Por Rita Siza, Washington, in Jornal Público
O mundo nunca se mobilizou tanto por uma causa humanitária mas milhares de haitianos que sobreviveram ao sismo continuam à espera de uma ajuda que tarda em chegar. E estão cada vez mais revoltados e desesperados
Milhares de corpos foram já enterrados em valas comuns, que estão a ser abertas sem as mínimas condições na capital do Haiti. "Há camiões a chegar cheios de corpos, que são literalmente despejados para dentro de covas gigantescas sem serem identificados. Quando a cova está cheia, é coberta e há um tractor que passa por cima para tentar alisar o pavimento", relatava ontem o repórter da CNN Anderson Cooper.
Quatro dias depois de um violento terramoto ter dizimado completamente a cidade, de mais de três milhões de habitantes, o risco de doenças infecciosas é muito elevado, avisaram as autoridades sanitárias, preocupadas com a possibilidade de diarreias e a disseminação de dengue, malária e sarampo, doenças que são recorrentes na região.
As centenas e centenas de cadáveres abandonados nas ruas (e já em estado de decomposição) não representam um perigo para a saúde pública, notou o porta-voz da Organização Mundial de Saúde, Paul Garwood. "Contudo, há um aspecto de saúde mental, de trauma psicossocial que não pode ser ignorado. É uma situação muito difícil", acrescentou.
Sinais de uma tensão crescente eram evidentes. Nalguns locais da cidade, foram construídas barreiras com cadáveres a bloquear estradas. Um armazém do Programa Alimentar Mundial foi assaltado e saqueado, e o mesmo acontecia nas lojas e supermercados e casas desprotegidas. Alguns relatos davam conta de tiros disparados à distância, e de homens a passear pelas ruas munidos de catanas, mas não havia informações de desacatos ou de violência. Porém, ninguém descarta essa possibilidade. "Há uma ameaça muito premente de anarquia e desordem. Já antes o Haiti era um lugar de extrema criminalidade", referiu Steve Hollingworth.
"Não temos nada"
Mais do que conflito, os habitantes de Port au Prince procuram ventilar a sua angústia e queixas. "Não temos água. Não temos geradores. Não temos abrigo. Não temos ambulâncias. Não temos polícia. Não temos dinheiro. Não temos nada. Onde está a ajuda? Quando chega a comunidade internacional?", perguntava Rothin Massena, de 29 anos, uma das desalojadas de Petionville.
As pessoas que se agruparam nas ruas e campos de futebol, em improvisados campos de refugiados, caminhavam pela rua em manifestações espontâneas, cantando, rezando e tentando "animar" os seus companheiros de tragédia. "Estamos aqui pela graça de Deus", cantava Bertilie Francis.
Carregamentos de água e mantimentos, medicamentos, tendas e hospitais de campanha e maquinaria pesada ainda estão a caminho da ilha das Caraíbas ou armazenados no aeroporto, mas a falência total das insfra-estruturas e a escassez de meios humanos estão a dificultar o avanço das operações de resgate de sobreviventes e assistência dos feridos e desalojados.
O tempo começa a escassear para aqueles que ainda estão presos debaixo dos escombros dos edifícios que ruíram. De acordo com os especialistas, a esperança de encontrar alguém vivo ao fim de seis a sete dias esfuma-se; esse tempo é muito menor para aqueles que possam ter sofrido ferimentos graves. Equipas especializadas, da Islândia, Espanha, Reino Unido e China, conseguiram retirar dezenas de sobreviventes de entre os destroços, mas as operações demoram muitas horas para produzir resultados.
Os desafios em termos logísticos são tremendos. "Há uma conjugação de factores que torna o esforço de assistência especialmente complicado", desabafava o chefe de operações do grupo de emergência CARE, Steve Hollingworth. A situação no terreno é incomparavelmente pior do que aquela que a sua organização encontrou no Sudeste Asiático em 2004, quando prestava ajuda às comunidades afectadas pelo gigantesco tsunami que varreu o oceano Índico, observou.
Tarefa monumental
O aeroporto internacional de Port au Prince perdeu a torre de controlo e está agora a ser dirigido por uma unidade de operações especiais da Força Aérea americana. A capacidade está por enquanto limitada a 90 aviões por dia - ontem à tarde já não podiam partir mais voos dos Estados Unidos por não haver mais espaço na pista. Além de não haver equipamento para esvaziar as aeronaves, também não há reservas de combustível, o que significa que só podem baixar os aparelhos que têm depósito suficiente para voltar a partir sem abastecer.
O estado do porto da cidade é ainda mais precário. O cais, parcialmente em ruínas, está inoperacional. Os guindastes que asseguravam o descarregamento dos navios caíram à água. Uma solução possível para a utilização da via marítima era estacionar os navios ao largo e utilizar pequenas embarcações para fazer o transporte da carga, mas mesmo estas estavam indisponíveis.
"O Haiti já tinha uma infra-estrutura muito limitada e precária antes desta catástrofe. Agora vai ser uma tarefa monumental conseguir ultrapassar todos os constrangimentos e fazer chegar a ajuda às populações necessitadas", notava o vice-presidente do International Crisis Group, Mark Schneider.
Numa primeira estimativa, as Nações Unidas calcularam ontem que dez por cento das construções de Port au Prince tivessem sido completamente destruídos, deixando mais de 300 mil pessoas desalojadas. O secretário-geral, Ban Ki-moon, disse que 50 por cento das construções tinham sido afectadas. A ONU alertou que uma avaliação mais completa do número de vítimas, danos e prejuízos demoraria vários dias - a região que sofreu o impacto directo do sismo de magnitude sete na escala de Richter conta com mais de três milhões de habitantes.


