Hermana Cruz, in Jornal de Notícias
Câmara admite demolir as habitações e realojar os ocupantes em casas sociais
Há cinco anos que três famílias de Guifões vivem com o coração nas mãos, porque o acesso às suas casas pode ruir a qualquer momento. A Câmara de Matosinhos garante que as habitações estão interditas e admite avançar com demolições, realojando os ocupantes.
"É um calvário constante". É assim que Felicidade Alves descreve o dia-a-dia dos seus dois filhos. Há 30 anos, os seus pais compraram 12 lotes e construíram casas para todos os filhos. Estavam longe de imaginar que tinham feito um mau investimento. Quando os seus filhos casaram, Felicidade deu-lhes a sua casa na Rua da Encosta do Rio e foi morar para uma alugada. Pensava que os estava a ajudar a começar a vida. Mas acabou por metê-los num "inferno".
É que, há cinco anos, o pátio das casas ao lado da sua ruiu. As famílias que lá viviam foram realojadas. Só ficaram os seus filhos e um sobrinho. "Andamos sempre com o coração nas mãos", dizem.
Desde então, sempre que o filho de Felicidade, Joel Reis, quer entrar em casa tem que pegar ao colo nos dois filhos (de um e de quatro anos) e rezar pelo melhor. A família tem que passar por um buraco no meio do pátio, sinalizado com uma fita, e por uma estreita placa de betão suspensa. Lá em baixo, o rio Leça espreita. Além disso, parte do terraço da casa também está prestes a ruir, como já aconteceu com o muro.
"Quando está a chover, nem conseguimos dormir", garante Joel. "Está em risco a vida das pessoas", crê a irmã Sílvia Alves. Ao lado, os primos Ana Alves e Luís Filipe passam pelo mesmo "calvário". "É um perigo constante. O pátio pode ruir a qualquer momento", acreditam. Por isso, até têm sempre a porta de casa fechada às chaves, por causa do filho de dois anos. "Temos que estar sempre com 30 olhos. É muito perigoso para ele", consideram.
Casas interditas há cinco anos
Felicidade Alves alega que quer fazer obras mas que a Câmara de Matosinhos não permite nem a ajuda. "Não compram nem deixam fazer nada", diz. "O meu pai está farto de ir à Câmara. Quer arranjar, mas não o deixam", reforça Ana Alves.
O presidente da Câmara já pensou em custear as obras. Mas era insustentável. "Só fazer o talude que permitisse as obras custava 500 mil euros e ainda tínhamos que pedir permissão para fazer construção numa zona de leito de cheia do rio Leça", explica Guilherme Pinto, sublinhando que são casas clandestinas (ler caixa).
Além disso, segundo o autarca, a Câmara interditou o uso daquelas habitações quando houve os aluimentos. "Há mais de cinco anos que aquelas pessoas sabem que não podem morar ali", sublinha. Agora, Guilherme Pinto não vê alternativa que não seja partir para a demolição das habitações. "A solidariedade da Câmara poderá ser ao ponto de permitir um realojamento", admite, contudo.


