9.1.10

Situação de pobreza e desemprego começa a ser dramática

José Paulo Silva, in Correio do Minho

O arcebispo primaz de Braga insiste nos alertas sobre o agravar da crise social e económica no distrito e na região Norte. Em entrevista, D. Jorge Ortiga entende que a crise mundial não pode justificar tudo.

Pergunta - 2010 é o ano europeu de combate à pobreza e à exclusão social. Tem vindo a denunciar situações de pobreza, desemprego e exclusão. Não se sente magoado pela forma como a plataforma social que ajudou a criar foi recebida pelo poder político?

Resposta - Foi com a maior das boas vontades que nos juntámos no sentido de reflectir e elaborar denúncias de algumas situações. A partir das experiências concretas de cada uma das instituições, decidimos elaborar propostas e sugestões. Fizemos essas propostas com o máximo de transparência, uma vez que as colocámos nas mãos do Governo Civil de Braga. Através do Governo Civil, fizemos chegar essas propostas ao anterior Governo. Mais tarde, fomos interpelados para uma reunião que havíamos solicitado, mas já praticamente no final do mandato do Governo. Pareceu-nos que não seria o momento mais adequado. Eu não fiquei chocado na medida em que tenho por hábito fazer propostas e entrar em diálogo com as pessoas com as quais me parece devo dialogar de uma maneira gratuita e generosa. As instâncias governamentais deveriam dar muita importância a esta participação, a este desejo de colaborar, ouvindo as pessoas que estão no terreno, que têm alguma experiência, não sei se mais ou menos que os membros do Governo. Era importante que ouvissem, que não fizessem uma política apenas a partir de estudos muito bem delineados, mas a partir do concreto. Este é o caminho a seguir. A democraciaa não se resume ao voto, ao momento em que cada cidadão se manifesta, conhecendo ou não os programas dos partidos. A democracia deveria ser o governo sempre com os olhos nas necessidades do povo.

O distrito de Braga saiu prejudicado?

Provavelmente. Nós não tínhamos nenhuma solução mágica. A nossa vontade era dialogar com propostas concretas e alertar para algumas realidades dramáticas.

Já solicitaram um encontro com o actual Governo?

Não afectuámos mais nenhuma reunião entre nós. Informalmente, já tive oportunidade de conversar com um ou outro dos representantes dessas instituições. Seria interessante que continuássemos nós próprios a dialogar.

A plataforma vai manter-se?

É difícil dizer-lhe. Foi uma coisa informal, foi quase uma necessidade que se sentiu. Se chegarmos à conclusão de que, para bem do povo, é necessário congregar estas instituições ou outras, estou completamente disponível para isso.

A plataforma congregou sindicatos, associações patronais, a Universidade do Minho e a Igreja, isto é, instituições com peso...

Sim, a começar pela própria Universidade do Minho. Seria de aproveitar este contributo.

Tendo em conta que a situação social não evoluiu positivamente, subscreve a afirmação do bispo Carlos Azevedo, presidente da comissão episcopal da pastoral social, de que 'dada a falta de confiança nos actores políticos, não se antevêem melhores dias'?

Perfeitamente. Dessa maneira ou de outra mais ou menos idêntica, eu tenho dito a mesma coisa. Tenho denunciado essa realidade, de um modo particular no que diz respeito à região Norte onde o desemprego e a pobreza crescem permanentemente e onde a situação de algumas pessoas começa a ser dramática. Não foi por acaso que, na minha mensagem de Natal, eu peguei numa passagem do Evangelho onde Jesus Cristo se dirige aos discípulos e lhes diz: 'Dai-lhes vós de comer’. Com esta mensagem quis fazer referência a dois aspectos: que as comunidades cristãs conhecessem as situações reais das populações e que, sabendo que a Igreja não pode substituir o Estado, a sua missão é de complementariedade. As comunidades cristãs não podem permitir que os seus vizinhos não tenham o fundamental para viver.

Está desiludido com a classe política?

Sou daqueles a quem custa muito perder a esperança, mas acho que é urgentíssimo concentrar-se na análise destes problemas, no estudo das suas variadas coordenadas, na reflexão conjunta para se encontrarem soluções. É necessário envolver todos os parceiros, prescindindo de ideologias e de religião, para que cada um, com o seu contributo específico, possa dar uma colaboração e consigamos levar este povo do Minho a ter uma vida digna e humana. Queremos dizer que os subsídios e as ajudas não são solução, não duram sempre. As pessoas do Minho têm capacidade de ultrapassar as dificuldades por si próprias.

Nos últimos meses, nas suas intervenções públicas, tem sublinhado muito a crise económica e social que a região atravessa, falando muitas vezes no desemprego e na fome. Sente que a sua voz não é ouvida por quem de direito?

É difícil dar uma resposta. Sinto que é meu dever ter esse discurso sem querer bater em ninguém.

Tem repetido esse discurso por falta de denúncias por parte de outros actores da região?

Essas denúncias existem, só que é necessário prestar-lhes um pouco de atenção. Se a crise económica e social tem uma particular gravidade aqui no Minho, quando olhamos para as previsões sobre a pobreza que o País terá dentro de algum tempo... é alarmante. Há coisas que nós não podemos ignorar.

Há algum receio da classe política e de alguns agentes económicos e sociais em pronunciarem a palavra fome, muito usada por si?

Eu usei-a uma ou duas vezes. Pode acontecer que, numa conversa mais expontânea ou que naquelas homilias feitas mais com o coração, ela surja. Nas comunicações mais ponderadas e escritas, tê-la-ei usado umas duas vezes. Se repararem, no texto da homilia de Natal, conscientemente, já não falei dessa maneira. Disse, inclusive, que deveríamos olhar mais para o positivo que existe, para toda a movimentação que se faz nesta altura, para esta solidariedade intergeracional que acontece. Era bom que este movimento natalício continuasse pela vida fora. Já não falei da fome, e fi-lo conscientemente. Falei da esperança, falei do compromisso de cada um, da vontade que a Igreja tem em dar o seu contributo para que esta situação seja ultrapassada, consciente de que a crise mais ou menos mundial não pode justificar tudo.

Entende que o clima de crispação política que se vive actualmente em Portugal está a deixar passar para a sociedade falta de confiança e de esperança?

Não gosto de ter qualquer tipo de intervenção que possa ser interpretada como de índole política. Se existe crispação, como cidadão posso reconhecê-la, mas não estou a julgá-la ou a classificá-la. Parece-me, porém, que é necessário unir todas as forças que existem em Portugal na tal reflexão. Eu sei que falando de uma certa convergência e de um certo consenso já me estão a empurrar a favor deste e contra aquele. Não me sinto bem nessa política do pró ou do contra. Eu sou por todos, sou pela realidade humana. É essa que me interessa. O caminho da Igreja é o homem pela sua situação concreta. O trabalho da Igreja é o diálogo com todos. Se olhássemos todos no mesmo sentido e que cada um trouxesse a sua experiência e a sua reflexão, Portugal ganharia.

Para a Igreja não é fácil este clima, já que 'é difícil ter fé com a barriga vazia'...

Sem dúvida. Quem tem o poder que compreenda que a Igreja quer dar o seu contributo, que quer apontar um caminho de valores que nascem do Evangelho. A Igreja está convencida que é isso que hoje falta na sociedade: um novo humanismo a partir de valores. Se temos que denunciar, não estamos contra ninguém, estamos a favor do homem, da consciência do bem comum que o Papa define como o 'nós todos'.

A propósito do congresso internacional sobre o presbítero que decorre em Braga dentro de dias, disse que há uma responsabilidade acrescida dos sacerdotes em cuidar dos mais pobres e necessitados. Isso é uma 'mea culpa' da própria Igreja?

É uma preocupação que nós temos na Arquidiocese de Braga. Não poderei estar a dar a ideia de que estamos à espera daquilo que o Estado poderá fazer. Nós, Igreja, temos um papel muito importante a desempenhar. Creio que temos correspondido dentro das nossas possibilidades. Penso que se ignora muito daquilo que a Igreja faz pelos mais necessitados. Era bom que se tomasse consciência daquilo que a Igreja faz nas paróquias através dos centros paroquiais e sociais, das conferências vicentinas, das equipas sócio-caritativas, das visitas que se fazem aos idosos e às pessoas que estão sozi-nhas, da vivência daquilo a que nós chamamos obras de misericórdia. Não quero ser juiz em causa própria, mas faz falta conhecer aquilo que a Igreja faz pelo povo nestes tempos complicados. Mas temos que fazer muito mais. Com esse congresso, de 12 a 15 de Janeiro, nós queremos que a Igreja seja a Igreja do Concílio Vaticano II, isto é, a Igreja constituída pelos baptizados, uns que exercem o ministério sacerdotal, outros que exercem outros ministérios. Mas não esquecemos que o padre é o animador. Nas comunidades ele deve ser uma sentinela que se apercebe das carências. O padre deve congregar, deve motivar para que as paróquias encontrem respostas concretas para os seus problemas reais. Lembro aquele frase do padre Américo: 'Quando cada paróquia cuidar dos seus pobres, não haverá mais pobres'. Isto é um sonho.

Para esse trabalho, a Igreja Católica tem uma dificuldade acrescida porque tem poucos padres. Já não há um padre para cada paróquia...

Eu alimento-me da esperança, do optimismo e da fé. Como padre, eu nasci no tempo em que se realizava o Concílio Vaticano II. Se fosse para uma Igreja tradicional, eu não estaria aqui. Fui para concretizar a Igreja idealizada pelo Concílio Vaticano II na década de 60, quando eu conclui os meus estudos de Teologia. Infelizmente, em alguns lados ainda acontece haver um padre a fazer tudo. É preciso que os leigos assumam o seu estatuto. A grande tarefa do padre, hoje, é fazer com que outros participem na missão profética da Igreja que significa construir um mundo novo.

Mas o que é certo é que as vocações têm vindo a diminuir. Há cada vez menos sacerdotes.

Temos que dizer que o grande problema da Igreja são as vocações, porque é impossível termos uma Igreja sem sacerdotes e sem pessoas consagradas. Mas também temos que reconhecer como uma dimensão positiva a existência de pessoas consagradas em muitas áreas, mesmo pessoas casadas.

Essa será a imagem da Igreja no futuro. Sacerdotes em menor número no imediato é inevitável e as comunidades terão que se convencer disso mesmo. Mas não quer dizer que a Igreja só porque tem poucos padres está em crise. A história da Igreja manifesta-nos períodos em que praticamente não existiam sacerdotes - estou a exagerar para que me faça compreender - e em que os leigos a levavam para a frente. Isso é fundamental. O leigo não é só aquele que trabalha dentro da Igreja como catequista, membro do gupo coral ou na dimensão sócio-caritativa, o leigo é sobretudo leigo na sua presença no mundo. O défice da Igreja portuguesa é ter ainda poucos leigos com consciência. As nossas comunidades terão que gerar esta consciência eclesial em qualquer situação.

Família é matrimónio e geração

A Igreja empenhou-se contra a lei da despenalização do aborto, temos agora a questão do casamento entre homossexuais, fala-se também na eutanásia. A Igreja tem perdido batalhas na defesa daquilo que considera serem valores...

Não sei se é presunção da minha parte, mas a luta por valores n unca se perde. O valor está para além das estatísticas. A propósito do aborto e do casamento entre homossexuais, os bispos portugueses disseram que são realidades que não estão sujeitas aos resultados de referendos. O valor é valor por ele próprio. Eu sei que hoje caminhamos para o relativismo e que não há sequer referências nesta sociedade, mas estou convencido que, mais tarde ou mais cedo, os valores vão voltar dentro de uma sadia antropologia. A Igreja procura propor antes das realidades acontecerem em termos políticos. A Conferência Episcopal Portuguesa falou da homossexualidade numa nota publicada em Abril. Através dessa nota, quisemos criar a consciência nos leigos. Foram os leigos que, de um modo expontâneo e natural que eu elogio, juntaram em pouco tempo 90 mil assinaturas numa petição a favor de um referendo sobre o casamento homossexual. Não sei se essas assinaturas valem ou não, acho que deviam ser consideradas, até porque é uma hipótese que está consignada no nosso estatuto jurídico.

Será mau que estas assinaturas não sejam tidas em conta?

Pelo menos deve-se considerar e não colocar de lado, com superficialidade, o pensar dessas pessoas.

Mas isso não vai contra o que o senhor arcebispo diz sobre o referendo, que é uma questão estatística?

O que temos dito sempre é que a Igreja preferia que houvesse um momento para poder dialogar e reflectir com serenidade, sem paixão, confrontar ideias, apresentar argumentos de todas as ordens: antropológica, cultural, civilizacional. Que houvesse a coragem de nos podermos confrontar na consciência de que estamos numa civilização nova e diferente. Que verificássemos o que é que vale, o que é que ficará.
A propósito da legalização do aborto, disseram que era para diminuir os abortos clandestinos, e as estatísticas já estão aí a dizer até que ponto os abortos clandestinos estão a acontecer. O problema continua por resolver. Sobre a homossexualidade eu direi a mesma coisa: a Igreja, no passado, talvez tivesse manifestado qualquer tipo de oposição, mas todos nós sabemos que a homossexualidade existe desde sempre. Sobre a eutanásia, já nos pronunciámos: há problemas graves sobre os quais era bom reflectir, e não ser apenas uma minoria de pessoas a decidir sobre todos os outros com medo de sermos retrógrados, de nos compararmos com outros países. Isto vai-se repercutir na coesão social.

Contribui, na sua opinião, para uma sociedade mais fragilizada?
Perfeitamente.

A Igreja está disposta a aceitar a figura jurídica agora proposta pelo PSD: a união civil registada entre pessoas do mesmo sexo?

Não lhe vou dizer. A dificuldade que nós temos é que nos colam a um lado ou a outro. Nós não nos queremos colar a ninguém. Agora que o Governo tem possibilidade de encontrar uma formulação jurídica que proteja os direitos daqueles e daquelas que, por uma orientação sexual que foram adquirindo, querem viver nessa experiência. Não faltam possibilidades. Aquilo que a Igreja tem dito com toda a clareza é que, se há um estatuto da família alicerçada para nós, católicos, no matrimónio e orientada para a geração, este estatuto devia continuar. Não vamos modificar o significado das palavras simplesmente para tentar defender os direitos de alguns. Há muitas outras possibilidades. Se é esta ou outra, não quero pronunciar-me, porque iriam logo dizer que estou mais com este lado e contra aquele.

A Igreja tem uma posição de exclusão em relação aos homossexuais?

De maneira nenhuma. A nossa atitude é de atenção a todos e, nesta atenção, cuidar da dimensão material e espiritual. Também esses são dignos da nossa atenção e da nossa solicitude como tantas outras pessoas que talvez no passado fossem mais marginalizadas por comportamentos de algumas pessoas da Igreja. Podemos não concordar, mas compreendemos e ajudamos. A questão, neste momento, não é essa.

Que indicações são dadas aos sacerdotes nas paróquias para lidar com esta situação?

Essas indicações já foram dadas na formação que tiveram. No caso concreto do casamento homossexual, a Conferência Episcopal já publicou uma nota pastoral muito antes do problema ter surgido com esta aquidade e esta dimensão legislativa.

É favorável a um referendo sobre o casamento homossexual?

Se se considerar que o referendo é essa oportunidade de colocar as pessoas a dialogar, uma forma de se chegar ao verdadeiro problema e de se encontrar uma solução para esse problema. Neste caso como em tantos outros, não somos capazes de dialogar, de nos confrontar.

Os portugueses têm perdido essa capacidade de diálogo?

Penso que sim. Se se olhar para o nível autárquico, há uma certa movimentação no momento da campanha eleitoral, mais de índole partidária, e não há sequer a preocupação de conhecer os programas dos outros para se poder confrontar. Depois das eleições, os portugueses limitam-se a exigir, não a intervir. Quando alguém é capaz de levantar uma crítica, seja a nível autárquico seja a nível nacional, é uma confusão terrível.

Sente-se vítima desse tipo de situações?

Algumas vezes. Quando a crítica é pertinente, seja eu Primeiro-Ministro ou o que for, devo aceitá-la e reflectir.

Fez-se do caso do padre de Celorico uma novela

Como vê o caso do padre colocado em Celorico de Basto e que abandonou o sacerdócio. A Igreja esteve em silêncio perante esta situação. Também não é muito habitual pronunciar-se sobre estes casos...

É um caso. Outros casos também já têm acontecido... Ele deveria ter pensado, porque nós procuramos insistir sempre na liberdade. Há diversas formalidades em que se manifesta essa mesma liberdade. O que fez e o modo como o fez, ele saberá, mas estou convencido que fez mal.

Não gostaria de estar a alongar-me muito mais porque acho que já se fez disso uma novela.

Mas para lá desta situação e do que ela envolve, reconhece que poderá haver algum menor acompanhamento de alguns jovens que enveredam pelo sacerdócio e que estão em paróquias algo distantes?

Não. A nossa estrutura pastoral é de proximidade. Os padres de um arciprestado reúnem-se uma vez por mês, encontram-se outras vezes.

Para os sacerdotes novos temos uma equipa que está com eles uma vez por mês para falarem das dificuldades com que se deparam, dos problemas que não tinham sido pensados. Olhe, a propósito do congresso que vamos realizar, eu mandei uma carta a todos os sacerdotes dizendo-lhes que era importante que tivessem a coragem de deixarem as paróquias em paz naqueles dias para poderem estar juntos.

O caso deste sacerdote que abandonou as suas funções voltou a colocar em discussão a velha questão do celibato dos padres. Continua a pensar que o fim do celibato não é solução para a crise de vocações?

Todos sabem que o celibato é uma lei disciplinar que pode ser alterada quando a Igreja achar oportuno. Essa lei tem uma fundamentação teológica no seguimento do próprio Jesus Cristo e uma riqueza pastoral em termos de liberdadepara dedicar-se à Igreja numa disponibilidade total.

É para esta disponibilidade que nós procuramos formar os sacerdotes. Nós entendemos também que o celibato é uma graça de Deus, é um dom, uma realização interior que nem todos compreendem.

Este é um ano importante para a Igreja portuguesa pela visita do Papa Bento XVI. A vinda ao Porto é importante para uma região que, como disse no início desta entrevista, está particularmente fragilizada em termos sociais?

Creio que sim. Eu fiz a minha parte para que o Santo Padre ficasse mais um dia.

Tentou que ele viesse a Braga?

Evidentemente que levantei a questão e formulei a pergunta. O pedido foi equacionado, só que não tiveram necessidade de me dizer muitas coisas. Atendendo à saúde e à idade do Papa, não poderia haver muita sobrecarga de deslocações e celebrações. A grande mensagem que o Papa vai trazer à Igreja de Portugal é que esta tem uma missão muito concreta na linha da sua identidade e daquilo que Portugal foi no passado: a construção de uma sociedade mais justa e mais fraterna. Na elaboração do programa da visita ao Porto, privilegiaram-se encontros com representantes da pastoral social e da cultura pela ideia de que a Igreja tem algo de novo a propor à sociedade.

A Arquidiocese de Braga está há anos em trabalho de inventariação do seu património. É um trabalho ainda muito incompleto nesta altura?

Sim. O inventário sumário está feito: aquilo que pedimos aos párocos e aos conselhos económicos foi o registo de todos os bens. Um inventário mais rigoroso está a ser feito. Já publicámos vários volumes. É um trabalho que custa. É exigente em termos económicos porque precisamos de pessoas com a devida formação para que as fichas feitas pelas pessoas das paróquias sejam devidamente catalogadas e, a partir, fazer pequenos estudos que temos vindo a publicar. Temos vindo a candidatar-nos a fundos comunitários, mas isso não tem grande significado. Estou a fazer um esforço muito grande para ver se, neste ano, podemos apresentar o nosso Arquivo devidamente organizado para o colocar ao serviço da população.

A Arquidiocese de Braga tem dois museus e não sei se as pessos sabem quanto custa hoje manter um museu. O povo português não gosta dos museus.

As catedrais que se procuram são outras...

Isso é um sintoma da pouca apetência pela cultura.

O antigo cinema S. Geraldo é um espaço da Diocese de Braga que está fechado há muitos anos...

Já tivemos diversos projectos. Continuamos à procura.

O que tem dificultado o aproveitamento daquele espaço?

A dificuldade está em encontrar uma solução digna e adequada, na medida em que já surgiram propostas que não nos pareceram convenientes. Houve uma que considerámos adequada, mas esta situação de crise desmotivou.

Há a perspectiva de alienação do edifício?

Nunca de venda, sim o estabelecimento de uma parceria, de cedência de direitos de superfície por determinado tempo.

A abertura da hospedaria do Mosteiro de S.Martinho de Tibães regista algum atraso. Tem alguma previsão para a entrada em funcionamento?

Essa foi outra aventura da Diocese de Braga. Espero que essa estrutura seja auto-sustentável. Tem havido dificuldades, não da nossa parte. Há ainda pequenos pormenores a ultrapassar. Gostaria de anunciar a data da inauguração, mas dependemos do IGESPAR para pequenas coisas como a iluminação e a sinalética.

Um outro projecto onde a Diocese está envolvida é a Unidade de Cuidados Paliativos de Montariol.
A iniciativa foi dos padres franciscanos. No ano 2000, orientámos o contributo penitencial para esse projecto, só que houve muitas burocracias. A Diocese de Braga já manifestou a sua generosidade e a sua vontade de colaborar. E continuará a manifestar. A obra está a ser feita. Não posso precisar a sua conclusão, mas penso que o prazo é de um ano e pouco.

Sente que as burocracias estatais emperram projectos como este?

Um projecto destes implica sempre parcerias e contratos de cooperação com os ministérios da Segurança Social e da Saúde. Foi isso que dificultou bastante. Agora chegou-se a um acordo. Será uma unidade para acolhimento de doentes de curta, média e longa duração. Abandonou-se a ideia inicial que nunca partilhei de ser uma unidade de acolhimento de doentes com SIDA. Este projecto é uma prova eloquente de que a Igreja não fica em discursos.