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25.11.20

Prémio BPI "la Caixa" Capacitar Vencedores 2020 - CERCI

in SicNotícias

Na sua 11ª edição, o Prémio BPI “la Caixa” Capacitar foi adaptado ao contexto atual, apoiando projetos que apresentam respostas concretas para acompanhar as pessoas afetadas pela crise provocada pela pandemia do Coronavirus. Conheça, aqui, alguns dos vencedores desta edição.

19.11.20

Potenciadas pela pandemia, aumentaram as consultas online de psicologia

Hugo Moreira, in Público on-line

Ainda que se debatam as vantagens e desvantagens de ter consultas através de um ecrã, o consenso é de que ajudou a colmatar as restrições da pandemia.

Foi a partir de Março, quando a pandemia obrigou os portugueses a ficarem em casa, que Marta, 22 anos, deixou de ir ao consultório para passar a falar com a sua terapeuta à distância. As consultas de psicologia “à distância” não eram uma raridade, mas passaram a ganhar adeptos de forma “exponencial” depois da covid-19 ter mudado as nossas vidas, confirma David Neto, presidente do conselho de especialidade de psicologia clínica e da saúde da Ordem dos Psicólogos Portugueses (OPP).

Justifica-se não só com transição para o online de clientes regulares, mas também com maior procura de quem nunca teve ajuda psicóloga, acrescenta o especialista, salvaguardando que os profissionais devem transpor para o online os mesmos princípios aplicados em consultório. “Os estudos que existem, para já, apontam para taxas de sucesso [entre os dois tipos de consultas] equiparadas”, acrescenta.

Desde muito antes da pandemia que as consultas à distância eram já uma realidade para a WeCareOn. Criada por Paula Ribeiro, disponibiliza desde 2015 consultas de psicologia através da Internet. A criadora conta que foram os primeiros a apresentar o serviço no país e que teve que “validar” com aOPP a legalidade do projecto. “As pessoas começaram a ter mais atenção à sua saúde mental”, justifica Paula Ribeiro face à procura crescente e argumenta que muitos dos clientes “nunca procurariam consultas de psicologia” se o contexto não fosse online. A videochamada é a estratégia mais procurada, mas também há consultas por chamada de voz, chat ou e-mail.

O aumento não se verifica só nos clientes individuais. “Desde Março temos tido muitas empresas a procurar os nossos serviços”, confirma Paula Ribeiro, sendo que antes da pandemia “a maior parte das empresas não apostava muito” em oferecer consultas aos colaboradores.

Sem a Internet, a Blind Talk era impossível, explica Gonçalo Neves, co-criador da plataforma que disponibiliza sessões de esclarecimento com psicólogos, mas em regime de anonimato. O serviço “não é de intervenção, mas sim de aconselhamento” sobre como é que a psicologia pode ajudar, sublinha. Porquê o anonimato? “O receio da forma como o problema vai ser recebido ou a vergonha de falar de determinado assunto”, exemplifica. O objectivo é que depois da sessão se possa procurar uma intervenção já sem esconder a identidade.
Resultados “fáceis e rápidos”

Por estes dias, 100% das consultas de Gonçalo Neves são online. O psicólogo admite que quer os seus colegas quer os doentes tenham algumas reservas em relação a este método, mas sublinha que “os estudos que têm saído confirmam que há um efeito terapêutico” nas consultas feitas à distância.

Paula Ribeiro confirma que as métricas e estudos revelam que “na maioria dos casos, os resultados nas consultas online são mais fáceis e rápidos”. Em parte, porque as pessoas estão “em casa na sua zona de conforto”, conseguindo “explicar muito mais rapidamente a sua história do que numa sessão presencial”. Contudo, diz ser “fundamental criar um bom setting terapêutico online” para garantir que “a tecnologia está lá para suportar e não para ser dificultar”.

David Neto da OPP não é tão confiante quanto quem já pratica este género de consulta. “As pessoas consideram os consultórios lugares seguros. Já tive experiência de consultas à distância em que as pessoas falam mais baixinho quando se abrem sobre outras pessoas que estão na mesma casa”, testemunha. Experiência semelhante tem Marta, estudante de Relações Internacionais, confirmando sentir algum “desconforto” e “confusão” por não se conseguir “desligar” do seu ambiente. O consultório ajudava-a a “distanciar e centrar no que era preciso processar”. Se a pandemia acabasse hoje, não duvida que “a decisão seria regressar ao consultório”. “Mas é completamente possível fazer-se online e acho que é essencial, sobretudo nesta altura em que tanta gente precisa”, reconhece.

O representante da OPP lembra que o novo contexto permite pelo menos manter o acompanhamento, ajuda a “combater as desigualdades” no acesso ao apoio psicológico em diferentes regiões do país e permite “reduzir custos”. Reitera ainda a importância de procurar profissionais credenciados, e reconhece que esta é uma ferramenta que veio para ficar. “E ainda bem”, conclui.

16.11.20

Para sempre, preso

Helena Bento e Tiago Soares, in Expresso

Em abril, o Governo libertou 2155 reclusos para evitar o contágio nas prisões. Muitos acabaram sem apoios e a dormir nas ruas. “Não sabia para onde ir”. Nesta segunda onda, não haverá novas libertações. Apesar de o vírus ter chegado em força às cadeias

Na prisão, perguntaram a Francisco Fonseca, 48 anos, se tinha onde ficar. Ele disse que sim, mas estava a mentir. “Saí às seis e tal da tarde, sem dinheiro, sem nada. Senti-me desesperado, porque não sabia para onde ir.” Dormiu duas noites na rua e à terceira foi a casa de um amigo que conheceu no Estabelecimento Prisional de Lisboa. Fumaram, “mas só uma ganza”, beberam uns copos, “mas só cerveja”. Sentiu-se melhor, mas por pouco tempo.

Entrou num autocarro e começou “a sentir o corpo a desligar”. Pediu ao motorista para chamar o 112, mas ele não acreditou e fê-lo sair na última paragem. Francisco obedeceu, deu uns passos e caiu no chão. Os bombeiros chegaram pouco depois.

Francisco — cujo crime pelo qual foi condenado o Expresso não divulga, seguindo a prática das associações que trabalham na área — viu a sua pena perdoa­da a 14 de abril, três dias depois de entrar em vigor o regime que determinou a libertação de reclusos nas prisões nacionais. Saíram mais de duas mil pessoas: 1415 perdões parciais da pena, 726 saídas administrativas (281 das quais resultaram em liberdade condicional) e 14 indultos presidenciais. O objetivo era criar espaço nas cadeias e evitar surtos de covid-19, mas várias associações ouvidas pelo Expresso garantem que muitos reclusos ficaram sem apoios e habitação durante a pandemia.

“Muitos disseram que tinham apoio cá fora, quando não tinham. Só assim podiam sair da prisão”, conta José Brites, presidente da associação O Companheiro, que apoia reclusos e ex-reclusos e onde Francisco foi acolhido. A saída implica “provas eficazes de que o recluso tem quem o apoie no exterior”, mas desta vez não houve tempo para isso.

Outra fonte de uma associação é perentória: “Saíram ao calhas. Foram libertados de um momento para o outro, foi uma desorganização, tudo feito à pressa. Abriram simplesmente as portas da prisão e os reclusos foram deixados ao deus-dará, sem dinheiro, sem terem para onde ir.”

Ao Expresso, o Ministério da Justiça e a Direção-Geral de ­Reinserção e Serviços Prisionais (DGRSP) fazem um balanço “positivo” da aplicação do regime de flexibilização de penas. Dos 2155 reclusos que viram as penas perdoadas, 70 regressaram à prisão por novos crimes. Também regressaram 84 dos reclusos com licença administrativa, por incumprimento das regras, 11 não consentiram na renovação da licença, 11 regressaram voluntariamente e 14 não viram a licença renovada por parecer desfavorável dos serviços prisionais.

LIVRES, A DORMIR NA RUA

“Situações de emergência obrigam a respostas de emergência”, diz José Brites, reconhecendo que “poderia ter havido um acompanhamento mais específico. Alguns reclusos ficaram sem acesso a medicação depois de serem libertados. Também foram interrompidos programas de substituição de metadona”.

O Ministério assegura que as pessoas libertadas “levaram consigo receitas para se dirigirem a farmácias e adquirir medicamentos”. Sobre o processo de libertação, que, de tão repentino, terá impedido uma saída organizada das prisões, sublinha que “a libertação dos reclusos é feita em função dos mandados de libertação recebidos dos tribunais e tem execução imediata”.

Rui não largava o rádio na prisão, mas acabou por ser surpreen­dido pelo vírus quando saiu. “Eu sabia da pandemia, mas não tinha noção do problema. Não me disseram nada lá dentro.” Tem 53 anos, foi libertado de Caxias em abril: saiu sem dinheiro, era fim de semana, os bancos estavam fechados. Ficou sem saber para onde ir e pedir ajuda à família não era uma hipótese: não sabem sequer que esteve preso.

Francisco Chaves, presidente da Desafio Jovem, que apoia pessoas com problemas de dependência, lamenta não ter podido acolher um ex-recluso, que acabou “a dormir na rua, sentado num banco de jardim em frente à prisão”. Um guarda que o conhecia deu-lhe comida durante a noite. “Era domingo e já muito tarde. Se fosse buscá-lo, estaria a violar as normas da DGS.” Descreve o processo de libertação como “caótico”. “Foram colocados não sei quantos reclusos nas ruas sem articulação com as diferentes instituições.”

Celestino Cunha, da Comunidade Vida e Paz, que distribui comida nas ruas de Lisboa, encontrou alguns deles, “entre 20 a 30”, nas suas rondas pela cidade. “Logo depois de ter sido anunciada a libertação, começámos a encontrar mais ex-reclusos. Diziam-nos que tinham acabado de sair e não tinham para onde ir.”

Vários acabaram por recorrer à Unidade de Emergência da Santa Casa da Misericórdia de Lisboa (SCML). Foram 33, entre 14 de abril e 7 de maio. “Nunca tivemos um boom assim”, diz Marisa Melo, assistente social, admitindo que não houve qualquer contacto por parte da DGRSP para agilizar os processos, como está definido. “Ninguém saiu daqui sem ser alojado”, garante Celeste Brissos, diretora da unidade.

No Grande Porto, as equipas de ajuda a sem-abrigo (NPISA) tiveram conhecimento de 30 ex-reclusos nesta situação. Fernando Paulo, vereador da câmara e coordenador do NPISA no distrito, lamenta que o processo tenha sido “atabalhoado”. Destas 30 pessoas, 12 foram referenciadas e acompanhadas pelo Instituto da Segurança Social entre 12 e 17 de abril, “o período mais crítico, porque súbito”. Aqueles “sem retaguarda familiar ou sem condições económicas” tiveram alojamento e refeições.

No caso das precárias, “foi tudo feito com muito pouco critério e em alguns casos com uma injustiça atroz”, diz Gil Balsemão, advogado e membro do conselho consultivo da Associação Portuguesa de Apoio ao Recluso (APAR). “Houve decisões completamente absurdas. Foi uma questão de timing. Os primeiros casos que os estabelecimentos prisionais mandaram para a DGRSP tiveram sorte. A partir da terceira semana não saiu mais ninguém”, diz o advogado. E não voltará a sair. “O Governo não pensa apresentar mais nenhuma proposta para libertar pessoas em contexto de emergência”, afirmou a Ministra da Justiça esta semana no Parlamento.

“REINSERÇÃO SOCIAL É CARA”

Elisabete conseguiu uma saída precária através do regime excecional. Foi para casa da mãe, no concelho de Oliveira de Azeméis. “Estou a fazer tudo como manda a lei. Não saio nem para pôr o lixo.” Tem 43 anos e cumpria, desde setembro de 2016, uma pena de sete anos e meio na prisão de Santa Cruz do Bispo. A pandemia aumentou a incerteza, a notícia da libertação de reclusos duplicou-a. Preenchia os requisitos, já tinha tido dez precárias e todos os relatórios de comportamento positivos. “Sofremos bastante. Foi tudo muito confuso. Um dia diziam que íamos sair, no outro tiravam-nos o tapete de debaixo dos pés. Algumas guardas faziam pressão psicológica. Diziam ‘vocês pensam que a cadeia vai ficar vazia, que se vão embora?’.” Esteve quase um mês sem saber.

“Saíram ao calhas. Foram libertados de um momento para o outro, foi tudo feito à pressa”

Saiu num sábado e as precárias de 45 dias foram sendo renovadas. No final de setembro, tinha cumprido cinco sextos da pena: ficou em liberdade condicional. Mas podia ter sido mais cedo. Em maio, a audiência chegou a estar marcada, mas foi adiada devido à covid-19. “Por tão pouco tempo, podiam ter-me dado a liberdade condicional, se não como é que vou reintegrar-me na sociedade?”

“A reinserção social é cara”, disse o diretor da DGRSP, Rómulo Mateus, numa audição parlamentar em julho. “Mas compensa: cada euro investido na reinserção tem frutos sumarentos”, acrescentou. O responsável apontou para a “emergência” do país em rever as carreiras e investir nos técnicos de reinserção social, envelhecidos e insuficientes. “Os juízes são muito relutantes em conceder a liberdade condicional, porque sabem que não há acompanhamento na ressocialização”, escreveu Licínio Lima, ex-subdiretor da DGRSP, no “Observador”.

Jorge, 35 anos, também saiu da prisão em abril, mas com a certeza de que voltará a ser preso. “Sem um bocadinho de estabilidade é difícil. Se preciso de dinheiro para comer e não tenho outra opção, claro que vou fazer a única coisa que me vai safar.” Começou a consumir muito novo, ficou vicia­do, passou a vender droga para alimentar o vício. Tem no cadastro quatro detenções — percebeu que queria mudar de vida no final da primeira.

“Quando finalmente os reclusos ficam em liberdade, não arranjam meios para uma vida digna, e mais cedo ou mais tarde voltam ao crime”, lamenta Almeida Santos, presidente da associa­ção Obra Vicentina de Auxílio aos Reclusos. “O estigma de ser ex-recluso torna muito difícil a entrada no mercado de trabalho”, assegura Marisa Melo.

Devido a problemas de saúde, Rui não pode trabalhar, mas é demasiado novo para ser acolhido num lar. Elisabete recebeu a liberdade condicional a 27 de setembro e continua à procura de trabalho. Jorge ainda não voltou à prisão. Francisco perdeu entretanto o emprego. Está a dormir na rua há várias semanas.

COVID CHEGA EM FORÇA ÀS PRISÕES

Já há dois grandes surtos nas prisões portuguesas. Esta quinta-feira, foi revelado que há 59 reclusos e um guarda no Estabelecimento Prisional de Lisboa (EPL) que testaram positivo à covid-19. Os serviços prisionais determinaram que os presos que estão infetados, “genericamente assintomáticos”, fiquem numa única ala da cadeia onde permanecerão em isolamento, separados da restante população prisional. Toda a população do EPL, entre reclusos (900) e trabalhadores (240), vai ser testada nos próximos dias. A cadeia com mais casos continua a ser o Estabelecimento Prisional de Tires, que tem neste momento 148 reclusas com covid-19, duas crianças que se encontram com as suas mães e oito trabalhadores. A direção dos serviços prisionais garante que nos próximos dias haverá nova testagem das prisioneiras de Tires que agora deram negativo. A Comissão dos Direitos Humanos da Ordem dos Advogados alertou entretanto para a violação de alguns direitos destas reclusas. No início da semana, a ministra da Justiça anunciou que não vai apresentar um novo regime excecional de libertação de reclusos, semelhante ao efetuado em abril. No total, há agora 227 casos positivos de reclusos e 81 de trabalhadores. E receia-se que os números escalem nos próximos dias. HUGO FRANCO

27.5.20

O medo e a mágoa na vila onde Portugal enfrentou há um século uma outra “peste”: a tuberculose

Mariana Correia Pinto (texto) e Manuel Roberto (fotografia), in Público on-line

O novo coronavírus não chegou ao antigo epicentro da luta contra a tuberculose. Mas instalou mais medo do que a “peste branca”. Os dias da pandemia recordam ao Caramulo o isolamento pré-covid-19 e trazem saudades de dias agitados. A mágoa maior da vila do interior ainda é o abandono.

De repente ele estava ali, na morada da doença onde se sonhava a cura. À insuficiência da medicina atendera a crença nos poderes curativos do descanso, da alimentação certeira e dos bons ares do Caramulo. Valentina Vila fez a viagem de Bragança até à vila serrana para visitar o marido, recordando a fraqueza repentina do homem, as febres altas, o sangue expelido na tosse. Tuberculose, diagnosticara o médico, ordenando o internamento num sanatório. Ela não tinha medo. Ansiava o reencontro sem imaginar a surpresa com a geografia onde iria estacionar: “Era a coisa mais linda que já tinha visto…” Mais de 50 anos passados, ainda se emociona ao recordar aquele momento em que a ideia de futuro venceu o temor de um fim precoce para a “tísica”. Talvez por isso, desse ano de 1964 guardou primeiro a memória da serra “toda florida” e só depois a da doença. Ela que viu morrer gente e amparou, sem protecções, as hemoptises do marido e de muitos doentes do sanatório onde se empregou. “Não me incomodava. A gente não tinha noção, por isso não tinha medo.”

Valentina Vila, 82 anos, agarra-se a esse pretérito para enfrentar os tempos pandémicos de 2020. No sanatório Boa Esperança, hoje transformado em lar, trabalhava na “rouparia”, fazia as camas, cuidava dos doentes. Sem máscara, luvas ou gel desinfectante. “Sou uma pessoa que tem um nome que condiz comigo: Valentina, de valente”, brinca, fita no cabelo e camisola rosa posta. Aos filhos, preocupados com a covid-19, jura-lhes ter anticorpos criados pela experiência: “Vivi lado a lado com tuberculosos. Estou protegida desde esse tempo. Hei-de morrer, mas não é disto.” Não se confunda a convicção da transmontana com desprezo pela doença: “Agora é pior”, avisa se lhe pedem para pôr as duas épocas na balança. “Toda a gente faz muito cuidado. Respeitamos o vírus, que não conhecemos, por medo do que virá.”

No Caramulo, epicentro da cura da tuberculose em Portugal, onde outrora se guardou a maior estância senatorial da Península Ibérica, o novo coronavírus ainda não infectou ninguém. Mas infiltrou-se de fininho nos quotidianos. E transformou quase tudo.

São 10h30 e um casal toma o pequeno-almoço numa mesa do café Marte, uma mulher bebe um café, homens entram e saem, fazendo pedidos rápidos ao balcão. De fora, vem o ruído das máquinas a levantar poeira enquanto se instala um renovado saneamento na vila do distrito de Viseu, obra iniciada durante a pandemia. Hélder Leal não perdeu a energia para o confinamento nem se rendeu à crise instalada sem aviso no seu estabelecimento.

O negócio “baixou drasticamente” ainda a ordem para fechar portas não havia sido declarada e a retoma, agora que reabriu mas as regras impõem limitações de clientes, adivinha-se lenta. Accionou um processo de layoff, cancelou contratos com fornecedores, comunicou à distribuidora de jornais a suspensão do acordo firmado. Por mais de dois meses, a vila perdeu a sua “casa de utilidade pública”, como Hélder Leal gosta de classificar o seu café e restaurante, lugar onde os turistas paravam, os moradores conviviam, a conversa se esticava, os jornais se vendiam. Não há, naquele território com cerca de mil habitantes, mais nenhum quiosque.

Talvez por essa escassez de notícias, a Rádio Emissora das Beiras, difundida a partir de uma moradia bem perto dali, viu as audiências do 91.2 e do site subirem mais de 200%. A pequena redacção mantém centenas de vinis e CD empilhados, atesta a memória com recortes de jornais e posters autografados por cantores populares, mas mistura a fidelidade da programação inspirada nos tempos da onda média com alguma modernidade. Marta Catarina Rosa, a jornalista, conhece bem a fórmula de sucesso da rádio: “Não interessa tanto noticiar o que se passa no Parlamento, mas mais as obras da vila, o encerramento dos espaços”, exemplifica. Em tempos de covid-19, juntou à informação útil um lado pedagógico: permanecer em casa, manter distâncias, lavar as mãos.

Para Lopes da Rosa, o director da estação, o “grande medo” dos dias de hoje tem paralelo com os anos da “peste branca” a assolar o país e o mundo. “A tuberculose era uma tragédia. Aqui tratava-se muita gente, mas também morriam muitos. Ficavam aqui anos e anos internados, às vezes rejeitados pelas famílias.” Lopes da Rosa havia cumprido serviço militar no Norte de África e retornava à capital a ansiar a normalidade quando uma inspecção médica lhe detectou a doença. Estava o ano de 1974 a principiar. Estacionou os sonhos para rumar ao Sanatório Salazar, renomeado pelo povo como Sanatório 25 de Abril logo após a revolução.

Por essa altura, a estância sanatorial já vivia tempos de queda. Na terra rural do início do século passado, Jerónimo Lacerda instalara em 1920 um hotel para hóspedes com fraquezas, driblando ainda a palavra sanatório e a carga negativa da doença. Mas os anos 1930 eram já dramáticos, como demonstram as 13 mil mortes anuais registadas nas estatísticas oficiais do país. E a guerra civil espanhola e a Segunda Guerra Mundial faziam doentes de fora eleger Portugal para se tratar.

Em alguns anos, a vila ganhou movimento de cidade, com 20 sanatórios, rede de distribuição de água, barragem própria, rede de esgotos, centro de tratamento e incineração de lixos, uma estrutura para recuperação das águas contaminadas, posto de correios, central telefónica, matadouro, escola primária. A descoberta da estreptomicina, nos anos 1940, deu esperança renovada no combate ao bacilo de Koch e, duas décadas depois, a doença enfraquecia. As estâncias do Caramulo esmoreceram, até ao derradeiro fim, já nos anos 1980.

A agitação de outros tempos plantou saudades duradouras em terras serranas. Esmeralda Calheiros, 84 anos, trabalhou na lavandaria dos sanatórios. “Lavávamos tudo com água, sabão e lixívia”, recorda. Às vezes, a roupa dos doentes aparecia cheia de sangue e descobriam “pedaços de costelas”. As colegas “brincavam com a doença”, sem temores maiores: “Diziam: ‘Olha um bife’”, conta divertida. Todos se “governavam” ali, trabalhando nos sanatórios, directa ou indirectamente. E agora, vai dizendo da varanda florida da sua casa, já nada se assemelha ao passado: “O Caramulo caiu e caiu e caiu… Agora está mesmo no chão.”
Na rua da sua casa, junto ao cemitério, um homem enfrenta o sol com o guarda-chuva aberto. “José Brasileiro é o meu nome, assim me conhecem.” Tem 86 anos, nasceu no Caramulo e de lá nunca saiu. “Tomara aqueles tempos. Vivia-se melhor aqui do que na cidade.” Palavra de agricultor a quem a tuberculose nunca meteu medo e a covid-19 passa ao lado: “A doença aqui é muito difícil de pegar. O ar não autoriza a chegada do vírus. Só mesmo se vier de fora”, comenta convicto enquanto Esmeralda Calheiros passa, já de máscara na cara e chapéu florido. Vai ao cabeleireiro, dois meses de confinamento depois, tentando mascarar a inquietação entranhada nos seus dias: “Estamos a viver tristes e cada vez mais tristes...”

O sentimento é mistura de melancolia do passado e mágoa do presente. Assim o explica José dos Prazeres, proprietário do mercado Serrano, para quem “a tristeza maior do Caramulo continua a ser o abandono”. Os sanatórios em ruína, a população envelhecida e os mais novos a partir, vários restaurantes e café desaparecidos, a pousada encerrada, a sede da GNR com ervas daninhas. E, com a pandemia, hotel, posto turístico, museu e igreja fechados, a maioria das lojas trancadas, as ruas desertas. O posto médico encerrado.

Alice Costa sai do mercado com dois litros de leite num saco e logo se pronuncia sobre o acontecimento: “O posto tem de abrir, temos de nos juntar, novos e velhos, e ir a Tondela.” Aos 80 anos, conta histórias de dor profunda do passado, mas atira o pesar maior para o presente: “Este vírus é muito pior. Tenho medo.” No tempo da “tísica”, diz, “havia muita higiene, tudo era escaldado, havia escarradeiras na rua, nos cafés, na igreja, a louça D e S, para doentes e saudáveis”. José dos Prazeres entende o raciocínio. Também ele esteve internado num dos sanatórios, aos 18 anos, com “uma ferida no pulmão do tamanho da unha grande” e viu-se, nestes dias, a copiar comportamentos de outrora. “Quando havia tuberculose, fechava a janela do carro com medo do contágio, e agora aconteceu-me fazer o mesmo.” A mortalidade não é sequer comparável, mas o receio actual avolumou-se. “Lembro-me de ser miúdo e de haver aqui três e quatro funerais por dia”, conta, logo interrompido por Alice Costa: “O Diamantino carpinteiro fazia caixões dia e noite. Todos os dias morria gente.”

O medo não pode nada com Francisco Leite. Boina posta, máscara na mão, 88 anos cumpridos em Abril, chega à porta do mercado a desafiar José dos Prazeres para “jogar à bisca”. Foi parar ao Caramulo em 1955, depois de chegar da guerra na Índia, onde passou “fome de cão” sem vacilar perante nenhuma doença. Foi taxista e num carro de seis levava, por vezes, dez ou 12 pessoas. Apanhava muitas vezes os “magalas” de um dos sanatórios, levava-os a Viseu, ao Porto, onde quisessem. “Nunca apanhei nada”, orgulha-se. Ao novo coronavírus responde com lavagem de mãos e desinfectante. “Tenho cuidados, mas a vida continua”, avisa, indisponível para confinar a liberdade.
Na morada onde se viu a morte e enterrou a doença, habita há muito a solidão e o isolamento. Do pátio de casa, Valentina Vale já não vê a serra bela pela qual se apaixonou. “Há coisas que foram e já não voltam”, pronuncia baixinho, as lágrimas a abrilhantar os olhos. “Isto já não é o Caramulo, é uma serra morta.”

21.5.20

Sentir a Europa: A covid-19 e o paradigma do envelhecimento ativo

in Postal

Durante o mês de maio publicamos textos de opinião/reflexão sobre a atual crise pandémica e o modo como ela afeta o sonho da Europa na perspectiva dos autores. Sempre com uma nota de esperança! #DiadaEuropa #Europaemcasa #Maionaeuropa #juntossomosmaisfortes #Europanopostal

Numa Europa que se pauta desde 2012 por um envelhecimento ativo, surge uma pandemia que destrói todo este paradigma. A esta franja etária pós -70 anos, com comorbidade, exige-se ainda, por um tempo indeterminado, um cuidado redobrado e a imposição de um recolhimento obrigatório.

Os lares e residências de idosos ficaram sem visitas, todas as atividades lúdicas de entretenimento e de socialização foram canceladas. As rotinas foram alteradas, ficaram pálidas, sem cor. A mobilidade e autonomia diminuíram drasticamente, o que trouxera outros problemas a nível de saúde física, mental e social. O stresse e a preocupação dos cuidadores, transmitem ansiedade aos idosos, agravada muitas vezes pela parca comunicação, com máscara e distanciamento, que lhes impede a leitura labial, e sem o toque reconfortante afetivo, confinando-os ainda mais à solidão. Não têm o domínio das novas tecnologias e, muitos, nem consciência exata da gravidade do vírus.
Há reações adversas: nem todos acataram, com a mesma lucidez e obediência, as recomendações. Há os que têm medo de morrer e não querem sair, e há os que desafiam, em modo de rebeldia, dizendo que não têm nada a perder.

Para se evitar a propagação do Covid-19, demanda-se comportamentos estranhos, antissociais, que parece falta de educação. Arrancaram-lhes o que de mais alento a vida lhes dá: o convívio com os que amam, a jogatana de sueca no jardim, ou a conversa coloquial com o senhor do café.

Compete a todos nós ter uma responsabilidade pró-ativa com os idosos mais próximos. Voluntariarmo-nos para ajudá-los, e sermos também mais assertivos, criativos, reinventarmo-nos, para não os deixar desanimar, transmitindo-lhes tranquilidade e confiança no nosso olhar, que pode sempre sorrir.

Por isso, disponibilizem-se para qualquer recado ou compra. Dêem-lhes um reforço positivo, uma palavra encorajadora de apreço ao seu esforço no isolamento! Façam-lhes muitos telefonemas, oiçam -nos, valorizem os seus conteúdos de conversa, sejam gentis, perguntem-lhes pequenas coisas, pode ser uma simples receita ou um conselho. Se houver possibilidade, nada melhor que uma vídeo chamada, podendo até partilhar um momento importante do vosso dia-a-dia. Para quem puder, incentivem passeios higiénicos com a devida proteção, a música e a dança. Levem-lhes pequenos miminhos esterilizados de vírus, todavia contaminados de amor: podem ser bilhetes ou cartas escritas à mão, fotografias marcantes, passatempos e alguma comida, ou doce do agrado deles.

O futuro ficou nublado, mas o presente terá que ser desfrutado, com os nossos melhores recursos e valores. Nunca nos esqueçamos da importância desta geração, que tanta coisa boa nos proporcionou. Está na hora de lhes mostrarmos a nossa gratidão, revelar o nosso carácter e a nossa solidariedade, por isso, doemos-lhes então o nosso tempo e disponibilidade na quarentena. Há a inversão dos papéis de outrora: são eles que agora têm que ficar no ninho, compete-nos lhes trazer de tudo.

O amor mesmo à distância pode ser lido sempre nas entrelinhas das ações. Um simples adeus à janela em tempo covídicos pode querer dizer-lhes tudo, que nós estamos lá e precisamos tanto deles. Talvez o amor, seja a única razão para não desistir.

Centro Europe Direct Algarve

O Centro Europe Direct Algarve é um serviço público que tem como principal missão difundir e disponibilizar uma informação generalista sobre a União Europeia, as suas políticas e os seus programas, aos cidadãos, instituições, comunidade escolar, entre outros. Está hospedado na CCDR Algarve e faz parte de uma Rede de Informação da Direcção-Geral da Comunicação da Comissão Europeia, constituída por cerca de 500 centros espalhados pelos 28 Estados Membro da União Europeia.

A Rede de Centros Europe Direct em Portugal inclui 15 centros e é apoiada pela Comissão Europeia através da sua Representação em Portugal.

Os Centros de Informação Europe Direct atuam como intermediários entre os cidadãos e a União Europeia ao nível local. O seu lema é «A Europa perto de mim»!

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7.5.20

Sinalizados cerca de 130 lares ilegais no distrito de Santarém

in Correio do Ribatejo

O distrito de Santarém tem sinalizados cerca de 130 lares ilegais em funcionamento, número que está em actualização e que pode “pecar por defeito”, abrangendo “largas centenas de utentes e funcionários”.

“Há um número, um número que à partida nós entendemos que é capaz de pecar por defeito, mas que no distrito de Santarém andará à volta de 130 estruturas destas”, disse em declarações à Agência Lusa o presidente da Comissão Distrital da Proteção Civil, Miguel Borges, indicando que a estrutura a que preside pretende apurar o número exacto através do cruzamento de dados da Segurança Social, das estruturas municipais de protecção civil, entidades de saúde e outras.

“[O objectivo principal é] poder bater à porta destas pessoas, dizer que estamos aqui para ajudar enquanto protecção civil municipal e saúde pública e saber se precisam de alguma coisa, se as pessoas estão em condições dignas daquilo que é a condição humana e, se não estiverem, dizer que estamos aqui para ajudar, sendo que este não é o momento de fiscalização ou de inspecção propriamente dita, mas sim perceber se as pessoas estão bem e se é preciso ajudar também nos testes [à covid-19] para os funcionários” destes equipamentos, acrescentou.

Para o responsável, esta “é a hora de tratar todos por igual, estejam as pessoas em estruturas legais ou nas chamadas ilegais”.

Reiterando que o contexto actual afasta qualquer “atitude fiscalizadora ou inspetiva”, Miguel Borges sublinhou que uma intervenção deste género, a ter lugar, será num momento posterior à pandemia.

Segundo o responsável, o número de lares ilegais no distrito de Santarém “é significativo”, lembrando que as casas de acolhimento de idosos têm um mínimo de três utentes, o que a lei permite, e “se 130 estão ilegais é porque terão mais, algumas até com muitas dezenas de idosos”.

“Basta fazer as contas para vermos que falamos de largas centenas de pessoas, entre idosos e funcionários”, acrescentou.

O presidente da Comissão Distrital de Proteção Civil de Santarém disse ainda que o processo em curso abarca diferentes tipologias diferentes de actuação e que as mesmas se prendem com as condições sanitárias e com a existência ou não de infectados com SARS-Cov-2.

“Durante a visita a estes espaços serão apuradas as condições mínimas da casa de acolhimento ilegal e, se não oferecer o exigido, a actuação passa por procurar outras estruturas de retaguarda já referenciadas para instalar os idosos e tendo um único objectivo que é o de salvaguardar a pessoa idosa”, afirmou, tendo reiterado que o objectivo “é ajudar, numa atitude pedagógica e preventiva”, designadamente com os “testes aos cuidadores, tal como acontece com os funcionários das Estruturas Residenciais Para Idosos e das Instituições Particulares de Solidariedade Social”.

A realidade do distrito de Santarém, afirmou Miguel Borges, “deverá ser transversal a todo o país”, lembrando existir uma “população muito idosa e onde a esperança de vida é cada vez maior”, e onde “as estruturas referenciadas como legais não são suficientes para as necessidades”.

Nesse sentido, defendeu, esta é uma situação que “deve entrar na agenda política”, sendo também uma “oportunidade e um ponto de partida” para a “eventual legalização destas situações, para todos poderem trabalhar descansados e os idosos estarem protegidos”.

Diabéticos indignados com o Governo: não querem fugir aos empregos nem aproveitar-se da pandemia

Diogo Cardoso Oliveira, in Público on-line

Em causa está a saída de pessoas com diabetes e hipertensão da lista do regime excepcional de protecção no âmbito da covid-19, impedindo-as, assim, de terem as faltas ao trabalho justificadas por declaração médica. Uma decisão classificada pelas associações como “ridícula”, mas que o Governo já veio explicar.

A decisão prometia gerar polémica e as reacções contundentes não demoraram. Primeiro, o Governo decidiu retirar as pessoas com diabetes e hipertensão da lista do regime excepcional de protecção no âmbito da covid-19, impedindo-as, assim, de terem as faltas ao trabalho justificadas por declaração médica – nos casos em que não fosse possível exercer as funções à distância.

Agora, chegam as reacções. Definindo a decisão estatal como “ridícula”, a Associação Protectora dos Diabéticos de Portugal (APDP) garante ao PÚBLICO que os diabéticos não estão a querer aproveitar-se da pandemia e crê que a medida “deve ser retirada em nome de um critério mais inteligente e sensato”.

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“Se acham que as pessoas com diabetes não querem trabalhar e estão a querer refugiar-se atrás da covid-19, isso é uma ofensa. [Governantes] desdenham o esforço diário dos diabéticos, que se esforçam diariamente para controlarem a doença. Controlam a alimentação, a actividade física, os olhos, os pés… é uma doença muito complicada e o respeito é merecido”, aponta ainda José Manuel Boavida, presidente do organismo, que começou o telefonema com o PÚBLICO definindo-se revoltado.

“Como estou? Estou mais ou menos. Esta situação é complicada. E é incómoda para quem tem andado a esforçar-se pelos diabéticos portugueses. Fiquei estupefacto quando soube da decisão do Governo”.

Argumentando que esta não tem “nenhuma justificação que possa ser apontada do ponto de vista sanitário, do risco, da gestão da doença e da abordagem a um grupo populacional alargado como são os diabéticos”, o dirigente vai mais longe na acusação. “É uma decisão política (…) mas as doenças não se tratam por decreto. “Se fomos ouvidos? Não. Ninguém foi ouvido. Mas se querem que a sociedade participe neste combate, ouçam-nos. Não queremos ditar nada, queremos apenas participar na discussão", começa por disparar, questionado sobre qual seria a intenção do Governo.

Terá sido por considerar residual o número de diabéticos com reais limitações para trabalharem? José Manuel Boavida crê que não será por aí. “Se foi isso, não penso que seja um raciocínio defensável. É claro que há pessoas com diabetes que têm óptimas condições para ir trabalhar, mas o regime actual [que protege apenas pessoas que associem problemas crónicos, cardiovasculares, oncológicos e respiratórios] abrange apenas 60 ou 70 mil pessoas”. Um número baixo, defende, num universo de cerca de 700 mil diabéticos, dos quais dois terços estão reformados – sobrarão qualquer coisa como 200 mil doentes.

Opinião diferente, sobretudo nos números, tem o Governo. António Lacerda Sales, secretário de Estado da Saúde, justificou que “os diabéticos e hipertensos podem ficar tranquilos e confiantes”, porque a maioria estará coberta “pelo chapéu das doenças crónicas”. “Na sua grande maioria, são factores de risco para doenças crónicas (…) e, por isso, são essencialmente compensados. A grande maioria dos diabéticos e hipertensos em Portugal está compensada”, disse, na conferência de imprensa de actualização do estado da pandemia.

E também esta posição já mereceu reacção da APDP, na tarde desta quarta-feira. “Dizer que só são doenças quando estão descompensadas é quase um convite a quem quisesse uma justificação para o trabalho deixasse por momentos a medicação. Parece-me um discurso algo irresponsável, até. Descompensado fica protegido, compensado não fica. Descompensado não é uma doença crónica, é uma doença aguda”, diz o organismo, em resposta por e-mail.

Sociedade Portuguesa de Diabetologia fala de “exclusão propositada”

Também a Sociedade Portuguesa de Diabetologia (SPD) está “negativamente surpreendida com a exclusão propositada das pessoas com diabetes e hipertensão do regime excepcional de protecção da covid-19”.

Em comunicado enviado às redacções nesta quarta-feira, a SPD fala de uma “exclusão propositada” deste grupo de cidadãos. E detalha: “Não percebemos qual é a intenção do Governo ao excluir as pessoas com diabetes do regime excepcional de protecção. A SPD há meses que faz um trabalho árduo no sentido de sensibilizar as pessoas com diabetes para o risco acrescido que têm perante a covid-19. Vários elementos do próprio Governo têm feito múltiplas menções a este risco”. “Foi uma surpresa para nós esta exclusão” destaca João Filipe Raposo, presidente do organismo.

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A organização defende ainda que as sociedades científicas deveriam ter sido ouvidas antes desta decisão. “Os diabetes representam um sério problema de saúde pública em Portugal, com mais de um milhão de pessoas a viverem com a doença (…) esta exclusão deixa estas pessoas numa situação de vulnerabilidade ainda maior”, concluem.