Bárbara Wong, in Público on-line
Inquérito a 1131 pais revela que oito em cada dez preocupa-se com a felicidade futura dos filhos.
As crianças portuguesas são felizes mas, à medida que vão crescendo, a percentagem de infelicidade aumenta, revela um inquérito promovido pela Imaginarium sobre “A felicidade e a infância”, conhecido nesta quarta-feira, em Lisboa. Também a Ikea lançou o seu "Play Report 2017" para o qual entrevistou mais de 350 crianças e adultos na Alemanha, China e EUA para compreender o papel da brincadeira na vida das pessoas.
Segundo o inquérito levado a cabo pela Imaginarium a 1131 pais, oito em cada dez preocupam-se com a felicidade futura dos filhos. Aliás, mostram-se mesmo “muito preocupados” e a maioria acredita que os filhos são “felizes” (20,2%) ou “muito felizes” (51,6%), há mesmo um quinto que diz que o seu filho “é a criança mais feliz do mundo”, apenas 8,8% diz que é “normal, às vezes feliz e outras não” e só 0,1% confessa que o filho é “muito triste”.
Contudo, os níveis de felicidade das crianças variam conforme a idade e os dados mostram que à medida que crescem vão tornando-se mais infelizes. As faixas etárias analisadas foram dos 0 aos 2, dos 3 aos 4, dos 5 aos 6 e dos 7 aos 8 anos. São estes últimos que são mais infelizes (15,2%) – a percentagem de infelicidade vai decrescendo com a idade situando-se nos 6,4% nas crianças entre os 0 e os 2 anos.
Para Rui Lima, pedagogo e convidado pela Imaginarium para comentar o estudo, é imposta uma “crescente pressão” às crianças, quer pelos pais quer pelos professores, onde “o desempenho académico, a competição entre pares e a necessidade de alcançar a perfeição em todas as actividades realizadas são uma constante”, logo, têm um “impacto negativo na felicidade das crianças”, defende num comunicado enviado às redacções.
E o que faz os meninos portugueses infelizes? Não passar tempo suficiente com os pais (26,3%), não ter tempo suficiente para brincar (21,3%) ou ficar de castigo (16,4%), respondem os pais inquiridos. As crianças serão mais felizes se se desenvolverem num ambiente escolar e familiar em que se sintam valorizadas e queridas (45,2%), se passarem mais tempo em família (34,8%) e se os pais as deixarem “explorar o mundo através da brincadeira (17%), respondem ainda os pais.
Falta mais tempo para a família
Praticamente todos os pais (99,8%) respondem que a felicidade dos filhos passa pelo tempo de qualidade partilhado em família, mas pouco mais de metade (51%) sente que passa pouco tempo de qualidade com os filhos e seis em cada dez pais acreditam que os filhos sentem a sua falta. Aliás, a maioria (89,8%) reconhece que tem dificuldade em conciliar a vida profissional com a pessoal e acredita que um horário laboral mais flexível lhes permitiria aumentar o tempo de qualidade e brincar com os filhos.
Quando questionados sobre como contribuem para a felicidade dos filhos, os pais respondem que é ouvindo-os e fazendo-os sentir-se queridos (33,4%) e passando mais tempo com eles (28,1%). Para 14,3% a felicidade passa por elogios e incentivos para que os filhos façam as coisas bem.
Durante a semana, o tempo mais feliz que pais e filhos compartilham é o de antes de ir deitar e, ao fim-de-semana, são os passeios que fazem as delicias dos mais novos. Este inquérito, que a Imaginarium defende representar o todo nacional, conclui que as crianças portuguesas são “extremamente familiares” porque gostam de fazer planos com os pais e passar tempo com os mesmos.
A Imaginarium pergunta ainda aos pais que tipo de brinquedo faz os filhos mais felizes e as bicicletas e veiculos com rodas (38%) surgem à cabeça, seguido da música, arte e trabalhos manuais (35,2%), os jogos de construção e lógica (30,8%) e as cozinhas e profissões (30,6%). Os ecrãs, televisões, Ipad, vídeojogos e telemóveis (19,4%) surgem na oitava posição.
"Os brinquedos devem apelar ao desenvolvimento de diferentes competências, tanto ao nível físico como intelectual. Desenvolvendo essas competências, a criança será capaz de relacionar-se melhor consigo mesma, com os outros e com o mundo. Daí a importância de brinquedos que estimulem os sentidos nos primeiros anos de vida", defende Rui Lima no comunicado.
Também a marca sueca Ikea fez o seu terceiro relatório – depois de 2010 e 2015 – sobre o brincar com o objectivo de perceber melhor o papel desta actividade no desenvolvimento das crinças e na vida em casa. Para isso, entrevistou mais de 350 pessoas na Alemanha (Berlim), China (Pequim) e Nova Jérsia (EUA), entre os 2 e os 90 anos, e propõe cinco definições para brincar: "brincar para reparar", ou seja, para recuperar do stress do dia-a-dia e as sugestões passam por actividades que promovam o bem-estar das pessoas como o ioga ou o tai-chi, mas também a jardinagem ou um passeio.
"Brincar para conectar" é a segunda definição. Num tempo em que o trabalho interfere por vezes na vida pessoal, o brincar proporciona a possibilidade de abrandar e de as pessoas se aproximarem da família ou dos amigos. As sugestões passam por ir a um bar fazer karaoke ou fazer jogos tradicionais como os de tabuleiro ou as cartas, o que permite que as pessoas estejam ligadas sem ser pela tecnologia, propõe o relatório.
As pessoas precisam de momentos de libertar, por isso, "brincar para libertar" é a terceira conclusão da marca, que sugere uma ida ao teatro ou a um parque temático. "Brincar para explorar" é a quarta proposta, explorar mundos reais ou imaginários, viajar ou brincar ao "faz-de-conta". Por fim, "brincar para expressar" que aposta na criatividade e nas artes, da pintura à música.
"Brincar começará a aparecer, cada vez mais, em todos os aspectos das nossas vidas. Desde o local de trabalho ao ginásio, as pessoas irão procurar brincar em espaços e momentos onde tradicionalmente não o fariam", conclui o comunicado da Ikea.
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9.11.17
21.3.17
Noruega é o país mais feliz do mundo
in Diário de Notícias
Relatório sobre felicidade no mundo coloca países nórdicos à frente. Portugal ocupa a 89.ª posição
A Noruega ultrapassou a Dinamarca como o país mais feliz do mundo. Segundo o último relatório sobre a felicidade mundial, os países nórdicos ocupam cinco das dez primeiras posições. Portugal, numa lista de 155 países, surge na 89.ª posição do ranking produzido pelas Nações Unidas.
Depois da Noruega e Dinamarca, seguem-se a Islândia, Suíça, Finlândia, Holanda, Canadá, Nova Zelândia, Austrália e Suécia como os países onde há mais confiança social, igualdade e bem-estar dos respetivos cidadãos. No fundo da tabela estão o Sudão, Guiné, Libéria, Ruanda, Tanzânia, Burundi e a República Central Africana.
"Os países mais felizes são aqueles em que há um equilíbrio saudável na prosperidade e um alto capital social, o que leva a uma confiança na sociedade, baixos níveis de desigualdade e confiança no governo", refere o documento.
Em 2016, Portugal ocupava a 94.ª posição, ou seja este ano recuperou cinco. Importa ainda explicar quais os fatores que os investigadores tomam em consideração para definir o índice de felicidade de cada país. Ao todo, são seis: o PIB per capita, ou seja, a riqueza por pessoa, a expectativa de anos de vida saudável, o apoio social da comunidade, a confiança - medida através da perceção de corrupção -, a liberdade para tomar decisões e ainda a generosidade.
Aos residentes de cada país é pedido que avaliem, numa escala de zero a dez, estes seis parâmetros, que depois são contabilizados para uma média final.
Relatório sobre felicidade no mundo coloca países nórdicos à frente. Portugal ocupa a 89.ª posição
A Noruega ultrapassou a Dinamarca como o país mais feliz do mundo. Segundo o último relatório sobre a felicidade mundial, os países nórdicos ocupam cinco das dez primeiras posições. Portugal, numa lista de 155 países, surge na 89.ª posição do ranking produzido pelas Nações Unidas.
Depois da Noruega e Dinamarca, seguem-se a Islândia, Suíça, Finlândia, Holanda, Canadá, Nova Zelândia, Austrália e Suécia como os países onde há mais confiança social, igualdade e bem-estar dos respetivos cidadãos. No fundo da tabela estão o Sudão, Guiné, Libéria, Ruanda, Tanzânia, Burundi e a República Central Africana.
"Os países mais felizes são aqueles em que há um equilíbrio saudável na prosperidade e um alto capital social, o que leva a uma confiança na sociedade, baixos níveis de desigualdade e confiança no governo", refere o documento.
Em 2016, Portugal ocupava a 94.ª posição, ou seja este ano recuperou cinco. Importa ainda explicar quais os fatores que os investigadores tomam em consideração para definir o índice de felicidade de cada país. Ao todo, são seis: o PIB per capita, ou seja, a riqueza por pessoa, a expectativa de anos de vida saudável, o apoio social da comunidade, a confiança - medida através da perceção de corrupção -, a liberdade para tomar decisões e ainda a generosidade.
Aos residentes de cada país é pedido que avaliem, numa escala de zero a dez, estes seis parâmetros, que depois são contabilizados para uma média final.
18.3.16
Dinamarca é o país mais feliz do mundo. Portugal está longe do topo
Rita Faria, in "Jornal de Negócios"
O relatório global da felicidade coloca a Dinamarca em primeiro entre 157 países, seguida pela Suíça e Islândia. Sete dos dez países mais felizes são na Europa. Mas Portugal está quase no último terço do ranking.
A Dinamarca ultrapassou a Suíça como o país mais feliz do mundo. O país do norte da Europa ocupa agora o primeiro lugar no "ranking" global da felicidade, com 157 países, realizado pela Sustainable Development Solutions Network (SDSN) e o Earth Institute, da Universidade de Columbia.
O relatório, divulgado esta quarta-feira, 16 de Março, coloca Portugal no 94º lugar da lista, atrás de países como o Paquistão e o Kosovo, e imediatamente à frente da Macedónia.
A seguir à Dinamarca – que no relatório anterior ocupava a terceira posição – surge a Suíça, a Islândia, a Noruega, a Finlândia, o Canadá, a Holanda, a Nova Zelândia, a Austrália e a Suécia. O que significa que sete dos dez melhores países para viver ficam na Europa.
No outro extremo do ranking estão Madagáscar, Tanzânia, Guiné, Ruanda, Benim, Afeganistão, Togo, Síria e Burundi – os dez países menos felizes do globo.
Os Estados Unidos surgem na 13ª posição, o Reino Unido na 23ª, França na 32ª e Itália na 50ª. A vizinha Espanha ocupa o lugar 37.
"Há uma mensagem muito forte para o meu país, os Estados Unidos, que é muito rico, ficou muito mais rico ao longo dos últimos 50 anos, mas não ficou mais feliz", assinalou Jeffrey Sachs, director do SDSN e assessor especial do secretário-geral da ONU, Ban Ki-moon, numa entrevista à Reuters.
Enquanto as diferenças entre os países onde as pessoas estão felizes e aqueles onde eles são não poderia ser cientificamente medido ", podemos entender por que e fazer algo sobre isso", Sachs, um dos autores do relatório, disse à Reuters em uma entrevista em Roma.
Dado que as diferenças entre os países onde as pessoas são felizes e aqueles onde não são podem ser cientificamente medidas, "podemos perceber porquê e fazer alguma coisa", acrescentou Sachs, um dos autores do relatório.
"A mensagem para os Estados Unidos é clara. Para uma sociedade que só persegue o dinheiro, estamos a perseguir as coisas erradas. O nosso tecido social está a deteriorar-se, tal como a confiança social e a fé no governo", alertou.
Com o objectivo de "examinar os fundamentos científicos" do bem-estar social, o relatório, que vai na sua quarta edição, classifica 157 países por níveis de felicidade tendo em conta factores como o PIB per capita, apoios sociais, esperança de vida, liberdade de escolha, percepção da corrupção.
"Quando os países prosseguem única e exclusivamente objectivos individuais, tais como o desenvolvimento económico em detrimento dos objectivos sociais e ambientais, os resultados podem ser altamente adversos para o bem-estar humano, e até mesmo perigoso para a sobrevivência", explica Sachs. " Nos últimos anos, muitos países têm alcançado um crescimento económico à custa de crescentes desigualdades sociais e danos graves no ambiente".
O relatório de 2016 mostra que três países em particular, Irlanda, Islândia e Japão, foram capazes de manter os seus níveis de felicidade, apesar de choques externos, como a crise económica pós-2007.
Sachs aponta para a Costa Rica, que surge na 14ª posição, à frente de muitos países mais ricos, como um exemplo de uma sociedade saudável e feliz, que não é uma potência económica.
O relatório global da felicidade coloca a Dinamarca em primeiro entre 157 países, seguida pela Suíça e Islândia. Sete dos dez países mais felizes são na Europa. Mas Portugal está quase no último terço do ranking.
A Dinamarca ultrapassou a Suíça como o país mais feliz do mundo. O país do norte da Europa ocupa agora o primeiro lugar no "ranking" global da felicidade, com 157 países, realizado pela Sustainable Development Solutions Network (SDSN) e o Earth Institute, da Universidade de Columbia.
O relatório, divulgado esta quarta-feira, 16 de Março, coloca Portugal no 94º lugar da lista, atrás de países como o Paquistão e o Kosovo, e imediatamente à frente da Macedónia.
A seguir à Dinamarca – que no relatório anterior ocupava a terceira posição – surge a Suíça, a Islândia, a Noruega, a Finlândia, o Canadá, a Holanda, a Nova Zelândia, a Austrália e a Suécia. O que significa que sete dos dez melhores países para viver ficam na Europa.
No outro extremo do ranking estão Madagáscar, Tanzânia, Guiné, Ruanda, Benim, Afeganistão, Togo, Síria e Burundi – os dez países menos felizes do globo.
Os Estados Unidos surgem na 13ª posição, o Reino Unido na 23ª, França na 32ª e Itália na 50ª. A vizinha Espanha ocupa o lugar 37.
"Há uma mensagem muito forte para o meu país, os Estados Unidos, que é muito rico, ficou muito mais rico ao longo dos últimos 50 anos, mas não ficou mais feliz", assinalou Jeffrey Sachs, director do SDSN e assessor especial do secretário-geral da ONU, Ban Ki-moon, numa entrevista à Reuters.
Enquanto as diferenças entre os países onde as pessoas estão felizes e aqueles onde eles são não poderia ser cientificamente medido ", podemos entender por que e fazer algo sobre isso", Sachs, um dos autores do relatório, disse à Reuters em uma entrevista em Roma.
Dado que as diferenças entre os países onde as pessoas são felizes e aqueles onde não são podem ser cientificamente medidas, "podemos perceber porquê e fazer alguma coisa", acrescentou Sachs, um dos autores do relatório.
"A mensagem para os Estados Unidos é clara. Para uma sociedade que só persegue o dinheiro, estamos a perseguir as coisas erradas. O nosso tecido social está a deteriorar-se, tal como a confiança social e a fé no governo", alertou.
Com o objectivo de "examinar os fundamentos científicos" do bem-estar social, o relatório, que vai na sua quarta edição, classifica 157 países por níveis de felicidade tendo em conta factores como o PIB per capita, apoios sociais, esperança de vida, liberdade de escolha, percepção da corrupção.
"Quando os países prosseguem única e exclusivamente objectivos individuais, tais como o desenvolvimento económico em detrimento dos objectivos sociais e ambientais, os resultados podem ser altamente adversos para o bem-estar humano, e até mesmo perigoso para a sobrevivência", explica Sachs. " Nos últimos anos, muitos países têm alcançado um crescimento económico à custa de crescentes desigualdades sociais e danos graves no ambiente".
O relatório de 2016 mostra que três países em particular, Irlanda, Islândia e Japão, foram capazes de manter os seus níveis de felicidade, apesar de choques externos, como a crise económica pós-2007.
Sachs aponta para a Costa Rica, que surge na 14ª posição, à frente de muitos países mais ricos, como um exemplo de uma sociedade saudável e feliz, que não é uma potência económica.
14.12.15
Circo, a “máquina da felicidade” onde os animais já não entram
Texto de Mariana Correia Pinto, in Público on-line (P3)
Em Portugal, apenas o Funchal proíbe formalmente a utilização de animais nos circos. Mas há mais autarquias a darem passos nesse sentido e no programa de Governo, por influência do PAN, já se fala de “bem-estar animal”. No Coliseu do Porto, pela primeira vez, o circo de Natal não tem animais. Está o circo a transformar-se?
Depois da estranheza, o progresso. Eduardo Paz Barroso não perdeu muito tempo a imaginar possíveis perdas de bilheteira ou lamentos. Para o presidente do Coliseu do Porto, a decisão era tomada num binómio certo-errado e, por isso, não havia dúvida possível: pela primeira vez, a icónica instituição da cidade apresenta um circo onde os animais não entram. No Funchal foi decretada formalmente a proibição de utilização de animais nestes espectáculos há um ano. Lisboa, Cascais, Évora e Faro também seguem recomendações das respectivas assembleias municipais nesse sentido. Está o circo em Portugal a transformar-se?
Quando assumiu a presidência do Coliseu, em Setembro de 2014, o programa do circo de Natal desse ano estava fechado. E tinha cães e tigres como “trabalhadores”. Fascinado pelos “lindíssimos tigres”, Eduardo Paz Barroso escreveu na sua página do Facebook que aqueles animais lhe lembravam os desenhados por Júlio Pomar. Só mais tarde, “num exercício de auto-pedagogia”, se pôs a pensar nas “restrições” impostas aos bichos — e em como tudo isso estava errado e era contraditório com o conceito de circo que defendia. A reviravolta deu-se este ano, com o Coliseu a assumir, pela primeira vez, a responsabilidade exclusiva da programação do circo de Natal, banindo automaticamente os animais: um “sinal de contemporaneidade” (espreita a fotogaleria).
A 300 quilómetros de distância, o recém eleito deputado do Pessoas-Animais-Natureza (PAN), André Lourenço e Silva, aplaudiu o “exemplo bastante progressista” do Coliseu do Porto. O caminho da evolução, acredita, está já a ser feito — e teve a grande demonstração no passado 4 de Outubro, quando o PAN elegeu seu o primeiro representante no Parlamento. De resto, é olhar para a televisão ou ver o que se passa nas ruas: “Começa a ser unânime esta tendência de se abolir a utilização de animais para divertimento, o caso dos circos e das touradas”, disse ao PÚBLICO.
Nas 262 páginas do programa de Governo de António Costa, aparece apenas um bloco com cinco medidas “no domínio do bem-estar animal” — propostas que não constavam do programa inicial e foram incluídas no seguimento de conversações com o PAN. Mas em nenhuma se fala directamente do circo. André Lourenço e Silva acredita ainda assim que “o Partido Socialista, tal como outros movimentos políticos com assento na Assembleia da República, sentem já esta questão como um passo que devemos dar na evolução do bem-estar e protecção animal”. Um caminho, sublinha, já iniciado pelo PS “na gestão do município de Lisboa”.
Faltam poucos minutos para o início do espectáculo e o Coliseu do Porto vai-se compondo. A família Silva, fiel seguidora do circo de Natal da cidade, faz o aquecimento de balde de pipocas nas mãos e ignora questões de programa. “A gente quer divertir-se, com ou sem animais”, profetizam. A questão do bem-estar dos bichos foi coisa que não lhes passou pela cabeça noutros anos, admite Cristina, mãe de dois. A resposta está-lhe, ainda assim, na ponta da língua: “Se me dizem que os animais sofrem digo já que sou contra, gosto muito de bichos. Mas também já ouvi dizer que nem sempre é assim.” Junto ao palco circular montado no centro da sala de espectáculos até ao dia 3 de Janeiro, Carolina, quatro anos, está prestes a estrear-se como espectadora de circo. António e Mónica, os pais, consideram a questão do bem-estar animal “importante” mas querem os “extremismos” fora da equação: “Se formos para extremos nem um cavalo podemos montar”, diz o pai de Carolina. A formula podia ser qualquer coisa como: “Retirar os animais do seu ‘habitat’ natural, não. Mas se já nascem em cativeiro e forem bem tratados, sim.”
Cresce a ansiedade nos bastidores. Enquanto uns ensaiam exercícios de aquecimento ou fazem malabarismos em tom de brincadeira e relaxamento, Rosa Sáez, palhaça da companhia Los Quixotes, tenta adormecer o filho de um ano num carrinho de bebé. Por ali, mas longe do palco, há um caniche branco a marcar presença. “Apenas Cão de companhia”, viajante desde Madrid com o trio de palhaços do qual Rosa faz parte. Em Espanha, como em Portugal, não há um regra única sobre a utilização de animais em espectáculos de diversão — numas regiões é permitido, noutras não. É um “tema delicado”, consideram. Palavra a Ramón Merlo: “Está a desaparecer e penso que deve desaparecer, sobretudo quando falamos de animais selvagens. Mas um cãozinho a fazer uma participação não me choca.”
A mudar desde 2009
A sobrevivência de famílias onde tradicionalmente o circo se fez sempre com animais não é alheia à posição dos espanhóis. “Vemos gente a viver disso e pensamos: e agora, como vão sobreviver?”, verbaliza Joshean Mauleón. A questão põe em cima da mesa as preocupações manifestadas por várias companhias portuguesas ao longo dos últimos anos — sem animais, dizem, o negócio não corre da mesma forma e as portas do circo hão-de fechar. Há sete anos, em 2009, uma nova portaria proibiu a aquisição de animais selvagens pelos circos e a reprodução dos mesmos. Todas as espécies de primatas, de ursos e de felinos (excepto o gato), otárias, focas, hipopótamos, pinguins ou crocodilos levaram um carimbo de “protegidos”. Mas quem já tinha animais selvagens teve autorização para os manter.
Os animais utilizados nos circos “vivem anos de encarceramento, confinados em espaços exíguos”, lamenta André Lourenço e Silva. E o facto de nunca terem conhecido outra realidade não lhes diminuiu o sofrimento: “A observação do comportamento destes animais, como por exemplo os movimentos repetitivos e distúrbios psicológicos diversos, estudados por médicos veterinários e biólogos, demonstra a vida de escravidão forçada a que são sujeitos.”
Durante muitos anos, na Madeira, viram-se circos com animais no Natal e como companhia permanente das campanhas eleitorais de Alberto João Jardim. Ironicamente, em Novembro de 2014, a capital madeirense deu um passo inédito no país: o independente Paulo Cafôfo aceitou a proposta do PAN e inscreveu na lei: sim aos circos, não aos animais nos circos. O “efeito dominó” pretendido acabou por não ocorrer completamente, mas, sem o proibir formalmente, algumas autarquias (Lisboa, Cascais, Évora e Faro) deram passos no sentido da não utilização, a partir de recomendações das respectivas Assembleias Municipais.
O trabalho de activistas um pouco por todo o mundo tem contribuído de forma significativa para a mudança. Áustria, Holanda, Suécia, Índia, Finlândia, Suíça, Dinamarca, Argentina e algumas zonas dos Estados Unidos — para citar apenas alguns exemplos — proibiram a utilização de animais em circos.
A família de Alberto Zavatta começou a fazer circo em 1815. O bisavô, o avô e o pai nasceram e cresceram no circo e levaram o italiano, agora com 40 anos, para dentro desse mundo (como Alberto levará provavelmente o filho, que completa um ano nesta segunda-feira, dia 14). Uma "tradição bonita”, diz o mágico e equilibrista e a única tradição aceitável em matéria de circo. “Vivi neste universo a vida toda e sei que as pessoas se habituaram a ver animais. Mas o futuro deve ser sem eles. Em Itália isso é uma dor de cabeça. Mas a mentalidade tem de mudar. Vai demorar mas o caminho deve ser nesse sentido.”
E se o público estranhar? “É bom que estranhem. Se não estranhássemos não havia progresso nem desenvolvimento”, responde assertivo Eduardo Paz Barroso. Nesta “pequena máquina da felicidade” chamada circo quer-se, mais do que tudo, “manter o espírito Flâneur” — “olhar para cima e sentirmo-nos parte desta realidade”, diz o presidente, olhos postos na imponente sala portuense. Contribuir para “mudar mentalidades” deve ser uma missão do circo, mais não seja pelo vasto público infantil que o segue: “Não é educativo trazer crianças a um circo onde se vêem animais em jaulas. É um estereótipo pobre. Ao contrário do circo, um mundo riquíssimo. Podia sem qualquer esforço, construir cinco ou dez alinhamentos sem precisar de animais.”
Durante duas horas, houve uma trupe sincronizada de equilibristas do Circo Nacional de Xangai, actuações impressionantes e vertiginosas dos australianos The Flying Aces, magia e equilibrismo pela dupla italiana Alberto e Nancy Zavatta, acrobacias das americanas Nicole Burgio, do Cirque du Soleil, e Shannon Mc Kenna e, claro, palhaços, com os espanhóis Los Quixotes. Depois de várias rondas de actuações e a apenas uma do final, o apresentador do circo do Coliseu arriscou uma pergunta de onde podia ter saído uma resposta incómoda como “leões” ou “tigres”. “O que falta agora, para fechar em grande?”. E os pequenos responderam num grito o que Coliseu queria ouvir: “Os palhaços!”
Em Portugal, apenas o Funchal proíbe formalmente a utilização de animais nos circos. Mas há mais autarquias a darem passos nesse sentido e no programa de Governo, por influência do PAN, já se fala de “bem-estar animal”. No Coliseu do Porto, pela primeira vez, o circo de Natal não tem animais. Está o circo a transformar-se?
Depois da estranheza, o progresso. Eduardo Paz Barroso não perdeu muito tempo a imaginar possíveis perdas de bilheteira ou lamentos. Para o presidente do Coliseu do Porto, a decisão era tomada num binómio certo-errado e, por isso, não havia dúvida possível: pela primeira vez, a icónica instituição da cidade apresenta um circo onde os animais não entram. No Funchal foi decretada formalmente a proibição de utilização de animais nestes espectáculos há um ano. Lisboa, Cascais, Évora e Faro também seguem recomendações das respectivas assembleias municipais nesse sentido. Está o circo em Portugal a transformar-se?
Quando assumiu a presidência do Coliseu, em Setembro de 2014, o programa do circo de Natal desse ano estava fechado. E tinha cães e tigres como “trabalhadores”. Fascinado pelos “lindíssimos tigres”, Eduardo Paz Barroso escreveu na sua página do Facebook que aqueles animais lhe lembravam os desenhados por Júlio Pomar. Só mais tarde, “num exercício de auto-pedagogia”, se pôs a pensar nas “restrições” impostas aos bichos — e em como tudo isso estava errado e era contraditório com o conceito de circo que defendia. A reviravolta deu-se este ano, com o Coliseu a assumir, pela primeira vez, a responsabilidade exclusiva da programação do circo de Natal, banindo automaticamente os animais: um “sinal de contemporaneidade” (espreita a fotogaleria).
A 300 quilómetros de distância, o recém eleito deputado do Pessoas-Animais-Natureza (PAN), André Lourenço e Silva, aplaudiu o “exemplo bastante progressista” do Coliseu do Porto. O caminho da evolução, acredita, está já a ser feito — e teve a grande demonstração no passado 4 de Outubro, quando o PAN elegeu seu o primeiro representante no Parlamento. De resto, é olhar para a televisão ou ver o que se passa nas ruas: “Começa a ser unânime esta tendência de se abolir a utilização de animais para divertimento, o caso dos circos e das touradas”, disse ao PÚBLICO.
Nas 262 páginas do programa de Governo de António Costa, aparece apenas um bloco com cinco medidas “no domínio do bem-estar animal” — propostas que não constavam do programa inicial e foram incluídas no seguimento de conversações com o PAN. Mas em nenhuma se fala directamente do circo. André Lourenço e Silva acredita ainda assim que “o Partido Socialista, tal como outros movimentos políticos com assento na Assembleia da República, sentem já esta questão como um passo que devemos dar na evolução do bem-estar e protecção animal”. Um caminho, sublinha, já iniciado pelo PS “na gestão do município de Lisboa”.
Faltam poucos minutos para o início do espectáculo e o Coliseu do Porto vai-se compondo. A família Silva, fiel seguidora do circo de Natal da cidade, faz o aquecimento de balde de pipocas nas mãos e ignora questões de programa. “A gente quer divertir-se, com ou sem animais”, profetizam. A questão do bem-estar dos bichos foi coisa que não lhes passou pela cabeça noutros anos, admite Cristina, mãe de dois. A resposta está-lhe, ainda assim, na ponta da língua: “Se me dizem que os animais sofrem digo já que sou contra, gosto muito de bichos. Mas também já ouvi dizer que nem sempre é assim.” Junto ao palco circular montado no centro da sala de espectáculos até ao dia 3 de Janeiro, Carolina, quatro anos, está prestes a estrear-se como espectadora de circo. António e Mónica, os pais, consideram a questão do bem-estar animal “importante” mas querem os “extremismos” fora da equação: “Se formos para extremos nem um cavalo podemos montar”, diz o pai de Carolina. A formula podia ser qualquer coisa como: “Retirar os animais do seu ‘habitat’ natural, não. Mas se já nascem em cativeiro e forem bem tratados, sim.”
Cresce a ansiedade nos bastidores. Enquanto uns ensaiam exercícios de aquecimento ou fazem malabarismos em tom de brincadeira e relaxamento, Rosa Sáez, palhaça da companhia Los Quixotes, tenta adormecer o filho de um ano num carrinho de bebé. Por ali, mas longe do palco, há um caniche branco a marcar presença. “Apenas Cão de companhia”, viajante desde Madrid com o trio de palhaços do qual Rosa faz parte. Em Espanha, como em Portugal, não há um regra única sobre a utilização de animais em espectáculos de diversão — numas regiões é permitido, noutras não. É um “tema delicado”, consideram. Palavra a Ramón Merlo: “Está a desaparecer e penso que deve desaparecer, sobretudo quando falamos de animais selvagens. Mas um cãozinho a fazer uma participação não me choca.”
A mudar desde 2009
A sobrevivência de famílias onde tradicionalmente o circo se fez sempre com animais não é alheia à posição dos espanhóis. “Vemos gente a viver disso e pensamos: e agora, como vão sobreviver?”, verbaliza Joshean Mauleón. A questão põe em cima da mesa as preocupações manifestadas por várias companhias portuguesas ao longo dos últimos anos — sem animais, dizem, o negócio não corre da mesma forma e as portas do circo hão-de fechar. Há sete anos, em 2009, uma nova portaria proibiu a aquisição de animais selvagens pelos circos e a reprodução dos mesmos. Todas as espécies de primatas, de ursos e de felinos (excepto o gato), otárias, focas, hipopótamos, pinguins ou crocodilos levaram um carimbo de “protegidos”. Mas quem já tinha animais selvagens teve autorização para os manter.
Os animais utilizados nos circos “vivem anos de encarceramento, confinados em espaços exíguos”, lamenta André Lourenço e Silva. E o facto de nunca terem conhecido outra realidade não lhes diminuiu o sofrimento: “A observação do comportamento destes animais, como por exemplo os movimentos repetitivos e distúrbios psicológicos diversos, estudados por médicos veterinários e biólogos, demonstra a vida de escravidão forçada a que são sujeitos.”
Durante muitos anos, na Madeira, viram-se circos com animais no Natal e como companhia permanente das campanhas eleitorais de Alberto João Jardim. Ironicamente, em Novembro de 2014, a capital madeirense deu um passo inédito no país: o independente Paulo Cafôfo aceitou a proposta do PAN e inscreveu na lei: sim aos circos, não aos animais nos circos. O “efeito dominó” pretendido acabou por não ocorrer completamente, mas, sem o proibir formalmente, algumas autarquias (Lisboa, Cascais, Évora e Faro) deram passos no sentido da não utilização, a partir de recomendações das respectivas Assembleias Municipais.
O trabalho de activistas um pouco por todo o mundo tem contribuído de forma significativa para a mudança. Áustria, Holanda, Suécia, Índia, Finlândia, Suíça, Dinamarca, Argentina e algumas zonas dos Estados Unidos — para citar apenas alguns exemplos — proibiram a utilização de animais em circos.
A família de Alberto Zavatta começou a fazer circo em 1815. O bisavô, o avô e o pai nasceram e cresceram no circo e levaram o italiano, agora com 40 anos, para dentro desse mundo (como Alberto levará provavelmente o filho, que completa um ano nesta segunda-feira, dia 14). Uma "tradição bonita”, diz o mágico e equilibrista e a única tradição aceitável em matéria de circo. “Vivi neste universo a vida toda e sei que as pessoas se habituaram a ver animais. Mas o futuro deve ser sem eles. Em Itália isso é uma dor de cabeça. Mas a mentalidade tem de mudar. Vai demorar mas o caminho deve ser nesse sentido.”
E se o público estranhar? “É bom que estranhem. Se não estranhássemos não havia progresso nem desenvolvimento”, responde assertivo Eduardo Paz Barroso. Nesta “pequena máquina da felicidade” chamada circo quer-se, mais do que tudo, “manter o espírito Flâneur” — “olhar para cima e sentirmo-nos parte desta realidade”, diz o presidente, olhos postos na imponente sala portuense. Contribuir para “mudar mentalidades” deve ser uma missão do circo, mais não seja pelo vasto público infantil que o segue: “Não é educativo trazer crianças a um circo onde se vêem animais em jaulas. É um estereótipo pobre. Ao contrário do circo, um mundo riquíssimo. Podia sem qualquer esforço, construir cinco ou dez alinhamentos sem precisar de animais.”
Durante duas horas, houve uma trupe sincronizada de equilibristas do Circo Nacional de Xangai, actuações impressionantes e vertiginosas dos australianos The Flying Aces, magia e equilibrismo pela dupla italiana Alberto e Nancy Zavatta, acrobacias das americanas Nicole Burgio, do Cirque du Soleil, e Shannon Mc Kenna e, claro, palhaços, com os espanhóis Los Quixotes. Depois de várias rondas de actuações e a apenas uma do final, o apresentador do circo do Coliseu arriscou uma pergunta de onde podia ter saído uma resposta incómoda como “leões” ou “tigres”. “O que falta agora, para fechar em grande?”. E os pequenos responderam num grito o que Coliseu queria ouvir: “Os palhaços!”
24.11.15
Contágio emocional. Felicidade e tristeza pegam-se como a gripe
in Diário de Notícias
Açao do Dia da Felicidade, feita pela Associação Terra dos Sonhos na Avenida da Liberdade, em Março do ano passado
Sentir o que os outros sentem é comum e muitas vezes inconsciente. Sucesso ou medo podem ser contagiados pelos mais próximos
Não é uma gripe, mas pode dizer-se que se contagia como tal. As emoções das outras pessoas, sobretudo as que nos são mais próximas, podem influenciar as nossas. Um mecanismo muitas vezes inconsciente que nos faz sentir alegres ou confiantes quando alguém de quem gostamos se sente assim, ou invadidos pelo medo e pela tristeza. Mas o contágio emocional, assim é chamado pela psicologia, também pode dar-se com acontecimentos extraordinários que nos fazem pensar, como os atentados de Paris.
"As emoções são contagiosas, parecem um fenómeno que apanha todos. Pode ser um fenómeno social explícito, em que é uma procura consciente de sentir o mesmo, como acontece com um jogo de futebol, pode ser social implícito em que não há consciência ou um fenómeno quase biológico, que não se percebe mas que acontece com a química da atração", explica ao DN o psicólogo Vítor Coelho.
Nos últimos anos vários investigadores, sobretudo ligados a universidades norte-americanas, têm estudado este contágio e a forma como as emoções dos outros influenciam as nossas. Caso do psicólogo da Universidade de Chicago, John Cacioppo, que refere num estudo que as pessoas que estão perto de outras que se sentem solitárias acabam por assumir essa sensação de falta de companhia. Também os investigadores Lisa Neff, da Universidade do Texas, e Benjamin Karney, da Universidade da Califórnia, estudaram o mesmo fenómeno em casais e como o stress influenciava o parceiro.
O sucesso que se pega
Os sentimentos bons também se pegam. "No caso do êxito também se aplica o contágio emocional. A razão é básica: as pessoas procuram as emoções positivas. Por exemplo, quem é vizinho do casal que ganhou o euromilhões vai querer falar disso. Procurar o sucesso faz-nos sentir bem connosco próprios. Há a forma como nos vemos, a autoestima, e a forma como gostaríamos de nos ver. Mesmo que seja inconscientemente", refere o psicólogo Vítor Coelho.
O mesmo acontece com pessoas que vivem juntas. "É a mimetização. Há uma sincronização inconsciente. Pessoas que moram juntas e que ficam com os tiques dos outros, que andam e falam da mesma maneira. Na paixão nota--se mais. Embora existam outras que querem partilhar os gostos", acrescenta, dando ainda mais um exemplo de partilha de emoções, embora mais consciente: "É o sentimento por osmose, em que nos associamos a outros, caso de um jogo de futebol ou pertencer a um clube, em que há partilha de vários elementos."
O contágio do medo e da angústia
O contágio das emoções também acontece com a angústia e com o medo. Os atentados em Paris são o exemplo mais recente. "Somos mais sensíveis às emoções das pessoas que nos são próximas, como o que aconteceu com os atentados. Há uma proximidade física, geográfica, de identificação de valores. Depois há também o pensamento atribucional, quando uma coisa muito importante ou relevante nos obriga a pensar nela. Quando vivemos o nosso dia-a-dia normal não esperamos ser arrastados pela tragédia ou por uma situação de pânico. São situações muito importantes que nos levam a pensar sobre aquilo, a refletir. Também somos contagiados pelo que os outros esperam de nós", diz Vítor Coelho.
Doenças imaginárias
São vários os casos de reações em massa sem explicações clínicas. Segundo vários investigadores não é preciso uma causa física para que as pessoas se sintam doentes. Entre alguns dos exemplos mais conhecidos está o caso de um grupo de 20 adolescentes que em 2012 mostrou sintomas semelhantes ao da síndrome de Tourette (um transtorno que se caracteriza por vários tiques de origem hereditária). O diagnóstico foi psicose coletiva. De acordo com a investigadora Martínez Selva, citada num artigo do jornal espanhol El País, são estas transmissões emocionais de psicose coletiva que podem levar pessoas a cometer atos violentos.
Há outros casos como ataques de comichão, um pouco à semelhança do que acontece com o bocejo, em que alguém se coça e a reação automática é sentir também comichão. O fenómeno foi estudado por um grupo de dermatologistas estrangeiros, que apontaram os neurónios-espelho como possíveis responsáveis por esta imitação.
O stress aqui ao lado
O stress dos outros é igualmente contagioso. Quando alguém está ansioso, nervoso, é normal que quem está ao seu lado tenha a mesma sensação. Acontece no trabalho e em casa, entre casais. Alguns estudos mostram que os homens acabam por ser mais afetados do que as mulheres, no último caso. A emoção pode ter consequências físicas, levando por exemplo a comportamentos mais compulsivos como exagerar na quantidade de comida ingerida.
Açao do Dia da Felicidade, feita pela Associação Terra dos Sonhos na Avenida da Liberdade, em Março do ano passado
Sentir o que os outros sentem é comum e muitas vezes inconsciente. Sucesso ou medo podem ser contagiados pelos mais próximos
Não é uma gripe, mas pode dizer-se que se contagia como tal. As emoções das outras pessoas, sobretudo as que nos são mais próximas, podem influenciar as nossas. Um mecanismo muitas vezes inconsciente que nos faz sentir alegres ou confiantes quando alguém de quem gostamos se sente assim, ou invadidos pelo medo e pela tristeza. Mas o contágio emocional, assim é chamado pela psicologia, também pode dar-se com acontecimentos extraordinários que nos fazem pensar, como os atentados de Paris.
"As emoções são contagiosas, parecem um fenómeno que apanha todos. Pode ser um fenómeno social explícito, em que é uma procura consciente de sentir o mesmo, como acontece com um jogo de futebol, pode ser social implícito em que não há consciência ou um fenómeno quase biológico, que não se percebe mas que acontece com a química da atração", explica ao DN o psicólogo Vítor Coelho.
Nos últimos anos vários investigadores, sobretudo ligados a universidades norte-americanas, têm estudado este contágio e a forma como as emoções dos outros influenciam as nossas. Caso do psicólogo da Universidade de Chicago, John Cacioppo, que refere num estudo que as pessoas que estão perto de outras que se sentem solitárias acabam por assumir essa sensação de falta de companhia. Também os investigadores Lisa Neff, da Universidade do Texas, e Benjamin Karney, da Universidade da Califórnia, estudaram o mesmo fenómeno em casais e como o stress influenciava o parceiro.
O sucesso que se pega
Os sentimentos bons também se pegam. "No caso do êxito também se aplica o contágio emocional. A razão é básica: as pessoas procuram as emoções positivas. Por exemplo, quem é vizinho do casal que ganhou o euromilhões vai querer falar disso. Procurar o sucesso faz-nos sentir bem connosco próprios. Há a forma como nos vemos, a autoestima, e a forma como gostaríamos de nos ver. Mesmo que seja inconscientemente", refere o psicólogo Vítor Coelho.
O mesmo acontece com pessoas que vivem juntas. "É a mimetização. Há uma sincronização inconsciente. Pessoas que moram juntas e que ficam com os tiques dos outros, que andam e falam da mesma maneira. Na paixão nota--se mais. Embora existam outras que querem partilhar os gostos", acrescenta, dando ainda mais um exemplo de partilha de emoções, embora mais consciente: "É o sentimento por osmose, em que nos associamos a outros, caso de um jogo de futebol ou pertencer a um clube, em que há partilha de vários elementos."
O contágio do medo e da angústia
O contágio das emoções também acontece com a angústia e com o medo. Os atentados em Paris são o exemplo mais recente. "Somos mais sensíveis às emoções das pessoas que nos são próximas, como o que aconteceu com os atentados. Há uma proximidade física, geográfica, de identificação de valores. Depois há também o pensamento atribucional, quando uma coisa muito importante ou relevante nos obriga a pensar nela. Quando vivemos o nosso dia-a-dia normal não esperamos ser arrastados pela tragédia ou por uma situação de pânico. São situações muito importantes que nos levam a pensar sobre aquilo, a refletir. Também somos contagiados pelo que os outros esperam de nós", diz Vítor Coelho.
Doenças imaginárias
São vários os casos de reações em massa sem explicações clínicas. Segundo vários investigadores não é preciso uma causa física para que as pessoas se sintam doentes. Entre alguns dos exemplos mais conhecidos está o caso de um grupo de 20 adolescentes que em 2012 mostrou sintomas semelhantes ao da síndrome de Tourette (um transtorno que se caracteriza por vários tiques de origem hereditária). O diagnóstico foi psicose coletiva. De acordo com a investigadora Martínez Selva, citada num artigo do jornal espanhol El País, são estas transmissões emocionais de psicose coletiva que podem levar pessoas a cometer atos violentos.
Há outros casos como ataques de comichão, um pouco à semelhança do que acontece com o bocejo, em que alguém se coça e a reação automática é sentir também comichão. O fenómeno foi estudado por um grupo de dermatologistas estrangeiros, que apontaram os neurónios-espelho como possíveis responsáveis por esta imitação.
O stress aqui ao lado
O stress dos outros é igualmente contagioso. Quando alguém está ansioso, nervoso, é normal que quem está ao seu lado tenha a mesma sensação. Acontece no trabalho e em casa, entre casais. Alguns estudos mostram que os homens acabam por ser mais afetados do que as mulheres, no último caso. A emoção pode ter consequências físicas, levando por exemplo a comportamentos mais compulsivos como exagerar na quantidade de comida ingerida.
17.11.15
No Centro está a felicidade
In TVI 24
Homens mais satisfeitos do que mulheres. Habilitações literárias também influenciam a curva da felicidade
Os residentes na região Centro do país estão globalmente satisfeitos com a sua vida, de acordo com o resultado de um inquérito promovido pela Comissão de Coordenação e Desenvolvimento Regional do Centro (CCDRC), divulgado esta terça-feira.
Segundo o barómetro regional, 69% dos habitantes estão "globalmente satisfeitos", enquanto 8% estão "muito satisfeitos", 61% "satisfeitos", 17% "não muito satisfeitos" e 14% "nada satisfeitos".
O inquérito realizado a 500 pessoas com 15 ou mais anos revelou ainda que as mulheres se encontram menos satisfeitas do que os homens e que os mais jovens estão globalmente mais satisfeitos, notando-se uma alteração de padrão a partir dos 45 anos.
Os resultados mostram ainda que de entre todas as categorias de ativos e inativos, os estudantes são os mais satisfeitos e os reformados e os desempregados os mais insatisfeitos.
Por outro lado, o grau de satisfação aumenta com as habilitações escolares dos inquiridos, sendo os residentes com mestrado/doutoramento os mais satisfeitos e os residentes com o 1.º e 2.º ciclo de ensino os mais insatisfeitos.
De acordo com os resultados, a satisfação dos residentes varia entre os 60% no Oeste e os 74% na região de Leiria, que, já em 2014, no anterior inquérito, registava a maior percentagem de inquiridos globalmente satisfeitos.
Em comunicado, a CCDRC refere que, "face aos anos anteriores, destaca-se o acréscimo significativo da percentagem de inquiridos que se consideram 'satisfeitos' e, simultaneamente, o decréscimo dos 'não muito satisfeitos'".
"Estes são os melhores resultados das três edições deste inquérito efetuado para a Região Centro (69% contra 58% em 2014 e 61% em 2013), que superam os valores médios obtidos pelo Eurobarómetro (inquéritos realizados à escala europeia) para Portugal (57%), mas ainda aquém da avaliação média dos cidadãos europeus (80%), segundo os últimos dados disponíveis", de acordo com a nota que a Lusa refere.
Para a presidente da CCDRC, Ana Abrunhosa, citada no comunicado, os resultados são muito positivos e evidenciam um grau de satisfação superior à média do país, que traduzem "uma melhoria face às vagas dos anos anteriores, ou seja, os cidadãos residentes na região reconhecem as vantagens de aqui viver".
"Esta situação reflete a existência na Região Centro de boas condições em termos de qualidade de vida e que estão associadas aos serviços existentes, nomeadamente ao nível de saúde (aspeto muito valorizado pelos inquiridos), ao baixo desemprego quando comparado com as restantes regiões do país ou ainda à capacidade do mercado de trabalho ir absorvendo os trabalhadores com um elevado grau de qualificação", sublinhou.
Homens mais satisfeitos do que mulheres. Habilitações literárias também influenciam a curva da felicidade
Os residentes na região Centro do país estão globalmente satisfeitos com a sua vida, de acordo com o resultado de um inquérito promovido pela Comissão de Coordenação e Desenvolvimento Regional do Centro (CCDRC), divulgado esta terça-feira.
Segundo o barómetro regional, 69% dos habitantes estão "globalmente satisfeitos", enquanto 8% estão "muito satisfeitos", 61% "satisfeitos", 17% "não muito satisfeitos" e 14% "nada satisfeitos".
O inquérito realizado a 500 pessoas com 15 ou mais anos revelou ainda que as mulheres se encontram menos satisfeitas do que os homens e que os mais jovens estão globalmente mais satisfeitos, notando-se uma alteração de padrão a partir dos 45 anos.
Os resultados mostram ainda que de entre todas as categorias de ativos e inativos, os estudantes são os mais satisfeitos e os reformados e os desempregados os mais insatisfeitos.
Por outro lado, o grau de satisfação aumenta com as habilitações escolares dos inquiridos, sendo os residentes com mestrado/doutoramento os mais satisfeitos e os residentes com o 1.º e 2.º ciclo de ensino os mais insatisfeitos.
De acordo com os resultados, a satisfação dos residentes varia entre os 60% no Oeste e os 74% na região de Leiria, que, já em 2014, no anterior inquérito, registava a maior percentagem de inquiridos globalmente satisfeitos.
Em comunicado, a CCDRC refere que, "face aos anos anteriores, destaca-se o acréscimo significativo da percentagem de inquiridos que se consideram 'satisfeitos' e, simultaneamente, o decréscimo dos 'não muito satisfeitos'".
"Estes são os melhores resultados das três edições deste inquérito efetuado para a Região Centro (69% contra 58% em 2014 e 61% em 2013), que superam os valores médios obtidos pelo Eurobarómetro (inquéritos realizados à escala europeia) para Portugal (57%), mas ainda aquém da avaliação média dos cidadãos europeus (80%), segundo os últimos dados disponíveis", de acordo com a nota que a Lusa refere.
Para a presidente da CCDRC, Ana Abrunhosa, citada no comunicado, os resultados são muito positivos e evidenciam um grau de satisfação superior à média do país, que traduzem "uma melhoria face às vagas dos anos anteriores, ou seja, os cidadãos residentes na região reconhecem as vantagens de aqui viver".
"Esta situação reflete a existência na Região Centro de boas condições em termos de qualidade de vida e que estão associadas aos serviços existentes, nomeadamente ao nível de saúde (aspeto muito valorizado pelos inquiridos), ao baixo desemprego quando comparado com as restantes regiões do país ou ainda à capacidade do mercado de trabalho ir absorvendo os trabalhadores com um elevado grau de qualificação", sublinhou.
28.4.14
Felicidade Pública (9): manifesto contra a instrumentalização da felicidade laboral
Helena Marujo, in Público on-line
"That is happiness, to be dissolved into something complete and great”(Isso é a felicidade, a ser dissolvida em algo completo e grandioso), Willa Cather
Mea culpa.
Tendo sido uma das primeiras pessoas que começou em Portugal a falar da importância da felicidade no contexto laboral, sinto-me inquieta com o rumo que pode trazer a bandeira de uma abordagem positiva nas organizações em tempo de desertos.
Guiava-me na altura a vontade de criar lugares de vida mais humanos, de pensar em formas sociais democráticas mais límpidas e evoluídas, em locais de produção de bens e serviços mais vocacionados ao bem-comum. Queria ver mais, no espírito do próprio tempo, do que outra leva de emigração em busca de dignidade, decência e alimento; queria humildemente ajudar a construir um mapa moral e dialogante nas empresas privadas ou públicas, nas fábricas, nos serviços, nos campos, nas escolas, nos hospitais.
Hoje, vejo o tema da felicidade a entrar nas organizações, e devia sentir-me, no mínimo... feliz. Mas antevejo o risco.
Quantas vezes configurada em não mais do que um rol de práticas assentes num irrefletido e vago sentimento moral, numa superficial alegria, e em mais uma forma de instrumentalização de quem trabalha – um novo caminho para maior produtividade, uma outra forma de medir, controlar e influenciar a satisfação, uma repetição triste de formas manipuladoras de controlo – a possibilidade da felicidade está ainda mais em perigo.
Quando sonhei trazer da investigação para o dia-a-dia dos empregados esse horizonte da felicidade idealizei formas de trabalho, liderança, comunhão relacional e ambiente laboral com verdadeiro compromisso, porque resultado de justiça interna e equidade externa, uma felicidade tecida em redes de pessoas solidárias, compassivas, íntegras e coerentes, com espaços e tempos de autodeterminação e autonomia, sentindo-se competentes e valorizadas, construtoras de coletivos e não apenas de egoístas individualizações, numa clara expressão de evolução da sabedoria conjunta e de uma gramática mista de hedonismo e sentido. Invoquei locais de trabalho que fossem verdadeiras cartografias de pequenas virtudes diárias, desde o CEO ao segurança, do trabalhador do call center ao educador no infantário.
Nunca concebi uma coexistência que convidasse à uniformidade, ao opressivo e falaciosamente entusiasmado, sempre externamente motivado, e muito menos desejei uma felicidade que fosse descontextualizada.
Soube pela pena de Robert Skidelsky, num artigo deste mês de Abril do The New York Review of Books, que há algum tempo as hospedeiras de bordo de uma companhia de aviação norte-americana tinham ameaçado fazer uma “greve de sorrisos”, em resposta às múltiplas tentativas da entidade patronal para aumentar ao limite a eficácia e rapidez do seu trabalho. E relembrei o taylorismo, as prisões circulares de controlo permanente pensadas por Bentham – os panóticos, ainda hoje identificáveis – e a forma robótica e automatizada como, em consequência hoje, ainda e de novo, concebemos o trabalho.
Faço por isso objecção de consciência a todos os que, ao pegar nas novas modas, como parece estar a tornar-se a da felicidade no trabalho, ao inteligentemente perceberem as vantagens desta nova linguagem, a desvirtualizam e desvitalizam, usando-a para trazer as pessoas de volta à submissão, à intimidação, desta vez com propostas disfarçadas de cordeiro, aumentando a descrença em salvações cada vez mais improváveis.
Se tratamos os trabalhadores como máquinas não fiáveis, das quais desconfiamos, e que são substituíveis e meros objetos de produção; se usamos a intimidação para os levar ao limite, e os privarmos da possibilidade de exercer as suas competências e de se educarem e formarem melhor, enquanto lhes negamos a justa e harmoniosa recompensa, entramos em decomposição social, e namoramos o pior do passado e o mais podre da lógica económica: pessoas e locais frios, calculistas e degradantes. Ficamos perante uma nova variação corporativa da dominação, especialmente arrepiante na semana em que celebramos 40 anos do 25 de Abril, que nos permitiu sonhar sermos juntos capazes de práticas democráticas e de uma cidadania resplandecente, com responsabilidade e vigilância.
(cont.)
"That is happiness, to be dissolved into something complete and great”(Isso é a felicidade, a ser dissolvida em algo completo e grandioso), Willa Cather
Mea culpa.
Tendo sido uma das primeiras pessoas que começou em Portugal a falar da importância da felicidade no contexto laboral, sinto-me inquieta com o rumo que pode trazer a bandeira de uma abordagem positiva nas organizações em tempo de desertos.
Guiava-me na altura a vontade de criar lugares de vida mais humanos, de pensar em formas sociais democráticas mais límpidas e evoluídas, em locais de produção de bens e serviços mais vocacionados ao bem-comum. Queria ver mais, no espírito do próprio tempo, do que outra leva de emigração em busca de dignidade, decência e alimento; queria humildemente ajudar a construir um mapa moral e dialogante nas empresas privadas ou públicas, nas fábricas, nos serviços, nos campos, nas escolas, nos hospitais.
Hoje, vejo o tema da felicidade a entrar nas organizações, e devia sentir-me, no mínimo... feliz. Mas antevejo o risco.
Quantas vezes configurada em não mais do que um rol de práticas assentes num irrefletido e vago sentimento moral, numa superficial alegria, e em mais uma forma de instrumentalização de quem trabalha – um novo caminho para maior produtividade, uma outra forma de medir, controlar e influenciar a satisfação, uma repetição triste de formas manipuladoras de controlo – a possibilidade da felicidade está ainda mais em perigo.
Quando sonhei trazer da investigação para o dia-a-dia dos empregados esse horizonte da felicidade idealizei formas de trabalho, liderança, comunhão relacional e ambiente laboral com verdadeiro compromisso, porque resultado de justiça interna e equidade externa, uma felicidade tecida em redes de pessoas solidárias, compassivas, íntegras e coerentes, com espaços e tempos de autodeterminação e autonomia, sentindo-se competentes e valorizadas, construtoras de coletivos e não apenas de egoístas individualizações, numa clara expressão de evolução da sabedoria conjunta e de uma gramática mista de hedonismo e sentido. Invoquei locais de trabalho que fossem verdadeiras cartografias de pequenas virtudes diárias, desde o CEO ao segurança, do trabalhador do call center ao educador no infantário.
Nunca concebi uma coexistência que convidasse à uniformidade, ao opressivo e falaciosamente entusiasmado, sempre externamente motivado, e muito menos desejei uma felicidade que fosse descontextualizada.
Soube pela pena de Robert Skidelsky, num artigo deste mês de Abril do The New York Review of Books, que há algum tempo as hospedeiras de bordo de uma companhia de aviação norte-americana tinham ameaçado fazer uma “greve de sorrisos”, em resposta às múltiplas tentativas da entidade patronal para aumentar ao limite a eficácia e rapidez do seu trabalho. E relembrei o taylorismo, as prisões circulares de controlo permanente pensadas por Bentham – os panóticos, ainda hoje identificáveis – e a forma robótica e automatizada como, em consequência hoje, ainda e de novo, concebemos o trabalho.
Faço por isso objecção de consciência a todos os que, ao pegar nas novas modas, como parece estar a tornar-se a da felicidade no trabalho, ao inteligentemente perceberem as vantagens desta nova linguagem, a desvirtualizam e desvitalizam, usando-a para trazer as pessoas de volta à submissão, à intimidação, desta vez com propostas disfarçadas de cordeiro, aumentando a descrença em salvações cada vez mais improváveis.
Se tratamos os trabalhadores como máquinas não fiáveis, das quais desconfiamos, e que são substituíveis e meros objetos de produção; se usamos a intimidação para os levar ao limite, e os privarmos da possibilidade de exercer as suas competências e de se educarem e formarem melhor, enquanto lhes negamos a justa e harmoniosa recompensa, entramos em decomposição social, e namoramos o pior do passado e o mais podre da lógica económica: pessoas e locais frios, calculistas e degradantes. Ficamos perante uma nova variação corporativa da dominação, especialmente arrepiante na semana em que celebramos 40 anos do 25 de Abril, que nos permitiu sonhar sermos juntos capazes de práticas democráticas e de uma cidadania resplandecente, com responsabilidade e vigilância.
(cont.)
21.3.14
«Felicidade não é futilidade nem luxo»
Texto Juliana Batista, in Fátima Missionária
O Dia Internacional da Felicidade é assinalado esta quinta-feira, 20 de março
Secretário-geral das Nações Unidas defende que a luta pelo «fim da pobreza, pela inclusão social e harmonia entre culturas» conduzem à felicidade, e recorda que este estado «não é uma futilidade nem um luxo»
O Dia Internacional da Felicidade é assinalado esta quinta-feira, 20 de março. Numa mensagem para marcar a data, Ban Ki-moon, secretário-geral da Organização das Nações Unidas (ONU), afirma que a felicidade tem «significados diferentes para pessoas diferentes» e «não é uma futilidade nem um luxo».
Ki-moon aproveita a data para elogiar os países que estão a investir em «políticas em prol da felicidade e do bem-estar». Para este responsável, o conceito de felicidade é importante, por exemplo, para «o fim de conflitos e da pobreza».
O secretário-geral das Nações Unidas defende que a felicidade não pode ser negada a nenhuma pessoa, uma aspiração que está implícita na Carta das Nações Unidas para a promoção da paz, justiça, direitos humanos, progresso social e melhor padrão de vida. Por isso, o secretário-geral da ONU refere que esta é a altura para «transformar essa promessa em ação pelo fim da pobreza, pela inclusão social e harmonia entre culturas, conceitos que estão na base da felicidade».
A Fundação ONU está a comemorar a data com uma parceria com o produtor musical Pharrell Williams. Desde o passado dia 10, pessoas de todos os países podem enviar vídeos demonstrando a sua felicidade ao ouvir a música «Happy», que este ano concorreu ao Óscar de Melhor Canção Original.
Uma compilação dos melhores vídeos será revelada por Pharrell Williams esta quinta-feira, num site criado para o efeito. Através dessa página é ainda possível realizar doações monetárias para o Fundo Central de Resposta de Emergência da ONU, que entrega ajuda humanitária para populações afetadas por desastres naturais ou conflitos armados.
O Dia Internacional da Felicidade é assinalado esta quinta-feira, 20 de março
Secretário-geral das Nações Unidas defende que a luta pelo «fim da pobreza, pela inclusão social e harmonia entre culturas» conduzem à felicidade, e recorda que este estado «não é uma futilidade nem um luxo»
O Dia Internacional da Felicidade é assinalado esta quinta-feira, 20 de março. Numa mensagem para marcar a data, Ban Ki-moon, secretário-geral da Organização das Nações Unidas (ONU), afirma que a felicidade tem «significados diferentes para pessoas diferentes» e «não é uma futilidade nem um luxo».
Ki-moon aproveita a data para elogiar os países que estão a investir em «políticas em prol da felicidade e do bem-estar». Para este responsável, o conceito de felicidade é importante, por exemplo, para «o fim de conflitos e da pobreza».
O secretário-geral das Nações Unidas defende que a felicidade não pode ser negada a nenhuma pessoa, uma aspiração que está implícita na Carta das Nações Unidas para a promoção da paz, justiça, direitos humanos, progresso social e melhor padrão de vida. Por isso, o secretário-geral da ONU refere que esta é a altura para «transformar essa promessa em ação pelo fim da pobreza, pela inclusão social e harmonia entre culturas, conceitos que estão na base da felicidade».
A Fundação ONU está a comemorar a data com uma parceria com o produtor musical Pharrell Williams. Desde o passado dia 10, pessoas de todos os países podem enviar vídeos demonstrando a sua felicidade ao ouvir a música «Happy», que este ano concorreu ao Óscar de Melhor Canção Original.
Uma compilação dos melhores vídeos será revelada por Pharrell Williams esta quinta-feira, num site criado para o efeito. Através dessa página é ainda possível realizar doações monetárias para o Fundo Central de Resposta de Emergência da ONU, que entrega ajuda humanitária para populações afetadas por desastres naturais ou conflitos armados.
24.2.14
Chamamento à alegria
Helena Marujo, in Público on-line
“Portugal atravessa uma hora indecisa, cinzenta, crepuscular, do seu destino. Será o crepúsculo que precede o dia e a vida, ou o crepúsculo que precede a noite e a morte? Não sei, não sei, não sei...” Carta de Manuel Laranjeira a Miguel de Unanumo, datada de 1908, quatro anos antes do suicídio daquele em 22 de Fevereiro de 1912
Não me ensinaram a alegria.
Ensinaram-me a responsabilidade, a solidariedade fraterna e a verticalidade da ética, o valor do esforço e do trabalho intenso; ensinaram-me a não desistir, e até a procurar soluções criativas para as inevitabilidades mais complexas da vida; ensinaram-me mesmo a fazer frente, ainda que pacificamente, a destruidores da dignidade humana.
Mas não me ensinaram a alegria.
Uma responsabilidade pesarosa e triste, ou uma solidariedade anónima de emoções, sem verdadeira alma, perdem pelo menos metade do seu valor.
O tom imperativo das desgraças económicas, sociais e políticas, e a sua presença constante nos media, converte-nos em desolados cidadãos. Na “estratégia do mal-estar” deste nosso cosmos marcado pela Joyless Economy, a alegria não encaixa; o júbilo, a celebração, a festa, a gargalhada, são corpos estranhos, perturbadores, fontes de desconfiança, ou surgem apenas associados à publicidade e ao consumo (quantos são os jovens que hoje bebem para se alegrar e tornar leve a vida?).
Nesta economia sem alegria, a proposta de alguns especialistas, como Tibor Scitovsky, é a de que nos eduquemos para formas de consumo (consumo de bens de estimulação, como uma bela paisagem, ou de bens relacionais, como um jantar com amigos) que nos estimulam e trazem sentido à existência, e para formas sociais em que o desafio, o risco e o sentido de meta atingida – elementos da alegria – se sobreponham ao consumo de bens de conforto e de segurança (que nos saciam momentaneamente, mas a que logo nos adaptamos, experimentando um prazer temporário que se esvai e nos esvazia).
Nas escolhas das atuais sociedades desenvolvidas os lugares da realidade comum asfixiam-nos a vontade, e trucidam a coragem de viver na jovialidade, esse impulso quase desavergonhado.
A alegria tornou-se assim num estado de exceção permanente. Está nas margens da vida. Inquilinos de subsistências sem exaltação, desfiguradas, os alegres são como elefantes de cores nas praças das cidades, que se passeiam entre destroços. São acusados de silenciar a denúncia. São peste social. Como me disse um dia uma jornalista, uma boa noticia é a que acusa; a que soluciona é vã e fútil.
A alegria aparece assim colada com a impossibilidade de ser crítico e transformador. Os alegres são tidos como demasiado brandos e ligeiros para terem a profundidade necessária para perceber o que é realmente relevante, ou se revoltarem ou revolucionarem as vidinhas. São considerados uns apregoadores dóceis, com uma prática de vida vazia, kitsh ou demasiado arriscada e potencialmente alienadora. São vistos como uns petulantes, superficiais e altivos, fugitivos e incapazes de lutar contra a essência do sofrimento; em alternativa, são vistos como loucos insensatos, optimistas irrealistas e demasiado autoconfiantes quando arriscam.
Dizia Theodor Adorno que divertir-se significa sempre que não há lugar ao pensamento, mas sim ao esquecimento da dor (quantos adolescentes me têm confidenciado que se auto-mutilam para diminuir a intensidade da sua dor psicológica? Isso sim, aprenderam da nossa cultura...).
Desolados aqueles que acreditam nesta antinomia, que creem nesta inevitável clivagem dicotómica entre o ato de transformar e o de se regozijar! A vida humana é bem mais complexa que o que encerra esta abstração polarizada de se ser ou generativo, acusador e cinzento, ou alegre, frívolo e imprudentemente aventureiro. Poucos acreditam em Portugal que a alegria e a crítica ativa ao instituído podem entender-se, coexistir e transubstanciar-se.
Não deveria a alegria ser uma experiência vital? Conseguem imaginar visionários tristes, empreendedores desanimados? Que contornos terá a grande aventura da vida fora da celebração, da aspiração à exultação e ao deleite, à jovialidade e à graça, transcendendo as circunstâncias para as conseguir exceder?
Talvez a alegria seja um estado de puro ser, e isso assusta os mais circunspectos e graves, conservadores e cautelosos, que não arriscam perder nada, muito menos a face.
Assim vamos deixando que a sombra e o peso da vida avancem como num rápido pôr do sol, tudo obscurecendo. O ressentimento, o desânimo, a rivalidade, a intenção vingativa, o julgamento rápido, o medo, a desconfiança face ao outro corrupto ou ao futuro a inventar, levaram à decadência da alegria.
Até na investigação científica a alegria é das emoções menos estudadas.
Diz-nos George Vaillant (2008), na sabedoria refletida da sua anciania e da experiência de coordenar o estudo longitudinal mais longo da história da Universidade de Harvard, que há alegria em ser liberto do cativeiro, em ganhar algo bom que se julgou perdido, em apreciar os pequenos milagres diários da vida.
David Cooperrider, num livro recentemente publicado, refere que questionar é viver num estado de não respostas, de romance com o mistério da descoberta. Assim, pergunto-me: e se estiverem enganados todos os sisudos implacáveis, e a alegria for a fundamental condição de rebelião – contra o mal e o cortejo de sofrimentos, tantas vezes insensatos e evitáveis, contra todas as crueldades e maldições que nos provocamos uns aos outros, quando nos permitimos a indiferença, a violência, a pobreza e a indignidade?
Alegrarmo-nos não é, não pode ser, uma ideia reguladora ou um programa de desistência da luta, de qualquer luta nobre por melhores e mais dignos presentes e futuros, nem uma forma de fuga da realidade má, mas sim o último sentimento de resistência. Alegrarmo-nos será fugir das pequenas mortes diárias, dos demónios que nos impomos e nos impõem – arriscando consumir de outra maneira, experimentar fazer e ser diferente.
Aspiremos à alegria dos comovidos para deixarmos de ser náufragos de vidas que desdenhamos. Uma alegria conseguida e repartida pode salvar-nos. Na alegria somos menos “outros”, e sentir-nos-emos mais filhos da mesma madrugada libertadora. Não idênticos, sempre singulares, mas sublimes no cara a cara de um sorriso verdadeiro, de uma gargalhada uníssona, de uma vitória partilhada, de uma solução conseguida ou de um amoroso abraço intenso. Invejemos quem tem a gargalhada solta, irreverente, salutar, virulenta. Quem usa a alegria como combustível para a vida; quem se desmarca pelo entusiasmo decidido com que agarra os colarinhos da vida diária, mesmo e precisamente quando ela é canalha e arrasta pelo chão duro e frio da doença, da morte ou da injustiça.
Numa cultura historicamente desanimada, tão preocupada com as aparências, e nem sempre com a verdadeira essência das coisas, é tempo de lavrar a alegria, o entusiasmo, a celebração das pequenas-grandes coisas, o desafio do risco e do riso. Talvez assim nos comprometamos mais com a vida, e renunciemos ao insensato e persistente dualismo de, ou transformar, ou regozijar. A tristeza esteve sempre aí, na vida portuguesa, como nos indica Manuel Laranjeira há mais de um século, e na vida do mundo, como nos mostram as dolorosas lembranças dos horrores criados pelos humanos ao colonizar, defender a eugenia, ou instaurar a guerra incivil. Às vezes sórdidos, muitas vezes imperfeitos, quem sabe aliviemos o peso da vida com um horizonte de júbilo comum.
Porque a mim não me ensinaram a alegria, espero que saibamos ensiná-la agora aos jovens, aos líderes futuros, às crianças. Estas, trazendo em si o potencial de celebração, estão a desistir da festa da vida (há algum tempo atrás, um menino de seis anos, com ar ansioso e olhos decaídos pela tristeza de um futuro que lhe dizem incerto, dizia-me que tinha medo de não ter emprego quando crescesse...).
Não advogo o viver da vida como uma permanente diversão, um parque infantil frenético, ou uma existência onde o sofrimento apareça como inútil, mascarado, indesejável ou escondido, até porque todos carregamos algo de sombrio. Não proponho – nunca o faria – doutrinação. Reconheço que entre o interminável e tedioso culto do negativo, se extrema muitas vezes um positivo acrítico e frágil. No entanto, não podemos negar espaço a um alegria possível, a uma epifania vital, a outras formas de amotinação e de construção do quotidiano.
Uma saída possível nesta educação da alegria vem pela forma como hoje através dos media contamos a história do nosso mundo Por isso celebro, em alegria, a recente iniciativa da criação do Centre for Constructive Journalism na Dinamarca, dedicado ao sonho de desenvolver um jornalismo de confiança, comprometido e de qualidade, que traga lealdade e valor à vida das pessoas. Influenciado pela psicologia positiva, com o apoio de um professor universitário que é atualmente o presidente da Rede Europeia de Psicologia Positiva, Hans Knoop, e docente no nosso Executive Master em Psicologia Positiva Aplicada, do ISCSP da Universidade de Lisboa, o centro e a formação que ministra são dedicados a um jornalismo que convida à partilha de soluções, mais do que a produtos jornalísticos e mediáticos estafados por debates vazios, tristes e ineptos, tão comuns, porque tão mais fáceis.
Sim, se calhar não é quimérico ensinar hoje a alegria, para que o crepúsculo anteceda à vida. Devemos isso a Manuel Laranjeira, cujo suicídio se relembra no dia em que escrevo este texto, e a todos os intelectuais, artistas e ativistas que em Portugal se suicidaram, emigraram ou de alguma forma desistiram, desabitados de alegria.
Que não me tomem de assalto nem destruam a alegria que fui construindo braço-a-braço em mim, por necessidade e vontade; que não ma roubem, que não ma amesquinhem, nem me humilhem ao mostrá-la. A mim, ou a nenhum português que arrisque alegrar-se.
Desejo que se Miguel de Unamuno abrisse hoje um jornal nacional não comentasse, como o fez ao ler um par de diários portugueses em 1908, “Estes são artigos que respiram morte”, desejo que saibamos honrar a história transformando-a, e em cada momento atuar, imbuídos da vivacidade de uma alegria profunda e sempre lúcida.
Como dizia o Nobel da Literatura Rabindranath Tandore, “Adormeci e sonhei que a vida era alegria. Acordei e vi que a vida era serviço. Agi e vi que o serviço era alegria.“
Helena Marujo é professora universitária no ISCSP/UTL. A autora escreve ao abrigo do acordo ortográfico.
Fontes:
Cooperrider, D. (2014). Making change easy. The tiniest Appreciative Inquiry Summit in the World. Acedido em 22 de Fevereiro de 2014 de http://www.axiomnews.ca/sites/default/files/Making%20Change%20Easy.pdf
Reggiani, T. (2008). Book Review to Tibor Scitovsky - "The Joyless Economy" (1976). Publicado em Aggiornamenti Sociali, vol. 01/2008 , Vol. Aggior, No. January, pp. 69-71.
Vaillant, G. (2008). Spiritual Evolution: A Scientific Defense of Faith, pp. 119-134. New York: Broadway Books.
Unamuno, M. (2006). Por tierras de Portugal y de España. Barcelona: Biblioteca Unamuno, Alianza Editorial.
http://positivenews.org.uk/2014/culture/media/14683/centre-constructive-journalism-launch-year/
“Portugal atravessa uma hora indecisa, cinzenta, crepuscular, do seu destino. Será o crepúsculo que precede o dia e a vida, ou o crepúsculo que precede a noite e a morte? Não sei, não sei, não sei...” Carta de Manuel Laranjeira a Miguel de Unanumo, datada de 1908, quatro anos antes do suicídio daquele em 22 de Fevereiro de 1912
Não me ensinaram a alegria.
Ensinaram-me a responsabilidade, a solidariedade fraterna e a verticalidade da ética, o valor do esforço e do trabalho intenso; ensinaram-me a não desistir, e até a procurar soluções criativas para as inevitabilidades mais complexas da vida; ensinaram-me mesmo a fazer frente, ainda que pacificamente, a destruidores da dignidade humana.
Mas não me ensinaram a alegria.
Uma responsabilidade pesarosa e triste, ou uma solidariedade anónima de emoções, sem verdadeira alma, perdem pelo menos metade do seu valor.
O tom imperativo das desgraças económicas, sociais e políticas, e a sua presença constante nos media, converte-nos em desolados cidadãos. Na “estratégia do mal-estar” deste nosso cosmos marcado pela Joyless Economy, a alegria não encaixa; o júbilo, a celebração, a festa, a gargalhada, são corpos estranhos, perturbadores, fontes de desconfiança, ou surgem apenas associados à publicidade e ao consumo (quantos são os jovens que hoje bebem para se alegrar e tornar leve a vida?).
Nesta economia sem alegria, a proposta de alguns especialistas, como Tibor Scitovsky, é a de que nos eduquemos para formas de consumo (consumo de bens de estimulação, como uma bela paisagem, ou de bens relacionais, como um jantar com amigos) que nos estimulam e trazem sentido à existência, e para formas sociais em que o desafio, o risco e o sentido de meta atingida – elementos da alegria – se sobreponham ao consumo de bens de conforto e de segurança (que nos saciam momentaneamente, mas a que logo nos adaptamos, experimentando um prazer temporário que se esvai e nos esvazia).
Nas escolhas das atuais sociedades desenvolvidas os lugares da realidade comum asfixiam-nos a vontade, e trucidam a coragem de viver na jovialidade, esse impulso quase desavergonhado.
A alegria tornou-se assim num estado de exceção permanente. Está nas margens da vida. Inquilinos de subsistências sem exaltação, desfiguradas, os alegres são como elefantes de cores nas praças das cidades, que se passeiam entre destroços. São acusados de silenciar a denúncia. São peste social. Como me disse um dia uma jornalista, uma boa noticia é a que acusa; a que soluciona é vã e fútil.
A alegria aparece assim colada com a impossibilidade de ser crítico e transformador. Os alegres são tidos como demasiado brandos e ligeiros para terem a profundidade necessária para perceber o que é realmente relevante, ou se revoltarem ou revolucionarem as vidinhas. São considerados uns apregoadores dóceis, com uma prática de vida vazia, kitsh ou demasiado arriscada e potencialmente alienadora. São vistos como uns petulantes, superficiais e altivos, fugitivos e incapazes de lutar contra a essência do sofrimento; em alternativa, são vistos como loucos insensatos, optimistas irrealistas e demasiado autoconfiantes quando arriscam.
Dizia Theodor Adorno que divertir-se significa sempre que não há lugar ao pensamento, mas sim ao esquecimento da dor (quantos adolescentes me têm confidenciado que se auto-mutilam para diminuir a intensidade da sua dor psicológica? Isso sim, aprenderam da nossa cultura...).
Desolados aqueles que acreditam nesta antinomia, que creem nesta inevitável clivagem dicotómica entre o ato de transformar e o de se regozijar! A vida humana é bem mais complexa que o que encerra esta abstração polarizada de se ser ou generativo, acusador e cinzento, ou alegre, frívolo e imprudentemente aventureiro. Poucos acreditam em Portugal que a alegria e a crítica ativa ao instituído podem entender-se, coexistir e transubstanciar-se.
Não deveria a alegria ser uma experiência vital? Conseguem imaginar visionários tristes, empreendedores desanimados? Que contornos terá a grande aventura da vida fora da celebração, da aspiração à exultação e ao deleite, à jovialidade e à graça, transcendendo as circunstâncias para as conseguir exceder?
Talvez a alegria seja um estado de puro ser, e isso assusta os mais circunspectos e graves, conservadores e cautelosos, que não arriscam perder nada, muito menos a face.
Assim vamos deixando que a sombra e o peso da vida avancem como num rápido pôr do sol, tudo obscurecendo. O ressentimento, o desânimo, a rivalidade, a intenção vingativa, o julgamento rápido, o medo, a desconfiança face ao outro corrupto ou ao futuro a inventar, levaram à decadência da alegria.
Até na investigação científica a alegria é das emoções menos estudadas.
Diz-nos George Vaillant (2008), na sabedoria refletida da sua anciania e da experiência de coordenar o estudo longitudinal mais longo da história da Universidade de Harvard, que há alegria em ser liberto do cativeiro, em ganhar algo bom que se julgou perdido, em apreciar os pequenos milagres diários da vida.
David Cooperrider, num livro recentemente publicado, refere que questionar é viver num estado de não respostas, de romance com o mistério da descoberta. Assim, pergunto-me: e se estiverem enganados todos os sisudos implacáveis, e a alegria for a fundamental condição de rebelião – contra o mal e o cortejo de sofrimentos, tantas vezes insensatos e evitáveis, contra todas as crueldades e maldições que nos provocamos uns aos outros, quando nos permitimos a indiferença, a violência, a pobreza e a indignidade?
Alegrarmo-nos não é, não pode ser, uma ideia reguladora ou um programa de desistência da luta, de qualquer luta nobre por melhores e mais dignos presentes e futuros, nem uma forma de fuga da realidade má, mas sim o último sentimento de resistência. Alegrarmo-nos será fugir das pequenas mortes diárias, dos demónios que nos impomos e nos impõem – arriscando consumir de outra maneira, experimentar fazer e ser diferente.
Aspiremos à alegria dos comovidos para deixarmos de ser náufragos de vidas que desdenhamos. Uma alegria conseguida e repartida pode salvar-nos. Na alegria somos menos “outros”, e sentir-nos-emos mais filhos da mesma madrugada libertadora. Não idênticos, sempre singulares, mas sublimes no cara a cara de um sorriso verdadeiro, de uma gargalhada uníssona, de uma vitória partilhada, de uma solução conseguida ou de um amoroso abraço intenso. Invejemos quem tem a gargalhada solta, irreverente, salutar, virulenta. Quem usa a alegria como combustível para a vida; quem se desmarca pelo entusiasmo decidido com que agarra os colarinhos da vida diária, mesmo e precisamente quando ela é canalha e arrasta pelo chão duro e frio da doença, da morte ou da injustiça.
Numa cultura historicamente desanimada, tão preocupada com as aparências, e nem sempre com a verdadeira essência das coisas, é tempo de lavrar a alegria, o entusiasmo, a celebração das pequenas-grandes coisas, o desafio do risco e do riso. Talvez assim nos comprometamos mais com a vida, e renunciemos ao insensato e persistente dualismo de, ou transformar, ou regozijar. A tristeza esteve sempre aí, na vida portuguesa, como nos indica Manuel Laranjeira há mais de um século, e na vida do mundo, como nos mostram as dolorosas lembranças dos horrores criados pelos humanos ao colonizar, defender a eugenia, ou instaurar a guerra incivil. Às vezes sórdidos, muitas vezes imperfeitos, quem sabe aliviemos o peso da vida com um horizonte de júbilo comum.
Porque a mim não me ensinaram a alegria, espero que saibamos ensiná-la agora aos jovens, aos líderes futuros, às crianças. Estas, trazendo em si o potencial de celebração, estão a desistir da festa da vida (há algum tempo atrás, um menino de seis anos, com ar ansioso e olhos decaídos pela tristeza de um futuro que lhe dizem incerto, dizia-me que tinha medo de não ter emprego quando crescesse...).
Não advogo o viver da vida como uma permanente diversão, um parque infantil frenético, ou uma existência onde o sofrimento apareça como inútil, mascarado, indesejável ou escondido, até porque todos carregamos algo de sombrio. Não proponho – nunca o faria – doutrinação. Reconheço que entre o interminável e tedioso culto do negativo, se extrema muitas vezes um positivo acrítico e frágil. No entanto, não podemos negar espaço a um alegria possível, a uma epifania vital, a outras formas de amotinação e de construção do quotidiano.
Uma saída possível nesta educação da alegria vem pela forma como hoje através dos media contamos a história do nosso mundo Por isso celebro, em alegria, a recente iniciativa da criação do Centre for Constructive Journalism na Dinamarca, dedicado ao sonho de desenvolver um jornalismo de confiança, comprometido e de qualidade, que traga lealdade e valor à vida das pessoas. Influenciado pela psicologia positiva, com o apoio de um professor universitário que é atualmente o presidente da Rede Europeia de Psicologia Positiva, Hans Knoop, e docente no nosso Executive Master em Psicologia Positiva Aplicada, do ISCSP da Universidade de Lisboa, o centro e a formação que ministra são dedicados a um jornalismo que convida à partilha de soluções, mais do que a produtos jornalísticos e mediáticos estafados por debates vazios, tristes e ineptos, tão comuns, porque tão mais fáceis.
Sim, se calhar não é quimérico ensinar hoje a alegria, para que o crepúsculo anteceda à vida. Devemos isso a Manuel Laranjeira, cujo suicídio se relembra no dia em que escrevo este texto, e a todos os intelectuais, artistas e ativistas que em Portugal se suicidaram, emigraram ou de alguma forma desistiram, desabitados de alegria.
Que não me tomem de assalto nem destruam a alegria que fui construindo braço-a-braço em mim, por necessidade e vontade; que não ma roubem, que não ma amesquinhem, nem me humilhem ao mostrá-la. A mim, ou a nenhum português que arrisque alegrar-se.
Desejo que se Miguel de Unamuno abrisse hoje um jornal nacional não comentasse, como o fez ao ler um par de diários portugueses em 1908, “Estes são artigos que respiram morte”, desejo que saibamos honrar a história transformando-a, e em cada momento atuar, imbuídos da vivacidade de uma alegria profunda e sempre lúcida.
Como dizia o Nobel da Literatura Rabindranath Tandore, “Adormeci e sonhei que a vida era alegria. Acordei e vi que a vida era serviço. Agi e vi que o serviço era alegria.“
Helena Marujo é professora universitária no ISCSP/UTL. A autora escreve ao abrigo do acordo ortográfico.
Fontes:
Cooperrider, D. (2014). Making change easy. The tiniest Appreciative Inquiry Summit in the World. Acedido em 22 de Fevereiro de 2014 de http://www.axiomnews.ca/sites/default/files/Making%20Change%20Easy.pdf
Reggiani, T. (2008). Book Review to Tibor Scitovsky - "The Joyless Economy" (1976). Publicado em Aggiornamenti Sociali, vol. 01/2008 , Vol. Aggior, No. January, pp. 69-71.
Vaillant, G. (2008). Spiritual Evolution: A Scientific Defense of Faith, pp. 119-134. New York: Broadway Books.
Unamuno, M. (2006). Por tierras de Portugal y de España. Barcelona: Biblioteca Unamuno, Alianza Editorial.
http://positivenews.org.uk/2014/culture/media/14683/centre-constructive-journalism-launch-year/
26.7.13
Papa Francisco diz que o dinheiro pode trazer falsa ilusão de felicidade
in Jornal de Notícias
O Papa Francisco pediu aos jovens para terem "Cristo nas suas vidas" e advertiu sobre o poder do dinheiro, que domina as pessoas, embriaga e cria uma falsa ilusão de felicidade.
"Ter dinheiro, o poder pode oferecer um momento de embriaguez, a ilusão de serem felizes, mas no final, acaba por nos dominar e levar-nos a querer ter cada vez mais e nunca estarmos satisfeitos", declarou o Papa durante a cerimónia de acolhimento aos jovens da 28ª Jornada Mundial da Juventude, na praia de Copacabana, que decorre no Rio de Janeiro até domingo.
"Coloquem Cristo na vossa vida, depositem a vossa confiança nele e não terão deceções", sublinhou, diante de centenas de milhares de jovens de 190 países, que saudaram efusivamente o Papa.
Francisco assegurou que a fé opera na vida dos homens uma revolução "de Copérnico", porque leva-os para longe do centro e coloca Deus naquele lugar.
"A fé é revolucionária. A fé inunda-nos com o seu amor, que nos dá segurança, força, esperança. Aparentemente não muda nada, mas, no nosso íntimo, tudo muda", referiu.
O Papa também apelou às pessoas para não terem medo de pedir perdão a Deus: "Ele não se cansa nunca de perdoar-nos, como um pai que nos ama. Deus é pura misericórdia".
A organização da Jornada Mundial da Juventude confirmou que a vigília e a missa de encerramento serão transferidas de Guaratiba para a praia de Copacabana, no Rio de Janeiro, devido a problemas causados pela chuva.
Os dois eventos, que decorrem no sábado e no domingo com a presença do papa Francisco, seriam realizados no Campus Fidei, em Guaratiba, na zona oeste do Rio de Janeiro, onde já estava montado um palco, mas, segundo os organizadores, o local está com muita lama devido às chuvas que atingem o Rio de Janeiro desde terça-feira.
O Papa Francisco pediu aos jovens para terem "Cristo nas suas vidas" e advertiu sobre o poder do dinheiro, que domina as pessoas, embriaga e cria uma falsa ilusão de felicidade.
"Ter dinheiro, o poder pode oferecer um momento de embriaguez, a ilusão de serem felizes, mas no final, acaba por nos dominar e levar-nos a querer ter cada vez mais e nunca estarmos satisfeitos", declarou o Papa durante a cerimónia de acolhimento aos jovens da 28ª Jornada Mundial da Juventude, na praia de Copacabana, que decorre no Rio de Janeiro até domingo.
"Coloquem Cristo na vossa vida, depositem a vossa confiança nele e não terão deceções", sublinhou, diante de centenas de milhares de jovens de 190 países, que saudaram efusivamente o Papa.
Francisco assegurou que a fé opera na vida dos homens uma revolução "de Copérnico", porque leva-os para longe do centro e coloca Deus naquele lugar.
"A fé é revolucionária. A fé inunda-nos com o seu amor, que nos dá segurança, força, esperança. Aparentemente não muda nada, mas, no nosso íntimo, tudo muda", referiu.
O Papa também apelou às pessoas para não terem medo de pedir perdão a Deus: "Ele não se cansa nunca de perdoar-nos, como um pai que nos ama. Deus é pura misericórdia".
A organização da Jornada Mundial da Juventude confirmou que a vigília e a missa de encerramento serão transferidas de Guaratiba para a praia de Copacabana, no Rio de Janeiro, devido a problemas causados pela chuva.
Os dois eventos, que decorrem no sábado e no domingo com a presença do papa Francisco, seriam realizados no Campus Fidei, em Guaratiba, na zona oeste do Rio de Janeiro, onde já estava montado um palco, mas, segundo os organizadores, o local está com muita lama devido às chuvas que atingem o Rio de Janeiro desde terça-feira.
4.7.13
Felicidade entre idosos é "muito alta"
por Texto da Lusa, publicado por Lina Santos, in Diário de Notícias
A felicidade entre os idosos é "muito alta" e a forma como encaram o envelhecimento é geralmente positiva, mais do que a própria situação de saúde ou económica, segundo o estudo que será hoje apresentado.
"As pessoas realmente cada vez vivem mais, têm um estado de saúde do qual se ocupam e que, evidentemente, piora com a idade, mas têm um sentimento pessoal subjetivo, familiar e social de felicidade bastante elevado", disse à agência Lusa Manuel Villaverde Cabral, do Instituto de Ciências Sociais.
O especialista coordenou o estudo "Processos de Envelhecimento em Portugal, usos do tempo, redes sociais e condições de vida", lançado pela Fundação Francisco Manuel dos Santos e pelo Instituto Camões.
"A felicidade é muito alta, o sentimento de bem-estar e felicidade e as próprias representações do envelhecimento as pessoas controlam-nas e são de uma forma geral positivas, mais positivas do que a própria situação de saúde e a situação socio-económica, como era de esperar", referiu o investigador do Instituto de Ciências Sociais.
Este conjunto de fatores, "ajuda a perceber muitas coisas da vida e sociedade portuguesa e até nesta crise em particular", acrescentou.
O estudo realça que no sentimento de felicidade e bem-estar, além dos fatores sociais e demográficos, com peso "comparativamente baixo para ambos os géneros", os homens revelam sentir mais o peso da solidão e a falta de manifestação de afeto".
Por seu lado, as mulheres sentem a falta do apoio emocional e da mobilidade física, assim como de atividade sexual, que "aparentemente não é sentida pelos homens e que constitui um efeito da longevidade feminina".
Os homens são "sobretudo afetados pela falta de saúde", acrescenta o documento.
Entre as diferenças detetadas no estudo, que inclui um inquérito a mil idosos, Villaverde Cabral salientou que "há mais mulheres isoladas, mais viúvas do que viúvos, há quatro para um, e vivem muito frequentemente sozinhas, mas não se consideram solitárias, têm a sua rede familiar, os filhos, os netos, os amigos, as amigas, os vizinhos".
"Os homens são mais dependentes da situação, acusam mais a viuvez", frisou Villaverde Cabral.
Mesmo as mulheres viúvas com condições socio-económicas e pessoais modestas ou bastante modestas "têm uma resiliência, uma maneira de estar na vida forte", apontou o investigador.
No documento refere-se também que, "a perceção do estado de saúde dos homens é devastadoramente afetada pela idade, mas compensada pelas redes pessoais, atividades "indoor" [dentro de casa] e "outdoor" [fora de casa], pelas práticas de envelhecimento ativo e pela importância da atividade sexual".
Para as mulheres, "nenhum destes fatores afeta positiva ou negativamente o estado de saúde subjetivo".
O estudo constatou ainda que o associativismo senior "é virtualmente desconhecido" em Portugal, ao contrário do que acontece nos países mais desenvolvidos, como Espanha".
"Nem as políticas públicas, as instituições da Igreja ou a própria sociedade civil parecem contar com qualquer papel significativo dos seniores na definição e aplicação das suas intervenções e iniciativas" pois "não existem quaisquer organizações de idosos que falem em nome próprio e da sua diferença", acrescenta o trabalho.
A felicidade entre os idosos é "muito alta" e a forma como encaram o envelhecimento é geralmente positiva, mais do que a própria situação de saúde ou económica, segundo o estudo que será hoje apresentado.
"As pessoas realmente cada vez vivem mais, têm um estado de saúde do qual se ocupam e que, evidentemente, piora com a idade, mas têm um sentimento pessoal subjetivo, familiar e social de felicidade bastante elevado", disse à agência Lusa Manuel Villaverde Cabral, do Instituto de Ciências Sociais.
O especialista coordenou o estudo "Processos de Envelhecimento em Portugal, usos do tempo, redes sociais e condições de vida", lançado pela Fundação Francisco Manuel dos Santos e pelo Instituto Camões.
"A felicidade é muito alta, o sentimento de bem-estar e felicidade e as próprias representações do envelhecimento as pessoas controlam-nas e são de uma forma geral positivas, mais positivas do que a própria situação de saúde e a situação socio-económica, como era de esperar", referiu o investigador do Instituto de Ciências Sociais.
Este conjunto de fatores, "ajuda a perceber muitas coisas da vida e sociedade portuguesa e até nesta crise em particular", acrescentou.
O estudo realça que no sentimento de felicidade e bem-estar, além dos fatores sociais e demográficos, com peso "comparativamente baixo para ambos os géneros", os homens revelam sentir mais o peso da solidão e a falta de manifestação de afeto".
Por seu lado, as mulheres sentem a falta do apoio emocional e da mobilidade física, assim como de atividade sexual, que "aparentemente não é sentida pelos homens e que constitui um efeito da longevidade feminina".
Os homens são "sobretudo afetados pela falta de saúde", acrescenta o documento.
Entre as diferenças detetadas no estudo, que inclui um inquérito a mil idosos, Villaverde Cabral salientou que "há mais mulheres isoladas, mais viúvas do que viúvos, há quatro para um, e vivem muito frequentemente sozinhas, mas não se consideram solitárias, têm a sua rede familiar, os filhos, os netos, os amigos, as amigas, os vizinhos".
"Os homens são mais dependentes da situação, acusam mais a viuvez", frisou Villaverde Cabral.
Mesmo as mulheres viúvas com condições socio-económicas e pessoais modestas ou bastante modestas "têm uma resiliência, uma maneira de estar na vida forte", apontou o investigador.
No documento refere-se também que, "a perceção do estado de saúde dos homens é devastadoramente afetada pela idade, mas compensada pelas redes pessoais, atividades "indoor" [dentro de casa] e "outdoor" [fora de casa], pelas práticas de envelhecimento ativo e pela importância da atividade sexual".
Para as mulheres, "nenhum destes fatores afeta positiva ou negativamente o estado de saúde subjetivo".
O estudo constatou ainda que o associativismo senior "é virtualmente desconhecido" em Portugal, ao contrário do que acontece nos países mais desenvolvidos, como Espanha".
"Nem as políticas públicas, as instituições da Igreja ou a própria sociedade civil parecem contar com qualquer papel significativo dos seniores na definição e aplicação das suas intervenções e iniciativas" pois "não existem quaisquer organizações de idosos que falem em nome próprio e da sua diferença", acrescenta o trabalho.
12.6.13
Felicidade Pública (5): Economia e felicidade
Helena Marujo, in Público on-line
Guardei da minha infância uma caneta de tinta permanente, com o meu nome gravado, oferecida quando completei os primeiros quatro anos de escola. Lembro-me de a usar com um cuidado redobrado, possuída do receio de que alguma gota da tinta azul me caísse na folha branca ou no tecido da bata. Nessa imprevidência, a mancha alastrava impetuosa por cada fibra do papel ou do tecido, e derramava-se, impossível de conter, qual ação sem dono.
É esta a imagem que me ocupa quando penso na presente colonização da nossa existência pela economia. Como um borrão incontrolável, toca hoje todas as fibras e esferas da nossa quotidianidade. A cada passo a sua premência nos recorda de quão longe estamos das previsões de Habermas, que há poucos anos nos dizia acreditar que a utopia emigraria do mundo do trabalho para o resto da nossa vida, em formato de compromisso cívico e solidário, e de melhoria das instituições democráticas – movimentos essenciais para a esperança num futuro comum.
Destoando desta perspetiva, com o capitalismo livre emigrou também o descrédito e o ceticismo nos outros e no futuro, outra mácula que alastra sem contenção, deixando-nos crucificados num presente endurecido. A ele não são alheios o antagonismo competitivo e o darwinismo social, que tantas vezes nos estimulam a comportamentos sociais menos éticos, e empurram uns contra os outros – agora, porque em tempo de escassez; antes, porque em tempo de abundância - e nos deixam um desencantamento progressivo face à mera possibilidade de politicas educativas, sociais e económicas bondosas, vidas relacionais de elevada ordem moral, e práticas diárias efetivas de virtude.
Como professora e mãe, como cidadã e investigadora, não posso suportar a ideia de penhorarmos o futuro e nos despedirmos de toda a utopia – sem essas âncoras, nada do que sou ou do que faço me faz sentido.
Tem sido por isso com ânimo vitalizado que acompanho um pequeno mas altamente qualificado grupo de economistas europeus, sobretudo italianos, mas também suíços e ingleses, que buscam uma outra forma de pensar e viver a economia, e nas suas universidades investigam e divulgam o valor psicológico e social dos bens não tangíveis. Dedicam-se em especial aos bens da esfera social, conscientes da realidade empírica que indicia que os bens económicos convencionais excessivos, e a atual perceção de progresso, nos afastaram de uma vida de que nos orgulhemos.
Mostram as investigações que os bens económicos convencionais (mas atenção! Só depois das necessidades básicas estarem cumpridas, como o direito ao sustento, a uma casa condigna, à saúde, educação, emprego) parecem pouco associados ao bem-estar das pessoas e sociedades, e o seu incremento, quando já vivemos uma vida digna, parece não aumentar a nossa felicidade. Em contraponto, os relacionais, se genuínos e positivamente recíprocos, mostram-se profundamente relevantes para a felicidade subjetiva, em sociedades em que a justiça, a igualdade e a bondade mapeiam as existências e as politicas. Estudar a felicidade pela mão dos psicólogos tem sido sobretudo pensá-la enquanto bem individual, muito enquanto um bem hedónico e de prazer, e menos enquanto um bem social, de outro tipo de desenvolvimento e crescimento, e de construção do sentido para a vida. Esse ângulo desponta agora na economia, e dá força a quem, na psicologia, já defendia há anos um olhar mais amplo, relacional, organizacional, comunitário, do que é sermos felizes.
Foi por isso que na semana que passou, a 3 e 4 de Junho estive em Roma, rodeada desses mesmos economistas, no sexto congresso internacional da associação HEIRS: Happiness Economics and Interpersonal Relations Studies (Estudos da Economia da Felicidade e Relações Interpessoais), este ano sob o tema da Felicidade Pública. No meio de complexas equações matemáticas, muitos estudos empíricos abstratos, bem como debates sobre virtudes (estes últimos mais a jeito do meu entendimento), o apelo quase generalizado destes intelectuais foi destinado ao pensamento integrado e ao Bem Comum através da emergência de um contexto social que promova o melhor de todos e cada um, e as virtudes coletivas.
Polifónicas perspetivas do que pode ser uma boa sociedade, de qual o seu papel na promoção do bem-estar pessoal e coletivo, e do que em consequência poderão ser as políticas públicas, entreteciam-se insidiosamente no meio da estatística dura, e das fraturas de pensamento e abordagem, ou (como ali foram chamadas) das tensões criativas entre psicólogos, sociólogos e economistas.
Num momento em que é cada vez mais perigoso e arrojado usar publicamente palavras como felicidade, positivo ou amor – assumidas e criticadas como sendo parte de uma cultura de negação ou de superficialidade, de insensata euforia perpétua ou de associação com o dever ou imposição de viver hedonicamente feliz – louvo a referida associação de economistas pela dedicação corajosa ao tema.
A felicidade, a banalidade e a vacuidade não têm que andar de mãos dadas. Apetece voltar ao Cândido de Voltaire, escrito após o Terramoto de Lisboa, que ao demolir a visão filosófica corrente nessa segunda metade do seculo XVIII, que até à nossa catástrofe nacional considerava que vivíamos no melhor dos mundos possíveis, passa pelos maiores dramas possíveis, em busca de um sentido. Hoje, muitos Cândidos nos fazem acreditar que vivemos no pior dos mundos desejáveis, e que estudar e promover a felicidade é uma prática desrespeitadora dos dramas humanos. Muitos dizem por isso que a felicidade não é suficiente como meta, em particular em períodos de austeridade e perdas materiais e direitos conseguidos, como os que vivemos. Concordamos. Não é suficiente, se entendida na visão individual, prazerosa, superficial e momentânea, e se não for aplicada para resolver os problemas do mundo.
Mas o estudo e a promoção da felicidade podem e devem ser guiados por alvos sociais profundos, enriquecidos e enriquecedores, e ter implicações políticas, educativas, de saúde e económicas que nos ajudem a voltar a confiar. Não se pretende que a felicidade seja uma hegemonia, muito menos uma ideologia, mas tão só que seja um suporte para construir novos sentidos – desde a importância de cuidar dos laços sociais, até aos passos promotores de autonomia e escolha, de poder e controlo sobre as próprias condições da existência, do crescimento individual e social, e de uma conscientização coletiva. Esta foi a posição da investigadora norte-americana Carol Ryff na sua intervenção na conferência.
Não podemos por isso ouvir os alardes críticos, eles mesmos superficiais e desconhecedores, e deitar fora palavras, narrativas, áreas de investigação e sonhos de futuro, apenas porque as sombras são mais fortes e poderosas que a luz. É cada vez mais inadiável estudar e perceber os efeitos das instituições nas dores e prazeres atuais, como defendia o economista Bruno Frey na referida conferência, onde expôs que o mais importante para as políticas sociais é trazer para a agenda as relações entre as pessoas e a forma como a comparação entre elas as move, repensando a democracia, a educação e o emprego dentro desta moldura.
Stefano Zamagni terminou o encontro de dois dias com uma lista de cinco tópicos que considera precisarem de ser mais investigados no futuro, mas começou com uma pergunta: “Faz sentido falar de felicidade num momento de crise?” A esta respondeu que historicamente sempre fez sentido: as mais marcantes e ricas perspetivas sobre a felicidade, oriundas de economistas ou filósofos, emergiram em tempos críticos das sociedades ocidentais. Foi assim com Thomas Hobbes e a sua teoria da felicidade como segurança, com John Locke e a sua visão da felicidade como liberdade, com John Stuart Mill, que trouxe a perspetiva da felicidade como sociabilidade, e de Antonio Genovesi – o grande autor por detrás destas conferências – que promoveu o entendimento da felicidade como pública, e em relação.
Quanto aos temas a promover na agenda da investigação, Zamagni propôs:
1. Estudar e aprofundar a relação entre Felicidade e Justiça, em particular compreender fundamentadamente o impacto das desigualdades e do desemprego na felicidade, para esclarecer alguns paradoxos, e assegurar que, perante o efeito da desigualdade na felicidade das pessoas, se deve atender ao conceito de justiça benevolente (não mais como dois opostos, mas como duas linhas complementares).
2. Estudar a felicidade no contexto das organizações e do mundo laboral, com particular relevo para a investigação, não como até aqui da ligação da felicidade com o consumo, mas agora com a produtividade. Defendeu a este propósito que as empresas (a par das famílias, das escolas…) são locais de criação do carácter humano, e que é hoje neste contexto laboral que se encontram maiores razões de infelicidade. Ainda se posicionou na defesa do estudo, não já do Capital Humano, mas do Capital Conectivo, daquilo que nos liga e nos permite cooperar – porque a cooperação é um fator de felicidade.
3. Investigar a ligação da felicidade com o género. A preocupação aqui desponta de dados recentes que mostram que as mulheres – e não os homens – estão a ficar mais infelizes. Como travar esta tendência e as suas consequências para o resto da vida em sociedade? Como organizar as nossas vidas coletivas sem ser “à maneira masculina”?
4. Estudar mais a causalidade, na relação com a felicidade. Os paradoxos e contradições na área da economia e do bem-estar advêm da proeminência de estudos correlacionais e não de estudos causais. Considerou que é mais arriscado para o investigador estudar as causas do que meras correlações, já que naquele caso se tomam posições mas referiu que é tempo de arriscar.
5. Finalmente, propôs que se estudasse mais a ligação da felicidade com a bondade e o bom. Já reparou o leitor que falamos habitualmente de bens materiais? O que é um bem? O que é uma vida boa? Como é uma sociedade boa? Como se liga a modernidade com a moralidade? A resposta poderá vir de estudos que ajudem a perceber como a felicidade está ligada ao exercício das virtudes.
Assumiu que só poderemos falar de felicidade pública se entendermos a noção de bem.
Olhando para o enfoque destes economistas, reflito que talvez o grande escândalo desta mancha económica que molda toda a nossa vida tenha sido não termos sabido usar a riqueza económica que até aqui conseguíramos, para a repartir com equilíbrio e justiça, para que mais, muito mais pessoas, todas as pessoas, tivessem direito à felicidade digna.
Voltando ao Cândido, que tendo sido endoutrinado para ser optimista, albergou em si todas as possíveis catástrofes do mundo, o que o levou à inevitabilidade de ponderar sobre o problema do mal. É fascinante que Voltaire lhe tenha decidido dar estabilidade de vida numa pacata comunidade rural. No entanto, essa pacatez trouxe ao herói da história um aborrecimento penoso, e acabou por fazer emergir nele a estranha e contraditória saudade das dolorosas aventuras do passado. No fundo, ali tudo é mau: o presente sereno e protegido, e o passado dramático, mas aventureiro e estimulante. Onde encontra Cândido a solução? Na ação, através de um trabalho comunitário repleto de significado, em que todos colaboram e contribuem para o bem comum – cultivando o jardim coletivo. Muitos peritos na obra atribuem a este final uma visão pessimista da perda de esperança; preferimos outros, que defendem nesse final uma posição melhorista sobre a sociedade: um convite a estarmos comprometidos com um jardinar metafórico, que ativamente cuidamos juntos.
Olho o vidro antigo do tinteiro, recipiente a cujas paredes se acomoda o fluido com que a minha caneta permanente se alimenta, e penso que temos a escolha de poder sempre mudar de tinta: de infelicidade sustentada para felicidade sustentável, da imunidade ao outro de quem nos afastamos porque nos traz dor, para o retorno à comunidade e à aceitação da dialética permanente entre bênção e ferida. Esta foi a posição de Luigino Bruni, um dos economistas por detrás da organização da conferência – estar com o outro, fazer comunidade, é aceitar esta dialética – porque é nela que está a extração do futuro que vamos juntos escrever.
Que a mancha ténue que agora cresce serpenteante nos nossos tecidos sociais e científicos eleve os estudos da felicidade a instrumento de consciência pública e de construção coletiva – porque a felicidade não é (apenas), não pode ser, uma acumulação utilitarista e privada do máximo de experiências egoístas de prazer, qual corrupção hedónica debruada com os mais ricos brilhos económicos e as mais interesseiras metas financeiras, mas sim uma mancha que derrame, deliberada, o nobre, incorruptível e desapegado sentido do publico e do civil.
Guardei da minha infância uma caneta de tinta permanente, com o meu nome gravado, oferecida quando completei os primeiros quatro anos de escola. Lembro-me de a usar com um cuidado redobrado, possuída do receio de que alguma gota da tinta azul me caísse na folha branca ou no tecido da bata. Nessa imprevidência, a mancha alastrava impetuosa por cada fibra do papel ou do tecido, e derramava-se, impossível de conter, qual ação sem dono.
É esta a imagem que me ocupa quando penso na presente colonização da nossa existência pela economia. Como um borrão incontrolável, toca hoje todas as fibras e esferas da nossa quotidianidade. A cada passo a sua premência nos recorda de quão longe estamos das previsões de Habermas, que há poucos anos nos dizia acreditar que a utopia emigraria do mundo do trabalho para o resto da nossa vida, em formato de compromisso cívico e solidário, e de melhoria das instituições democráticas – movimentos essenciais para a esperança num futuro comum.
Destoando desta perspetiva, com o capitalismo livre emigrou também o descrédito e o ceticismo nos outros e no futuro, outra mácula que alastra sem contenção, deixando-nos crucificados num presente endurecido. A ele não são alheios o antagonismo competitivo e o darwinismo social, que tantas vezes nos estimulam a comportamentos sociais menos éticos, e empurram uns contra os outros – agora, porque em tempo de escassez; antes, porque em tempo de abundância - e nos deixam um desencantamento progressivo face à mera possibilidade de politicas educativas, sociais e económicas bondosas, vidas relacionais de elevada ordem moral, e práticas diárias efetivas de virtude.
Como professora e mãe, como cidadã e investigadora, não posso suportar a ideia de penhorarmos o futuro e nos despedirmos de toda a utopia – sem essas âncoras, nada do que sou ou do que faço me faz sentido.
Tem sido por isso com ânimo vitalizado que acompanho um pequeno mas altamente qualificado grupo de economistas europeus, sobretudo italianos, mas também suíços e ingleses, que buscam uma outra forma de pensar e viver a economia, e nas suas universidades investigam e divulgam o valor psicológico e social dos bens não tangíveis. Dedicam-se em especial aos bens da esfera social, conscientes da realidade empírica que indicia que os bens económicos convencionais excessivos, e a atual perceção de progresso, nos afastaram de uma vida de que nos orgulhemos.
Mostram as investigações que os bens económicos convencionais (mas atenção! Só depois das necessidades básicas estarem cumpridas, como o direito ao sustento, a uma casa condigna, à saúde, educação, emprego) parecem pouco associados ao bem-estar das pessoas e sociedades, e o seu incremento, quando já vivemos uma vida digna, parece não aumentar a nossa felicidade. Em contraponto, os relacionais, se genuínos e positivamente recíprocos, mostram-se profundamente relevantes para a felicidade subjetiva, em sociedades em que a justiça, a igualdade e a bondade mapeiam as existências e as politicas. Estudar a felicidade pela mão dos psicólogos tem sido sobretudo pensá-la enquanto bem individual, muito enquanto um bem hedónico e de prazer, e menos enquanto um bem social, de outro tipo de desenvolvimento e crescimento, e de construção do sentido para a vida. Esse ângulo desponta agora na economia, e dá força a quem, na psicologia, já defendia há anos um olhar mais amplo, relacional, organizacional, comunitário, do que é sermos felizes.
Foi por isso que na semana que passou, a 3 e 4 de Junho estive em Roma, rodeada desses mesmos economistas, no sexto congresso internacional da associação HEIRS: Happiness Economics and Interpersonal Relations Studies (Estudos da Economia da Felicidade e Relações Interpessoais), este ano sob o tema da Felicidade Pública. No meio de complexas equações matemáticas, muitos estudos empíricos abstratos, bem como debates sobre virtudes (estes últimos mais a jeito do meu entendimento), o apelo quase generalizado destes intelectuais foi destinado ao pensamento integrado e ao Bem Comum através da emergência de um contexto social que promova o melhor de todos e cada um, e as virtudes coletivas.
Polifónicas perspetivas do que pode ser uma boa sociedade, de qual o seu papel na promoção do bem-estar pessoal e coletivo, e do que em consequência poderão ser as políticas públicas, entreteciam-se insidiosamente no meio da estatística dura, e das fraturas de pensamento e abordagem, ou (como ali foram chamadas) das tensões criativas entre psicólogos, sociólogos e economistas.
Num momento em que é cada vez mais perigoso e arrojado usar publicamente palavras como felicidade, positivo ou amor – assumidas e criticadas como sendo parte de uma cultura de negação ou de superficialidade, de insensata euforia perpétua ou de associação com o dever ou imposição de viver hedonicamente feliz – louvo a referida associação de economistas pela dedicação corajosa ao tema.
A felicidade, a banalidade e a vacuidade não têm que andar de mãos dadas. Apetece voltar ao Cândido de Voltaire, escrito após o Terramoto de Lisboa, que ao demolir a visão filosófica corrente nessa segunda metade do seculo XVIII, que até à nossa catástrofe nacional considerava que vivíamos no melhor dos mundos possíveis, passa pelos maiores dramas possíveis, em busca de um sentido. Hoje, muitos Cândidos nos fazem acreditar que vivemos no pior dos mundos desejáveis, e que estudar e promover a felicidade é uma prática desrespeitadora dos dramas humanos. Muitos dizem por isso que a felicidade não é suficiente como meta, em particular em períodos de austeridade e perdas materiais e direitos conseguidos, como os que vivemos. Concordamos. Não é suficiente, se entendida na visão individual, prazerosa, superficial e momentânea, e se não for aplicada para resolver os problemas do mundo.
Mas o estudo e a promoção da felicidade podem e devem ser guiados por alvos sociais profundos, enriquecidos e enriquecedores, e ter implicações políticas, educativas, de saúde e económicas que nos ajudem a voltar a confiar. Não se pretende que a felicidade seja uma hegemonia, muito menos uma ideologia, mas tão só que seja um suporte para construir novos sentidos – desde a importância de cuidar dos laços sociais, até aos passos promotores de autonomia e escolha, de poder e controlo sobre as próprias condições da existência, do crescimento individual e social, e de uma conscientização coletiva. Esta foi a posição da investigadora norte-americana Carol Ryff na sua intervenção na conferência.
Não podemos por isso ouvir os alardes críticos, eles mesmos superficiais e desconhecedores, e deitar fora palavras, narrativas, áreas de investigação e sonhos de futuro, apenas porque as sombras são mais fortes e poderosas que a luz. É cada vez mais inadiável estudar e perceber os efeitos das instituições nas dores e prazeres atuais, como defendia o economista Bruno Frey na referida conferência, onde expôs que o mais importante para as políticas sociais é trazer para a agenda as relações entre as pessoas e a forma como a comparação entre elas as move, repensando a democracia, a educação e o emprego dentro desta moldura.
Stefano Zamagni terminou o encontro de dois dias com uma lista de cinco tópicos que considera precisarem de ser mais investigados no futuro, mas começou com uma pergunta: “Faz sentido falar de felicidade num momento de crise?” A esta respondeu que historicamente sempre fez sentido: as mais marcantes e ricas perspetivas sobre a felicidade, oriundas de economistas ou filósofos, emergiram em tempos críticos das sociedades ocidentais. Foi assim com Thomas Hobbes e a sua teoria da felicidade como segurança, com John Locke e a sua visão da felicidade como liberdade, com John Stuart Mill, que trouxe a perspetiva da felicidade como sociabilidade, e de Antonio Genovesi – o grande autor por detrás destas conferências – que promoveu o entendimento da felicidade como pública, e em relação.
Quanto aos temas a promover na agenda da investigação, Zamagni propôs:
1. Estudar e aprofundar a relação entre Felicidade e Justiça, em particular compreender fundamentadamente o impacto das desigualdades e do desemprego na felicidade, para esclarecer alguns paradoxos, e assegurar que, perante o efeito da desigualdade na felicidade das pessoas, se deve atender ao conceito de justiça benevolente (não mais como dois opostos, mas como duas linhas complementares).
2. Estudar a felicidade no contexto das organizações e do mundo laboral, com particular relevo para a investigação, não como até aqui da ligação da felicidade com o consumo, mas agora com a produtividade. Defendeu a este propósito que as empresas (a par das famílias, das escolas…) são locais de criação do carácter humano, e que é hoje neste contexto laboral que se encontram maiores razões de infelicidade. Ainda se posicionou na defesa do estudo, não já do Capital Humano, mas do Capital Conectivo, daquilo que nos liga e nos permite cooperar – porque a cooperação é um fator de felicidade.
3. Investigar a ligação da felicidade com o género. A preocupação aqui desponta de dados recentes que mostram que as mulheres – e não os homens – estão a ficar mais infelizes. Como travar esta tendência e as suas consequências para o resto da vida em sociedade? Como organizar as nossas vidas coletivas sem ser “à maneira masculina”?
4. Estudar mais a causalidade, na relação com a felicidade. Os paradoxos e contradições na área da economia e do bem-estar advêm da proeminência de estudos correlacionais e não de estudos causais. Considerou que é mais arriscado para o investigador estudar as causas do que meras correlações, já que naquele caso se tomam posições mas referiu que é tempo de arriscar.
5. Finalmente, propôs que se estudasse mais a ligação da felicidade com a bondade e o bom. Já reparou o leitor que falamos habitualmente de bens materiais? O que é um bem? O que é uma vida boa? Como é uma sociedade boa? Como se liga a modernidade com a moralidade? A resposta poderá vir de estudos que ajudem a perceber como a felicidade está ligada ao exercício das virtudes.
Assumiu que só poderemos falar de felicidade pública se entendermos a noção de bem.
Olhando para o enfoque destes economistas, reflito que talvez o grande escândalo desta mancha económica que molda toda a nossa vida tenha sido não termos sabido usar a riqueza económica que até aqui conseguíramos, para a repartir com equilíbrio e justiça, para que mais, muito mais pessoas, todas as pessoas, tivessem direito à felicidade digna.
Voltando ao Cândido, que tendo sido endoutrinado para ser optimista, albergou em si todas as possíveis catástrofes do mundo, o que o levou à inevitabilidade de ponderar sobre o problema do mal. É fascinante que Voltaire lhe tenha decidido dar estabilidade de vida numa pacata comunidade rural. No entanto, essa pacatez trouxe ao herói da história um aborrecimento penoso, e acabou por fazer emergir nele a estranha e contraditória saudade das dolorosas aventuras do passado. No fundo, ali tudo é mau: o presente sereno e protegido, e o passado dramático, mas aventureiro e estimulante. Onde encontra Cândido a solução? Na ação, através de um trabalho comunitário repleto de significado, em que todos colaboram e contribuem para o bem comum – cultivando o jardim coletivo. Muitos peritos na obra atribuem a este final uma visão pessimista da perda de esperança; preferimos outros, que defendem nesse final uma posição melhorista sobre a sociedade: um convite a estarmos comprometidos com um jardinar metafórico, que ativamente cuidamos juntos.
Olho o vidro antigo do tinteiro, recipiente a cujas paredes se acomoda o fluido com que a minha caneta permanente se alimenta, e penso que temos a escolha de poder sempre mudar de tinta: de infelicidade sustentada para felicidade sustentável, da imunidade ao outro de quem nos afastamos porque nos traz dor, para o retorno à comunidade e à aceitação da dialética permanente entre bênção e ferida. Esta foi a posição de Luigino Bruni, um dos economistas por detrás da organização da conferência – estar com o outro, fazer comunidade, é aceitar esta dialética – porque é nela que está a extração do futuro que vamos juntos escrever.
Que a mancha ténue que agora cresce serpenteante nos nossos tecidos sociais e científicos eleve os estudos da felicidade a instrumento de consciência pública e de construção coletiva – porque a felicidade não é (apenas), não pode ser, uma acumulação utilitarista e privada do máximo de experiências egoístas de prazer, qual corrupção hedónica debruada com os mais ricos brilhos económicos e as mais interesseiras metas financeiras, mas sim uma mancha que derrame, deliberada, o nobre, incorruptível e desapegado sentido do publico e do civil.
9.1.13
Felicidade Pública (2)
Helena Marujo, in Público on-line
Num tempo de dádivas – por vezes fragilmente ritualizadas, vazias e ocas, outras simbólicas, outras ainda majestosas pelo amor partilhado, feitas à margem das grandes estratégias de consumo, publicidade ou marketing – lembro o que alguns consideram ter sido o presente de Miguel de Cervantes: o mundo como ambiguidade.
Vi recentemente nos media três histórias que me dividiram em incertezas, dúvidas e reflexões, pela sua (aparente) ambiguidade. Uma descrevia uma situação dramática vivida no metro de Nova Iorque, em que um homem empurrado para a linha, de mão estendida para se agarrar a algo, a alguém, à vida, mesmo antes de ser esmagado por um comboio, foi retratado por um fotógrafo jornalístico freelancer. A mão por detrás da foto serviu para imortalizar o momento, e não pôde – ou não conseguiu, ou não teve tempo, ou não quis, ou não… – alongar-se e tentar (apenas tentar) dar possibilidade de vida a quem desesperava. Numa entrevista subsequente, esse mesmo fotógrafo defende: “Prefiro não ser a história; prefiro ser o contador da história.” Espectador, não agente; transmissor de histórias, não seu criador nem transformador; veloz no captar da imagem, e lento na empatia (potencialmente salvadora?).
A segunda história relata como um atleta espanhol perdeu intencionalmente uma corrida para ajudar um corredor queniano, medalhado nos Jogos Olímpicos, que se desorientou na boca da meta e que, ao se enganar no caminho, teria dado ao primeiro a hipótese de vencer a prova. Entrevistado, o corredor espanhol refere que preferiu agir assim por considerar que fazem hoje falta atos de honradez. Mas completou: caso se tratasse de uma corrida com outras implicações, visibilidade e dimensões... bem, aí provavelmente reagiria de outra forma e aproveitaria para cortar a meta em primeiro.
O terceiro caso, nacional e intensamente mediatizado, tratou da incorporação de uma identidade não real por um homem a quem chamaram burlão. Conheci a pessoa uma semana antes de o caso vir a lume em insistentes parangonas, pois coincidimos a falar numa conferência de uma prestigiada e admirável organização sem fins lucrativos dedicada à integração de pessoas com todo o tipo de diferenças. Na pessoa em causa impressionaram-me as suas histórias (mesmo que, sei-o agora, alegadamente fictícias), pois eram antifascistas, anticolonialistas, defensoras da liberdade, da democracia altamente participada, e de crónicas dramáticas sobre a pobreza no mundo, com propostas estratégicas para a sua diminuição. Ouvi-o atentamente, fascinada, sem duvidar. No linchamento público que se seguiu, tão habilmente coordenado e conveniente, silenciando tantas (outras) burlas em curso, não reparei em ninguém que se referisse ao conteúdo das suas intervenções, mas apenas às questões formais da pessoa e suas ilegalidades. Só mais tarde soube de ocorrências bem mais graves na história da sua vida, esqueletos dramáticos do seu armário, que ultrapassavam o ter (alegadamente) assumido funções e cargos inexistentes e fictícios, mas até lá, espantei-me com os absurdos discursos moralizadores vindos de tantos sectores e cidadãos, simplistas e sobre a forma, nunca sobre o conteúdo.
Os três casos são tradutores de éticas de vida em sociedade, de uma sociedade com requisitos potencialmente hipócritas, e todos nos convidam a perceber as profundas ambiguidades das nossas vidas, entre extremos dialéticos do bem e do mal, e os potenciais micro-heroísmos de cada dia.
Nestas histórias reside o apelo ao escrutínio da ambivalência: que condições sociais determinam se nos comportamos como eminentemente bons ou maus, como heróis ou vítimas?
A sedução pelo bem pode ser tão presente em nós como a sedução pelo mau. Qualquer um pode ser um herói, tal como qualquer um pode ser uma aberração, um veículo de infernos. É isto que o investigador norte-americano Philip Zimbardo tem brilhantemente estudado, nos últimos anos, através do Heroic Imagination Project: depois de estudar como as boas pessoas se transformam em monstros do mal, quer agora perceber como pessoas normais se metamorfoseiam em heróis. Criou uma organização e um projeto educativo para promover o heroísmo como antídoto ao mal e como forma de celebrar o melhor da natureza humana, e tem vindo a potenciar nos espaços comunitários ações que facilitem os pequenos heroísmos morais.
Ao ter como única certeza a sabedoria da dúvida, como nos dizia Milan Kundera, prefiro escolher acreditar que os heróis – os que o já foram, os que potencialmente podiam ter sido, os que queriam muito sê-lo, os que ainda poderão vir a ser – são simplesmente pessoas iguais a todas, que estão motivadas para atuar de forma ética ou em prol de terceiros, mas comportando-se de forma especial. Gosto desta ideia de democratizar o heroísmo. Gosto de poder imaginar que cada um de nós é um “herói-em-potência”.
Fascina-me saber que se estiver consciente da necessidade de agir em apoio de alguém que é vítima de qualquer mal – venha do quadrante que vier – ou simplesmente a necessitar de ajuda, cada um de nós pode estar preparado para desempenhar as melhores e mais necessárias ações. Porque não precisamos de luta ou guerra para sermos heróis, mas podemos fazê-lo de forma pacífica, ainda que rebelde e de desobediência aos dogmatismos e imoralidades; porque os atos heróicos não têm de ser extraordinários nem dramáticos – e podem ser coisas tão simples como o que fazemos com as palavras e as emoções em momentos de sofrimento coletivo, como reagimos face à injustiça, a que tipo de cidadania damos forma, que histórias infantis escrevemos ou de que maneira agimos perante um ato de violência perpetrado dentro do autocarro onde seguimos; e que cada um de nós, qualquer um, tem em si a potencialidade de ser um herói – todos os dias. Aspirar à condição humana (de excelência) já não é só um sonho do Pinóquio. Alimentemos imaginações heroicas e tomemos a ação. Não dá mais para sermos espectadores e alimentarmos a ambiguidade. Acho que este ano, mais do que nunca, é disso que precisamos. Voltando a Kundera, unamos a extrema leveza da forma à profundidade do conteúdo.
Helena Marujo é professora universitaria no ISCSP/UTL
Num tempo de dádivas – por vezes fragilmente ritualizadas, vazias e ocas, outras simbólicas, outras ainda majestosas pelo amor partilhado, feitas à margem das grandes estratégias de consumo, publicidade ou marketing – lembro o que alguns consideram ter sido o presente de Miguel de Cervantes: o mundo como ambiguidade.
Vi recentemente nos media três histórias que me dividiram em incertezas, dúvidas e reflexões, pela sua (aparente) ambiguidade. Uma descrevia uma situação dramática vivida no metro de Nova Iorque, em que um homem empurrado para a linha, de mão estendida para se agarrar a algo, a alguém, à vida, mesmo antes de ser esmagado por um comboio, foi retratado por um fotógrafo jornalístico freelancer. A mão por detrás da foto serviu para imortalizar o momento, e não pôde – ou não conseguiu, ou não teve tempo, ou não quis, ou não… – alongar-se e tentar (apenas tentar) dar possibilidade de vida a quem desesperava. Numa entrevista subsequente, esse mesmo fotógrafo defende: “Prefiro não ser a história; prefiro ser o contador da história.” Espectador, não agente; transmissor de histórias, não seu criador nem transformador; veloz no captar da imagem, e lento na empatia (potencialmente salvadora?).
A segunda história relata como um atleta espanhol perdeu intencionalmente uma corrida para ajudar um corredor queniano, medalhado nos Jogos Olímpicos, que se desorientou na boca da meta e que, ao se enganar no caminho, teria dado ao primeiro a hipótese de vencer a prova. Entrevistado, o corredor espanhol refere que preferiu agir assim por considerar que fazem hoje falta atos de honradez. Mas completou: caso se tratasse de uma corrida com outras implicações, visibilidade e dimensões... bem, aí provavelmente reagiria de outra forma e aproveitaria para cortar a meta em primeiro.
O terceiro caso, nacional e intensamente mediatizado, tratou da incorporação de uma identidade não real por um homem a quem chamaram burlão. Conheci a pessoa uma semana antes de o caso vir a lume em insistentes parangonas, pois coincidimos a falar numa conferência de uma prestigiada e admirável organização sem fins lucrativos dedicada à integração de pessoas com todo o tipo de diferenças. Na pessoa em causa impressionaram-me as suas histórias (mesmo que, sei-o agora, alegadamente fictícias), pois eram antifascistas, anticolonialistas, defensoras da liberdade, da democracia altamente participada, e de crónicas dramáticas sobre a pobreza no mundo, com propostas estratégicas para a sua diminuição. Ouvi-o atentamente, fascinada, sem duvidar. No linchamento público que se seguiu, tão habilmente coordenado e conveniente, silenciando tantas (outras) burlas em curso, não reparei em ninguém que se referisse ao conteúdo das suas intervenções, mas apenas às questões formais da pessoa e suas ilegalidades. Só mais tarde soube de ocorrências bem mais graves na história da sua vida, esqueletos dramáticos do seu armário, que ultrapassavam o ter (alegadamente) assumido funções e cargos inexistentes e fictícios, mas até lá, espantei-me com os absurdos discursos moralizadores vindos de tantos sectores e cidadãos, simplistas e sobre a forma, nunca sobre o conteúdo.
Os três casos são tradutores de éticas de vida em sociedade, de uma sociedade com requisitos potencialmente hipócritas, e todos nos convidam a perceber as profundas ambiguidades das nossas vidas, entre extremos dialéticos do bem e do mal, e os potenciais micro-heroísmos de cada dia.
Nestas histórias reside o apelo ao escrutínio da ambivalência: que condições sociais determinam se nos comportamos como eminentemente bons ou maus, como heróis ou vítimas?
A sedução pelo bem pode ser tão presente em nós como a sedução pelo mau. Qualquer um pode ser um herói, tal como qualquer um pode ser uma aberração, um veículo de infernos. É isto que o investigador norte-americano Philip Zimbardo tem brilhantemente estudado, nos últimos anos, através do Heroic Imagination Project: depois de estudar como as boas pessoas se transformam em monstros do mal, quer agora perceber como pessoas normais se metamorfoseiam em heróis. Criou uma organização e um projeto educativo para promover o heroísmo como antídoto ao mal e como forma de celebrar o melhor da natureza humana, e tem vindo a potenciar nos espaços comunitários ações que facilitem os pequenos heroísmos morais.
Ao ter como única certeza a sabedoria da dúvida, como nos dizia Milan Kundera, prefiro escolher acreditar que os heróis – os que o já foram, os que potencialmente podiam ter sido, os que queriam muito sê-lo, os que ainda poderão vir a ser – são simplesmente pessoas iguais a todas, que estão motivadas para atuar de forma ética ou em prol de terceiros, mas comportando-se de forma especial. Gosto desta ideia de democratizar o heroísmo. Gosto de poder imaginar que cada um de nós é um “herói-em-potência”.
Fascina-me saber que se estiver consciente da necessidade de agir em apoio de alguém que é vítima de qualquer mal – venha do quadrante que vier – ou simplesmente a necessitar de ajuda, cada um de nós pode estar preparado para desempenhar as melhores e mais necessárias ações. Porque não precisamos de luta ou guerra para sermos heróis, mas podemos fazê-lo de forma pacífica, ainda que rebelde e de desobediência aos dogmatismos e imoralidades; porque os atos heróicos não têm de ser extraordinários nem dramáticos – e podem ser coisas tão simples como o que fazemos com as palavras e as emoções em momentos de sofrimento coletivo, como reagimos face à injustiça, a que tipo de cidadania damos forma, que histórias infantis escrevemos ou de que maneira agimos perante um ato de violência perpetrado dentro do autocarro onde seguimos; e que cada um de nós, qualquer um, tem em si a potencialidade de ser um herói – todos os dias. Aspirar à condição humana (de excelência) já não é só um sonho do Pinóquio. Alimentemos imaginações heroicas e tomemos a ação. Não dá mais para sermos espectadores e alimentarmos a ambiguidade. Acho que este ano, mais do que nunca, é disso que precisamos. Voltando a Kundera, unamos a extrema leveza da forma à profundidade do conteúdo.
Helena Marujo é professora universitaria no ISCSP/UTL
10.5.12
Leiria: Grupo de jovens quer pôr o país a "mexer
por Mafalda Almeida, in Boas Notícias
Projeto de ensino de línguas estrangeiras da AFA já tem 160 alunos, num total de 8 línguas
Em Leiria, um grupo de amigos criou uma associação que está a dar que falar. Com vários projetos que passam por aulas gratuitas de línguas estrangeiras, um Clube da Felicidade e ações de apoio ao empreendedorismo, este grupo quer ajudar os jovens a avançar.
“Obcecado pela felicidade e bem estar”, é assim que o Hugo se descreve. Tem 25 anos, é um dos fundadores da Associação Fazer Avançar (AFA) e juntamente com dois amigos resolveu pôr a sua energia, proatividade e boa disposição ao serviço da sua cidade – Leiria.
Em 2008, os três amigos decidiram criar um jornal gratuito em Leiria. No entanto, as dificuldades práticas que encontraram pelo caminho levaram-nos a outro destino: “Não encontrámos nenhuma organização que fosse capaz de nos apoiar e de nos explicar coisas básicas, como por exemplo como gerir a contabilidade”.
O Jornal 15 chegou mesmo a ir para a frente mas, segundo explicou Hugo, sentiram aqui uma necessidade que podia ser partilhada por outros jovens com ideias que viessem a seguir. “Decidimos então criar uma organização que permitisse aos jovens experimentar ideias, dando-lhes as ferramentas para isso”.
Foi assim que Hugo Aguiar, Pedro Dias, ambos com 25 anos, e Raúl Testa, de 26, reuniram um grupo de amigos e fundaram a AFA, que através do programa “Faz-te à vida” incentiva os jovens a arriscar e a testar as suas ideias, oferecendo, por exemplo, apoio jurídico e fiscal aos jovens que queiram criar um negócio.
Leiria Language Exchange – “partilha o teu mundo”
O Leiria Language Exchange é um dos principais projetos da AFA e conquistou este mês o primeiro lugar de um concurso do Instituto do Empreendedorismo Social (IES), que decorreu em Abril e contou com 200 ideias candidatas.
Este projeto baseia-se na troca de conhecimentos entre cidadãos de diferentes culturas e permite que qualquer pessoa possa aprender uma língua de forma gratuita. Os interessados em aprender uma língua nova dizem também se estão dispostos a ensinar uma língua e qual, o que faz com que o aluno de uma turma possa ser tutor de outra.
“A ideia é promover a troca de culturas dentro da sala de aula, partilhando conhecimentos linguísticos e culturais”, explica o Hugo. Neste momento, o projeto conta com 160 alunos inscritos, num total de 8 línguas que vão do português ao mandarim passando pelo francês, o polaco ou o inglês, por exemplo. O resultado são turmas transversais, com alunos entre os 18 e os 60 anos, de 12 nacionalidades diferentes.
As aulas acontecem uma vez por semana na sede da associação, sem qualquer custo para nenhuma das partes e podem ser complementadas com aulas extra para ver filmes, conversar ou fazer jogos que promovam a interação do grupo.
Outros projetos: Happiness Club e desporto para todos
“Let’s put a smile on that face” é o lema do Leiria Happiness Club, recentemente criado pela AFA em parceria com outros clubes do género espalhados pelo país.
“Como associação já tentamos falar em otimismo, espalhar a positividade e melhorar os níveis de bem-estar em Leiria e quando soubemos que o Happiness Club de Portugal queria criar mais clubes, para nós fez todo o sentido entrar e participar”.
A associação decidiu então unir-se a este movimento pela felicidade e tencionam contagiar os estudantes de Leiria, criando vários núcleos nas escolas secundárias e escolas superiores da cidade.
Para alcançar o objetivo final de “criar sorrisos”, vão recorrer a workshops de yoga do riso, ações de free hugs ou conferências sobre positividade com pessoas que tragam histórias inspiradoras e cientistas da felicidade.
Na AFA existem ainda outros projetos, como o EU Desportivo que pretende oferecer a todas as crianças a oportunidade de praticar desporto, independentemente da sua condição financeira ou social.
Jovens voluntários e 70 associados
Para garantir que Leiria avança mesmo, há uma equipa de 16 membros ativos, (para além dos cerca de 70 associados) todos jovens voluntários com menos de que 30 anos de idade.
Alguns estudam, outros já estão no mercado de trabalho, mas une-os a motivação em torno de um objetivo principal comum “capacitar os jovens, pô-los a resolver os seus problemas e depois os dos outros”, como explica o Hugo.
Hugo - que divide o seu tempo entre Lisboa, onde trabalha como online marketing, e Leiria - defende que “nos últimos 50 anos" as pessoas alteraram "as suas prioridades". "Orientámo-nos para o desenvolvimento económico e para o sucesso individual, o que está errado”, salienta.
“Não estamos a viver tempos fáceis e não somos certamente nós que temos culpa nisto. No entanto, se daqui a 25 anos estivermos mal vou sentir que parte da culpa é minha. E por isso dou hoje o meu melhor, onde acho que posso ter impacto”, conclui.
Projeto de ensino de línguas estrangeiras da AFA já tem 160 alunos, num total de 8 línguas
Em Leiria, um grupo de amigos criou uma associação que está a dar que falar. Com vários projetos que passam por aulas gratuitas de línguas estrangeiras, um Clube da Felicidade e ações de apoio ao empreendedorismo, este grupo quer ajudar os jovens a avançar.
“Obcecado pela felicidade e bem estar”, é assim que o Hugo se descreve. Tem 25 anos, é um dos fundadores da Associação Fazer Avançar (AFA) e juntamente com dois amigos resolveu pôr a sua energia, proatividade e boa disposição ao serviço da sua cidade – Leiria.
Em 2008, os três amigos decidiram criar um jornal gratuito em Leiria. No entanto, as dificuldades práticas que encontraram pelo caminho levaram-nos a outro destino: “Não encontrámos nenhuma organização que fosse capaz de nos apoiar e de nos explicar coisas básicas, como por exemplo como gerir a contabilidade”.
O Jornal 15 chegou mesmo a ir para a frente mas, segundo explicou Hugo, sentiram aqui uma necessidade que podia ser partilhada por outros jovens com ideias que viessem a seguir. “Decidimos então criar uma organização que permitisse aos jovens experimentar ideias, dando-lhes as ferramentas para isso”.
Foi assim que Hugo Aguiar, Pedro Dias, ambos com 25 anos, e Raúl Testa, de 26, reuniram um grupo de amigos e fundaram a AFA, que através do programa “Faz-te à vida” incentiva os jovens a arriscar e a testar as suas ideias, oferecendo, por exemplo, apoio jurídico e fiscal aos jovens que queiram criar um negócio.
Leiria Language Exchange – “partilha o teu mundo”
O Leiria Language Exchange é um dos principais projetos da AFA e conquistou este mês o primeiro lugar de um concurso do Instituto do Empreendedorismo Social (IES), que decorreu em Abril e contou com 200 ideias candidatas.
Este projeto baseia-se na troca de conhecimentos entre cidadãos de diferentes culturas e permite que qualquer pessoa possa aprender uma língua de forma gratuita. Os interessados em aprender uma língua nova dizem também se estão dispostos a ensinar uma língua e qual, o que faz com que o aluno de uma turma possa ser tutor de outra.
“A ideia é promover a troca de culturas dentro da sala de aula, partilhando conhecimentos linguísticos e culturais”, explica o Hugo. Neste momento, o projeto conta com 160 alunos inscritos, num total de 8 línguas que vão do português ao mandarim passando pelo francês, o polaco ou o inglês, por exemplo. O resultado são turmas transversais, com alunos entre os 18 e os 60 anos, de 12 nacionalidades diferentes.
As aulas acontecem uma vez por semana na sede da associação, sem qualquer custo para nenhuma das partes e podem ser complementadas com aulas extra para ver filmes, conversar ou fazer jogos que promovam a interação do grupo.
Outros projetos: Happiness Club e desporto para todos
“Let’s put a smile on that face” é o lema do Leiria Happiness Club, recentemente criado pela AFA em parceria com outros clubes do género espalhados pelo país.
“Como associação já tentamos falar em otimismo, espalhar a positividade e melhorar os níveis de bem-estar em Leiria e quando soubemos que o Happiness Club de Portugal queria criar mais clubes, para nós fez todo o sentido entrar e participar”.
A associação decidiu então unir-se a este movimento pela felicidade e tencionam contagiar os estudantes de Leiria, criando vários núcleos nas escolas secundárias e escolas superiores da cidade.
Para alcançar o objetivo final de “criar sorrisos”, vão recorrer a workshops de yoga do riso, ações de free hugs ou conferências sobre positividade com pessoas que tragam histórias inspiradoras e cientistas da felicidade.
Na AFA existem ainda outros projetos, como o EU Desportivo que pretende oferecer a todas as crianças a oportunidade de praticar desporto, independentemente da sua condição financeira ou social.
Jovens voluntários e 70 associados
Para garantir que Leiria avança mesmo, há uma equipa de 16 membros ativos, (para além dos cerca de 70 associados) todos jovens voluntários com menos de que 30 anos de idade.
Alguns estudam, outros já estão no mercado de trabalho, mas une-os a motivação em torno de um objetivo principal comum “capacitar os jovens, pô-los a resolver os seus problemas e depois os dos outros”, como explica o Hugo.
Hugo - que divide o seu tempo entre Lisboa, onde trabalha como online marketing, e Leiria - defende que “nos últimos 50 anos" as pessoas alteraram "as suas prioridades". "Orientámo-nos para o desenvolvimento económico e para o sucesso individual, o que está errado”, salienta.
“Não estamos a viver tempos fáceis e não somos certamente nós que temos culpa nisto. No entanto, se daqui a 25 anos estivermos mal vou sentir que parte da culpa é minha. E por isso dou hoje o meu melhor, onde acho que posso ter impacto”, conclui.
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