13.1.10

Economia perde mais 65 mil empregos este ano

por Rudolfo Rebêlo, in Diário de Notícias

Portugueses perdem rendimentos, mas gastam mais, sacrificando poupanças.

Em 2010 haverá menos 65 mil postos de trabalho em Portugal, o que deverá elevar o número de desempregados a mais de 600 mil, de acordo com as previsões ontem divulgadas pelo Banco de Portugal. Os portugueses deverão ainda perder rendimento disponível, mas vão aumentar em 1% os gastos em consumo, à custa de um corte nas poupanças.

Neste cenário, a economia vai crescer 0,7% este ano, depois de uma derrocada de 2,7% no PIB em 2009.A recuperação - que conta com uma aceleração de 1,4% em 2011 - será apoiada pela "procura privada" e por uma anémica reanimação das exportações, graças ao aumento da procura externa. É que a crise internacional está a desvanecer e, por outro lado, as importações vão evoluir a um ritmo abaixo das compras.

Ou seja, para animar a procura interna (consumo e investimento) o banco central conta essencialmente com as despesas das famílias, após um corte de 0,9% nas compras de bens em 2009 (principalmente duradouros, como carros). Isto apesar de uma queda do rendimento disponível (em termos reais), do aumento do desemprego, da subida das taxas de juro em meados deste ano (ver caixas) e do regresso da inflação.

Enquanto os aumentos salariais deverão situar-se em redor de 1% - em linha com a inflação esperada e tal como o defendido por Vítor Constâncio, governador do banco central, em Dezembro último -, os preços vão aumentar 0,7% este ano, depois de em 2009 terem recuado 0,9%. Este aumento é explicado pela previsível subida do preço do petróleo e do aumento da procura internacional por matérias-primas. Apesar de tudo, pelo terceiro ano consecutivo, a inflação em Portugal deverá ser a mais baixa da média da Zona Euro.

Depois do esmagamento dos lucros dos patrões em 2009, explicado pela redução da procura de bens, espera-se "uma recuperação parcial das margens de lucro em 2010", diz o Banco de Portugal. Isto porque se prevê um "quadro de redução de custos unitários do trabalho". Como? Através, responde o banco central, "de um aumento moderado dos salários" e de uma "evolução mais favorável da produtividade". Ou seja, da destruição líquida de emprego.

Apesar do aumento dos lucros em 2010, o investimento empresarial deverá cair e sé recuperará em 2011 (ver quadro).

Elevados défices do Estado (em 2009, o défice orçamental deverá ter ultrapassado os 8% do PIB) e excessivo endividamento das famílias e empresas, vão continuar a elevar a dívida externa do país. O "deve-haver" comercial com o estrangeiro será negativo até 2011 (6,8% do PIB em 2010), mas pior para as contas externas do País é o comportamento da balança de rendimentos. Com o aumento das taxas de juro, o défice da conta que regista o pagamento de juros da dívida ao estrangeiro vai aumentar 50% até 2011, quando o défice externo atingir 11,3% do PIB.

Com o Banco de Portugal a pedir uma estratégia clara de "consolidação orçamental", Teixeira dos Santos, ministro das Finanças, respondeu ontem, um dia após a agência de rating Moody's avisar que pode descer a nota de crédito a Portugal, com "a necessidade imperiosa de reduzir o défice".

As reacções da oposição às previsões do banco central não se fizeram esperar. O Bloco de Esquerda destaca os "mais 60 mil desempregados", num momento em que se anuncia corte no investimento público, enquanto o PCP afirma que "não há sinal do princípio do fim da crise". O CDS/ PP considera preocupante o crescimento "praticamente nulo" da economia nos próximos anos.