Paula Cosme Pinto, in Expresso
“Matei-a por tédio”, confessou ele
A frase faz parte da justificação dada por um jovem que matou a namorada. Durante muito tempo, estas palavras agoniaram o fotógrafo João Francisco Vilhena, que começou uma pesquisa sobre a violência doméstica em Portugal. O resultado desse trabalho é “O amor Mata”, uma exposição que não serve apenas de incentivo à reflexão sobre a dimensão e banalização deste crime, como é também uma homenagem às dezenas de mulheres que continuam a morrer em Portugal todos os anos às mãos de quem as dizia amar.
A primeira vez que “O amor Mata” foi apresentado ao público foi em 2015, na Galeria das Salgadeiras, com curadoria de Ana Matos. Um tema arriscado numa altura em que a violência de género e na intimidade encontrava, inclusive, alguma resistência por parte da imprensa. É difícil dizer-vos quantas vezes ao longo dos meus dez anos em redações ouvi a frase “isso já não é notícia”. No que diz respeito a esta exposição, o silêncio era a maior reação entre os que a visitavam na altura. Um silêncio de respeito, de mágoa, de indignação, de dor, de pesar, de impotência, de desconforto. Agora, numa altura em que a violência de género está na ordem do dia, a exposição está de volta, desta vez no Centro Cultural de Lagos, e numa versão alargada.
Quem entra é recebido por dípticos a preto e branco identificados com o nome de mulheres: “Alice foi queimada, Leonor brutalmente agredida e abandonada numa poça de sangue, Rosa envenenada, Teresa suicidou-se depois de anos de agressão física e psicológica, Fátima, depois de uma forte pancada, o seu crânio quebrou-se, Ana, as mãos que amam são as mãos que matam, Margarida, um tiro levou a sua vida, Maria, a sua carne foi esfaqueada”. Todos eles casos reais, ocorridos em Portugal. Há depois uma sala negra, um espaço de silêncio para percorrer depois do inicial soco no estômago. Já numa parede branca, suspensos sobre um fundo vermelho, a cor do amor e do sangue, há uma série de objetos iluminados como pedras preciosas numa loja de jóias. Um martelo, uma pedra, uma faca, todos eles objetos comuns, mas que foram utilizados para matar. Na última moldura do corredor, um espelho onde cada visitante se pode ver refletido. Desafia João Francisco Vilhena: “Como nos vemos no fim deste percurso? Um assassino tem rosto? Uma vítima escondida? Qual é a dimensão da fronteira que separa o amor do ódio? Do tédio? Da falta de humanidade? De respeito pelo outro?”.
A cada hora que passa 6 mulheres são mortas em contexto de intimidade
Porque é que é tão essencial que surjam trabalhos como este? Talvez os números nos ajudem a perceber: das 87 mil mulheres assassinadas em 2017, cerca de 60% foram mortas por parceiros amorosos ou familiares, revelava a ONU em novembro passado num relatório sobre a violência de género no mundo. Foram mais de 50 mil as vítimas mortais de casos de violência doméstica. Isto significa que todos os dias, leiam isto bem, todos os dias 137 mulheres são assassinadas por alguém com quem têm uma relação de intimidade, maioritariamente namorados e maridos. Pessoas da sua confiança que se revelam carrascos. Pessoas que, mais do que ninguém, as deveriam respeitar, amar, proteger. Importa também relembrar que a maioria destes crimes acontece dentro de casa, ou seja, o próprio lar continua a ser o sítio mais inseguro para as meninas e mulheres.
Em Portugal os números são alarmantes. Só em 2017 foram registadas mais de 25 mil ocorrências de violência doméstica. E de acordo com o Observatório das Mulheres Assassinadas registaram-se 25 femicídios e 16 tentativas. Seguindo a tendência mundial, o grupo que surge com maior expressividade é o das mulheres que mantêm ou mantiveram uma relação de intimidade com os femicidas, correspondendo a 70%. De salientar que estes assassinatos e atentados à vida destas mulheres ocorreram, na sua esmagadora maioria, em contextos de violência doméstica prévia e contínua, em alguns casos situações já reportadas às autoridades, e em grande parte de conhecimento geral (vizinhos/as, amigos/as, familiares), sem que isso tenha sido potenciador ou suficiente para evitar os crimes contra elas praticados.
João Francisco Vilhena
Tal como já escrevi por aqui várias vezes, a naturalização da violência contras as mulheres é uma realidade em Portugal e é urgente que se entenda que estes são crimes que resultam de violência de género, de um exercício macabro de poder.
Precisamos de uma justiça e de forças de segurança que lidem com ela de forma diferenciada e devidamente enquadrada, dadas as suas especificidades concretas. É necessária uma justiça penal eficaz que tenha como prioridade a segurança das vítimas. Tal como é urgente a educação como forma de prevenção, implicando os rapazes e os homens neste caminho de mudança de mentalidades.
A arte é um veículo poderosíssimo de comunicação, com o condão eficaz de nos levar a um confronto individual através de diferentes estímulos. De nos convidar a parar para pensar nisto e percebermos que todos nós fazemos não só parte do problema, mas também da solução. É por isso que vos convido a espreitarem esta exposição (patente até 13 de abril), cujo título é por si só uma provocação perfeita para a reflexão. Será o amor que mata? Ou será o ódio, o desrespeito, o sentimento de posse, o exercício do poder, a desumanidade e o desprezo pelo próximo enquanto ser único e individual?
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19.2.19
13.9.18
Mulheres são mortas cada vez com mais violência e sofrimento em Portugal
in JN
Vinte e uma mulheres foram mortas em contexto de violência doméstica ou relações de intimidade desde o início do ano, segundo o Observatório de Mulheres Assassinadas.
O número é expressivo e não deixa margem para dúvidas, e até quarta-feira, dia 12 de setembro, a União de Mulheres Alternativa e Resposta (UMAR), através do seu Observatório de Mulheres Assassinadas, contabilizou já 21 mulheres assassinadas por ex, atuais companheiros ou familiares muito próximos.
Em declarações à agência Lusa, Elisabete Brasil, da UMAR, apontou que, ao contrário do que se tem verificado com o homicídio, em que tem havido uma tendência decrescente, os números de femicídio têm-se mantido constantes.
"Este ano está novamente a contrariar, segue as tendências da última década e voltamos a um contraciclo. Ainda é cedo para falarmos do número total, mas já temos confirmadas 21 mulheres e isso é brutal tendo em conta que estamos em setembro e já temos o mesmo nível de mortes do ano passado", revelou a responsável.
Olhando para o relatório do ano passado, e nos dados relativos a 2017, é possível verificar que foram contabilizadas 20 mulheres assassinadas, às quais se soma mais uma, contada posteriormente, quando foi possível confirmar o contexto e o autor do crime.
No relatório intercalar, a UMAR tinha já contado 16 mulheres mortas entre 1 de janeiro e 30 de junho, número que aumentou já para 21, havendo ainda sete casos por confirmar se são ou não femicídios.
No entanto, a análise dos casos que já são conhecidos permite à UMAR perceber que está a aumentar o nível de violência e o sofrimento que é infligido às vítimas nos momentos antes da morte. O caso mais recente foi o de Amélia Fialho, morta pela filha e pelo genro, em Pisões.
Elisabete Brasil mencionou que, por análise das notícias, uma das conclusões que é possível tirar é que este ano os autores dos crimes têm preterido a arma de fogo.
"Este ano foi o primeiro ano que em só houve arma de fogo numa situação e as outras são todas por esfaqueamento, asfixia. Pela primeira vez nestes 15 anos, surge o tiro esporádico e as outras formas, que são muito brutais, que agride, espanca, tortura, é de uma agressividade e brutalidade", referiu.
Dados que levam a responsável da UMAR a defender que se tratam, sem "dúvida nenhuma", de crimes de ódio, em que os agressores "queriam aquela morte e queriam que até na morte a pessoa percebesse e sofresse o máximo".
"É uma coisa completamente destruidora", classificou.
Elisabete Brasil sublinhou que são casos em que o momento da morte é de grande sofrimento, "em que a pessoa percebe o que lhe vai acontecer".
"É uma tortura para matar as mulheres. É uma das grandes novidades este ano, a tortura como forma de as matar. Estratégias de guerrilha e tortura conjugadas", afirmou.
A responsável da UMAR aproveitou ainda para criticar aquilo que classificou como "silêncio" por parte dos poderes políticos e dos poderes públicos, não havendo uma posição pública "face a esta mortandade".
"Se fossem assassinadas duas ou três pessoas numa bomba de gasolina, já havia o MAI [Ministério da Administração Interna] ou outra entidade qualquer a dizer que era preciso reforçar isto ou aquilo. São assassinadas 21 mulheres confirmadas e não há uma palavra sobre esta questão", criticou.
Vinte e uma mulheres foram mortas em contexto de violência doméstica ou relações de intimidade desde o início do ano, segundo o Observatório de Mulheres Assassinadas.
O número é expressivo e não deixa margem para dúvidas, e até quarta-feira, dia 12 de setembro, a União de Mulheres Alternativa e Resposta (UMAR), através do seu Observatório de Mulheres Assassinadas, contabilizou já 21 mulheres assassinadas por ex, atuais companheiros ou familiares muito próximos.
Em declarações à agência Lusa, Elisabete Brasil, da UMAR, apontou que, ao contrário do que se tem verificado com o homicídio, em que tem havido uma tendência decrescente, os números de femicídio têm-se mantido constantes.
"Este ano está novamente a contrariar, segue as tendências da última década e voltamos a um contraciclo. Ainda é cedo para falarmos do número total, mas já temos confirmadas 21 mulheres e isso é brutal tendo em conta que estamos em setembro e já temos o mesmo nível de mortes do ano passado", revelou a responsável.
Olhando para o relatório do ano passado, e nos dados relativos a 2017, é possível verificar que foram contabilizadas 20 mulheres assassinadas, às quais se soma mais uma, contada posteriormente, quando foi possível confirmar o contexto e o autor do crime.
No relatório intercalar, a UMAR tinha já contado 16 mulheres mortas entre 1 de janeiro e 30 de junho, número que aumentou já para 21, havendo ainda sete casos por confirmar se são ou não femicídios.
No entanto, a análise dos casos que já são conhecidos permite à UMAR perceber que está a aumentar o nível de violência e o sofrimento que é infligido às vítimas nos momentos antes da morte. O caso mais recente foi o de Amélia Fialho, morta pela filha e pelo genro, em Pisões.
Elisabete Brasil mencionou que, por análise das notícias, uma das conclusões que é possível tirar é que este ano os autores dos crimes têm preterido a arma de fogo.
"Este ano foi o primeiro ano que em só houve arma de fogo numa situação e as outras são todas por esfaqueamento, asfixia. Pela primeira vez nestes 15 anos, surge o tiro esporádico e as outras formas, que são muito brutais, que agride, espanca, tortura, é de uma agressividade e brutalidade", referiu.
Dados que levam a responsável da UMAR a defender que se tratam, sem "dúvida nenhuma", de crimes de ódio, em que os agressores "queriam aquela morte e queriam que até na morte a pessoa percebesse e sofresse o máximo".
"É uma coisa completamente destruidora", classificou.
Elisabete Brasil sublinhou que são casos em que o momento da morte é de grande sofrimento, "em que a pessoa percebe o que lhe vai acontecer".
"É uma tortura para matar as mulheres. É uma das grandes novidades este ano, a tortura como forma de as matar. Estratégias de guerrilha e tortura conjugadas", afirmou.
A responsável da UMAR aproveitou ainda para criticar aquilo que classificou como "silêncio" por parte dos poderes políticos e dos poderes públicos, não havendo uma posição pública "face a esta mortandade".
"Se fossem assassinadas duas ou três pessoas numa bomba de gasolina, já havia o MAI [Ministério da Administração Interna] ou outra entidade qualquer a dizer que era preciso reforçar isto ou aquilo. São assassinadas 21 mulheres confirmadas e não há uma palavra sobre esta questão", criticou.
25.1.18
Lentidão e burocracia. Ministério Público falhou e mulher foi assassinada
in Diário de Notícias
Lentidão e burocracia. Ministério Público falhou e mulher foi assassinada
Relatório concluiu que procedimentos adotados após mulher ter feito queixa falharam
Equipa multidisciplinar que analisa casos de homicídio em situação de violência doméstica volta a apontar o dedo ao Ministério Público. Na análise ao caso de uma mulher que foi morta à paulada pelo marido, em 2015, entendeu que a lentidão e a burocracia impediram que esta fosse protegida após ter apresentado queixa contra o agressor, conta hoje o Jornal de Notícias.
O caso remonta a 4 de novembro de 2015. Laura Oliveira Ribeiro, 56 anos, foi morta pelo marido em casa, em Campo, Valongo, depois de ter sido inquirida pessoalmente relativamente a uma queixa que fizera a 29 de setembro desse ano por violência doméstica. Segundo conta o JN, ao longo de mais de um mês, o Ministério Público desperdiçou "três oportunidades de intervenção", concluiu a Equipa de Análise Retrospetiva de Homicídio em Violência Doméstica (EARHVD).
A mulher, que esteve casada entre janeiro e setembro de 2015, saiu de casa a 23 de setembro após um espancamento. No dia 29 foi ao MP e apresentou queixa. A 8 de outubro, a magistrada do MP deu ordem para que a vítima fosse notificada para esclarecer a queixa, o que aconteceu a 22, numa resposta por escrito. A 26 de outubro, a magistrada ordenou um contacto telefónico a Laura para que esta fosse prestar declarações. Conta o JN que, dois dias depois, por não ter conseguido falar com a mulher, o MP notificou-a para ser inquirida presencialmente, o que aconteceu a 4 de novembro às 14:00.
Quando regressou a casa, Laura foi morta pelo marido, que cumpre atualmente uma pena de 16 anos de cadeia. O corpo só foi encontrado três dias depois.
Segundo o estudo "Homicídio, femicídio e stalking no contexto das relações de intimidade", que está a ser desenvolvido pela Polícia Judiciária, um terço das 43 mulheres assassinadas pelos maridos nos últimos cinco anos, na Grande Lisboa - ou seja, 13 - já tinha apresentado queixa às autoridades por violência doméstica. Mais de metade das vítimas estava em processo de separação (51,2%), por iniciativa delas, e a grande maioria das mortes (68,4%) aconteceu no prazo de dois meses após a separação.
Um terço das mulheres mortas tinha apresentado queixa
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Lentidão e burocracia. Ministério Público falhou e mulher foi assassinada
Relatório concluiu que procedimentos adotados após mulher ter feito queixa falharam
Equipa multidisciplinar que analisa casos de homicídio em situação de violência doméstica volta a apontar o dedo ao Ministério Público. Na análise ao caso de uma mulher que foi morta à paulada pelo marido, em 2015, entendeu que a lentidão e a burocracia impediram que esta fosse protegida após ter apresentado queixa contra o agressor, conta hoje o Jornal de Notícias.
O caso remonta a 4 de novembro de 2015. Laura Oliveira Ribeiro, 56 anos, foi morta pelo marido em casa, em Campo, Valongo, depois de ter sido inquirida pessoalmente relativamente a uma queixa que fizera a 29 de setembro desse ano por violência doméstica. Segundo conta o JN, ao longo de mais de um mês, o Ministério Público desperdiçou "três oportunidades de intervenção", concluiu a Equipa de Análise Retrospetiva de Homicídio em Violência Doméstica (EARHVD).
A mulher, que esteve casada entre janeiro e setembro de 2015, saiu de casa a 23 de setembro após um espancamento. No dia 29 foi ao MP e apresentou queixa. A 8 de outubro, a magistrada do MP deu ordem para que a vítima fosse notificada para esclarecer a queixa, o que aconteceu a 22, numa resposta por escrito. A 26 de outubro, a magistrada ordenou um contacto telefónico a Laura para que esta fosse prestar declarações. Conta o JN que, dois dias depois, por não ter conseguido falar com a mulher, o MP notificou-a para ser inquirida presencialmente, o que aconteceu a 4 de novembro às 14:00.
Quando regressou a casa, Laura foi morta pelo marido, que cumpre atualmente uma pena de 16 anos de cadeia. O corpo só foi encontrado três dias depois.
Segundo o estudo "Homicídio, femicídio e stalking no contexto das relações de intimidade", que está a ser desenvolvido pela Polícia Judiciária, um terço das 43 mulheres assassinadas pelos maridos nos últimos cinco anos, na Grande Lisboa - ou seja, 13 - já tinha apresentado queixa às autoridades por violência doméstica. Mais de metade das vítimas estava em processo de separação (51,2%), por iniciativa delas, e a grande maioria das mortes (68,4%) aconteceu no prazo de dois meses após a separação.
Um terço das mulheres mortas tinha apresentado queixa
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