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11.10.17

Portugal no fundo da tabela da igualdade de género

in Diário de Notícias

Portugal está no fundo da tabela no ranking dos países da Europa a 28 sobre igualdade de género, tendo subido uma posição e estando agora em 21.º, à frente da República Checa, Grécia, Croácia, Chipre, Luxemburgo, Roménia e Eslováquia.

O ranking é elaborado pelo Instituto Europeu para a Igualdade de Género (EIGE, na sigla em inglês), segundo o qual a União Europeia a 28 está a conseguir fazer progressos em matéria de igualdade de género, ainda que de forma lenta.

Os dados do EIGE, relativos a 2015, mostram que a média europeia está agora nos 66,2 pontos em 100, quatro pontos acima do valor de há dez anos, com a Suécia em primeiro lugar, com 82,6 pontos, e a Grécia no fim, com 50 pontos.

Nesta tabela, Portugal aparece em 21.º lugar, com 56 pontos, o que significa que o país tem vindo a conseguir melhorar a sua posição, já que começa com 49,9 pontos em 2005, sobe para 53,7 em 2010, 54,4 em 2012 e agora 56 em 2015.

O ranking avalia os vários países em seis domínios, desde o trabalho, dinheiro, saúde, educação, tempo e poder, sendo que é nas três primeiras que Portugal se destaca e nas três últimas que obtém as piores classificações.

É mesmo na saúde que Portugal obtém a classificação mais elevada, 83,6 pontos em 100, sendo que nesta área o EIGE alerta para o facto de as desigualdades de género serem um desafio crescente para as sociedades envelhecidas.

Apesar da pontuação tão alta, Portugal é incluído no grupo de três países, com a Lituânia e a Letónia, com as piores situações, com o EIGE a referir que a saúde é um indicador da situação económica e de educação de um país, já que "baixos níveis de educação significam uma saúde mais pobre, especialmente entre as mulheres".

Em matéria de trabalho, onde Portugal consegue 72 pontos, o EIGE aponta que tem havido um progresso muito lento nos últimos dez anos na União Europeia, com as pontuações mais elevadas na Suécia, Dinamarca e Holanda e as mais baixas na Grécia, Itália e Eslováquia.
Já em matéria de dinheiro, Portugal consegue uma avaliação de 70,9 pontos, e é incluído no grupo de sete países com progressos marginais, abaixo dos três pontos, enquanto a maioria dos estados membros melhorou nesta área desde 2005, "trazendo as mulheres e os homens para igual acesso à independência económica".

Sobre a questão monetária, o EIGE aponta que as desigualdades ao longo da vida levam a maiores fossos de género nas idades mais avançadas, e que as mulheres enfrentam um maior risco de pobreza em idosas do que os homens, com 18% das mulheres e 12% dos homens com mais de 75 anos em risco de pobreza monetária.

Onde Portugal tem a classificação mais baixa é em matéria de poder, com 33,9 pontos, mas onde é referido como tendo conseguido subir mais de 10 pontos graças a ter melhorado o equilíbrio entre géneros nas tomadas de decisão.

O EIGE atribui grande parte do sucesso à introdução de quotas, apontando Portugal como um dos nove países com legislação específica e como um dos países onde houve mais progressos graças ao facto de a legislação de quotas estar a ser aplicada há mais tempo.

No que diz respeito à educação, a classificação de Portugal chega aos 54,8 pontos, com o país a ser incluído no grupo de cinco onde a situação melhorou mais de 10 pontos no nível educativo e participação.

Por último, no que diz respeito ao uso do tempo, onde Portugal obtém 47,5 pontos, o país é apontado como um dos nove que em 2015 atingiram a meta de providenciar creche a 33% de crianças com menos de três anos.

Por outro lado, os homens portugueses são dos que menos usam do seu tempo nas tarefas domésticas, o que faz com que em Portugal haja um fosso de género de 60%.

8.6.16

Desenvolvimento sustentável e igualdade de género

Luísa Salgueiro, in "Diário de Notícias"

Deputada do Partido Socialista, membro do Grupo Parlamentar sobre a População e Desenvolvimento perto de seis mil pessoas reuniram-se entre 14 e 19 de maio em Cope-nhaga no maior encon-tro mundial sobre raparigas e mulheres. Na sua quarta edição, a Women Deliver debruçou-se sobre direitos e bem-estar naquela que foi a mais importante reunião internacional da última década, Entre os presentes estavam duas mil organizações em representação de 150 países (chefes de Estado, primeiros-ministros e parlamentares) cujos trabalhos foram seguidos por centenas de jornalistas de todo o mundo. Na conferência, representei Portugal em nome do Grupo Parlamentar sobre População e Desenvolvimento.

A principal conclusão da Women Deliver é a de colocar na agenda política mundial a questão da igualdade de género. Um dos objetivos de desenvolvimento sustentável estabelecidos pela ONU é precisamente alcançar a igualdade de género e empoderar todas as mulheres e meninas,
acabando com todas as formas de discriminação contra elas. Até 2030, devem ser eliminadas todas as formas de violência contra mulheres e meninas nas esferas públicas e privadas, incluindo o tráfico e a exploração sexual e eliminadas também todas as práticas nocivas, como os casamentos prematuros, forçados e de crianças e a mutilação genital feminina.

De acordo com as Nações Unidas, é necessário reconhecer e valorizar o trabalho de assistência e garantir a participação plena e efetiva das mulheres e a igualdade de oportunidades para a liderança em todos os níveis de tomada de decisão na vida política, económica e pública. É necessário assegurar o acesso universal à saúde sexual e reprodutiva e os direitos reprodutivos e realizar reformas para dar às mulheres direitos iguais aos recursos económicos, bem como o acesso a propriedade e controlo sobre a terra e outras formas de propriedade e serviços financeiros. Finalmente, a ONU tem como objetivo adotar e fortalecer políticas sólidas e legislação aplicável para a promoção da igualdade de género e o empoderamento de todas as mulheres e meninas em todos os níveis.

AWomen Deliver apoia e reforça estes objetivos de desenvolvimento sustentável. Melinda Gates, copresidente da Bill & Melinda Foundation, anunciou em Copenhaga um investimento de 80 milhões de dólares nos próximos três anos para a recolha e o tratamento de dados sobre a mulher. A conferencista defende que são necessários dados mais confiáveis sobre a vida das mulheres, como o tempo gasto em trabalho não remunerado, por exemplo, para acelerar os progressos, contribuindo para a informação que desenvolverá mais políticas e programas para a mulher. O financiamento vai ajudar a preencher lacunas de dados de género críticos, melhorar a precisão e a confiabilidade da recolha de dados e dar aos decisores mais informação. Ao mesmo tempo apoia os esforços da sociedade civil para responsabilizar os líderes pelos seus compromissos.

Melinda Gates acrescentou que" é ótimo que as mulheres e as meninas sejam o ceme dos objetivos de desenvolvimento sustentável, mas não há dados suficientes para construir uma linha de base para quase 80% dos subindicadores desses objetivos.

Ainda a propósito da igualdade entre mulheres e homens, o McKinsey Global Institute (MGI) defendeu que reduzira lacuna de género pode desencadear o crescimento maciço, justificando que os benefícios económicos da redução das disparidades superam em muito o gasto social adicional necessário. Aquela instituição aponta a educação, o planeamento familiar, a saúde materna, a inclusão financeira, a inclusão digital e a assistência ao trabalho não remunerado como áreas em que a melhoria de acesso aos serviços pode desbloquear oportunidades para as mulheres.
Em resumo, e como defendeu a presidente daWomen Deliver, Katja Iversen, no seu discurso de encerramento, investir na igualdade de género - e na saúde das meninas e mulheres - é investir no progresso humano. Os direitos humanos das meninas e mulheres são a chave do desenvolvimento sustentável.

29.4.16

Portugal está no bom caminho na igualdade entre homens e mulheres

Miguel Viana, in "Correio do Minho"

O presidente da Associação Famílias, Carlos Aguiar Gomes, defendeu ontem em Braga, que Portugal “está no bom caminho na igualdade entre homens e mulheres”.

O dirigente associativo falava na sessao de abertura do Seminário de Encerramento do Projecto Equality Balance’, que ontem decorreu nas instalações do Instituto Politécnico do Cábado e do Ave, em Braga.

Carlos Aguiar Gomes considerou que já muito foi feito em termos legislativos, mas há ainda um longo caminho a percorrer.
“Em termos de Portugal nós temos feito um caminho muito bem orientado. Hoje a legislação contempla o respeito pela diginidade da mulher e do homem, em igualdade. Contudo, na prática ainda há umas falhas. Em alguns sectores ainda se nota alguma discriminação. Por ser mulher, o ordenado poderá ser eventualmente menor”, alegou Carlos Aguiar Gomes.

O presidente da Associação Famílias lembrou que a igualdade de géneros não se impõe por decreto, e incentivou os responsáveis das várias áreas a repeitarem os direitos e deveres dos cidadãos.

“É preciso que a sociedade cumpra a Lei e que os decisores políticos, económicos, culturais e outros tomem consciência de que eles também têm um papel relevante a desenvolver e a desempenhar”, revelou Carlos Aguiar Gomes.

Para que isso aconteça é preciso apostar em acções de sensibilização da sociedade. “É preciso sensibilizar e trabalhar nesse sentido, para que não ocorram atropelos”, frisou Carlos Aguiar Gomes, acrescentando que “a Associação Famílias tudo vai fazer para sensibilizar ainda mais a comunidade. Se as leis nacionais ou comunitárias transcritas podem ser melhoradas, temos dificuldades na aplicação e aí há um caminho a percorrer. É preciso alertar a comunidade para a urgência de cumprir rigorosamente a lei”.

Entre os objectivos do projecto Equality Balance está a avaliação do contributo das medidas legislativas para a igualdade de genero em vários países e do trabalho desenvolvido por cerca de uma dezena de organizações não governamentais (associações e instituições) do distrito de Braga.
O vice-presidente da Câmara Municipal de Braga, Firmino Marques, que participou no encerramento do encontro, frisou que “este é um tema de grande importância para a sociedade.

Devemos promover a igualdade de direitos e liberdades entre todos e criar condições para uma efectiva igualdade de oportunidades entre homens e mulheres”. Firmino Marques, lembrou os valores representados na Constituição portuguesa que “promovem a valorização de mulheres e de homens, em todos os domínios da sociedade, político, económico, laboral, pessoal e familiar”.

Benedita Aguiar Gomes, coordenadora do projecto, lembrou que o mesmo visa verifiacr “se o impacto das medidas legislativas é positivo ou não. Permite verificar se houve alteração das medidas em relação à igualdade de géneros, se nada foi modificado, ou até se contêm aspectos negativos”.
O projecto teve início em Julho de 2015 e contou com o apoio do Programa EEA Grants e da Comissão para a Cidadania e Igualdade de Género, além da colaboração da International Development Norway (ID Norway), entidade responsável pela aplicaçao do projecto na Noroega.

“Portugal está no bom caminho na igualdade entre homens e mulheres” PROJECTO ‘Equality Balance’, promovido pela Associação Famílias, promove a igualdade de oportunidades entre homens e mulheres e prevê a realização de acções de sensibilização.

DR Igualdade de género juntou várias entidades no seminário de encerramento do Projecto ‘Equaliti Balance’ “Hoje a legislação contempla o respeito pela dignidade da mulher e do homem, em igualdade.

Contudo, na prática ainda há umas falhas. Em alguns sectores ainda se nota alguma discriminação”, referiu Carlos Aguiar Gomes, presidente da Associação Famílias.

15.3.16

Margareta Winberg: “As mulheres não são livres sem dinheiro”

Catarina Falcão, in "Observador"

Para a antiga vice-primeira-ministra sueca, Margareta Winberg, ainda falta em Portugal a mais fundamental liberdade: as mulheres terem o seu dinheiro através de um emprego. Leia a entrevista.

A Suécia ocupa os lugares cimeiros nos rankings da igualdade de género em todo mundo, mas Margareta Winberg, antiga vice-primeira-ministra da Suécia afirma que o seu país ainda não é “uma sociedade igualitária”, embora o facto de o Governo se afirmar como feminista esteja a mudar as mentalidades. Para esta antiga governante, é essencial que as mulheres sejam independentes e isso só se consegue quando elas conseguem ter o seu próprio dinheiro, ou seja, tenham trabalho.

Margareta Winberg esteve em Lisboa na semana em que se assinalou mais um Dia Internacional da Mulher para participar no seminário “Empoderar as mulheres através do reforço das organizações de direitos das mulheres: o caso do governo feminista sueco”, organizado pela Embaixada da Suécia em parceira com a Plataforma Portuguesa para os Direitos das Mulheres. O Observador falou com a antiga vice-primeira-ministra (que deteve também os pelouros da Agricultura, Trabalho e Igualdade em vários governos durante os anos 90) e Winberg afirmou que o passo mais importante para a mudança da sociedade em termos de igualdade género é reconhecer que “as mulheres são indivíduos independentes e não existem apenas dentro de uma família”.

A Suécia afirma ter um Governo feminista. O que é que significa ter um Governo feminista? Em que áreas é que isso é visível?

Um Governo feminista, até se formos ver ao dicionário o que é o feminismo, não é de forma nenhuma algo perigoso. A definição de feminismo no dicionário é a perceção das desigualdades entre homens e mulheres e querer mudar isso. E, por isso, as pessoas identificam-se como feministas. O Governo sueco está a tentar olhar para todas as áreas com uma perspetiva feminista e assim, se tomar uma decisão, avaliar o que é vai acontecer às mulheres e aos homens. Isto passa por fazer uma integração da igualdade de género em todas as áreas. É isso que é o feminismo.

Consegue dar alguns exemplos concretos destas políticas?

Sim, o Governo tem quatro pilares de políticas que pretendem melhorar a igualdade de género. O primeiro tem a ver com a igualdade na participação política e capacidade de influência. Se olharmos para o Parlamento, para a administração regional e local, neste momento eu diria que ainda há cerca de 45% de mulheres e 55% de homens. Mas no que diz respeito ao ambiente empresarial, os números não são bons. É muito difícil mudar isso porque não se pode impor como se faz na política. A igualdade económica também é fundamental e isso significa que, para ser livre, tanto o homem como a mulher têm de ter o seu próprio dinheiro, ou seja, um trabalho e educação. E também é preciso olhar para os salários, já que os homens ganham mais e cerca de 30% das mulheres na Suécia trabalham em part-time. O terceiro pilar é o trabalho que não é pago, ou seja, lavar a roupa, tomar conta das crianças e tomar conta dos mais velhos. Estes trabalhos ainda são feitos por mulheres e a mudança é muito lenta. O último ponto tem a ver com a violência contra as mulheres. Na minha região estou a trabalhar com os hospitais para se perguntar sempre às mulheres se foram vítimas de violência doméstica, mas continua a ser difícil perguntar. Temos ainda uma estratégia de política externa feminista.

O seminário em que vai participar em Portugal faz parte desta ótica?

Sim, mas também consideramos que é muito importante trocar opiniões com a sociedade civil e ver como podemos envolver estas organizações nas políticas do Governo de modo a fazer-se um trabalho conjunto.

Falámos na questão da participação política das mulheres e, em Portugal, uma medida que marcou esta questão foi a introdução de quotas. Considera que as quotas são importantes na política?

Eu era presidente da Liga das Mulheres Sociais-Democratas no início dos anos 90 e conseguimos que o partido introduzisse quotas informais 50/50. Isto passou-se em 1993 e nas eleições de 1994, o número de mulheres aumentou muito. E não foi só no nosso partido, aumentou em todos os partidos porque todos seguiram o nosso exemplo. Depois disso, é comum que os lugares nas listas sejam alternados e assim tornou-se a política mais comum mesmo sem a necessidade de impor um sistema formal.

E quando falamos da economia? Quando é preciso colocar mulheres no topo de empresas parece mais complicado. Qual é a sua opinião sobre a introdução de quotas nas administrações das empresas?

Sou a favor disso. Lidei com essa realidade como ministra do Trabalho, mas há muita resistência por parte das empresas. Na Suécia, o Governo está a fazer uma investigação sobre este tema e o plano é introduzir o sistema de quotas nas empresas. Até porque isto faz parte de uma política alargada que está a ser estudada pela própria União Europeia. Penso que a quota ficaria em 40-60.

Mas não acha que se corre o risco de apenas cumprir esse número e se demorar muito tempo a ultrapassá-lo?

Eu acho que é sempre positivo e é bom ter mulheres nas administrações nem que seja com regime de quotas. Há mulheres muito competentes e homens muito competentes, mas hoje em dia vê-se muitos homens nestes cargos com muita competência e outros com competência média – digo isto para ser simpática. Tem tudo a ver com procurar e encontrar. Se as empresas procurarem mulheres muito competentes, vão encontrá-las.

Teve muitos papéis em vários Governos e responsabilidade em pastas e setores diferentes. Como é que manteve a questão da igualdade de género no seu percurso político?

A área mais difícil foi a Agricultura. Esse é um setor com tradições antigas e algum conservadorismo. Temos muitos homens que são agricultores e isso não é algo fácil de mudar. O que fizemos na Suécia foi promover produções a uma escala menor, não estou a falar de grandes plantações ou grandes explorações pecuárias, mas estou a falar de uma escala mais pequenas. No norte da Suécia, de onde eu venho, temos agora muitas agricultoras com pequenas plantações.

Em Portugal também tivemos no último Governo a primeira mulher ministra da Agricultura…

Ai foi? E o que é que aconteceu?

Nada de especial, desempenhou o seu cargo como outro membro do Governo.

Eu também fui a primeira ministra da Agricultura na Suécia (alguns risos).

E como foi essa experiência? Como é que se faz com que isso não fosse o principal foco do mandato e se quebrassem alguns preconceitos?

Eu tentei concentrar-me noutro tema para além do facto de eu ser uma mulher. Em 1994, entrámos para a União Europeia e o debate passava pelo financiamento aos agricultores e novas regras que vinham de Bruxelas. Mas também introduzi a questão do bem-estar dos animais que consumimos.

Tentou então desviar a atenção para temas relacionados com a Agricultura e não concentrar a atenção em si?

Sim, e, de um certo ponto de vista, ter também uma perspetiva feminista sobre esses temas. Muitas mulheres trabalhavam no setor alimentar e as mulheres queriam alimentos com mais qualidade. Queriam também ter a certeza que não havia crueldade na morte dos animais que consumiam.

Quando falamos da União Europeia, foi uma das pessoas que tinha algumas dúvidas quanto à adesão…

Eu não algumas tinha dúvidas, eu tinha muitas!

Mas hoje, quando visita países como Portugal onde a diferença entre homens e mulheres ainda é muito visível na sociedade, mas que tinham também um atraso grande na implementação de políticas de igualdade género devido a regimes autoritários, não considera que a entrada na União e o facto de partilharmos valores e políticas ajuda na questão da igualdade de género?

É muito difícil responder a isso. Há outras formas de cooperar para além da Uniaõ Europeia. É claro que eu vejo que a União Europeia foi muito importante para Portugal em muitos aspetos diferentes.

Mas não neste aspeto da igualdade de género?

O que eu posso dizer é que do ponto de vista sueco, mas também da perspetiva da União Europeia e das Nações Unidas, a área mais importante para as mulheres é a sua liberdade. E na perspetiva sueca, não é possível ser livre sem dinheiro, ou seja, sem um trabalho. E nisso, Portugal está a ficar para trás. É também preciso creches. Só isso é que vai permitir que os pais consigam trabalhar.

Quando se fala em violência contra as mulheres, pensa que a violência é entendida de forma diferente aqui em Portugal e na Suécia?

Não. É o mesmo.

Não acha que a sociedade na Suécia está mais alerta para a violência de género e também que se fala mais e mais abertamente sobre esta questão?

Sim, mas é sempre a mesma violência. É sempre uma questão de poder, nomeadamente do poder masculino.

Mas nas instituições que recebem as queixas ou no seio de um casal?

Em casa, entre um casal. As relações não são equilibradas. Estamos a falar de uma questão estrutural de dominância masculina em toda a sociedade. E a violência pode ser um dos resultados. É claro que é muito mais difícil alguém se divorciar quando está dependente financeiramente da outra pessoa.

Alguma da violência contra as mulheres em Portugal nos últimos anos, durante a crise, tem sido atribuída de uma certa forma às más condições de vida, ao facto de não haver dinheiro. Acha que esta ligação faz algum sentido quando se fala de violência de género?

Sim e não. Não ter dinheiro é claro que é desesperante, mas há violência em casas onde os homens ganham muito bem. Há violência em casas onde os homens são médicos ou advogados de sucesso e em casas onde os homens são desempregados. Isso não interessa. Há violência contra as mulheres em toda a sociedade, em todas as classes e em todos os grupos étnicos. Mas claro que o estigma é ainda maior quando as pessoas são pobres.

No caso da Suécia e do que acompanhou, quais foram as medidas que mais ajudaram a promover a igualdade de género?

O mais importante foi aceitar que as mulheres são indivíduos independentes e não existem apenas dentro de uma família. As mulheres têm direitos, responsabilidades e muitas possibilidades. As mulheres têm de ter trabalho e para isso é preciso que haja um bom sistema de creches, um bom sistema de lares para os mais velhos e apoios para quem sofre de deficiências. A infraestrutura social para garantir à mulher esta independência é muito importante. Mas também a questão da licença de maternidade e paternidade. Ainda há pouco tempo perguntaram-me porque é que na Suécia a taxa de natalidade é tão alta e eu respondi: “Porque é possível ter um trabalho e ser mãe ou pai”.

Discutiu-se esta semana um relatório sobre as mulheres refugiadas no Parlamento Europeu. Como é que olha para a situação destas mulheres?

Desde logo, a maior parte das pessoas que vêm para a Europa são homens. Porque eles são os mais fortes. Na Suécia, temos muitos refugiados, a maior parte são homens, mas também temos muitas famílias e estamos a tentar dar-lhes boas condições. Na parte norte do país, de onde eu venho, estamos a tentar envolver a sociedade civil e fazer com que as mulheres refugiadas diversifiquem os seus interesses e sejam ativas.

Pensa que há necessidade de tal como acontece na Dinamarca, providenciar informação aos refugiados sobre a perspetiva sueca da igualdade de género?

Sim, na Suécia a aprendizagem da língua começa assim que os refugiados chegam e está incluída a formação em igualdade de género e direitos das mulheres e outras questões que têm a ver com o funcionamento da sociedade. Isto é importante porque as nossas culturas são diferentes.

E acha que isso tem resultados visíveis?

Ainda é muito cedo para dizer isso.

É uma pessoa que assume o feminismo com muita frontalidade e isso já lhe valeu algumas críticas. Encontrou ao longo da sua carreira política muitos obstáculos à sua afirmação pessoal?

Eu comecei a afirmar-me como feminista no início dos anos 90. Antes disso, eu não me identificava como tal.

Não estava sensibilizada para as questões da igualdade de género?

Eu não sabia bem o que era. Eu achava que o feminismo era algo que não era. Estava enganada. Quando me apercebi do verdadeiro significado do feminismo percebi que era feminista desde que era pequena. Desde essa altura, quando tomei essa consciência, que tento convencer os outros daquilo que penso sobre este tema e acho que fui bem-sucedida. O meu partido declarou-se como um partido feminista em 2002 e não é uma palavra perigosa para nós. Mas sei que para outras pessoas continua a ser. Ligam esta palavra a mulheres que odeiam homens e extremismo. É preciso retomar esta palavra.

Como é que explica que outras mulheres tenham também essa interpretação do feminismo como um movimento mais extremista?

É por isso que é tão importante ter um Governo feminista. É algo que está lá em cima [gesto com mão]. As pessoas questionam-se sobre o que é um Governo feminista, ficam curiosas sobre o tema, querem saber mais. Há cada vez mais pessoas que ousam chamar-se feministas porque têm mais conhecimento sobre o tema. Pensam: “Isto afinal não é tão estranho”.

Mesmo na Suécia, que é um país que lidera os rankings da igualdade de género, ainda há problemas a resolver? Quais?

Claro que há problemas. Nós não somos uma sociedade igualitária na Suécia. A prioridade, a meu ver, é a licença de maternidade e paternidade. Se as mães e os pais partilhassem a licença, isso seria um grande passo. Até terem filhos, os casais têm relações igualitárias, quando nascem as crianças começam as desigualdades. A mulher acumula a responsabilidade do filho, volta ao trabalho em part-time, e pouco tempo depois tem outro filho. E isto repete-se. Quando ela tiver 65 anos, vai receber uma pensão muito mais baixa que o marido e isso faz com que ela não seja independente.

30.6.15

Igualdade de género. Portugal é o terceiro país mais desigual da UE

in o Observador

Portugal está no fundo da tabela da União Europeia no que diz respeito à igualdade de género. Apenas Roménia e Eslováquia estão abaixo de Portugal nas maiores diferenças entre homens e mulheres.

As mulheres europeias continuam a meio caminho da igualdade em relação aos homens, mas para as portuguesas o objetivo está cada vez mais longe, já que Portugal é agora o terceiro país mais desigual da União Europeia – o país caiu três lugares face ao último índice. Os lugares cimeiros de paridade entre homens e mulheres continuam a pertencer aos países nórdicos como Suécia, Dinamarca e Finlândia. Pior que Portugal só Roménia e Eslováquia.

O Índice Europeu da Igualdade de Género, divulgado esta quinta-feira pelo Instituto Europeu para a Igualdade de Género, concluiu que em 2012 a igualdade das mulheres face aos homens melhorou ligeiramente face a 2010, mas continua a meio caminho. Sendo a igualdade total igual a 100 e a desigualdade total igual a zero, em 2012, as europeias estavam com um índice de igualdade de 52,9 face aos homens europeus. Tempo e poder continuam a ser o maior calcanhar de Aquiles das mulheres no combate à desigualdade de género.

desigualdade-genero-UE

Este índice comparou, agregou e analisou as estatísticas do ano de 2012 da Comissão Europeia, do Eurostat, da Eurofound (Fundação Europeia para a Melhoria das Condições de Vida e de Trabalho), da FRA (Agência Europeia para os Direitos Fundamentais), em seis categorias diferentes: trabalho, dinheiro, conhecimento, tempo, poder e saúde.

A situação face às edições anteriores deste índice – que foram levadas a cabo em 2005 e 2010 -, no que diz respeito à média global dos 28, melhorou ligeiramente em 2012, já que em 2005, o índice era 51,3, enquanto em 2010 era 52,4. Entre 2005 e 2012 muitos países ainda não faziam parte da União, já que houve dois alargamentos em 2007 e em 2013. Portugal teve, segundo indicam os dados de 2012, o pior resultado de sempre neste índice. Em 2005, Portugal era o quarto país mais desigual, e nos dados de 2010, divulgados em 2013, Portugal estava na sexta pior posição.

desigualdade-genero-evolucao

Os resultados relativos ao tempo e ao poder acentuam as diferenças entre homens e mulheres na União Europeia. No que diz respeito ao tempo, nomeadamente o tempo que as mulheres dedicam a cuidar da casa e dos seus dependentes (filhos e pais) e ainda o tempo que as mulheres têm para ocupar os seus tempos livres e fazerem voluntariado. 77% das europeias empregadas dedicavam pelo menos uma hora do seu dia a cuidados com a casa e com a família, enquanto apenas 24% dos homens empregados empregava o tempo desta maneira. Já em relação ao poder, em 2012, os homens ocupavam 78% das posições ministeriais dos 28 Estados-membros, enquanto os representantes nos parlamentos nos 28 – tendo em conta que alguns países têm sistemas políticos duas câmaras – são 75% homens.

30.10.13

Igualdade de género. Portugal caiu 19 lugares em três anos

Por Catarina Falcão, in iOnline

Portugal ocupa agora o 51.º lugar no índice do Fórum Económico Mundial, entre 136 países. Estados nórdicos encabeçam a lista

Em 2010, Portugal ocupava o 32.o lugar no índice de igualdade de género elaborado anualmente pelo Fórum Económico Mundial. Passados três anos, o país desceu 19 lugares nesta classificação e ocupa agora a 51.a posição entre os 136 países avaliados. No relatório, a organização internacional evidencia que a queda de Portugal neste índice se deve à crise económica que o país atravessa, atribuindo o recuo à "diminuição estimada dos rendimentos auferidos" pelos portugueses.

Desde 2006 que o Fórum Económico Mundial (FEM) - organização internacional que promove anualmente as reuniões de Davos e tem assento no Conselho Económico e Social das Nações Unidas - elabora um ranking global sobre a igualdade de género em vários países. De forma a chegar ao índice final são analisados quatro pilares - participação económica e oportunidade, níveis de escolaridade, saúde e sobrevivência e ainda poder político - comparando a situação dos homens e das mulheres em todo o mundo. Assim, baseando esta análise em relatórios nacionais e internacionais e com alguns indicadores desenvolvidos pelo próprio FEM, o índice de 2013 mostra que o país com maior igualdade é a Islândia e o mais desigual é o Iémen.

No topo da tabela, logo a seguir à Islândia encontram-se a Finlândia, a Noruega e a Suécia, seguidos pelas Filipinas - o país asiático mais bem colocado. No top 10, apenas três países não fazem parte do continente europeu (ver ao lado posição de todos os países do continente europeu). Além das Filipinas, também a Nova Zelândia (7.o) e a Nicarágua (10.o) se destacaram. Dos países lusófonos, Moçambique é o estado mais bem colocado, na 26.a posição.

Portugal aparece em 2013 na 51.a posição deste índice, entre a Venezuela (50.o) e a Moldávia (52.o). Na análise dos resultados, o relatório revela que a queda de Portugal - em 2012 estava no 47.o lugar, em 2011 no 35.o e em 2010 no 32º, melhor resultado obtido até agora - "se pode atribuir à diminuição dos rendimentos auferidos" pela população. Os baixos níveis de igualdade no que diz respeito ao acesso ao poder, tal como a discrepância entre a participação das mulheres e dos homens no mundo do trabalho, são os indicadores mais baixos e que mais contribuíram para a queda de quatro lugares desde 2012.

Este relatório vem assim corroborar a tendência que se tem vindo a notar em estudos comparativos sobre a igualdade de género em Portugal desde o início da crise económica e financeira, mostrando uma queda acentuada quer na participação das mulheres na vida económica, quer na vida política, que exclui o país dos lugares cimeiros quando se comparam homens e mulheres.

Tal como outros índices publicados pelo FEM - o da competitividade é dos mais conhecidos - , este documento fica agora disponível para ser utilizado por universidades, entidades públicas e noutras investigações sobre igualdade de género. Será ainda o documento base de trabalho do Grupo de Paridade de Género Global criado dentro do próprio FEM para fazer o acompanhamento e a implementação de medidas que promovam a igualdade de género.