9.3.22

Ordem dos Psicólogos indica estratégias para gerir ansiedade, desespero e medo

Carla Soares, in JN

"A guerra afeta-nos a todos: gerir emoções e sentimentos numa situação de crise", como a ansiedade, o stresse, o desespero e o medo, é o nome de um novo documento lançado pela Ordem dos Psicólogos Portugueses devido à guerra na Ucrânia. Fazer donativos e voluntariado é uma das várias estratégias sugeridas, tal como manter rotinas, limitar a exposição a notícias para não ficarmos sobrecarregados ou, se necessário, procurar ajuda, de modo a ultrapassar problemas como dificuldade de concentração, em dormir ou em tomar decisões.

No documento, a Ordem sublinha que "todos reagimos de forma diferente a acontecimentos perturbadores e que cada um de nós tem capacidades e formas diferentes de lidar com emoções e sentimentos desagradáveis". Por isso, deixa algumas sugestões sobre como lidar com o que estamos a sentir durante esta situação de crise.

"É muito difícil, para a maior parte de nós, não nos sentirmos perturbados e preocupados com a situação da guerra na Ucrânia", explicam os psicólogos.

"É natural que ainda nos sintamos em choque". E que "nos sintamos preocupados, ansiosos, stressados, assustados, angustiados, tristes, com medo" ou mesmo "irritados, zangados e impotentes", refere a Ordem, dando conta ainda da dificuldade em concentrarmo-nos, em tomar decisões ou em dormir. Natural também é que "tenhamos receios e dúvidas acerca do futuro: quanto tempo vai durar a guerra? O que vai acontecer? Que consequências terá?", exemplifica, em seguida. Nos conselhos sobre como lidar com o que estamos a sentir, começa por referir que é preciso "aceitar as nossas emoções e sentimentos". E "é perfeitamente razoável chorar, se sentirmos vontade de o fazer".

Estratégias possíveis

A Ordem dos Psicólogos Portugueses refere o recurso a estratégias de gestão da ansiedade e do stresse. A sensação de "já não aguentarmos mais" é um "estado da nossa mente". "Podemos usar a ansiedade a nosso favor e combater os sentimentos negativos e desagradáveis que ela nos traz. Podemos experimentar algumas formas de gerir a ansiedade", sugere, por isso.

"Limitar a nossa exposição a notícias" é uma das estratégias. "Não conseguimos controlar o que se está a passar na Ucrânia, por isso não ajuda estarmos constantemente a monitorizar todos os detalhes do que está a acontecer, correndo o risco de nos sentirmos sobrecarregados e desesperados com toda a informação disponível. Pesquisar sistematicamente sobre este tema, pode aumentar a ansiedade e o medo", avisa a Ordem dos Psicólogos.

Manter rotinas e alimentar esperança

Outra sugestão é "falar com familiares e amigos. Como diz o provérbio: um problema partilhado é metade do problema. Não somos os únicos preocupados com a guerra. Partilhar aquilo que sentimos pode diminuir o nosso stresse, fazer-nos sentir apoiados e validados no que sentimos e pensamos, aumentar o nosso sentimento de confiança e a nossa energia. Falar ajuda".

"Manter uma rotina" é outro conselho no âmbito do documento divulgado pela Ordem porque "as nossas rotinas podem ajudar-nos a aumentar os nossos sentimentos de segurança e previsibilidade em tempos de incerteza".

Em seguida, sugere "realizar atividades de lazer" como "ir dar uma corrida, falar ao telefone com um amigo, saborear a nossa refeição preferida, olhar pela janela e observar a paisagem". E também aconselha a "alimentar a esperança".

"A guerra não traz apenas destruição, também provoca comportamentos pró-sociais, maior envolvimento e participação cívica, mais gratidão pelo que temos, compaixão e solidariedade, mais defesa da liberdade e da dignidade, maior respeito pela diversidade e pelos direitos humanos. Maior perceção da forma como todos estamos conectados e do modo como nos relacionamos uns com os outros, da importância da vida e do sentido que lhe atribuímos", argumentam os psicólogos.


Donativos e voluntariado

"Apoiar e contribuir" são outras palavras de ordem nesta situação de crise. "Um sentimento de esperança e propósito surge quando nos mobilizamos, enquanto comunidade, para ajudar e contribuir para o bem comum. Procurar uma forma de apoiar (através de donativos de bens ou voluntariado, doação de sangue ou mobilização das pessoas da comunidade, por exemplo) ajuda-nos a nós e aos outros, pode contribuir para atribuir um propósito ao que estamos a passar e pela mobilização que nos possibilita, aumentando a nossa perceção de controlo sobre a situação que vivemos", explica a Ordem.

Onde procurar ajuda

De qualquer modo, "procurar ajuda" mantém-se sempre como estratégia possível. "Se os nossos pensamentos e sentimentos estão a interferir significativamente com a nossa capacidade de funcionar no dia-a-dia, a afetar o nosso sono ou a dominar a nossa vida, devemos procurar ajuda. Mas também podemos procurar ajuda se acharmos uma boa ideia falar com um profissional que nos ajude a regular os nossos pensamentos e sentimentos", argumenta a Ordem dos Psicólogos Portugueses.

Por fim, explica que é possível consultar informações sobre como procurar e receber ajuda. "Pedir ajuda nunca é um sinal de fraqueza, mas sim de coragem e responsabilidade", defende. A propósito, sugere o acesso à página www.encontreumasaida.pt ou, em situação de crise, aconselha a ligar para o Serviço de Aconselhamento Psicológico da Linha SNS24.