18.1.10

Humanismo e independência

in Jornal de Notícias

"Se algum papel cabe à mulher é provocar um ajustamento de estrutura e abrir caminhos novos".

Síntese possível do pensamento de Maria de Lourdes Pintasilgo, a frase foi proferida em 1973, numa reunião (a acta é um dos documentos que a Fundação Cuidar o Futuro, por ela fundada, disponibiliza na Net) em que participou como líder do grupo de trabalho para a participação da mulher na vida económica e social, tutelado por Silva Pinto, secretário de Estado do Trabalho do Governo de Marcello Caetano.

O "ajustamento de estrutura" que sempre desejou era mais do que a simples outorga à mulher de direitos iguais aos homens. Era a reivindicação do direito à diferença, como escreveria em 1980, em "Os novos feminismos: interrogação para os cristãos", obra onde abertamente denunciou o papel da Igreja na perpetuação de estruturas de poder masculinas. Nesse sentido, o seu discurso ultrapassava o feminista, porque assumia contornos mais radicais.

O filósofo francês Roger Garaudy reflectiu longamente sobre o pensamento e a praxis política de Pintasilgo, a partir da sua acção como militante católica e primeira-ministra, no livro "Para a libertação da mulher" (Moraes, 1981). Na sua óptica, "inaugurou uma maneira cristã de ver a política", que não visava "clericalizá-la", mas humanizá-la. O humanismo - e a independência face aos partidos -, mudou, notava Garaudy, a relação entre poder e cidadãos, privilegiando o contacto directo, em detrimento da negociação com forças organizadas. Mais: ao defender o direito do cidadão a ser "protegido pela sociedade, independentemente da sua relação com o trabalho", são os próprias fins da política e da economia que Pintasilgo põe em causa.

Bruto da Costa acredita que não era encaixável em modelos: "Tinha um pensamento original. Criava o próprio pensamento". Já para João Salgueiro foi "uma profeta que passou pelo poder sem compreender as dificuldades que representava". O que não rouba força às sementes que deixou, nem ao seu carácter mobilizador. "O único ismo do meu pensamento político é o pintasilguismo", disse Maria João Seixas no depoimento para o programa sobre a ex-primeira-ministra, emitido no sábado pela RTP 2.