Carla Soares, in JN
"A guerra afeta-nos a todos: gerir emoções e sentimentos numa situação de crise", como a ansiedade, o stresse, o desespero e o medo, é o nome de um novo documento lançado pela Ordem dos Psicólogos Portugueses devido à guerra na Ucrânia. Fazer donativos e voluntariado é uma das várias estratégias sugeridas, tal como manter rotinas, limitar a exposição a notícias para não ficarmos sobrecarregados ou, se necessário, procurar ajuda, de modo a ultrapassar problemas como dificuldade de concentração, em dormir ou em tomar decisões.
No documento, a Ordem sublinha que "todos reagimos de forma diferente a acontecimentos perturbadores e que cada um de nós tem capacidades e formas diferentes de lidar com emoções e sentimentos desagradáveis". Por isso, deixa algumas sugestões sobre como lidar com o que estamos a sentir durante esta situação de crise.
"É muito difícil, para a maior parte de nós, não nos sentirmos perturbados e preocupados com a situação da guerra na Ucrânia", explicam os psicólogos.
"É natural que ainda nos sintamos em choque". E que "nos sintamos preocupados, ansiosos, stressados, assustados, angustiados, tristes, com medo" ou mesmo "irritados, zangados e impotentes", refere a Ordem, dando conta ainda da dificuldade em concentrarmo-nos, em tomar decisões ou em dormir. Natural também é que "tenhamos receios e dúvidas acerca do futuro: quanto tempo vai durar a guerra? O que vai acontecer? Que consequências terá?", exemplifica, em seguida. Nos conselhos sobre como lidar com o que estamos a sentir, começa por referir que é preciso "aceitar as nossas emoções e sentimentos". E "é perfeitamente razoável chorar, se sentirmos vontade de o fazer".
Estratégias possíveis
A Ordem dos Psicólogos Portugueses refere o recurso a estratégias de gestão da ansiedade e do stresse. A sensação de "já não aguentarmos mais" é um "estado da nossa mente". "Podemos usar a ansiedade a nosso favor e combater os sentimentos negativos e desagradáveis que ela nos traz. Podemos experimentar algumas formas de gerir a ansiedade", sugere, por isso.
"Limitar a nossa exposição a notícias" é uma das estratégias. "Não conseguimos controlar o que se está a passar na Ucrânia, por isso não ajuda estarmos constantemente a monitorizar todos os detalhes do que está a acontecer, correndo o risco de nos sentirmos sobrecarregados e desesperados com toda a informação disponível. Pesquisar sistematicamente sobre este tema, pode aumentar a ansiedade e o medo", avisa a Ordem dos Psicólogos.
Manter rotinas e alimentar esperança
Outra sugestão é "falar com familiares e amigos. Como diz o provérbio: um problema partilhado é metade do problema. Não somos os únicos preocupados com a guerra. Partilhar aquilo que sentimos pode diminuir o nosso stresse, fazer-nos sentir apoiados e validados no que sentimos e pensamos, aumentar o nosso sentimento de confiança e a nossa energia. Falar ajuda".
"Manter uma rotina" é outro conselho no âmbito do documento divulgado pela Ordem porque "as nossas rotinas podem ajudar-nos a aumentar os nossos sentimentos de segurança e previsibilidade em tempos de incerteza".
Em seguida, sugere "realizar atividades de lazer" como "ir dar uma corrida, falar ao telefone com um amigo, saborear a nossa refeição preferida, olhar pela janela e observar a paisagem". E também aconselha a "alimentar a esperança".
"A guerra não traz apenas destruição, também provoca comportamentos pró-sociais, maior envolvimento e participação cívica, mais gratidão pelo que temos, compaixão e solidariedade, mais defesa da liberdade e da dignidade, maior respeito pela diversidade e pelos direitos humanos. Maior perceção da forma como todos estamos conectados e do modo como nos relacionamos uns com os outros, da importância da vida e do sentido que lhe atribuímos", argumentam os psicólogos.
Donativos e voluntariado
"Apoiar e contribuir" são outras palavras de ordem nesta situação de crise. "Um sentimento de esperança e propósito surge quando nos mobilizamos, enquanto comunidade, para ajudar e contribuir para o bem comum. Procurar uma forma de apoiar (através de donativos de bens ou voluntariado, doação de sangue ou mobilização das pessoas da comunidade, por exemplo) ajuda-nos a nós e aos outros, pode contribuir para atribuir um propósito ao que estamos a passar e pela mobilização que nos possibilita, aumentando a nossa perceção de controlo sobre a situação que vivemos", explica a Ordem.
Onde procurar ajuda
De qualquer modo, "procurar ajuda" mantém-se sempre como estratégia possível. "Se os nossos pensamentos e sentimentos estão a interferir significativamente com a nossa capacidade de funcionar no dia-a-dia, a afetar o nosso sono ou a dominar a nossa vida, devemos procurar ajuda. Mas também podemos procurar ajuda se acharmos uma boa ideia falar com um profissional que nos ajude a regular os nossos pensamentos e sentimentos", argumenta a Ordem dos Psicólogos Portugueses.
Por fim, explica que é possível consultar informações sobre como procurar e receber ajuda. "Pedir ajuda nunca é um sinal de fraqueza, mas sim de coragem e responsabilidade", defende. A propósito, sugere o acesso à página www.encontreumasaida.pt ou, em situação de crise, aconselha a ligar para o Serviço de Aconselhamento Psicológico da Linha SNS24.
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13.7.20
Quando a pobreza se junta ao medo
José A. Roque Martins, in Dnotícias
A fratura social expõe, de facto, as vítimas mais atingidas pela pandemia. Os mais velhos, os mais doentes, os mais pobres
Sinto que há algum desnorte na acção do Governo. O desconfinamento foi somando equívocos com o passar dos dias. Primeiro foi a ordem de saída, repetida à exaustão, agora é a ordem para recolhimento sem a conveniente e devida explicação, pelo meio tentou-se desviar as atenções dos pecados próprios para uma suposta irresponsabilidade dos jovens. É preciso acertar o passo rapidamente antes que chegue o caos.
Não é por acaso que as manchetes não dizem que operários da construção civil, empregadas da limpeza ou trabalhadores das cadeias de abastecimento, transportes e distribuição recusam trabalhar sem condições adequadas à protecção da sua saúde. Muito invisíveis no espaço mediático, estes trabalhadores continuam a desempenhar funções essenciais fossem quais fossem as condições, porque qualquer perda de rendimento era insuportável. Saíram e voltaram a casa com medo de infectar e de ser infectados. Foram os primeiros a saber que os transportes iam cheios demais, que não tinham equipamentos de protecção adequados, mas não puderam dar-se ao luxo de parar. Fizeram chegar denúncias a sindicatos, estruturas partidárias, associativas. Com o passar do tempo foi patente que a pandemia na Área Metropolitana de Lisboa divergia do resto de país e começou a olhar-se a sério para o que os números traduziam.
Os passos atrás que o Governo anunciou agora mostram a dificuldade de responder à situação. Por exemplo: pede um dever cívico de recolhimento a uma população que nunca pode parar e que precisa de se deslocar de concelho para trabalhar. Outro exemplo: limita ajuntamentos a mais de 5 pessoas, mas mantém o problema dos transportes públicos apinhados, onde dezenas de pessoas se amontoam. Tudo isto roça o ridículo.
De facto, a escassez de transportes põe toda a comunidade em risco; se ela resultar de um défice de exploração rigorosamente documentado e incomportável para estas empresas, o Estado terá de equacionar, pelo menos, novos apoios.
Combater a precaridade habitacional e residencial, nos transportes e também no trabalho terá que ser um dos principais objectivos do Governo. Os malefícios da precaridade laboral são bem conhecidos. Os vínculos precários, na multiplicidade das suas normas contractuais, criam vidas de incerteza, baixos salários, carreiras contributivas com reformas de miséria e apoios sociais que faltam quando deles mais se precisa. A precaridade estende-se a todo o tecido social, e até económico, mesmo na ausência de emergências sanitárias. Com a pandemia tudo piorou. Desde logo, nas profissões que pararam, como a cultura, mas também nos trabalhadores mais expostos ao risco sanitário, da carrinha da empresa onde se amontoam até ao estaleiro de construção onde os procedimentos pouco ou nada mudaram.
A fratura social expõe, de facto, as vítimas mais atingidas pela pandemia. Os mais velhos, os mais doentes, os mais pobres. A exploração destes últimos por um sistema gerador de desigualdades não é de agora. Mas a compreensão de que destruir os mecanismos que consolidam a subalternidade é a única forma de protegermos toda a comunidade, pode estar ao nosso alcance.
De facto, de acordo com o perfil traçado pelos especialistas, a maioria das principais contaminações decorre maioritariamente num contexto de coabitação, ou seja, em casa, por pessoas que vão trabalhar usando transportes públicos.
Um perfil que torna cristalino o quadro das desigualdades, de pobreza e da má qualidade de vida, que existe nas zonas periféricas da capital, com a degradação do padrão das habitações e com os graves constrangimentos crónicos dos transportes públicos. Só que estes dois problemas já estavam lá antes, daí que seja estranho não ter havido a sensibilidade política e social no Governo e nas autoridades para a atenção necessária em relação a estas zonas mais expostas da pandemia.
Neste sentido se pronunciou, nas suas primeiras declarações, D. José Ornelas, Bispo de Setúbal e novo Presidente também da Conferência Episcopal Portuguesa para avisar que o mundo pós-Covid-19 não pode voltar ao que era. “Se alguma coisa a pandemia nos ensinou é que a miséria custa muito caro. Nós não nos podemos dar ao luxo de ter miséria entre nós, considerou. Em Setúbal, D. José Ornelas tem acompanhado os problemas sociais da diocese, condenando repetidamente o “racismo, a injustiça e a exclusão” que considera não terem lugar na Igreja Católica.
A Assembleia Plenária da CEP, que decorreu em Fátima, e que elegeu D. José Ornelas elaborou um documento que é um “contributo” para o diálogo social a partir da emergência que se vive por causa da pandemia Covid-19. “Temos de construir um mundo que não seja totalmente igual, que utilize todas as riquezas que nós temos, mas também seja capaz de sonhar mundos novos e que aprendamos dos esforços de todos que se fizeram neste tempo para construir uma humanidade melhor para todos” sublinhou. “Os próximos tempos não vão ser fáceis e precisamos da convergência de toda a gente nesta sociedade, de todos os quadrantes políticos e de todos os sectores da sociedade para superarmos esta crise e construirmos algo de mais significativo, porque os nossos jovens precisam disso” acrescentou o novo presidente da CEP. Uma reflexão que se impõe após o fim da pandemia.
A fratura social expõe, de facto, as vítimas mais atingidas pela pandemia. Os mais velhos, os mais doentes, os mais pobres
Sinto que há algum desnorte na acção do Governo. O desconfinamento foi somando equívocos com o passar dos dias. Primeiro foi a ordem de saída, repetida à exaustão, agora é a ordem para recolhimento sem a conveniente e devida explicação, pelo meio tentou-se desviar as atenções dos pecados próprios para uma suposta irresponsabilidade dos jovens. É preciso acertar o passo rapidamente antes que chegue o caos.
Não é por acaso que as manchetes não dizem que operários da construção civil, empregadas da limpeza ou trabalhadores das cadeias de abastecimento, transportes e distribuição recusam trabalhar sem condições adequadas à protecção da sua saúde. Muito invisíveis no espaço mediático, estes trabalhadores continuam a desempenhar funções essenciais fossem quais fossem as condições, porque qualquer perda de rendimento era insuportável. Saíram e voltaram a casa com medo de infectar e de ser infectados. Foram os primeiros a saber que os transportes iam cheios demais, que não tinham equipamentos de protecção adequados, mas não puderam dar-se ao luxo de parar. Fizeram chegar denúncias a sindicatos, estruturas partidárias, associativas. Com o passar do tempo foi patente que a pandemia na Área Metropolitana de Lisboa divergia do resto de país e começou a olhar-se a sério para o que os números traduziam.
Os passos atrás que o Governo anunciou agora mostram a dificuldade de responder à situação. Por exemplo: pede um dever cívico de recolhimento a uma população que nunca pode parar e que precisa de se deslocar de concelho para trabalhar. Outro exemplo: limita ajuntamentos a mais de 5 pessoas, mas mantém o problema dos transportes públicos apinhados, onde dezenas de pessoas se amontoam. Tudo isto roça o ridículo.
De facto, a escassez de transportes põe toda a comunidade em risco; se ela resultar de um défice de exploração rigorosamente documentado e incomportável para estas empresas, o Estado terá de equacionar, pelo menos, novos apoios.
Combater a precaridade habitacional e residencial, nos transportes e também no trabalho terá que ser um dos principais objectivos do Governo. Os malefícios da precaridade laboral são bem conhecidos. Os vínculos precários, na multiplicidade das suas normas contractuais, criam vidas de incerteza, baixos salários, carreiras contributivas com reformas de miséria e apoios sociais que faltam quando deles mais se precisa. A precaridade estende-se a todo o tecido social, e até económico, mesmo na ausência de emergências sanitárias. Com a pandemia tudo piorou. Desde logo, nas profissões que pararam, como a cultura, mas também nos trabalhadores mais expostos ao risco sanitário, da carrinha da empresa onde se amontoam até ao estaleiro de construção onde os procedimentos pouco ou nada mudaram.
A fratura social expõe, de facto, as vítimas mais atingidas pela pandemia. Os mais velhos, os mais doentes, os mais pobres. A exploração destes últimos por um sistema gerador de desigualdades não é de agora. Mas a compreensão de que destruir os mecanismos que consolidam a subalternidade é a única forma de protegermos toda a comunidade, pode estar ao nosso alcance.
De facto, de acordo com o perfil traçado pelos especialistas, a maioria das principais contaminações decorre maioritariamente num contexto de coabitação, ou seja, em casa, por pessoas que vão trabalhar usando transportes públicos.
Um perfil que torna cristalino o quadro das desigualdades, de pobreza e da má qualidade de vida, que existe nas zonas periféricas da capital, com a degradação do padrão das habitações e com os graves constrangimentos crónicos dos transportes públicos. Só que estes dois problemas já estavam lá antes, daí que seja estranho não ter havido a sensibilidade política e social no Governo e nas autoridades para a atenção necessária em relação a estas zonas mais expostas da pandemia.
Neste sentido se pronunciou, nas suas primeiras declarações, D. José Ornelas, Bispo de Setúbal e novo Presidente também da Conferência Episcopal Portuguesa para avisar que o mundo pós-Covid-19 não pode voltar ao que era. “Se alguma coisa a pandemia nos ensinou é que a miséria custa muito caro. Nós não nos podemos dar ao luxo de ter miséria entre nós, considerou. Em Setúbal, D. José Ornelas tem acompanhado os problemas sociais da diocese, condenando repetidamente o “racismo, a injustiça e a exclusão” que considera não terem lugar na Igreja Católica.
A Assembleia Plenária da CEP, que decorreu em Fátima, e que elegeu D. José Ornelas elaborou um documento que é um “contributo” para o diálogo social a partir da emergência que se vive por causa da pandemia Covid-19. “Temos de construir um mundo que não seja totalmente igual, que utilize todas as riquezas que nós temos, mas também seja capaz de sonhar mundos novos e que aprendamos dos esforços de todos que se fizeram neste tempo para construir uma humanidade melhor para todos” sublinhou. “Os próximos tempos não vão ser fáceis e precisamos da convergência de toda a gente nesta sociedade, de todos os quadrantes políticos e de todos os sectores da sociedade para superarmos esta crise e construirmos algo de mais significativo, porque os nossos jovens precisam disso” acrescentou o novo presidente da CEP. Uma reflexão que se impõe após o fim da pandemia.
28.4.20
"As pessoas estão aterrorizadas em casa e recusam tratamento"
Susana Madureira Martins, com redação, in RR
Quatro mil mortes a mais em Portugal desde o início da pandemia, é o que revela um estudo divulgado pela Ordem dos Médicos.
Um estudo divulgado na revista da Ordem dos Médicos revela que Portugal pode ter registado quatro a seis vezes mais mortes do que média desde o início da pandemia. O medo de ir ao hospital está a provocar um aumento da mortalidade entre doentes crónicos, justifica o coordenador António Vaz Carneiro. “Há pessoas a morrer sem tratamento.”
O excesso de óbitos entre 1 de março e 22 de abril pode ter chegado a quatro mil a mais dos que são atribuídos ao novo coronavírus que, de acordo com os números oficiais, está em 928 óbitos.
Segundo o coordenador do estudo, este número excessivo de mortes pode ter como eventual causa, a redução da procura de cuidados de saúde em contexto de pandemia. “Há cerca de 30 a 40% dos doentes que deveriam ir à urgência, fazer biópsias, endoscopias, ser internados, deveriam ser operados e ir a consultas e estão a morrer sem tratamento.”
“A nossa explicação é que as pessoas estão aterrorizadas em casa, com medo de morrer com o vírus, e pura e simplesmente recusam tratamento”, esclarece à Renascença António Vaz Carneiro, lembrando que os hospitais estão vazios e as consultas estão fechadas.
Os dados mostram que este excesso de mortalidade se registou apenas em pessoas com mais de 65 anos, devido a eventos agudos e doentes com doenças crónicas agudizadas que não procuraram cuidados.
O investigador aconselha os decisores políticos a gerir de outra maneira a mortalidade em Portugal, não se concentrando apenas nas infeções por Covid-19. “Houve um desvio de recursos muito grande para esta infeção e, ao fazê-lo, diminuímos os recursos disponíveis para todas as outras patologias. Mas os portugueses continuam a morrer com outras causas que não a Covid-19: por causa cardiovasculares, diabetes, cancro, acidentes e outras infeções”, alerta.
Por isso, tendo conhecimento destes valores, as autoridades não podem fazer uma gestão exclusivamente orientada para a Covid-19. “Agora, as pessoas que tiverem de decidir têm de ter em linha de conta que, a cada dia que passa que estas pessoas não são vistas, estão a morrer em números muito significativos. Temos que ir buscar estas pessoas a casa e convencê-las a ir a um hospital”.
Em média morrem 300 pessoas por dia em Portugal, um número que a partir de março aumentou quatro a seis vezes, provocando um excesso de mortalidade em grande parte explicado pelo receio de tratamento em meio hospitalar.
Os dados agora divulgados são superiores aos estimados na semana passada no Barómetro Covid-19, da Escola Nacional de Saúde Pública, que apontou um excesso de mortalidade de 1.255 óbitos, mas apenas para o período entre 16 de março e 14 de abril.
Em Portugal, morreram 928 pessoas das 24.027 confirmadas como infetadas, e há 1.357 casos recuperados, de acordo com a DGS.
O país cumpre o terceiro período de 15 dias de estado de emergência, iniciado em 19 de março, e o Governo já anunciou a proibição de deslocações entre concelhos no fim de semana prolongado de 1 a 3 de maio.
Mais de três milhões de pessoas foram contagiadas pelo novo coronavírus em todo o mundo, 80% das quais na Europa e nos Estados Unidos da América, de acordo com o último balanço.
Pelo menos 3.003.344 casos de infeção pelo SARS-CoV-2, assim como 209.388 mortes, foram registadas no mundo inteiro desde o início da pandemia. Cerca de 890 pessoas recuperaram.
A Europa continua a ser o continente mais afetado e os Estados Unidos são o país mais atingido pela doença.
Quatro mil mortes a mais em Portugal desde o início da pandemia, é o que revela um estudo divulgado pela Ordem dos Médicos.
Um estudo divulgado na revista da Ordem dos Médicos revela que Portugal pode ter registado quatro a seis vezes mais mortes do que média desde o início da pandemia. O medo de ir ao hospital está a provocar um aumento da mortalidade entre doentes crónicos, justifica o coordenador António Vaz Carneiro. “Há pessoas a morrer sem tratamento.”
O excesso de óbitos entre 1 de março e 22 de abril pode ter chegado a quatro mil a mais dos que são atribuídos ao novo coronavírus que, de acordo com os números oficiais, está em 928 óbitos.
Segundo o coordenador do estudo, este número excessivo de mortes pode ter como eventual causa, a redução da procura de cuidados de saúde em contexto de pandemia. “Há cerca de 30 a 40% dos doentes que deveriam ir à urgência, fazer biópsias, endoscopias, ser internados, deveriam ser operados e ir a consultas e estão a morrer sem tratamento.”
“A nossa explicação é que as pessoas estão aterrorizadas em casa, com medo de morrer com o vírus, e pura e simplesmente recusam tratamento”, esclarece à Renascença António Vaz Carneiro, lembrando que os hospitais estão vazios e as consultas estão fechadas.
Os dados mostram que este excesso de mortalidade se registou apenas em pessoas com mais de 65 anos, devido a eventos agudos e doentes com doenças crónicas agudizadas que não procuraram cuidados.
O investigador aconselha os decisores políticos a gerir de outra maneira a mortalidade em Portugal, não se concentrando apenas nas infeções por Covid-19. “Houve um desvio de recursos muito grande para esta infeção e, ao fazê-lo, diminuímos os recursos disponíveis para todas as outras patologias. Mas os portugueses continuam a morrer com outras causas que não a Covid-19: por causa cardiovasculares, diabetes, cancro, acidentes e outras infeções”, alerta.
Por isso, tendo conhecimento destes valores, as autoridades não podem fazer uma gestão exclusivamente orientada para a Covid-19. “Agora, as pessoas que tiverem de decidir têm de ter em linha de conta que, a cada dia que passa que estas pessoas não são vistas, estão a morrer em números muito significativos. Temos que ir buscar estas pessoas a casa e convencê-las a ir a um hospital”.
Em média morrem 300 pessoas por dia em Portugal, um número que a partir de março aumentou quatro a seis vezes, provocando um excesso de mortalidade em grande parte explicado pelo receio de tratamento em meio hospitalar.
Os dados agora divulgados são superiores aos estimados na semana passada no Barómetro Covid-19, da Escola Nacional de Saúde Pública, que apontou um excesso de mortalidade de 1.255 óbitos, mas apenas para o período entre 16 de março e 14 de abril.
Em Portugal, morreram 928 pessoas das 24.027 confirmadas como infetadas, e há 1.357 casos recuperados, de acordo com a DGS.
O país cumpre o terceiro período de 15 dias de estado de emergência, iniciado em 19 de março, e o Governo já anunciou a proibição de deslocações entre concelhos no fim de semana prolongado de 1 a 3 de maio.
Mais de três milhões de pessoas foram contagiadas pelo novo coronavírus em todo o mundo, 80% das quais na Europa e nos Estados Unidos da América, de acordo com o último balanço.
Pelo menos 3.003.344 casos de infeção pelo SARS-CoV-2, assim como 209.388 mortes, foram registadas no mundo inteiro desde o início da pandemia. Cerca de 890 pessoas recuperaram.
A Europa continua a ser o continente mais afetado e os Estados Unidos são o país mais atingido pela doença.
30.4.14
Um tempo de medos
Por Eduardo Oliveira Silva, in iOnline
Não podemos aceitar que os medos se instalem para sempre
O medo passou a ser o companheiro mais presente da maioria dos portugueses, substituindo o excesso de confiança que alguns protagonizaram em finais dos anos 80 e em quase toda a década de 90 de forma um tanto irresponsável, como se vê agora.
Hoje todos temos medo de qualquer coisa, consoante a nossa idade, profissão ou núcleo familiar. A reflexão sobre esse medo ocupa sistematicamente a nossa cabeça.
Para quem já perdeu o emprego, há o medo de deixar de receber as prestações sociais com que conta para atenuar o pesadelo e o pavor de não voltar a arranjar trabalho. Esse medo gera por vezes a força de pegar na trouxa e zarpar, coisa que não deixa de se fazer sempre com algum medo do que se vai encontrar noutras paragens, próximas ou distantes.
Há o medo de quem tem trabalho mas vive a pensar no drama por que pode passar se a empresa acaba ou deixa de pagar. Há o medo dos reformados e dos que vivem de magros subsídios de os verem cortados mais uma vez ou de os perderem definitivamente. E há talvez o pior de todos os medos: ficar sem recursos, apoios e um mínimo de condições e de atenção na velhice ou na fase terminal da vida.
Há o medo angustiante daqueles que não temem por si mas pelo que pode acontecer aos filhos ou aos pais, a que somam a angústia de não ter condições para lhes valer na dificuldade ou na doença.
Há o medo de perder a saúde e saber que já não se pode contar com um sistema que era tido como exemplar e que hoje se vai reduzindo e restringindo, chegando ao ponto de afectar doentes crónicos.
Há o medo de não poder pagar a casa, as prestações das coisas ou, no limite, o medo de que o sistema bancário e financeiro praticamente virtual em que vivemos se afunde.
Há o medo de assumir posições fora do politicamente correcto porque se pode ser enxovalhado à direita ou à esquerda com violência inaudita e normalmente cobarde e anónima, como a que se pratica através da net.
São apenas exemplos entre os muitos possíveis os que se referem aqui ao correr das teclas e sem procurar sequer hierarquizá-los.
Já vão longe os anos 90, em que os medos praticamente se limitavam à morte, à saúde pessoal ou da família, porque a ideia é que tudo iria sempre crescendo, se não exponencial pelo menos regularmente.
A época dos medos não é, naturalmente, um exclusivo português, mas há que reconhecer que talvez em toda a Europa do euro somos os mais nitidamente pessimistas, depois de termos sido induzidos a um optimismo tão frenético como artificial por um sistema financeiro ganancioso e uma classe política globalmente incompetente para vislumbrar o que aí vinha.
Hoje já aprendemos quase todos a viver com os novos medos, mas se há coisa que não podemos fazer é aceitar que eles se instalaram em nós para sempre. Alguma coisa tem mesmo de se fazer para ganharmos uma confiança responsável no futuro.
Não podemos aceitar que os medos se instalem para sempre
O medo passou a ser o companheiro mais presente da maioria dos portugueses, substituindo o excesso de confiança que alguns protagonizaram em finais dos anos 80 e em quase toda a década de 90 de forma um tanto irresponsável, como se vê agora.
Hoje todos temos medo de qualquer coisa, consoante a nossa idade, profissão ou núcleo familiar. A reflexão sobre esse medo ocupa sistematicamente a nossa cabeça.
Para quem já perdeu o emprego, há o medo de deixar de receber as prestações sociais com que conta para atenuar o pesadelo e o pavor de não voltar a arranjar trabalho. Esse medo gera por vezes a força de pegar na trouxa e zarpar, coisa que não deixa de se fazer sempre com algum medo do que se vai encontrar noutras paragens, próximas ou distantes.
Há o medo de quem tem trabalho mas vive a pensar no drama por que pode passar se a empresa acaba ou deixa de pagar. Há o medo dos reformados e dos que vivem de magros subsídios de os verem cortados mais uma vez ou de os perderem definitivamente. E há talvez o pior de todos os medos: ficar sem recursos, apoios e um mínimo de condições e de atenção na velhice ou na fase terminal da vida.
Há o medo angustiante daqueles que não temem por si mas pelo que pode acontecer aos filhos ou aos pais, a que somam a angústia de não ter condições para lhes valer na dificuldade ou na doença.
Há o medo de perder a saúde e saber que já não se pode contar com um sistema que era tido como exemplar e que hoje se vai reduzindo e restringindo, chegando ao ponto de afectar doentes crónicos.
Há o medo de não poder pagar a casa, as prestações das coisas ou, no limite, o medo de que o sistema bancário e financeiro praticamente virtual em que vivemos se afunde.
Há o medo de assumir posições fora do politicamente correcto porque se pode ser enxovalhado à direita ou à esquerda com violência inaudita e normalmente cobarde e anónima, como a que se pratica através da net.
São apenas exemplos entre os muitos possíveis os que se referem aqui ao correr das teclas e sem procurar sequer hierarquizá-los.
Já vão longe os anos 90, em que os medos praticamente se limitavam à morte, à saúde pessoal ou da família, porque a ideia é que tudo iria sempre crescendo, se não exponencial pelo menos regularmente.
A época dos medos não é, naturalmente, um exclusivo português, mas há que reconhecer que talvez em toda a Europa do euro somos os mais nitidamente pessimistas, depois de termos sido induzidos a um optimismo tão frenético como artificial por um sistema financeiro ganancioso e uma classe política globalmente incompetente para vislumbrar o que aí vinha.
Hoje já aprendemos quase todos a viver com os novos medos, mas se há coisa que não podemos fazer é aceitar que eles se instalaram em nós para sempre. Alguma coisa tem mesmo de se fazer para ganharmos uma confiança responsável no futuro.
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