15.1.10

Portugal "pouco recomendável"

por Rudolfo Rebêlo, in Diário de Notícias

Orçamento tem de espelhar congelamento dos salários para evitar entrada do FMI e alta nas taxas de juro


Com a sombra de uma possível intervenção do Fundo Monetário Internacional (FMI) sobre a economia portuguesa, João Salgueiro e Pedro Ferraz da Costa pediram ontem ao Governo o congelamento dos salários dos funcionários públicos. No sector privado, na ausência de poupanças, será necessário "não aumentar os salários privados para conter o consumo".

"O congelamento" dos salários "será menos mau do que despedir", avisou o economista João Salgueiro, para quem o País "está a definhar" e corre o risco de ser considerado "pouco recomendável", nos meios internacionais, caso as agências de rating revejam as notações para a dívida portuguesa, "logo após a apresentação do Orçamento do Estado". A "alternativa" à "contenção salarial" como forma de "reduzir o consumo" será "emigrar", afirma, por seu lado, Ferraz da Costa. O presidente do Fórum para a Competitividade avisa que o "ajustamento" já está a ser aplicado "às gerações que entram no mercado de trabalho". Nas Finanças Públicas "é evidente que o País encontrará problemas mais difíceis de resolver em termos orçamentais do que por ocasião dos acordos com o FMI", em 1983.

O défice e a dívida externa - que ultrapassa os 100% do PIB - são os indicadores a monitorar, na sequência de ausência de poupanças (que substituíam empréstimos estrangeiros) e do aumento no consumo de bens e serviços, pois, "o País paga juros ao estrangeiro que já comem uma grande parte do produto". As previsões de Inverno do Banco de Portugal, divulgadas esta semana, contabilizam um aumento de 50% no défice da balança de rendimentos até ao fim de 2011. Nessa data, o peso dos juros pagos ao estrangeiro pelos empréstimos contraídos deverá representar 6% do PIB.

"Mais poupanças e menos consumo", resume o Fórum para a Competitividade, para o qual, "a maior parte do discurso oficial não tem aderência à realidade". João Salgueiro - que ontem foi recebido por Cavaco Silva, a seu pedido - acusa a classe política de "entreter e convencer o País durante a campanha eleitoral, que o défice era menor do que a realidade. Foi o que a Grécia fez", afirmou, numa alusão aos erros na informação estatística fornecida por Atenas às instituições internacionais.

De acordo com dados do Banco de Portugal, os portugueses deverão ter o comportamento oposto ao prescrito pelo Fórum para a Economia, no curto prazo: as famílias vão aumentar o consumo em 2010, à custa de decréscimos na poupança. O que, em conjunto com um ligeiro aumento das exportações líquidas, explica o crescimento de 0,7% da economia no corrente ano, após um recuo de 2,7% em 2009.

Ontem, em conferência de imprensa, em Lisboa, o Fórum para a Competitividade pediu contenção nas finanças públicas, mas também, "mudanças profundas" na economia, "que possibilitem o restabelecimento da competitivida-de externa e atracção do investimento estrangeiro", essencial "no quadro da descapitalização do País", tendo em atenção que "o nosso recurso mais escasso é o empresarial". Mais flexibilidade no mercado laboral e mais "eficiência da justiça no funcionamento da economia".