14.1.10

Variedade de espécies em declínio

Eduarda Ferreira, in Jornal de Notícias

Ecossistemas nacionais registam perdas com impacto no bem-estar


Portugal tem o risco mais elevado de erosão do solo na Europa e esta é das situações que mais influirão no abandono dos meios naturais existentes no território, alterando o equilíbrio entre bem-estar humano e o ambiente. Cientistas estudaram o que pode vir aí.

Mais de 70 cientistas de dez universidades portuguesas participaram, ao longo dos últimos seis anos, na análise das condições naturais do nosso território e traçaram cenários sobre o nosso relacionamento com o meio ambiente até 2050. Tiveram em mente o bem-estar humano ao fazerem a avaliação de Portugal à mesma luz com que as Nações Unidas tinham patrocinado a ideia do levantamento a nível global, o Millennium Ecosystem Assessment, terminado em 2005. Ontem saiu em livro o resultado desse trabalho, com o título "Ecossistemas e Bem-estar Humano".

Segundo o coordenador da equipa, Henrique Miguel Pereira, do Centro de Biologia Ambiental da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa, "há mensagens positivas", por exemplo no que toca à fileira florestal e o emprego que ela gera, bem como pela captação de carbono pela floresta (cinco milhões de toneladas/ano), apesar dos fogos.

Mas o coordenador da avaliação nacional indica ao JN o que está em perda nos valores naturais em Portugal: 40% dos rios estão em mau-estado, 70% das espécies de água doce estão ameaçadas e os recursos pesqueiros no oceano estão sobreexplorados. Além disso, "não temos sabido proteger os escassos bons solos que temos, por más práticas agrícolas e impermeabilização urbana". Também temos opções que se revelam erradas, como a opção a Norte pela monocultura do pinheiro e eucalipto, "o que torna essa floresta vulnerável ao fogo e leva à perda de biodiversidade".

A avaliação, que contou com peritos não só ligados às ciências da natureza, mas também à economia e gestão, analisou casos concretos sobre a interrelação homem-ambiente. Um dos estudos de caso disse respeito à freguesia de Sistelo, junto ao Parque Peneda-Gerês. Aquela comunidade, tendo moldado o seu território em socalcos e vivendo uma forma de economia rural de "idílico" equilíbrio com a natureza, começa a partilhar da realidade de muito do interior português, o abandono do cultivo e pastoreio.