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28.5.18

Como brincar com bonecas agrava o risco de pobreza na velhice

Natália Faria, in Público on-line

Mais escolarizadas do que os homens, as mulheres portuguesas estão em maioria na engenharia, na medicina, na magistratura. Mas, seja qual for a profissão, ganham sempre menos. A desigualdade de género, que chega a atingir os 600 euros, inculca-se no jardim-de-infância e redunda depois numa maior exposição à pobreza.

Como é que o facto de nos jardins-de-infância as meninas brincarem com cozinhas e os meninos com foguetões contribui para a persistência de desigualdades penalizadoras para as mulheres e ajuda a que estas cheguem à velhice com reformas mais baixas e mais expostas ao risco de pobreza? A resposta está no estudo Igualdade de Género ao longo da Vida, da Fundação Francisco Manuel dos Santos, que é apresentado esta segunda-feira e que conclui, por exemplo, que, logo à chegada ao mercado de trabalho, as mulheres entram a ganhar menos e são mais frequentemente contratadas em regimes precários, apesar de se apresentarem mais escolarizadas e com currículos mais completos.


“As diferenças salariais são brutais e absolutamente chocantes. Nas profissões menos qualificadas, chegam a ultrapassar os 200 euros, o que é muitíssimo porque estamos perante salários miseravelmente baixos”, adiantou Anália Torres, socióloga e coordenadora do estudo que aponta ainda disparidades salariais a rondar os 600 euros entre os representantes do poder legislativo e de órgãos executivos. À discriminação feminina no trabalho pago – as mulheres jovens têm um salário médio/hora de 5,8 euros, contra os 6,1 euros auferidos por eles – soma-se a sobrecarga nas tarefas do “cuidar”, da casa e dos filhos, às quais as mulheres dedicam o dobro do tempo.

A discriminação e a sobrecarga feminina nos cuidados com os filhos e com a casa não é novidade, num país que remunerou sempre mais a função produtiva do que a reprodutiva. O que este estudo faz é mostrar, quantificando, que as desigualdades se impõem logo no início da idade adulta, entre os 15 e os 29 anos de idade. Aliás, este estudo distingue-se dos restantes porque, ao longo de mais de 400 páginas, sete investigadores mediram as desigualdades no arco temporal 2000-2016, numa perspectiva comparada com outros países europeus, em três diferentes fases da vida: até aos 29 anos; entre os 30 e os 49 anos de idade, altura em que homens e mulheres (mas mais as mulheres) correm entre o trabalho pago e os cuidados da casa e dos filhos, por isso chamada “rush hour of life”; e, por último, na fase tardia da idade activa, entre os 50 e os 65 anos.
No momento da contratação a mulher é vista como potencialmente menos disponível para o trabalho. Mesmo que não haja filhos, a mulher será potencialmente mãe. É como se levasse uma marca na testa
Anália Torres

Apesar das gigantescas conquistas do século XX – em que, por via de inovações como a pílula contraceptiva, mas também de factores como a emigração masculina e até mesmo das guerras que empurraram as mulheres para fora do reduto doméstico e permitiram “a massificação dessa possibilidade de homens e mulheres terem vidas mais parecidas”, conforme sublinha Anália Torres –, as desigualdades de género persistem: “Quando comparamos os salários, as diferenças são brutais.” Na rush hour of life, as disparidades salariais agudizam-se: elas ganham em média 10,3 euros/hora e os homens 11,4 euros. E, a partir dos 60 anos de idade, ainda mais: elas ganham em média 8,93 euros/hora contra os 12,88/hora auferidos pelos homens. Logo, prossegue a investigadora, “é bom que reconheçamos que o problema existe e que não é só na Arábia Saudita”.

Engenheira, mas sem negligenciar a casa
A diferença é que as desigualdades se tornaram mais subtis, reproduzindo-se num pano de fundo onde subjaz uma “desvalorização simbólica e material daquilo que as mulheres fazem e produzem e das suas capacidades, especialmente na dimensão produtiva e no espaço público”. E, mais do que isso, tendem a agravar-se ao longo da vida. “Uma mulher começa [entra no mercado de trabalho] logo em desvantagem, chega à fase da ‘rush hour’, ganha menos e continua a ser duplamente penalizada com o dobro do trabalho não pago e depois, na fase tardia, abandona o mercado de trabalho, não porque ficou desempregada ou chegou ao fim da carreira contributiva, mas porque tem de tomar conta dos pais ou dos netos. Descontou menos, porque ganhou menos, e acaba por ter uma reforma muito baixa também porque teve uma carreira contributiva mais curta. Logo, a probabilidade de as mulheres caírem na pobreza – e mesmo que não caiam, de terem um ganho suficiente para terem uma vida com dignidade – é muito maior.”

Da educação ao trabalho, a desigualdade de género atravessa gerações
E onde é que tudo isto começa? No jardim-de-infância. “No pré-escolar, no recreio e na sala de aula, meninos e meninas vão ajustando o seu comportamento a uma visão normativa de género que também acentua diferenças e assimetrias entre géneros”, lê-se no estudo. “As pessoas tendem a achar que isso de haver brinquedos para meninas e brinquedos para meninos é uma questão menor, mas não: qualquer criança vai querer criar um sentido de pertença e adequar-se àquilo que acham que esperam dela, a assumir o seu papel em função do estereótipo. E se a mensagem que lhe passam vai no sentido de que o natural é que as meninas brinquem com cozinhas e com bonecas ela interioriza e incorpora, consciente ou inconscientemente, a ideia de que é natural serem elas a ocupar-se das tarefas domésticas, mesmo que aspirem a ser engenheiras ou físicas”, explica Anália Torres.
Não surpreenderá tanto assim a constatação de que, entre os 15 e os 29 anos, Portugal bata, juntamente com Espanha, o recorde da assimetria entre o tempo que eles e elas investem no trabalho do cuidar – da casa e dos filhos: elas dedicam em média 32 horas por semana à casa e à família e eles apenas 17 horas. E esta aculturação adquirida na infância revela-se igualmente no momento de contratação para um emprego.
“Em circunstâncias de igualdade de currículo, homens e mulheres contratam preferencialmente homens. Apesar de elas chegarem ao mercado de trabalho mais escolarizadas e mais preparadas do que eles, no momento da contratação a mulher é vista como potencialmente menos disponível para o trabalho. Mesmo que não haja filhos, a mulher será potencialmente mãe. É como se levasse uma marca na testa, enquanto o homem, mesmo tendo família, é encarado como alguém mais disponível porque tem um background de apoio, quase sempre uma parceira, para lhe fazer o trabalho doméstico.”

Mulheres correm mais no meio da vida
Isto ocorre apesar de a mobilidade educacional ascendente ser em Portugal “fantástica”. Sobretudo para elas. “Somos dos países da Europa que têm mais mulheres cientistas e em áreas como a informática e a matemática. E a maioria dos médicos não são médicos, são médicas. A maioria dos juízes não são homens, são mulheres. Ainda assim, vive-se essa contradição brutal entre o que é o desempenho objectivo das mulheres no mercado de trabalho e uma certa inércia acerca da imagem do que é uma mulher”, precisa a coordenadora da Unidade de Sociologia do Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas da Universidade de Lisboa, para voltar ao tema da disparidade salarial: “É admissível que uma engenheira, por exemplo, ganhe menos 600 euros do que um engenheiro? Não é.”

No escalão etário seguinte, as portuguesas com filhos destacam-se por uma taxa de empregabilidade acima da média europeia: 80%, contra os 70% da União Europeia a 27. E, ainda assim, elas continuam a dedicar 18 horas por semana a cuidar da casa, contra as oito deles. Quanto ao cuidar da família, sobretudo filhos, a disparidade atenua-se ligeiramente nesta fase: eles passam 10 e elas 16 horas por semana. Na prática, “elas passam a vida a correr entre o trabalho e a casa”. “E como a mulher ganha efectivamente menos do que o homem, acaba também por achar normal assumir mais responsabilidades em relação à casa e aos filhos. Se o casal se dá bem, menos mal. Agora, se daí a alguns anos se separam, ela, que ficou agarrada e não foi promovida profissionalmente, fica prejudicada, enquanto ele está muito mais à vontade em termos de recursos.”
Esta divisão de papéis não é imperativo biológico nem algo a que o país esteja condenado. Como inverter o cenário? “Valorizando a dimensão do cuidar”, opina Anália Torres. “Mesmo em países como Portugal, que se destaca no contexto europeu pela ampla cobertura dos equipamentos de apoio à segunda infância, o aumento da participação masculina no cuidar, da casa e família, tem ainda investimento social e político a ser feito com o objectivo de promover a igualdade de género”, sugere o estudo. Na Suécia, por exemplo, a educação sexual chegou às escolas em 1958. “Isto ajuda a perceber por que é que os suecos têm indicadores de igualdade melhores do que os nossos”, reforça a socióloga.

Empurradas para os netos
Voltando ao caso português, quando o olhar dos investigadores se foca no grupo dos 50 aos 65 anos de idade, o que sobressai é que as mulheres abandonam mais precocemente o mercado de trabalho. “Quase um quinto das mulheres está nesta fase da vida principalmente dedicada às responsabilidades familiares”, precisa o estudo. Quando se poderia esperar que, emancipados os filhos, as mulheres poderiam reinvestir nos seus projectos profissionais, a realidade puxa-as para cuidar dos ascendentes idosos ou dos netos, o que desemboca numa taxa de emprego entre os 50 e os 64 anos de idade que não vai além dos 53,2%, no caso das mulheres portuguesas (64,4%, no caso dos homens).
É certo que “a pressão para sair no mercado de trabalho por exigências familiares “não é sentida por todas as mulheres da mesma forma”. As que passaram pela universidade, por exemplo, tendem a manter-se nos seus empregos durante mais tempo. Porquê? “São situações que podem corresponder a salários mais elevados e à externalização da prestação de cuidados.” Em média, porém, numa geração bastante menos escolarizada do que a juventude, o que prepondera é uma disparidade salarial entre eles e elas que se traduz no facto de elas ganharem em média 9,85 euros por hora contra os 12,19 euros auferidos por eles.

Automatização e crescimento tecnológico agravam desigualdade entre géneros
Tudo conjugado, chega-se ao fim da idade activa com um marcado aumento do risco de pobreza que “é mais penalizador para elas”, apesar das melhorias dos últimos anos: em 2005 o risco de pobreza das mulheres portuguesas nesta fase da vida era de 30,5%, em 2015 esse valor baixou para os 26%. E, tal como no jardim-de-infância, são elas quem mais se dedica à cozinha e às tarefas do cuidar. Quando se trata da família, por exemplo, elas despendem nisso 22 horas por semana e eles apenas seis. São 16 horas de diferença. Um recorde europeu.

14.4.14

Mulheres ganham menos e estão em minoria nos cargos de chefia

in Jornal de Notícias

A igualdade de oportunidades consagrada na lei às mulheres com o 25 de Abril concedeu-lhes o acesso a profissões que lhes estavam vedadas, mas ganham menos do que os homens e estão em minoria nas chefias.

Um sinal, segundo a socióloga Sara Falcão Casaca, do Instituto Superior de Economia e Gestão, de que a democracia é um "processo inacabado" e que a crise veio fragilizar mais, com o aumento do desemprego, "uma das maiores sombras do Portugal democrático".

Em 2013, referiu a socióloga, a taxa de desemprego rondava nas mulheres 16,4%, contra 16,1% nos homens, sendo que mais de 60% do desemprego feminino era de longa duração.

Para a ex-presidente da Comissão para a Cidadania e Igualdade de Género, o "risco de retrocesso" é grande, com a perda de independência das mulheres a significar perda de autonomia, da "possibilidade de conduzirem livremente a sua vida", uma das conquistas de Abril.

O 25 de Abril de 1974 marca a rutura, na lei, com as desigualdades de género: as mulheres passam, inclusive, a poder aceder a todos os cargos da carreira da administração local, bem como à carreira diplomática e à magistratura.

Contudo, 40 anos depois, contam-se pelos dedos as mulheres que lideram embaixadas - seis contra 55 homens - ou que são juízas no Supremo Tribunal de Justiça - apenas sete de um total de 67 juízes e nenhuma é presidente de secção.

Sara Falcão Casaca lembra que, com o 25 de Abril, "as mulheres tomam consciência da necessidade de investirem na sua educação".

Hoje, há mais mulheres diplomadas do que homens, mas, apesar das competências e de a Constituição estipular a igualdade no trabalho e no salário, elas ganham menos do que eles e estão afastadas das atividades tradicionalmente masculinas.

De acordo com o mais recente Censos, de 2011, as mulheres com o ensino superior concluído ascendiam a 754.337, enquanto os homens a 490.405. No entanto, o salário médio delas era inferior, 945,90 euros contra 1.195,40 euros.

Quanto mais qualificadas são as mulheres, "maior é o diferencial" remuneratório que têm face aos homens, assinalou a docente, sublinhando que os quadros superiores femininos ganham menos 29% comparativamente aos masculinos.

"O padrão que é valorizado é a representação tradicional do trabalhador isento de responsabilidades familiares. As mulheres são altamente penalizadas, porque ainda têm muito sobre os seus ombros o ónus das responsabilidades familiares", sustentou Sara Falcão Casaca à agência Lusa.

Se o emprego e o aumento da escolarização das mulheres foram um avanço, "não conseguiram diluir a segregação sexual".

"Continuamos a ter mulheres e homens concentrados em setores de atividade distintos, porque continuamos a ter padrões de socialização diferenciados em função do género", advogou Sara Falcão Casaca, acrescentando que "as opções educativas, formativas, as expectativas profissionais são moldadas pelas representações tradicionais de género e pelas expectativas de quem contrata".

Em 2013, salientou, 82% das pessoas empregadas no setor da Saúde e Ação Social eram mulheres e na Educação 77%, enquanto nos Transportes e Armazenagem resumiam-se a 18% e na Construção a 6%.

Nas opções formativas, as mulheres preferem as áreas da Educação e da Saúde, em detrimento da Engenharia, das Indústrias de Transformação e da Construção.

Apesar de igualmente qualificadas, elas estão em desvantagem em relação aos homens no que toca a cargos de topo, no setor privado e no setor público.

Nas empresas cotadas em bolsa, das 256 pessoas que fazem parte de conselhos de administração, apenas 18 são mulheres e nenhuma é presidente.

Mesmo na administração pública, um "setor feminizado", frisou Sara Falcão Casaca, somente 35% das mulheres ocupam cargos dirigentes.

Portugal nunca teve uma mulher chefe de Estado, apenas uma primeira-ministra, Maria de Lourdes Pintasilgo, em 1979-80, e só recentemente, em 2011, passou a ter uma presidente, Assunção Esteves, da Assembleia da República, segundo órgão de soberania, no qual somente um terço dos deputados são mulheres.

No Conselho de Estado, os homens estão, mais uma vez, em maioria - apenas dois dos seus 19 elementos são mulheres.

Sara Falcão Casaca é apologista de medidas de autorregulação nas empresas, que as incentivem a serem "amigas da família", e do regime de quotas femininas, uma medida "datada no tempo", com penalizações associadas, num reconhecimento de que "há uma situação de desigualdade que não é possível corrigir de outro modo em tempo aceitável, socialmente justo".

"Se a escolaridade não fosse obrigatória, muitas crianças não iam ainda à escola", ironizou.

“Há mais sexismo nas universidades do que em outras áreas em Portugal”

Maria João Lopes, in Público on-line

A investigadora em estudos de género Maria do Mar Pereira foi a vencedora do Prémio Internacional para o Melhor Livro em Investigação Qualitativa feito entre 2010 e 2014.

A investigadora em estudos de género Maria do Mar Pereira vai receber, em Maio, pela obra Fazendo Género no Recreio – A negociação do género em espaço escolar, o Prémio Internacional para o Melhor Livro em Investigação Qualitativa feito entre 2010 e 2014. Além das escolas, diz que as universidades são espaços de discriminação e que a crise pode levar a um retrocesso nas conquistas de género. Em entrevista ao PÚBLICO, confessa ainda que tem “muita pena” de ter tido de emigrar e de estar a aplicar no estrangeiro um conhecimento que foi financiado por Portugal

Maria do Mar Pereira, 32 anos, vive em Inglaterra há sete anos, onde dá aulas na Universidade de Warwick. Foi distinguida por um estudo que fez em 2012, quando foi para uma escola em Lisboa perceber o que pensam jovens de 13 e 14 anos sobre as relações entre homens e mulheres e sobre o ser-se homem e o ser-se mulher. Apesar de, no final do processo, terem começado a mudar as suas ideias, estes adolescentes continuavam a pensar que meninas com muitos namorados eram galdérias e que homens sensíveis eram “maricas”.

O que é que pensava sobre o ser-se homem e mulher quando tinha a idade dos jovens que entrevistou?
Lembro-me de ter 13 anos e de já me dizerem que me armava em feminista. Eu respondia que não era feminista! Não sabia o que era. Foi preciso chegar aos 18 para perceber que é defender a igualdade entre homens e mulheres.

Na adolescência nunca se sentiu contaminada pelas representações que existem na sociedade?
Havia coisas que me pareciam injustas. Como os rapazes, os nossos irmãos e primos, serem tratados de forma diferente, os meus pais acharem que meninas não dizem asneiras, e os rapazes mais sensíveis não serem respeitados. Mas não tinha a linguagem para as nomear e dizer por que eram injustas.

Mas nunca se deixou contaminar?
Sim, muitas vezes adaptei o meu comportamento às ideias sobre o que é uma rapariga desejável e normal. Queria parecer desejável, atraente. Normal, acima de tudo. Essa força da normalidade é muito intensa sobre os adolescentes. Lembro-me de os meus colegas dizerem que nunca ia arranjar um namorado, porque era demasiado inteligente e os rapazes não gostam de mulheres inteligentes. Nessa altura, e até arranjar namorado, não é que fingisse que era burra, mas ficava calada.

Os adolescentes que entrevistou achavam que as raparigas com vários namorados eram galdérias e os rapazes não. Os rapazes que falavam sobre os outros eram “curiosos”, as meninas “coscuvilheiras”. Os rapazes que não correspondiam ao ideal de masculinidade eram “maricas”. São representações que já existiam e que se mantêm... De onde vêm?
Para jovens desta idade vêm muito dos media. Dos filmes, revistas, séries de televisão. Da escola também. Eles ouvem dizer que os rapazes se portam mal, que as raparigas têm mais maturidade, que os homens só pensam em sexo. Estas afirmações feitas, muitas vezes em conversa banal, definem a visão que crianças e jovens têm sobre o mundo. Como as pessoas acham o género uma coisa natural, normal, biológica, as professoras e os professores nem sempre têm noção que fazer certos comentários pode ter efeitos muito nocivos.

Há estudos científicos sobre a diferença entre o cérebro das mulheres e o dos homens. Alguns dizem-nos que o desempenho motor e a visualização espacial são mais fáceis para eles e a memória e as capacidades cognitivas sociais mais fáceis para elas. É um exemplo, há mais. Estas conclusões acerca das diferenças biológicas entre homens e mulheres incomodam-na?
Há que reflectir sobre essas conclusões. As diferenças entre homens e mulheres não são constantes, mudam de cultura para cultura e ao longo do tempo. Se fossem estritamente biológicas não se alteravam nem eram diferentes de cultura para cultura. As raparigas podem ter mais jeito para a linguagem, para as relações interpessoais, e os rapazes serem mais atléticos ou terem mais jeito para as questões motoras. Mas isso não nos diz se nasceram assim. A maior parte dos estudos tem demonstrado que é o facto de os bebés serem sujeitos a socializações muito diferentes que acaba por extremar essas capacidades. Na Suécia, onde já vivi e em que a sociedade não é tão diferenciada, esses estudos cerebrais não mostram tantas diferenças.

Neste estudo que recebeu o prémio, foi para uma escola, acompanhou os jovens. Tendo em conta o contexto de crise, se fosse para uma empresa em Portugal com adultos e com o foco nas relações de trabalho, as representações seriam muito diferentes?
Depende da empresa, mas as pessoas continuam a assumir que as mulheres, se são bonitas, não podem ser assim tão inteligentes e se são promovidas não terá sido só pelo mérito e produtividade. Que os homens têm mais autoridade ou credibilidade. Que contratar uma mulher jovem é um risco, porque não vai levar a carreira tão a sério e o verdadeiro objectivo das mulheres é a maternidade. Em momentos de crise, há ainda a ideia de que certas conquistas de igualdade custam dinheiro. Pode haver um voltar atrás nas questões de género. Activa-se a ideia de que, como há menos emprego, se as mulheres forem para a casa tomar conta das crianças e dos velhos, até se poupa dinheiro ao Estado que não tem de ter esse tipo apoio social.

Há diferenças entre Inglaterra e Portugal no que respeita às questões de género?
Há grandes diferenças, mas não é possível dizer qual o país mais avançado. Ao nível da actividade profissional, Portugal está mais avançado, porque, sendo um país mais pobre, desde sempre as famílias necessitavam também do salário das mulheres. Há em toda a sociedade portuguesa enraizada uma grande aceitação do trabalho no feminino e das carreiras das mulheres, mais do que em Inglaterra. Mas em Portugal continua-se também à espera que sejam as mulheres as responsáveis pela maioria dos cuidados com as crianças e com a casa. Nesse aspecto estão muito mais sobrecarregadas do que as inglesas. Em Inglaterra, não se está à espera que as mulheres trabalhem tanto. Quando as mulheres querem ter uma carreira são mais estigmatizadas, porque deviam dedicar-se mais à família. Mas também há mais possibilidade de trabalho em part-time e, portanto, conseguem mais facilmente conciliar as actividades profissionais, mesmo absorventes, com a família.

Sente discriminação no meio académico por ser investigadora?
Sim. A minha tese de doutoramento, que vai sair em livro para o ano, é sobre isso. [Em Portugal], sociólogas, sociólogos e professores universitários, supostamente as pessoas mais abertas, mais científicas da nossa sociedade, já me disseram que os estudos de género são sociologia para meninas. Uma área menor, de nicho, que só interessava às mulheres, como se os homens não tivessem género.

Se investigasse noutra área, sentiria na mesma discriminação?
Sim. Há mais sexismo nas universidades em Portugal do que em outras áreas, porque são espaços de grande hierarquia, onde não há muita circulação de pessoas, onde as pessoas ficam num cargo décadas. E onde impunemente discriminam sexualmente, assediam sexualmente.

No doutoramento que fez na London School of Economics, escolheu ir para as universidades portuguesas observar como são encaradas as questões de género. O que encontrou?
Em todas as universidades portuguesas, não há uma excepção, existe um discurso oficial e outro nos corredores. Mesmo que, no discurso oficial, se diga que estas áreas são muito importantes, nos corredores, nas reuniões, nas tomadas de decisão, o que se diz é que são umas mulheres ou uns homens homossexuais a fazer uns estudos que não interessam. Há uma coexistência de um discurso oficial que mudou muito nos últimos anos, de abertura e apreço pelo conhecimento, com uma vida informal, não oficial de corredor, de um grande sexismo, homofobia, fechamento e marginalização de uma série de áreas. Por um lado, parece que a situação está melhor, mas ao mesmo tempo está pior, porque torna-se mais difícil chamar a atenção para esse sexismo e esse conservadorismo. Está escondido, não há tantas provas de que, de facto, existe. Um livro que no estrangeiro é reconhecido como o melhor livro, que faz o maior contributo no mundo, em todas as áreas, em Portugal é tratado como uma área menor que só interessa às mulheres.

O que representa este prémio? Um incentivo para investigar mais?
Mostra que vale a pena estudar género e a vida dos jovens. E demonstra outra coisa que eu, como emigrante, levo muito a sério. Quando cheguei a Inglaterra há sete anos disseram-me que não valia a pena escrever em português. Este trabalho, ao ser reconhecido internacionalmente, apesar de escrito em português, é um sinal no estrangeiro de que em Portugal, em português, se fazem coisas que estão na ponta, de vanguarda, que contribuem, é isso que o prémio diz.

O que quer estudar a seguir?
Interessava-me perceber que impacto tem o que está a acontecer em Portugal nas questões de género e como é que a crise afecta a forma como Portugal é visto noutros países. Em Inglaterra tenho observado que Portugal tende a aparecer nos media como uma malta preguiçosa, pouco produtiva, que merece o que lhe está a acontecer. Perceber de que forma é que a xenofobia, estereótipos, racismos antigos, que já eram inaceitáveis, acabam por reaparecer com o pretexto da crise. De repente, parece que é aceitável dizer que a Europa do Sul é inferior à do Norte. Gostaria de perceber como é que a crise acaba por permitir o renascer de desigualdades e estereótipos que já deviam ter desaparecido.

O estudo agora premiado, assim como o doutoramento, foram feitos com o apoio da Fundação para a Ciência e Tecnologia?
Sim. O Estado português investiu muito dinheiro na minha formação, no liceu, na faculdade, e na formação de outras pessoas, para eu agora estar a dar aulas a alunos e alunas ingleses e de outros países. Faço-o numa universidade inglesa onde o meu currículo e a minha formação são apreciados. Lá estão a reconhecer esta formação que foi financiada pela população portuguesa e cujos frutos não podem vir para a Portugal. Estou lá, em cada dia que passa, com muito pesar, porque sinto que a minha geração tem um contributo para dar a Portugal. Tenho muita pena de ter tido de ir lá para fora. Não vou negar que lá há condições de trabalho óptimas e isso é aliciante. Mas não estou a devolver o meu conhecimento ao país que me formou e que ajudou a financiar a minha formação.

9.5.12

Há “uma agenda de género” na Assembleia da República

in Público on-line

Uma equipa de investigadores portugueses que estudou a actividade das deputadas parlamentares entre 1975 e 2002 encontrou “uma agenda de género” na Assembleia da República e “uma clivagem” entre lei e prática, resumiu a coordenadora do projecto.

Ana Cabrera, coordenadora do estudo “Política no feminino - políticas de género e estratégias de visibilidade das deputadas parlamentares”, cujos resultados são apresentados e debatidos hoje, na Assembleia da República, contou que “um dos objectivos” era colmatar a “pouca ou nenhuma investigação” que ligasse a representação feminina no Parlamento e a análise que a comunicação social tem feito da mesma.

Outro propósito era encontrar “uma agenda feminina da Assembleia”, identificando as iniciativas propostas pelas deputadas. “Acho que encontrámos, de facto. E isso o que é? É um conjunto de temas que dizem particularmente respeito às questões da mulher”, constata a investigadora do Centro de Investigação Media e Jornalismo, da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa.

Ana Cabrera hesita em usar a palavra “feminista”, porque essa “agenda” não tem sido só veiculada por mulheres, mas também por homens. “É uma agenda de género”, prefere.

O estudo analisa como as mulheres eram vistas na Assembleia e que actividades parlamentares desempenhavam, entre 1975 e 2002. “Enquanto na Constituinte, ou na primeira ou na segunda legislatura, as deputadas parlamentares dedicavam-se essencialmente às questões da educação e pouco mais, por aqueles assuntos que são tradicionalmente femininos, dez anos mais tarde esses já não são os assuntos que interessam às mulheres e elas percorrem todas as comissões”, compara.

No período estudado, a investigadora destaca “um momento fundamental”, em 1994, quando três deputadas organizam um “pseudo-acontecimento”, a constituição de um parlamento paritário, promovendo o debate sobre “a disparidade de representação que havia na Assembleia”.

No jornalismo, registou-se “uma grande evolução” entre 1975 e 2002, com maior atenção sobre a actividade parlamentar. Em 1975, os jornalistas estavam mais atentos “ao que se passava na rua” e da Assembleia faziam umas crónicas “mínimas”, nas quais comentar a situação das mulheres “era ainda mais ínfimo”.

Hoje, o discurso parlamentar nem sempre tem em conta a dimensão de género, reconhece a investigadora. “Ainda há muitos estereótipos. São situações que estão profundamente arreigadas na mentalidade de homens e de mulheres”, frisa.

Simultaneamente, adianta, persiste uma “clivagem” entre a lei e a prática, sendo a primeira “muito mais avançada do que aquilo quese faz”.

“Temos leis, no que respeita à igualdade de género, muito boas, muito para a frente, muito progressistas, mas depois as práticas sociais, as mentalidades não acompanham, nem podem acompanhar, essa mudança, porque ela tem sido rápida demais”, realça.

Os resultados da investigação, que envolveu nove pessoas, serão apresentados e debatidos hoje, numa conferência na Assembleia da República. A sessão de encerramento da conferência será presidida pela secretária de Estado da Igualdade, Teresa Morais.