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24.1.19

“Robôs” eliminam 1,1 milhões de empregos em Portugal até 2030, avisa estudo da CIP

Edgar Caetano, o Observador

Estudo da CIP e da McKinsey sobre o futuro do trabalho diz que, em compensação, até 2030, serão criados entre 600 mil e os mesmos 1,1 milhões de novos empregos.

Metade do tempo de trabalho em Portugal poderia ser feito por tecnologias de automatização que já existem, defende um estudo sobre o futuro do trabalho em Portugal feito pela Confederação Empresarial de Portugal (CIP) em parceria com o McKinsey Global Institute e a Nova SBE. O estudo antecipa um cenário em que, neste contexto, a massificação dos “robôs” (em rigor, tecnologias como as da robótica e da inteligência artificial, entre outras) poderá levar à eliminação de 1,1 milhões de empregos em Portugal — e, em compensação, serão criados entre 600 mil e (os mesmos) 1,1 milhões de novos empregos, no melhor cenário. A investigação conclui, também, que 1,8 milhões de trabalhadores irão necessitar de melhorar as suas competências ou mudar de emprego nos próximos 11 anos.

Este prognóstico “coloca desafios significativos que exigirão um papel ativo tanto pelo governo e setor privado no processo de reconversão da força de trabalho”, defendem os autores do estudo, que salientam que a economia portuguesa tem um “relativamente alto potencial de automação”, por se caracterizar por um peso relativamente alto da indústria transformadora e tarefas repetitivas em diversos setores.

“Cerca de 50% do tempo despendido nas atuais atividades laborais poderia ser automatizado com as tecnologias atualmente existentes, o que representa um elevado potencial de automação, quando comparado com outros países”, comenta o estudo apresentado esta quinta-feira em Lisboa, no Museu da Eletricidade.

Essa percentagem, contudo, tende a aumentar nos próximos anos. Em 2030, diz o estudo, a mesma proporção já terá subido para 67%. “No cenário de cerca de 26% (do potencial total de 67%) do tempo de trabalho ser automatizado, a adoção da automação poderá levar à perda do equivalente a 1,1 milhões de postos de trabalho até 2030, com maior incidência nos sectores da indústria transformadora e do comércio”, refere o estudo.
Em contraponto, “a adoção da automação e o inerente crescimento económico poderão criar entre 600 mil e 1,1 milhões de novos postos de trabalho até 2030, com especial incidência nos sectores da saúde, assistência social, ciência, profissões técnicas e construção”.

Apesar dos enormes desafios que, no curto prazo, o país terá de enfrentar, a transformação digital da sociedade e da economia nacionais representa uma enorme oportunidade. Para que se minimizem os desafios decorrentes desta transição e para que se potenciam as imensas oportunidades, impõe-se uma avaliação de novas políticas públicas e um eficaz plano de requalificação da sociedade, num esforço conjunto entre setor público, empresas e instituições de educação e formação.”

“Não basta formação de jovens, é preciso formação de adultos”
Em declarações ao Observador, o presidente da CIP, António Saraiva, comentou que a política se “preocupa com a formação de jovens e com a criação de oportunidades para os mais jovens, mas a inovação tecnológica obriga-nos a refletir sobre a necessidade de formar adultos para que estes consigam manter-se atualizados perante a transformação dos postos de trabalho”.

É frequentemente dito que algo como 50% das crianças que hoje estão a entrar nos infantários vão ter profissões que ainda nem sequer existem, mas “é preciso atuar já para que a economia e as empresas que a formam definam como prioridade a formação dos seus quadros atuais”, sobretudo com os desafios demográficos que estão no horizonte de Portugal e de muitos outros países. “Há hoje muitas profissões que são repetitivas — desde o portageiro ao trabalhador da linha de montagem, mas também trabalhos burocráticos — que serão rapidamente substituídas por meios tecnológicos”, salienta António Saraiva, alertando para o impacto irreversível sobre o mercado de trabalho.

O pior cenário “pode ser evitado se existirem políticas públicas e privadas no sentido de minorar este problema, com uma aposta na formação profissional designadamente tirando partido de fundos comunitários, que devem ser usados para a formação de adultos”. Uma das medidas concretas que a CIP tem proposto é que as empresas possam reservar uma parte do pagamento das contribuições para a Segurança Social, pagas por cada trabalhador, e possam utilizar esses valores no investimento na formação profissional dos seus quadros.

O estudo, que analisou cerca de 800 atividades profissionais e cerca de duas mil tarefas desempenhadas em diversos setores, não pretende ser alarmista mas, sim, alertar para a resposta que é preciso dar — “porque não podemos admitir que 1,8 milhões de pessoas fiquem sem emprego”, explicou António Saraiva.

18.9.18

Regiões mais castigadas pelo desemprego são as que mais sofrem com a robotização

in Expresso

A Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento Económico (OCDE) alertou hoje que o crescimento da automação nas empresas pode pôr em risco postos de trabalho, sobretudo em regiões onde a taxa de desemprego já é elevada

A Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento Económico (OCDE) alertou esta terça-feira que o crescimento da automação nas empresas pode pôr em risco postos de trabalho, sobretudo em regiões onde a taxa de desemprego já é elevada.

De acordo com o estudo sobre o risco da automação do trabalho, apresentado hoje no Porto, "por um lado, a automação é necessária para promover o crescimento da produtividade, mas, por outro lado, aumenta o espetro de novas perdas de emprego em regiões que já sofrem com o alto índice de desemprego".

Entre os 36 países considerados no estudo, e onde se inclui Portugal, a percentagem de empregos que apresentam um risco elevado de automação varia entre 4% e 40%.

Eslováquia (com 33,6% dos trabalhadores), Eslovénia (25,7%), Grécia (23,4 %), Espanha (21,7%), Chile (21,6%) e Lituânia (21%) são os países que registam uma maior percentagem de alto risco de automação, aquela em que cada trabalhador tem 70% ou mais de possibilidade de ser substituído por um computador.

Já no que diz respeito ao "risco significativo de mudança" (entre 50% e 70%), o topo da tabela é ocupado pela Turquia, a Lituânia, o Japão, a Alemanha, a Rússia, a Itália, Grécia e França.
Espanha também surge na lista, com 30,2% dos trabalhadores em risco significativo de mudança.

Diferenças que podem ser ainda mais expressivas entre regiões do mesmo país onde as disparidades são, frequentemente, mais de cinco ou de dez pontos percentuais.

Entre as regiões com melhor e pior desempenho está o Canadá, onde esses valores diferem em apenas um ponto percentual e a Espanha que regista uma diferença de 12 pontos percentuais.

Em Portugal, e segundo a OCDE, não foi possível, por falta de informação, apresentar uma estimativa de empregos em risco de automação, mas apenas traçar um perfil das condições de trabalho no país.

Segundo o estudo, o desempenho da economia portuguesa que cresceu 1,3 pontos percentuais entre 2011 e 2016, "mascara grandes diferenças ao nível regional", já que durante este período "a maioria dos postos de trabalho foi criada na região de Lisboa, representando mais de 60% da criação líquida de postos de trabalho em Portugal. Em contraste, a região Norte registou a maior perda de empregos, representando cerca de 64% de um declínio de empregos líquidos na economia".

De acordo com a OCDE, estima-se que em 2019 a instalação mundial de 1,4 milhões de 'robots' industriais contribuirá muito significativamente para a transformação tecnológica das empresas, o que trará repercussões a médio prazo na economia local.

A OCDE sublinha, contudo, que "desde 2011, a maioria das regiões (60%) conseguiu criar mais empregos com menor risco de automação do que os empregos perdidos em setores de alto risco de automação".

As regiões com uma parcela menor de empregos em risco de automação, acrescenta, "são aquelas que têm trabalhadores altamente qualificados, um forte setor de serviços comercializáveis e que são altamente urbanizadas".
Para aquela organização, "o impacto desigual da automação entre as regiões pode potencialmente ampliar as desigualdades nas condições de emprego", pelo que cabe aos decisores políticos encontrar soluções de equilíbrio "entre a necessidade de promover a automação para aumentar a produtividade e a necessidade de gerenciar perdas de emprego a curto ou médio prazo provenientes da automação".

Uma das preocupações espelhadas no estudo prende-se com o trabalho precário, nomeadamente os "falsos recibos verdes", que "na maioria dos países da OCDE dissimula grandes diferenças regionais dentro dos países".
Consequentemente, defende a OCDE, as políticas que combatem o falso emprego ajudarão a melhorar a qualidade global do trabalho independente, que garantam o acesso a um mercado de trabalho inclusivo e a oportunidades profissionais de boa qualidade para todos independentemente da região onde vivem.

No relatório, a Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico que escolheu o Porto para acolher a 14ª edição do LEED Fórum sobre as novas tendências do mundo de trabalho, sublinha ainda que "devido aos recentes desenvolvimentos tecnológicos no campo da inteligência artificial, o ritmo da automação deve acelerar".

Enquanto anteriormente eram, sobretudo, as profissões que exigiam baixas ou médias qualificações, que poderiam ser automatizadas.

Atualmente, e à luz das novas tecnologias, abrem a porta, num futuro próximo, à automatização de funções altamente qualificadas.

O objetivo do LEED Fórum é juntar responsáveis locais, nacionais e internacionais para debater com empresários e inovadores sociais quais as novas exigências do mundo do trabalho e de que forma será possível conseguir uma maior harmonia entre a formação e a preparação dos trabalhadores com as novas oportunidades laborais.

13.7.17

Como será o trabalho em 2030? Os robots vão pagar impostos?

Mariana Correia Pinto, in Público on-line

Catedráticos, investigadores e advogados de mais de 20 nacionalidades vão discutir o futuro do trabalho. Congresso no Porto começa esta quinta-feira no Porto.

O cenário é futurista. Estamos em 2030 — e, provavelmente, muito será diferente, apesar de apenas 13 anos nos separarem desse quadro. Teremos, nessa altura, robots como colegas de trabalho? E essas máquinas terão limites de produção ou horário de trabalho? Pagarão impostos? Provocarão uma mudança no funcionamento da Segurança Social? Estas são algumas das perguntas para as quais mais de 150 catedráticos, investigadores e advogados de todo o mundo vão ensaiar respostas no "Congresso Internacional Labour 2030 - Rethinking the Future of Work", que decorre na Alfândega do Porto nesta quinta-feira e sexta-feira.
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“As mudanças no trabalho ocorrem hoje muito mais rapidamente do que no passado e, por isso, mais do que estudar o que existe é preciso tentar antecipar os problemas que vão surgir”, resume Eduardo Castro Marques, presidente da Associação de Jovens Juslaboralistas, que organiza este congresso com a Law Academy e a Cielo Laboral. Antecipando, diz, é possível “tentar minorar alguns efeitos nefastos que, por exemplo, a evolução tecnológica possa trazer ao mundo do trabalho”.

A robotização da advocacia

A robótica, a inteligência artificial e as novas tecnologias são um dos temas fortes do evento. Ou não percebessem os advogados a dimensão do problema na própria pele: o Ross, primeiro advogado-robot do mundo, é capaz de processar cerca de 500 GB de informação num só segundo — e “já conseguiu fazer com que fossem despedidos centenas de advogados nos Estados Unidos [da América]”. O desafio é premente “sobretudo em profissões com menos formação, dos sectores primário e industrial”. Mas pode alargar-se a muitas outras.

E sobre este fenómeno não há uma linha de pensamento consensual: uns acreditam que se vai assistir a um “robotcalipse”, outros entendem que isto vai “capacitar, aumentar a produtividade e conseguir mais crescimento económico, mais lucro e mais riqueza”.
Apostar mais no teletrabalho?

O “exercício de prognose do futuro do trabalho” vai passear por temas como a relação do trabalho com o meio ambiente (será aconselhável, em nome do nosso planeta, apostar mais no teletrabalho? e como se podem diminuir as emissões de dióxido de carbono em algumas indústrias?); o empreendedorismo tecnológico e as start-ups; ou o trabalho 4.0 e a protecção de dados, numa altura em que o assunto está em cima da mesa, com a aprovação do regulamento geral da protecção de dados (está o trabalhador seguro? e a empresa? que regularização é preciso fazer?).

Apesar de estar focado na questão do direito do trabalho, o congresso conta com as perspectivas de outras academias. Tema premente: o envelhecimento e as doenças oncológicas. “Os dados estatísticos mostram que vamos ter uma população cada vez mais envelhecida. É preciso pensar, por exemplo, “como vai ser inserido o trabalhador sobrevivente de cancro” ou “como é que o empregador o vai receber, se deve ou não ser obrigado a alterar-lhe as funções”, diz Eduardo Castro Marques. “Há uma série de questões que temos de discutir já, para antecipar esse problema.”

Na Alfândega do Porto vão ser apresentados 125 estudos, todos inéditos, de investigadores de 23 países. Esse carácter internacional, diz a organização, é um dos pontos diferenciadores do congresso, que se distingue também por se centrar apenas no futuro e pela componente tecnológica. O público do evento —com inscrições online ainda abertas — poderá votar nas melhores intervenções através de uma aplicação do congresso e um dos debates será moderado pelo jornalista da Forbes Austrália Kavi Guppta a partir do Porto mas com todos os participantes em comunicação via Skype.