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1.2.23

Os voluntários que nas frias madrugadas se sacrificam pelos sem-abrigo

Luís Osório, opinião, in TSF

1.
Tenho dois casacos postos e continuo gelado.

Está tanto frio.

Há alertas para os mais vulneráveis - os que têm a sorte de ter uma casa, mas que não a conseguem aquecer, os que vivem em lugares sem condições, os mais velhos de entre nós, os que não têm dinheiro para deixar de estar gelados.

E há alertas também para os que vivem na rua.

Para os que vivem numa situação de sem-abrigo.

Há avisos de lugares para onde se podem dirigir, a onde podem ir buscar mais mantas, casacos quentes, apoios.

2.
Está tanto frio.

Um frio que nos congela as mãos e nos greta os lábios.

Mas isso não é nada, não nos podemos queixar.

Ainda há uns dias o senhor Paulo, apenas com 54 anos, pouco tempo depois de ter celebrado o seu aniversário com uma equipa de rua, o senhor Paulo com os seus problemas recorrentes nos pulmões, não aguentou a chegada do inverno.

Encontraram-no já cadáver numas arcadas sempre ocupadas por sem-abrigos quando cai a noite em Lisboa.

O senhor Paulo não se importava.

Afinal, o que lhe poderia acontecer de pior?

Morrer nunca lhe pareceu um castigo demasiadamente severo em comparação com o que fora a sua vida, com o que fizera da sua vida.

Talvez por isso, apesar dos pulmões, fumava e bebia o máximo que podia, pelo menos que não lhe tirassem esse prazer que se transformou numa necessidade.

3.
Costumava dizer às equipas que as coisas lhe aconteceram sempre assim, por muito que tivesse bons pensamentos os maus encarregavam-se de ocupar todo o espaço.

Tudo se foi desmoronando na sua vida.

A família.

Os amigos.

O futuro.

A dignidade.

Ficou com as beatas mais o vinho de pacote e o que arranjava para destruir o resto.

Quando aparecia alguma solução de alojamento dizia que não, nada lhe interessava, preferia assim, beber o veneno até ao último dia, despachar o assunto.

E se as brigadas insistiam num quartinho, num albergue, o senhor Paulo retirava-se de cena ou fazia por ser desagradável, que o deixassem na sua ilusão de liberdade.

O senhor Paulo rebentou com o resto.

Deixou-se ir debaixo de umas arcadas.

4.
Está um gelo lá fora e há mais homens assim.

E mulheres também.

Pessoas em situação de sem-abrigo que todos os dias sobrevivem como podem.

Uns sem esperança, outros com um fio de luz que os guia.

Mas sempre com apoio.

É preciso que se diga e se fale nas centenas de voluntários que não desistem.

Que todos os dias estão na rua.

Que levam sopa e comida.

Que os ouvem.

Até que os abraçam, os encaminham, os tentam afastar do abismo.

Estive com muitos desses voluntários em Leiria, ouvi Henrique Joaquim, ex-presidente da Comunidade Vida e Paz e atual responsável pela estratégia nacional para a integração de pessoas em situação de sem-abrigo.

Emocionei-me muito com a generosidade de toda esta gente que não espera nada em troca.

Basta-lhes dar o que têm, contribuir para que o mundo possa ficar um bocadinho melhor. E quando tiram uma pessoa da rua, quando tiram uma pessoa da rua os seus olhos brilham numa recompensa que não precisa de ser mediática.

Só na Comunidade Vida e Paz são 500 voluntários.

De esquerda e de direita ou sem ideologia.

Uns acreditam em Deus, outros acreditam no ser humano e há também os que não acreditam numa coisa ou na outra, apenas numa ideia de Bem.

Está muito frio, hoje particularmente.

Mas enquanto a maioria de nós está segura em casas aquecidas, eles e elas têm malgas de sopa na mão e um sorriso que oferecem nas madrugadas aos que se perderam.

E no final da noite estendem-lhes a mão para que regressem à vida... se o quiserem.

5.7.21

Pobreza em Lisboa. "Diariamente surgem pessoas novas na rua"

Ângela Roque (Renascença) e Octávio Carmo (Ecclesia), in RR

Renata Alves, diretora da Comunidade Vida e Paz, confirma o aumento das situações de vulnerabilidade. Há mais gente sem teto e mais pedidos de ajuda para comer entre quem até tem casa. A instituição distribui mais de 500 ceias por dia e assegura apoio terapêutico e de saúde aos sem-abrigo. Esta segunda-feira inaugura uma nova resposta social, um alojamento de transição para 40 utentes.

Ouça aqui a entrevista a Renata Alves, diretora da Comunidade Justiça e Paz

A Comunidade Vida e Paz (CVP) é uma instituição do Patriarcado de Lisboa que há mais de 30 anos apoia as pessoas em situação de sem-abrigo. Com a ajuda de 600 voluntários, tem Equipas de Rua em mais 100 pontos das cidades de Lisboa e da Amadora, e já alargou a intervenção a Loures e a Odivelas. Diariamente distribui entre 500 a 550 refeições.

“As ceias são uma forma de chegar até às pessoas”, explica a diretora da CVP, Renata Alves, em entrevista à Renascença e à agência Ecclesia, lembrando que o objetivo último da intervenção que fazem é retirar os sem-abrigo da rua e assegurar a sua reintegração social.

Considera, por isso, muito importante a nova unidade que vão inaugurar esta segunda-feira, 5 de julho, nas Olaias, e que vai funcionar em regime de “alojamento de transição” para cerca de 40 pessoas, que ali vão receber apoio multidisciplinar, para conseguirem refazer a vida.

Renata Alves diz que a ajuda do Papa à população sem-abrigo de Roma é um “estímulo” para quem está no terreno a lutar contra este fenómeno. E vê com bons olhos a recém-criada Plataforma Europeia de Combate à Situação de Sem-Abrigo, aprovada na reta final da presidência portuguesa da União Europeia, e que foi assinada por todos os Estados-membros, por representantes das instituições europeias, organizações da sociedade civil e parceiros sociais.

A ministra do Trabalho, Ana Mendes Godinho, afirmou que a Plataforma Europeia de Combate à Situação de Sem-Abrigo representa “um salto de gigante”, no sentido de garantir o acesso de todos à habitação, à saúde e outros direitos. Concorda?

Sem dúvida alguma. De facto, esta iniciativa foi vista por todos os intervenientes nesta área do combate à situação de sem-abrigo como uma mais-valia, ao encontro da inclusão. É isso que se pretende, através da Plataforma podermos criar e ter a partilha de experiências de outros países.

Acaba por ser um comprometimento de todos os responsáveis políticos, organizações, sociedade civil e é, de facto, uma mais-valia, porque podemos até disseminar práticas de outros países, que possam ser de alguma forma introduzidas em Portugal e nos permitam combater a desigualdade e favorecer o respeito pelos direitos das pessoas em situação de sem-abrigo.

"Este problema só pode ser ultrapassado com a intervenção de todos, não só das organizações que lutam diariamente no combate à situação de sem-abrigo"

Falou do compromisso de instituições europeias, governos, sociedade civil, isto dá a dimensão da gravidade do problema? A crise pandémica precipitou de alguma forma esta união de esforços?

Este problema só pode ser ultrapassado com a intervenção de todos, não só das organizações que lutam diariamente no combate à situação de sem-abrigo, mas pelos responsáveis políticos, pelos parceiros sociais e pela sociedade civil. É importante que se perceba que existem deveres enquanto sociedade e enquanto qualquer cidadão comum.

Relativamente à segunda questão, a pandemia veio trazer muito mais pessoas para a situação de sem-abrigo e consideramos que a situação ainda se vai agravar. Deixámos de ter as moratórias ao crédito...

Moratória do crédito ao consumo termina e insolvências de famílias devem disparar

Há dados que mostram que há um agravamento do número pessoas em situação de pobreza extrema, e isso terá consequências...

Temos verificado isso diariamente, através das equipas voluntárias de rua e das equipas técnicas, que o perfil está a alterar-se: para além das pessoas que estão em situação de sem-abrigo, que não têm teto, também existem as pessoas que estão numa situação de grande vulnerabilidade e que vêm até nós procurando ajuda de uma forma diária, e isto acaba por ser assustador. Daí que toda e qualquer medida que possa surgir neste momento seja, de facto, importantíssima.

Por toda a Europa calcula-se que haja 700 mil pessoas em situação de sem-abrigo, o que representa um aumento de 70% em 10 anos. A meta definida para combater este fenómeno é agora 2030. Nove anos é muito ou pouco para este trabalho?

É muito, se pensarmos que as pessoas precisam de sair desta situação, mas também percebo que a pandemia e o agravamento da crise económica e social trouxeram constrangimentos e as metas e objetivos iniciais acabaram por ficar comprometidos. No caso português era retirar as pessoas desta situação até 2023.

Essa meta está definitivamente afastada?

Está sim.

"Para além dos sem-abrigo, também existem as pessoas que estão numa situação de grande vulnerabilidade e que vêm até nós procurando ajuda de uma forma diária, e isto acaba por ser assustador"

E o que é possível fazer no imediato, até tendo em conta esta Plataforma Europeia? Para Portugal o que é que isto vai significar na prática?

Antes disso queria dizer que, como falávamos na questão da vulnerabilidade, percebemos que diariamente surgem pessoas novas na rua. Eu costumo dizer que retiramos uma, duas pessoas por dia, mas nesse mesmo dia retornam, ou aparecem pessoas em situação de sem-abrigo, por isso o desafio é, de facto, muito difícil.

Relativamente àquilo que pode ser feito, e que está a ser feito: é importante salvaguardar que têm existido mais medidas, desde programas municipais a medidas por parte do Governo, no que diz respeito à criação de centros de alojamento temporário de transição, programas de ‘Housing First’, criação de apartamentos partilhados. Estas medidas têm vindo a facilitar, mas por outro lado têm de existir muito mais medidas, porque não são suficientes.

Quem olha de fora para o problema vê que há necessidade de uma resposta de emergência. Com a Plataforma Europeia será possível encontrar soluções mais definitivas?

Sim, esse é o grande objetivo. Contudo, devemos perceber que se conseguirmos colocar as pessoas numa situação transitória, em que exista todo um investimento com o objetivo de estarem o menos tempo possível nestas situações de transição e se possa encontrar uma alternativa para uma situação de alojamento permanente, é isso que se pretende. Mesmo a tipologia ou o enquadramento destes centros também começa a ser diferente, percebemos que funcionam melhor para um menor número de pessoas, para que se possa de alguma forma ir ao encontro de todas as necessidades que as pessoas apresentem, sempre com o objetivo final de traçamos um plano para aquela pessoa.

Também temos de olhar para as problemáticas que as pessoas vão apresentando. Sabemos que as problemáticas dominantes continuam a ser as aditivas, os problemas relacionados com o consumo de álcool e de outras substâncias, e isso pode implicar que durante a estadia num alojamento temporário, a transição possa permitir fazer um trabalho de motivação para que a pessoa possa ir para um tratamento, para se reabilitar.

Por outro lado, existem pessoas que estão numa situação de desemprego e que precisam é de ser ajudadas para conseguir arranjar trabalho.

E há uma situação ainda mais radical, que são as pessoas com problemas de saúde mental.

Temos verificado que tem vindo a aumentar o número de pessoas com problemas ao nível da saúde mental e, aí, o desafio é muito grande, porque, como sabemos, existem poucas respostas nesta área, e é importante que sejam criadas.

O que exigirá decisões e respostas por parte do Estado central. No geral, como é que classifica a colaboração entre o Estado, as autarquias locais e as organizações, como a Comunidade Vida e Paz, que estão no terreno? Há hoje mais sensibilidade para esta questão dos sem-abrigo?

Sim, penso que há sensibilidade e há cooperação, e por isso têm existido bastantes parcerias entre o Estado e as organizações. O caminho terá de ser esse, entre quem define as políticas, mas que as defina com quem está no terreno, com quem tem conhecimento e experiência. Só dessa forma é que considero que pode haver mais sucesso na intervenção com as pessoas em situação de sem-abrigo.

Essa maior sensibilidade também se viu no processo de vacinação contra a Covid 19, por exemplo? Correu como devia?

Inicialmente não. Não posso dizer que correu como devia ter corrido, porque nós até fizemos alguma pressão para que as pessoas em situação de sem-abrigo pudessem ser vacinadas, porque tínhamos conhecimento - não no primeiro confinamento nem na primeira fase da pandemia, mas sobretudo este ano - que as pessoas em situação de sem-abrigo estavam a ser mais afetadas com o vírus, e era importante que pudessem ser vacinadas e que salvaguardássemos a sua saúde. Porque, efetivamente, sem acesso aos sistemas de saúde torna-se muito mais difícil, e temos de olhar por todas essas pessoas que estão numa situação de grande fragilidade e vulnerabilidade.

Já perdi a conta ao número de vezes que o Papa usou, como exemplo de insensibilidade social, as pessoas em situação de sem-abrigo que morrem de frio na rua, é provavelmente o exemplo mais presente nos discursos do Papa Francisco. Falta esta sensibilidade a nível geral para os dramas da rua? Porque falamos de confinamento, mas como é que vai para casa quem não tem casa?

Exato, essa até foi uma frase por nós utilizada para a nossa campanha. Porque, para além das questões do frio, existem outras questões em que as pessoas não são protegidas e a sociedade em geral deveria, de facto, estar mais sensibilizada, mais atenta e, como costumo dizer, não virar a cara para o lado.

Acima de tudo, o compromisso é de todos e deveria ser de todos: a qualquer um pode vir a acontecer uma situação destas… É muito importante que nos consigamos pôr no lugar do outro, perceber todas as dificuldades e a falta de acessos: a falta de respeito pelo direito das pessoas, a falta de dignidade em que muitas vezes as pessoas se encontram é lamentável.

"Tem vindo a aumentar o número de pessoas com problemas de saúde mental e, aí, o desafio é muito grande, porque existem poucas respostas nesta área, e é importante que sejam criadas"

O Papa Francisco tem multiplicado serviços de alojamento, saúde, uma atenção, diria, até invulgar para a posição que ocupa em relação às pessoas sem-abrigo, que se vão aglomerando cada vez mais à volta do Vaticano, por que sabem que ali terão resposta. Isto é um estímulo para quem está no terreno, o exemplo que vem de cima?

Sem dúvida. Muitas das vezes necessitamos mesmo de procurar estímulos e procurar energia para não baixarmos os braços, porque nem sempre temos as respostas que gostaríamos. Sentir que o Papa Francisco está a liderar toda esta problemática, com a sensibilidade que tem, é para qualquer instituição - não apenas religiosa, como é a nossa, mas para qualquer uma – um exemplo e uma grande referência.

A Comunidade Vida e Paz é uma instituição católica do Patriarcado de Lisboa, que há mais de 30 anos se dedica ao apoio de pessoas sem-abrigo, com equipas de rua que distribuem alimentos, mas também atenção e afeto. Quantas pessoas é que estão a apoiar atualmente, onde e com a ajuda de quantos voluntários?

A Comunidade Vida e Paz surgiu por perceber que havia necessidade de intervenção com as pessoas em situação de sem-abrigo e foram criadas as equipas voluntárias de rua, que todos os dias atingem cerca de 100 pontos na cidade de Lisboa, incluindo também a Amadora. São quatro equipas constituídas, neste momento, por quatro a cinco voluntários, porque tivemos de reduzir face à situação pandémica em que nos encontramos, por uma questão de segurança dos próprios.

Continuamos a contar com cerca de 600 voluntários para fazermos, não só esta intervenção, mas tudo o que diz respeito à preparação das ceias que distribuímos diariamente. As ceias são uma forma de chegar até às pessoas. O grande objetivo e a missão da instituição é apostar na relação de confiança para que possamos conseguir provocar a mudança e estimular as pessoas para essa mudança. A ceia acaba por ser algo com que pretendemos chegar até às pessoas, o grande investimento é a relação.

As restrições sanitárias, sobretudo a questão da máscara, que acaba por ser uma barreira física, em termos de imagem e de relação, também coloca dificuldades ao trabalho da assistência na rua?

No início sentimos muito isso, até porque tivemos de dar como prioridade, em março do ano passado, a distribuição da alimentação. Havia muitas pessoas, na altura, a passar fome, porque tinham sido confinadas e não podiam utilizar os mecanismos a que estavam habituadas, nomeadamente arrumar carros, dirigir-se à restauração. Isso fez com que a nossa prioridade fosse a questão da distribuição alimentar.

A preocupação era poder dar uma ceia a todas as pessoas e, na altura, tivemos de duplicar o número de ceias. Distribuíamos cerca de 420, passámos, em duas semanas, para cerca de 800 ceias.

Neste momento, estamos a distribuir entre 500 a 550 ceias por dia, mas o foco - e felizmente, porque outras instituições conseguiram retomar a sua atividade - continua a ser a intervenção junto da pessoa, para que a consigamos retirar da situação de sem-abrigo.

Mas o número de pessoas nesta situação aumentou?

O número aumentou.

E tende a crescer, como referiu, dada a crise e o desemprego?

Sim, dada a crise, essa é a preocupação. Por outro lado, temos em conta os programas que foram criados e as respostas que têm vindo a surgir - visando, de alguma forma, compensar o acréscimo de novas pessoas em situação de sem-abrigo. Mas, o número vai continuar a aumentar.

E a Comunidade Vida e Paz está a pensar em novas respostas?

A Comunidade Vida e Paz vai abrir amanhã (5 de julho) uma nova resposta, que foi um programa lançado pela Câmara Municipal de Lisboa ao qual concorreu e venceu. É a criação de uma comunidade integrativa para pessoas em situação de sem-abrigo. Vai funcionar em regime de alojamento de transição. É uma resposta inovadora, um ponto de viragem. Tendo a Comunidade Vida e Paz tantas respostas no que diz respeito à intervenção de rua, seja técnica, seja com voluntários, às comunidades terapêuticas, às comunidades de inserção, aos cinco apartamentos partilhados, aos seis apartamentos de inserção, esta era uma resposta que faltava.

Vai permitir dar a possibilidade a 40 pessoas em situação de sem-abrigo serem acompanhadas por uma equipa técnica constituída por psicólogos, serviço social, apoio médico, apoio psiquiátrico, apoio judicial, e o objetivo vai ser apostar na reintegração, e encontrar uma alternativa permanente para essas pessoas. Vamos poder receber homens, mulheres, casais, pessoas com animais de estimação, pessoas transgénero. É uma resposta inovadora, não só para a cidade de Lisboa, mas também para a Comunidade Vida e Paz.

"A Comunidade Vida e Paz vai abrir uma nova resposta. É a criação de uma comunidade integrativa para pessoas em situação de sem-abrigo. É uma resposta inovadora, um ponto de viragem"

Onde é que vai funcionar?

Vai funcionar na Quinta do Lavrado, na Olaias.

E é uma resposta diferenciada em relação aos apartamentos? É uma resposta mais próxima, em que acompanham as pessoas no sentido de as conseguir retirar desta situação e refazerem a vida?

O objetivo é retirar da rua, tirar as pessoas da situação de sem-abrigo, e juntamente com elas conseguirmos desenhar um plano para aquela pessoa, para que venha a reintegrar-se na sociedade de uma forma digna. E, para isso, irá contar com todos os serviços que iremos prestar e com uma equipa multidisciplinar.

Como é que qualquer pessoa pode ajudar a Comunidade Vida e Paz?

Tendo em conta que vamos criar esta resposta e que grande parte do investimento vai ser suportado pela Comunidade Vida e Paz - cerca de 35% é que é apoiado pela câmara municipal -, isto vai ter um grande impacto no orçamento da instituição. E por isso estamos a criar uma campanha com o objetivo de benfeitores particulares, empresas que nos queiram apoiar para a concretização e desenvolvimento desta unidade. Basta ir ao nosso site oficial, às nossas redes sociais ou entrar em contacto com a nossa sede para perceberem de que forma é que nos podem apoiar.

14.7.20

«É preciso evitar que a pessoa volte à condição de sem-abrigo» – Henrique Joaquim

Entrevista conduzida por Ângela Roque (Renascença) e Octávio Carmo (Ecclesia), in Ecclesia

Ligado durante anos à Comunidade Vida e Paz, é desde janeiro deste ano o gestor da Estratégia Nacional de Integração dos Sem-abrigo. Henrique Joaquim fala à Renascença e Ecclesia do impacto da pandemia nesta população e dos projetos para que ninguém viva na rua, até 2023.

Quando iniciou funções, há meio ano, manifestou-se confiante nas metas traçadas até 2023. A pandemia está a obrigar a grandes alterações na estratégia definida para esta área?

Em termos de meta não, em termos de etapas sim. Em março estava já com uma dinâmica muito interessante de visitar os locais todos que já têm núcleos de intervenção, isso teve de ser interrompido e só recentemente é que consegui retomar. Agora, a meta continua exatamente a ser a mesma: é trabalhar para que a nível local haja as condições mais adequadas possível para tirar da condição de sem-abrigo as pessoas que já estão nela, mas de preferência também começarmos a investir em condições de prevenção, para evitar que as pessoas cheguem a essa situação.

Há um aumento da pobreza e da precariedade económica. Na prática o que é que é possível fazer e já está a ser feito para evitar que pessoas que estão numa situação de pobreza limite acabem na rua?

Já houve medidas muito concretas, como o prolongar de forma automática a renovação do Rendimento Social de Inserção (RSI), do subsídio social de desemprego, o facilitar o acesso ao próprio RSI a pessoas que caíram na situação de pobreza ultimamente. O facto de estarmos muito próximos e dependentes diretamente da pessoa do governo que tem esta pasta (a ministra do trabalho), permite trabalhar para que as medidas de proteção social sejam tão ágeis quanto possível, para que as pessoas não fiquem sem recursos e não caiam nesta situação extrema.

As moratórias sobre a habitação têm sido cruciais nisso, a própria moratória sobre as hipotecas ou sobre os arrendamentos também contribuiu para essa prevenção. Às vezes parece que são medidas que não estão articuladas, mas estão, e têm o objetivo de evitar que a pessoa caia na pobreza e, acima de tudo, caia em situações extremas de pobreza, que são muito mais difíceis de reverter.

Mas, com a crise económica prevê um aumento exponencial da população sem-abrigo nas grandes cidades?

Não quero entrar por aí… Não é por estar com medo dos números, estamos a fazer esse trabalho de atualização dos dados, já tínhamos previsto fazê-lo, para termos a noção de como é que a situação estava em dezembro de 2019, mas por causa da pandemia estamos a tentar fazer dois em um: saber como estávamos em dezembro de 2019 e em abril de 2020, para percebermos qual foi o impacto nos primeiros 4 meses…

E se a pandemia provocou um aumento…

Mas ainda não é possível dar esses dados, porque estamos a fazê-lo não apenas nos núcleos de intervenção, com pessoas em situação de sem-abrigo, mas em todos os concelhos do país. Assim que os dados estejam cá fora poderemos ver qual é a evolução em termos nacionais e regionais, e a nível local perceber se há concelhos onde eventualmente essas situações possam estar a acontecer, ou outros onde possa ter havido mobilidade.

Mas, o investimento que é feito no terreno, para ajudar as pessoas em situação de sem-abrigo, é proporcional ao que é feito na prevenção? Às vezes fica-se com a ideia de que há muito mais trabalho no terreno do que aquele que está por trás…

A pandemia trouxe-nos vários aspetos positivos, e um deles foi este: o confinamento da população em geral tornou muito mais visível a condição em que estas pessoas estão, e obrigou-nos a tomar medidas de urgência. Como acontece em todos os problemas sociais, quando vemos a necessidade o primeiro impulso é resolvê-la. Mas, uma das nossas prioridades é trazer para a agenda, e depois de trazer para a agenda, ou ao mesmo tempo que trazemos para a agenda, trazer para o plano também a dimensão da prevenção, e a vários níveis. Desde logo a própria intervenção que se faz, é preciso garantir que é suficientemente consistente e que o acompanhamento não é só suprir as necessidades básicas, é garantir que se evita que a pessoa volte à condição de sem-abrigo. Isso já é uma forma de prevenção, mas também, como falávamos há pouco, ter medidas de proteção social que permitam que a pessoa não tenha de chegar àquela situação.

Há trabalho feito, mas não é explicitado, e esse é um esforço que estamos todos a fazer neste momento, inclusive com as equipas locais, explicitar na própria ação a intencionalidade de haver objetivos ao nível da prevenção, e garantir não só os que já se fazem, mas outros que possam ser feitos, identificando quem são os grupos de risco. Se os identificarmos conseguimos ter ações mais a montante, para prevenir que a pessoa pode ter o risco, mas não cai na situação.

Ao nível da saúde mental, não só a questão das dependências, mudou alguma coisa no apoio aos sem-abrigo?

Uma das ações que tivemos de interromper, mas que vamos retomar, é a formação de todos os técnicos que estão a intervir nesta área, exatamente sobre formas mais ágeis de referenciar as pessoas com esta dimensão de comorbilidade, que associa o facto de estarem sem teto a terem problemas de saúde mental. Durante a pandemia conseguimos, nos grandes centros, ter o apoio de médicos psiquiatras nas unidades de emergência que foram criadas. Depois é fazer o trabalho de encaminhamento para as respostas que já existem ao nível da saúde.

É efetivamente uma das dimensões que temos de ter em conta, mas não a única, e é importante não associar de forma muito linear – como às vezes a opinião pública faz – a condição de sem-abrigo a problemas de saúde mental. Há muitas pessoas na condição de sem-abrigo que não têm necessariamente problemas de doença mental, e é importante não criarmos por aí o estigma. Para aqueles que têm, estamos a investir fortemente em respostas que sejam adequadas, como é por exemplo a linha de apoio e financiamento às equipas técnicas dos projetos de ‘Housing First’, um conceito que visa dar resposta às pessoas que têm este perfil e precisam de ter um apoio técnico para não reverter a situação. São habitações individualizadas, de preferência já com caráter definitivo, e são uma resposta muito adequada, pelo menos os dados dos projetos que já existem apontam claramente nesse sentido. Daí uma das medidas que estamos a implementar é o apoio às instituições que já tinham manifestado interesse em ter equipas técnicas nesta área. Havendo disponibilidade habitacional das autarquias, a Segurança Social financia a intervenção das equipas que fazem esse suporte. Ou seja, não é suficiente suprir a necessidade básica que é o teto, a casa, é fundamental garantir que essas pessoas têm um acompanhamento técnico em termos de intervenção social, e com os recursos que sejam necessários, seja da saúde, seja da justiça, os que foram fundamentais para apoiar a pessoas, porque a intervenção tem de ser integrada.

Sem esse acompanhamento não é possível a integração destas pessoas?

É muito mais difícil, a própria pessoa fica vulnerável a voltar à situação anterior. Estamos a trabalhar com situações complexas, e a intervenção tem de ser integrada nas diferenças respostas, mas também integral: há que atender à dimensão física da pessoa, mas também à sua dimensão mental, psicológica e até, num sentido mais alargado, espiritual. Estas pessoas têm de ser integradas pela via da cultura, pela via dos laços afetivos e sociais, da integração na sua comunidade de vizinhos, de bairro, para poder ter aquilo que nos suporta a todos, e que na gíria chamamos a ‘rede de suporte social’, não ficar isolado.

Os projetos ‘Housing First’ que já existem estão a dar resultado? O investimento que tem sido feito é suficiente, devia ser reforçado?

Estamos a fechar o período em que estas 13 candidaturas, ou manifestações de interesse que foram feitas, foram todas aprovadas. As organizações estão a entregar a documentação para depois se passar aos contratos programa e ao financiamento propriamente dito.

Os estudos de avaliação das respostas que já havia indicam que têm um elevado índice de sucesso, designadamente o ‘Housing First’, para pessoas em situações mais crónicas, com períodos longos na situação de sem-abrigo, e que associam muitas vezes problemas de doença mental, ou seja, com perfis que requerem uma resposta mais individualizada.

Quando estes 13 projetos estiverem em velocidade cruzeiro, como esperamos ter muito em breve, e tendo os resultados da avaliação da caracterização das pessoas em 2019/2020, estaremos em condições de reavaliar o que é que é necessário investir mais, e onde.

Esse ‘muito em breve’ significa o quê?

Como lhe disse, esta implementação, quer do projeto em Housing First, que é a resposta individualizada, quer dos apartamentos partilhados, que para nós é importante, porque é complementar – porque vai responder a outro perfil -, quer o levantamento dos danos, estas três etapas, digamos assim, vão estar concluídas em simultâneo. As respostas habitacionais, já este mês, os processos burocráticos e administrativos estarão feitos – estão a decorrer os dos apartamentos partilhados; do Housing First, estão em processo de entregar a documentação. Portanto, durante o mês de julho umas candidaturas entrarão em velocidade de cruzeiro; os apartamentos partilhados, durante julho, agosto, deverão entrar em funcionamento. Até ao final do ano estarão em velocidade de cruzeiro.

Até final do ano teremos os resultados dos questionários, de dezembro e de abril, que já foram aplicados. O que o grupo de trabalho está a fazer é ser mais rigoroso nas respostas e perceber onde houve discrepâncias, quer para reduções significativas, quer para aumentos nos números, perceber se foi só uma questão de preenchimento ou quais foram as razões que os locais apontam já para justificar esses aumentos. Assim, quando sair o relatório, isso já vem de forma consistente. Mas estamos a tentar cruzar a implementação das respostas – e estas respostas visam já dar seguimento o trabalho que foi feito durante a pandemia, nestes espaços que foram criados, 21, para além dos que já existiam. Queremos prevenir que este movimento – muito positivo, muito significativo, este movimento de pessoas que aderiram às respostas de emergência -, evitar que estas pessoas voltem outra vez a condição de sem-abrigo e aproveitar esse elã que foi criado, para elas transitarem seja para o ‘Housing First’ seja para habitação partilhada, conforme o perfil. Aí são as equipas que vão, que estão lá diariamente com as pessoas, e que vão adequar qual é que é melhor para cada perfil.

Este tempo de pandemia revelou muita coisa em relação aos sem-abrigo. Não sei se é correto dizer que as pessoas nestas condições ficaram mais desprotegidos, nomeadamente durante o confinamento. Sabemos que houve organizações que deixaram de prestar apoio na rua; mesmo aquelas que faziam apoio mais dentro de casa, que forneciam refeição quente até tomar banho, os planos de contingência também foram sendo sucessivamente alterados ao longo desta fase. Houve situações muito complicadas?

Nos primeiros dias foi, de facto, difícil, uma situação abrupta em que a mensagem fundamental é: fique em casa. Temos aqui, desde logo a contradição, de todos nós sermos mandados para casa e haver pessoas que não tinham casa para onde ir. Fosse por medo, fosse porque, de facto, as pessoas -profissionais, voluntários – tinham também limitações quer familiares, quer de saúde, e que tiveram de se remeter ao confinamento. Aí houve, diria na primeira, segunda semana, situações em que o desafio foi acrescido e foi muito maior, mas, como disse, as respostas foram também muito imediatas.

Todos os serviços que existiam até aquela altura continuaram a funcionar: nomeadamente, ao nível dos alojamentos foram criados mais 21, a nível nacional, não foi só nas grandes cidades.

Os centros de acolhimento?

Sim, foram unidades de emergência. Eu gosto mais de chamar-lhes unidades, porque nem todos foram espaços físicos como centros de acolhimento: tivemos parques de campismo, tivemos pavilhões polidesportivos. Foi o que as equipas locais, juntamente com as autarquias, conseguiram disponibilizar para responder tão rápido quanto possível e aceitamos todos este grande desafio que foi não deixar essas pessoas desprotegidas. Implicou, em certa medida, acolhê-las e na altura disseram-nos: ‘mas então a mandar cada pessoa para casa e vocês estão a juntar as pessoas?”. Sim, estamos a juntar, mas porque temos de manter o contacto com elas, elas têm a ser apoiadas mais do que nunca. Também têm de ser protegidas, do ponto de vista da saúde, desta doença em concreto. Tivemos de lhes dar informação, tivemos de dar formação, tivemos de sensibilizar para a higiene, para a etiqueta respiratória, como todos nós tivemos de ser formados. O que garantimos foi que nesses espaços, nessas unidades, foram respeitadas as regras de segurança.

Portanto, esses espaços foram sempre criados com o apoio da Proteção Civil local, com as orientações da Direção-Geral de Saúde, com as orientações que a própria estratégia nacional depois elaborou, para todas as equipas locais de terem como como referência, e num contacto muito próximo meu, com cada uma das equipas, contacto diário – às vezes mais do que uma vez ao dia – para estarmos a fazer, de facto este, este desafio que era aproximar-nos das pessoas, mas protegê-las também do ponto de vista da saúde, garantindo a segurança de todos os envolvidos.

Nas situações mais críticas, por exemplo, recorremos ao apoio das Forças Armadas, extraordinárias também, o que permitiu que algumas das organizações que trabalham muito com voluntários e que tiveram redução de pessoas, permitiu um o ajustamento e hoje já está mais normalizado.

Quantas pessoas foram acolhidas nestes centros?

Foram acolhidas mais de 500 pessoas, sendo que a maioria delas, as que vieram a estes centros, muitas delas já eram pessoas em situação de sem-abrigo.

Há alguns dados sobre o impacto da doença na população sem-abrigo?

Aconteceu uma situação extraordinária, que do meu ponto de vista tem duas hipóteses explicativas, que se complementam. Nós, até à data de hoje, temos reportados dois casos positivos e um deles nem foi numa das unidades de emergência, foi numa unidade que já existia, mas que foram tratados de acordo com o protocolo segurança da Direção-Geral de Saúde, a situação foi sinalizada.

Um dos critérios destes destas unidades era que em todas as pessoas eram feito o despiste dos sintomas da doença, para detetar o mais precocemente possível alguns desses casos. Foi aí que apareceram essas duas situações.

Portanto, são dados credíveis?

Sim, até hoje. O que isto revela, do meu ponto de vista, é que houve um trabalho extraordinariamente bem feito pelas equipas locais – e quando equipas, digo conjunto, de propósito, porque foram os técnicos, mas foi também a Proteção Civil, foram os serviços de saúde que apoiaram estas equipas, foram as autarquias, sejam as câmaras ou as próprias juntas de freguesia.

A segunda hipótese que eu coloco é que existiu um comportamento, – é normal que em mais de 500 pessoas haja comportamentos às vezes menos adequados – mas, de uma forma generalizada, as próprias pessoas em condição de sem-abrigo adotaram, interiorizaram muito bem os comportamentos de proteção, quer de higiene, quer de aceitar o despiste diário dos sintomas. Eu acho que isto permitiu que, até hoje, não tivéssemos, felizmente, nenhum surto nesta população nem nos voluntários ou nos profissionais que trabalham com estas pessoas.

Em junho houve uma concentração de sem-abrigo frente ao Parlamento para lembrarem continuam “invisíveis” e que a rua “não é uma escolha”, que precisam de casa. Isto foi um ato inédito. Os sem-abrigo estão cansados de promessas?

Eu não sei se foi nesse sentido. A manifestação enquanto tal foi, de facto, um ato inédito e muito bem, porque eu acho que se temos de investir na prevenção, também temos investido – embora não de forma mediática, mas temos investido – para que as próprias pessoas em situação de sem-abrigo tenham uma voz ativa no processo.

Anteriormente a essa manifestação já tínhamos feito no próprio ministério -e também foi uma das ações que tivemos de interromper – uma reunião com 24 pessoas em situação de sem-abrigo, no salão nobre do ministério, a falar diretamente com a senhora ministra e com dois técnicos a tomar notas, com um caderno de encargos altamente elevado.

Tem sido uma postura que temos continuado a fazer – também já fizemos impressões na rua acompanhados por uma pessoa que já esteve na condição, que hoje está integrada e conhece muito bem a rua, porque esteve vários anos na rua e conhece algumas das pessoas que estão na rua. Fazer uma ida à rua, desse ponto de vista, é muito rico também, porque chegamos a pormenores e vemos situações que, de outra forma, não vislumbraríamos, mas este comportamento é para manter. Mesmo na própria estrutura formal, na própria organização formal da estratégia temos vindo a fazer tentativas para que haja uma… já há representação das pessoas em situação de sem-abrigo por via das instituições, mas queremos que essa representação seja em discurso direto, queremos que sejam os próprios a encontrar os seus representantes para falar na mesma plataforma onde falam os voluntários e técnicos.

Queremos cada vez mais dar corpo a uma máxima que no Norte já existe e que temos divulgado pelo país todo: “Nada sobre nós sem nós”. Eu acho isso muito importante.

Essa manifestação veio na linha do que do que já estávamos a fazer. Sendo um problema complexo não é muito fácil responder de uma forma tão rápida quanto expectável às necessidades destas pessoas, mas que há o compromisso e há a realização desse compromisso de ouvir diretamente, como recentemente voltamos a fazer – seja com o senhor presidente, sejam sem o senhor presidente- de ir à rua falar diretamente com estas pessoas. É uma tarefa que temos no nossa no nosso plano de ação e vamos continuar a fazer.

O apoio do presidente é importante, continua a ser importante?

O apoio de todos é fundamental, sem desvalorizar o apoio do senhor presidente, que, obviamente, como maior magistrado da nação tem aqui uma magistratura de influência muito importante e teve desde 2015/2016, desde que assumiu este compromisso. Eu diria que um problema social desta natureza terá tanta maior probabilidade de sucesso quanto maior envolvimento tiver da nossa sociedade civil, de forma desde a mais simples à política e representativa.

O apelo que nós que nós deixamos é que esta causa não é uma causa de um ou doutros, de A, B ou C, tem de ser uma causa toda, tem de ser -e o senhor presidente usa muitas vezes essa expressão- um desígnio nacional.

Vai ser possível cumprir a meta definida de, até 2023, deixarmos de ter pessoas em situação de sem-abrigo?

Eu acho que sim. Nós não temos de ter medo, pelo contrário, temos de ser ousados, colocar uma meta e responder por ela. Não tendo metas, o risco que corremos é normalizar a situação e a situação nunca pode ficar normalizada. Temos de ter permanentemente esse desafio.

Como eu disse no início, ainda que tenhamos de ajustar etapas, a meta tem de existir. Agora, fazendo esta avaliação podemos eventualmente ter de equacionar outras ações, mas temos de ter a meta e a meta tem de ser ambiciosa ao ponto de acreditarmos que a situação sem-abrigo é uma situação reversível.

Há outros parceiros a nível internacional que também partilham desse desígnio e, portanto, não estamos sozinhos nesse desafio que às vezes pode parecer utópico, mas se não for nós não sabemos para onde vamos.

Portanto, sim, é bom termos a meta, não termos medo de assumir e mais uma vez, se calhar, percebermos que todos somos importantes.

Se for resolvido, em primeiro lugar, é o sucesso da vida daquelas pessoas; em segundo lugar, estaremos todos, em termos sociais, muito mais, diria, mais realizados, mais satisfeitos. Porque não ter ninguém na rua deixa-nos a todos mais realizados.

23.12.15

Comunidade Vida e Paz realiza festa de Natal para sem-abrigo

Cristina Liz, in "RTP"

O encontro promovido pela associação junta pessoas sem abrigo na cantina da Cidade Universitária, em Lisboa, durante três dias.

8.7.14

Comunidade Vida e Paz. Ajudar os sem-abrigo "online"

por Ana Lisboa, in RR

A instituição pretende angariar fundos para necessidades concretas, com a vantagem de se poder acompanhar a evolução dos donativos.

A partir de agora quem quiser ajudar a Comunidade Vida e Paz, pode fazê-lo "online".

A ideia “surge de aproveitar as novas plataformas, os novos meios de comunicação e tentar inovar um bocadinho o estímulo à partilha da comunidade envolvente com a própria Comunidade Vida e Paz”, refere Henrique Joaquim, o presidente da instituição.

“Queremos respeitar um princípio de proximidade que é ir dando a conhecer às pessoas que queiram participar nos projectos a evolução quer do financiamento, quer do próprio projecto, tornando, assim, uma relação mais estreita com a dádiva que a pessoa faz”, explica.

Este responsável destaca outras vantagens como “fazer o donativo automaticamente pela internet, porque o sistema está ligado a um pagamento automático, via multibanco”, sendo emitido em curto prazo um recibo do donativo para dedução fiscal.

"Conseguimos permanentemente ter projectos que estão em curso ou que estão em vias de arrancar e precisam de apoio. E para funcionar precisam da partilha da comunidade envolvente", sublinha Henrique Joaquim.


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