Miguel Dantas (Texto) e Paulo Pimenta (Fotografias), in Público on-line
Empresários e artistas duvidam da capacidade de sobrevivência de muitos circos. Em alguns pontos do país, são as autarquias a assegurar a alimentação de famílias com filhos menores.
Dois camelos alimentam-se tranquilamente perto de uma estrada deserta. A poucos metros, três tigres adultos dormitam no interior de uma estrutura metálica rectangular. Além dos animais, quem passe pela freguesia de Lago, no concelho de Braga, verá ainda dezenas de camiões e roulottes parados. Apesar de o ímpeto itinerante ter sido momentaneamente travado pela pandemia, o movimento no circo Cláudio é constante. No topo da pequena subida de terra onde se encontram os veículos, o proprietário do circo, Claudio Torralvo, discute com o staff a alimentação dos felinos. É dia de nova viagem ao centro de distribuição de carne mais próximo: desta vez, compram cerca de 200 quilos, apenas suficiente para uma semana de alimentação. A esta despesa fixa juntam-se custos com o feno, vitaminas e cuidados veterinários.
“Este mês foi negro. Vai ser difícil conseguir sobreviver nesta situação porque vivíamos do público. Temos a época alta do Natal e depois as outras com menos procura, mas dava para sobreviver. Com os tigres, gasto cerca de 2500 euros mensais com a alimentação. Se for a juntar os restantes animais os gastos chegam aos 3500 euros mensais”, explica Claudio Torralvo, artista de circo desde nascença e membro da quinta geração de uma das famílias circenses mais conhecidas em Portugal.
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O espaço onde os veículos e os animais estão instalados foi cedido sem contrapartidas financeiras por um conhecido de Claudio. O empresário diz nunca ter vivido um período tão difícil, mas garante que a sua situação até é das melhores. “Alguns colegas meus estão a ser alimentados pelas câmaras municipais, que também fornecem alimentação aos animais. Não duvide das minhas palavras: muitos circos vão fechar. E depois quero ver o que vão fazer com os animais”, alerta.
O empresário formou este circo há praticamente 20 anos. Fê-lo com o objectivo de juntar os familiares que, tal como ele, trabalhavam em diferentes circos espalhados pela Europa. Os primeiros dez anos de actividade não podiam ter corrido melhor: a colecção impressionante de animais selvagens valia sempre casa cheia ao fim-de-semana. Além dos tigres que agora detém, chegou a exibir hipopótamos, elefantes e até tubarões: “Posso montar todas as atracções possíveis mas, depois de um ano, tornam-se repetitivas. Os números de animais, contudo, podem manter-se durante décadas. Éramos um grande sucesso, especialmente em Espanha.”
Após 2010, porém, Claudio começou a notar uma diminuição na afluência do público. Os responsáveis? Os movimentos de defesa dos animais, que agora chama à conversa: “Ainda ninguém veio ver se os animais precisam de ajuda. Onde é que andam esses defensores de animais agora?”
Ao contrário da esmagadora maioria dos artistas em Portugal, Dani Silva não nasceu no circo. Tampouco aperfeiçoou um número que lhe permitisse subir à pista e recolher os aplausos do público. O jovem de 23 anos, natural de Braga, estudou electromecânica de equipamentos industriais, mas sempre soube que queria fazer do circo a sua vida. A paixão começou em criança e uma visita do circo à cidade dos arcebispos foi o rastilho para uma nova vida. “Há três anos, o circo Flic-Flac foi à minha terra e precisava de ajuda com alguns trabalhos de manutenção”, relembra o jovem. Nesta vida itinerante acompanha-o a companheira e o filho com um ano de idade. O rendimento mensal do agregado familiar ronda os 400 euros.
Ciente das carências de algumas famílias com filhos menores, a Câmara Municipal de Viana do Castelo decidiu oferecer refeições aos artistas e colaboradores do circo mais desfavorecidos. “Estamos a dar apoio ao circo desde o dia 25 de Março, com alimentação e cabazes. Durante a semana são alimentados pela cantina das nossas escolas. Percebemos que tinham dificuldades porque, quando vieram levantar as licenças, já não podiam ser realizados este tipo de espectáculos [devido ao estado de emergência]. Estas famílias não tinham lugar para onde ir. Pedimos aos nossos serviços sociais para fazerem um acompanhamento regular para que não existam dificuldades”, adiantou ao PÚBLICO o presidente da Câmara de Viana do Castelo, José Maria Costa.
Dani Silva é um dos que recebe os apoios municipais. “Trazem-nos aqui a comida”, descreve, enquanto nos guia até à sua caravana. Num pequeno espaço faz toda a sua vida: sala de estar e cozinha estão paredes-meias com o quarto onde a cama é partilhada com a esposa e o bebé. Fora da caravana ergueu uma pequena tenda para fazer um espaço exterior onde pode brincar com o filho. “Não me sinto sufocado aqui. Gosto do circo e não me arrependo de ter saído [de casa]. Posso dizer que me tratam melhor do que muita gente da minha família”, afirma, de sorriso nos lábios.
Após abandonar o espaço onde vive, o bracarense mostra energicamente o complexo jogo de Tetris que permitiu acomodar no menor espaço possível as 40 viaturas do circo Flic-Flac e do circo Cristal que, desde o Natal, estão a fazer uma digressão conjunta. No centro do terreno da marina de Viana do Castelo onde estão instaladas as famílias, ergue-se uma lona azul que serve de espaço de treino para os artistas. De um lado está uma cama elástica, uma bicicleta elíptica e brinquedos de criança espalhados pelo chão. No lado oposto da estrutura está uma mesa com um baralho de cartas, desgastado pelos inúmeros jogos de sueca disputados nos últimos dois meses de inactividade.
“Como os artistas ganham todos por espectáculo, há algumas famílias com dificuldades”, admite Amílcar Carvalho, proprietário do Flic-Flac. Ao contrário do circo Cláudio, os espectáculos instalados em Viana do Castelo não usam animais. Contudo, apesar de não terem essa despesa com alimentação e cuidados veterinários, Amílcar prevê que a electricidade, água e o imposto único de circulação das viaturas causarão um rombo grande quando for levantado o estado de emergência: “Estamos a sobreviver com o dinheiro que poupamos. Tivemos sorte de, nas semanas antes da pandemia, termos feito boas casas. Mas, a este ritmo, aguentamos o circo mais um mês.”
Circos vão pedir subsídios
Era com orgulho que, nos últimos anos, os proprietários assumiam que os circos conseguiam sobreviver sem apoios do Estado. Porém, a situação agravou-se exponencialmente e está já a ser construída uma entidade com o objectivo de pedir ao Ministério da Cultura apoios para os circos tradicionais. A Associação Portuguesa de Empresas e Artistas de Circo (APEAC) está neste momento a ser montada e Carlos Carvalho, director do Circolândia e um dos fundadores do grupo, diz ao PÚBLICO que o objectivo passa por “colocar o circo onde ele deveria estar”.
“Os circos não têm direito aos subsídios na área da Cultura. É o único país do mundo onde isto acontece. É um facto também que nunca houve muita união entre o pessoal do circo, mas esta pandemia uniu as pessoas. Estamos a ser alvo de injustiças há muitos anos e claro que em tempo de crise [a situação] agrava-se muito mais”, explica Carlos Carvalho. O impulsionador e porta-voz provisório da APEAC diz que há uma “grande adesão” dos circos a este movimento.
Apesar dos contactos feitos pelo PÚBLICO, o Ministério da Cultura não prestou qualquer esclarecimento sobre as questões relacionadas com as actividades e reivindicações dos empresários de circo.
Apesar de apoiar totalmente a ideia, Claudio Torralvo não esconde algum pessimismo quanto ao objectivo de pedir subsídios ao Ministério da Cultura, mas diz que a necessidade é tanta que até estaria disposto a abdicar dos animais, caso fosse assegurada a subsistência da actividade: “Aceitaria, com muito custo, porque muitas terras estão a proibir a utilização de animais no espectáculo. Mas repare numa coisa: o público de circo gosta de animais. E para serem expostos têm de ser bem tratados, não acha?”
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Também Amílcar Carvalho, do Flic-Flac, considera que será difícil captar os apoios do Estado, afirmando que tão importante quanto os apoios do Governo seria que os custos das licenças aplicadas pelos municípios fossem suavizados.
Carlos Carvalho é sensível à apreensão dos colegas, mas acredita que a APEAC terá capacidade de fazer a diferença: “As pessoas estão um bocado resignadas, porque [a falta de apoios] acontece há muitos e muitos anos. Mas temos fé que este movimento vá mudar alguma coisa.”
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14.12.15
Circo, a “máquina da felicidade” onde os animais já não entram
Texto de Mariana Correia Pinto, in Público on-line (P3)
Em Portugal, apenas o Funchal proíbe formalmente a utilização de animais nos circos. Mas há mais autarquias a darem passos nesse sentido e no programa de Governo, por influência do PAN, já se fala de “bem-estar animal”. No Coliseu do Porto, pela primeira vez, o circo de Natal não tem animais. Está o circo a transformar-se?
Depois da estranheza, o progresso. Eduardo Paz Barroso não perdeu muito tempo a imaginar possíveis perdas de bilheteira ou lamentos. Para o presidente do Coliseu do Porto, a decisão era tomada num binómio certo-errado e, por isso, não havia dúvida possível: pela primeira vez, a icónica instituição da cidade apresenta um circo onde os animais não entram. No Funchal foi decretada formalmente a proibição de utilização de animais nestes espectáculos há um ano. Lisboa, Cascais, Évora e Faro também seguem recomendações das respectivas assembleias municipais nesse sentido. Está o circo em Portugal a transformar-se?
Quando assumiu a presidência do Coliseu, em Setembro de 2014, o programa do circo de Natal desse ano estava fechado. E tinha cães e tigres como “trabalhadores”. Fascinado pelos “lindíssimos tigres”, Eduardo Paz Barroso escreveu na sua página do Facebook que aqueles animais lhe lembravam os desenhados por Júlio Pomar. Só mais tarde, “num exercício de auto-pedagogia”, se pôs a pensar nas “restrições” impostas aos bichos — e em como tudo isso estava errado e era contraditório com o conceito de circo que defendia. A reviravolta deu-se este ano, com o Coliseu a assumir, pela primeira vez, a responsabilidade exclusiva da programação do circo de Natal, banindo automaticamente os animais: um “sinal de contemporaneidade” (espreita a fotogaleria).
A 300 quilómetros de distância, o recém eleito deputado do Pessoas-Animais-Natureza (PAN), André Lourenço e Silva, aplaudiu o “exemplo bastante progressista” do Coliseu do Porto. O caminho da evolução, acredita, está já a ser feito — e teve a grande demonstração no passado 4 de Outubro, quando o PAN elegeu seu o primeiro representante no Parlamento. De resto, é olhar para a televisão ou ver o que se passa nas ruas: “Começa a ser unânime esta tendência de se abolir a utilização de animais para divertimento, o caso dos circos e das touradas”, disse ao PÚBLICO.
Nas 262 páginas do programa de Governo de António Costa, aparece apenas um bloco com cinco medidas “no domínio do bem-estar animal” — propostas que não constavam do programa inicial e foram incluídas no seguimento de conversações com o PAN. Mas em nenhuma se fala directamente do circo. André Lourenço e Silva acredita ainda assim que “o Partido Socialista, tal como outros movimentos políticos com assento na Assembleia da República, sentem já esta questão como um passo que devemos dar na evolução do bem-estar e protecção animal”. Um caminho, sublinha, já iniciado pelo PS “na gestão do município de Lisboa”.
Faltam poucos minutos para o início do espectáculo e o Coliseu do Porto vai-se compondo. A família Silva, fiel seguidora do circo de Natal da cidade, faz o aquecimento de balde de pipocas nas mãos e ignora questões de programa. “A gente quer divertir-se, com ou sem animais”, profetizam. A questão do bem-estar dos bichos foi coisa que não lhes passou pela cabeça noutros anos, admite Cristina, mãe de dois. A resposta está-lhe, ainda assim, na ponta da língua: “Se me dizem que os animais sofrem digo já que sou contra, gosto muito de bichos. Mas também já ouvi dizer que nem sempre é assim.” Junto ao palco circular montado no centro da sala de espectáculos até ao dia 3 de Janeiro, Carolina, quatro anos, está prestes a estrear-se como espectadora de circo. António e Mónica, os pais, consideram a questão do bem-estar animal “importante” mas querem os “extremismos” fora da equação: “Se formos para extremos nem um cavalo podemos montar”, diz o pai de Carolina. A formula podia ser qualquer coisa como: “Retirar os animais do seu ‘habitat’ natural, não. Mas se já nascem em cativeiro e forem bem tratados, sim.”
Cresce a ansiedade nos bastidores. Enquanto uns ensaiam exercícios de aquecimento ou fazem malabarismos em tom de brincadeira e relaxamento, Rosa Sáez, palhaça da companhia Los Quixotes, tenta adormecer o filho de um ano num carrinho de bebé. Por ali, mas longe do palco, há um caniche branco a marcar presença. “Apenas Cão de companhia”, viajante desde Madrid com o trio de palhaços do qual Rosa faz parte. Em Espanha, como em Portugal, não há um regra única sobre a utilização de animais em espectáculos de diversão — numas regiões é permitido, noutras não. É um “tema delicado”, consideram. Palavra a Ramón Merlo: “Está a desaparecer e penso que deve desaparecer, sobretudo quando falamos de animais selvagens. Mas um cãozinho a fazer uma participação não me choca.”
A mudar desde 2009
A sobrevivência de famílias onde tradicionalmente o circo se fez sempre com animais não é alheia à posição dos espanhóis. “Vemos gente a viver disso e pensamos: e agora, como vão sobreviver?”, verbaliza Joshean Mauleón. A questão põe em cima da mesa as preocupações manifestadas por várias companhias portuguesas ao longo dos últimos anos — sem animais, dizem, o negócio não corre da mesma forma e as portas do circo hão-de fechar. Há sete anos, em 2009, uma nova portaria proibiu a aquisição de animais selvagens pelos circos e a reprodução dos mesmos. Todas as espécies de primatas, de ursos e de felinos (excepto o gato), otárias, focas, hipopótamos, pinguins ou crocodilos levaram um carimbo de “protegidos”. Mas quem já tinha animais selvagens teve autorização para os manter.
Os animais utilizados nos circos “vivem anos de encarceramento, confinados em espaços exíguos”, lamenta André Lourenço e Silva. E o facto de nunca terem conhecido outra realidade não lhes diminuiu o sofrimento: “A observação do comportamento destes animais, como por exemplo os movimentos repetitivos e distúrbios psicológicos diversos, estudados por médicos veterinários e biólogos, demonstra a vida de escravidão forçada a que são sujeitos.”
Durante muitos anos, na Madeira, viram-se circos com animais no Natal e como companhia permanente das campanhas eleitorais de Alberto João Jardim. Ironicamente, em Novembro de 2014, a capital madeirense deu um passo inédito no país: o independente Paulo Cafôfo aceitou a proposta do PAN e inscreveu na lei: sim aos circos, não aos animais nos circos. O “efeito dominó” pretendido acabou por não ocorrer completamente, mas, sem o proibir formalmente, algumas autarquias (Lisboa, Cascais, Évora e Faro) deram passos no sentido da não utilização, a partir de recomendações das respectivas Assembleias Municipais.
O trabalho de activistas um pouco por todo o mundo tem contribuído de forma significativa para a mudança. Áustria, Holanda, Suécia, Índia, Finlândia, Suíça, Dinamarca, Argentina e algumas zonas dos Estados Unidos — para citar apenas alguns exemplos — proibiram a utilização de animais em circos.
A família de Alberto Zavatta começou a fazer circo em 1815. O bisavô, o avô e o pai nasceram e cresceram no circo e levaram o italiano, agora com 40 anos, para dentro desse mundo (como Alberto levará provavelmente o filho, que completa um ano nesta segunda-feira, dia 14). Uma "tradição bonita”, diz o mágico e equilibrista e a única tradição aceitável em matéria de circo. “Vivi neste universo a vida toda e sei que as pessoas se habituaram a ver animais. Mas o futuro deve ser sem eles. Em Itália isso é uma dor de cabeça. Mas a mentalidade tem de mudar. Vai demorar mas o caminho deve ser nesse sentido.”
E se o público estranhar? “É bom que estranhem. Se não estranhássemos não havia progresso nem desenvolvimento”, responde assertivo Eduardo Paz Barroso. Nesta “pequena máquina da felicidade” chamada circo quer-se, mais do que tudo, “manter o espírito Flâneur” — “olhar para cima e sentirmo-nos parte desta realidade”, diz o presidente, olhos postos na imponente sala portuense. Contribuir para “mudar mentalidades” deve ser uma missão do circo, mais não seja pelo vasto público infantil que o segue: “Não é educativo trazer crianças a um circo onde se vêem animais em jaulas. É um estereótipo pobre. Ao contrário do circo, um mundo riquíssimo. Podia sem qualquer esforço, construir cinco ou dez alinhamentos sem precisar de animais.”
Durante duas horas, houve uma trupe sincronizada de equilibristas do Circo Nacional de Xangai, actuações impressionantes e vertiginosas dos australianos The Flying Aces, magia e equilibrismo pela dupla italiana Alberto e Nancy Zavatta, acrobacias das americanas Nicole Burgio, do Cirque du Soleil, e Shannon Mc Kenna e, claro, palhaços, com os espanhóis Los Quixotes. Depois de várias rondas de actuações e a apenas uma do final, o apresentador do circo do Coliseu arriscou uma pergunta de onde podia ter saído uma resposta incómoda como “leões” ou “tigres”. “O que falta agora, para fechar em grande?”. E os pequenos responderam num grito o que Coliseu queria ouvir: “Os palhaços!”
Em Portugal, apenas o Funchal proíbe formalmente a utilização de animais nos circos. Mas há mais autarquias a darem passos nesse sentido e no programa de Governo, por influência do PAN, já se fala de “bem-estar animal”. No Coliseu do Porto, pela primeira vez, o circo de Natal não tem animais. Está o circo a transformar-se?
Depois da estranheza, o progresso. Eduardo Paz Barroso não perdeu muito tempo a imaginar possíveis perdas de bilheteira ou lamentos. Para o presidente do Coliseu do Porto, a decisão era tomada num binómio certo-errado e, por isso, não havia dúvida possível: pela primeira vez, a icónica instituição da cidade apresenta um circo onde os animais não entram. No Funchal foi decretada formalmente a proibição de utilização de animais nestes espectáculos há um ano. Lisboa, Cascais, Évora e Faro também seguem recomendações das respectivas assembleias municipais nesse sentido. Está o circo em Portugal a transformar-se?
Quando assumiu a presidência do Coliseu, em Setembro de 2014, o programa do circo de Natal desse ano estava fechado. E tinha cães e tigres como “trabalhadores”. Fascinado pelos “lindíssimos tigres”, Eduardo Paz Barroso escreveu na sua página do Facebook que aqueles animais lhe lembravam os desenhados por Júlio Pomar. Só mais tarde, “num exercício de auto-pedagogia”, se pôs a pensar nas “restrições” impostas aos bichos — e em como tudo isso estava errado e era contraditório com o conceito de circo que defendia. A reviravolta deu-se este ano, com o Coliseu a assumir, pela primeira vez, a responsabilidade exclusiva da programação do circo de Natal, banindo automaticamente os animais: um “sinal de contemporaneidade” (espreita a fotogaleria).
A 300 quilómetros de distância, o recém eleito deputado do Pessoas-Animais-Natureza (PAN), André Lourenço e Silva, aplaudiu o “exemplo bastante progressista” do Coliseu do Porto. O caminho da evolução, acredita, está já a ser feito — e teve a grande demonstração no passado 4 de Outubro, quando o PAN elegeu seu o primeiro representante no Parlamento. De resto, é olhar para a televisão ou ver o que se passa nas ruas: “Começa a ser unânime esta tendência de se abolir a utilização de animais para divertimento, o caso dos circos e das touradas”, disse ao PÚBLICO.
Nas 262 páginas do programa de Governo de António Costa, aparece apenas um bloco com cinco medidas “no domínio do bem-estar animal” — propostas que não constavam do programa inicial e foram incluídas no seguimento de conversações com o PAN. Mas em nenhuma se fala directamente do circo. André Lourenço e Silva acredita ainda assim que “o Partido Socialista, tal como outros movimentos políticos com assento na Assembleia da República, sentem já esta questão como um passo que devemos dar na evolução do bem-estar e protecção animal”. Um caminho, sublinha, já iniciado pelo PS “na gestão do município de Lisboa”.
Faltam poucos minutos para o início do espectáculo e o Coliseu do Porto vai-se compondo. A família Silva, fiel seguidora do circo de Natal da cidade, faz o aquecimento de balde de pipocas nas mãos e ignora questões de programa. “A gente quer divertir-se, com ou sem animais”, profetizam. A questão do bem-estar dos bichos foi coisa que não lhes passou pela cabeça noutros anos, admite Cristina, mãe de dois. A resposta está-lhe, ainda assim, na ponta da língua: “Se me dizem que os animais sofrem digo já que sou contra, gosto muito de bichos. Mas também já ouvi dizer que nem sempre é assim.” Junto ao palco circular montado no centro da sala de espectáculos até ao dia 3 de Janeiro, Carolina, quatro anos, está prestes a estrear-se como espectadora de circo. António e Mónica, os pais, consideram a questão do bem-estar animal “importante” mas querem os “extremismos” fora da equação: “Se formos para extremos nem um cavalo podemos montar”, diz o pai de Carolina. A formula podia ser qualquer coisa como: “Retirar os animais do seu ‘habitat’ natural, não. Mas se já nascem em cativeiro e forem bem tratados, sim.”
Cresce a ansiedade nos bastidores. Enquanto uns ensaiam exercícios de aquecimento ou fazem malabarismos em tom de brincadeira e relaxamento, Rosa Sáez, palhaça da companhia Los Quixotes, tenta adormecer o filho de um ano num carrinho de bebé. Por ali, mas longe do palco, há um caniche branco a marcar presença. “Apenas Cão de companhia”, viajante desde Madrid com o trio de palhaços do qual Rosa faz parte. Em Espanha, como em Portugal, não há um regra única sobre a utilização de animais em espectáculos de diversão — numas regiões é permitido, noutras não. É um “tema delicado”, consideram. Palavra a Ramón Merlo: “Está a desaparecer e penso que deve desaparecer, sobretudo quando falamos de animais selvagens. Mas um cãozinho a fazer uma participação não me choca.”
A mudar desde 2009
A sobrevivência de famílias onde tradicionalmente o circo se fez sempre com animais não é alheia à posição dos espanhóis. “Vemos gente a viver disso e pensamos: e agora, como vão sobreviver?”, verbaliza Joshean Mauleón. A questão põe em cima da mesa as preocupações manifestadas por várias companhias portuguesas ao longo dos últimos anos — sem animais, dizem, o negócio não corre da mesma forma e as portas do circo hão-de fechar. Há sete anos, em 2009, uma nova portaria proibiu a aquisição de animais selvagens pelos circos e a reprodução dos mesmos. Todas as espécies de primatas, de ursos e de felinos (excepto o gato), otárias, focas, hipopótamos, pinguins ou crocodilos levaram um carimbo de “protegidos”. Mas quem já tinha animais selvagens teve autorização para os manter.
Os animais utilizados nos circos “vivem anos de encarceramento, confinados em espaços exíguos”, lamenta André Lourenço e Silva. E o facto de nunca terem conhecido outra realidade não lhes diminuiu o sofrimento: “A observação do comportamento destes animais, como por exemplo os movimentos repetitivos e distúrbios psicológicos diversos, estudados por médicos veterinários e biólogos, demonstra a vida de escravidão forçada a que são sujeitos.”
Durante muitos anos, na Madeira, viram-se circos com animais no Natal e como companhia permanente das campanhas eleitorais de Alberto João Jardim. Ironicamente, em Novembro de 2014, a capital madeirense deu um passo inédito no país: o independente Paulo Cafôfo aceitou a proposta do PAN e inscreveu na lei: sim aos circos, não aos animais nos circos. O “efeito dominó” pretendido acabou por não ocorrer completamente, mas, sem o proibir formalmente, algumas autarquias (Lisboa, Cascais, Évora e Faro) deram passos no sentido da não utilização, a partir de recomendações das respectivas Assembleias Municipais.
O trabalho de activistas um pouco por todo o mundo tem contribuído de forma significativa para a mudança. Áustria, Holanda, Suécia, Índia, Finlândia, Suíça, Dinamarca, Argentina e algumas zonas dos Estados Unidos — para citar apenas alguns exemplos — proibiram a utilização de animais em circos.
A família de Alberto Zavatta começou a fazer circo em 1815. O bisavô, o avô e o pai nasceram e cresceram no circo e levaram o italiano, agora com 40 anos, para dentro desse mundo (como Alberto levará provavelmente o filho, que completa um ano nesta segunda-feira, dia 14). Uma "tradição bonita”, diz o mágico e equilibrista e a única tradição aceitável em matéria de circo. “Vivi neste universo a vida toda e sei que as pessoas se habituaram a ver animais. Mas o futuro deve ser sem eles. Em Itália isso é uma dor de cabeça. Mas a mentalidade tem de mudar. Vai demorar mas o caminho deve ser nesse sentido.”
E se o público estranhar? “É bom que estranhem. Se não estranhássemos não havia progresso nem desenvolvimento”, responde assertivo Eduardo Paz Barroso. Nesta “pequena máquina da felicidade” chamada circo quer-se, mais do que tudo, “manter o espírito Flâneur” — “olhar para cima e sentirmo-nos parte desta realidade”, diz o presidente, olhos postos na imponente sala portuense. Contribuir para “mudar mentalidades” deve ser uma missão do circo, mais não seja pelo vasto público infantil que o segue: “Não é educativo trazer crianças a um circo onde se vêem animais em jaulas. É um estereótipo pobre. Ao contrário do circo, um mundo riquíssimo. Podia sem qualquer esforço, construir cinco ou dez alinhamentos sem precisar de animais.”
Durante duas horas, houve uma trupe sincronizada de equilibristas do Circo Nacional de Xangai, actuações impressionantes e vertiginosas dos australianos The Flying Aces, magia e equilibrismo pela dupla italiana Alberto e Nancy Zavatta, acrobacias das americanas Nicole Burgio, do Cirque du Soleil, e Shannon Mc Kenna e, claro, palhaços, com os espanhóis Los Quixotes. Depois de várias rondas de actuações e a apenas uma do final, o apresentador do circo do Coliseu arriscou uma pergunta de onde podia ter saído uma resposta incómoda como “leões” ou “tigres”. “O que falta agora, para fechar em grande?”. E os pequenos responderam num grito o que Coliseu queria ouvir: “Os palhaços!”
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