13.1.10

A economia está a crescer, mas os salários reais e o emprego ainda caem

Por Sérgio Aníbal, in Jornal de Notícias

As melhorias no mercado de trabalho ainda vão demorar a surgir


Portugal vai voltar a crescer este ano, confirmou ontem o Banco de Portugal, mas isso não significa que, para muitos portugueses, as dificuldades tenham acabado.

A retoma moderada prevista para a economia nacional vai surgir acompanhada, durante 2010, de uma nova quebra no número de empregos e de uma redução real do rendimento disponível, algo a que as famílias portuguesas até tinham escapado em 2009.

No boletim económico de Inverno ontem divulgado, o Banco de Portugal reviu em forte alta a sua previsão de crescimento económico que já tinha sido feita há seis meses atrás, ou seja, numa altura em que ainda não tinham começado a surgir os actuais sinais de recuperação da actividade e da confiança dos agentes económicos. Por isso, em vez da contracção de 0,6 por cento prevista no Verão, o PIB português vai crescer 0,7 por cento em 2010, conseguindo mais uma aceleração para 1,4 por cento em 2011, diz o Banco de Portugal.

Estas projecções colocam Portugal, durante os próximos dois anos, a crescer a um ritmo semelhante ao do resto da zona euro e estão em linha com as previsões feitas pelo FMI, OCDE e Comissão Europeia no final do ano passado.

No entanto, apesar do regresso do crescimento, a palavra "crise" vai continuar, em 2010, a estar na boca de tantos ou mais portugueses.

Em primeiro lugar, por causa do desemprego. O Banco de Portugal não apresenta previsões para a taxa de desemprego, mas diz que, durante este ano, o emprego vai cair 1,3 por cento, tendo que se esperar por 2011 para assistir a uma retoma no mercado de trabalho.

Como explica o relatório ontem publicado, "a evolução do emprego deverá ser marcada pela forte contracção da actividade económica em 2009, que tenderá a ter um efeito sobre a procura de trabalho em 2010, reflectindo nomeadamente o habitual desfasamento entre o ciclo do produto e do emprego".

A taxa de desemprego em Portugal subiu, até ao terceiro trimestre do ano passado, até a um máximo histórico de 9,8 por cento. E, concretizando-se estas projecções do Banco de Portugal, para o ano de 2010 deverão estar reservados novos recordes.

A entidade liderada por Vítor Constâncio chega ainda à conclusão que, durante a actual crise, "ocorra uma destruição de emprego em termos líquidos muito superior à registada nos dois episódios recessivos anteriores [crises de 1993 e 2003]".

Rendimento real vai cair

O segundo grande problema que os portugueses vão enfrentar este ano é uma quebra do seu rendimento disponível em termos reais. Em 2009, quem não perdeu o emprego até conseguiu, por uma combinação de factores, garantir uma situação financeira mais confortável. As taxas de juro baixaram as prestações dos empréstimos e a taxa de inflação negativa fez com que os aumentos salariais fossem, em termos reais, mais generosos do que o esperado.

Em 2010, tudo irá mudar. Os juros, se os sinais de retoma na Europa se consolidarem, podem voltar a subir, a inflação será de novo positiva, afectada sobretudo pela evolução do preço dos combustíveis e a política salarial, deverá ser - e o Banco de Portugal aconselha - de forte moderação.

O resultado é que o rendimento disponível real das famílias irá registar em 2010 uma redução de 0,4 por cento, o pior resultado desde pelo menos o início do milénio. Em 2009, este indicador tinha registado um crescimento de 1,4 por cento.

Mais consumo, mais dívida

A questão, no entanto, coloca-se: como é que, perante este cenário difícil para muitos portugueses, a economia vai conseguir crescer e, em particular, como é que o consumo privado vai recuperar?

De acordo com as previsões do Banco de Portugal, o consumo privado, depois de uma contracção de 0,9 por cento em 2009, deverá crescer um por cento em 2010. Ou seja, quando o rendimento disponível aumentou, os portugueses consumiram menos e, agora, quando o rendimento cair, deverão voltar a reforçar o consumo. A explicação, diz o banco, está naquilo que os portugueses decidem ou não poupar. "Não obstante as limitações impostas pela manutenção de uma situação desfavorável no mercado de trabalho e pelo aumento progressivo das taxas de juro ao longo do horizonte de projecção, o crescimento do consumo deverá ser superior ao do rendimento disponível, implicando uma redução da taxa de poupança para níveis mais próximos dos prevalecentes em 2008".

Isto significa que o Banco de Portugal está a apostar que as famílias, mesmo num cenário em que vêem o seu rendimento real diminuir, vão deixar de lado a falta de confiança que os afectou no ano passado e voltar a consumir, especialmente os bens mais duradouros como automóveis ou electrodomésticos.

A concretização deste cenário é fundamental, porque é precisamente na revisão em alta da previsão para o consumo privado que está grande parte da explicação para a melhoria das projecções do PIB ontem reveladas pelo Banco de Portugal. Nos próximos dois anos, o contributo para a variação do PIB da procura interna tenderá a ser superior ao das exportações líquidas, o regresso a uma tendência do passado.