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4.10.21

Governo quer integrar o pré-escolar no ensino obrigatório

in RTP

O Governo quer que o acesso ao ensino pré-escolar seja tendencialmente gratuito e obrigatório a partir dos três anos.

A criança é de resto a figura central da maioria das propostas que constam da versão preliminar da Estratégia Nacional de Combate à Pobreza 2021-2023 e que deve chegar em breve à discussão pública.

16.4.21

Colocar a luta contra a pobreza na Segurança Social? "Isso vai falhar de certeza absoluta"

José Pedro Frazão, in RR

O sociólogo Fernando Diogo, que coordena o estudo sobre a pobreza apresentado esta semana pela Fundação Francisco Manuel dos Santos, apela a uma coordenação interministerial da Estratégia Nacional contra a Pobreza, cuja versão final não foi ainda apresentada pelo Governo. No "Da Capa à Contracapa", Fernando Diogo acredita que os reformados vão sofrer um impacto negativo menos acentuado nesta pandemia face a trabalhadores e desempregados. Já a presidente da Cáritas Portuguesa alerta que a crise social vai prolongar-se para lá do fim da crise económica.

Seis meses depois da constituição da comissão encarregue de desenhar uma Estratégia Nacional de Combate à Pobreza, a versão final do documento não é ainda conhecida. O sociólogo Fernando Diogo, coordenador do estudo sobre a pobreza apresentado esta semana pela Fundação Francisco Manuel dos Santos, defende que esta realidade é multissectorial e por isso não pode ficar "acantonada" na pasta da Segurança Social sob pena de conduzir a Estratégia ao falhanço.

"Sou um dos autores da estratégia regional dos Açores da luta contra a pobreza, tenho alguma experiência de como é que isto se faz e posso garantir que se a intenção do governo da República é colocar a luta contra a pobreza nas mãos da Segurança Social, isso vai falhar de certeza absoluta, inequivocamente. Tem que haver ali uma coordenação que envolva a dimensão económica, a saúde, a educação, a habitação e não apenas as questões relativas à Segurança Social. Deve haver um envolvimento forte a partir da Presidência do Conselho de Ministros na coordenação. Se a única coisa que resultar dessa Estratégia for uma maior coordenação entre os departamentos no Estado já seria uma grande vitória para o combate a pobreza", afirma Fernando Diogo no programa "Da Capa à Contracapa" da Renascença em parceria com a Fundação Francisco Manuel dos Santos.

O sociólogo sustenta que "não há um único caminho" para resolver "um problema complexo que tem que ter soluções variadas". As transferências sociais são essenciais para travar o impacto da pobreza, reconhece este especialista que considera que o aumento dos valores pagos nalgumas componentes de apoio social é " incontornável " por exemplo no apoio a situações de doença " que levam as pessoas rapidamente à pobreza ou impedem que elas saiam de lá".

Não basta atirar dinheiro para a pobreza

Rita Valadas, presidente da Cáritas Portuguesa, não esconde uma " enorme frustração" pela incapacidade em diminuir a pobreza de forma significativa.

"Todos já participámos em projetos, programas, investigações, candidaturas sem fim. E não conseguimos que essa situação se altere. Na verdade, ela altera-se mais esteticamente do que na realidade que está sempre à volta dos 2 milhões de pessoas. Para quem trabalha nesta área olhar para os territórios e perceber que não estamos a conseguir fazer nada, apesar do dinheiro que isto envolve, é muito frustrante. Se dar subsídios e dinheiro resolvesse o problema da pobreza, certamente ele já estaria resolvido", desabafa a sucessora de Eugénio Fonseca e ex-administradora do pelouro da Acção Social da Santa Casa da Misericórdia de Lisboa.

Sobre a tutela da Estratégia de Luta contra a Pobreza, Rita Valadas assume que "o excesso de estrutura então também não ajuda". A mulher que lidera a Cáritas em Portugal diz-se preocupada com a prevalência da pobreza infantil face à dos idosos e apela à necessidade da intervenção precoce sobre as crianças e não só quando entram na escola.

"Há fatores que prejudicam o normal desenvolvimento das crianças que acontecem na primeira infância. E essas situações também deviam ser acauteladas. Muito do insucesso escolar está às vezes ligado a questões que acontecem antes de as crianças entrarem para a escola", alerta Rita Valadas na Renascença.

Já Fernando Diogo sublinha a diminuição da taxa de abandono escolar precoce mas sublinha carências ao nível do insucesso escolar que considera "provavelmente o maior desafio ao desenvolvimento do país".
A pandemia não ajudará

Não existindo ainda dados estatísticos consistentes sobre o impacto da pandemia nos níveis de pobreza em Portugal. há dados indiretos que apontam para o agravamento das condições socioeconómicas dos portugueses mais expostos a esta realidade.

"Esta pandemia vem mudar as coisas, mas vem deixá-las na mesma, embora com valores um pouco mais elevados", admite Fernando Diogo ao sustentar que a pobreza está a receber de novo pessoas em situações vulneráveis que tinham acabado de sair da pobreza. " Tinham melhorado a sua vida e que agora estão em risco de voltar a cair. E claro temos também os famosos "novos pobres" que obviamente também estão a aparecer neste contexto e neste momento", observa o investigador da Universidade dos Açores.

Fernando Diogo admite que o impacto negativo será mais pequeno para os reformados e maior para as pessoas que estão em idade ativa.

"Se na crise anterior o setor de atividade mais afetado foi a construção civil, que tradicionalmente emprega muitas pessoas em situação de pobreza, nesta pandemia temos outros sectores de atividade onde também se empregam tradicionalmente muitas pessoas em situação de pobreza, nomeadamente a restauração e turismo. Mas também temos outros sectores de atividade onde as pessoas em situação de pobreza não são tão numerosas, como as pequenas lojas de rua e de bairro", acrescenta o coordenador do estudo da Fundação Francisco Manuel dos Santos.

Já Rita Valadas avisa que a crise social vai ficar para lá do momento em que a crise económica seja dada como resolvida.

"A história desta crise vai escrever-se depois. Acho que ninguém pode dizer o que vai acontecer. Perguntaram-me no ano passado o que é que vai acontecer daqui a um ano. Disse que o que a crise nos ensinou em 2020 é que nós não podemos planear. O que nós planeámos em 2019 não aconteceu. Temos mais uma complexidade, em cima das crises económicas e sociais que nós temos sido habituados a ver", remata a presidente da Cáritas.

27.11.19

EAPN: Pobreza tem nova estratégia de combate

in CorprateMagazine

Padre Jardim Moreira, fundador da Rede Europeia Anti Pobreza em Portugal

A Rede Europeia Anti Pobreza (EAPN) estuda as causas que geram situações de pobreza e soluções a implementar a montante. Na perspetiva da EAPN, cada pessoa está na centralidade da luta pela erradicação da pobreza. A IN conversou com o padre Jardim Moreira, fundador da rede em Portugal, e aprendeu mais sobre o assunto.

A EAPN nasceu em Bruxelas pelo então presidente da Comissão Europeia, Jacques Delors, para perceber onde é que há pessoas em situação de pobreza e quais as causas que a geram. Chegou a Portugal um ano mais tarde pela mão do padre Jardim Moreira, em 1991.

Esta rede tem como ponto de partida a consciencialização da pobreza. “Quando comecei o trabalho não se sabia quantos pobres existiam em Portugal. Que país maravilhoso, não há pobres”, ironiza o fundador. A pobreza era um assunto que não se tratava – uma inevitabilidade.

Consciencializando o país, formando agentes-chave e responsabilizando políticos, a rede isoladamente é impotente porque não controla a educação, saúde, habitação e cultura. “Se formos capazes de comunicar ao país que há uma forma diferente de resolver a pobreza já é uma vitória”, explica o atual pároco de São Nicolau e Vitória, no Porto.

As causas da pobreza são estruturais e multidimensionais e só com uma intervenção estrutural é possível retirar alguém de lá. Caso contrário, o número de pobres continuará a variar ao sabor das flutuações económicas.
Em Portugal, só se sai da pobreza na quinta geração – cerca de cem anos. Por outro lado, sabemos que sem as transferências do estado existiriam mais de 40 por cento de pessoas em situação de pobreza, segundo dados do INE – anualmente gasta-se cerca de 330 milhares de euros com o RSI (Rendimento Social de Inserção).

Jardim Moreira conclui que “as políticas atuais não são eficazes para tirar alguém da pobreza. Necessitamos de encontrar uma estratégia que atue nas causas. Em Portugal, não se tira ninguém da pobreza. Impede-se que morram à fome. É hora de considerar a pessoa no seu pleno desenvolvimento de modo a que com auto-estima consiga construir a sua libertação humana.”

Solução passa por três eixos
A EAPN propõe uma estratégia estruturada em três eixos: macro, meso e micro. O eixo macro desenvolve-se a partir da Assembleia da República (AR) e órgãos de poder central. Estipula a criação de leis para que a pessoa seja a centralidade do problema. “Apenas através do desenvolvimento integrado da pessoa humana é possível erradicar a pobreza. É diferente de iludir a pessoa com tostões”, refere o presidente da rede em Portugal.
É fundamental criar um trabalho em rede e surge, então, a zona meso que faz a ponte entre a macro e a micro, promovendo a transferência de poder do central para as autarquias. Estas devem fazer protocolos com empresas, que na opinião de Jardim Moreira, “têm estado arredadas deste assunto”. De acordo com o Eurostat , em 2018 9,7 por cento dos trabalhadores estavam em risco de pobreza. “As empresas devem exercer a sua responsabilidade social”, sublinha.

Em cada autarquia deve-se trabalhar para estabelecer um projeto-piloto onde os técnicos façam o diagnóstico da família, nunca esquecendo o conceito de rede e o trabalho multidisciplinar e articulado. “As câmaras têm um papel fundamental no descentralizar da AR para o terreno que é concretizado na parte micro, ao nível das Juntas”, relata o pároco.

O plano é posto em prática no eixo micro. “Devemos ensinar as pessoas a rever a gestão da casa e dos recursos – o coaching”, detalha Jardim Moreira que acrescenta que “a avaliação deve ser contínua e periódica e liderada pelas pessoas – o ideal é que a pessoa, pelos seu próprios pés, possa sair da situação de pobreza.”

A teoria está relacionada com o estudo das Universidades de Harvard, nos Estados Unidos, e de Utrecht, na Holanda, que associa a pobreza a traumas cerebrais. Um dos pontos centrais da pobreza não é a economia, mas o bloqueio cerebral da parte frontal (decisões) e occipital (auto-estima e emoções).

Além disto a ação da EAPN é também sustentada pelo estudo de Abhijit Banerjee, Esther Duflo e Michael Kremer, laureados com o Nobel da Economia de 2019, “pela abordagem experimental para aliviar a pobreza global”.
Conselho Social Nacional

De modo a reunir esforços dentro da sociedade civil,o padre Jardim Moreira está a impulsionar um novo grupo chamado Conselho Social Nacional. Tudo começou quando “o Presidente da República disse que tínhamos que dar um passo em frente”.

Daí foi um passo até começar a reunir e promover o contacto com pessoas que se mostraram disponíveis: o ex-Reitor da Universidade do Porto, Sebastião Feyo, e o médico e investigador do IPATIMUP Sobrinho Simões, entre outros. “Reunimos represe
ntantes da sociedade civil para trabalhar com câmaras e instituições. Além disto, trabalhamos com a Universidade de Aveiro que está na vanguarda relativamente à quarta revolução industrial”, acrescenta.
O objetivo é chamar representantes da sociedade civil que não estejam conotados com nenhum partido e sejam livres na defesa dos direitos humanos e na implementação do seu desenvolvimento integral para reforçar e mobilizar o apoio civil na luta contra a pobreza.

Centro Social e Paroquial de Nossa Senhora da Vitória
O Centro Social e Paroquial de Nossa Senhora da Vitória (CSPNSV) é um associado da EAPN. Com um vasto leque de valências, o centro não se resume ao papel de entidade assistencialista e tenta ir além das políticas sociais do Estado.

O CSPNSV é uma importante resposta social no centro histórico do Porto e tem um variado leque de valências: creche, jardim de infância, casa jovem com Centro de Atividade de Tempos Livres (CATL), lar, centro de dia, centro de convívio, casa da amizade e serviço de apoio domiciliário (SAD).

O presidente é o padre Jardim Moreira e, por isso, a aplicação do modelo da EAPN em escala menor é uma das aspirações do CSPNSV. Contudo, “os protocolos com o Estado são sempre dedicados às políticas sociais do estado e por isso é difícil fazer mais”.

“O dinheiro estatal não cobre 50 por cento das despesas, o que limita qualquer instituição a fazer mais que o simples assistencialismo porque não tem capacidade de ir além do cumprimento das respostas sociais”, sublinha o pároco.

Apesar disto, no CSPNSV o foco do trabalho está nas famílias e não apenas nas crianças. É importante fazer o acompanhamento das mães grávidas desde o primeiro dia e da criança até que tenha três anos. Esta é a etapa mais relevante no desenvolvimento da criança e as carências que se possam experienciar neste período são irreversíveis. “Uma criança que não tenha em casa condições para tomar o seu banho e um espaço para estudar, não vai ter sucesso escolar. Não tem interesse, não se sente motivada”, sublinha o padre Jardim.

O trabalho em parceria com outras entidades é de extrema importância para o CSPNSV. “Temos parceria com a Profitecla e com o Externato do Ribadouro, por exemplo. Os professores vêm cá e trazem alunos para que as crianças possam conviver entre si”, conta o sacerdote, relembrando a atuação dos alunos na CSPNSV na Casa da Música.

Para os idosos há um ambiente familiar, “com distrações para que todos os dias sejam diferentes”. Além disto, não há ninguém que não consiga comprar medicamentos porque o CSPNSV tem protocolos com farmácias. “Toda a gente com capitação inferior a 150 euros tem medicamentos grátis, um esforço que a Instituição faz de forma autónoma sem qualquer apoio excepto o apoio dado pelas farmácias”, reforça Jardim Moreira.
O voluntariado também tem desempenhado um importante papel. “Há dois grupos de estudantes universitários que trabalham connosco em regime voluntariado e temos uma proposta de alunos de Psicologia para trabalharem junto de pessoas com mais idade e apoiá-los com base na componente psicológica”, assegura.

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