Ana Fonseca Pereira (em Londres), in Público on-line
Damian Chalmers diz que a campanha para o referendo expôs fracturas criadas pela globalização. O professor de direito europeu avisa que se o "Brexit" vencer o país “fica numa posição negocial muito fraca”.
Professor da London School of Economics e investigador do think-tank The UK in a Changing Europe, Damian Chalmers explica que, contra todas as previsões, a imigração se sobrepôs à economia como o tema que vai decidir o resultado do referendo. Caso os eleitores votem pela saída, prevê que as negociações se arrastem durante anos, mas diz que Londres não pode esperar tanto tempo por um entendimento que lhe permita restringir a liberdade de circulação.
A União Europeia é uma instituição complexa. A campanha voltou a mostrar que é difícil explicá-la aos eleitores e que o debate emocional relegou para segundo plano os argumentos racionais…
Sim, mas esse é um argumento que pode ser usado contra todas as eleições. A UE produz entre um quarto a um terço de tudo o que nos rege e a cada quatro ou cinco anos decidimos sobre quem gere os restantes três quartos. O nível do debate político nesta campanha é o pior a que já assisti, por vezes chega a ser escandaloso, tanto de uma parte como da outra. Mas em termos mais gerais, gerou um debate muito mais enérgico sobre a UE – temos pessoas a discutir a UE em todos os locais e, nos quatro a cinco meses que este debate já leva, as pessoas ficaram muito mais informadas. Mas não creio que as pessoas estejam a debater esta ou aquela lei.
O que fica claro, à medida que nos aproximamos do referendo, é que este é um debate sobre a globalização. Tão simples quanto isso. Os que ganharam com ela querem ficar, os que estão a perder querem sair. Basta olhar para as sondagens: se você tiver mais de 55 anos quer claramente sair; se tiver menos de 40 quer ficar. Se tem um diploma universitário quer ficar, se só tem o ensino básico defende a saída. Para os mais velhos, que perderam o trabalho aos 50 anos e ainda não chegaram à idade da reforma, não é fácil sair e procurar emprego noutro país. Eles vêem as comunidades onde vivem a mudar e não só por causa da imigração. Os jovens que estão mais vulneráveis à globalização, os trabalhadores que não têm aumento de salário há dez ou 15 anos, são essas as pessoas que vão votar a favor da saída. Já em Londres, uma cidade cheia de gente nova, com estudos universitários, é claramente a região mais pró-europeia do país, com 80% das pessoas favoráveis à permanência. É uma clivagem que divide o país ao meio e esse debate vai continuar, quer fiquemos quer saiamos.
Uma questão que era inicialmente muito importante para os partidários da saída prendia-se com a necessidade de restaurar a soberania do Parlamento. Qual é a origem deste debate e por que é que é tão importante?
A questão arrasta-se praticamente desde a adesão à CEE. No Reino Unido não temos uma Constituição escrita como em Portugal e para os britânicos o Parlamento ocupa esse lugar. Para muitas pessoas sempre foi questionável estarmos numa instituição na qual o peso do Reino Unido é de apenas 9%, muito dominada pelos burocratas, cujas leis têm precedência sobre as leis do Parlamento. Mas este era um debate ao nível académico. O que a campanha a favor da saída fez, e foi bastante inteligente, foi escolher como slogan a frase: Take back control [Recupera o controlo]. A mensagem que querem passar é não só a de que é preciso reconquistar a supremacia do Parlamento, mas também reassumir o controlo das fronteiras para poder restringir a imigração. Juntaram-nas em torno desta ideia forte que é a palavra “Controlo”. Veremos se estão certos, se a saída permitirá controlar a imigração.
O debate sobre a imigração sobrepôs-se a todos os outros…
Sim, para quem quer sair, a imigração é claramente o tema mais importante. Para quem defende a permanência a economia é a principal preocupação. Os dois temas dominaram completamente o debate. Até há duas ou três semanas, o consenso era o de que as pessoas iriam votar [a pensar] com a carteira, de que seria a economia a moldar o debate. O que surpreendeu muita gente é que isso acabou por não acontecer. O debate sobre a imigração tem vindo a ganhar força nas sondagens. Em meu entender, isso não tem a ver com o facto de o argumento ter sido bem ou mal apresentado. Tem a ver com a globalização. A maioria dos britânicos não acredita nas previsões económicas que lhes foram apresentadas. É impressionante que apenas um quarto dos eleitores achem que a saída terá um efeito negativo na economia. Quando olhamos para o leque de previsões – nove em cada dez economistas acha que o efeito da saída será mau ou muito mau – isto é muito impressionante. O Governo não conseguiu apresentar de forma eficaz o seu argumento económico.
Outra coisa interessante é que o acordo que Cameron conseguiu [com os parceiros europeus], que se esperava ter um efeito positivo nas sondagens, acabou por ter o efeito contrário. Houve um aumento de 4% nas intenções de voto a favor da saída após o acordo. A razão para isso foi que ele nos prometeu “algo impressionante”, que nem ele próprio sabia exactamente o quê. Quem acompanha a política europeia sabe que há outros 27 Estados-membros e que era claro que ele não iria conseguir mais do que conseguiu. A imagem que passou foi que ele não conseguiu nada e isso foi um falhanço político.
O travão de emergência [que permite a Londres suspender a atribuição de prestações sociais aos imigrantes europeus] é difícil de explicar aos eleitores…
Não, creio que a ideia ficou clara para os eleitores – os cidadãos da EU não vão receber apoios nos quatro primeiros anos…
Mas a aplicação será faseada…
Sim, faseada e quando começar a ser aplicada haverá isenções. Mas em termos gerais creio que esta é uma iniciativa política popular, os eleitores percebem que vai poupar dinheiro ao Estado. Mas a maioria dos estudos mostra que não terá efeitos na imigração e os factos indicam que para a população, e não apenas a do Reino Unido, aquilo que pesa são as mudanças a que estão a assistir nas suas comunidades – o acesso à habitação piorou, as crianças não conseguem lugar nas escolas, este tipo de percepções.
O que muita gente diz é que estamos perante uma tempestade perfeita. Muitas destas coisas [a dificuldade em arrendar casa, a sobrelotação das escolas] já aconteciam e a imigração teve pouco impacto. É uma situação que resulta da crise das dívidas soberanas e dos cortes na despesa pública. Mas o sentimento no terreno é que há uma escassez de oferta e que os britânicos estão a ser prejudicados [pelos imigrantes]. E este sentimento é uma das coisas que está a fazer aumentar as intenções de voto na saída.
Muitas vezes também se diz que o Reino Unido atravessou a crise mais depressa do que outros países e em termos de emprego e isso é verdade – nunca tivemos uma taxa de desemprego muito alta – mas o emprego ganho é de baixos salários. Os salários não têm subido desde 2009 e muita gente empregada não tem dinheiro para viver e tem de recorrer à solidariedade. E esse sentimento de quem trabalha no duro e não tem perspectivas de melhoria tem sido central na política britânica dos últimos anos.
No caso de vitória do “Brexit” prevê-se que o país demore vários anos até conseguir sair da UE. Quais serão os maiores desafios do Governo?
Sim, o presidente do Conselho Europeu, Donald Tusk, falou num prazo de sete anos. Em termos legais será muito difícil que as negociações possam durar todo esse tempo, porque o artigo 50 [do Tratado de Lisboa] estipula um prazo de dois anos e, se isso não acontecer, vai haver problemas. Cameron prometeu que na segunda-feira a seguir à saída vai accionar o processo. A campanha pela saída diz que nem pensar, mas quer que o Reino Unido saia antes [das legislativas] de Maio de 2020.
O que irá acontecer? Posso dizer-lhe o que acho que deveria acontecer, mas também o que acho que é provável que venha a acontecer. O Reino Unido está numa posição negocial muito fraca em relação aos outros Estados, vai ser muito difícil concluir as negociações antes de 2020, muito por causa das eleições em França e Alemanha e a situação em França é particularmente desafiante por causa da popularidade de Marine Le Pen. E não é provável que os outros Estados aceitem a estratégia negocial britânica e digam que não apresentam propostas a Londres até que Londres inicie as negociações. Isto para dizer que será muito difícil adiar o início do processo. Mas também vai haver muita turbulência política – é previsível que tenhamos um novo primeiro-ministro se o “Brexit” vencer – e não acredito que alguma coisa aconteça antes de Setembro.
Só em Setembro é que Londres vai formalizar a decisão de sair?
Sim, creio que só em Setembro. É claro que tudo depende do que acontecer com David Cameron. Se ele se mantiver no cargo, é provável que aconteça mais cedo. Se sair, acho que acontecerá em Setembro, embora a campanha pela saída tenha dito que a sua intenção era avançar apenas no início do próximo ano.
Depois temos dois anos para negociar. O problema é que se a saída acontecer sem um acordo [com os outros 27] toda a gente vai perder, mas o Reino Unido perde mais do que os outros. E por isso, o seu poder negocial diminui a cada dia que passa. Se eu estivesse na posição dos outros países, como Portugal, não faria qualquer negociação nos primeiros 18 meses. Para o Reino Unido, será também muito difícil conseguir acordos comerciais com países terceiros.
Será um período muito difícil e é preciso não esquecer que a imigração foi o principal tema da campanha pela saída. Até agora tem dito que os europeus que residem no país podem ficar, mas vai levantar-se a questão dos benefícios a que têm agora acesso, a situação dos familiares. E os outros Estados podem adoptar uma posição muito dura quando confrontados com as restrições que foram adoptadas por Londres. As negociações não serão fáceis. Isto é o que eu acredito que pode acontecer. Será muito mau para o Reino Unido, mas também será mau para o resto da UE.
Qual é a alternativa?
A minha preferência, e quase podemos adivinhar que é isso que Tusk está a pensar, seria a negociação de um acordo transitório, que vigorasse por cinco anos, em que nas áreas que são mais sensíveis para os britânicos – a imigração ou as pescas, por exemplo – chegaríamos a um special arrangment. Tudo o resto manter-se-ia em vigor, com excepção daquelas áreas. Poderia ser uma forma de manter todos os países contentes durante pelo menos cinco anos. Algumas pessoas, como [o líder do UKIP] Nigel Farage dirão que isso não é suficiente, mas temos de lhe lembrar que, até agora, a campanha pelo “Brexit” diz que a saída não acontecerá antes de 2020 e de uma forma que não é a melhor. Se a opção for ter cinco anos em que vigora um acordo transitório, negociado ao abrigo do Artigo 50 e tendo em vista um acordo final em 2020 ou 2021, isso pode ser a melhor opção para toda a gente. Os outros Estados, mesmo os que têm uma visão muito crítica do Reino Unido, percebem que haverá forte turbulência se a saída acontecer sem um acordo.
As pescas e a imigração deveriam ser a prioridade?
Acho que, no caso de saída, o Reino Unido ficará numa situação em que lhe será impossível continuar a aceitar a livre circulação de pessoas. Esse é a principal razão que leva os eleitores a optar pela saída. Nenhum político conseguiria dizer que ele deveria continuar a vigorar.
E acha que dois anos bastam para se chegar a esse entendimento?
Nessa matéria terá de haver um acordo político, mas não é uma questão que necessite de grande negociação. O que é preciso é chegar a um entendimento que seja politicamente aceitável. A posição de todos os partidos é que os europeus que já estão no Reino Unido podem ficar. É óbvio que querem o mesmo para os britânicos que vivem nos outros Estados. Depois é preciso discutir que acesso vão ter aos direitos que gozam actualmente e também sobre o direito dos outros cidadãos europeus a viajar para o Reino Unido. Não digo que não seja uma discussão politicamente sensível, mas acredito que não sejam precisos dois anos para chegar a um acordo. Novos acordos para cada um dos sectores da economia vão demorar mais do que dois anos ou mesmo mais do que sete.
A questão, para os outros Estados-membros, é que não podem aceitar nenhum acordo que partidos como a Frente Nacional, em França, possam usar para dizer: “votem em nós para sairmos da UE e conseguirmos um acordo como este”. Será muito difícil, mas tem de haver um acordo nessas áreas, se não é pouco provável que haja qualquer acordo.
O Reino Unido terá também de substituir toda a legislação europeia. Como se separam duas legislações que coexistem há mais de 40 anos?
Os serviços do Governo admitem que vai demorar dez anos a fazê-lo e não há uma solução fácil. Sem grande surpresa, os empresários dizem que aprovam a grande maioria das leis europeias e, de repente, até a campanha pela saída vem dizer que gosta das leis europeias do trabalho, que até há pouco tempo queria mudar. Tendo em conta que estão em causa 11 mil leis e o Parlamento britânico aprova em média 25 leis por ano, isso quer dizer que se este trabalho passar apenas pelos deputados vai demorar 50 anos [a concluí-lo] e por essa altura já a UE terá mudado as suas leis. Terão de ser criados mecanismos especiais que serão parte de um processo complicado.
A campanha pela saída diz que o processo vai ser difícil, mas a vantagem é que há a possibilidade de escolha. A minha opinião é que se o “Brexit” vencer, vamos continuar a aplicar a maior parte da lei europeia num futuro próximo.
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21.6.16
6.7.15
"Passaremos fome, mas estaremos de pé"
Reportagem e fotos de Catarina Fernandes Martins, in Visão
Na última noite de campanha antes do referendo do próximo domingo, centenas de milhares de gregos saíram às ruas de Atenas para gritar 'Sim' ou 'Não'
Na última noite de campanha antes do referendo do próximo domingo, centenas de milhares de gregos saíram às ruas de Atenas para gritar 'Sim' ou 'Não'. Tsipras repetiu que o voto pelo 'Não' é um voto para "viver em dignidade dentro da União Europeia", e os apoiantes do 'Sim' insistiram que um resultado negativo põe a Grécia de fora da Zona Euro.
No palco do comício pelo 'Sim' há dois ecrãs gigantes que ampliam os rostos daqueles que discursam para a multidão, essencialmente composta por pessoas de meia-idade e jovens adultos. Na avenida do Estado Olímpico, empresários, políticos e figuras mediáticas discursam sobre as consequências negativas da saída da Grécia da Zona Euro e da União Europeia. Um pai de família sobe ao palco para dizer: "O meu filho é autista. Se a Grécia sair do euro, não poderei continuar a comprar-lhe a medicação. A Grécia tem de ficar na Zona Euro para que todos possam encontrar os seus remédios", diz. Dezenas de milhares de pessoas gritam 'Sim', aplaudem e agitam enormes bandeiras azuis e brancas e azuis com estrelas douradas. Todas usam os mesmos autocolantes e cartazes coloridos com a palavra 'Nai' (Sim, em grego). Uma mulher limpa as lágrimas, emocionada com o discurso.
Orestis, 30, artista visual, diz à VISÃO que veio ao comício desta sexta-feira porque quer que "a Grécia continue a ser um país europeu". Está preocupado com o resultado do referendo de domingo porque acha que será 50/50. "As pessoas na Grécia estão muito divididas", lamenta. "Isto vai ser um grande problema".
Entre os apoiantes do 'Sim' encontramos uma antiga ministra grega, Fani Palli-Petralia , responsável pela pasta do Emprego e da Proteção Social em 2007, Governo do Nova Democracia. Fani Palli-Petralia não acha que a divisão do povo grego seja um problema porque é temporária: "Eles querem dividir-nos, mas não vão conseguir. Temos de convencer todos os gregos a votar pelo 'Sim' e amanhã trabalharemos juntos", diz à VISÃO. Depois, acrescenta que segue a situação em Portugal e que deseja que a Grécia faça reformas semelhantes.
A manifestação pelo 'Sim' ficou circunscrita à zona do Estádio Olímpico, o que facilita a deslocação até à praça Sintagma, onde os apoiantes do 'Não' esperam pelo discurso de Alexis Tsipras. Pelo caminho, ouvimos um homem visivelmente irritado gritar ao telemóvel: "Eu não gosto do euro!!! É assim tão difícil perceber isto?".
Junto ao Parlamento, há gregos que se equilibram no topo das paragens de autocarros. A circulação pela praça é difícil porque há muitos manifestantes no centro e nas avenidas em redor do Parlamento. Há menos bandeiras e cartazes deste lado. Jovens, adultos e idosos transportam pequenos folhetos com a palavra 'Oxi' (Não). Um homem mais velho escreveu num desses papéis: "Não ao desemprego jovem!".
Alexis Tsipras sobe ao palco para dizer aos gregos que escolham "viver em dignidade dentro da Europa e dentro do euro". Depois, ataca os líderes europeus, dizendo que estes não podem "ameaçar dividir a Europa". A multidão grita 'Bravo' e 'Oxi' e bate palmas. A última mensagem do primeiro-ministro é contra a polarização da sociedade: "Na segunda-feira temos de trabalhar juntos para criar um melhor futuro".
Maria, 34, vai votar 'Oxi' no próximo domingo. Esta economista pensa que tal voto não implica a saída da Grécia da Zona Euro, mas defende que essa seria a melhor solução. "Deixar o euro é a única esperança para nós. O problema não é económico, é político. A conversa da dívida é apenas uma arma para controlar o povo. As pessoas deviam abrir os olhos e perceber que os mercados estão a decidir as nossas vidas. Isto não é justo", diz.
Taikis Ahtypis, 58, pede para ser entrevistado pela VISÃO. É um apoiantes do 'Sim', mas quis "espreitar" o comício do lado oposto. Defende que o referendo de domingo é "ridículo" porque não se pode deixar uma "decisão tão importante" nas mãos do povo. Além disso, Taikis Ahtypis critica as particularidades desta votação. Sabe-se, por exemplo, que, ao contrário de outras votações, o 'Não' vai aparecer em primeiro lugar nos boletins de voto. A pergunta colocada no boletim é complexa e inclui vários termos técnicos em inglês (traduzidos em grego entre parêntesis), o que, temem alguns, possa dificultar a compreensão por parte dos votantes.
Depois de Tsipras discursar, é a vez de Sokratis Malamas, um dos cantores gregos mais populares, tomar o palco e aparecer nos ecrãs gigantes instalados na Sintagma. O comício transforma-se em concerto. Todos sabem as letras de cor e cantam, enquanto tentam avançar numa praça Sintagma a rebentar pelas costuras.
Junto ao ministério das Finanças, a VISÃO fala com duas mulheres apoiantes do 'Não'. Theodora Dimitrakopoulous, 40, é professora de Estatística na Universidade de Atenas, e diz-nos que "todos os gregos devem votar 'Não' porque, nos últimos anos, a austeridade destruiu a economia, fazendo subir o desemprego, o número de suicídios e a fome." Theodora Dimitrakopoulous defende que aquilo que está a acontecer na Grécia é uma estratégia para fazer do país "um exemplo, para que os outros países do sul não se revoltem". Quando lhe perguntamos o que vai fazer se os bancos não abrirem segunda-feira, Theodora Dimitrakapoulous para para pensar e olha para a familiar, Giorgia Dimitrakapoulous, 38 anos, professora do ensino primário, que hesita por poucos segundos, mas acaba por responder na vez dela. Giorgia olha-nos com intensidade e diz, determinada: "Passaremos fome como os outros gregos. Passaremos fome juntos. Mas estaremos de pé."
Na última noite de campanha antes do referendo do próximo domingo, centenas de milhares de gregos saíram às ruas de Atenas para gritar 'Sim' ou 'Não'
Na última noite de campanha antes do referendo do próximo domingo, centenas de milhares de gregos saíram às ruas de Atenas para gritar 'Sim' ou 'Não'. Tsipras repetiu que o voto pelo 'Não' é um voto para "viver em dignidade dentro da União Europeia", e os apoiantes do 'Sim' insistiram que um resultado negativo põe a Grécia de fora da Zona Euro.
No palco do comício pelo 'Sim' há dois ecrãs gigantes que ampliam os rostos daqueles que discursam para a multidão, essencialmente composta por pessoas de meia-idade e jovens adultos. Na avenida do Estado Olímpico, empresários, políticos e figuras mediáticas discursam sobre as consequências negativas da saída da Grécia da Zona Euro e da União Europeia. Um pai de família sobe ao palco para dizer: "O meu filho é autista. Se a Grécia sair do euro, não poderei continuar a comprar-lhe a medicação. A Grécia tem de ficar na Zona Euro para que todos possam encontrar os seus remédios", diz. Dezenas de milhares de pessoas gritam 'Sim', aplaudem e agitam enormes bandeiras azuis e brancas e azuis com estrelas douradas. Todas usam os mesmos autocolantes e cartazes coloridos com a palavra 'Nai' (Sim, em grego). Uma mulher limpa as lágrimas, emocionada com o discurso.
Orestis, 30, artista visual, diz à VISÃO que veio ao comício desta sexta-feira porque quer que "a Grécia continue a ser um país europeu". Está preocupado com o resultado do referendo de domingo porque acha que será 50/50. "As pessoas na Grécia estão muito divididas", lamenta. "Isto vai ser um grande problema".
Entre os apoiantes do 'Sim' encontramos uma antiga ministra grega, Fani Palli-Petralia , responsável pela pasta do Emprego e da Proteção Social em 2007, Governo do Nova Democracia. Fani Palli-Petralia não acha que a divisão do povo grego seja um problema porque é temporária: "Eles querem dividir-nos, mas não vão conseguir. Temos de convencer todos os gregos a votar pelo 'Sim' e amanhã trabalharemos juntos", diz à VISÃO. Depois, acrescenta que segue a situação em Portugal e que deseja que a Grécia faça reformas semelhantes.
A manifestação pelo 'Sim' ficou circunscrita à zona do Estádio Olímpico, o que facilita a deslocação até à praça Sintagma, onde os apoiantes do 'Não' esperam pelo discurso de Alexis Tsipras. Pelo caminho, ouvimos um homem visivelmente irritado gritar ao telemóvel: "Eu não gosto do euro!!! É assim tão difícil perceber isto?".
Junto ao Parlamento, há gregos que se equilibram no topo das paragens de autocarros. A circulação pela praça é difícil porque há muitos manifestantes no centro e nas avenidas em redor do Parlamento. Há menos bandeiras e cartazes deste lado. Jovens, adultos e idosos transportam pequenos folhetos com a palavra 'Oxi' (Não). Um homem mais velho escreveu num desses papéis: "Não ao desemprego jovem!".
Alexis Tsipras sobe ao palco para dizer aos gregos que escolham "viver em dignidade dentro da Europa e dentro do euro". Depois, ataca os líderes europeus, dizendo que estes não podem "ameaçar dividir a Europa". A multidão grita 'Bravo' e 'Oxi' e bate palmas. A última mensagem do primeiro-ministro é contra a polarização da sociedade: "Na segunda-feira temos de trabalhar juntos para criar um melhor futuro".
Maria, 34, vai votar 'Oxi' no próximo domingo. Esta economista pensa que tal voto não implica a saída da Grécia da Zona Euro, mas defende que essa seria a melhor solução. "Deixar o euro é a única esperança para nós. O problema não é económico, é político. A conversa da dívida é apenas uma arma para controlar o povo. As pessoas deviam abrir os olhos e perceber que os mercados estão a decidir as nossas vidas. Isto não é justo", diz.
Taikis Ahtypis, 58, pede para ser entrevistado pela VISÃO. É um apoiantes do 'Sim', mas quis "espreitar" o comício do lado oposto. Defende que o referendo de domingo é "ridículo" porque não se pode deixar uma "decisão tão importante" nas mãos do povo. Além disso, Taikis Ahtypis critica as particularidades desta votação. Sabe-se, por exemplo, que, ao contrário de outras votações, o 'Não' vai aparecer em primeiro lugar nos boletins de voto. A pergunta colocada no boletim é complexa e inclui vários termos técnicos em inglês (traduzidos em grego entre parêntesis), o que, temem alguns, possa dificultar a compreensão por parte dos votantes.
Depois de Tsipras discursar, é a vez de Sokratis Malamas, um dos cantores gregos mais populares, tomar o palco e aparecer nos ecrãs gigantes instalados na Sintagma. O comício transforma-se em concerto. Todos sabem as letras de cor e cantam, enquanto tentam avançar numa praça Sintagma a rebentar pelas costuras.
Junto ao ministério das Finanças, a VISÃO fala com duas mulheres apoiantes do 'Não'. Theodora Dimitrakopoulous, 40, é professora de Estatística na Universidade de Atenas, e diz-nos que "todos os gregos devem votar 'Não' porque, nos últimos anos, a austeridade destruiu a economia, fazendo subir o desemprego, o número de suicídios e a fome." Theodora Dimitrakopoulous defende que aquilo que está a acontecer na Grécia é uma estratégia para fazer do país "um exemplo, para que os outros países do sul não se revoltem". Quando lhe perguntamos o que vai fazer se os bancos não abrirem segunda-feira, Theodora Dimitrakapoulous para para pensar e olha para a familiar, Giorgia Dimitrakapoulous, 38 anos, professora do ensino primário, que hesita por poucos segundos, mas acaba por responder na vez dela. Giorgia olha-nos com intensidade e diz, determinada: "Passaremos fome como os outros gregos. Passaremos fome juntos. Mas estaremos de pé."
A espera mais triste de Atenas
Joana Pereira Bastos, em Atenas, in Expresso
No centro da capital grega há uma fila bem mais comprida do que a de qualquer multibanco. É lá que todos os dias mais de 400 pessoas esperam por comida
Perto da Avenida Piréus, uma das principais artérias do centro de Atenas, há uma fila de pessoas que se prolonga ao longo da rua, por vários metros. Apesar de andar rapidamente, parece nunca encurtar. Assim que alguém sai, há mais alguém que se põe à espera.
No início da fila, não há qualquer caixa multibanco. O objetivo não é levantar dinheiro. As pessoas que aguardam na bicha, de olhos pregados no chão, não têm nenhum. O que elas têm é fome.
Ajudado por três jovens, um padre ortodoxo, vestido com uma batina preta até aos pés, apressa-se a dar a cada uma um saco de plástico com um pão e uma sopa embalada. O processo é muito rápido. Não há tempo para grandes conversas. Passa do meio-dia e a grande maioria dos que esperam não come nada desde as cinco da tarde do dia anterior, a hora a que lhes foi distribuído um lanche - a última das duas únicas, e pequenas, refeições do dia.
Só aqui, nesta “sopa dos pobres” gerida pela Igreja com o apoio da Câmara Municipal de Atenas, mais de 400 pessoas vão buscar comida diariamente. Mas, espalhados pela cidade, há vários outros pontos de distribuição de alimentos e algumas cantinas sociais, entre as quais uma criada pelo Syriza. A maioria abriu nos últimos anos, com a chegada da crise e o aumento repentino da miséria e da fome.
O PIB da Grécia recuou 25% só desde 2010. Cinco anos após o pedido de assistência financeira, e outros tantos pacotes de austeridade depois, há agora 30% de pessoas a viver abaixo do limiar de pobreza e 17% da população a depender da ajuda alimentar.
Segundo um estudo da Universidade de Creta publicado no início do ano, quase 18 mil pessoas perderam a casa, só em Atenas, e vivem agora em carros, tendas ou quartos alugados em pensões. Fora as que dormem na rua.
Na fila da “sopa dos pobres” há muitos sem-abrigo, mas também há os que ainda têm casa e, para a conseguir pagar, deixaram de ter dinheiro para comer, conta ao Expresso um dos funcionários.
A grande maioria não aceita falar. Olha para o chão ou desvia a cara quando se aproxima um jornalista. “Alguns até são agressivos quando veem uma câmara de televisão. Estão cansados”, adianta o voluntário. Cansados de repórteres que nesta altura, como há cinco meses quando se realizaram as eleições, encheram a cidade. Cansados de estar nas bocas do mundo e de explicar como perderam o que tinham e chegaram até aqui.
Só os imigrantes não parecem importar-se em prestar declarações. Estão no fim da linha, são os mais pobres de entre os pobres. “Não temos trabalho, não temos onde dormir, não temos o que comer, não temos direito a voto, nem a mais nada”, conta um iraquiano de 35 anos, há dez a viver em Atenas.
“Ninguém quer ficar aqui. Viemos só para entrar na Europa e conseguir partir para um país mais rico, mas acabámos por ficar presos na Grécia, sem dinheiro para conseguir atravessar a fronteira”, conta, enquanto aguarda a sua vez para receber um bocado de pão.
Atrás de si, a bicha dos que vão buscar comida continua a aumentar. Entre o meio-dia e a uma da tarde, todos os dias, prolonga-se por vários metros, ocupando toda a rua. É bem mais comprida do que a fila de qualquer multibanco. É a espera mais triste de Atenas.
No centro da capital grega há uma fila bem mais comprida do que a de qualquer multibanco. É lá que todos os dias mais de 400 pessoas esperam por comida
Perto da Avenida Piréus, uma das principais artérias do centro de Atenas, há uma fila de pessoas que se prolonga ao longo da rua, por vários metros. Apesar de andar rapidamente, parece nunca encurtar. Assim que alguém sai, há mais alguém que se põe à espera.
No início da fila, não há qualquer caixa multibanco. O objetivo não é levantar dinheiro. As pessoas que aguardam na bicha, de olhos pregados no chão, não têm nenhum. O que elas têm é fome.
Ajudado por três jovens, um padre ortodoxo, vestido com uma batina preta até aos pés, apressa-se a dar a cada uma um saco de plástico com um pão e uma sopa embalada. O processo é muito rápido. Não há tempo para grandes conversas. Passa do meio-dia e a grande maioria dos que esperam não come nada desde as cinco da tarde do dia anterior, a hora a que lhes foi distribuído um lanche - a última das duas únicas, e pequenas, refeições do dia.
Só aqui, nesta “sopa dos pobres” gerida pela Igreja com o apoio da Câmara Municipal de Atenas, mais de 400 pessoas vão buscar comida diariamente. Mas, espalhados pela cidade, há vários outros pontos de distribuição de alimentos e algumas cantinas sociais, entre as quais uma criada pelo Syriza. A maioria abriu nos últimos anos, com a chegada da crise e o aumento repentino da miséria e da fome.
O PIB da Grécia recuou 25% só desde 2010. Cinco anos após o pedido de assistência financeira, e outros tantos pacotes de austeridade depois, há agora 30% de pessoas a viver abaixo do limiar de pobreza e 17% da população a depender da ajuda alimentar.
Segundo um estudo da Universidade de Creta publicado no início do ano, quase 18 mil pessoas perderam a casa, só em Atenas, e vivem agora em carros, tendas ou quartos alugados em pensões. Fora as que dormem na rua.
Na fila da “sopa dos pobres” há muitos sem-abrigo, mas também há os que ainda têm casa e, para a conseguir pagar, deixaram de ter dinheiro para comer, conta ao Expresso um dos funcionários.
A grande maioria não aceita falar. Olha para o chão ou desvia a cara quando se aproxima um jornalista. “Alguns até são agressivos quando veem uma câmara de televisão. Estão cansados”, adianta o voluntário. Cansados de repórteres que nesta altura, como há cinco meses quando se realizaram as eleições, encheram a cidade. Cansados de estar nas bocas do mundo e de explicar como perderam o que tinham e chegaram até aqui.
Só os imigrantes não parecem importar-se em prestar declarações. Estão no fim da linha, são os mais pobres de entre os pobres. “Não temos trabalho, não temos onde dormir, não temos o que comer, não temos direito a voto, nem a mais nada”, conta um iraquiano de 35 anos, há dez a viver em Atenas.
“Ninguém quer ficar aqui. Viemos só para entrar na Europa e conseguir partir para um país mais rico, mas acabámos por ficar presos na Grécia, sem dinheiro para conseguir atravessar a fronteira”, conta, enquanto aguarda a sua vez para receber um bocado de pão.
Atrás de si, a bicha dos que vão buscar comida continua a aumentar. Entre o meio-dia e a uma da tarde, todos os dias, prolonga-se por vários metros, ocupando toda a rua. É bem mais comprida do que a fila de qualquer multibanco. É a espera mais triste de Atenas.
Eles não desistiram de nós, nós é que estamos a desistir deles
Pedro Santos Guerreiro, in Expresso
O povo grego não virou as costas à Europa mas a Europa parece resignada a virar costas ao gregos - e agora sente-se autorizada pelo "não". Pedro Santos Guerreiro analisa o resultado do referendo
“As pessoas quiseram dizer 'não', mesmo que fiquem sem comer”. Stavros Stellas tem 60 anos e anda de lágrimas nos olhos na Praça Sintagma com a bandeira de Portugal quando a jornalista Joana Pereira Bastos o topa. Porquê a bandeira? Porque estamos a passar pelo mesmo, diz. Mas não da mesma maneira: “O governo português vai ter de explicar ao seu povo porque não lutou pelos direitos das pessoas, como lutou o nosso aqui na Grécia. Vai ter de explicar porque disse que sim a tudo, porque nunca fez frente à UE.” Ouve-se isto e engole-se em seco.
É preciso estar muito envenenado de cinismo para achar que o resultado do referendo grego não é uma consequência - ou que não terá consequências. O Syriza arriscou tudo e teve uma vitória estrondosa. As instituições europeias falharam, porque perderam o controlo da situação, porque subvalorizaram Tsipras e Varoufakis (que aliás desprezam) e porque não conseguiram impor a ideia de que votar “não” ao acordo de austeridade seria votar “sim” à saída do euro. Mesmo assim, nada é mais impressionante do que a expressão do povo grego. As pessoas que estão na praça Sintagma não estão fartas, estão desempregadas; não querem partir tudo, querem construir algo; não são insubmissas, são indómitas. É preciso muita coragem para, depois de uma semana de caos e sem dinheiro nas caixas multibanco, votar "não" e de forma tão expressiva. É impossível não admirar a força do povo – do povo! – depois de uma votação assim.
O que se faz agora com isto? Negoceia-se. As instituições europeias não podem desistir da Grécia até porque não é verdade que, como disse Passos Coelho, “é difícil ajudar quem não quer ser ajudado”. Admitamos até que a palavra ajuda faz sentido (abramos aqui um parêntesis longo porque o termo é tudo menos inócuo. Portugal não teve um programa de ajuda externa, teve um programa de intervenção externa, que salvou o país da bancarrota e salvou os credores de perderem dinheiro, impondo em troca um programa económico vastíssimo que, bom ou mau, não foi escolhido pelo povo português. A troika trouxe muitas coisas boas, incluindo financiamento, e algumas coisas más mas fê-lo sempre num espaço de autonomia política condicionada. Paradoxalmente, os eleitos gostaram disso, o que se vê pelo constante e embaraçoso “cheerleading” de Passos Coelho ou pelo que ainda há dias Durão Barroso disse: reformas como a do poder local não teriam acontecido sem a troika, porque governo nenhum teria tido força para tal, sendo que a força que faltaria não seria sobre o povo mas sobre os representantes do poder local, isto é, do governo sobre os partidos que o compõem. É exatamente por causa desta tibieza política e pela opção pela dissimulação consentida em Portugal que se olha para o povo grego e se admira a coragem, mesmo que ela abra portas para salas tenebrosas onde não há uma só luz que alumie o futuro. Ajuda? Os gregos não precisam de esmola, precisam de um plano que funcione). O que é indisputável é o contrário, os gregos querem ajuda. Não estão a virar as costas à Europa, estão a abrir o peito da sua dignidade e a mostrar com as suas próprias cicatrizes – desemprego, recessão, pobreza, cortes de salários, de pensões e noção esclarecida de que vai ser assim durante décadas – que a austeridade levou de mais e trouxe de menos. Não é só ser doloroso, é ser estúpido insistir num modelo que, trazendo austeridade, não traga mais que austeridade.
É estranho que nós próprios não nos tenhamos questionado quando começámos a chamarmo-nos de credores. Foi uma mudança de discurso subtil mas brutal, e chega a ser assustador a naturalidade com que em vez de Eurogrupo, Comissão Europeia ou troika começámos a escrever sobre as negociações entre a Grécia e os credores. Aquele “os credores” também somos nós. Cidadania europeia? Não existe. Compreendemos a linguagem da moeda única, não aceitámos mais do que aquilo que nos trouxesse prosperidade económica. Achávamos nós. Nós, “os credores”.
“Os países europeus são credores de um financiamento muito avultado que fizeram à Grécia”, esclareceu ainda este domingo Pedro Passos Coelho. O governo português (assim como o Presidente da República, na sua infalível matemática de que 19-1=18) parece convencido de que a Grécia acabará por sair do euro e será deixada sua sorte. E nenhum governo europeu parece determinado a avançar com um terceiro resgate à Grécia que inclua um perdão de dívida, por incapacidade de gerir uma relação com o eleitorado.
Ninguém de boa cabeça consegue antecipar o que acontecerá se a Grécia sair do euro mas toda a gente sabe que será uma desgraça. Como veremos esta semana: o sistema financeiro está em colapso, está literalmente a ficar sem dinheiro. Sem apoio do BCE, a desgraça encomendada chega antes da hora.
É também por isso que as reportagens da noite de domingo estão cheias de emoção, daqueles que falam e também de muitos que leem. Festeja-se uma espécie de liberdade que não vem da vitória em si mas da dignidade de quem, mesmo sabendo que vai passar fome, não aceita mais planos de austeridade inférteis. Stavros Stellas é só mais um e nós devíamos perceber que aquela bandeira portuguesa que ele leva nos braços não é a representação de um credor mas de um povo. Afinal, é isso que eles são, o povo grego. Afinal, é isso que nós nunca seremos, o povo da Europa. E se desistimos deles, desistimos de parte de nós. É que o “não” ganhou. E cinco anos de austeridade depois, os gregos não estão a querer tirar, estão a querer dar. Para que o sacrifício valha a pena. O deles. E o nosso.
O povo grego não virou as costas à Europa mas a Europa parece resignada a virar costas ao gregos - e agora sente-se autorizada pelo "não". Pedro Santos Guerreiro analisa o resultado do referendo
“As pessoas quiseram dizer 'não', mesmo que fiquem sem comer”. Stavros Stellas tem 60 anos e anda de lágrimas nos olhos na Praça Sintagma com a bandeira de Portugal quando a jornalista Joana Pereira Bastos o topa. Porquê a bandeira? Porque estamos a passar pelo mesmo, diz. Mas não da mesma maneira: “O governo português vai ter de explicar ao seu povo porque não lutou pelos direitos das pessoas, como lutou o nosso aqui na Grécia. Vai ter de explicar porque disse que sim a tudo, porque nunca fez frente à UE.” Ouve-se isto e engole-se em seco.
É preciso estar muito envenenado de cinismo para achar que o resultado do referendo grego não é uma consequência - ou que não terá consequências. O Syriza arriscou tudo e teve uma vitória estrondosa. As instituições europeias falharam, porque perderam o controlo da situação, porque subvalorizaram Tsipras e Varoufakis (que aliás desprezam) e porque não conseguiram impor a ideia de que votar “não” ao acordo de austeridade seria votar “sim” à saída do euro. Mesmo assim, nada é mais impressionante do que a expressão do povo grego. As pessoas que estão na praça Sintagma não estão fartas, estão desempregadas; não querem partir tudo, querem construir algo; não são insubmissas, são indómitas. É preciso muita coragem para, depois de uma semana de caos e sem dinheiro nas caixas multibanco, votar "não" e de forma tão expressiva. É impossível não admirar a força do povo – do povo! – depois de uma votação assim.
O que se faz agora com isto? Negoceia-se. As instituições europeias não podem desistir da Grécia até porque não é verdade que, como disse Passos Coelho, “é difícil ajudar quem não quer ser ajudado”. Admitamos até que a palavra ajuda faz sentido (abramos aqui um parêntesis longo porque o termo é tudo menos inócuo. Portugal não teve um programa de ajuda externa, teve um programa de intervenção externa, que salvou o país da bancarrota e salvou os credores de perderem dinheiro, impondo em troca um programa económico vastíssimo que, bom ou mau, não foi escolhido pelo povo português. A troika trouxe muitas coisas boas, incluindo financiamento, e algumas coisas más mas fê-lo sempre num espaço de autonomia política condicionada. Paradoxalmente, os eleitos gostaram disso, o que se vê pelo constante e embaraçoso “cheerleading” de Passos Coelho ou pelo que ainda há dias Durão Barroso disse: reformas como a do poder local não teriam acontecido sem a troika, porque governo nenhum teria tido força para tal, sendo que a força que faltaria não seria sobre o povo mas sobre os representantes do poder local, isto é, do governo sobre os partidos que o compõem. É exatamente por causa desta tibieza política e pela opção pela dissimulação consentida em Portugal que se olha para o povo grego e se admira a coragem, mesmo que ela abra portas para salas tenebrosas onde não há uma só luz que alumie o futuro. Ajuda? Os gregos não precisam de esmola, precisam de um plano que funcione). O que é indisputável é o contrário, os gregos querem ajuda. Não estão a virar as costas à Europa, estão a abrir o peito da sua dignidade e a mostrar com as suas próprias cicatrizes – desemprego, recessão, pobreza, cortes de salários, de pensões e noção esclarecida de que vai ser assim durante décadas – que a austeridade levou de mais e trouxe de menos. Não é só ser doloroso, é ser estúpido insistir num modelo que, trazendo austeridade, não traga mais que austeridade.
É estranho que nós próprios não nos tenhamos questionado quando começámos a chamarmo-nos de credores. Foi uma mudança de discurso subtil mas brutal, e chega a ser assustador a naturalidade com que em vez de Eurogrupo, Comissão Europeia ou troika começámos a escrever sobre as negociações entre a Grécia e os credores. Aquele “os credores” também somos nós. Cidadania europeia? Não existe. Compreendemos a linguagem da moeda única, não aceitámos mais do que aquilo que nos trouxesse prosperidade económica. Achávamos nós. Nós, “os credores”.
“Os países europeus são credores de um financiamento muito avultado que fizeram à Grécia”, esclareceu ainda este domingo Pedro Passos Coelho. O governo português (assim como o Presidente da República, na sua infalível matemática de que 19-1=18) parece convencido de que a Grécia acabará por sair do euro e será deixada sua sorte. E nenhum governo europeu parece determinado a avançar com um terceiro resgate à Grécia que inclua um perdão de dívida, por incapacidade de gerir uma relação com o eleitorado.
Ninguém de boa cabeça consegue antecipar o que acontecerá se a Grécia sair do euro mas toda a gente sabe que será uma desgraça. Como veremos esta semana: o sistema financeiro está em colapso, está literalmente a ficar sem dinheiro. Sem apoio do BCE, a desgraça encomendada chega antes da hora.
É também por isso que as reportagens da noite de domingo estão cheias de emoção, daqueles que falam e também de muitos que leem. Festeja-se uma espécie de liberdade que não vem da vitória em si mas da dignidade de quem, mesmo sabendo que vai passar fome, não aceita mais planos de austeridade inférteis. Stavros Stellas é só mais um e nós devíamos perceber que aquela bandeira portuguesa que ele leva nos braços não é a representação de um credor mas de um povo. Afinal, é isso que eles são, o povo grego. Afinal, é isso que nós nunca seremos, o povo da Europa. E se desistimos deles, desistimos de parte de nós. É que o “não” ganhou. E cinco anos de austeridade depois, os gregos não estão a querer tirar, estão a querer dar. Para que o sacrifício valha a pena. O deles. E o nosso.
“Digam aos portugueses que na Grécia lutamos também por vocês”
Joana Pereira Bastos, em Atenas, in Expresso
Milhares de gregos festejaram a vitória do “não”. Mensagem: o orgulho é mais importante que o dinheiro. “Não sei se conseguiremos ou não um acordo. Mas se tivermos de deixar o euro, pelo menos fazemo-lo de cabeça levantada”
Ao início muitos não acreditaram e a festa demorou a arrancar. As sondagens à boca das urnas, divulgadas imediatamente após o fecho das assembleias de voto, davam um resultado demasiado próximo entre os dois lados para permitir grandes celebrações. Mas, a pouco e pouco, os rostos carregados deram lugar à emoção e a praça Sintagma voltou a encher-se de gente, de bandeiras e de esperança.
Uma multidão, sobretudo composta de jovens, invadiu a principal praça de Atenas ao som de canções revolucionárias e de músicas de intervenção do tempo da resistência à ditadura. Houve lágrimas e abraços, risos e muita alegria, como se repentinamente o país esquecesse as filas do multibanco e pusesse em modo de pausa a crise, o sofrimento e o medo.
“Estou muito orgulhoso pelo meu povo. Não sei se conseguiremos ou não um acordo. Mas se tivermos de deixar o euro, pelo menos fazemo-lo de cabeça levantada”, emocionava-se Icarus, de 20 anos, estudante de Arqueologia.
O discurso era comum entre os milhares de apoiantes do “não” que este domingo à noite celebraram o resultado do referendo à última proposta dos credores. Tal como na manifestação de sexta-feira, “dignidade” voltou a ser uma das palavras mais ouvidas. O orgulho, repetem, é mais importante do que o dinheiro.
“Ameaçaram-nos e chantagearam-nos, mas os gregos não têm medo. Não é possível conceber uma Europa sem a Grécia. A própria palavra 'Europa' nasceu aqui. Assim como a democracia, a política, a filosofia, a ética ou o teatro. Não podem tratar-nos como lixo. É por isso que votei 'não'. Não foi pelo memorando - foi pelo orgulho e pela nossa dignidade”, resumia Elias, um engenheiro de 28 anos a trabalhar como empregado de balcão, pouco menos de uma hora antes da divulgação dos primeiros resultados.
Às bandeiras gregas juntaram-se bandeiras de outros países europeus, nomeadamente de França, Itália e Espanha. E entre o azul e branco da Grécia sobressaiu também na Sintagma o vermelho e verde de Portugal. Stavros Stellas, de 60 anos, saiu à rua para festejar a vitória do “não”, segurando as cores portuguesas na mão. “A nossa situação é semelhante. A nossa dívida é o lucro dos países do norte da Europa”, acusava o militante do Syriza. “Foi uma vitória contra tudo e contra todos. Contra os media privados, que fizeram propaganda pelo 'sim', contra os grandes empresários e contra a União Europeia, que fez connosco uma chantagem intolerável. Mas ganhámos. As pessoas quiseram dizer 'não', mesmo que fiquem sem comer”, dizia.
A tensão entre o Sul e o Norte da Europa esteve também presente no discurso de muitos outros manifestantes. “Digam aos portugueses que na Grécia lutamos também por vocês”, pedia Thodoros, um desempregado de 35 anos.
O discurso do primeiro-ministro interrompeu, por momentos, os festejos na Sintagma. O som da música, dos tambores e dos apitos baixou repentinamente pelas 23h30 (hora local, menos duas em Lisboa), quando Tsipras começou a falar ao país. Dezenas de pessoas correram para as esplanadas da praça, onde estavam montadas televisões, e ficaram coladas ao ecrã, pedindo silêncio para ouvir o discurso, seguido com emoção.
“Não sairemos das negociações - entraremos reforçados nelas”, garantiu Alexis Tsipras, provocando uma ovação geral. O primeiro-ministro reiterou que a Grécia não pretende sair do euro, mas quer permanecer na União Europeia em condições de maior igualdade. E pediu força ao povo para os tempos difíceis que se adivinham.
Christine Saponas, de 18 anos, uma das cerca de 180 mil jovens que votaram neste referendo pela primeira vez, seguia o discurso emocionada. “Sabemos que o mais difícil vai começar agora e estamos preparados para isso. O mais importante está feito. Mostrámos que um povo pode falar e dizer chega. Foi uma grande vitória para a Grécia e uma grande lição para o mundo.”
Milhares de gregos festejaram a vitória do “não”. Mensagem: o orgulho é mais importante que o dinheiro. “Não sei se conseguiremos ou não um acordo. Mas se tivermos de deixar o euro, pelo menos fazemo-lo de cabeça levantada”
Ao início muitos não acreditaram e a festa demorou a arrancar. As sondagens à boca das urnas, divulgadas imediatamente após o fecho das assembleias de voto, davam um resultado demasiado próximo entre os dois lados para permitir grandes celebrações. Mas, a pouco e pouco, os rostos carregados deram lugar à emoção e a praça Sintagma voltou a encher-se de gente, de bandeiras e de esperança.
Uma multidão, sobretudo composta de jovens, invadiu a principal praça de Atenas ao som de canções revolucionárias e de músicas de intervenção do tempo da resistência à ditadura. Houve lágrimas e abraços, risos e muita alegria, como se repentinamente o país esquecesse as filas do multibanco e pusesse em modo de pausa a crise, o sofrimento e o medo.
“Estou muito orgulhoso pelo meu povo. Não sei se conseguiremos ou não um acordo. Mas se tivermos de deixar o euro, pelo menos fazemo-lo de cabeça levantada”, emocionava-se Icarus, de 20 anos, estudante de Arqueologia.
O discurso era comum entre os milhares de apoiantes do “não” que este domingo à noite celebraram o resultado do referendo à última proposta dos credores. Tal como na manifestação de sexta-feira, “dignidade” voltou a ser uma das palavras mais ouvidas. O orgulho, repetem, é mais importante do que o dinheiro.
“Ameaçaram-nos e chantagearam-nos, mas os gregos não têm medo. Não é possível conceber uma Europa sem a Grécia. A própria palavra 'Europa' nasceu aqui. Assim como a democracia, a política, a filosofia, a ética ou o teatro. Não podem tratar-nos como lixo. É por isso que votei 'não'. Não foi pelo memorando - foi pelo orgulho e pela nossa dignidade”, resumia Elias, um engenheiro de 28 anos a trabalhar como empregado de balcão, pouco menos de uma hora antes da divulgação dos primeiros resultados.
Às bandeiras gregas juntaram-se bandeiras de outros países europeus, nomeadamente de França, Itália e Espanha. E entre o azul e branco da Grécia sobressaiu também na Sintagma o vermelho e verde de Portugal. Stavros Stellas, de 60 anos, saiu à rua para festejar a vitória do “não”, segurando as cores portuguesas na mão. “A nossa situação é semelhante. A nossa dívida é o lucro dos países do norte da Europa”, acusava o militante do Syriza. “Foi uma vitória contra tudo e contra todos. Contra os media privados, que fizeram propaganda pelo 'sim', contra os grandes empresários e contra a União Europeia, que fez connosco uma chantagem intolerável. Mas ganhámos. As pessoas quiseram dizer 'não', mesmo que fiquem sem comer”, dizia.
A tensão entre o Sul e o Norte da Europa esteve também presente no discurso de muitos outros manifestantes. “Digam aos portugueses que na Grécia lutamos também por vocês”, pedia Thodoros, um desempregado de 35 anos.
O discurso do primeiro-ministro interrompeu, por momentos, os festejos na Sintagma. O som da música, dos tambores e dos apitos baixou repentinamente pelas 23h30 (hora local, menos duas em Lisboa), quando Tsipras começou a falar ao país. Dezenas de pessoas correram para as esplanadas da praça, onde estavam montadas televisões, e ficaram coladas ao ecrã, pedindo silêncio para ouvir o discurso, seguido com emoção.
“Não sairemos das negociações - entraremos reforçados nelas”, garantiu Alexis Tsipras, provocando uma ovação geral. O primeiro-ministro reiterou que a Grécia não pretende sair do euro, mas quer permanecer na União Europeia em condições de maior igualdade. E pediu força ao povo para os tempos difíceis que se adivinham.
Christine Saponas, de 18 anos, uma das cerca de 180 mil jovens que votaram neste referendo pela primeira vez, seguia o discurso emocionada. “Sabemos que o mais difícil vai começar agora e estamos preparados para isso. O mais importante está feito. Mostrámos que um povo pode falar e dizer chega. Foi uma grande vitória para a Grécia e uma grande lição para o mundo.”
3.7.15
Na batalha do "oxi" e do "nai" joga-se o futuro da Grécia
Maria João Guimarães (em Atenas), in Público on-line
Em discursos feitos de sinfonias, trapézios e pragmatismo, todos os dias Tsipras diz que a pergunta é sobre a proposta das instituições, e todos os dias a oposição repete que caso vença o "não" a Grécia sai do euro.
Quem ouvir a rádio grega ou os discursos dos seus líderes sem perceber a língua vai notar algumas palavras repetidas: sinfonia e trapezi, por exemplo. Symphonia é acordo, trapezi é mesa (em cima da qual está a oferta das instituições, ou já não está, conforme o ponto de vista).
A pergunta do referendo ("dimopsifisma") é se a oferta feita pelas instituições deve ou não ser aceite. Mas há outra palavra omnipresente: pragmatika. Não é nenhum apelo ao pragmatismo; quer dizer "realmente". E é também aqui que os dois campos lutam: o que realmente está em jogo?
Uma vitória do "não" quer dizer que a Grécia sai do euro ou até da União Europeia, ou que os eleitores recusam a proposta das instituições? Uma vitória do "sim" significa a queda do Governo e um provável regresso do executivo anterior, ou que os eleitores aceitam um plano da troika para a Grécia?
Para o Syriza, o partido do primeiro-ministro Alexis Tsipras e maior voz da campanha do "não" ("oxi", diz-se "ochi"), joga-se a hipótese de obter mais força negocial para um acordo melhor. Em Atenas, foi o "não" quem começou mais visível, com cartazes nos postes de electricidade ("'não' pela democracia e dignidade", as palavras-chave) e flyers nos pára-brisas de automóveis e um quiosque na Praça Syntagma.
No entanto, o "sim" ("nai", pronuncia-se mais ou menos como "né") está a ganhar terreno nos media e nas redes sociais. Reúne o consenso dos partidos pró-europeus, ou seja, da Nova Democracia (conservador), do antigo primeiro-ministro Antonis Samaras; do To Potami (O Rio); e do Pasok (partido socialista). Na televisão, os presidentes de câmara das duas maiores cidades gregas, Atenas e Salónica, dão a cara pelo "sim". Em causa está, consideram (apoiados por declarações de responsáveis europeus), a permanência da Grécia na União Europeia.
Mas os políticos da Nova Democracia e do Pasok são cada vez menos populares, e o Potami é um partido pequeno. Tentando desvincular-se dos políticos, especialmente dos partidos que ocuparam os últimos governos, um movimento de cidadãos começou a campanha "Sim pela Europa". "Esta é a questão que vai definir o caminho e o futuro de gerações inteiras, assim como a substância da Grécia como um país moderno", disseram num comunicado, depois de se apresentarem na rádio Atenas. Para sublinhar este ponto, num anúncio do "sim".
O "sim" tem ainda o apoio de organizações de empresários e de turismo – é lá que se desenrola, aliás, um esforço de campanha para ajudar gregos afectados pelo controlo de capitais: uma das iniciativas é um site para comprar bilhetes de avião para gregos que, estando no estrangeiro com contas nacionais, não conseguem regressar.
A campanha a favor do acordo apresenta o cenário de pesadelo: um "não" teria consequências imediatas para além do prolongamento do encerramento dos bancos e controlo de capitais, como falta de bens essenciais, medicamentos, até comida.
Preferia cortar um braço
Por outro lado, o "não" está a jogar com o facto de a maioria dos gregos não querer o regresso dos partidos que antes ocuparam o Governo. O facto de Tsipras já ter dado a entender que se demitiria se vencesse o "sim", e de o ministro das Finanças, Yanis Varoufakis, ter assegurado que faria o mesmo de um modo directo ("preferia cortar um braço do que aceitar um mau acordo", disse), fazem com que esta pergunta tenha outra consequência: quem vota "sim" sabe que deverá estar a eleger novamente Antonis Samaras para primeiro-ministro em eleições que seriam marcadas dentro de 30 dias.
O primeiro-ministro grego repete quase todos os dias que não está em causa sair do euro ou da União Europeia, e ainda esta quinta-feira voltou a dizer o mesmo numa entrevista. E todos os dias, alguém repete o contrário: o antigo primeiro-ministro Costas Karamanlis pediu aos eleitores para "afirmarem com determinação" que o país é "parte inseparável da Europa" votando "sim" (analistas já especulam que o antigo chefe de Governo que antecedeu a Papandreou, que acumulou grande dívida e que se tem mantido afastado do debate público, poderá estar a posicionar-se como um possível chefe de Governo caso vença o "sim").
O líder do To Potami, Stavros Theodorakis, desafiou Tsipras para um debate televisivo sobre "euro ou dracma". Não vai haver um debate antes do referendo.
Um outro protagonista está a surgir neste referendo: as televisões gregas. As emissoras privadas são detidas por grupos com interesses (empresários do sector da navegação ou futebol) e foram um dos primeiros alvos da legislação do Governo de Tsipras, que começou a cobrar licenças de emissão.
Análises do tempo dado à cobertura das últimas duas manifestações mostram um favorecimento inequívoco de um dos campos: a manifestação do "não" foi mencionada num total de oito minutos e 33 segundos em seis canais (um público e cinco privados) e a do "sim" do dia seguinte em 47 minutos e 13 segundos nos mesmos canais.
O "sim" é ainda defendido pelas associações de empresários, o "não" pelos sindicatos. Esta divisão é espelhada no que se vê nas concentrações do "sim", em que há laca em cabelos e pólos Lacoste, e nas manifestações do "não", em que os cabelos estão mais desalinhados e há algumas "barbas revolucionárias". (Num pormenor que só poderia acontecer na Grécia, o Partido Comunista, que sempre recusou os memorandos, não consegue fazer campanha do mesmo lado dos seus rivais de esquerda do Syriza, e assim apela ao voto nulo. Esta quinta-feira fez a sua própria manifestação).
Os dois campos vão fazer os seus comícios finais na sexta-feira, com duas concentrações muito perto. Uma será em Syntagma, em que vai falar Alexis Tsipras, e outra não muito longe, no estádio antigo.
Tudo na zona em que esta quinta-feira de manhã um pequeno grupo retirou a bandeira do gabinete do Parlamento Europeu em Atenas, regou-a com gasolina e queimou-a no meio da rua – para satisfação dos jornalistas e turistas presentes. Em substituição do pano azul com estrelas, ficou um poster do "não".
Com a sociedade extremamente dividida e polarizada, há quem resuma a escolha perante os gregos de outro modo. No seu blogue, chamado Irate Greek, uma eleitora que já se arrependeu de ter votado no Syriza diz: "A escolha que está a ser posta aos gregos tornou-se, muito simplesmente, se querem uma morte rápida e violenta, ou uma morte lenta e dolorosa."
Quanto ao resto, resume: "Um referendo anunciado para dali a nove dias com uma oferta que já não existe é uma farsa, pior quando é anunciado como uma ferramenta de negociação", diz, criticando o Governo. Por outro lado, o melhor exemplo de desrespeito pela democracia "é dos media detidos pelos oligarcas, que lançaram uma campanha de medo sem precedentes".
Assim, para ela, a primeira vítima do referendo foi, "ironicamente, a democracia".
Em discursos feitos de sinfonias, trapézios e pragmatismo, todos os dias Tsipras diz que a pergunta é sobre a proposta das instituições, e todos os dias a oposição repete que caso vença o "não" a Grécia sai do euro.
Quem ouvir a rádio grega ou os discursos dos seus líderes sem perceber a língua vai notar algumas palavras repetidas: sinfonia e trapezi, por exemplo. Symphonia é acordo, trapezi é mesa (em cima da qual está a oferta das instituições, ou já não está, conforme o ponto de vista).
A pergunta do referendo ("dimopsifisma") é se a oferta feita pelas instituições deve ou não ser aceite. Mas há outra palavra omnipresente: pragmatika. Não é nenhum apelo ao pragmatismo; quer dizer "realmente". E é também aqui que os dois campos lutam: o que realmente está em jogo?
Uma vitória do "não" quer dizer que a Grécia sai do euro ou até da União Europeia, ou que os eleitores recusam a proposta das instituições? Uma vitória do "sim" significa a queda do Governo e um provável regresso do executivo anterior, ou que os eleitores aceitam um plano da troika para a Grécia?
Para o Syriza, o partido do primeiro-ministro Alexis Tsipras e maior voz da campanha do "não" ("oxi", diz-se "ochi"), joga-se a hipótese de obter mais força negocial para um acordo melhor. Em Atenas, foi o "não" quem começou mais visível, com cartazes nos postes de electricidade ("'não' pela democracia e dignidade", as palavras-chave) e flyers nos pára-brisas de automóveis e um quiosque na Praça Syntagma.
No entanto, o "sim" ("nai", pronuncia-se mais ou menos como "né") está a ganhar terreno nos media e nas redes sociais. Reúne o consenso dos partidos pró-europeus, ou seja, da Nova Democracia (conservador), do antigo primeiro-ministro Antonis Samaras; do To Potami (O Rio); e do Pasok (partido socialista). Na televisão, os presidentes de câmara das duas maiores cidades gregas, Atenas e Salónica, dão a cara pelo "sim". Em causa está, consideram (apoiados por declarações de responsáveis europeus), a permanência da Grécia na União Europeia.
Mas os políticos da Nova Democracia e do Pasok são cada vez menos populares, e o Potami é um partido pequeno. Tentando desvincular-se dos políticos, especialmente dos partidos que ocuparam os últimos governos, um movimento de cidadãos começou a campanha "Sim pela Europa". "Esta é a questão que vai definir o caminho e o futuro de gerações inteiras, assim como a substância da Grécia como um país moderno", disseram num comunicado, depois de se apresentarem na rádio Atenas. Para sublinhar este ponto, num anúncio do "sim".
O "sim" tem ainda o apoio de organizações de empresários e de turismo – é lá que se desenrola, aliás, um esforço de campanha para ajudar gregos afectados pelo controlo de capitais: uma das iniciativas é um site para comprar bilhetes de avião para gregos que, estando no estrangeiro com contas nacionais, não conseguem regressar.
A campanha a favor do acordo apresenta o cenário de pesadelo: um "não" teria consequências imediatas para além do prolongamento do encerramento dos bancos e controlo de capitais, como falta de bens essenciais, medicamentos, até comida.
Preferia cortar um braço
Por outro lado, o "não" está a jogar com o facto de a maioria dos gregos não querer o regresso dos partidos que antes ocuparam o Governo. O facto de Tsipras já ter dado a entender que se demitiria se vencesse o "sim", e de o ministro das Finanças, Yanis Varoufakis, ter assegurado que faria o mesmo de um modo directo ("preferia cortar um braço do que aceitar um mau acordo", disse), fazem com que esta pergunta tenha outra consequência: quem vota "sim" sabe que deverá estar a eleger novamente Antonis Samaras para primeiro-ministro em eleições que seriam marcadas dentro de 30 dias.
O primeiro-ministro grego repete quase todos os dias que não está em causa sair do euro ou da União Europeia, e ainda esta quinta-feira voltou a dizer o mesmo numa entrevista. E todos os dias, alguém repete o contrário: o antigo primeiro-ministro Costas Karamanlis pediu aos eleitores para "afirmarem com determinação" que o país é "parte inseparável da Europa" votando "sim" (analistas já especulam que o antigo chefe de Governo que antecedeu a Papandreou, que acumulou grande dívida e que se tem mantido afastado do debate público, poderá estar a posicionar-se como um possível chefe de Governo caso vença o "sim").
O líder do To Potami, Stavros Theodorakis, desafiou Tsipras para um debate televisivo sobre "euro ou dracma". Não vai haver um debate antes do referendo.
Um outro protagonista está a surgir neste referendo: as televisões gregas. As emissoras privadas são detidas por grupos com interesses (empresários do sector da navegação ou futebol) e foram um dos primeiros alvos da legislação do Governo de Tsipras, que começou a cobrar licenças de emissão.
Análises do tempo dado à cobertura das últimas duas manifestações mostram um favorecimento inequívoco de um dos campos: a manifestação do "não" foi mencionada num total de oito minutos e 33 segundos em seis canais (um público e cinco privados) e a do "sim" do dia seguinte em 47 minutos e 13 segundos nos mesmos canais.
O "sim" é ainda defendido pelas associações de empresários, o "não" pelos sindicatos. Esta divisão é espelhada no que se vê nas concentrações do "sim", em que há laca em cabelos e pólos Lacoste, e nas manifestações do "não", em que os cabelos estão mais desalinhados e há algumas "barbas revolucionárias". (Num pormenor que só poderia acontecer na Grécia, o Partido Comunista, que sempre recusou os memorandos, não consegue fazer campanha do mesmo lado dos seus rivais de esquerda do Syriza, e assim apela ao voto nulo. Esta quinta-feira fez a sua própria manifestação).
Os dois campos vão fazer os seus comícios finais na sexta-feira, com duas concentrações muito perto. Uma será em Syntagma, em que vai falar Alexis Tsipras, e outra não muito longe, no estádio antigo.
Tudo na zona em que esta quinta-feira de manhã um pequeno grupo retirou a bandeira do gabinete do Parlamento Europeu em Atenas, regou-a com gasolina e queimou-a no meio da rua – para satisfação dos jornalistas e turistas presentes. Em substituição do pano azul com estrelas, ficou um poster do "não".
Com a sociedade extremamente dividida e polarizada, há quem resuma a escolha perante os gregos de outro modo. No seu blogue, chamado Irate Greek, uma eleitora que já se arrependeu de ter votado no Syriza diz: "A escolha que está a ser posta aos gregos tornou-se, muito simplesmente, se querem uma morte rápida e violenta, ou uma morte lenta e dolorosa."
Quanto ao resto, resume: "Um referendo anunciado para dali a nove dias com uma oferta que já não existe é uma farsa, pior quando é anunciado como uma ferramenta de negociação", diz, criticando o Governo. Por outro lado, o melhor exemplo de desrespeito pela democracia "é dos media detidos pelos oligarcas, que lançaram uma campanha de medo sem precedentes".
Assim, para ela, a primeira vítima do referendo foi, "ironicamente, a democracia".
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