16.1.10

Crise esconde novos destinos e empurra portugueses para turismo interno

Por Ana Rute Silva, in Jornal Público

Num ano sem muitas novidades, a maior oportunidade de negócio vira-se para dentro de portas. Açores, Madeira e SPA dominam ofertas dos agentes de viagens


Os nichos de mercado e os best-sellers em 2010

O México e a Cuba de sempre, mais pacotes para o Brasil, Madeira e Açores em grande, Cabo Verde a subir. Depois de um ano de quebras generalizadas no negócio das viagens, os operadores turísticos não vão arriscar destinos inovadores para 2010 e preferem apostar nas equipas vencedoras. Mas uma coisa a crise trouxe: pelo mesmo preço, é possível comprar pacotes melhores.

Os cerca de 600 expositores que estão na Bolsa de Turismo de Lisboa (BTL), na FIL, digladiam-se por um mercado em recessão. E entre descontos, canetas e panfletos publicitários, esperam captar a atenção dos 60 mil visitantes que são esperados até amanhã, o último dia da feira. António Gama, presidente e sócio da Nortravel, diz que os produtos de maior qualidade vão estar em alta. Com menos procura, há mais agressividade na negociação de preços e é possível ter mais, por menos. "O cliente que viaja com pacotes organizados vai conseguir maior retorno do dinheiro. Nos circuitos da Europa, produto que pesa quase 30 por cento nas nossas vendas, conseguimos aumentar o número de refeições incluídas sem alterar o preço", exemplifica.

Entre os principais países europeus, António Gama aponta a Alemanha e a República Checa como destinos de maior retorno do investimento. As praias espanholas de Benidorm ou Marbella não deverão estar entre as mais vendidas: a quebra no poder de compra afectou mais a carteira de quem comprava este tipo de destino.

O sol e a praia vão dominar as montras da Almeida Viagens, rede que entrou no mercado português em 2008. Nada de novo. "A crise vai impedir alguma inovação do produto turístico. O risco é grande e os operadores preferem jogar pelo seguro", admite Paulo Manuel, director-geral da empresa em Portugal, que prepara a abertura de 46 novas lojas este ano (mais do dobro das actuais). Mas se há tendência que veio para ficar, é a das férias no mercado doméstico.

Até Novembro, o número de dormidas nos hotéis portugueses caiu 6,6 por cento, para 35 milhões de dormidas. Mas houve crescimentos no Norte - a única região do país com resultados positivos há seis meses consecutivos - e em Lisboa. Açores e Madeira tiveram mais turistas internos: uma subida homóloga próxima dos dez por cento em Novembro. Pedro Costa Ferreira, presidente executivo do Mundo Vip, operador do Grupo Espírito Santo, diz mesmo que este é um "ano de oportunidade para o turismo interno", sobretudo para o Algarve e as ilhas.

"Pesa cerca de 25 por cento da nossa facturação [num total de 45 milhões de euros]", revela. O Mundo Vip está a vender duas noites na Madeira a partir de 214 euros, um mercado que espera bons resultados este ano graças às companhias de aviação low-cost e às campanhas de promoção. Para além da easyJet e da francesa transavia (em Março voa entre o Porto e o Funchal), o PÚBLICO sabe que haverá uma terceira ligação de baixo custo a partir de Faro.

Segundo dados da Secretaria Regional de Economia e Transportes da Madeira, o aeroporto do Funchal teve um crescimento de 13 por cento no número de passageiros com origem no mercado português. Conceição Estudante, secretária regional do Turismo, espera que o cenário se mantenha. "O crescimento o ano passado foi extraordinário. Tivemos mais 16 por cento de entradas e mais 18 por cento de dormidas [até Agosto]", disse.

Os Açores também esperam beneficiar da tendência e, com a nomeação de Região Europeia de 2010, esperam ter mais visibilidade em Bruxelas e no mercado europeu. Os principais operadores têm ofertas específicas para este destino. Até Fevereiro a Agência Abreu, por exemplo, cobra por família (dois adultos e duas crianças) 726 euros, duas noites de hotel e avião incluído. António Pinto da Silva, director de contratação e produto, acredita que o ano será melhor e também aposta no "crescimento do mercado interno".

Lá fora, o Brasil mantém-se como destino seguro para as agências de viagens. Apesar de não haver promoções tão agressivas como no passado - já foi possível ir para o Brasil por mil euros, duas pessoas -, António Pinto da Silva admite que a Abreu está a "apostar forte" no destino.

Na lista dos repetentes está Cabo Verde, onde os operadores esperam bons crescimentos, tal como na Tunísia e Marrocos. Entre as muitas empresas contactadas pelo PÚBLICO, as expectativas são comuns: optimismo prudente num ano de retoma moderada.