Rita Valadas, opinião, in TSF
Hoje, 17 de Outubro, celebra-se o dia Internacional de Luta pela Erradicação da Pobreza
A luta pela subsistência e por uma vida condigna acompanhou toda a história da humanidade, particularmente através do trabalho diário e da entreajuda de proximidade. A forma como olhamos, escutamos e intervimos na pobreza tem cambiantes próprios da conjuntura e por isso quando falamos deste fenómeno geracional nem sempre temos a mesma leitura, nem a mesma perceção, mas temos a convicção, cada vez mais urgente de que é preciso encontrar novos caminhos para agir.
Neste dia, olhar para esta realidade é especialmente significativo.
De alguma forma a Pandemia veio baralhar e desviar algum do rumo que levávamos no sentido do individualismo, mas também percebemos que a mudança foi rápida, drástica, mas não duradoura o suficiente para produzir efeitos. Quero com isto dizer que, de alguma forma, os hábitos estão a retomar o seu normal e não o tão esperado "novo normal". A proximidade continua assim a ser um desafio que, na Cáritas, por exemplo, se reveste de uma importância crucial para o sucesso das medidas de combate à pobreza. Gostaríamos de olhar a pandemia pelas lições boas que o confinamento obrigatório nos trouxe, sobretudo na escuta dos mais frágeis e dos mais próximos, mas, nas relações pessoais, assistimos a um regresso aos ritmos e tempos que nem sempre facilitam esta atenção à proximidade.
Por outro lado, o "trabalho diário"... Sabemos hoje, com a clareza de quem estudou esta situação que não é verdade que só o trabalho diário seja premissa de uma vida desviada da pobreza. O equilíbrio é demasiado frágil e quando o inesperado surge percebemos que a tendência é descer os degraus que nos aproximam da estatística da pobreza.
A perceção pessoal sobre a nossa própria situação e a forma como politicamente olhamos e lemos os dados da pobreza também traz implicações para a forma como se atua.
"O Estado português, implementado pelos vários governos e outros órgãos de soberania, ao longo de mais de quarenta anos, configura-se mais estatizante que servidor, ou socializante, e mais controlador que cooperante. Mas não é inevitável que assim continue." (In: Acácio Catarino)
É certo que não podemos baixar os braços no desafio de erradicar a pobreza
Termino hoje falando de um momento que está agendado para esta tarde. A apresentação publica do livro "O que fizeste do teu irmão?"
A Cáritas Portuguesa assinala desta forma o Dia Internacional pela Erradicação da Pobreza. A obra, de autoria de Alfredo Bruto da Costa recorda a sua vida de defensor da causa dos mais pobres, leva-nos a um reencontro com a sua convicção pelas suas próprias palavras e mantém vivo o seu pensamento e a sua luta contra a pobreza, pela justiça e pela dignidade humana.
Esta obra nasce de um trabalho conjunto com o Fórum Abel Varzim e a própria família de Alfredo Bruto da Costa e é um contributo para uma verdadeira leitura da pobreza e das suas causas.
O evento que contará com a apresentação de Guilherme de Oliveira Martins e a presença do Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, será transmitido no Facebook da Cáritas Portuguesa e será uma oportunidade de também cada um de nós tornar este dia diferente. Será a partir das 16h30.
Esperamos que este momento nos inspire a todos.
Feliz domingo.
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18.10.21
16.2.15
É difícil reduzir desigualdades em Portugal, diz Alfredo Bruto da Costa
in RTP
Alfredo Bruto da Costa diz que combater o conformismo e reduzir desigualdades em Portugal vai ser muito difícil.
Alfredo Bruto da Costa, sociólogo, professor de direito e conselheiro de Estado, antigo presidente do Conselho Económico e Social, com larga experiência em investigação sobre a pobreza em Portugal, diz que combater o conformismo e reduzir desigualdades em Portugal vai ser muito difícil, porque a "própria sociedade considera a desigualdade aceitável".
E em Portugal confunde-se Politica Social com política de assistência, considera Bruto da Costa. O sociólogo dá exemplos e explica que a Politica Social tem por objectivo satisfazer necessidades básicas humanas. Em Portugal faz-se política de assistência que deveria ser transitória mas acaba por ser "regra, e duradoura".
Bruto da Costa, que é conselheiro de estado indicado pela Assembleia da República, mas que ainda não pode estar em nenhuma reunião daquele órgão, diz que gostaria que o Presidente da República tivesse um papel mais ativo, dentro da magistratura de influência, no sentido de trazer mais valores para as políticas públicas. "Porque há mais sobre o que pensar para além dos números".
Sobre a situação económica do país, Bruto da Costa acha que "o pior já passou", mas o que se está a passar na Grécia vai ser determinante para podermos ter um ponto de comparação. É preciso olhar para os efeitos da nova liderança grega. E, diz o sociólogo, pode ser que agora "o limite da paciência e do conformismo" em Portugal possa ser atingido.
Bruto da Costa considera que o atual governo "não tem personalidade política própria absolutamente nenhuma relativamente à política da austeridade". E considera que António Costa deixa passar através do discurso "que admite que se possa tomar uma posição de personalidade coletiva de um país perante a Europa".
Alfredo Bruto da Costa diz que combater o conformismo e reduzir desigualdades em Portugal vai ser muito difícil.
Alfredo Bruto da Costa, sociólogo, professor de direito e conselheiro de Estado, antigo presidente do Conselho Económico e Social, com larga experiência em investigação sobre a pobreza em Portugal, diz que combater o conformismo e reduzir desigualdades em Portugal vai ser muito difícil, porque a "própria sociedade considera a desigualdade aceitável".
E em Portugal confunde-se Politica Social com política de assistência, considera Bruto da Costa. O sociólogo dá exemplos e explica que a Politica Social tem por objectivo satisfazer necessidades básicas humanas. Em Portugal faz-se política de assistência que deveria ser transitória mas acaba por ser "regra, e duradoura".
Bruto da Costa, que é conselheiro de estado indicado pela Assembleia da República, mas que ainda não pode estar em nenhuma reunião daquele órgão, diz que gostaria que o Presidente da República tivesse um papel mais ativo, dentro da magistratura de influência, no sentido de trazer mais valores para as políticas públicas. "Porque há mais sobre o que pensar para além dos números".
Sobre a situação económica do país, Bruto da Costa acha que "o pior já passou", mas o que se está a passar na Grécia vai ser determinante para podermos ter um ponto de comparação. É preciso olhar para os efeitos da nova liderança grega. E, diz o sociólogo, pode ser que agora "o limite da paciência e do conformismo" em Portugal possa ser atingido.
Bruto da Costa considera que o atual governo "não tem personalidade política própria absolutamente nenhuma relativamente à política da austeridade". E considera que António Costa deixa passar através do discurso "que admite que se possa tomar uma posição de personalidade coletiva de um país perante a Europa".
Opinião pública considera que nível de desigualdade é aceitável
Rosário Lira e António Costa, in Económico on-line
Crítico do processo de ajustamento que aumentou a pobreza, Bruto da Costa reconhece que a sociedade portuguesa está confortável com os actuais níveis de desigualdade.
Alfredo Bruto da Costa é um estudioso da pobreza e diz que, neste momento, não há política social, há políticas assistencialistas. Crítico da estratégia do Governo, o novo conselheiro de Estado admite que o Presidente da República deveria ter mais poderes de intervenção.
O INE revelou que 19% da população estava, em 2013, abaixo do limiar da pobreza, que foi fixado nos 411 euros por mês e Passos Coelho, em resposta, referiu que os números já estavam desactualizados. Estão?
O senhor primeiro-ministro tem razão por um lado, pode não ter por outro. Tem razão, na medida em que os dados estatísticos são revelados dois anos depois do inquérito realizado, portanto, os resultados deste último inquérito são relativos a rendimentos de 2013. Agora, se a situação agora é melhor ou pior, ou tem uma bola de cristal que lhe permite dizer isso ou, então, de facto, não há informações disponíveis. Serão dados muito indirectos, digamos assim. Eu não tenho razões para pensar que a situação tenha melhorado, pelo contrário. É que uma das deficiências da definição de pobreza que a União Europeia publica, é o facto de calcular o limiar de pobreza com base num rendimento mediano. Quando o rendimento baixa, acontece que a linha de pobreza baixa. Baixando a linha de pobreza, temos menos pobres. Portanto, de facto não é a realidade que melhorou, mas um artifício meramente matemático que leva a que a taxa de pobreza seja baixa. Para isso, o INE tem tentado dar outra informação, que é fixar a linha pobreza de 2009 e calcular a evolução com base no índice de inflação. Nessa linha de pobreza, temos taxas de pobreza que vão aumentando e seria, neste momento, de 25,6% e não de 19% e qualquer coisa.
Não era uma inevitabilidade tendo em conta o quadro de ajustamento que passamos que esse índice de pobreza reflectisse esse ajustamento?
Claro. A meu ver, até reflecte mal. O inquérito sobre o qual se baseia o cálculo das taxas de pobreza só abrange pessoas que vivem em agregados familiares. Portanto todos quantos vivem em instituições não são abrangidos pelo inquérito. E sabemos que as instituições de pessoas idosas são uma bolsa grande de pobreza e não fazem parte do inquérito.
Estão mais protegidos nessas instituições...
...Portanto, a nossa taxa de pobreza, em princípio é superior.
O programa de austeridade foi longe demais e não protegeu os mais desfavorecidos?
Li há dias um artigo de Paul Krugman, prémio Nobel da Economia, que diz que a austeridade nos países do Sul da Europa atingiu níveis incrivelmente selvagens. Eu penso que sim. E, por outro lado, pessoas altamente credenciadas dizem que a própria fórmula utilizada foi errada. Custou muito às pessoas e não atingiu os objectivos. Tenho estado a pensar nisto já há uns tempos e sinto que o que se passa na Grécia ajuda-nos um bocadinho a virar o pensamento para o outro lado. Durante estes anos, pensámos muito em problemas de numerário... O que foi grave é que transformamos aspectos instrumentais importantes em finalidades.
Está a falar do défice?
Estou a falar no equilíbrio orçamental. Estou a falar em toda uma inversão da própria filosofia da segurança social, reduzida ao problema da sustentabilidade financeira e não da sustentabilidade social.
Mas é possível ter uma política de luta contra a pobreza e de sustentabilidade da segurança social num Estado que tem contas desequilibradas como tínhamos?
Sim e não.
Como é que é possível? Percebo o ‘não', o sim é que tenho dificuldade...
Isso depende de várias coisas, em primeiro lugar da teoria económica que esteja por detrás. Há cerca de 40 anos, o problema que se punha não era em países europeus, era fundamentalmente o problema dos países em vias de desenvolvimento. E as teorias do Banco Mundial e do FMI levantavam exactamente as mesmas questões que foram levantadas agora. Muito mais recente, fiz parte de um projecto da Unesco que tentava que o Banco Mundial e o FMI introduzissem nos seus contratos de luta contra pobreza nos países pobres a condição de direitos humanos mínimos. Portanto, isto é uma matéria...
Mas no contexto português é possível diminuir estes números de pobreza?
No contexto português levanto duas questões fundamentais. Em primeiro lugar, a sociedade portuguesa contemporizou excessivamente com as desigualdades. Reduzir as desigualdades em Portugal, hoje, é difícil por duas razões. Porque os que retiram benefícios da desigualdade se opõem e porque a própria sociedade, a opinião pública, considera que este nível desigualdade é aceitável. Este é um dos estrangulamentos culturais e de filosofia política, que evita que a gente tenha outras políticas.
Isso é quase chocante...
É chocante, mas é a realidade. O segundo problema é a mesma questão colocada a nível europeu. Não sei se leram o trabalho de Vítor Bento [nr: publicado no Observador], em que diz precisamente isso: houve uma transferência de bem-estar - repare que não foi transferência financeira nem económica no sentido lato, mas de bem-estar - dos países deficitários, designadamente os países do Sul, entre os quais Portugal, para os países excedentários, designadamente a Alemanha. A filosofia política não pode ficar nas finanças, tem de ir ao bem-estar. É outro grau de liberdade. Aliás, só para terminar, em termos de filosofia política e dos valores que estão por detrás da minha filosofia política, devo dizer que sou daqueles que defendem que aquilo que existe no mundo, não só num país, não só numa região, mas à escala global, também pertence a todos. Conforme aceitemos ou não este princípio, temos princípios de quem dá e de quem recebe que podem ser muito diferentes.
Está a dizer que em Portugal não existe uma política social?
De forma nenhuma! O que é a política social? Este é um outro problema. Para mim, a política social tem dois ou três objectivos. O primeiro objectivo é satisfazer as necessidades básicas humanas.
E nesse aspecto tem faltado. Mas já faltava antes do programa de austeridade?
Estou a dizer em termos de objectivos gerais. É que aqui temos dois problemas: um é analisarmos uma situação e dizermos: isto satisfaz ou não. O outro problema é mais grave: é fazermos assistência e dizermos que estamos a fazer política social.
E é isso que está a acontecer?
É isso que está a acontecer, olhemos as cantinas sociais. Há um critério que nos diz muito claramente o que é assistência e o que não é. Em primeiro lugar, quero dizer que não dou uma conotação negativa à assistência. Para mim, a assistência é uma medida tomada para acudir a necessidades urgentes. Se uma pessoa está com fome, a única medida que resolve a fome é dar de comer. Eu não tenho uma ideia negativa da assistência, tenho uma ideia negativa de uma assistência que se torna a regra. Indefinida, duradoura. Porque a assistência, por definição, é transitória. Porque entretanto têm de ser construídos mecanismos que dispensem a pessoa da própria necessidade de assistência.
E foi isso que não aconteceu.
E foi isso que não aconteceu nem acontece. Portanto, um dos fundamentais objectivos numa política social é satisfazer as necessidades humanas básicas. Mantendo um limiar de pobreza aceitável - pode ser discutível, mas aceitável ao nível da opinião pública -, não acredito que em Portugal não possamos ter quase uma sociedade sem pessoas a quem falte o indispensável para viver dignamente.
Crítico do processo de ajustamento que aumentou a pobreza, Bruto da Costa reconhece que a sociedade portuguesa está confortável com os actuais níveis de desigualdade.
Alfredo Bruto da Costa é um estudioso da pobreza e diz que, neste momento, não há política social, há políticas assistencialistas. Crítico da estratégia do Governo, o novo conselheiro de Estado admite que o Presidente da República deveria ter mais poderes de intervenção.
O INE revelou que 19% da população estava, em 2013, abaixo do limiar da pobreza, que foi fixado nos 411 euros por mês e Passos Coelho, em resposta, referiu que os números já estavam desactualizados. Estão?
O senhor primeiro-ministro tem razão por um lado, pode não ter por outro. Tem razão, na medida em que os dados estatísticos são revelados dois anos depois do inquérito realizado, portanto, os resultados deste último inquérito são relativos a rendimentos de 2013. Agora, se a situação agora é melhor ou pior, ou tem uma bola de cristal que lhe permite dizer isso ou, então, de facto, não há informações disponíveis. Serão dados muito indirectos, digamos assim. Eu não tenho razões para pensar que a situação tenha melhorado, pelo contrário. É que uma das deficiências da definição de pobreza que a União Europeia publica, é o facto de calcular o limiar de pobreza com base num rendimento mediano. Quando o rendimento baixa, acontece que a linha de pobreza baixa. Baixando a linha de pobreza, temos menos pobres. Portanto, de facto não é a realidade que melhorou, mas um artifício meramente matemático que leva a que a taxa de pobreza seja baixa. Para isso, o INE tem tentado dar outra informação, que é fixar a linha pobreza de 2009 e calcular a evolução com base no índice de inflação. Nessa linha de pobreza, temos taxas de pobreza que vão aumentando e seria, neste momento, de 25,6% e não de 19% e qualquer coisa.
Não era uma inevitabilidade tendo em conta o quadro de ajustamento que passamos que esse índice de pobreza reflectisse esse ajustamento?
Claro. A meu ver, até reflecte mal. O inquérito sobre o qual se baseia o cálculo das taxas de pobreza só abrange pessoas que vivem em agregados familiares. Portanto todos quantos vivem em instituições não são abrangidos pelo inquérito. E sabemos que as instituições de pessoas idosas são uma bolsa grande de pobreza e não fazem parte do inquérito.
Estão mais protegidos nessas instituições...
...Portanto, a nossa taxa de pobreza, em princípio é superior.
O programa de austeridade foi longe demais e não protegeu os mais desfavorecidos?
Li há dias um artigo de Paul Krugman, prémio Nobel da Economia, que diz que a austeridade nos países do Sul da Europa atingiu níveis incrivelmente selvagens. Eu penso que sim. E, por outro lado, pessoas altamente credenciadas dizem que a própria fórmula utilizada foi errada. Custou muito às pessoas e não atingiu os objectivos. Tenho estado a pensar nisto já há uns tempos e sinto que o que se passa na Grécia ajuda-nos um bocadinho a virar o pensamento para o outro lado. Durante estes anos, pensámos muito em problemas de numerário... O que foi grave é que transformamos aspectos instrumentais importantes em finalidades.
Está a falar do défice?
Estou a falar no equilíbrio orçamental. Estou a falar em toda uma inversão da própria filosofia da segurança social, reduzida ao problema da sustentabilidade financeira e não da sustentabilidade social.
Mas é possível ter uma política de luta contra a pobreza e de sustentabilidade da segurança social num Estado que tem contas desequilibradas como tínhamos?
Sim e não.
Como é que é possível? Percebo o ‘não', o sim é que tenho dificuldade...
Isso depende de várias coisas, em primeiro lugar da teoria económica que esteja por detrás. Há cerca de 40 anos, o problema que se punha não era em países europeus, era fundamentalmente o problema dos países em vias de desenvolvimento. E as teorias do Banco Mundial e do FMI levantavam exactamente as mesmas questões que foram levantadas agora. Muito mais recente, fiz parte de um projecto da Unesco que tentava que o Banco Mundial e o FMI introduzissem nos seus contratos de luta contra pobreza nos países pobres a condição de direitos humanos mínimos. Portanto, isto é uma matéria...
Mas no contexto português é possível diminuir estes números de pobreza?
No contexto português levanto duas questões fundamentais. Em primeiro lugar, a sociedade portuguesa contemporizou excessivamente com as desigualdades. Reduzir as desigualdades em Portugal, hoje, é difícil por duas razões. Porque os que retiram benefícios da desigualdade se opõem e porque a própria sociedade, a opinião pública, considera que este nível desigualdade é aceitável. Este é um dos estrangulamentos culturais e de filosofia política, que evita que a gente tenha outras políticas.
Isso é quase chocante...
É chocante, mas é a realidade. O segundo problema é a mesma questão colocada a nível europeu. Não sei se leram o trabalho de Vítor Bento [nr: publicado no Observador], em que diz precisamente isso: houve uma transferência de bem-estar - repare que não foi transferência financeira nem económica no sentido lato, mas de bem-estar - dos países deficitários, designadamente os países do Sul, entre os quais Portugal, para os países excedentários, designadamente a Alemanha. A filosofia política não pode ficar nas finanças, tem de ir ao bem-estar. É outro grau de liberdade. Aliás, só para terminar, em termos de filosofia política e dos valores que estão por detrás da minha filosofia política, devo dizer que sou daqueles que defendem que aquilo que existe no mundo, não só num país, não só numa região, mas à escala global, também pertence a todos. Conforme aceitemos ou não este princípio, temos princípios de quem dá e de quem recebe que podem ser muito diferentes.
Está a dizer que em Portugal não existe uma política social?
De forma nenhuma! O que é a política social? Este é um outro problema. Para mim, a política social tem dois ou três objectivos. O primeiro objectivo é satisfazer as necessidades básicas humanas.
E nesse aspecto tem faltado. Mas já faltava antes do programa de austeridade?
Estou a dizer em termos de objectivos gerais. É que aqui temos dois problemas: um é analisarmos uma situação e dizermos: isto satisfaz ou não. O outro problema é mais grave: é fazermos assistência e dizermos que estamos a fazer política social.
E é isso que está a acontecer?
É isso que está a acontecer, olhemos as cantinas sociais. Há um critério que nos diz muito claramente o que é assistência e o que não é. Em primeiro lugar, quero dizer que não dou uma conotação negativa à assistência. Para mim, a assistência é uma medida tomada para acudir a necessidades urgentes. Se uma pessoa está com fome, a única medida que resolve a fome é dar de comer. Eu não tenho uma ideia negativa da assistência, tenho uma ideia negativa de uma assistência que se torna a regra. Indefinida, duradoura. Porque a assistência, por definição, é transitória. Porque entretanto têm de ser construídos mecanismos que dispensem a pessoa da própria necessidade de assistência.
E foi isso que não aconteceu.
E foi isso que não aconteceu nem acontece. Portanto, um dos fundamentais objectivos numa política social é satisfazer as necessidades humanas básicas. Mantendo um limiar de pobreza aceitável - pode ser discutível, mas aceitável ao nível da opinião pública -, não acredito que em Portugal não possamos ter quase uma sociedade sem pessoas a quem falte o indispensável para viver dignamente.
25.10.13
Governo anda “propositadamente distraído” com a pobreza em Portugal
Natália Faria, in Público on-line
Bruto da Costa acusa o Governo de “abuso do poder” e diz esperar que Tribunal Constitucional trave alguns dos cortes propostos no Orçamento do Estado para 2014.
Uma “calamidade moral” é como o presidente da Comissão Nacional de Justiça e Paz, Alfredo Bruto da Costa, qualifica as actuais políticas económicas em Portugal. “Não podemos fazer sofrer um povo sem nenhuma contrapartida. E o que vemos é que as políticas estão a falhar de forma persistente, o que é um problema grave com implicações morais evidentes”, declarou.
Neste Dia Internacional para a Erradicação da Pobreza, o sociólogo acusa o Governo de estar a violar “um princípio básico da Segurança Social contributiva”. E diz-se com esperança que o Tribunal Constitucional venha a pôr um travão nos cortes consagrados na proposta de Orçamento do Estado para 2014, nomeadamente no que toca aos cortes nas pensões.
“Estamos perante um governo que, unilateralmente e por vias retroactivas, está a querer passar um pano por cima de um contrato onde há duas partes, em que uma se sobrepõe à outra”, acusa, para declarar que este é “um exemplo claro de abuso do poder”.
O sociólogo acusa ainda o Governo de andar “propositadamente distraído” com a pobreza em Portugal. “O Governo fala em limites de 600 euros [para os cortes salariais na função pública] como se esses 600 euros suportassem apenas as despesas de uma pessoa! O Governo sabe em quantos casos os 600 euros alimentam a pessoa, mais os filhos e mais os netos?”, critica.
Relativamente aos indicadores estatísticos, Bruto da Costa diz-se espantado e considera “inaceitável” que o Governo não tenha criado mecanismos para conseguir ter “uma ideia mais consistente” da pobreza em Portugal. Os indicadores mais recentes são de 2011. Além de desactualizados, seria necessário que estes tivessem em conta as alterações no rendimento mediano disponível, já que o limiar de pobreza se fixa nos 60% da mediana de rendimentos.
“Baixando o valor da mediana, baixa também o limiar de pobreza, ou seja, poderemos ter aqui um abaixamento estatístico da pobreza que está muito longe de traduzir o que realmente se passa na sociedade portuguesa”, alerta.
Bruto da Costa acusa o Governo de “abuso do poder” e diz esperar que Tribunal Constitucional trave alguns dos cortes propostos no Orçamento do Estado para 2014.
Uma “calamidade moral” é como o presidente da Comissão Nacional de Justiça e Paz, Alfredo Bruto da Costa, qualifica as actuais políticas económicas em Portugal. “Não podemos fazer sofrer um povo sem nenhuma contrapartida. E o que vemos é que as políticas estão a falhar de forma persistente, o que é um problema grave com implicações morais evidentes”, declarou.
Neste Dia Internacional para a Erradicação da Pobreza, o sociólogo acusa o Governo de estar a violar “um princípio básico da Segurança Social contributiva”. E diz-se com esperança que o Tribunal Constitucional venha a pôr um travão nos cortes consagrados na proposta de Orçamento do Estado para 2014, nomeadamente no que toca aos cortes nas pensões.
“Estamos perante um governo que, unilateralmente e por vias retroactivas, está a querer passar um pano por cima de um contrato onde há duas partes, em que uma se sobrepõe à outra”, acusa, para declarar que este é “um exemplo claro de abuso do poder”.
O sociólogo acusa ainda o Governo de andar “propositadamente distraído” com a pobreza em Portugal. “O Governo fala em limites de 600 euros [para os cortes salariais na função pública] como se esses 600 euros suportassem apenas as despesas de uma pessoa! O Governo sabe em quantos casos os 600 euros alimentam a pessoa, mais os filhos e mais os netos?”, critica.
Relativamente aos indicadores estatísticos, Bruto da Costa diz-se espantado e considera “inaceitável” que o Governo não tenha criado mecanismos para conseguir ter “uma ideia mais consistente” da pobreza em Portugal. Os indicadores mais recentes são de 2011. Além de desactualizados, seria necessário que estes tivessem em conta as alterações no rendimento mediano disponível, já que o limiar de pobreza se fixa nos 60% da mediana de rendimentos.
“Baixando o valor da mediana, baixa também o limiar de pobreza, ou seja, poderemos ter aqui um abaixamento estatístico da pobreza que está muito longe de traduzir o que realmente se passa na sociedade portuguesa”, alerta.
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