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6.5.22

Inflação já contamina rendas de casa e vai alastrar

Luís Reis Ribeiro,  in DN

https://www.dn.pt/dinheiro/inflacao-ja-contamina-rendas-de-casa-e-vai-alastrar-14829226.html



Inflação já contamina rendas de casa e vai alastrar




Inflação total atingiu 7,2% em abril, máximo desde 1993. Tirando energia e alimentos vai no maior valor desde 1995. Além das rendas, Banco de Portugal alerta que deve estar a alastrar a serviços de educação e saúde, restaurantes e cafés.


inflação muito elevada, que em abril disparou para 7,2% em Portugal, segundo avançou recentemente o Instituto Nacional de Estatística (INE), já não afeta apenas os preços da energia e das matérias-primas agrícolas, alimentares e industriais.



A subida forte dos preços no consumidor já está a contaminar muitos outros segmentos de bens e serviços, incluindo as rendas de casa, avisa o Banco de Portugal (BdP), no boletim económico de maio, ontem publicado.

O Instituto Nacional de Estatística (INE) já tinha alertado para este fenómeno de contaminação na semana passada e agora foi a vez do banco central governado por Mário Centeno reiterar o alerta.

Segundo o novo trabalho do BdP, "uma análise complementar - que decompõe a inflação total observada nas variações de preços dos itens elementares classificados por grau de volatilidade histórica dos respetivos preços - aponta para que as pressões ascendentes estejam a transmitir-se aos preços das componentes tipicamente mais estáveis".

"A subida da inflação no período recente é explicada em larga medida pelo quartil [25% das observações feitas ao nível dos preços] de maior volatilidade. No entanto, a variação homóloga média dos preços nos quartis de menor volatilidade também aumentou no final de 2021 e início de 2022".

Estes conjuntos de preços de bens e serviços mais estáveis e que até agora pareciam mais imunes à subida da inflação da energia e alimentar "incluem, por exemplo, alguns serviços de educação e saúde, as rendas e os restaurantes e cafés", diz um estudo inserido no boletim.

"A variação homóloga dos preços no período 2016-2020 manteve-se próxima da média de 1,5% para o primeiro quartil de volatilidade e em 1,1% para o segundo quartil, mas aumentou para 2,9% e 5,2%, respetivamente, em março de 2022."

Uma comparação com a zona euro ao nível das medidas apresentadas "aponta para uma tendência ascendente da inflação similar à observada em Portugal" pelo que é "importante continuar a monitorizar estas medidas, a par de outros indicadores relevantes de pressões inflacionistas, com destaque para os salários e as expectativas de inflação", aconselha o BdP.


INE avisou para a contaminação



A inflação homóloga em Portugal acelerou para 7,2% em abril, "o valor mais elevado desde março de 1993", revelou o INE na semana passada.

Além disso, percebe-se que foi agora, em abril, que Portugal começou a sentir, finalmente, o embate mais amplo e completo da crise energética e de matérias básicas na economia.

"O indicador de inflação subjacente (índice total excluindo produtos alimentares não transformados e energéticos) terá registado uma variação de 5% (3,8% no mês anterior), registo mais elevado desde setembro de 1995", diz o INE.

Isto significa que a inflação nos combustíveis e na alimentação já está a contaminar o resto da economia e os custos de outros bens e serviços ao nível do consumidor final, das famílias, escreveu o Dinheiro Vivo no último sábado.

Segundo o instituto, "estima-se que a taxa de variação homóloga do índice relativo aos produtos energéticos se situe em 26,7% (19,8% no mês precedente), valor mais alto desde maio de 1985", ao passo que "o índice referente aos produtos alimentares não transformados terá apresentado uma variação de 9,5% (5,8% em março)".


Poupança, compra de casas e novo endividamento



O boletim de maio não traz novas previsões para a economia portuguesa, mas disseca com algum detalhe o que aconteceu no ano passado.

Por exemplo, o banco central refere que a taxa de poupança das famílias portuguesas terminou 2021 nos 10,9% do rendimento disponível, bastante acima do valor pré-pandemia. Isto foi, em parte, reflexo de um forte impulso na compra de casas e do aumento "elevado" no recurso ao crédito imobiliário para esse fim.



No ano passado, "as famílias tiveram um aumento do rendimento disponível, o que sustentou a recuperação do consumo"; a sua taxa de poupança até "diminuiu de 12,7%, em 2020, para 10,9%, em 2021, mas manteve-se acima da anterior à pandemia".

O rácio de poupança dos particulares tinha ficado em 7,2% do rendimento disponível em 2019, recorda o banco central governado por Mário Centeno.

Esta acumulação de capacidade financeira durante a pandemia é um fenómeno das famílias e também terá acontecido no conjunto das empresas, o que permitiu um aumento do investimento no ano passado, muito apoiado ainda pelo investimento público, claro.

Mas é inequívoco que boa parte do investimento das famílias é em imobiliário, aproveitando ainda o ambiente de taxas de juro muito baixas que pautou 2021.

"Os novos empréstimos à habitação às famílias registaram um crescimento elevado (32,8%), num contexto de menor incerteza e de decisões adiadas devidos às restrições sanitárias", observa o BdP.




Além disso, "a evolução dos novos empréstimos em 2021 refletiu sobretudo o aumento do número de devedores, mais 22%, tendo o montante médio por devedor aumentado 8,8%", quantifica o BdP.



15.5.20

Centeno só faz novas previsões depois de Bruxelas mostrar Plano de Recuperação

in DN

"Não podemos permitir que este interregno afete a estabilidade económica, financeira e bancária de longo prazo e, muito menos, a estabilidade social e institucional", avisou o ministro.

Portugal é o único país da zona euro (ou um dos dois, uma vez que ainda se desconhece o documento da Eslováquia) que não fará quaisquer previsões económicas e orçamentais para 2020 no âmbito do Programa de Estabilidade, apesar de Bruxelas ter dito explicitamente que queria ver nem que fosse alguns cenários de impacto da crise nos documentos dos 19 Estados da moeda única.

Mário Centeno, o ministro das Finanças, confirmou na quinta-feira no Parlamento que só vai apresentar o quadro macroeconómico completo (projeções de crescimento, desemprego, défice, dívida, etc.) depois de a Comissão Europeia mostrar o desejado Plano de Recuperação, que já devia estar pronto (a data definida pela cimeira de 23 de abril foi 6 de maio), mas do qual ainda não há sinais.

"O Plano de Recuperação é uma peça crucial para prepararmos a nossa reposta" e ter "previsões credíveis", defendeu o ministro, que assim pôs o ónus desse vazio no atraso de Bruxelas.

Centeno disse ainda que essas novas previsões devem aparecer no Orçamento suplementar, que verá a luz do dia até ao final de junho, como confirmou anteontem o primeiro-ministro, António Costa, numa nota de resumo da reunião que teve com Centeno para clarificar as divergências e as "falhas de comunicação" entre os dois, uma crise que teve como apogeu um desentendimento em torno da injeção de mais 850 milhões de euros no Novo Banco, realizada nesta semana.

No Parlamento, o ministro das Finanças defendeu-se das muitas críticas da oposição - sobretudo do PSD e do CDS, que o dão como moribundo no governo -, dizendo que não vai cair no erro de fazer como a OCDE, que nas últimas semanas reviu previsões por duas vezes, ou de França, que já vai na terceira atualização.

Centeno dramatiza: esta crise também ameaça a "estabilidade institucional"

Mário Centeno aproveitou o palco parlamentar para recordar aos principais dirigentes políticos do país, designadamente o primeiro-ministro, o Presidente da República e os deputados presentes, que esta crise "sem paralelo" pode pôr em causa várias coisas importantes, e uma delas é a "estabilidade institucional".


"Nos últimos quatro anos, Portugal demonstrou uma solidez das suas instituições sem paralelo no contexto europeu. A estabilidade, a previsibilidade e a transparência das decisões de política económica são essenciais para a confiança e o investimento. Assistimos, infelizmente, a um interregno temporário do processo de crescimento económico", mas "não devemos, não podemos permitir que este interregno afete a estabilidade económica, financeira e bancária de longo prazo, nem muito menos a estabilidade social e institucional".

Centeno acaba de passar por um período horribilis na sua relação institucional com António Costa e Marcelo Rebelo de Sousa por causa de uma "falha de comunicação" relativa à referida nova injeção de dinheiro público (850 milhões de euros) no Novo Banco.

No debate, o ministro foi ainda acusado de não dar informação sobre o que espera que aconteça à economia em 2020, nem de estar a cumprir regras europeias na elaboração do Programa de Estabilidade.
"A avaliação do impacto do confinamento a que o país e o mundo foram sujeitos apenas se poderá concretizar mais tarde", diz Mário Centeno.

Mário Centeno diz que o Governo está a fazer tudo bem, a cumprir os requisitos de Bruxelas, embora o Conselho das Finanças Públicas e a Unidade Técnica de Apoio Orçamental (UTAO) já tenham dito que não é assim: acusam as Finanças (e o Governo) de não estar a cumprir sequer os mínimos de informação exigidos pela Comissão Europeia no Programa de Estabilidade, desta feita mais simplificado.

O ministro defende que é uma questão de estratégia. "Há diferentes estratégias" e Portugal "adotou uma estratégia coerente com a dos últimos anos", que permitiram "termos previsões económicas credíveis", recordando que as estimativas dos últimos Programas de Estabilidade de Portugal "foram sempre as que mais se aproximaram da realidade". Até "superaram a realidade", enfatizou.

Mas neste ano vai ser diferente. "O Programa de Estabilidade de 2020, remetido pelo Governo a esta Assembleia, é distinto dos que apresentámos anteriormente. Porque o momento que vivemos é também ele distinto", justificou.
"A avaliação do impacto do confinamento a que o país e o mundo foram sujeitos apenas se poderá concretizar mais tarde. O retorno à trajetória de crescimento económico e consolidação orçamental só será possível e sustentável quando a crise sanitária e os seus efeitos económicos e sociais se encontrarem debelados", disse o ministro, que continuará no Governo até ao Orçamento suplementar. Depois, logo se verá.
Jornalista do Dinheiro Vivo

13.11.15

Centeno defende discussão do salário mínimo na Concertação Social

In Rádio Renascença

Mário Centeno coordenou o programa económico do PS e esteve em todas as negociações à esquerda. No Conselho de Directores, Centeno defendeu o debate sobre salário mínimo na Concertação Social e prometeu mais discussões sobre mercado laboral nos grupos de trabalho criados nos acordos com a esquerda.

O economista Mário Centeno lembra que o salário mínimo é matéria que diz respeito à Concertação Social, sem prejuízo de “outro patamar” no Parlamento.

Dado como possível novo ministro das Finanças, Mário Centeno foi entrevistado no programa “Conselho de Directores”, onde admitiu que há muito ainda para discutir nos grupos de trabalho sobre precariedade laboral.

Leia o que disse Centeno na "Edição da Noite", da Renascença, em conversa com Pedro Santos Guerreiro ("Expresso"), Henrique Monteiro ("Expresso") e Raquel Abecasis (Renascença), moderada por José Pedro Frazão.

Salário mínimo tem que ser tratado na Concertação

"É quem depois, no terreno, tem de se haver com o salário mínimo, quer sejam os trabalhadores quer sejam as empresas". Se nessa área não haverá cedência à CGTP? Também está representada no Conselho Económico e Social, lembra Centeno.

Todas as medidas laborais também devem ir à Concertação

"Nós sempre dissemos, e estava escrito em todos os textos que o Partido Socialista publicou em torno do trabalho do meu grupo de trabalho que eu coordenei, que estas medidas tinham que ser apresentadas ao Conselho Económico e Social e tinham que ser objecto de uma discussão muito alargada na sociedade portuguesa e é exactamente isso que vai acontecer quando, e ao abrigo dos acordos que o PS assinou com os outros partidos no Parlamento."

Despedimento conciliatório para discutir em grupo de trabalho

"Este não é o momento para discutir o procedimento conciliatório de cessação do contrato de trabalho, porque, ao abrigo do que foi o acordo que fizemos com os partidos, ele não consta do programa de Governo que foi aprovado pelo Partido Socialista. Essa discussão em grupo vai transitar para um grupo de trabalho, em que vamos ter, seguramente, uma longa discussão, também no sentido da vastidão de ideias sobre como resolver o problema da precariedade no mercado de trabalho em Portugal."

"Mais do que estas medidas, diria que as medidas que tenham o efeito destas que nós apresentámos são transpostas [para o grupo de trabalho]."

"Não é nem sequer ter passado no teste da política real. Toda a gente percebe, nós tivemos duas semanas para negociar um acordo que não era fácil de concretizar, enfim, nenhum acordo é fácil de concretizar, à partida. Necessitou de um grande empenho e de um grande esforço."

O que passa na Concertação vive mais tempo

"As alterações que são feitas e que emanam de acordos em que os parceiros sociais estão envolvidos são muito mais estáveis, do ponto de vista temporal, porque elas não emanam apenas da representação momentânea partidária. Desse ponto de vista [é o que acontece] quando olhamos para os exemplos da Holanda, com a reforma que foi feita nos anos 80, mais recentemente da Alemanha ou na Suécia."

Problemas de representação no Conselho Económico Social

"É suposto e também pode haver essa discussão. Dizer que o actual quadro de representação do Conselho Económico e Social não é verdadeiramente representativo do que são os actores económicos e sociais em Portugal. Eu acho que ele está estabilizado há demasiado tempo, para aquilo que têm sido as transformações económicas e sociais em Portugal e em todo o lado."

Diálogo mais profundo com o PCP que com BE

"Nas conversas com o Partido Comunista a abrangência temática foi muito mais vasta do que com o Bloco de Esquerda. Depois, as posições de partida às vezes eram muito afastadas, outras vezes eram muito próximas. Regra geral, não me lembro de nenhum caso – se calhar um ou outro mas não relevante – em que não tenha havido alguma dimensão de convergência. Nalguns casos essa convergência permitiu chegar a uma solução, noutras foi necessário fazer uma junção de assuntos e de matérias que permitissem uma discussão posterior."