18.1.10

Haiti: Sinais de vida num cenário de fome e violência

Helena Norte, in Jornal de Notícias

Cônsul portuguesa acolhe 20 pessoas no seu quintal


Contrariando lógica das catástrofes, no Haiti, ainda se encontram sobreviventes sob escombros. A distribuição da ajuda é caótica e geradora de violência, mas a população desenvolve estratégias de sobrevivência. A cônsul honorária portuguesa acolhe 20 pessoas.

Seis dias depois do potentíssimo sismo que quase destruiu completamente a ilha caribenha e quando 60% das áreas mais afectadas já foram rastreadas por equipas de socorro, há vislumbres de vida e esperança. Foram encontradas cerca de 70 pessoas com vida, apesar de as estatísticas vaticinam que, ao fim de 36 horas, as possibilidades de ocorrer resgates com vida são quase nulas. "É um pequeno milagre", declarou Reinhard Riedl, depois de saber que a esposa foi retirada viva dos destroços do Hotel Montana, em Port-au-Prince.

Milagres à parte, o Haiti enfrenta uma tragédia de dimensões apocalípticas. As estimativas quanto ao número de mortos continuam muito díspares: 100 a 200 mil, segundo o Governo; 40 a 50 mil, nos cálculos da Organização Mundial de Saúde e da Cruz Vermelha. Mais de 25 mil cadáveres já foram enterrados em valas comuns e, por toda a ilha, a população queima os seus mortos.

A meio do caos, pequenos sinais dão conta da tentativa de os haitianos se organizarem numa rotina possível. Limpam ruas, improvisam pequenos comércios à beira da estrada, usam máscaras por causa do cheiro nauseabundo da morte e do formol despejado por helicópteros para evitar infecções. O abastecimento de água continua precário, mas as comunicações estão parcialmente restabelecidas e os telemóveis já funcionam.

A cônsul honorária de Portugal, Hidegard Cassis, abriga no quintal da sua empresa, em Petion-ville, 20 pessoas, incluindo os empregados e as suas famílias, a quem fornece comida e água regularmente. "Muitos perderam as casas e os que não perderam têm medo de lá ficar. É difícil comprar comida e água e eles não têm meios para os adquirir", disse Cassis a uma equipa de reportagem brasileira.

A ajuda internacional continua a chegar ao terreno, mas os constantes tumultos durante as operações de distribuição de alimentos obrigaram as agências da ONU e o Governo haitiano a recorrer a fortes contigentes de segurança.

Na gigantesca praça de Champ de Mars, localizada em frente ao esboroado Palácio Presidencial, uma equipa boliviana forneceu quatro mil litros de água. Dez encarregaram-se da distribuição, enquanto 70 asseguravam a segurança e a ordem nas filas.

A assistência está a ser distribuída de forma caótica. As equipas chegam e atiram o que têm aos haitianos esfaimados. Prevalece a lei do mais forte: os mais altos e mais rápidos conseguem arrecadar quase tudo. Para os mais carenciados - idosos, feridos e outras pessoas debilitadas - pouco ou nada resta.