in Jornal Público
Jornadas sobre Pobreza e Desenvolvimento promovidas pelas organizações da Guarda e de Salamanca da Cáritas Diocesana
O bispo da diocese da Guarda defendeu ontem na Covilhã que a generalização do microcrédito é o caminho "mais importante" para erradicar a pobreza.
D. Manuel Felício falava no final da sessão de abertura das I Jornadas Transfronteiriças Pobreza e Desenvolvimento, organizadas pelas organizações da Cáritas Diocesana da Guarda e de Salamanca e pela Universidade da Beira Interior (UBI). Para o prelado, a medida prioritária é "levar aos cidadãos, e particularmente aos que estão em situação de pobreza, a paixão por iniciativas empresariais".
Em contraste com grandes empresas, o bispo defende o estímulo de pequenas empresas. "Temos de descobrir formas de estimular a cultura empresarial, mesmo junto de quem diz ser pobre. E não adianta dizer que não há dinheiro, porque alguém há-de financiar", adiantou.
Para exemplificar, o bispo recordou que o Prémio Nobel da Paz 2006 foi atribuído ao economista Muhammad Yunus e ao Banco Grameen, que fundou no Bangladesh, que já concedeu microcrédito a cerca de cinco milhões de pessoas.
O desenvolvimento de acções de formação e empreendedorismo é proposto num relatório encomendado pela Cáritas da Guarda ao Observatório de Desenvolvimento Económico e Social (ODES) da UBI, que está em análise nas jornadas.
"Esperamos poder desenvolver projectos em conjunto, por exemplo, na área da formação", referiu também Cármen Feliú, directora da Cáritas Diocesana de Salamanca. O diagnóstico feito nesta província espanhola conclui que a pobreza está ligada à falta de emprego, "que faz com que até a juventude melhor preparada vá para outras zonas", provocando um cenário de envelhecimento da população e falta de serviços.
Por outro lado, um estudo realizado pelo Observatório para o Desenvolvimento Económico e Social (ODES) da Universidade da Beira Interior (UBI) para a Cáritas Diocesana da Guarda aponta para a criação de hortas sociais, lojas de produtos feitos por desempregados e medidas para recuperar habitações como outras medidas para combater a pobreza nesta região transfronteiriça. Intitulado Mais próximo do próximo - Caracterização da pobreza na área de influência da diocese da Guarda", o documento foi apresentado durante a manhã de ontem, a par de um estudo semelhante sobre a região de Salamanca.
Para mudar a situação, o relatório do ODES defende também acções de formação destinadas a públicos carenciados e preconiza uma maior autonomia dos cidadãos, propondo a criação de lojas onde as pessoas desempregadas podem vender produtos artesanais. O encontro, que termina hoje, vai permitir trocar experiências entre entidades portuguesas e espanholas e estudar a candidatura de medidas de combate à pobreza a fundos comunitários transfronteiriços. PÚBLICO/Lusa
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pessoas necessitadas foram inquiridas no âmbito do estudo realizado pela UBI. O estudo conclui que a maioria é mulheres, um quarto é analfabeto e que a situação de pobreza "se arrasta desde gerações anteriores"