Por Clara Barata, in Jornal Público
Silvio Berlusconi voltou ao trabalho como primeiro-ministro de Itália, tendo como prioridade um decreto que suspenderá os processos em que está envolvido, e uma lei para apressar outros. Mas a sua agenda está a ser rasteirada pelos confrontos de Rosarno, na Calábria, entre imigrantes e a população, na semana passada e, ontem, por um conflito diplomático: o Egipto protestou contra "a campanha de agressão" e a "violência sofrida por imigrantes e minorias árabes e muçulmanas em Itália".
O Ministério dos Negócios Estrangeiros egípcio pediu ao Governo italiano que "tome as medidas necessárias para garantir a protecção das minorias e dos imigrantes", internacionalizando as críticas ao caso de Rosarno - onde houve uma verdadeira "caça ao negro", com laivos de Ku Klux Klan, segundo escreveu o veterano jornalista, escritor e político italiano Eugenio Scalfari no jornal La Repubblica. Ao terceiro dia de represálias após uma tentativa de revolta dos imigrantes, foram estes, negros e muitos muçulmanos, que foram expulsos - denunciando as condições em que viviam, explorados pela máfia local, a "Ndrangheta. Viviam entre "ratos e medo", disseram.
O Osservatore Romano, jornal do Vaticano, falou abertamente do racismo na sociedade italiana, denunciando "um ódio mudo e selvagem contra outra cor de pele que acreditávamos já ter sido superado". Os Médicos Sem Fronteiras (MSF) juntaram-se à Igreja Católica e à ONU, denunciando a situação em Rosarno. "Toda a gente - autoridades e empregadores - está ao corrente das condições miseráveis em que vivem estes imigrantes", que trabalham nas explorações agrícolas, "reduzidos a uma situação próxima da escravatura", afirmou ontem Loris de Filippi, dos MSF em Itália, à AFP.
Os media italianos têm falado muito do caso de Rosarno, com a agravante de se suspeitar que a reacção violenta da população foi alimentada pela "Ndrangheta. Ontem, foram presas 12 pessoas ligadas a esta organização criminosa, anunciou a polícia italiana, dizendo ter desmantelado o gang que explorava os imigrantes.
O primeiro-ministro não comentou o caso no seu regresso ao activo, após a agressão que sofreu em Dezembro. Mas o protesto egípcio obrigou o Governo a reagir. Franco Fratini, ministro dos Negócios Estrangeiros, pôs água na fervura, dizendo que "o Egipto é um país amigo", com o qual está disposto a falar, e que violência como a de Rosarno não pode ser tolerada. Já Umberto Bossi, líder da Liga Norte e ministro da Reforma do Federalismo, foi incendiário: "Vejam como tratam os cristãos. Expulsam-nos todos", disse dos muçulmanos.


