por Céu Neves, in Diário de Notícias
Há cada vez mais estrangeiros a receber dinheiro para voltar a casa, sobretudo brasileiros. Quase metade são agregados familiares.
Leonan Silva veio para Portugal há oito anos. Fugiu da crise económica que se vivia no Brasil, mas sobretudo de si. Tinham acabado de lhe matar o filho e preferiu afastar-se de Brasília para não ter de olhar para quem o tinha assassinado, quando ele separava uma briga. Mestre de capoeira, as coisas começaram por lhe correr bem e chamou a mulher dois anos depois. Mas a vida mudou, piorou.
Leonan nunca mais conseguiu renovar o visto de residência. Nem tinha dinheiro para regressar ao Brasil. O casal faz parte das muitas famílias de imigrantes que pedem apoio à Organização Internacional para as Migrações (OIM) para abandonar Portugal. E cada vez são mais os agregados familiares a fazê-lo. Já estão quase em maioria, quando em anos anteriores os pedidos eram sobretudo individuais (ver gráficos).
Os dados de imigrantes apoiados pelo Programa de Retorno Voluntário (PRN) reflecte uma maior procura de pessoas desesperadas para regressar ao país de origem e sem dinheiro para o fazer.
"O aumento de agregados familiares terá a ver com o facto de as pessoas já não estarem numa fase inicial da imigração. Começam por vir sozinhas, dizem ao agregado familiar para vir, mas a vida dá uma volta de 180 graus e deixam de ter condições económicas", explica Luís Carrasquinho, o responsável pelo programa.
São sobretudo mães e filhos, mas também há pais e filhos e casais, como Leonan e Ivone. "Vim para Portugal há seis anos, nunca consegui papéis. O meu marido obteve a autorização de residência por um ano, mas não voltou a conseguir um contrato de trabalho e nunca a renovou", conta Ivone Santos, 53 anos, cabeleireira no Brasil e empregada doméstica em Portugal. Nunca teve um trabalho certo, profissional paga ao dia e sem perspectivas de estabilidade.
Foi a Associação Sócio-Cultural Grupo União da Capoeira que deu a mão a Leonan Silva para vir para Portugal, incluindo o pagamento do bilhete de avião. Participou em espectáculos, foi formador, mas os contratos foram diminuindo. O último, com a Casa Pia, não foi renovado no ano passado e deixou de haver um rendimento certo. E as contas sempre a cair, em especial a renda de casa, um quarto num apartamento em Mem Martins, pelo qual pagam 160 euros, incluindo água, luz e gás.
"Fomos ao Serviço de Estrangeiros e Fronteiras para ver como podíamos resolver a situação, mas cobravam muito, tínhamos de pagar as multas. E, também, não tínhamos um contrato de trabalho... mas também ninguém nos faz um contrato se não tivermos o visto de residência", diz Ivone.
A situação tornou-se uma pescadinha de rabo na boca. Sem solução à vista. Leonan faz biscates em obras, pinta paredes... o que aparecer. Ivone segue o mesmo percurso, mas em trabalhos domésticos. Esta semana substitui a amiga que toma conta de uma idosa. Os amigos apoiam.
"Todas as situações são complicadas, todas as pessoas que ajudamos estão numa situação-limite", explica Luís Carrasquinho. Em 2009, o número de imigrantes que levou ao aeroporto de Lisboa para regressarem ao país de origem, ou a um terceiro onde esteja garantida a sua admissão, aumentou quase dez por cento. Também foram mais as mulheres a voltar a casa, algumas com os filhos, e a faixa etária está a subir. Ultimamente, é o grupo entre os 36 e os 50 que mais recorre ao programa.
"Acabámos por decidir que o melhor era regressar ao Brasil. Uma amiga viu uma reportagem e falou-nos que a OIM ajudava quem não tinha dinheiro. Fiz uma pesquisa na Net e marquei uma reunião", conta Ivone. Está à espera que o seu caso seja aceite e que lhe agendem o regresso o mais rapidamente possível.
Ivone e Leonan têm cinco filhos no Brasil, além de 12 netos.
Sente que falhou?
Ivone diz que não: "Viemos com um objectivo traçado. Tínhamos saído de uma situação muito difícil e o objectivo era tentar ultrapassar a situação. Foi uma luta, passámos por muita coisa difícil, batalhámos. Não deu. Conheci Portugal, uma cultura diferente, muitas pessoas amigas, brasileiros e portugueses. Gostei muito de viver aqui, apesar das dificuldades. E o objectivo foi cumprido, estamos preparados para regressar. Tenho saudades dos filhos e netos. A nossa esperança é que o Brasil esteja efectivamente melhor!"


