer"

in MAGG

Leona Fonseca utiliza o Tiktok para divulgar conteúdos sobre a cultura cigana. Por fazer parte dela, sentiu que a plataforma seria o local indicado para a dar a conhecer – e com isso conquistou milhares de seguidores.
Instagram

Aos 37 anos, Tânia Fonseca (ou Leona, como se popularizou), utiliza a sua presença nas redes sociais com um objetivo: desmistificar a cultura cigana, à qual pertence. Com mais de 30.000 seguidores no Tiktok, mostra que pode viver o melhor de dois mundos (ou culturas), vivendo "em cima do muro" – e que, em momento algum, se arrepende das raízes que alicerçam a pessoa que é hoje.

Leona conta que foi criada de uma maneira muito confortável em termos financeiros. Por esse motivo, da mesma forma que acontece às outras raparigas ciganas, o pai nunca viu nos estudos um percurso pelo qual a filha precisasse de passar. "Na cabeça dele, eu ia ser a típica menina que não ia à escola, ia casar, ia ter uma catrefada de ciganinhos e ia continuar a ser muito rica, porque ele devia achar que o dinheiro não ia acabar", explica. E não era isso que o destino tinha traçado para Leona.

No que ao percurso académico diz respeito, embora tenha sido conturbado, conseguiu levá-lo até ao fim. Num primeiro momento, completou o 4.º ano, até que foi obrigada a sair da escola. "Na altura, não percebi porque é que não podia continuar, porque eu via todas as meninas a ir [à escola] menos eu", revela Leona. Isto porque, de acordo com a cultura cigana, "quando as meninas saem da escola, começa a aprendizagem de se tornarem mulheres", explica, acrescentando que o bichinho da instrução nem por isso desapareceu.

A vontade de saber mais era tão grande que a levou consigo até aos 18 anos – altura em que se pôde "finalmente inscrever na escola outra vez, sem a assinatura dos encarregados de educação". Por isso, como a escola ficava mesmo por trás de casa, conseguiu esconder dos pais as idas às aulas, mascarando-as de outros compromissos. Além disso, a sua professora, que sabia que Leona "não podia levar cadernos nem livros", ajudava-a nesta tarefa.

No entanto, a dois meses de completar o 6.º ano, foi descoberta – e o medo de todos os esforços até então terem sido em vão levaram-na a convencer o pai a deixá-la terminar, pelo menos, aquela etapa. E assim foi – até ao momento em que se casou, perto dos 21 anos.

"Quando eu me casei [com o agora ex], pus as coisas em cima da mesa. Disse que saía da asa do meu pai, mas que ia para algo melhor. Então, eu disse que ia estudar, tirar a carta e trabalhar", confessa, completando ao afirmar que o ex-parceiro "aceitou bem" as suas aspirações, que acabaram mesmo por se materializar.

Assim, terminado o ensino secundário, entrou na faculdade, depois de uma década a trabalhar enquanto mediadora cultural de um projeto em Espinho, de onde é natural, e de várias palestras em universidades e câmaras municipais. No entanto, por motivos de familiares, teve de "utilizar o dinheiro das propinas para preencher algumas lacunas" e, até hoje, não regressou à vida académica, que era o seu "sonho de menina".

A vida seguiu o seu rumo e Leona não se acomodou. Hoje, trabalha como estafeta da Uber Eats – mas claro que os mais atentos à sua página já o sabiam, sendo que filma no carro grande parte dos vídeos que publica, durante os seus tempos mortos.
E, afinal, como é que surgiu o Tiktok na vida de Leona?

"Eu sempre fui muito palhacinha e quem me conhece sabe que eu sempre gostei de memes [conteúdos humorísticos que se espalham rapidamente na Internet]. Quando eu descobri o Tiktok, vi logo que era para mim", conta Leona. Contudo, a missão pela qual grande parte do seu conteúdo se pauta atualmente só começou mais tarde. Isto porque, inicialmente, "só publicava vídeos no Facebook para amigos e família" – até que começou a fazê-lo no Tiktok.

E tudo mudou a 8 de abril, data em que se assinala o Dia Mundial do Cigano: "eu publiquei um vídeo em que explicava melhor a minha cultura, até falei sobre o nosso hino e a nossa bandeira", explica Leona, acrescentando que isto catapultou a sua presença mediática. "Por isso, comecei a ganhar seguidores, até que as pessoas que não são ciganas começaram a topar que eu era", refere.

Como para os interessados uma curiosidade nunca vem só, não tardou muito até a caixa de comentários de Leona estar cheia de questões em relação à sua cultura. Assim, em vídeo, começou a responder uma a uma, o que acabou por cair nas graças dos utilizadores da aplicação – algo que ainda não percebe bem como aconteceu. Quanto ao objetivo, este passa por "tentar mudar mentalidades". Acrescenta ainda que a sua premissa, contudo, não pressupõe "que as pessoas levem [a sua cultura] para a vida delas, mas que compreendam e respeitem".

Por isso, dá um exemplo daquilo que tenta desmistificar no Tiktok, no que toca à distribuição de papéis no seio da sua comunidade: "na educação dos filhos, a mulher é o papel principal. Dentro de casa, o homem opina, mas, se a mulher não quiser, ele não se mete. A nível de dinheiro, ele ganha e, quando traz para casa, vai tudo para a mão da mulher". E, entre gargalhadas, brinca: "as pessoas pensam que nós [ciganas] somos umas coitadinhas (...), mas é como eu costumo dizer: o homem é a cabeça e a mulher é o pescoço – e a cabeça só gira se o pescoço mandar".

Tenta, ao mesmo tempo, passar alguns dos valores que mais preza na sua cultura, como "a pureza da mulher e o valor aos idosos". Assim, explica: "o idoso está acima de qualquer pessoa, é o topo da hierarquia, porque ninguém é mais sábio que ele. Quando um idoso morre, é uma biblioteca que se incendeia. Nós ficamos desprovidos se o perdermos".

Apesar de tudo, refere que não é só a perspetiva "dos brancos" que quer mudar – ambiciona, por outro lado, normalizar alguns aspetos pelos quais já passou, aos olhos da sua própria comunidade. "Se eu consegui influenciar uma pessoa cigana a pensar num trabalho, em ir tirar um curso ou a não ver mal em, como eu, casar aos 20 em vez de casar aos 16, já fico de missão cumprida", confessa, acrescentando que "alguém tinha de o fazer".

Leona diz que, ainda assim, consegue ser quem é sem abrir mão de nada. "Se eu tivesse de abdicar de alguma coisa, iria ser difícil para mim escolher entre os dois mundos. Mas eu vivo ali, em cima do muro. Consigo trabalhar, consigo ter amigos e aquilo que eu não faço não é por ser cigana, eu não faço porque, de facto, não me identifico com isso", explica.

"Eu convivo bem com toda a gente. Há ciganos que não o fazem e se retraem", frisa. No fim, conclui, deixando um apelo: "Eu encorajo todos a verem que nós não somos monstros também. Bebam café connosco, estejam connosco, eu quero mostrar que é possível vivermos todos".

6.8.20

Alice Ramos. Estereótipos, preconceito e racismo

José Maria Pimentel, in Público on-line

Esta semana, no podcast 45 Graus, ouvimos Alice Ramos, doutorada em Ciências Sociais, com especialidade em Sociologia pelo Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa, onde é actualmente investigadora. Tem-se dedicado a analisar o impacto conjugado de factores individuais e contextos sociais nas atitudes face aos imigrantes e no preconceito racial.

Desde Janeiro de 2018, é também a coordenadora nacional do Inquérito Social Europeu e do Estudo Europeu dos Valores. O Inquérito Social Europeu é uma sondagem realizada a cada dois anos, desde 2001, com o objectivo de avaliar as atitudes e comportamentos dos cidadãos de 24 países europeus sobre um leque muito variado de assuntos. No caso português, uma área específica trouxe recentemente os resultados do inquérito para a ribalta: o nível do racismo em Portugal, que o inquérito indica ser desconfortavelmente mais elevado do que tendemos a achar.

Os resultados da versão mais recente do inquérito foram divulgados há cerca de um mês e mostram que quase dois terços dos portugueses manifestam pelo menos uma forma de racismo, e apenas cerca de 10% da população discorda de todas as crenças que o inquérito identifica como racistas. Estes números caem como uma bomba no debate público e na discussão sobre a dimensão do racismo em Portugal, um debate antigo mas que tem ganho tracção nos últimos anos, à boleia de estudos como este mas, talvez mais ainda, de um activismo crescente que chama a atenção quer para desigualdades estruturais quer para a violência policial sobre minorias e crimes com motivações racistas. Foi isso que aconteceu no caso recente do assassinato do actor Bruno Candé, que aconteceu poucos dias depois da gravação deste episódio (sendo que, neste caso, tudo indica que o preconceito racista do homicida teve, no mínimo, influência no crime).

Avaliar a dimensão do racismo em Portugal é, evidentemente, um exercício muito complexo, até por ter várias dimensões. A discussão nas redes sociais rapidamente se encarrega, com a sua pulsão para o pensamento binário e comportamento tribal, de politizar a discussão e de a reduzir a um debate entre dois campos opostos: o dos que garantem que Portugal “é um país racista” (excluindo, claro, depreende-se, os virtuosos autores do diagnóstico) e o campo dos que continuam a negá-lo.

A convidada Alice Ramos ajuda a compreender, com a calma que um podcast proporciona, a dimensão, as expressões e, sobretudo, as causas do racismo em Portugal, fazendo-o a partir da base, isto é, começando por tentar compreender por que existem e como funcionam aspectos quase universais da psicologia humana e da sociedade, como os estereótipos, o preconceito e os comportamentos discriminatórios.

Há alguns conceitos que a convidada convoca que, nesta área, têm um significado mais específico do que o seu uso no quotidiano: os valores são os princípios com que orientamos a nossa vida, são aquilo que nos permite distinguir o que é bom do que é mau; os nossos valores influenciam as nossas atitudes, que são predisposições para agir de uma determinada forma, avaliações sobre situações específicas; o preconceito é uma atitude, mas também o é a nossa opinião face à legalização do aborto ou face à intervenção do Estado na economia, etc; finalmente, os comportamentos, são as atitudes em acção: é o que verdadeiramente fazemos. A discriminação é um comportamento.

27.1.17

Elas e eles. Os estereótipos começam muito cedo

in Diário de Notícias

Aos seis anos as meninas já tendem a ver-se a si próprias como menos talentosas ou menos espertas do que os meninos, diz estudo publicado na revista Science

É bem cedo, logo a partir dos seis anos, que as raparigas começam a ver-se a si próprias e às suas congéneres como menos talentosas, ou menos espertas, na sua linguagem mais simplificada, do que os rapazes. É isso, pelo menos, que mostra um novo estudo realizado por investigadores dos Estados Unidos.

Num artigo publicado hoje na revista Science, a equipa liderada por Lin Bian e Andrei Cimpian explica que quis analisar a génese dos estereótipos generalizados que afetam as escolhas profissionais de homens e mulheres e que, sumariamente, têm a ver com a perceção e a auto-perceção de talentos.

"O estereótipo de que os homens são melhores do que as mulheres em matemática prejudica o desempenho delas nesta área e impede que se interessem por matérias que implicam muita matemática", escrevem os autores. Mas quando surgem, afinal, na vida das crianças, estas perceções e auto-perceções tão limitadoras?

Para responder a esta pergunta, os investigadores testaram grupos de crianças de ambos os sexos, de cinco, de seis e de sete anos, sobre a sua perceção do talento de protagonistas de ambos os sexos em histórias que lhes eram contadas. As crianças tinham depois de escolher os que eram "really, really smart".

Aos cinco anos, tanto meninas como meninos escolhiam maioritariamente os protagonistas do seu próprio sexo. Mas, a partir dos seis anos, as meninas passavam a escolher com mais frequência os protagonistas do sexo oposto, enquanto os meninos mantinham a tendência de escolha pelo seu próprio género. Questionários complementares confirmaram esta auto-perceção menos valorizada por parte das raparigas.
Rapazes são menos disciplinados e leem pouco, raparigas têm menos autoconfiança

O que pode explicar isto? Certamente não o desempenho escolar, segundo os investigadores. Eles testaram a auto-perceção que as crianças tinham sobre isso e verificaram que tanto rapazes como raparigas se mostravam conscientes dos respetivos desempenhos na escola. Para os autores, a conclusão é mais simples e mais profunda: as crianças assimilam precocemente a ideia generalizada de que a inteligência e o talento são qualidades do sexo masculino, e isso, acaba por minar a autoconfiança das meninas desde muito cedo.

Um estudo da OCDE de 2015, realizado embora com uma população escolar mais velha, já apontava conclusões nesta linha, mostrando que as raparigas têm maior probabilidade de ter dificuldades em matemática e ciências, mesmo nos casos em que são as melhores alunas.

Segundo os autores desse relatório da OCDE, isto explica-se por as raparigas terem em geral menos confiança do que os rapazes na sua capacidade de resolver problemas de matemática ou de ciência.
O estudo publicado hoje na Science vem mostrar que isso começa, afinal, bem cedo, logo a partir dos seis anos.

Contrariar esta tendência de fundo terá de passar por estratégias de reforço da autoconfiança das meninas, em casa e na escola, como já apontava em 2015 o documento da OCDE. Mas há uma outra luta de fundo por fazer: a do combate ao preconceito que é, afinal, a primeira origem do problema.

12.12.14

Sociedade tem tendência para “estereotipar negativamente” a pobreza

in iOnline

Segundo o estudo, para combater os estereótipos é importante evitar emitir juízos de valor, fazer generalizações e julgar pelas aparências, mas desenvolver atitudes de tolerância, abertura à mudança e respeito pelo outro

A sociedade tem tendência para “estereotipar negativamente” as situações de pobreza, atribuindo as suas causas a questões de ordem individual e comportamental, concluiu um estudo hoje divulgado, no Porto.

“É como se a pessoa em situação de pobreza fosse a única responsável por isso”, disse à Lusa a socióloga Cláudia Albergaria, uma das responsáveis pelo projecto “Bem-me-Quer; Mal-me-Quer – O impacto das representações sociais na luta contra a pobreza”.

Citações como “a pessoa encontra-se em situação de pobreza porque não quer trabalhar”, “quer viver à custa dos subsídios”, “é malandra” ou “é preguiçosa” são estereótipos e preconceitos que têm “muitos” impactos e a “diferentes níveis” na vida das pessoas, revela o estudo.

A visão da pobreza com base em “pressupostos negativos” vai condicionar a actuação dos técnicos na elaboração de um plano de inclusão, apoio, orientação ou acompanhamento das pessoas, podendo haver a tendência de se criar “bons e maus pobres”.

“Temos de ter respeito pela pessoa humana enquanto detentora de liberdade para fazer com o seu dinheiro o que quer, mesmo vindo de apoio público, porque é um direito e não uma escola”, frisou a socióloga.

Por este motivo, a investigadora considerou “fundamental” sensibilizar a população para esta problemática porque “há muitas realidades de pobreza”.

Na opinião de Cláudia Albergaria, a crise económica trouxe uma alteração da “imagem da pobreza” porque incluiu grupos que estavam “relativamente protegidos” destas situações, apresentando-se de forma “muito diversificada”.

“Se a pobreza sempre teve muitos rostos, agora tem muitos mais”, disse.

Actualmente, a sociedade está a “desculpabilizar mais” as pessoas que estão a entrar em situação de pobreza porque não lhe atribuem culpa individual em detrimento do social.

Segundo o estudo, para combater os estereótipos é importante evitar emitir juízos de valor, fazer generalizações e julgar pelas aparências, mas desenvolver atitudes de tolerância, abertura à mudança e respeito pelo outro.

O projecto “Bem-me-Quer; Mal-me-Quer – o impacto das representações sociais na luta contra a pobreza em Portugal” desenvolveu-se entre Novembro de 2013 e Dezembro de 2014, sendo promovido pela Rede Europeia Anti-Pobreza.

O objectivo geral centrou-se na realização de uma investigação para analisar as representações sociais que técnicos e dirigentes de instituições públicas e privadas, que trabalham na área social, têm relativamente aos fenómenos de pobreza e exclusão social.

O método de análise foi qualitativo, incluindo análise documental e entrevistas exploratórias a pessoas que tiveram ou têm responsabilidades na área social.

Sociedade tem tendência para "estereotipar negativamente" a pobreza, indica estudo

in SICNotícias

A sociedade tem tendência para "estereotipar negativamente" as situações de pobreza, atribuindo as suas causas a questões de ordem individual e comportamental, concluiu um estudo hoje divulgado, no Porto.

"É como se a pessoa em situação de pobreza fosse a única responsável por isso", disse à Lusa a socióloga Cláudia Albergaria, uma das responsáveis pelo projeto "Bem-me-Quer; Mal-me-Quer -- O impacto das representações sociais na luta contra a pobreza".

Citações como "a pessoa encontra-se em situação de pobreza porque não quer trabalhar", "quer viver à custa dos subsídios", "é malandra" ou "é preguiçosa" são estereótipos e preconceitos que têm "muitos" impactos e a "diferentes níveis" na vida das pessoas, revela o estudo.

A visão da pobreza com base em "pressupostos negativos" vai condicionar a atuação dos técnicos na elaboração de um plano de inclusão, apoio, orientação ou acompanhamento das pessoas, podendo haver a tendência de se criar "bons e maus pobres".

"Temos de ter respeito pela pessoa humana enquanto detentora de liberdade para fazer com o seu dinheiro o que quer, mesmo vindo de apoio público, porque é um direito e não uma esmola", frisou a socióloga.

Por este motivo, a investigadora considerou "fundamental" sensibilizar a população para esta problemática porque "há muitas realidades de pobreza".

Na opinião de Cláudia Albergaria, a crise económica trouxe uma alteração da "imagem da pobreza" porque incluiu grupos que estavam "relativamente protegidos" destas situações, apresentando-se de forma "muito diversificada".

"Se a pobreza sempre teve muitos rostos, agora tem muitos mais", disse.

Atualmente, a sociedade está a "desculpabilizar mais" as pessoas que estão a entrar em situação de pobreza porque não lhe atribuem culpa individual em detrimento do social.

Segundo o estudo, para combater os estereótipos é importante evitar emitir juízos de valor, fazer generalizações e julgar pelas aparências, mas desenvolver atitudes de tolerância, abertura à mudança e respeito pelo outro.

O projeto "Bem-me-Quer; Mal-me-Quer -- o impacto das representações sociais na luta contra a pobreza em Portugal" desenvolveu-se entre novembro de 2013 e dezembro de 2014, sendo promovido pela Rede Europeia Anti-Pobreza.

O objetivo geral centrou-se na realização de uma investigação para analisar as representações sociais que técnicos e dirigentes de instituições públicas e privadas, que trabalham na área social, têm relativamente aos fenómenos de pobreza e exclusão social.

O método de análise foi qualitativo, incluindo análise documental e entrevistas exploratórias a pessoas que tiveram ou têm responsabilidades na área social.



Lusa

2.5.12

Crise fez surgir o pior dos estereótipos na Grécia e Alemanha

Por Maria João Guimarães, em Atenas, in Público on-line

Uma alemã senta-se num autocarro grego. Tira um livro da mala, abre-o para começar a ler. A pessoa sentada ao seu lado olha para o livro alemão, levanta-se, e vai sentar-se noutro lugar.

Uma grega está num jantar em Berlim. A anfitriã apresenta-a: "Esta é a Barbara, que é grega." Uma das convidadas diz: "Desculpa, deixei a minha carteira noutro sítio." Toda a gente se ri.

São duas histórias ouvidas no Goethe Institut (Instituto Alemão) em Atenas que exemplificam um mal-estar entre a Alemanha e a Grécia. Poderia dizer-se que quem começou tudo foram os alemães: o jornal Bild enviou repórteres com dracmas para a Grécia para perguntar se os gregos gostariam de ter a velha moeda de volta; a revista Focus fez uma capa com uma estátua de Afrodite a mostrar o dedo médio dizendo: "Impostores na família europeia."

A troika, que impôs medidas dolorosas e cortes dramáticos nos ordenados e pensões para garantir o empréstimo à Grécia, não tem cara. A UE tem: é a chanceler alemã, Angela Merkel. Numa sondagem recente na revista grega Epikaira, 77% dos inquiridos concordavam que a política alemã pretende estabelecer um "IV Reich". A animosidade não se mostra apenas nos jornais gregos, que apresentam a chanceler alemã com chicotes ou com a cruz suástica, ou nas manifestações, onde o conceito alemães=nazis é repetido. A antipatia está, também, nas ruas. Um exemplo: um ateniense que tem como língua comum com uma estrangeira o alemão fala baixo - e nota a ironia: "Um grego e uma portuguesa a entenderem-se em alemão, hein?" Mesmo assim alguém ouve e vai acusá-lo de falar a língua dos "terroristas".

Outro exemplo: no metro, um grego tem uma T-shirt do St Pauli, o clube de futebol de Hamburgo conhecido pelo activismo contra a extrema-direita. Uma turista acha piada e pede-lhe para tirar uma foto à T-shirt, "para um amigo alemão". "Para um amigo alemão? Isso não é bom", responde ele. Ela nota que ele é que tem a T-shirt do clube da Alemanha, e que o amigo é do mesmo clube; algo os une. Mas ele mantém: "Alemão - isso não é bom."

O tema "54 mil milhões de euros que a Alemanha deve à Grécia pela II Guerra Mundial" tornou-se comum. A história das indemnizações tem voltas e reviravoltas: logo após a II Guerra os EUA opuseram-se a grandes compensações da Alemanha aos países prejudicados. A Alemanha pagou parte em bens materiais e em 1990 a Grécia aceitou (sem grande hipótese de se opor, é certo) um tratado, desistindo de pedir mais indemnizações. Mas os "54 mil milhões de euros" são agora uma arma no debate público: se a Grécia deve, a Alemanha também.

Goethe em alta

Enquanto isso, cada vez mais gregos passam ao lado de tudo isto enquanto estudam alemão: pode ser uma porta para um emprego na Grécia ou, mais provavelmente, na Alemanha. Apesar de no Instituto Alemão um semestre de aulas custar entre 660 e 690 euros (em Lisboa, paga-se entre 330 e 370 euros), as inscrições estão a aumentar (no último ano subiram 20% e há agora 350 alunos a ter aulas no instituto que faz, entretanto, desconto para desempregados).

Quando um em cada dois jovens gregos não consegue encontrar emprego, e com postos de trabalho a desaparecerem todos os dias, esta é uma estratégia de fuga. Antonis Blios, 42 anos, parte da vida vivida na Alemanha (os seus avós foram e vieram, os seus pais foram e vieram, e ele nasceu lá), debate-se com a parte da gramática alemã que não domina, porque estudou sempre em grego. Formado em economia, é mediador de seguros. "Não sei o que vai acontecer, portanto vou procurando trabalhos na Alemanha. Mas na minha área tenho de dominar melhor o alemão, por isso estou a estudar", conta.

"A maioria dos meus alunos são jovens que não querem sair da Grécia", sublinha Gabi, de cabelo vermelho curto e corte assimétrico. Gabi, que só diz o primeiro nome, foi muitos anos professora do Instituto em Petra, mas este fechou em 2000, quando a crise económica na Alemanha ditou o encerramento de várias dependências do Goethe; desde então vive em Atenas. "Ainda outro dia um aluno me pediu para ter o telefone ligado, porque esperava uma chamada urgente", conta. O telefone vibrou e ele saiu para atender; quando voltou vinha lívido. "Tinha acabado de perder o emprego."Conversa de cafetaria

As eleições de domingo são um tema inevitável. Barbara Papadopoulou, artista grega a viver em Berlim que está agora em Atenas, matando saudades na cafetaria do Goethe, é a mais política de todos. Vai votar na Esquerda Democrática, o mais pró-europeu dos partidos da esquerda, que defende uma renegociação do memorando e tem 5,4% nas sondagens. "A culpa das medidas da austeridade não é da troika: é do Governo que se decidiu pelos cortes horizontais", defende. "A Grécia continua a ser um país minado pela corrupção. E infelizmente esta situação não trouxe um mínimo de autocrítica, não parece ter trazido grandes mudanças", queixa-se.

A campanha está dominada pela polaridade entre os dois grandes partidos do centro, o PASOK e o Nova Democracia, que aprovaram o memorando com a troika, e a oposição, que na maioria defende desde a renegociação do acordo até mesmo uma saída do Euro.

Christa Tsobani, uma professora do Instituto que nasceu na Alemanha e viveu lá até 2005, diz que não costuma votar. Nunca o fez quando vivia fora, e agora está ainda a ponderar. "Ninguém me convenceu", diz. "Estou farta de ouvir que tenho de ir votar para não dar poder aos grandes. Mas então voto em quem? Todo o sistema não é muito democrático", sentencia.

Antonis não decidiu o que vai fazer. "As coisas são um pouco complicadas", desculpa-se, num jeito suave, que contrasta com o amarelo-vivo da sua T-shirt de desporto. "Tenho votado no PASOK porque sou de esquerda. Desta vez não sei. Não sou realmente contra o memorando. Quer dizer, acho que não é bom, mas haverá algo melhor?"