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9.11.20

Governo volta a regularizar temporariamente imigrantes com processos pendentes no SEF

Joana Gorjão Henriques, in Público on-line

Imigrantes que tenham feito o seu pedido de regularização no Serviço de Estrangeiros e Fronteiras entre 18 de Março e 15 de Outubro, e tenham prova disso, passam a ter acesso a direitos sociais. Estudantes do ensino secundário e superior podem recorrer a renovação automática.
8 de Novembro de 2020, 20:33

Tal como aconteceu no final de Março, o Governo decidiu que todos os imigrantes com processos pendentes no Serviço de Estrangeiros e Fronteiras (SEF) que tenham dado entrada entre 18 de Março e 15 de Outubro vão ficar regularizados de forma provisória, permitindo-lhes ter acesso a direitos sociais.

A medida tomada em sequência do estado de calamidade consta num despacho publicado este domingo à noite em Diário da República. Não se sabe quantos imigrantes serão beneficiários mas a medida do despacho anterior, que só abrangia quem tinha pedidos até 18 de Março, permitiu que 246 mil ficassem em situação regular provisoriamente, disse o Ministro da Administração Interna Eduardo Cabrita.

Regularização de imigrantes com processo no SEF “é histórica”. E quem ficou “de fora”?


A medida permite que os imigrantes que estejam à espera de resposta dos serviços possam, entretanto, ter cartão de utente do Serviço Nacional de Saúde, acesso a abonos ou apoios aos trabalhadores independentes. A questão sobre o que iria acontecer a todos os que ficam de fora do primeiro despacho, ou seja, quem tinha feito o seu pedido depois de 18 de Março, era há muito uma preocupação de várias organizações de imigrantes.

“Pretende-se a manutenção dos efeitos do despacho anteriormente mencionado, à data da declaração do estado de emergência nacional, garantindo os direitos de todos os cidadãos estrangeiros com processos pendentes no SEF e que os mesmos se encontram em situação de permanência regular em território nacional”, lê-se no despacho. E pretende-se também “o alargamento dos processos pendentes no SEF abrangidos pelos efeitos do referido despacho, alargando o âmbito deste desde a data da declaração do estado de emergência nacional até ao dia 15 de Outubro de 2020.”

Como comprovativo irão servir o documento do agendamento no SEF ou o recibo com o pedido, as chamadas manifestações de interesse ou os pedidos emitidos pelas plataformas do serviço — estes “são considerados válidos perante todos os serviços públicos, designadamente para obtenção do número de utente, acesso ao Serviço Nacional de Saúde ou a outros direitos de assistência à saúde, acesso às prestações sociais de apoio, celebração de contratos de arrendamento, celebração de contratos de trabalho, abertura de contas bancárias e contratação de serviços públicos essenciais”.

Já em Maio, o Governo tinha feito um despacho com a simplificação dos pedidos de autorização de residência em que garantia que todos os que tinham processos pendentes continuavam a ter acesso a direitos sociais, até ser tomada uma decisão final sobre as suas autorizações de residência pelo SEF.

Outra das medidas anunciadas na altura foi um mecanismo que permite a renovação de autorizações de residência de forma automática para quem é trabalhador, e para cidadãos da União Europeia e seus familiares. O despacho deste domingo alarga esta funcionalidade a estudantes do ensino secundário e superior, algo que abrange 20 mil imigrantes, segundo o gabinete do MAI.

7.5.20

Sem quarentena nem testes

Sílvia Agostinho, in Jornal Valor Local

Lares ilegais da região aceitam idosos sem restrições mesmo com a pandemia

A Direção Geral de Saúde, no contexto da pandemia, indicou um conjunto de medidas com caráter obrigatório (orientação 009/2020) para as estruturas de lares de idosos no país. Assim sendo e de forma a reduzir os casos de infeção, todos os idosos que sejam admitidos têm de fazer o teste serológico de Covid-19 previamente. No caso de resultado negativo, e assim que derem ingresso no lar terão de cumprir uma quarentena obrigatória de 14 dias isolados dos restantes utentes, e de preferência sempre com o mesmo funcionário adstrito aos cuidados que esse idoso vai necessitar. O Valor Local entrou em contacto com alguns lares ou casas de acolhimento que se fazem anunciar nas diversas plataformas eletrónicas como aceitando idosos para saber até que ponto esta medida estava ou não a ser acautelada. Como são estruturas que funcionam clandestinamente neste tempo de Covid-19 a incúria acaba por continuar a ser palavra de ordem, e sobretudo quando estamos a falar da camada populacional mais vulnerável à doença.

Foi o que conseguimos apurar recorrendo a anúncios via net. Um dos contactos dizia respeito a uma casa de acolhimento, no concelho de Salvaterra, com capacidade para três utentes. Fomos informados que a mensalidade seria 800 euros mais 50 euros para aquisição de fraldas. Este é um valor que não anda longe do praticado em IPSS da região ou mesmo em lares privados em que a exigência no cumprimento das regras é mais apertada. Nesta casa de acolhimento do concelho de Salvaterra de Magos, a proprietária não fez especiais questões acerca da hipotética idosa referida pela nossa reportagem, nomeadamente, estado de saúde, morbilidades, grau de autonomia, e quando questionámos acerca da existência de constrangimentos em virtude do Covid-19, não apresentou dificuldades – “Não é preciso trazer nenhum papel do médico, basta-me a sua palavra de que a sua avó está bem”.

​Ainda no concelho de Salvaterra de Magos, na freguesia de Marinhais, ligámos para outro número. Novamente, uma casa de acolhimento particular. A proprietária tem quatro utentes aos seus cuidados. O valor da mensalidade é de 600 euros, mas quando se fala em restrições devido ao Covid-19 só as coloca quanto a visitas e a conhecer a casa. Mas quanto ao ingresso da suposta avó nada de especial – “Se me dá a garantia, então não há problema. Está tudo bem”. Mas, novamente, sem direito a conhecer o lar. “Nesta altura envio fotografias”, garante. Basta deixar a idosa à porta, fazer o pagamento via transferência bancária, que depois a proprietária se encarregaria de acompanhar a idosa ao quarto reservado. “Deixe à porta que eu levo lá para dentro”, é assim que passa a descrever todo o cenário futuro. Com o decorrer da conversa lá vai dizendo que se os familiares fizerem mesmo questão de conhecer a sua casa que deixa entrar mas “com luvas, máscara e roupão”. Durante a pandemia diz que não tem saído do lar, nem tão pouco a empregada. Dormem nas instalações e garante que tem um médico e uma enfermeira com quem troca alguns conselhos sobre o Covid-19. É sabido que estas estruturas mantêm por vezes profissionais da área da saúde a prestar serviços, coniventes com a situação de ilegalidade e de funcionamento à margem da lei destes ditos lares.

Noutra casa de acolhimento, desta feita no concelho do Cartaxo, a mensalidade é de 700 euros. A proprietária procura saber um pouco mais do estado clínico da hipotética idosa para a qual procuramos uma vaga. Se tem ou não sintomas do Covid-19 bem como os familiares mais próximos. Garantimos que está tudo bem, e como tal não é preciso mais nada para recebermos luz verde. “Não é preciso ir ao médico até porque sabemos que nesta altura é complicado ter consultas”. A “nossa” avó ficaria, uma vez instalada nesta casa de acolhimento, num quarto com mais três utentes e claro está sem cumprir qualquer tipo de quarentena específica. “Não é preciso grande coisa. A nossa casa é familiar. Só temos quatro idosos a residir connosco. As empregadas também não têm sintomas”. A única salvaguarda são as visitas. Diz-nos a proprietária que nesta fase dá privilégio à vídeochamada, ou então, sugere-nos, que os familiares apareçam à entrada da casa e sempre dá para dizer um adeus ou um olá “mas tudo sem grandes contactos ou afetos”. “Tem de ser!”, desabafa.

Por último e de regresso ao concelho de Salvaterra de Magos, um dos municípios da região onde os lares ilegais são quase porta sim, porta não, é nos dito pela proprietária de uma casa de acolhimento de Marinhais que o valor da mensalidade é de 600 euros. Neste momento tem três idosos a residir com a família composta ainda por marido e filhos. Os utentes têm entre 87 e 92 anos. Quanto a exigências não faz muitas. “Se me garante que ela tem estado sempre em casa e não tem sintomas, por mim está tudo bem”. Esta proprietária sabe que o teste de Covid-19 é importante, e que é passado “pelos médicos de família”, mas no seu caso não faz questão. Procura antes saber qual o histórico de outras doenças para o caso “de existir alguma emergência, um dia, e ter de a levar para o hospital”. No caso desta casa de acolhimento, a nossa idosa ficaria num quarto com “mais uma menina”, ou seja outra utente. “Somos uma casa particular, e vivemos todos em família”, salienta.

​Contactado pelo Valor Local, o presidente da Associação de Apoio Domiciliário de Lares e Casas de Repouso de Idosos (ALI), João Ferreira Almeida considera “inacreditável” o estado de coisas descrito pelo nosso jornal, mas confessa não se admirar tendo em conta o modus operandi destas casas que funcionam à margem da lei. João Ferreira Almeida considera que a lei e as recomendações da Direção Geral de Saúde, um pouco por todo o país, estão a ser acatadas, à exceção destas “casas clandestinas onde de facto tudo é possível”. Para o dirigente e face ao estado de coisas “é tudo uma questão de a Segurança Social querer atuar, mobilizar meios e recursos que em articulação com os bombeiros de cada concelho, não tem problemas nenhuns em saber quais são os lares ilegais e verificar de facto como é que andam a trabalhar no Covid 19”. O problema, salienta, “é que nesta altura se calhar ainda é mais difícil mobilizar meios para o terreno”.

A pandemia pode ter um efeito rastilho preocupante neste tipo de estruturas ilegais - "Temo que a situação, dentro de algum tempo, possa ficar muito feia". Mas também, salienta, que na sua perceção "ninguém se preocupa com essas casas (municípios, Segurança Social e a própria rede social) porque nada como ignorar um problema para não se tratar dele". João Ferreira de Almeida diz que os distritos de Santarém e de Setúbal são os mais emblemáticos no que respeita a este tipo de lares em todo o país. Segundo os últimos da Direção Geral de Saúde, ao dia de hoje, seis de maio, há 6349 casos de infeção por Covid-19 em indivíduos acima dos 70 anos. Já morreram 950 pessoas com mais de 70 anos no nosso país vítimas desta doença.

5.5.20

Covid-19 does not discriminate—nor should we

by Birgit Van Hout, in Social Europe

A paradigm shift in national and EU Roma strategies is more urgent than ever.

In these times of Covid-19, solidarity between neighbours and families, among communities and across borders, is of the essence, because in an interconnected world our health and support systems are only as strong as their weakest link.

Roma communities are showing their solidarity by sewing face masks and distributing food packages. Yet, overall, states risk leaving Roma and Travellers behind.

Indeed, the pandemic has exacerbated the already critical condition of inequality many Roma, Sinti and Travellers face. It also shows how far removed we still are from ‘ending Roma discrimination and exclusion’—the stated policy objective of the European Union, in line with article 2 of the Treaty of the European Union and the Universal Declaration of Human Rights.

For decades, international and regional bodies monitoring human rights have drawn attention to egregious violations of the civil, cultural, economic, political, and social rights of Roma. While efforts are being made—albeit by some governments more than others—the vast majority of Roma, Sinti and Travellers in Europe remain at the margins of society. Fully 80 per cent of Roma women, men and children in the EU live below their country’s at-risk-of-poverty threshold.

Yet, had priority been given by national and local officials to implementing the concrete and actionable human-rights recommendations arising from United Nations bodies, the Council of Europe, the EU Framework for Roma Inclusion and the wider Sustainable Development Agenda, would Roma, Sinti and Travellers find themselves in such dire straits today?

As quarantine and lockdown measures are being enforced, one in three Roma children in the EU has no access to running water or health care, as many Roma live in segregated and overcrowded settlements. The simplest instruction—‘wash your hands’—becomes meaningless without access to clean water. Traveller caravans have been confiscated. Poor living conditions prevent social distancing and affect the immune systems of young and old.

In the absence of a computer, internet and sometimes even electricity, many Roma children find themselves excluded from distance learning. Often not benefiting from social protection, extreme poverty looms large for many families relying on temporary, insecure or informal employment. At the same time, the UN Human Rights Office receives reports of increasing manifestations of hatred against the Roma.

More positively, there are instances where Covid-19 has given rise to co-operation between grassroots organisations and authorities, often at municipal level: to disseminate information in Slovakia, put in place multilingual helplines in Ireland or provide medical supplies and equipment to Roma settlements in Greece.

The pivotal role of Roma organisations in this crisis further illustrates why Europe needs a vibrant civil society. Activists are mobilising transnational support for the most affected Roma communities in Europe, providing food, water and disinfectant. They are engaging in dialogue with national and local authorities to prevent the worst.

As you may know, Social Europe is an independent publisher. We aren't backed by a large publishing house, big advertising partners or a multi-million euro enterprise. For the longevity of Social Europe we depend on our loyal readers - we depend on you.

Become a Social Europe Member

Where there are computers and internet access, Roma educational assistants help children with distance learning through online chats and video support. Roma mediators collect information about the situation in settlements to ensure that the guidance is being followed and to identify the needs of the most vulnerable families.

States have a responsibility to protect the human rights of Roma in the public-health response to Covid-19 and in the recovery. Tailored assistance should include water, soap and sanitiser, food and medicine for communities in deficit, a moratorium on forced evictions, income support for those in need, affordable and equitable access to internet services, and protective equipment for those who continue to work.

Fundamental shift
Looking ahead, national Roma strategies and public perceptions need to shift fundamentally away from considering the Roma as ‘a problem to be solved’. Alternative policies should uphold the human rights of Roma and tackle the prejudice, stereotypes and discrimination that hold them back.

A new EU Roma Framework post-2020 represents an opportunity to remedy the weaknesses of the current framework, to hold states to account for making tangible progress and to embed the human-rights principles of participation, transparency and non-discrimination.

The Roma have been left behind for too long. Covid-19 does not discriminate; neither should we.

28.4.20

"Uma guerra que veio limpar pessoas”. Quando a solidão nos idosos também é um vírus, há ajuda que bate à porta

Beatriz Lopes (reportagem e fotos*), in RR

Não precisam só de ajuda para vestir, tomar banho, fazer camas e limpar e arejar a casa. Essa ajuda têm-na vinda de auxiliares de geriatria da Santa Casa da Misericórdia. Agora, mais encerrados ainda do que antes por causa da pandemia, estes idosos de Lisboa precisam de quem os ouça. “É o que quero: eu quero é falar. Falar do quê? Falar do medo. Vivemos um medo terrível. É muito difícil combater um inimigo invisível. É o pavor.”

Mete máscara, tira máscara. Mete bata, tira bata. Mete cobre-pés, tira cobre-pés. E o mesmo acontece com luvas, touca e viseira. A carrinha da Santa Casa da Misericórdia de Lisboa marca 22ºC lá fora, mas os cuidados de proteção que as auxiliares de geriatria e apoio à comunidade (AGAC) têm de ter para apoiar os 210 utentes de três freguesias lisboetas, maioritariamente idosos, não podem ser vencidos pelo cansaço.

Ao toque da campainha, há quem lhes chame “Santas”, “uma bênção de Deus” ou “anjinhas” , como se ouve do auscultador de um quarto andar de um prédio nos Anjos, onde vive Jaquelina, com 90 anos. Sem filhos, e viúva há dois anos, diz ainda ter “uma cabeça nova”, mas estes têm sido dias difíceis para quem não gosta de “deixar a língua em casa” e se vê aflita com as “malditas cataratas”. Uns dias são mais difíceis do que outros, até porque em dias frios diz não conseguir mexer as pernas e não se habitua ao andarilho – a que, de forma repugnante, chama de “aquela coisa”.

“Tenho passado os meus dias muito contrariada. Ando agarrada às paredes. Estava habituada a trabalhar e a fazer a minha vida e de repente caí e parti logo o braço. Depois meti o pé na argola – que é como quem diz no tapete – e parti uma perna. E agora para me mexer tenho muita dificuldade. Por isso é que dou trabalho às minhas meninas", explica.

O apoio domiciliário da Santa Casa já é longo, desde os tempos em que o marido era auxiliado por estar acamado. Jaquelina recebe apoio na alimentação, na higiene e, sendo diabética, tem sempre ajuda na medição da taxa de açúcar no sangue e na toma da medicação. Mas há um som azucrinante que em tempos de pandemia ecoa nas paredes onde outrora chegavam a estar dois rádios ligados: chama-se solidão e é agora a única música que teima em fazer-se ouvir quando está sozinha.

“Os rádios? Eram do meu marido. Agora perderam o encanto. Ele gostava muito de música. Deixou-nos esses dois rádios e essas cassetes todas. Agora não quero ligar isso. Às vezes experimento ligar a televisão e fecho os olhos para não ver. Mas também só ouço desgraças. Agora querem abrir as escolas e as creches, estão com muita pressa, estão a ir com muita sede ao pote . Com tantos ainda a morrer e outros tantos internados."

As técnicas da Santa Casa vão fazendo esforços para que rebobine a cassete e se lembre de coisas boas, do tempo em que era operadora de caixa, o emprego com que sempre sonhou e desempenhou por mais de 30 anos. Mas a tarefa parece não ser fácil, porque “a vida foi dura”.

“Tinha 11 anos quando morreu o meu pai. A minha mãe era modista – e muito boa –, morreu já com 86. Nunca estive acostumada a estar sozinha. Há dois anos, morreu o meu marido. Olhe aí o retrato dele: tem mesmo carinha de bom, tinha 1.82m e pesava cento-e-tal quilos. Tenho saudades de tudo, até o que era mau seria bom agora" .

Agora diz estar a passar por “uma guerra que veio limpar pessoas, porque já estava cá gente a mais”. E não esconde o medo que tem de “Deus a levar”. “Medo, tenho de morrer. Até uma galinha tem medo de morrer. Veja lá se quando quer apanhar uma galinha ela não foge e nunca mais a apanha. Medo toda a gente tem."

A conversa faz-se também de silêncios. Mas há um cheiro a cozido à portuguesa que sai da cozinha e que a faz despertar. Jaquelina conta ainda com o apoio de Maria, empregada doméstica, há já oito anos. Mas o apoio doméstico não se faz apenas de aspirador na mão, até porque agora, diz, é como “uma bebé”.

“Antes quero que ela esteja ao pé de mim a conversar comigo do que limpe o pó. Digo sempre “oh Maria, limpa depois, anda para aqui um bocadinho”. Não me ralo que ela o faça depois. É a minha Maria, é muito séria, confio-lhe tudo, até o troco das compras. Quando ela sai é que vejo a diferença, já não tenho com quem falar."

É quando a porta fecha que só se ouve o relógio da sala. O telefone, esse, toca duas vezes ao dia, de manhã e à noite, quando um primo que não vive perto, de quem fala como o filho que Deus não lhe deu, lhe liga para saber como tem passado.

Do apoio da Misericórdia já não passa sem ele, mas insiste em recusar meter o pé fora de casa, mesmo depois da pandemia da Covid-19 passar. “A Santa Casa já me convidou para ir aos passeios. Mas olhe para mim: o trabalho que eu dou só para meter uma rampa na camioneta. Já tenho o coração muito cansado. Muito cansado.”

“Nos primeiros dias em que tive de ficar em casa tinha stresse, tinha neuras, uma coisa horrível”

Seguimos para o Areeiro, onde vive Maria Helena, 93 anos, solteira, não tem filhos nem outros familiares. A cozinha tornou-se agora um atelier de pintura, uma história e paixão já antiga que se escreve, ou traça, desde os seus 12 anos, altura em que tinha presente que seria pintora.

No entanto, não dispensa apresentações: “Maria Helena Leite. Este é o meu nome artístico. Mas sou Maria Helena Patrício Leite.”

Tem passado os últimos dias de pincel na mão, ao som de uma arara que tem no piso superior. A monotonia levou-a a mudar-se para a cozinha. Recusa a companhia da passarada – ou não fosse o silêncio também fonte de inspiração para os artistas.

Maria Helena Leite vive sozinha, no Areeiro Foto: Beatriz Lopes/RR

“Levanto-me, lavo a cara – sabe Deus como – e depois venho tomar o pequeno-almoço. Vou pintar até às 11h00. Depois subo para dar comida aos passarinhos. Depois desço para almoçar. E volto a pintar até às 18h00. Sabe que isto depois passa a ser uma loucura. Nos primeiros dias em que tive de ficar em casa tinha stresse, tinha neuras, uma coisa horrível .”

Um rádio e uma televisão ligados, sublinha, não são suficientes para lhe encherem a casa. Nesta altura, Maria Helena recebe duas respostas sociais, da Santa Casa e do Centro de Dia Nossa Senhora da Pena, na freguesia de Arroios. Recebe refeições à segunda e quinta-feira, precisa de ter supervisão no banho e ajuda em tarefas pontuais, como “fazer as camas com lençóis bem esticadinhos”.

Não lidou bem com a decisão de ficar confinada a quatro paredes e ver “o resto da vida, já curto,” suspenso – até porque ensinava outros a pintar no centro de dia e participava num coro da Misericórdia. Depois de avaliado o nível de ansiedade e do medo, passou recentemente a usufruir de uma linha telefónica de apoio psicológico por se sentir “muito sozinha”.

“Tenho um psicólogo que se chama Ricardo. Muito gentil. E diz que agora vai falar comigo mais vezes. Isso é o que quero. Eu quero é falar.” E de que falam? “Do medo. Todos nós vivemos um medo terrível. É muito difícil combater um inimigo invisível . É o pavor.”

Maria Helena quer deixar bem presente que esta é uma pandemia que “não afeta apenas idosos do interior” e que o medo fez com que outras conquistas recentes se tornassem em derrotas antigas.

“O que mais me custa é não poder andar; eu caminhava muito, viajei muito. Já nos últimos tempos estava limitada, porque tinha de usar moletas com medo de cair. Eu só queria andar, esquecer-me que sofri muito como toda a minha geração. Sabe que só me libertei quando fui para o centro de dia, tornei-me noutra pessoa.”

O apoio social fez com que voltasse a pintar depois de 15 anos parada, período em que se tornou cuidadora do pai, depois do falecimento da mãe. Sentada no sofá da sala, que mais se assemelha a um museu, e com um retrato da mãe que pintou, na parede atrás de si, perde-se em recortes de jornais, onde foi notícia, e nos trabalhos que a fizeram percorrer o mundo.

“Fiz várias exposições, ganhei uma bolsa para estudar em Itália e lá fui, depois de tirar o curso na Escola Artística António Arroio. Viajei muito e o meu maior prazer era trazer coisas para casa. Continuo a ver as ruas, os caminhos, as galerias de Itália, Áustria, Alemanha, em França: sinto que faço os mesmos caminhos", recorda.

E prossegue em viagem: “Aqui pode ver o grupo de artistas portugueses onde eu participei, vários artistas da elite, como o João Mário, José Núncio. Olhe eu aqui: Maria Helena Leite. Olhe aqui: com este retrato a pastel consegui a primeira medalha!”.

Daqui a uma semana ficará pronto o quadro da costa alentejana a que se tem dedicado. Na tela ainda só se vê o azul e o branco, mas surgirá algo entre Vila Nova de Milfontes e a Zambujeira do Mar: é lá que se esconde “a esperança e a tranquilidade”. “Ah, e Almograve!”, suspira.

“Há uma diferença entre estar sozinho e viver em solidão”

Abre-se a porta de um segundo direito, na zona do Areeiro, onde os sorrisos acolhem primeiro do que as palavras. Do lado de lá, João, totalmente dependente, e a sua esposa e principal cuidadora, Margarida.

Vivem sozinhos e resguardados no casulo das memórias que guardam dos cinco filhos que estão em Angola. Falar de solidão dói, mas sempre que recebem alguém em casa, ainda que desconhecido, há uma espécie de metamorfose e esforço para que as histórias do passado batam asas.

“Quando era técnico oficial de contas, em Angola, tinha uma vida risonha. Aquilo que era o básico eu tinha: meio de transporte, uma casa minimamente confortável, relacionava-me com muita gente, muita gente mesmo! Imagine: quando o Presidente da República [Agostinho Neto] fazia anos, era convidado. E dávamos as mãos. Devido à minha profissão, às vezes era-me confiado determinadas missões, ir avaliar um projeto antes de recebermos os parceiros estrangeiros – ao ponto de, por exemplo, ser alugado um avião para ser transportado de Luanda para outra província. Um avião só para duas pessoas!”, exclama.

São memórias que, por mais que queira, aos 66 anos, não lhe preenchem o vazio. Nesta altura de isolamento social, a única coisa que João queria era “um abraço de um filho, que levantasse o ânimo” .

“Há uma diferença entre estar sozinho e viver em solidão. E há casas cheias de gente solitária . Este é um vírus que nos afeta a todos. Não importa de que raça somos, não importa a nacionalidade, se é rico ou pobre: todos nós seremos profundamente afetados.”

Há mais de 10 anos, João foi obrigado a ficar por Portugal. Contraiu uma bactéria que lhe comprometeu a coluna vertebral, ficando tetraplégico. Chegou a ter uma meningite, a ficar em coma e hoje depara-se com outros problemas associados, como os tratamentos de hemodiálise que tem de fazer três vezes por semana. É só nessas alturas que vê a luz do dia, talvez daí a insistência em pedir à “Guida” que abra todas as janelas de casa. “A partir de agora o mundo não será o mesmo”, murmura.

No Serviço de Nefrologia e Transplantação Renal, no Hospital de Santa Maria, em Lisboa, onde é seguido, também houve mudanças e medidas de mitigação do risco de contágio da Covid-19. “Na sala de espera os doentes de hemodiálise estão juntos, mas depois há um circuito paralelo de saída para não nos cruzarmos com outros doentes. O tratamento tinha a duração de quatro horas e 14 minutos; reduziram para três horas”.

Para que o tempo passe mais rápido, João leva a Bíblia, já gasta, para o tratamento. É também é à fé que se agarra nesta altura. É a única coisa a que se pode agarrar, depois de ter vendido tudo o que tinha em Angola para investir no apartamento, numa cama articulada e no elevador de transferência de que precisava.

O apoio monetário chega através dos filhos. Mas “chega tarde”, queixa-se Margarida, a mulher: “Os bancos em Angola são muito lentos, há muitos bancários em casa e o dinheiro demora muito a chegar. Esta dependência económica veio estragar-nos a vida. Primeiro têm de transformar o kwanza em dólar e, depois, em euro. Vai-se tudo! O que os meus filhos trabalham é para os pais."

À hora do pequeno-almoço, com uma pêra cortada, um pão e um chá de camomila, é também por aqueles que, neste momento, atravessam dificuldades financeiras que João reza.

"Senhor Jeová, queremos agradecer-lhe por este alimento físico que pôs diante de nós, abençoe o mesma, e também a “Guida” que o preparou. Peço que este privilégio não seja só para mim, mas para todos os que têm a necessidade do pão de cada dia. Continue também a alimentar-nos espiritualmente e às pessoas famintas: dê-lhes o mínimo para que se possam alimentar, para que possam ter as forças físicas para poderem fazer as suas tarefas."

O agradecimento diário vai também para a Santa Casa da Misericórdia. João recebe visitas das auxiliares de geriatria e apoio à comunidade de segunda a domingo, duas vezes por dia, para higiene pessoal, posicionamento e vestir.

“A Santa Casa, como eu digo à minha esposa e aos meus filhos, para nós é uma bênção. Veio para ajudar mesmo os necessitados. Porque eu pergunto-me: o que seria de nós se não fosse a Santa Casa? A Margarida também tem problemas de saúde. E eu aqui, a precisar de alguém que me vista, que limpe as fezes… Este é um serviço que tem de ser reconhecido.”

Margarida, visivelmente emocionada, acrescenta: “Se não houvesse este tipo de auxílio, não sei como seria para os idosos e para aqueles que são altamente debilitados. Morreriam antes do tempo. O meu homem está vivo graças a isto."

Famílias estão a dar mais apoio na pandemia

Em isolamento, e sendo um dos grupos que apresenta um maior risco de doença por Covid-19, cerca de 210 idosos, de três das 24 freguesias de Lisboa, estão a receber apoio da Santa Casa da Misericórdia de Lisboa, que tem verificado uma ligeira quebra no número de pedidos de ajuda. Porquê? Pela resposta familiar que tem surgido.

“Estamos a acompanhar, por dia, cerca de 210 pessoas. Costumamos acompanhar, por norma, cerca de 350, mas, neste momento, devido à pandemia e ao isolamento, houve pessoas e famílias que preferiram ficar em casa sem o nosso serviço, sendo este apoio garantido por familiares ou pessoas amigas”, explica Ana Nascimento, diretora do Serviço de Apoio Domiciliário (SAD) da Unidade de Desenvolvimento e Intervenção de Proximidade da Alameda, da Santa Casa da Misericórdia de Lisboa.

Com 54 auxiliares de geriatria, e apoio à comunidade no terreno, o serviço domiciliário presta apoio desde a higiene pessoal à entrega de refeições, do tratamento de roupa à organização das caixas da medicação. Ou até idas ao supermercado, cujos pedidos têm aumentado.

“Os pedidos são diversos. No entanto, os que mais se verificam durante a pandemia são o apoio para a realização de compras no exterior – como, por exemplo, compras no supermercado e farmácia –, o fornecimento de alimentação refrigerada e, também, o apoio na higiene pessoal para pessoas mais dependentes e que não apresentam rede de suporte durante a pandemia.”

No que respeita ao fornecimento de alimentação, o apoio pode ser adaptado a cada utente e toda a segurança é garantida.

“Depende das situações e das necessidades de cada pessoa. Há pessoas que têm almoço e jantar. Há outras que voltam a comer a sopa do almoço ao jantar. Há pessoas que só têm ao fim de semana, porque antes da pandemia já frequentavam o centro de dia. A segurança é garantida na medida em que a Santa Casa contratou a Nordigal para a distribuição das refeições. Mas os senhores ajudantes motoristas não podem entrar da porta para dentro; são os auxiliares da Santa Casa que o fazem”.

No âmbito da pandemia de Covid-19, o dever do cumprimento de isolamento social poderá tornar-se mais difícil para os mais velhos, mas o SAD Alameda garante estar atento, “transmitindo frequentemente as medidas de prevenção da Direção-Geral da Saúde” e “tentando substituir-se nas saídas à rua dos idosos, no que diz respeito às compras ou outras diligências necessárias”.

No apoio da Santa Casa da Misericórdia está ainda previsto o acompanhamento psicológico ou a chamada teleassistência.

Os idosos poderão contar com a ajuda de uma equipa de apoio psicológico, constituída pela Direção de Desenvolvimento e Intervenção de Proximidade da Santa Casa da Misericórdia. Ajuda destinada a utentes beneficiários das respostas de Serviço de Apoio Domiciliário, Centro de Dia e Equipas de Apoio a Idosos, no período de vigência do Plano de Contingência e que apresentem sentimentos associados à solidão, depressão, ansiedade, medo, tristeza e preocupação, entre outros. A ideia é garantir um apoio mais focado aos utentes que revelem uma maior necessidade de apoio psicológico nesta fase.

Segundo um levantamento do projeto Radar, promovido pela Santa Casa da Misericórdia, com o apoio das juntas de freguesia, verificou-se que 24% da população em Lisboa tem 65 ou mais anos (cerca de 131 mil pessoas), 85 mil pessoas vivem sós, ou acompanhadas por pessoas da mesma idade, e 15% das habitações são ocupadas por idosos que vivem sós (cerca de 35 mil pessoas).