19.1.10

Port-au-Prince: Uma cidade caótica que vive a dois tempos

Alfredo Leite, enviado a Port-au-Prince, Haiti, in Jornal de Notícias
Capital do Haiti divide-se entre aqueles que procuram reconstruir a vida no meio dos destroços e os outros, os sobreviventes que deambulam por uma cidade cheia de lixo e do fedor a morte que prenunciam doença

Mercado de Petion Ville, na capital do Haiti, começa lentamente a regressar à actividade que tinha antes do sismo


A capital haitiana amanheceu ontem, terça-feira, como que se tivesse renascido para a vida, não obstante a macabra contabilidade de 100 mil mortos - que poderá duplicar. Mas se a destruição, a fome e o medo ainda estão por todo o lado, vê-se já também a vontade de renascer dos escombros.

O movimento nos mercados voltou quase ao que era. No de Petion Ville, há ananás, papaia e hortaliça à venda. Uma mulher, que veste de amarelo canário, alinha impecavelmente as minúsculas e rosadas cenouras num pano coçado. Nos países ricos, seriam cenouras de gourmet. Aqui, poderão matar a fome a várias famílias.

Ao lado, numa banca improvisada, um homem corta frangos em pedaços minúsculos. Mais longe, na outrora elegante Avenida Delmas, onde agora buldozeres ainda resgatam corpos, uma das principais padarias da cidade cozeu baguetes. Por todo o lado, miúdos famintos apregoavam a boa nova. A seis dólares americanos a peça. Ou seja, inatingível para a quase totalidade dos habitantes de Port-au-Prince.

Mas, enquanto uma parte da cidade tenta, literalmente, a reconstrução com vários muros a serem erguidos, a esmagadora maioria da população continua nas ruas, nas praças cobertas de tendas onde o cheiro a morte, apesar de já terem sido enterrados 70 mil cadáveres em valas comuns, começa agora a misturar-se com o odor a urina e do lixo espalhado por toda a parte. O receio de epidemias é uma das maiores preocupações da assistência humanitária aos sobreviventes.

A falta quase generalizada de alimentos e a degradação galopante das condições sanitárias é especialmente preocupante para as crianças. Morin Mirland é uma jovem mãe que, desde que escapou ilesa do sismo do passado dia 12, nunca mais largou Beth, de 14 meses. "Eu aguento quase sem comer, mas ela não consegue estar um minuto sem chorar", diz ao JN.

A falta de alimentação na rua contrasta, aparentemente, com a chegada massiva de ajuda ao aeroporto de Port-au-Prince. A solidariedade vem de todo o lado. De tal modo que a logística aeroportuária não consegue dar vazão à demanda, gerando fúria entre os populares e fazendo subir a tensão (ver texto ao lado).

Luis Jose Quijada é coordenador da ajuda venezuelana. Entre dezenas de soldados norte-americanos estacionados na pista da capital haitiana, explica ao JN que "o presidente Hugo Chavez está muito empenhado em ajudar os irmãos haitianos e, por isso, fez chegar bolachas, peixe em lata e água". Sem esquecer a importância estratégica do seu país, Quijada lembra que "todo o combustível que o Haiti consome é venezuelano". Por isso, revela, dentro de dias chegarão ao país dois navios carregados de combustível.