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21.5.21

Crianças de Boticas participam em estudo sobre o impacto da pandemia no bem-estar infantil

in Diário Atual

O município de Boticas participou, no dia 14 de maio, no estudo sobre o impacto da pandemia de covid-19 no bem-estar infantil.

A Câmara de Boticas explicou que o estudo pretendeu “analisar de que forma a crise sanitária foi impactante na vida das crianças, colocando o enfoque nas vivências do seu dia a dia”. A participação dos alunos do Agrupamento de Escolas Gomes Monteiro surgiu por convite da EAPN Portugal, em parceria com o Departamento de Psicologia da Universidade do Porto, através de Teresa Dias.

O principal objetivo deste estudo nacional (incluindo as ilhas) será conhecer as perceções das crianças sobre o impacto da pandemia por Covid-19 em dimensões objetivas e subjetivas do seu bem-estar psicológico. “Procurar-se-á, ainda, compreender quais as dimensões da vida onde as crianças percecionam maior impacto negativo e maior impacto positivo; o grau de satisfação que sentem face às diferentes dimensões da vida; as alterações objetivas de vida individual e familiar que ocorreram durante este período e o grau de importância que atribuem a estas alterações para a sua perceção de bem-estar”, refere a organização.

O estudo segue uma metodologia qualitativa com recurso ao método de focus group (via online) com seis crianças do Agrupamento de Escolas Gomes Monteiro com idades compreendidas entre os 8 e os 10 anos.

O focus group foi moderado por Elizabeth Santos e Cátia Santos do Observatório Nacional de Luta Contra a Pobreza (ONLCP).

19.10.20

Qual o impacto da Covid-19 nos imigrantes e nos seus filhos?

 Sónia Bexiga, in Sapo25

Devido a uma série de vulnerabilidades, como a pobreza, habitação sobrelotada e sem condições, e uma alta concentração em empregos onde o distanciamento físico é difícil, os imigrantes enfrentam um risco muito maior de infeção e morte por Covid-19 do que os cidadãos dos países que os acolhem, segundo apurou a mais recente análise da OCDE – Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico, esta segunda-feira.

“A pandemia da COVID-19 chega num momento crucial para a migração internacional. Pouco antes da crise, registaram-se números recorde, em vários países, de nascimentos de filhos de imigrantes (hoje representam uma em cada cinco pessoas na OCDE). Também a integração havia melhorado em muitas frentes. Nos países da OCDE, exceto Turquia e Colômbia, os imigrantes tiveram mais sucesso em encontrar e manter empregos nos últimos cinco anos. Na Educação, os resultados dos filhos de imigrantes melhoraram desde 2005, com níveis de realização educacional mais elevados. Mas esse progresso está agora em risco por causa da pandemia” pode pode ler-se no documento de análise “Qual o impacto da Covid-19 nos imigrantes e nos seus filhos?”.

Segundo a organização, os imigrantes estão numa posição mais vulnerável no mercado de trabalho devido às condições menos estáveis ​​e à menor antiguidade no posto de trabalho, sendo que também a discriminação tende a aumentar nos períodos de desaceleração no mercado de trabalho. As redes de contactos – que os migrantes raramente têm – tornam-se ainda mais relevantes para encontrar emprego.

O impacto negativo da pandemia sobre o mercado de trabalho dos imigrantes é ainda agravado pelo facto de estarem “excessivamente” alocados aos setores mais afetados pela pandemia. Como é o caso do Turismo.

Apesar de considerar que ainda é cedo para avaliar os efeitos reais da pandemia no mercado de trabalho – especialmente na Europa, a organização não deixa de salientar que os países que a integram têm vivido de soluções de ‘lay-off’ que amorteceram o impacto imediato dos bloqueios. Não obstante, aponta para as evidências disponíveis sobre o impacto inicial que mostram já uma ‘fatura’ desproporcionalmente negativa para os imigrantes na grande maioria dos países para os quais os dados estão atualmente disponíveis, especialmente nos países do sul da Europa, Irlanda, Noruega, Suécia e Estados Unidos.

Mas há ainda de ter em conta o impacto nos mais novos, alerta a OCDE. O encerramento das escolas e as medidas de ensino à distância postas em prática para conter a propagação da Covid-19 vieram colocar os filhos de imigrantes em desvantagem, a vários níveis. Estes pais tendem a ter menos recursos para ajudar nas tarefas escolares e 40% dos filhos de imigrantes não falam a língua do país de acolhimento em casa.

Acresce ainda que estas crianças também têm menos probabilidade de ter acesso a um computador e ligação à internet em casa ou num lugar tranquilo para estudar.

A pandemia impulsionou a aprendizagem remota de idiomas também para adultos. Na Alemanha, por exemplo, foram criados tutoriais online para compensar o encerramento temporário dos cursos de integração de imigrantes. Contudo, essa aprendizagem online revelou-se difícil para imigrantes com baixo nível de escolaridade, especialmente nos estágios iniciais de aprendizagem das línguas, levando a atrasos na aprendizagem e numa integração social mais ampla.

2.10.20

Impacto da covid-19 nos mais idosos obriga a repensar envelhecimento

Por Notícias ao Minuto

A pandemia da covid-19 foi "a pior coisa" que aconteceu aos idosos e expôs as dificuldades no apoio a estas pessoas, e se, no início, a preocupação foi salvar vidas, agora importa repensar o envelhecimento, defenderam especialistas.

Em entrevista à agência Lusa, por ocasião do Dia Internacional da Pessoa Idosa, que se assinala hoje, o fundador do Instituto do Envelhecimento disse ter partilhado o sentimento vivido por grande parte das pessoas com mais de 65 anos, consideradas um dos grupos mais vulneráveis à covid-19.

"Como membro que sou do último escalão definido pela DGS [Direção-Geral da Saúde] (80+ anos), tenho consciência que o surgimento do coronavírus foi o pior que nos poderia ter acontecido, fechando-nos em casa e obrigando-nos a tomar todo o género de cuidados que vão até ao isolamento completo", afirmou Manuel Villaverde Cabral.

Critico em relação ao que se tem passado nos lares de idosos, o professor e investigador considerou que foi "catastrófico", mas também "previsível", apontando que os lares "estavam e estão impreparados para a pandemia em qualquer plano que seja, seja no plano médico, seja no psicossocial e económico".

"O extremo envelhecimento da população portuguesa, assim como em alguns outros países, acompanha logicamente a propagação do vírus", sustentou.

Na opinião de Manuel Villaverde Cabral, o confinamento em Portugal "teve efeitos devastadores no plano socioeconómico", mas admitiu que tenha ajudado a conter a mortandade das pessoas com mais de 70 anos.

Ainda assim, afirmou que estas pessoas "foram, de longe, e continuarão a ser até ao dia em que se descobrir uma vacina, as grandes vítimas da covid-19".

No que diz respeito ao confinamento, o presidente da Confederação Nacional das Instituições Particulares de Solidariedade Social (CNIS) declarou à Lusa que o mais difícil de gerir foi a solidão dos idosos, desde os que estavam nos lares que ficaram sem visitas, aos que iam aos centros de dia e que ficaram confinados em casa.

"A solidão tornou-se dura e houve casos de depressão e de desânimo (...). Para mim, o grande problema dos idosos neste tempo foi o da solidão e a solidão mata", alertou o padre Lino Maia, garantindo que as instituições tudo fizeram para tentar apoiar os seus idosos, desde logo pelo aumento dos serviços de apoio domiciliário.

Para o presidente da CNIS, a saúde mental dos idosos não foi devidamente acautelada durante o tempo de pandemia e "houve cuidados médicos que diminuíram" quando deveriam ter aumentado.

"Defendo que existe a necessidade premente -- e já vamos tarde -- de olhar para estas instituições e os idosos e vê-los como cidadãos de pleno direito, com direito a cuidados de saúde, estejam eles onde estiverem", disse Lino Maia, acrescentando que se isso já tivesse sido feito, talvez tivesse sido "evitado algum agravamento da situação da dependência, da demência".

O presidente da União das Misericórdias Portuguesas (UMP), Manuel Lemos, reconheceu que o confinamento e o distanciamento físico, e o respetivo impacto na saúde mental dos mais idosos, foi o que mais o preocupou, mas salientou que o principal desafio era salvar vidas e que se tratou, por isso, da "lógica do mal menor".

Para o responsável, a tónica desta discussão tem de deixar de estar centrada nos lares de idosos para passar a estar no tipo de envelhecimento que é desejado, defendendo que é preciso um "programa de construção de lares mais 'frendly', mais capazes e mais asséticos", e avisando que o país tem de fazer escolhas.

"Isto exige recursos que é preciso ver se Portugal tem ou não tem e se quer fazer ou não quer", observou, preconizando também uma maior aposta nos serviços de apoio domiciliário.

Lino Maia, por outro lado, apontou a necessidade de um repensar do envelhecimento, em que o prolongamento da vida seja acompanhado de qualidade de vida e de uma vida tanto quanto possível ativa.

"Penso que a grande aposta em relação aos idosos é considerá-los como cidadãos de pleno direito e a promoção de um envelhecimento ativo, com qualidade, intervenção e participação na comunidade", defendeu.

Manuel Villaverde Cabral vai mais longe e destacou que os lares em Portugal "têm de ser mudados de cima abaixo" e que "é, efetivamente, indispensável repensar as estruturas físicas, profissionais e financeiras dos lares".

A par disso, sugeriu uma "revisão radical do sistema de reformas", que neste momento "não só 'come' 15% do Orçamento do Estado português, como é profundamente desigual e cheio de 'subsídios', 'remendos' e 'outras exceções' de toda a espécie".

25.5.20

Globalização infetada

Marisa Matias, in DN

A globalização neoliberal, tal como a conhecemos, determina que as relações sociais são definidas pelo mercado, mas não de qualquer forma. Não basta simplesmente integrar as regras do comércio, importa eliminar todos os obstáculos à livre competição de interesses no mercado. Para se sobreviver neste mundo globalizado, é preciso ser-se mais competitivo do que o vizinho, quer se trate de uma pessoa, de uma empresa ou de um país. A solidariedade social deixa de ser a norma e, se cada pessoa é vista como um "recurso", os cidadãos passam a ser consumidores ou clientes.

Raras são as vezes que vimos a globalização ser analisada a partir da perspetiva dos mais pobres ou dos mais desfavorecidos. Com efeito, a globalização globalizou as desigualdades e as regras passaram a ser definidas pelas multinacionais. O comércio quis-se cada vez mais intensificado e a circulação dos capitais mais fluida. Quantas vezes assistimos ao filme de vidas deixadas para trás pela deslocalização da produção? Quantas economias locais foram destruídas? Quantos trabalhadores foram explorados? Quantas pessoas foram abandonadas à pobreza?

Sabemos bem que a globalização não traz só problemas, mas é inevitável perceber como o desenvolvimento das sociedades a seguir à II Guerra Mundial se fez de modo que as relações económicas e sociais de matriz capitalista determinassem todas as outras relações económicas e sociais. A tese que vigorava há menos de meio ano era a de que esse caminho teria de continuar a aprofundar-se.

Os tempos mudaram radicalmente. Creio que, hoje, a maioria das pessoas já percebeu como um problema global pôs em causa os pilares do modelo de globalização que tem dominado as nossas sociedades. É certo que a denúncia dos problemas associados à globalização neoliberal não apareceram hoje. Aprendemos muito com os êxitos e com os fracassos de movimentos do passado. De Seattle 1999 aos Fóruns Sociais Mundiais, passando pelos movimentos ambientalistas, há muito que se ouve vozes por um outro mundo possível. Continuamos a percebê-lo nos movimentos de precários, nas lutas contra a uberização das sociedades ou nas fridays for future. Mas com a crise atual sentimos ainda mais na pele os limites e as exclusões da globalização capitalista. São as desigualdades e a pobreza a reforçarem-se a cada dia que passa. É o recurso aos serviços públicos e o regresso da centralidade dos Estados na resposta que vão ajudando a reduzir impactos ainda mais trágicos da pandemia.

A covid-19 infetou a globalização que já dava muitos sinais de doença. Os desafios são mais do que muitos, desde a retoma do multilateralismo ao reforço das solidariedades e da democracia, à desmercantilização das relações sociais. Sabemos bem da capacidade regeneradora do capitalismo, mas também sabemos que as pessoas só se mobilizam verdadeiramente quando são afetadas. Veremos com o tempo se, paradoxalmente, do distanciamento físico poderá nascer uma maior proximidade social.

Eurodeputada do BE


21.5.20

Uma resposta ao “E agora”?

Catarina Neves, in Sapo24

Este não é um texto sobre as grandes oportunidades da pandemia. Mas também não é um texto derrotista: podemos mudar muita coisa, e o nosso papel (nosso - sociedade no sentido mais abrangente que possam imaginar) é imprescindível.


Este texto faz parte da rubrica Regresso a um Mundo Novo, em parceria com a plataforma 100 Oportunidades, em que vários jovens nos ajudam a pensar o mundo pós-pandemia.

Vivemos tempos atípicos, já todos sabemos. Nos últimos 3 meses a nossa expectativa e visão para o Mundo, para o País e para a nossa vida mudou. E se tudo isto nos causa ansiedade sobre o que nos rodeia e o que nos espera, certamente já todos nos deparámos com a pergunta: “e agora?”

E agora, quando vou voltar ao escritório? E agora, quando é que volto a ver a minha família, sentindo-me segura?

Mas surgem perguntas diferentes: E agora, como vou fazer face às despesas deste mês e do próximo? E agora, como arranjarei emprego, quando tudo indica que estamos a entrar numa recessão profunda?

Este não é um texto sobre as grandes oportunidades da pandemia. Mas também não é um texto derrotista: podemos mudar muita coisa, e o nosso papel (nosso - sociedade no sentido mais abrangente que possam imaginar) é imprescindível. É neste contexto que considero importante repensarmos a nossa noção de trabalho, uma tarefa essencial para combater alguns dos impactos atuais e futuros da pandemia, mas também muitos outros desafios que a atual crise apenas veio agudizar. Nesse sentido, parece-me que é altura de pensarmos em medidas como o Rendimento Básico Incondicional (mas não só) como forma de transição para um modelo onde o trabalho seja uma parte relevante da nossa vida, mas não essencial para a nossa sobrevivência.

Mas antes de mais, um breve contexto:
A Comissão Europeia previu recentemente uma contração do PIB que em Portugal, poderá chegar aos 6,8%, perto do mesmo valor que o turismo representou para o PIB em 2019. Mas ainda, não se espera que em 2021 as economias europeias consigam superar as perdas de 2020. Um outro fator relevante prende-se com a perda acentuada de rendimentos dos agregados familiares: uma sondagem recente do Expresso aponta que perto de 36% das famílias perderam rendimentos, com 16% a assumir que perdeu metade ou mais do seu rendimento. Mas o impacto não é igual para todos: o Barómetro Covid-19 da Escola Nacional de Saúde Pública aponta para o aumento da desigualdade, com os mais pobres e com menor nível de escolaridade a serem os mais impactados pela crise que vivemos, em particular pela quebra de rendimentos.

Também os jovens poderão ser os mais afetados pela crise económica, de acordo com a Organização Internacional do Trabalho, devido à maior probabilidade de estarem em situações de precariedade e de baixos salários. Importa ainda falar de pobreza. Nas últimas semanas a DECO, o Banco Alimentar e a Caritas alertaram para os aumentos de pedido de ajuda e de apoio devido à pandemia (ajuda alimentar, ou apoio devido à perda de rendimentos). Como a Rede Europeia Anti Pobreza em Portugal publicou na sua tomada de posição no início da pandemia, “mais de 2 milhões de pessoas em risco de pobreza ou exclusão social e cerca de 1.7 milhões encontram-se em risco de pobreza monetária”. Mais ainda: em 2019 “33% da população portuguesa não conseguia assegurar o pagamento imediato de uma despesa sem recorrer a empréstimo”. Acresce a isto, o número elevado de trabalhadores em part-time ou com contratos de trabalho temporários, e o aumento do número de trabalhadores pobres. Importa frisar que todos estes números se verificaram em 2018 e 2019, num contexto de situação económica favorável.

23.4.20

E depois do mundo desmoronado?

António Costa Silva (opinião), in Público on-line

A crise mais importante das nossas vidas exige um novo pensamento, um novo modelo económico e social, uma nova ordem internacional. Não temos nenhuma certeza sobre a porta de saída de um mundo desmoronado. Mas há algumas coisas que já sabemos.

Edgar Allan Poe, num dos seus contos, descreve um reino onde se propaga uma epidemia, a morte vermelha, o que leva o príncipe e a corte a isolarem-se por completo numa abadia e a cortarem as ligações com o mundo exterior, deixando este entregue a si próprio. Cinco ou seis meses depois, “quando a peste mais furiosamente grassava no exterior”, o príncipe resolve dar uma festa, um baile de máscaras para os seus amigos. Nessa assembleia de fantasmas aparece mascarada a morte vermelha, como “um ladrão na noite”, e faz o seu trabalho demolidor.

Vistas do céu, as estufas de LED dos Países Baixos parecem obras de arte
O génio do escritor americano ilustra bem uma das características de uma epidemia nova:há tudo menos certezas. Isto contrasta com o desfile de certezas que vemos hoje na luta contra a morte vermelha do nosso tempo. Neil Fergusson, um dos grandes epidemiologistas do Imperial College, disse: “Ninguém percebeu ainda totalmente este vírus. Ninguém sabe onde é a porta de saída.” Os sábios são sempre os mais humildes. Eles sabem o que não sabem.

É também interessante olhar para os que dizem que isto era previsível, que não se trata de algo inesperado e anómalo. São os profetas das coisas acontecidas. Também não virá deles a porta de saída.

Vivemos hoje em clausura. Estamos a reinventar a relação connosco, com o tempo e com a morte. Antes soletrávamos a morte como estação do passado. Hoje a morte invadiu a nossa vida. É a estação do presente. Perdemos o mapa para habitar o mundo. Agora habitamo-nos a nós próprios. Olhamos das janelas de casa a nova fronteira da realidade e procuramos não nos tornar obscuros ao girar em torno de nós próprios. Somos os cidadãos no seu labirinto. Nesta clausura, o tempo comprime o espaço. O físico empobrece e o espírito pode ficar mais ansioso e mais rico. Mudamos a nossa relação com o tempo. A lógica da pressa e do urgente desvanece-se no roçar lento dos dias. Temos mais tempo para a família e os outros. Reinventamos o sentido da vida. Vale a pena investir no humano. Não precisamos de viajar para nos encontrarmos.

Vivemos hoje num tom de cautelosa perplexidade. Face a todas as incertezas do futuro, os verdadeiros antigos já não são Homero ou os homens do Génesis. Somos nós. E, por isso, precisamos de uma ponte entre o mundo antigo e o novo. Mas essa ponte tarda. O que temos hoje é uma ausência que busca uma nova relação com a vida. Falamos à margem do mundo e somos o centro do medo. O vírus gera a incerteza que tudo corrói. Sentimos em nós a gravitação da fadiga. Somos um planeta à beira da perda. É preciso impedir que o medo global alargue o campo da irracionalidade. A nossa civilização não pode tornar-se numa experiência química ou biológica imprevisível. Temos de encontrar a porta de saída. E, por isso, precisamos de um novo alfabeto para habitar o mundo. Precisamos de voltar a falar com o futuro. O problema é que o futuro teima em não falar connosco.

A crise mais importante das nossas vidas exige um novo pensamento, um novo modelo económico e social, uma nova ordem internacional. Não basta dizer que nada será como antes. É preciso trabalhar com uma nova energia e acção para nada ser como antes. Não temos nenhuma certeza sobre a porta de saída de um mundo desmoronado. Mas há algumas coisas que já sabemos.

A primeira: este vírus é um teste a todas as nossas instituições. E, no caso de Portugal, as instituições têm respondido de forma admirável. Como sempre, não faltam os críticos e até aqueles que se indignam porque o país é elogiado pela sua resposta ao vírus. Imaginem então se o número de mortos e de infectados fosse superior a outros países. A resposta das instituições, desde o SNS e DGS ao Governo, Presidente e Parlamento, é a prova de que um país vale pela força das suas instituições e das políticas públicas. E se esta crise contribuir para o seu reforço, isso gerará mais confiança que é crucial para enfrentar o futuro. E podemos também assistir a uma mudança na forma de fazer política, com mais projecto e menos rejeição, com mais cooperação e menos insulto, com mais adesão e menos desconfiança autofágica.

A segunda:o regresso do Estado. Não vamos ter ilusões. A crise sanitária está a deflagrar um tsunami económico e social. Hoje temos no mundo 95% do transporte aéreo, 80% do transporte terrestre, 60% das fábricas parados e 2/3 do PIB mundial paralisado. Nunca aconteceu antes na história. Precisamos de um Estado mais interventivo e mais forte para impedir que a economia entre em coma com uma cascata de falências das empresas e um desemprego galopante. Não é o mercado que vai resolver estes problemas. Sem uma mudança do paradigma económico e a intervenção maior do Estado na economia, sem tabus, vamos viver tempos ainda mais sombrios. Os Estados crescem durante as crises e é mais fácil aumentar a despesa. Sabemos que depois é mais difícil baixá-la e por isso é importante desenhar um modelo para salvar e reconstruir a economia e depois restabelecer um equilíbrio virtuoso entre Estado e mercado, que é o segredo da prosperidade.

Com o mundo desmoronado, a porta de saída é o reforço das instituições multi-laterais e não a sua destruição, é o reforço da cooperação internacional e não do isolacionismo, é a busca da decência e não da jactância e fanfarronice
A terceira: precisamos de um novo modelo económico e social que leve ao renascimento da economia e da sociedade. O mundo ia num caminho mau com o crescimento das desigualdades, do desperdício e da destruição ambiental. O vírus expôs todas as fragilidades desse modelo, incluindo o das cadeias logísticas longas e desproporcionais e a mobilidade incessante. Precisamos de um novo modelo capaz de gerar uma sociedade mais justa, mais humana, com mais equilíbrio na distribuição da riqueza, maior proteção dos mais vulneráveis, mais tempo para a família, mais ética nos negócios, menor dominância do lucro e da ganância, mais atenção às pessoas e às comunidades, menor destruição ambiental e governos mais interventivos e mais reguladores na economia.

A quarta: a remodelação da ordem internacional. Vivemos num planeta em que as instituições multi-laterais são frágeis ou irrelevantes, em que o nacionalismo e o populismo crescem, em que a cooperação internacional é substituída pelo insulto e a confrontação. Isto não promete nada de bom para o futuro. Henry Kissinger disse um dia: “Uma nova ordem mundial não pode ser concebida como uma medida de emergência, mas é necessário uma emergência para produzir uma nova ordem mundial.” A emergência está aí e, com o mundo desmoronado, a porta de saída é o reforço das instituições multi-laterais e não a sua destruição, é o reforço da cooperação internacional e não do isolacionismo, é a busca da decência e não da jactância e fanfarronice.

Quando uma grande epidemia assolou Atenas e tudo tinha sido tentado para a debelar, Epiménides, segundo conta o filósofo Laércio, advogou a edificação de um santuário ao “Deus apropriado”. Mas isso foi no século V antes da nossa era. Hoje estamos à procura do nosso “Deus apropriado”.