Mostrar mensagens com a etiqueta Deslocados. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Deslocados. Mostrar todas as mensagens

28.2.22

Ucrânia. Guerra pode gerar cinco milhões de deslocados

José Pedro Frazão , Marta Grosso , Cristina Nascimento, in RR

O diretor-geral da Organização Internacional das Migrações das Nações Unidas, António Vitorino, defende na Renascença o cessar-fogo imediato por ser determinante para organizar a ajuda aos refugiados.

O diretor-geral da Organização Internacional das Migrações das Nações Unidas (OIM) diz ser muito importante perceber a duração do conflito na Ucrânia, pois disso depende a quantidade de deslocados que a União Europeia terá de acolher.

“Temos vários cenários e tudo depende da dimensão da operação militar e da duração do conflito. Por isso, a questão fundamental neste momento é parar e criar condições para um cessar-fogo. As Nações Unidas têm um cenário em que uma intervenção militar desta natureza, em vários locais, pode gerar mais de cinco milhões de deslocados”.

Nesta segunda-feira, Rússia e Ucrânia reuniram-se para conversações de paz junto à fronteira com a Bielorrússia, sem que, contudo, tivessem parado os combates.

Enquanto se aguardam notícias desta reunião, uma das prioridades imediatas vai para o acolhimento dos muitos milhares de ucranianos que continuam a deixar o país e que nesta altura já são mais de 500 mil.

Em entrevista à Renascença, António Vitorino explica de que forma está essa ajuda a ser articulada. Na Polónia, por exemplo, o processo parece estar a correr bem. Já na Moldávia, que também tem fronteira com a Ucrânia, a capacidade de ajudar não é tão grande – a Moldávia precisa de ajuda para ajudar.

Dentro da própria Ucrânia, o diretor-geral da OIM fala em “duas situações completamente distintas: temos pessoas nas zonas mais afetadas pela operação militar, com muita dificuldade de movimentos” e “temos movimentos noutras zonas menos impactadas pelo conflito, com pessoas que aproveitam essa circunstância para poderem tentar sair da Ucrânia e ir para países limítrofes”.

“O nosso cálculo neste momento é que deve haver cerca de 200 mil pessoas internamente deslocadas”, avança António Vitorino, lembrando que “ainda existem na Ucrânia mais de dois milhões de pessoas deslocadas internamente por causa das operações militares russas na Crimeia e na zona de Luhansk e Donetsk, desde 2014”.

Na Moldávia não existem capacidades de acolhimento, pelo que já está em curso uma operação para transportar tendas, sacos-cama, cobertores...

Além disso, há indicação que muitas pessoas fugiram para a Rússia. “Temos nota de que houve um fluxo relevante, de cerca de 100 mil pessoas, que abandonaram sobretudo a região do Leste da Ucrânia e o grande Donbass em direção à Federação Russa e os relatos que nos chegam é que também aí há necessidades humanitárias”, indica.
A maior preocupação de Vitorino

“O setor que mais me preocupa neste momento é o hospitalar”, afirma António Vitorino. “Obviamente, num cenário de conflito que envolva vítimas civis, isso vai ser um esforço extraordinário sobre os hospitais ucranianos”, explica.

O diretor-geral a OIM dá um exemplo: “os Médicos Sem Fronteiras deixaram de operar na Ucrânia, porque consideram que não têm condições de segurança para prosseguirem com as suas operações”.

A falta de condições deixa o país mais vulnerável no cuidado a prestar à vítimas da guerra.

Os Médicos Sem Fronteiras deixaram de operar na Ucrânia, porque consideram não ter condições de segurança

Parar a guerra para poder acudir as pessoas

A ONU mantém as suas estruturas na Ucrânia. “A decisão do secretário-geral [António Guterres] foi de que todas as agências ficavam na Ucrânia e continuavam a operar na Ucrânia”, informa.

A OIM é uma delas e até aumentou “a presença no território ucraniano, exatamente para estarmos preparados para responder às necessidades que resultam da guerra”.

“Temos cerca de 400 colaboradores na Ucrânia, que estão em vários pontos do território ucraniano, mas neste momento temos a capacidade de intervenção bastante limitada por causa do conflito militar”, lamenta.

É fundamental parar o sofrimento das pessoas

António Vitorino explica que as Nações Unidas “estão concentradas num conjunto de pontos identificados como pontos de convergência das agências, para estarmos isentos de sermos considerados alvo no conflito militar. Mantemos um relacionamento muito direto com as autoridades ucranianas, mas também se impõe que tenhamos medidas de precaução para não expor os nossos colaboradores aos riscos da guerra”.

Agora, reforça o português, o mais importante é o cessar-fogo. “É fundamental para parar o sofrimento das pessoas e para que nós possamos acudi-las como precisam”.


19.6.18

Número de deslocados à força subiu para 68,5 milhões

in https://www.jn.pt/mundo/interior/numero-de-deslocados-a-forca-subiu-para-685-milhoes-9482924.html

O número total de pessoas deslocadas à força em todo o mundo na sequência de conflitos armados, violência ou perseguição aumentou 2,9 milhões em 2017 para 68,5 milhões.

O alto-comissário para os refugiados da ONU, Filippo Grandi, disse em conferência de imprensa que "este número é o resultado de guerras prolongadas, da falta de solução para as crises que ainda continuam, a da pressão contínua sobre os civis em países com conflitos que os forçam a deixar as suas casas e crises novas ou agravadas como os Rohingya ou na Venezuela".

O "Relatório Mundial sobre Tendências em Deslocamento Forçado" da Agência das Nações Unidas para os Refugiados (ACNUR) revela que das 68,5 milhões de pessoas deslocadas à força no mundo, 25,4 milhões são refugiados, 40 milhões são deslocados internos e 3,1 milhões de requerentes de asilo.

No ano passado, cerca de 16,2 milhões de pessoas foram deslocadas pela primeira vez, incluindo 11,8 milhões de pessoas deslocadas dentro das fronteiras do seu próprio país e 4,4 milhões de novos refugiados e requerentes de asilo.

O ACNUR contabiliza uma média de 44.400 novos deslocados todos os dias.

Por outro lado, há também muitas pessoas a regressar aos seus países ou áreas de origem para tentar reconstruir as suas vidas, incluindo 4,2 milhões de pessoas de deslocados internos e pelo menos 667.400 refugiados.
No ano passado, cerca de 2,7 milhões de pessoas foram registadas como novos refugiados, duas vezes mais do que um ano antes, principalmente sudaneses do sul, sírios, rohingya, centro-africanos, congoleses, burundeses, eritreus, sudaneses, nigerianos, malianos e somalis.

Por outro lado, havia 1,9 milhões de pedidos de asilo no mundo em 2017, menos que os 2,2 milhões do ano anterior (2016).

Os Estados Unidos foram pela primeira vez o primeiro país a receber novos pedidos de asilo, com 331.700, à frente da Alemanha (198.300) e da Itália (126.500).

Segundo Grandi, 70% dos deslocados forçados vêm de apenas 10 países, o que "significa que, se houvesse soluções para os conflitos naquelas nações, o número global poderia começar a cair".

Tal como em anos anteriores, a Síria continuou a ser o país com mais deslocamentos forçados no mundo, com 12,6 milhões no final de 2017, dos quais 6,3 milhões eram refugiados, 146.700 requerentes de asilo e 6,2 milhões de pessoas deslocadas internamente.

A Colômbia tinha a segunda maior população de deslocados, com 7,9 milhões de vítimas do conflito, que durou mais de 50 anos, dos quais 7,7 milhões foram deslocados internamente, sendo seguida pela República Democrática do Congo, país imerso num processo de paz frágil com 5,1 milhões de deslocados.

Afegãos (4,8 milhões), sul-sudaneses (4,4 milhões), iraquianos (3,8 milhões), somalis (3,2 milhões), sudaneses (2,7 milhões), iemenitas (2,1 milhões), nigerianos (2 milhões) e ucranianos (2 milhões) completam a lista de dez países com o maior número de deslocados forçados.

De acordo com Grandi, o principal "ponto quente" no ano passado foi o Bangladesh, que acolheu quase um milhão de refugiados Rohingya depois de no ano passado 655.500 pessoas daquela minoria muçulmana terem fugido do estado birmanês de Rakáin, a maioria em apenas cem dias devido a uma nova onda de violência.

Entre as situações de destaque em 2017, o alto comissário da ONU destacou também a "deterioração das condições na Venezuela", país que foi abandonado nos últimos anos por mais de 1,5 milhão de cidadãos.
Em 2017, os venezuelanos enviaram 111.600 pedidos de asilo no mundo, um número que está apenas atrás dos afegãos, sírios e iraquianos e que é mais de três vezes superior às 34.200 petições registadas em 2016 e quase onze vezes o observado em 2015.

No ano passado, 345.600 venezuelanos foram registados na categoria de "outros grupos de interesse", ou seja, não são deslocados à força, mas ainda precisam de proteção e assistência.

20.6.16

Número de deslocados no mundo atinge recorde de 65 milhões

in RR

Uma em cada 113 pessoas no planeta está hoje numa situação de deslocado interno ou é um refugiado, segundo a ONU.

O número de deslocados no mundo atingiu um novo recorde: 65,3 milhões de pessoas foram forçadas a deixar as suas casas até final de 2015, anunciou a ONU.

"Esta foi a primeira vez que o limiar dos 60 milhões foi ultrapassado", disse o Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados (ACNUR).

Os números, divulgados no Dia Mundial do Refugiado, sublinham factores de pressão que alimentam uma crise global sem precedentes.

Os conflitos na Síria, Afeganistão, Burundi e no Sudão do Sul fizeram aumentar o número de refugiados para 21, 3 milhões, metade dos quais crianças.


Por outro lado, ao mesmo tempo que conflitos e perseguições forçam cada vez mais pessoas a fugir, emerge um sentimento anti-migrantes que reduz a vontade política para realojar refugiados, de acordo com o alto-comissário da ONU para os Refugiados, Filippo Grandi.

"O que está hoje a ser testado é a disponibilidade das nações para trabalharem em conjunto, não apenas pelos refugiados, mas pelo interesse humano colectivo", disse, em comunicado.

O número de pessoas deslocadas globalmente aumentou em 5,8 milhões em 2015, de acordo com os dados da ONU. Em 2014 era 59.5 milhões.

Uma em cada 113 pessoas no planeta está actualmente numa situação de deslocado interno ou é um refugiado, segundo a ONU.

Os números marcam um "nível de risco para o qual a ACNUR não tem precedente", disse a agência, sublinhando que o número de pessoas deslocadas é agora superior ao da população do Reino ou da França.

4.5.15

Deslocados. Se fosse criado um país com eles, seria maior que a África do Sul

Joana Azevedo Viana, in iOnline

Já morreram 22 mil deslocados e refugiados só no mar Mediterrâneo desde 2000. Novo programa de acção da UE só vai piorar a situação

Os avisos não são de agora. Perante a guerra civil que grassa na Síria desde 2011, ONG e instituições como a União Europeia denunciaram em Junho que a crise humanitária mundial é já pior que aquela que a Segunda Guerra Mundial gerou. Desde essa altura que não havia tantos refugiados como hoje, até Junho mais de 50 milhões de pessoas foram forçadas a deixar as suas casas, na Síria e noutros países, metade das quais crianças (e um terço delas sem familiares). Se houvesse um país só para essas pessoas, seria a 24.a nação mais populosa do mundo e teria mais habitantes que Espanha, a Colômbia ou a África do Sul.

Ao todo, revelou na altura o ACNUR, alto comissariado da ONU para os refugiados, eram 51,2 milhões de pessoas – mais 6 milhões que em 2012 – que por causa de guerras, perseguições, fome ou falta de água deixaram para trás os seus países, famílias e conhecidos, em busca de um país que as acolha e onde possam viver em paz até regressarem ao seu lar. E a julgar pelos que continuam a tentar entrar na Europa, estes números já terão aumentado, e com eles o balanço de mortos nas travessias do Mediterrâneo.

“Estamos a ser confrontados com imensos custos de não pormos fim à guerras, de não conseguirmos evitar conflitos”, alertou na altura António Guterres, dirigente do ACNUR. Se em 2013 se assistiu a um “salto quântico no número de pessoas deslocadas à força”, em 2014 o salto foi maior; o número de deslocados e refugiados mortos no Mediterrâneo subiu para 3500 e para 219 mil o número de pessoas a tentar entrar na Europa, fugidas de guerras e repressões sangrentas.

Refugiados. De onde vêm e para onde vão

Numa tendência crescente, os números não param de aumentar e os que dizem respeito aos mortos e refugiados que procuram refúgio na Europa poderão ser ultrapassados até ao final do primeiro semestre de 2015: entre Janeiro e 15 de Abril, 35 mil pessoas já tinham chegado à Europa por via marítima e mais de 2 mil tinham perdido a vida. A este ritmo, avisava há uma semana a Organização Mundial das Migrações, o número de mortos no Mediterrâneo poderá ultrapassar os 30 mil até Dezembro.

Contas feitas, mais de 22 mil não europeus já morreram no Mediterrâneo entre 2000 e o início deste ano. E esse número é exclusivo das travessias por esse mar, seja pela rota central, que liga à Tunísia, à Líbia e ao Egipto, pela oriental, que liga ao Egipto, à Palestina, ao Iraque e à Síria, e pela ocidental, seja pela rota africana ocidental, que ajuda sobretudo sarauís e outros refugiados e deslocados do Oeste de África a chegarem às ilhas Canárias. Quando se junta a isto o número de pessoas que se refugiaram em países vizinhos fora da Europa, na sua maioria nações frágeis e sem capacidade para acolher as massas em fuga, os números são ainda piores.

“Vemos por exemplo no Iraque deslocamentos populacionais numa escala que supera a capacidade de resposta do país e da comunidade humanitária”, alertava em Setembro Kristalina Georgieva, comissária europeia para a Ajuda Humanitária, perante os avanços do autodeclarado Estado Islâmico na região.

Falhas da UE Desde a última tragédia no Mediterrâneo, em que a morte 900 pessoas fez relançar o debate sobre as falhas que têm sido cometidas e como se pode dar respostas humanitárias e humanas a estes êxodos, a União Europeia tem tentado concertar uma solução para não deixar às costas de Itália, Malta, Grécia e Chipre – as portas de entrada marítimas na Europa – a responsabilidade de alojar as milhares de pessoas em fuga. Parece faltar sensibilidade, dentro e fora das instituições europeias, para entender que estas pessoas não são sequer migrantes, que quem entra em botes lotados de gente só o faz por não ter alternativa.

Há uma semana, o Conselho Europeu anunciou que vai “tornar prioritário destruir os navios nos portos de origem dos migrantes e reforçar as missões de patrulha do Mediterrâneo e de outras passagens marítimas”. Propostas totalmente contrárias ao que organizações como a ONU e a Amnistia Internacional pedem, que seja prioritário salvar pessoas e ajudar deslocados e refugiados.

Depois de os líderes políticos europeus apresentarem esse plano de acção, o Parlamento Europeu declarou na quarta-feira que deve ser estabelecida uma “quota vinculativa” para distribuir os requerentes de asilo entre todos os países da UE. Em parte porque muitos estados-membros, onde os discursos anti-imigração se têm generalizado, se recusam a acolhê-los. Em 2014, a Alemanha liderou a lista de países que mais vistos de asilo atribuíram, a 173 mil pessoas – seguida da Suécia (75 mil), de Itália (63 mil), França (59 mil) e Hungria (41 mil). Portugal tem acolhido uma média de 30 pessoas por ano.

Os eurodeputados exigiram que a UE faça “todos os esforços possíveis para impedir que mais vidas se percam” no cemitério marítimo do Mediterrâneo, incluindo através da extensão da operação Tritão, a cargo da Frontex, em marcha desde Novembro. Depois da reunião extraordinária do Conselho, os líderes tinham decidido aumentar os fundos para essa operação e para a Poseidon, afectas às fronteiras marítimas da Europa no Mediterrâneo Central e no Egeu respectivamente. Mas, referiu o eurodeputado português Carlos Coelho no plenário de quarta, isso não basta.

A Frontex, a agência de patrulha das fronteiras externas da UE, não tem cumprido o seu mandato, que define que o principal objectivo é salvar pessoas. O social-democrata critica que a operação Mare Nostrum, em marcha entre Outubro de 2013 e de 2014, tenha tido mais fundos para actuar que as actuais missões comunitárias da Frontex. Durante um ano, Itália alocou 9 milhões de euros por mês a essas patrulhas e conseguiu impedir que cerca de 150 mil pessoas morressem afogadas. Até agora a Tritão tem apenas 2,9 milhões de euros mensais.

Fugir pela vida não é emigrar. Retratos de fugas pintados a sangue

Joana Azevedo Viana, in iOnline

Ser deslocado ou refugiado é fugir porque não há escolha; é partir para salvar a vida ou morrer a tentá-lo. No último ano quem mais arriscou a travessia do Mediterrâneo veio da Eritreia e da Síria. Mas os conflitos crescentes estão a fazer subir o número de refugiados e deslocados em todo o mundo. Mostramos-lhe quatro lugares de onde partem estas fugas

Relacionados
Deslocados. Se fosse criado um país com eles, seria maior que a África do Sul

Síria Mais de 2,5 milhões de refugiados na Turquia até acabar o ano

O número de sírios refugiados na vizinha Turquia pode ultrapassar o correspondente a um quarto da população portuguesa até ao final do ano. O aviso foi feito pela ONU, cujo alto comissariado para os refugiados, o ACNUR, está a gerir parte dos campos improvisados nesse e noutros países da região desde o início da guerra civil na Síria, em Março de 2011.

“A Turquia é neste momento o país que mais refugiados acolhe em todo o mundo”, declarou Helen Clark, a chefe do Programa de Desenvolvimento das Nações Unidas, no final de Abril. A agência prevê que mais de 800 mil sírios fujam do país em 2015, fazendo subir para mais de 2,5 milhões de pessoas o número de refugiados na Turquia, a juntar aos refugiados do Iraque, cerca de 300 mil desde Janeiro.

Os números não incluem os refugiados sírios, iraquianos e de outros países que estão espalhados pela região. E “dentro da Síria”, lembra Clark, “existem mais de 7,5 milhões de pessoas deslocadas. Imagine se essas 7,5 milhões de pessoas quiserem ir para a Turquia ou o Líbano, a Jordânia, o Iraque, o Egipto ou a Europa...

Esta crise é chocante e exige uma solução política, que esperemos que seja baseada nos acordos de Genebra, que alcançámos há vários anos.” Décadas depois da assinatura desses acordos, em 1954, para acabar com a Primeira Guerra da Indochina, a cidade suíça tem sido de novo o palco de negociações entre o regime sírio de Bashar al-Assad, os vários grupos que se lhe opõem e tentam depô-lo desde 2011 e actores internacionais dos dois lados da barricada, entre eles a Rússia e o Irão, grandes aliados do governo Assad.

Na semana passada, a UE dizia que espera que o Irão assuma um “papel importante e positivo” na solução da guerra na Síria, que até meados de 2014 já tinha provocado cerca de 200 mil mortos, um número com tendência para aumentar. Todos os dias há notícias de bombardeamentos de zonas civis pelo regime e por grupos armados opositores, relatos do uso de armas químicas contra centros populacionais, horrores descritos aos magotes que raramente têm resultado em acções directas para acabar com o conflito. É por causa dele que nos últimos anos os sírios têm liderado em número os grupos de deslocados e refugiados que tentam entrar na União Europeia.

Eritreia
Um dos cantos da morte do Corno de África

Há alguns dias o deputado Duarte Marques, do PSD, citava, em críticas às propostas do PS, Pedro Cosme Vieira: segundo esse professor da Faculdade de Economia do Porto, a solução para “os barcos com pretalhada” que atravessam o Mediterrâneo é simples. Devemos afundá-los.

“Em vez de tentar salvar as pessoas que vêm nos barcos precárias, ‘salvá-los’ atropelando-os com navios portugueses e depois, todos os que consigam nadar, meter um tiro em cada um.”

A “pretalhada” que Cosme Vieira refere, e que o social-democrata Duarte Marques cita, que tenta entrar na Europa através do Mediterrâneo é sobretudo oriunda da Eritreia e de outros países do Corno de África, como a Etiópia sem água potável, o Djibouti ou o Sudão do Sul, que está em guerra há vários anos, e onde os líderes e responsáveis, quer políticos quer de guerrilhas armadas, já se encarregam de abater a tiro ou de outras formas os que os criticam.

É o caso da Eritreia, liderada por Isaias Afewerki. Segundo números recentes da ONU, o total de eritreus refugiados noutros países está acima das 321 mil e se, em 2013, 13 mil eritreus pediram asilo em 38 países europeus, nos últimos dez meses de 2014 foram mais de 37 mil os refugiados e asilados na Europa, excluindo os que já fugiram para os países vizinhos.

Na Eritreia está hoje implementada uma das piores ditaduras do mundo, com níveis de repressão da população estrondosos, que a ONU catalogou e descreveu num relatório compilado e apresentado em Março.

São sobretudo os eritreus mais jovens que fogem e as razões citadas pelos que sobrevivem à travessia do Mediterrâneo têm todas a mesma raiz: o regime repressivo de Afewerki, que humilha os opositores, que obriga todos os rapazes a entrar nas forças armadas para serviço militar obrigatório por tempo indefinido, que persegue e ameaça com prisão e tortura todos os que questionam o estado das coisas, seja porque criticam a actuação das forças do regime, seja porque se juntam a movimentos religiosos proibidos (como a igreja protestante neopentecostal).

A maioria dos eritreus atravessa o Egipto por via terrestre para apanhar um dos botes rumo à Europa. Muitos sonham viver e estudar em paz nos países nórdicos.

Somália
Ali, mais um que não está “acima das fronteiras”

“O meu nome é Ali, venho da Somália e tenho 15 anos.” Assim começa um dos testemunhos recolhidos pela Amnistia Internacional nos últimos meses junto de sobreviventes das mortíferas travessias do Mediterrâneo.

Desde Março que a organização tem em marcha a campanha “SOS Europa, as pessoas acima das fronteiras”; Ali é uma de milhares que parecem não estar, a julgar pelo recente plano de acção concertado entre os líderes europeus no Conselho há duas semanas. Quando Ali tinha nove anos foi separado da família e mudou-se para a capital somali, Mogadíscio, onde viveu alguns anos a limpar sapatos de soldados e a aprender a falar inglês. Partiu com um amigo há três meses para Trípoli, de onde apanhou um barco carregado de somalis, líbios e eritreus rumo a Itália.

“O pai [do meu amigo] pagou- -nos a viagem através do deserto, da Somália para a Líbia.” A travessia “foi longa e muito difícil, atravessámos muitos países numa daquelas camionetas de caixa aberta: Etiópia, Sudão, Líbia.” O amigo não conseguiu chegar à Líbia; “caiu da traseira da camioneta, pois os traficantes conduziam a alta velocidade na travessia do deserto do Sara. Enterrámo-lo no deserto. Tinha 19 anos”.

Ali teve de ligar ao pai do amigo para lhe dizer que o filho morrera, teve de pagar 1900 dólares ao homem que tinha o barco que o levaria até Itália. O jovem não tinha dinheiro, nem familiares que pudessem emprestar-lho. Foram outras pessoas da casa enorme onde ficou em Trípoli que o ajudaram a juntar o dinheiro para poder fazer a viagem com elas. Foram 1900 dólares para uma suposta viagem num barco de fibra de vidro que afinal era um bote insuflável, como são a maioria das embarcações que partem carregadas de deslocados e migrantes rumo ao continente europeu.

Eram mais de 70 pessoas no bote, 22 das quais eritreus que ficaram com queimaduras graves quando um fogão a gás explodiu na capital líbia, matando dezenas. “No total éramos uns 45 somalis, 24 eritreus, duas pessoas do Bangladesh e duas do Gana”, contou à Amnistia. Diz que sentiu “que estava a nascer de novo” quando o bote foi resgatado por um barco da Guarda Fiscal italiana. Sonha ir para a Noruega, mas ainda não sabe se não o enviam de volta para o seu país.

Balochistão
Activista morta pelas forças do Paquistão

O homicídio de Sabeen Mahmud em Karachi apontou os holofotes aos abusos que o exército paquistanês tem cometido no Balochistão. À semelhança da perseguição dos uigures ou dos tibetanos pela China, os baloch estão sob directa ameaça das forças do governo paquistanês há décadas mas a situação tem estado a piorar.

Em Fevereiro, o ACNUR noticiou que em 2013 foi abordado por mais de 900 refugiados afegãos que pediram asilo noutro sítio, porque a situação na província onde se foram instalando nas últimas três décadas está insustentável. Com medo de execuções e raptos e das explosões constantes de bombas, a maioria dos afegãos da comunidade xiita Hazara, cerca de 260 mil refugiados afegãos, tem estado a fugir para países como a Austrália por temerem pela vida. A paquistanesa Sabeen Mahmud também temia pela sua, mas escolheu ficar em vez de fugir.

Abriu um café com espaço de debates em Karachi, onde começou a organizar conferências sobre a perseguição ao povo baloch: cerca de 8,8 milhões de pessoas em todo o mundo pertencentes à minoria persa iraniana, metade das quais a viver na província do Balochistão no Paquistão.

Foi à saída do The Second Floor, o bar que Mahmud abriu há oito anos, que na noite de 24 de Abril a activista de 40 anos e a sua mãe foram perseguidas por um grupo de homens armados em motas, que abriram fogo contra o carro em que seguiam. Sabeen morreu com cinco tiros no torso; a mãe continua internada em situação crítica. Apesar de poucas referências merecer nos media, o conflito no Balochistão está a decorrer desde 1948. Entre 1973 e 1977, o exército paquistanês levou a cabo uma operação militar na região, com torturas, homicídios e desaparecimentos de milhares de pessoas.

Apesar de ter ditado o fim dessa operação, o Paquistão continua, até hoje, a violar os direitos dos milhões de baloch na província. O artigo “A vida e a morte de Sabeen Mahmud”, que a “New Yorker” publicou dias depois do homicídio da activista, fala num conflito que é “um assunto controverso”, sobre o qual a maioria dos paquistaneses tem medo de falar. De tal forma que no início de Abril a Universidade de Lahore denunciou pressões do governo que forçaram o cancelamento da conferência “Dar voz ao Balochistão”.

7.1.15

ONU. Cerca de 5,5 milhões de novos deslocados no primeiro semestre de 2014

in iOnline

Cerca de 5,5 milhões de pessoas ter-se-ão tornado novos deslocados nos primeiros seis meses de 2014, em mais um aumento no número dos que são forçados a abandonar as suas casas, indica um relatório da ONU divulgado hoje.

O estudo do Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados (ACNUR), relativo ao primeiro semestre do ano passado, refere que 1,4 milhões daqueles 5,5 milhões de pessoas “fugiram através das fronteiras internacionais tornando-se refugiados”.

Em meados de 2014, o ACNUR apoiava no total 46,3 milhões de pessoas, mais 3,4 milhões do que no final de 2013.

O estudo mostra uma mudança na distribuição regional das populações refugiadas. Se até 2014 a região com a maior população de refugiados era a da Ásia e do Pacífico, devido à crise na Síria a zona com o maior número de refugiados passou a ser o Médio Oriente e o norte de África.

O relatório mostra ainda que os sírios se tornaram pela primeira vez a maior população dos ajudados pelo ACNUR, representando 23% de todos os refugiados e ultrapassando os afegãos que ocuparam aquela posição durante mais de três décadas.

Depois da Síria (3 milhões de refugiados em Junho de 2014) e do Afeganistão (2,7 milhões), os principais países de origem dos refugiados são a Somália (1,1 milhões), Sudão (670.000), Sudão do Sul (509.000), República Democrática do Congo (493.000), Birmânia (480.000) e Iraque (426.000).

A lista dos países que acolhem mais refugiados é encimada pelo Paquistão (1,6 milhões de refugiados afegãos) e inclui o Líbano (1,1 milhões), Irão (982.000), Turquia (824.000), Jordânia (737.000), Etiópia (588.000), Quénia (537.000) e Chade (455.000).

“Em 2014, vimos o número de pessoas sob os nossos cuidados crescer para níveis sem precedentes. Enquanto a comunidade internacional continuar sem encontrar soluções políticas para os conflitos existentes e sem prevenir o começo de outros, vamos continuar a ter de lidar com as dramáticas consequências humanitárias”, declarou o Alto-comissário da ONU para os Refugiados, António Guterres, citado num comunicado.

O responsável do ACNUR assinalou que são sobretudo “comunidades pobres” que têm suportado os custos do apoio aos refugiados, apelando a um reforço da solidariedade internacional para “evitar o risco de mais pessoas e mais vulneráveis ficarem sem o suporte adequado”.

Lusa