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18.6.20

Cerca de uma dezena de detidos em Lisboa e Setúbal por violência doméstica

in Público on-line

Quase uma dezena de pessoas foram detidas nos distritos de Lisboa e Setúbal por suspeitas de crimes de violência doméstica entre os dias 8 e 14 de Junho, segundo a Procuradoria-Geral Regional de Lisboa (PGDL). Numa nota publicada na página da Internet, a PGDL informa que as nove detenções, no âmbito da intervenção do Ministério Público, ocorreram na área da violência doméstica em cenário de agressões, injúrias e ameaças entre cônjuges, companheiros, namorados ou ascendentes. De acordo com a nota, foram detidas pessoas em Cascais, Sintra, Lisboa e Seixal.

Em alguns casos, os arguidos ficaram proibidos de contactos com as vítimas e de se deslocarem junto à residência ou local de trabalho das vítimas e sujeitos a fiscalização por meios técnicos de controlo à distância. Dois arguidos de casos de violência doméstica registados em Sintra ficaram sujeitos às medidas de coação de prisão preventiva.

A pandemia de covid-19 agudizou casos de violência doméstica pré-existentes e à Rede Nacional de Apoio às Vítimas de Violência Doméstica chegaram nas últimas semanas o dobro dos pedidos de ajuda em comparação com o período de confinamento. Em declarações à Lusa, a secretária de Estado para a Cidadania e Igualdade, Rosa Monteiro, disse que o que recolheu das reuniões que manteve com as estruturas da rede nacional no período de emergência aponta para uma “agudização dos casos de violência que já pré-existiam” em 70% dos casos.

No período que abrange a pandemia de covid-19 a rede nacional registou 15.919 atendimentos, fazendo agora, e desde a última quinzena de Maio, uma média de 4.500 atendimentos, cada vez mais presenciais à medida que o desconfinamento avança, e que são quase o dobro dos 2.500 atendimentos em média nas quinzenas e Abril, que já eram “um número muito significativo”, defendeu Rosa Monteiro.

Quando o conhecimento da lei é uma arma de “terrorismo íntimo”
Os pedidos de ajuda cresceram sobretudo nas vias telefónicas e digitais. A linha de apoio da Comissão para a Cidadania e a Igualdade de Género (CIG), o email e o número de SMS criado especificamente para o contexto da pandemia e que o Governo pretende manter receberam 727 contactos entre 19 de Março e 15 de Junho, um aumento de 180% face ao primeiro trimestre de 2019.

15.5.20

Covid-19. Mais mulheres que homens em assistência à família, layoff ou sem actividade

in Público on-line

Estudo indica que 38% dos portugueses tem agora rendimentos do agregado inferiores ao que tinham antes da crise. Maioria diz que vai passar férias em casa.

Entre 6 e 11 de Maio, dos 4% de trabalhadores que estavam em assistência à família, 13% em layoff e 10% sem actividade, a maioria são mulheres, revela um estudo divulgado esta quinta-feira.

De acordo com a segunda parte do estudo Covid-19 e os Portugueses - A vida em tempo de quarentena, realizado pelo Centro de Estudos e Sondagens de Opinião (CESOP) da Universidade Católica Portuguesa para a RTP, a Fundação Francisco Manuel dos Santos, a Católica Lisbon e a Universidade Católica Portuguesa, entre os dias 6 e 11 de Maio, 42% dos portugueses que estavam a trabalhar antes da crise estavam nos locais de trabalho a tempo inteiro, 7% a tempo parcial, 16% encontravam-se em teletrabalho (em Abril eram 23%), 4% em assistência à família, 13% em layoff, 8% desempregados e 10% disse estar sem actividade.

De casa em casa, estes enfermeiros levam cuidados e uma palavra amiga a quem mais precisa
“Elas, mais do que eles, na assistência à família, em layoff e sem actividade. Eles, mais do que elas, a manter as mesmas funções nos mesmos locais”, concluiu o estudo.

A maior parte dos inquiridos (84%) imagina-se com trabalho no curto/médio prazo, mas 7% julgam que vão estar desempregados ou sem actividade.

Quanto às competências digitais, 52% admitiu sentir-se preparado para trabalhar num mundo mais digital, porém, 19% disse estar impreparado, sendo que, desses, 57% corresponde a pessoas com escolaridade inferior ao 3.º ciclo.

Mais de 1/3 dos inquiridos (38%) disse ter agora rendimentos do agregado inferiores ao que tinham antes da crise, com a maior parcela de agregados com perda de rendimento a pertencer aos mais pobres: 43% dos agregados com rendimento mensal até 1000 euros, 41% entre 1.001 e 2500 euros mensais e 21% em agregados que auferem mais 2500 euros por mês.

Também 70% dos empresários em nome individual e trabalhadores independentes admitiram sentir perda de rendimentos no agregado, bem como 43% dos trabalhadores por conta de outrem, 32% dos trabalhadores em teletrabalho e 35% dos que estão em trabalho presencial a tempo inteiro.

Férias em casa
O estudo observou ainda que, neste momento, a maioria da população não tenciona fazer férias este ano fora da sua residência, com um em cada três inquiridos a responder que de certeza que não fará férias fora de casa e 20% a dizer que provavelmente não o fará. Os destinos mais indicados pelos que admitem fazer férias fora da sua residência são a Região Norte (28% dos que pensam sair), o Algarve (27%), a Região Centro (16%) e o Alentejo (15%).


Quanto ao estado de saúde física, 25% dos inquiridos afirmam estar pior do que estavam há um mês, sendo que, desses, 28% são mulheres e 22% homens. As maiores percentagens de indivíduos que consideram ter piorado o estado de saúde física encontram-se entre as pessoas mais novas.

Já quanto à saúde mental, 28% dizem estar pior do que estavam há um mês e, mais uma vez, a percentagem é maior nas mulheres (32%) do que nos homens (25%).

Na semana de 6 a 11 de Maio, 67% dos inquiridos disse estar a sair de casa o mesmo número de vezes do que nas semanas anteriores, 23% admitiu estar a sair mais de casa e apenas 10% saiu ainda menos vezes.

Neste estudo, foram obtidos 898 inquéritos válidos, sendo 54% dos inquiridos mulheres, 34% da região Norte, 18% do Centro, 34% da A.M. de Lisboa, 6% do Alentejo, 4% do Algarve, 2% da Madeira e 2% dos Açores.

Meio milhão de euros para estudar impacto da covid-19 na desigualdade de género

Cristina Pereira, in Público on-line

As propostas devem ser submetidas à Fundação para a Ciência e a Tecnologia entre sexta-feira, 15 de Maio, e 2 de Junho de 2020. O financiamento por projecto poderá ir até aos 40 mil euros.

A Fundação para a Ciência e a Tecnologia (FCT) abre esta sexta-feira candidaturas para estudos sobre o impacto da pandemia de covid-19 na desigualdade de género, na violência contra as mulheres e na violência doméstica. A iniciativa, que alia a Ciência e Ensino Superior à Cidadania e Igualdade, tem uma dotação de meio milhão de euros.

“Na crise económica e financeira não houve apoios a estudos sobre o impacto nas mulheres”, recorda a secretária de Estado para a Cidadania e a Igualdade, Rosa Monteiro. Como se verificou nessa ocasião, “as crises não são neutras”, elas “reproduzem e tendem a exacerbar as desigualdades existentes entre mulheres e homens”. Diversas organizações internacionais têm alertado para a necessidade de o fazer agora. “É preciso concretizar”, concede. “É preciso conhecer os impactos de forma rigorosa para dar visibilidade à persistente desigualdade que penaliza as mulheres e melhorar as respostas das políticas públicas.”

Para já, é evidente que o confinamento trouxe novas exigências aos homens e às mulheres, mas “às mulheres de forma desproporciona”, já que desempenham grande parte das tarefas relacionadas com a casa e o cuidado de ascendentes e descendentes. “As mulheres estão na linha da frente em várias áreas, não só na saúde. Temos a percepção de que estão em maior risco de desemprego com toda esta transformação.”

Conversou com o ministro da Ciência, Tecnologia e Ensino Superior. Manuel Heitor mostrou-se receptivo. Pediu-lhe que fizesse uma proposta, em articulação com a FCT, que nos últimos dois meses lançou uma série de programas relacionados com a covid-19 (um em ciências da vida e engenharia, outro em ciências da virologia, outro para projectos de I&D e outro para uma plataforma relacional e de comunicação entre cientistas).

O programa, intitulado Gender Research 4 COVID 19, tem três grandes linhas de orientação: “género e mercado de trabalho durante e no período pós crise covid-19 (emprego, desemprego e precariedades laborais; transformações nas formas de organização do trabalho; saúde, apoio social, limpeza: as mulheres na linha da frente); covid-19, quotidianos, estereótipos e papéis de género (estereótipos, comportamentos de risco, saúde e pandemia; prestação de cuidados informais, desempenho de tarefas domésticas e vida familiar em tempos de pandemia; conciliação do teletrabalho com o cuidado e o apoio às actividades escolares de crianças e jovens); covid-19 e violência contra as mulheres e violência doméstica (padrões e dinâmicas de violência em situação de crise; covid-19 e respostas do Estado e da sociedade à violência contra as mulheres e violência doméstica; ferramentas e instrumentos para a prevenção, resposta e combate à violência em contextos de crises e catástrofes)”.

Rosa Monteiro quis “deixar claro o que se pretende”. “Percebi que há um conjunto imenso de questionários online que deixam muito a desejar em termos de representatividade”, justifica. Os projectos-candidatos devem adoptar “técnicas de amostragem preferencialmente aleatórias e não por conveniência, que garantam representatividade estatística”, e “incluir ideias inovadoras, focadas e exequíveis, com resultados concretos”.

As propostas devem ser submetidas entre sexta-feira, 15 de Maio, e 2 de Junho de 2020. Deverão ser apoiados “projectos de implementação rápida, com um máximo de quatro meses ou 10 meses de desenvolvimento”. O financiamento por projecto pode ir até aos 20 mil euros ou 40 mil euros, conforme o prazo.

Portugal vive “crise social”, alerta relatório do terceiro estado de emergência

in Dinheiro Vivo

Encurtamento das cadeias de abastecimento evitou perturbação do fornecimento de alimentos, refere relatório governamental. A seguir Emprego na indústria resiste mais a crises. Nos serviços destrói-se mais

O relatório do terceiro período do estado de emergência destaca a “crise social” em que o país vive devido à atual pandemia de covid-19, tendo sido “inevitáveis” o decréscimo do emprego e a retração da atividade económica.

“Tendo em consideração que este é o último relatório sobre o estado de emergência, entende-se ser pertinente salientar um conjunto de conclusões que espelham a situação económica, durante a totalidade do intervalo de tempo em questão. Em primeiro lugar, realça-se a crise social subsequente à crise sanitária”, precisa o relatório entregue na terça-feira na Assembleia da República.

O documento da Estrutura de Monitorização do Estado de Emergência, coordenada pelo ministro da Administração Interna, Eduardo Cabrita, refere, embora os mecanismos implementados pelo Governo “tenham contribuído para minorar as consequências nocivas resultantes, o decréscimo do emprego e a retração da atividade económica foram inevitáveis”.

O relatório dá conta dos “impactos negativos de curto prazo” que afetaram principalmente um conjunto específico de atividades económicas, designadamente o alojamento e a restauração, o comércio de bens não-alimentares e todos produtores que fornecem estes canais de distribuição. “Ainda que a pandemia tenha interrompido a trajetória virtuosa da economia portuguesa, há que enfatizar o modo como alguns operadores económicos conseguiram adaptar os seus modelos de negócio a tal contexto”, indica, dando como exemplo a digitalização do comércio e o crescimento da procura nas plataformas em linha. Segundo o documento, esta procura estendeu-se às atividades de restauração, “impulsionando a criação de soluções de entrega, assim como de venda para consumo no exterior do espaço comercial”.

Ao longo do estado de emergência verificou-se “o encurtamento das cadeias de abastecimento, o que constitui por si só um fenómeno de territorialização”, contribuindo para “a inexistência de perturbações persistentes” na cadeia de abastecimento, à exceção de casos pontuais, no domínio agroalimentar, durante a última fase do estado de emergência, sublinha. O relatório dá também conta da existência de excedentes de produtos agrícolas. O mesmo documento indica ainda que, a partir da segunda etapa do estado de emergência, o Governo reconheceu a legitimidade de uma intervenção pública em determinadas dinâmicas de mercado.

De acordo com o relatório, em momentos distintos, houve lugar à ação para fixar os limites superiores de preço para certas categorias de GPL engarrafado, estabelecer uma taxa de lucro máxima na comercialização de dispositivos médicos, equipamento de proteção individual, álcool etílico e gel desinfetante cutâneo de base alcoólica. Portugal esteve 45 dias em estado de emergência, entre 19 de março e 02 de maio, para fazer face à covid-19, estando desde 03 de maio em situação de calamidade.

30.4.20

Covid-19: queixas às polícias por violência doméstica diminuíram. Linhas de apoio receberam 308 pedidos

in Público on-line

Queixas às polícias diminuíram 39% em relação a 2019. Linha telefónica reforçada, serviço de SMS e e-mail de emergência criados para assistir vítimas de violência doméstica em tempos de quarentena receberam 308 pedidos desde 19 de Março.

As três linhas de apoio a vítimas de violência doméstica receberam 308 pedidos desde 19 de Março e as queixas às polícias por este crime diminuíram 39% em relação ao mesmo período de 2019, revelou esta quarta-feira o Governo.

“Portugal, ao contrário de outros países europeus, não regista um aumento de participações por violência doméstica. A PSP e a GNR registaram um decréscimo das participações em 39% face ao mesmo período do ano passado, o que nos compromete ainda mais na urgência de dar outras respostas”, disse o secretário de Estado da Saúde.

António Lacerda Sales, que falava aos jornalistas durante a conferência de imprensa diária de acompanhamento da pandemia de covid-19 em Portugal, deu conta que “uma das preocupações do Governo” é a violência doméstica, que “não pode ficar esquecida em tempos de covid-19”.

Nesse sentido, afirmou que a Secretaria de Estado para a Cidadania e a Igualdade, em parceria com o Ministério da Saúde, através do INEM, está a desenvolver, desde o início de Março, um plano de contingência de prevenção e de combate à violência doméstica em contexto de covid-19.

Segundo o secretário de Estado, foi criada uma nova linha de atendimento por SMS, com o número 3060, que desde a entrada em funcionamento, a 27 de Março, já recebeu 123 pedidos de apoio.

O governante explicou que esta linha é gratuita e não permite a identificação dos contactos pelo agressor, presta informações, apoia e encaminha as vítimas em caso de elevado perigo, acciona as forças de segurança, para verificação imediata das situações no local.

“No total, estas linhas receberam desde o dia 19 de Março 308 pedidos”, precisou.

O secretário de Estado disse igualmente que a rede de casas de abrigo e de acolhimento de emergência têm estado em funcionamento e respeitam as regras de isolamento e distanciamento social, além de terem sido contratualizadas mais duas casas de abrigo com mais 100 vagas.

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De acordo com o governante, estas casas já acolheram 50 vítimas entre 6 e 27 de Abril.

Portugal contabiliza 973 mortes associadas à covid-19 em 24.505 casos confirmados de infecção, segundo o boletim diário da Direcção-Geral da Saúde (DGS) sobre a pandemia divulgado esta quarta-feira.

28.4.20

Lisboa vai tirar alcoólicos sem abrigo da rua, dando-lhes quarto, álcool e uma equipa para gerir o consumo

Ana Cristina Pereira, in Público on-line

Entidades estão só à procura de um espaço adequado para o projecto-piloto. Em breve, Lisboa terá um programa de gestão de consumo de álcool. No Porto, há um movimento no mesmo sentido, mas ainda está no início do processo.

Não fosse a pandemia de covid-19, a ideia talvez continuasse no plano da discussão teórica. Como há uma ordem de confinamento e o síndrome de abstinência pode ser fatal, alguns alcoólicos sem abrigo vão ser desafiados a entrar numa estrutura residencial com quartos individuais, refeições, bebidas alcoólicas e uma equipa técnica que os ajudará a gerir o consumo, reduzindo a quantidade até, quem sabe, poderem fazer um tratamento para deixar de beber. Para já em Lisboa, depois no Porto.

Mariana vem à janela desenhar o que pensa fechada em casa
O sentido de urgência é grande. Com os cafés e os bares fechados e as ruas semi-desertas, quem vive de pedir, arrumar carros e outros expedientes aflige-se para arranjar dinheiro e matar a ressaca. No caso dos alcoólicos crónicos, os quadros de privação podem trazer tremores, convulsões, alterações neurológicas irreversíveis ou mesmo a morte.

O diálogo que se abriu entre o Serviço de Intervenção nos Comportamentos Aditivos e nas Dependências (SICAD), a Divisão de Intervenção nos Comportamentos Aditivos e nas Dependências (DICAD), as instituições de solidariedade que prestam serviços de proximidade, com reuniões semanais pela Net, abriu caminho a uma nova resposta: o programa de gestão de consumo de álcool.

Crescer versus APDES
Em Lisboa, aliaram-se o SICAD, a DICAD, o Instituto de Segurança Social, a Santa Casa da Misericórdia, a Câmara Municipal e a Crescer – Associação de Intervenção Comunitária para o projecto-piloto. “Já adiantámos bastante”, afiança João Goulão, director-geral do SICAD. “O passo seguinte é encontrar um espaço adequado. O espaço é uma condicionante muito séria.” No Porto há um movimento no mesmo sentido, encabeçado pela Agência Piaget Para o Desenvolvimento (APDES), mas “ainda numa fase inicial”, a procurar parceiros.

A Crescer está pronta para arrancar assim que seja possível. “Se existir um espaço hoje, nós estamos preparados para avançar amanhã”, garante Américo Nave, director executivo da Crescer. Há anos que se bate por esta alternativa. “Temos várias pessoas que têm vindo a desenvolver interesse e investigação nesta área.” Leram estudos. Visitaram estruturas noutros países. Podem evitar erros já cometidos por outros. “Podemos ser um bocadinho mais ambiciosos.”

A estrutura deverá acolher, no máximo, 30 pessoas. Deverão ficar alojadas em quartos individuais. A acompanhá-las estará uma equipa multidisciplinar, que incluirá profissionais da saúde e do serviço social. “No fundo, acreditamos que esta estrutura é também uma estrutura clínica”, resume. Cada pessoa terá o seu próprio programa de gestão de consumo. “Mediante o perfil, em diálogo, será decidido que tipo de bebida [consumirá], a que horas do dia, que quantidade. À partida, todas as pessoas devem aceitar reduzir a quantidade.”

Questionado sobre a eventual reacção social que um projecto destes poderá provocar, Américo Nave desvaloriza: “Para mim, o que é polémico é haver pessoas a viver na rua. Como é possível alguém viver na rua 30 anos?” Diz-lhe a experiência que não é porque quer, como por vezes se ouve dizer, é porque “as respostas que existem não estão adequadas”.

Os albergues só recebem alcoólicos crónicos em situação de sem abrigo “por especial favor”. Não costumam deixar entrar quem se apresenta embriagado à porta. Há estruturas, centros de emergência de baixo limiar, que o fazem, mas pouquíssimas. “Estas pessoas estão numa extrema vulnerabilidade. É mais fácil motivá-las e encaminhá-las para tratamento numa estrutura em que já tem contacto com equipas técnicas da área da saúde de área social”, refere.

Psicólogos alertam para risco de aumento do jogo compulsivo, consumo de álcool e tabaco
Ainda muito está em discussão. O projecto-piloto, até por ser isso mesmo, “pode levantar várias hipóteses de trabalho”. Pode vir a ser uma estrutura intermédia entre a rua e a abstinência. Pode abarcar até pessoas que não moram na rua, mas padecem de alcoolismo crónico. É vasto o grupo de consumidores problemáticos. “Queremos criar parcerias com outras entidades. Gostaríamos que fosse um projecto partilhado.”

MAP versus “Wet Houses”
Os chamados Managed Alcohol Programs (MAP) surgiram no Canadá há mais de 20 anos, procurando impedir que as pessoas morressem geladas no inverno. São parentes das “Wet Houses”, populares nos Estados Unidos. As primeiras fornecem as bebidas, as segundas não, esclarece Marta Pinto, professora e investigadora da Universidade do Porto e co-fundadora da R3 – Riscos Reduzidos em Rede, que agrega a maior parte das equipas de redução de riscos e associações de pessoas que consomem drogas e/ou fazem trabalho sexual.

“São programas altamente criteriosos, aceitando apenas pessoas que têm consumos altamente problemáticos e danos devastadores no que diz respeito à sua inserção sócio-laboral, ao seu equilíbrio psíquico, à sua saúde orgânica”, explica a especialista. “Fazem uma intervenção que passa por assegurar o acesso a bebidas alcoólicas de forma controlada, ao mesmo tempo que investem numa abordagem integrada de prestação de cuidados sócios-sanitários”.

Os vários estudos feitos no Canadá e noutros países, que entretanto desenvolveram o modelo, apontam para menos consumo, menos episódios de emergência médica, menos encarceramento. E isso não a surpreende. “Uma pessoa em situação de sem abrigo e de quase absoluta exclusão social tem mais dificuldade em gerir os seus consumos na rua do que num contexto protegido onde as suas necessidades básicas estão asseguradas e onde lhe são prestados vários cuidados. Se tivermos uma abordagem compreensiva há uma redução do uso e um aumento da procura de tratamento”, salienta. “São abordagens pouco óbvias mas que têm mostrado resultados.”

Durante muito tempo, recorda, procurou-se apenas promover a abstinência. “Na década de 80, começou a ficar claro que essa abordagem deixa de fora a maioria das pessoas que utilizam drogas. As abordagens de redução de riscos procuram complementar as intervenções mais clássicas e lidar de forma pragmática com os que não queriam ou não conseguiam ficar abstinentes.” Foi assim que nasceram os programas de troca de seringas e de substituição opiácea. Ora, “as equipas que trabalham com consumidores de drogas ilícitas desde há muito tempo vêm lidando com consumos nocivos de álcool e têm vindo a falar na necessidade de criar respostas específicas nesse âmbito.”

Perante a pandemia de covid-19 e a declaração do Estado de Emergência, a Unidade de Alcoologia de Lisboa deu orientações para se distribuir terapêutica que previna quadros graves de privação aos sem-abrigo alcoólicos que pernoitam nos centros de acolhimento. Duas vezes ao dia: um comprimido de Diazepam, um comprimido de Tiaprida, um comprimido de ácido fólico, um comprimido de Neurobion. “Consideramos, ainda, que os cidadãos sem-abrigo que pernoitem na rua, identificados e conhecidos pelos técnicos de programas estruturados de acompanhamento na rua, poderão ser beneficiários desta intervenção, a definir caso-a-caso.”

Noutros pontos do país, há equipas que seguem esta orientação. É o caso, por exemplo, do Centro de Acolhimento de Emergência montado no parque de campismo municipal de Espinho. O Centro Social de Paramos, que com a autarquia coordena o Núcleo de Planeamento e Intervenção em Sem-abrigo, garantiu apoio de uma médica. Três das 14 pessoas ali acolhidas estão a tomar a medicação que as ajuda a não sentir ressaca e a controlar a vontade de beber. “As pessoas que bebem de forma excessiva confrontam-se com ressacas monumentais”, observa Marília Costa, coordenadora da equipa de rua. “Para estar em isolamento profiláctico têm de estar bem. Tivemos uma pessoa que começou a ressacar de manhã, caiu, rachou a cabeça, teve de ir para o hospital. Isso fez com que não queira lá ficar. Estas três que iniciaram a terapêutica estão bem.”

Linha de apoio foi reforçada
A Linha Vida, o 1414, está agora mais apta a prestar apoio emocional e esclarecer dúvidas sobre questões relacionadas com dependências. “Voltámos a reforçá-la em termos de recursos humanos, com pessoas", anunciou João Goulão, director-geral do Serviço de Intervenção nos Comportamentos Aditivos e nas Dependências, na conferência diária da Direcção Geral de Saúde desta sexta-feira. Ao que explicou, aquela linha “vinha perdendo importância em detrimento da Saúde 24”. “Nas chamadas, há principalmente pessoas com abuso de álcool, mas também questões colocadas a propósito do jogo [apostas online]”, esclareceu. “Nota-se acréscimo paulatino desta procura.” O volume das chamadas é, todavia, bastante baixo. “Tratam-se de dezenas de chamadas. Temos quatro funcionários.”


"As pessoas estão aterrorizadas em casa e recusam tratamento"

Susana Madureira Martins, com redação, in RR

Quatro mil mortes a mais em Portugal desde o início da pandemia, é o que revela um estudo divulgado pela Ordem dos Médicos.

Um estudo divulgado na revista da Ordem dos Médicos revela que Portugal pode ter registado quatro a seis vezes mais mortes do que média desde o início da pandemia. O medo de ir ao hospital está a provocar um aumento da mortalidade entre doentes crónicos, justifica o coordenador António Vaz Carneiro. “Há pessoas a morrer sem tratamento.”

O excesso de óbitos entre 1 de março e 22 de abril pode ter chegado a quatro mil a mais dos que são atribuídos ao novo coronavírus que, de acordo com os números oficiais, está em 928 óbitos.

Segundo o coordenador do estudo, este número excessivo de mortes pode ter como eventual causa, a redução da procura de cuidados de saúde em contexto de pandemia. “Há cerca de 30 a 40% dos doentes que deveriam ir à urgência, fazer biópsias, endoscopias, ser internados, deveriam ser operados e ir a consultas e estão a morrer sem tratamento.”

“A nossa explicação é que as pessoas estão aterrorizadas em casa, com medo de morrer com o vírus, e pura e simplesmente recusam tratamento”, esclarece à Renascença António Vaz Carneiro, lembrando que os hospitais estão vazios e as consultas estão fechadas.

Os dados mostram que este excesso de mortalidade se registou apenas em pessoas com mais de 65 anos, devido a eventos agudos e doentes com doenças crónicas agudizadas que não procuraram cuidados.

O investigador aconselha os decisores políticos a gerir de outra maneira a mortalidade em Portugal, não se concentrando apenas nas infeções por Covid-19. “Houve um desvio de recursos muito grande para esta infeção e, ao fazê-lo, diminuímos os recursos disponíveis para todas as outras patologias. Mas os portugueses continuam a morrer com outras causas que não a Covid-19: por causa cardiovasculares, diabetes, cancro, acidentes e outras infeções”, alerta.

Por isso, tendo conhecimento destes valores, as autoridades não podem fazer uma gestão exclusivamente orientada para a Covid-19. “Agora, as pessoas que tiverem de decidir têm de ter em linha de conta que, a cada dia que passa que estas pessoas não são vistas, estão a morrer em números muito significativos. Temos que ir buscar estas pessoas a casa e convencê-las a ir a um hospital”.

Em média morrem 300 pessoas por dia em Portugal, um número que a partir de março aumentou quatro a seis vezes, provocando um excesso de mortalidade em grande parte explicado pelo receio de tratamento em meio hospitalar.
Os dados agora divulgados são superiores aos estimados na semana passada no Barómetro Covid-19, da Escola Nacional de Saúde Pública, que apontou um excesso de mortalidade de 1.255 óbitos, mas apenas para o período entre 16 de março e 14 de abril.

Em Portugal, morreram 928 pessoas das 24.027 confirmadas como infetadas, e há 1.357 casos recuperados, de acordo com a DGS.

O país cumpre o terceiro período de 15 dias de estado de emergência, iniciado em 19 de março, e o Governo já anunciou a proibição de deslocações entre concelhos no fim de semana prolongado de 1 a 3 de maio.

Mais de três milhões de pessoas foram contagiadas pelo novo coronavírus em todo o mundo, 80% das quais na Europa e nos Estados Unidos da América, de acordo com o último balanço.

Pelo menos 3.003.344 casos de infeção pelo SARS-CoV-2, assim como 209.388 mortes, foram registadas no mundo inteiro desde o início da pandemia. Cerca de 890 pessoas recuperaram.

A Europa continua a ser o continente mais afetado e os Estados Unidos são o país mais atingido pela doença.

27.4.20

Violência doméstica. Autoridades apelam a denúncias de vizinhos

in RTP

As queixas de violência doméstica desceram mais de 15 por cento entre fevereiro e março deste ano em Portugal, mas o número não significa uma diminuição real das agressões.

Em tempo de confinamento, as autoridades policiais e a associação de apoio a vítima apelam para que as denúncias sejam feitas pelos vizinhos.

As consequências psicológicas da quarentena

in Público on-line

Na segunda sessão de Por Falar Nisso, uma iniciativa da Multicare, o psiquiatra Júlio Machado Vaz fala sobre os danos psicológicos do isolamento social e respectivas reações comportamentais.

A propósito da pandemia que está a afectar todo o globo, e como uma das medidas de prevenção decretadas, muitos milhares de portugueses mudaram as suas habituais rotinas, adoptando comportamentos que agora aprendemos serem fundamentais à nossa sobrevivência. E entre uma das principais alterações está o confinamento obrigatório, esse isolamento profiláctico que entrou no vocabulário colectivo e sublinhou a nossa vulnerabilidade face a um inimigo invisível.

Assim, quase sem sobreaviso, estamos em quarentena, em casa, uns em teletrabalho, outros por impossibilidade de conseguir exercer as suas actividades. Em muitos lares, famílias inteiras servem-se das novas tecnologias para trabalhar, estudar, fazer as habituais compras. E hoje, passado mais de um mês depois de decretado o primeiro Estado de Emergência, começamos a perceber que este vírus pode ser muito mais do que uma doença e provocar danos colaterais em termos psicológicos, não apenas pela já referida mudança de rotinas, mas também pelas incertezas sociais e económicas que tem ditado.

Essa sensação de indefinição, muitas vezes revestida de angústia, é o tema central escolhido pela Multicare e por Júlio Machado Vaz para esta que é a segunda sessão de Por Falar Nisso. Para o psiquiatra, esta questão pode ser abordada numa dupla perspectiva: a dos profissionais de saúde e da sociedade em geral.

Em relação aos primeiros, Júlio Machado Vaz, elogia a sua prestação, referindo-se que «além de estar na linha da frente» desta luta, tem ainda «de lidar com o medo de infectar as suas famílias». O especialista defende que essa dupla preocupação pode levar a «eventuais consequências psicológicas de um período de stress brutal como este», como, por exemplo, «o stress-pós-traumático» que pode levar a cenários de «depressão», «crises de ansiedade», ou até mesmo influenciar o desempenho profissional.

Também na luta, mas mais resguardado dos campos de batalha, está a sociedade em geral, alvo (in)directo desta pandemia e que não está a salvo de qualquer estilhaço ou bala perdida nesta guerra pandémica.

A esse propósito, Júlio Machado Vaz refere um estudo realizado na Universidade do Minho que pretende avaliar «como a população tem vindo a reagir à pandemia» e quais os «resultados psicológicos da quarentena», que nos afastou fisicamente uns dos outros. Ainda assim, o psiquiatra faz a ressalva de que apesar desse isolamento «nunca na história da humanidade tivemos tantas possibilidades de nos ligarmos aos outros, através da tecnologia», uma ferramenta preciosa em termos de relacionamentos e efeitos psicológicos, e que reforça «as nossas redes de suporte social» e nos liga à vida real e ao contacto, mesmo que mediados por um ecrã.


Uma dúvida chamada futuro
Entre as questões analisadas pela referida pesquisa, Júlio Machado Vaz centra particular atenção ao «efeito angustiante, no mínimo produtor de confusão no público em geral, das incertezas», nomeadamente, «sobre o vírus e como funciona; se com o tempo quente abranda, se não abranda; se há segunda vaga; quando é que as coisas vão ficar, digamos assim, mais amenizadas em termos de decisões nos diversos países».​

O psiquiatra dá mesmo um exemplo concreto ao referir a falta de consenso do uso obrigatório de máscara ou da obrigatoriedade de confinamento aos idosos, sublinhando a instabilidade emocional e confusão que isso gera para a maioria de nós, principalmente a quem é psicologicamente mais vulnerável. Nesse sentido, indica, referindo-se às conclusões do estudo da Universidade do Minho, que «pessoas com sintomas de distúrbio obsessivo-compulsivo podem estar a vê-los tornar-se mais acentuados, e que a ansiedade pode estar a ser mais acentuada também».

Por outro lado, Júlio Machado Vaz indica ainda a relação estudada pela pesquisa entre a quarentena e as instabilidades emocionais resultantes do confinamento, e que pode elevar a probabilidade de dependências, nomeadamente de «o jogo online», pela agora ainda maior proximidade às tecnologias, prática, refere, «proibida em Espanha», que, assim como outras situações, «podem ser prejudiciais em termos do equilíbrio psicológico de todos nós».

20.4.20

O que é que explica a adesão dos portugueses ao confinamento social? “O medo, a infelicidade e o pessimismo”

Natália Faria, in Público on-line

Manuel Loff, historiador e professor na Universidade do Porto, aponta o medo, o pessimismo e a tristeza dos portugueses, a par da sua pobreza relativa, como factores explicativos para a disciplina no cumprimento do isolamento social. É preciso explicar-lhes que “é possível viver e trabalhar no espaço público sem estar em risco”, alerta.

uma sociedade pouco feliz, o medo avança”, diz o historiador Manuel Loff, historiador e professor na Faculdade de Letras da Universidade do Porto e investigador no Instituto de História Contemporânea da Universidade Nova de Lisboa, explicando assim a pronta resposta dos portugueses ao “toque para recolher”. Demarcando-se do discurso “hegemónico” e “totalmente avassalador” quanto à eficácia do isolamento social, considera que, por causa do mesmo medo, os portugueses serão dos que mais resistirão ao regresso à vida normal. E porque nenhuma economia sobreviverá a ano e meio de paralisação, defende que é urgente explicar aos portugueses que “o espaço público não é uma bomba por explodir” e que “é possível viver e trabalhar no espaço público sem estar em risco”.

Os portugueses mais do que os franceses, os espanhóis e os italianos, acataram a ordem de confinamento doméstico. A prontidão na resposta ao toque para recolher é resquício da ditadura ou a questão não é tão simples nem tão linear como isso?
Começo por alguns outros dados que ajudam a explicar os resultados portugueses e que também se repetem nos países da Europa Centro-Oriental (Roménia, Bulgária, Hungria, Polónia…) que têm uma mortalidade e uma taxa de infecção igualmente baixas que decorrem da natureza também periférica das economias. É verdade que o carácter periférico de Portugal ajuda a isto. Países com conexões internacionais regulares e com comunidades de migrantes maiores do que as que vivem em Portugal foram mais afectados. Nos mais graves casos europeus, onde é que tudo isto se concentrou? Onde há mais indústria exportadora, mais comércio internacional, como o Norte de Itália, Catalunha ou Madrid. São ao mesmo tempo zonas cuja composição social e étnica faz com que haja mais conexões internacionais. Isto também se aplica ao caso português, onde os maiores focos de contágio estão concentrados nas regiões com mais indústria exportadora, como a área metropolitana do Porto. Portanto, sou crítico da ideia que se está a generalizar de que este menor impacto da pandemia em Portugal se deva só às medidas adoptadas. Há, em Portugal, um tal consenso maioritário, hegemónico, totalmente avassalador, sobre o modelo escolhido da supressão que ninguém vai querer dizer que ele não funcionou. Nós ainda não chegámos ao fim do processo – estamos longe disso – e já estamos a dizer que ele funcionou. Por outro lado, nós não somos a população mais envelhecida – a Itália ou a Espanha têm-na mais – mas é verdade que, em todo o interior português, de Norte a Sul, a nossa composição demográfica é exactamente a de qualquer país do que antigamente se chamava terceiro mundo, de qualquer país pobre onde há muita emigração: regiões inteiras ficaram despovoadas de jovens e de gente em idade activa e sobrecarregadas proporcionalmente de velhos. E, sendo um grupo de risco, os velhos têm poucos contactos sociais, saem pouco. Explicamos desta forma por que razão é que uma grande parte do interior, salvo focos isolados e muito ligados aos fenómenos desoladores dos lares de idosos, está relativamente poupado a isto.

Aquelas que são as nossas debilidades em termos de coesão territorial e social ajudam a combater o vírus?
É verdade. O facto de o interior ter — proporcionalmente até — poucos casos resulta em grande medida desse país, não só desigual, mas profundamente pobre. O interior do país — Trás-os-Montes, Beiras, uma grande parte do Ribatejo, Alentejo – retrata uma sociedade pobre que tem pouco paralelo na maioria do conjunto dos territórios da União Europeia. Isso ajuda. Em Portugal, onde é que concentraram as possibilidades de contágio? Nas regiões urbanas, onde há muito mais interconexões, muito mais jovens que estudam fora de casa, muito mais migrantes, muito mais comércio internacional. E aí funcionou este zelo, esta enorme vontade de contenção, que, contudo, nos fará pagar um preço económico muito grande. Eu creio, em primeiro lugar, que esta contenção é muito superior ao que aconteceu em Itália e Espanha e em boa parte dos países do Norte da Europa, onde se vêem medidas muito semelhantes mas não tão radicais quanto as nossas — com a grande excepção do caso sueco que não tem medidas de contenção senão para os grupos de risco e onde todas as escolas, do pré-primário até aos 16 anos, estão a funcionar. No caso português, não arrisco dizer que a adesão ao isolamento social seja um resquício da ditadura. Nós somos à escala europeia, dizem-nos todos os estudos da OCDE, uma das sociedades mais deprimidas, mais infelizes e mais tristes da Europa. Somos a sociedade mais desigual da Europa Ocidental, das que consomem mais antidepressivos, e das que têm uma perspectiva mais pessimista e se sentem menos felizes. E, numa sociedade pouco feliz, o medo avança. As pessoas cumprem aquilo que lhes pedem. Além do mais, alguns dos nossos concidadãos – e, isso sim, é uma prática que era típica da ditadura – transformaram-se em “delatores”. Uma sociedade cuja polícia diz que diariamente recebe centenas de chamadas de gente a denunciar pessoas que se passeiam na rua é também uma sociedade em que uma parte das pessoas virou delatora.

Para Manuel Loff, os portugueses deixaram-se bloquear pelo medo e será difícil convencê-los a retomar a vida exterior PAULO PIMENTA
Portanto, esta pronta adesão dos portugueses ao isolamento social não é um indicador de algum tipo de avanço civilizacional mas consequência da depressão, do medo.
É medo, é infelicidade, é pessimismo face ao futuro, que agora se vai agravar.

O nosso aparente sucesso no travão à propagação do vírus decorre do nosso subdesenvolvimento?
Não lhe chamaria subdesenvolvimento, mas da nossa pobreza relativa, do carácter periférico da nossa sociedade e – insisto nisto – do menor contentamento com a vida que os portugueses manifestam comparativamente a outras sociedades, e que decorre da polarização, da maior pobreza e do envelhecimento do interior sentido em grande medida como abandono.

Na ressaca da pandemia, que factura iremos pagar em termos sociais?
O tom mudou, já ouvimos Marcelo adoptar um discurso optimista e a dizer que o pico já passou, o que, contudo, como já vimos na questão das escolas, não vai permitir o regresso à normalidade. E a questão das escolas é central desde quando percebemos que a sociedade, e particularmente os pais de crianças em idade escolar, os professores e os directores das escolas, estavam claramente à frente do Estado e das autoridades sanitárias ao exigirem medidas que nem as autoridades sanitárias nem a própria Organização Mundial de Saúde OMS) propunham que fossem adoptadas. As autoridades sanitárias disseram que haveria uma fase de contenção e depois de mitigação e nós saltámos imediatamente para medidas que a OMS propunha para a segunda fase.

“É possível amarmo-nos, conhecermo-nos, colaborarmos e odiarmo-nos por via virtual”
O Governo começou por encerrar as escolas num contexto de pressão social para que o fizesse mesmo contra a recomendação do Conselho Nacional de Saúde Pública.

As pessoas têm medo – é natural que o tenham – mas julgo que esse medo fará com que recusem regressar ao espaço público e ao trabalho presencial, enquanto não lhes garantirem a 100 por cento – a 100 por cento! – que não há risco de contágio. Ora, contágio sem risco, só teremos quando houver a vacina. O primeiro-ministro, António Costa, portou-se muito bem ao lembrar que o ensino virtual não substitui o ensino presencial. É importante que ele o tenha feito porque os professores, com medo, querem continuar no virtual. E não só os que têm asma ou já fizeram tratamentos oncológicos: são todos. Esta é a maior batata quente que o Governo vai ter nos próximos meses, também porque somos dos países que, na Europa, tem dos sistemas mais difíceis de acesso à universidade. Portanto, alguém terá que vir explicar de novo que o espaço público não é uma bomba por explodir, não é um perigo permanente, e que é possível viver e trabalhar no espaço público sem estar em risco. Isto significa dar máscaras, garantir distanciamento, segmentar a população, mas é possível. E já se sente em vários países europeus essa preocupação em planear um regresso à normalidade. E essa planificação passa por duas coisas, uma das quais não vamos fazer tão cedo, e que é a testagem, quer ao vírus, quer sobretudo à imunidade para um grande número de pessoas. E depois, sim, fazermos uma segmentação da população.

Uma sociedade cuja polícia diz que diariamente recebe centenas de chamadas de gente a denunciar pessoas que se passeiam na rua é também uma sociedade em que uma parte das pessoas virou delatora

A directora-geral de saúde Graça Freitas tem dito que as autoridades de saúde estão a avaliar de que modo e em que altura poderemos avançar para esses testes serológicos.

Sim, e esses testes permitirão segmentar a população e dizer, fora dos grupos de risco, quem é que deveria voltar ao trabalho. Tenho acompanhado diariamente os media espanhóis, italiano, franceses e britânicos e, por comparação, parece-me, embora isto seja empírico, que nós seremos dos países onde mais está presente este consenso sobre não regressarmos à normalidade enquanto não houver segurança e garantias absolutas. E, para mim, este consenso maioritário entre os portugueses vai dificultar e até bloquear qualquer forma de regresso segmentado ou faseado à normalidade.

Os portugueses foram os que mais prontamente aderiram ao isolamento social e serão os que mais resistirão ao desconfinamento?
O medo é natural mas bloqueia as pessoas e vai-nos bloquear colectivamente muito tempo. O melhor indicador disto é a reacção de pais, professores e directores de escolas à ideia que o Governo lançou de que eventualmente em Maio poderíamos ter um regresso às aulas presenciais no secundário. E o problema é que a curva [epidemiológica] é tão achatada que isto se vai prolongar imenso tempo. Não há nenhuma nova epidemia, nenhum novo agente patogénico contagioso, que não se generalize em algum momento. Logo, o que temos é que ganhar imunidade. É evidente que deve haver medidas que contenham a propagação, mas devíamos temos que fazer isto com o mínimo de racionalidade, porque, se não fizermos nada enquanto não houver vacina, qual é a sociedade que aguenta 18 meses parada?