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2.8.23

União Europeia "tem obrigação" de proteger minorias, diz von der Leyen

Por Lusa, in o Observador

"A Europa tem a obrigação de proteger as minorias do racismo e da discriminação", afirmou Ursula von der Leyen numa declaração sobre o dia para preservar a memória de ciganos vítimas do holocausto.

A presidente da Comissão Europeia defendeu esta terça-feira que a União Europeia “tem a obrigação de proteger” as minorias do racismo e discriminação, na véspera do dia para recordar o genocídio de ciganos no Holocausto.

“À medida que o número de sobreviventes e testemunhas destes horrores diminui, é a nossa obrigação, mais do que nunca, continuar a lembrá-las e a transmitir os testemunhos”, considerou Ursula von der Leyen, numa declaração sobre o dia para preservar “a memória das centenas de milhares de ciganos vítimas do Holocausto”, na quarta-feira, 2 de agosto.

Educar não é complicar

O Dia Europeu Memorial do Holocausto Romani foi estabelecido em 2015 pelo Parlamento Europeu para recordar o genocídio nos territórios ocupados pelos nazis de mais de 500.000 ciganos europeus, que representavam cerca de um quarto do total da população cigana naquela altura.

A presidente da Comissão acrescentou na sua mensagem que a “liberdade de que hoje as pessoas gozam” acarreta “responsabilidades e requer ação”: “A Europa tem a obrigação de proteger as minorias do racismo e da discriminação”.

A educação sobre o Holocausto — período compreendido entre 1933 e 1945 que diz respeito ao genocídio por parte dos nazis de milhões de pessoas, a maioria de origem judaica e romani — “continua a ser um pilar na construção da resiliência e no progresso para lutar contra o anticiganismo, o antissemitismo, o preconceito e o ódio”, referiu a presidente da Comissão.

A “história horrenda do Holocausto”, completou von der Leyen, obriga “à criação e implementação” de um programa de “proteção contra a discriminação” que seja eficaz e “em respeito pela dignidade humana”.

11.9.20

Ciganos reivindicam em França bens expropriados durante ocupação nazi

in Sapo25

Ciganos, onde se inclui uma senhora de 88 anos que foi enviada para um campo de concentração em França, quando o país esteve sob ocupação da Alemanha nazi, pediram nesta quarta-feira ao Conselho de Estado a devolução de bens confiscados durante a Segunda Guerra Mundial .

"Nada está previsto para esses itinerantes em termos de indemnização", criticou o advogado Olivier Le Mailloux. "Solicitamos acesso à comissão de compensação para fazer valer os seus direitos à restituição dos bens apreendidos", disse à AFP após a audiência no mais alto tribunal administrativo.

A seis de abril de 1940, por decreto durante a guerra, os nómadas foram confinados em campos. Entre 6.000 e 6.500 foram colocados até 1946 em cerca de trinta campos controlados pelas autoridades francesas.

Os seus bens e pertences pessoais foram apreendidos pela polícia francesa, explicou o advogado.

Os autores da ação, incluindo a União para a Defesa Ativa de Motivos de Justo (UDAF) e a associação France Liberté Voyage, pedem a anulação do decreto de 10 de setembro de 1999, que criou uma comissão para indemnizar as vítimas de pilhagem ocorrida em decorrência de legislação antissemita em vigor durante a ocupação.

"Há uma lacuna de igualdade em função das vítimas", para Le Mailloux. Os requerentes pedem a inclusão de legislação anti-nómadas neste decreto.

O relator público do Conselho de Estado, cujo parecer é geralmente apreciado, decidiu indeferir o pedido.

No tribunal do Conselho de Estado estava Henriette Théodore, uma cigana de 88 anos, que foi enviada para um campo de concentração com a sua família de 1941 a 1945.

"No campo de Montreuil-Bellay (oeste da França), eles trataram-nos como animais", relatou à AFP. "Quando saímos, não tínhamos mais nada. Eles tiraram-nos tudo", acrescentou.

27.1.20

A memória de Auschwitz é uma guerra que se trava hoje

Maria João Guimarães, in Público on line

Hoje assinalam-se 75 anos da libertação de Auschwitz, símbolo do Holocausto. Rússia, Polónia e Israel lutam pelas suas interpretações da História. E nem a Alemanha, exemplar na sua política de memória, é excepção no utilitarismo.

A luta pela memória é a luta do presente. Nas comemorações do 75º aniversário da libertação de Auschwitz, uma guerra revisionista entre a Rússia e a Polónia, envolvendo Israel, afastou as atenções do objectivo primeiro do que é, também, o Dia Internacional em Memória das Vítimas do Holocausto: lembrar as histórias dos sobreviventes.

Será esta a última sociedade matriarcal da Europa?
Em nenhuma comemoração ficou tão evidente esta divisão entre visões diferentes, com um evento em Jerusalém na quinta-feira a ter o líder russo, Vladimir Putin, como orador (algo que foi recusado ao Presidente polaco) e outro hoje, em Auschwitz, na Polónia, onde Putin (que representa os libertadores soviéticos do campo) não vai estar. No centro do debate estão as visões cada vez mais diferentes da Rússia e da Polónia do que foi a II Guerra Mundial.

Nesta luta no modo de olhar passado, o presente é o mais importante.

“Só em parte é que esta discussão tem a ver com a História”, disse Tobias Ebbrecht-Hartmann, professor do Fórum Europeu da Universidade Hebraica de Jerusalém onde ensina temas de memória e conflitos políticos associados a ela. “Tem muito mais a ver com a situação presente”, com governos nacionalistas na Europa, um Governo de direita em Israel, e com interesses diplomáticos e de segurança. “Não tem a ver com um entendimento correcto do passado”, queixa-se.

O último round é entre a Rússia e a Polónia: Putin tem vindo a culpar a Polónia pelo início da II Guerra Mundial aludindo a um entendimento com os nazis (a Polónia reagiu lembrando que foi Estaline que fez um pacto de não agressão com Hitler e acusou Putin de branquear Estaline). O round anterior fora entre a Polónia e Israel, com Varsóvia a proibir quer o uso da expressão “campos polacos” (os campos eram, de facto, administrados por nazis alemães na Polónia ocupada) quer a referência a uma “culpa polaca” no Holocausto e Israel a fazer notar os muitos judeus mortos por polacos e o anti-semitismo até no governo no exílio.

No round anterior, Polónia e Israel encontraram um meio termo – apesar da oposição dos historiadores do centro Yad Vashem. “O Governo, ao contrário do Yad Vashem, tinha interesse em chegar a um acordo com os polacos”: Varsóvia é uma das capitais europeias importantes para Netanyahu, que gostava de contar com a Polónia ou a Hungria (apesar da campanha anti-semita do Governo de Viktor Orbán) “para ter uma voz mais pró-israelita na União Europeia”.

No round actual, Israel viu-se entre Rússia e Polónia. E também foi o pragmatismo que levou a que escolhesse Moscovo. Há razões de curto e médio prazo: Netanyahu anda há meses a tentar que Putin liberte a israelita Naama Issachar, de 26 anos, condenada a sete anos e meio de prisão por posse de uma pequena quantidade de marijuana no aeroporto de Moscovo, onde fazia escala vinda da Índia (o que provocou muita comoção no país; Putin visitou a mãe de Issachar no dia da evocação do Holocausto em Jerusalém).

As razões mais óbvias são outro conflito recente entre Israel e a Polónia sobre os campos polacos e a insistência da Polónia em sublinhar o seu lado de vítima e não o de agressor de judeus, e a aproximação de Netanyahu a Putin, o novo senhor do Médio Oriente, cuja intervenção decidiu o destino da guerra na Síria a favor de Bashar al-Assad.

Mas Tobias Ebbrecht-Hartmann dá mais nuances à relação entre Israel e a Polónia. “Foi marcada por uma profunda desconfiança que afectou a percepção israelita sobre a Polónia, que nem sempre foi historicamente correcta.”

“A maioria dos sobreviventes dos campos era da Polónia e da Europa de Leste; muitos dos judeus alemães e austríacos conseguiram sair, antes, para a Palestina”, lembra. “Estes têm uma memória do Holocausto muito diferente. Os muitos judeus que vieram para Israel da Polónia tiveram esta experiência pessoal de terem sido desintegrados da sociedade polaca, traídos pelos vizinhos polacos, até de anti-semitismo após o Holocausto, o que influenciou muito a imagem da Polónia em Israel.”
E a partir dos anos 1980, diz Ebbrecht-Hartmann, muitos israelitas começaram a visitar os locais de assassínio – na actual Polónia – “e a sua experiência da Europa era feita unicamente pela lente dos centros de morte, o que provoca um laço estreito, mas muito dominado por esta história negativa”.

Como os centros de extermínio estavam, por definição, fora das fronteiras do Reich alemão, em território que hoje é polaco (os campos de concentração na Alemanha não tinham como objectivo principal matar os presos, embora isso acabasse muitas vezes por acontecer), isto faz ainda com que o país visitado não corresponda ao país que promoveu a ideologia anti-semita e nazi, mas sim um outro, que tem uma história especialmente extremada de ser vítima e ser carrasco.

A Polónia era o único país em que ajudar judeus era punido com a pena de morte, ainda assim, é o país com mais cidadãos distinguidos pelo museu Yad Vashem por salvar vidas de judeus durante a guerra. A Polónia teve um governo no exílio que lutou contra os nazis, mas que também foi anti-semita. E dos mais de três milhões de judeus polacos que caíram nas mãos dos nazis, só sobreviveram cerca de 3%, o que põe a Polónia no fim da lista dos países europeus, diz o historiador Gunnar S. Paulsson, especialista em Holocausto.

Ebbrecht-Hartmann nota que, depois de anos a não falar da História e a tentar branqueá-la, “os polacos perceberam que na UE é preciso ter em conta a História, e assim estão a chamar a atenção para quem salvou judeus, estão a tentar reintegrar as vítimas na sociedade polaca”. Mas “isto também é ligeiramente problemático, porque parece fingir que não havia tensões dentro da sociedade polaca, que não havia anti-semitismo, e claro que houve – houve muitos polacos a colaborar”, diz o professor. “Eram muitos milhares”, disse o ‘caçador de nazis’ Efraim Zuroff, do Centro Simon Wiesenthal.

O que fica esquecido: “Muitos polacos exilados também tinham ideias comunistas, e lutaram juntos com o Exército Vermelho contra os nazis. O realizador polaco Aleksander Ford, por exemplo, fazia parte do Exército Vermelho, e era comunista – foi dos primeiros a chegar aos campos de concentração. Isto é também parte da História polaca. Não foram os russos que governaram a Polónia entre 1945 e o final dos anos 1980… eram polacos, e eram polacos que acreditavam no comunismo. E, mais trágico ainda, Ford foi expulso junto com muitos outros judeus durante os anos 1960 por causa de uma nova vaga de anti-semitismo no governo polaco.”

E o Governo de Varsóvia fez outras afirmações problemáticas: “Quando o Governo polaco diz que 1945 não foi uma libertação, que o exército soviético não libertou Auschwitz, e não libertou a Polónia dos nazis… isto também não é verdade”, sublinha Ebbrecht-Hartmann.

A estratégia de Putin
A Rússia também tem, claro, uma memória muito selectiva: “Houve sempre um entendimento muito específico do que foi a II Guerra, uma memória muito forte de sofrimento, e isto está certo, civis russos e forças militares sofreram como nenhum outro na Europa com a guerra”. Este grande sofrimento da população não foi, durante muitos anos, reconhecido, especialmente na Alemanha “onde houve uma continuidade do ressentimento anti-russo que foi recuperado como anti-bolchevique, anti-comunismo”. Este sofrimento esteve, “aliás, na origem também das violações brutais dos russos na Alemanha e na retaliação contra a população civil alemã”.

No meio de tudo isto, nem os judeus nem o Holocausto eram importantes na cultura de memória russa. “É interessante que Putin traga agora o tema para a frente da discussão”.
Também na memória do pós-guerra a Rússia tem algo que os seus vizinhos não têm, diz Ebbrecht-Hartmann: “Uma nostalgia dos grandes tempos soviéticos, quando a Rússia era um poder mundial e um império”.
Putin é um produto desse tempo e, mais, o seu background e treino é de espionagem e serviços secretos; a sua estratégia é de desinformação, nota Ebbrecht-Hartmann. “É o que se passa aqui. Divulga-se um mito que os polacos colaboraram com os nazis antes do início da II Guerra Mundial, e alguma parte disso vai ficar.”

Ameaça constante a judeus
Em Israel o Holocausto foi igualmente sendo visto de modo diferente ao longo dos tempos.
O recém-criado Estado hebraico ignorou a Shoah. Mais, “não foi fundado por causa do Holocausto, e sim apesar do Holocausto” – se a guerra tivesse durado um pouco mais, não haveria, por um lado, população para fundar o Estado judaico e, por outro, a presença judaica na Palestina antes da criação do Estado também seria ameaçada pelas tropas nazis que marchavam em direcção ao Médio Oriente, sublinha Ebbrecht-Hartmann.

A primeira geração dos fundadores do Estado de Israel “não tinha muito interesse em manter viva a memória do Holocausto, porque era uma memória de fraqueza e de derrota”. Só mais tarde, depois da guerra do Yom Kippur, em 1973 (quando Israel foi atacado por uma coligação liderada por Egipto e Síria), o Holocausto se tornou no que é hoje: “O paradigma para perceber a ameaça constante das pessoas que vivem em Israel”. E em Israel, a diversidade também tem influência. Por exemplo, a vaga de imigração após o fim da União Soviética, com pessoas que também trouxeram “a sua cultura de memória da guerra para o Estado hebraico, com comemorações militares, pessoas vestindo os seus uniformes da altura, etc.”, conta o professor da Universidade Hebraica.

Alemanha não é excepção
Poderia pensar-se que a Alemanha, o país dos criminosos, e que é visto como o modelo exemplar na forma como lida com o passado, escapa deste uso utilitário da memória. Mas Tobias Ebbrecht-Hartmann sublinha que também no país houve mudanças significativas, e pragmatismo.
“Mesmo na Alemanha houve muita vitimização, durante 40 anos o tema do sofrimento durante a guerra foi muito forte, havia a ideia de que a Wehrmacht [o exército regular] era um exército moral, e apenas os nazis tinham cometido crimes”, um mito que se manteve até meados dos anos 1970, por exemplo.
“Mas após a reunificação, a Alemanha quis provar que mudou”, depois de também perceber que “confrontar directamente o passado é uma vantagem nas relações internacionais”, diz Ebbrecht-Hartmann.

Isto “não quer necessariamente dizer que seja um reflexo de um entendimento profundo na sociedade”: o partido de direita radical Alternativa para a Alemanha (AfD), por exemplo, tem criticado muito a cultura de memória (embora se tente apresentar como um partido pró-Israel e pró-judeus, tendo mesmo uma “ala judaica”).
Tobias Ebbrecht-Hartmann lamenta este revisionismo. “Gostava que encontrássemos modos de proteger a memória deste sequestro político”. Com as testemunhas directas a desaparecer, “talvez isto seja um prenúncio do que vai acontecer”, avança.

De qualquer modo, o especialista rejeita a ligação, feita na conferência de Jerusalém no Yad Vashem (organizada pelo Congresso Mundial Judaico, liderado por Moshe Kantor, próximo de Putin), entre assinalar o Holocausto e lutar contra o anti-semitismo: “Recordar o Holocausto e lidar com a memória do Holocausto é muito importante, mas não é a estratégia educacional certa para combater o anti-semitismo”, sublinha. “A luta contra o anti-semitismo exige uma estratégia muito mais complexa.”

Portugueses nos campos de concentração

Patrícia Carvalho (textos) e Nelson Garrido (fotografias e vídeo), in Público on-line

A pergunta surgiu depois de uma visita a Auschwitz: seria possível que, de todos os prisioneiros que por ali passaram, de tantos países, nenhum fosse português? Em 2013, fomos à procura da resposta. Durante nove meses, vasculhámos arquivos, analisámos listas de transporte e registos de baptismo, percorremos Portugal e visitámos campos de concentração, bases de dados e familiares de vítimas em França, Alemanha e Polónia. A resposta está dada: houve muitos portugueses enviados para os campos de concentração nazis.

Parte I
A história nunca contada dos portugueses nos campos de concentração
Michael, judeu nascido em Lisboa, foi deportado para Auschwitz. Luiz, emigrado em Lyon, comunista, foi um dos 1191 passageiros de um comboio que saiu de Toulouse em direcção a Buchenwald. O algarvio Casimiro morreu no campo de concentração de Neuengamme. Maria nasceu em Ponte de Lima e passou por Ravensbrück, Neuengamme e Bergen-Belsen. Como eles, dezenas de portugueses não saíram incólumes do conflito que devastou a Europa há quase 70 anos. As suas histórias são, finalmente, contadas.

4.8.16

ONU cobra que comunidade internacional reconheça Holocausto dos ciganos pelos nazistas

in ONU

Ciganos também foram vítimas de detenção arbitrária, trabalho forçado e execuções em massa durante o nazismo. Especialistas da ONU alertaram que desumanização e estigmatização contra essas populações persistem até hoje sob outras formas e pediram mais proteção e garantia do direito à memória para sobreviventes e descendentes.

Na última terça-feira (2) – data que marcou o 72º aniversário do Holocausto dos ciganos, também chamado Pharrajimos, no regime nazista –, especialistas das Nações Unidas pediram à comunidade internacional que reconheça o direito à memória dessa população, ainda marginalizada atualmente.

“Sob o jugo dos nazistas, ciganos foram submetidos a detenção arbitrária, trabalho forçado e execuções em massa”, lembraram a relatora especial da ONU sobre questões de minorias, Rita Izsák-Ndiaye, e o conselheiro especial do secretário-geral para a prevenção de genocídio, Adama Dieng.

“Infelizmente, o ódio, o medo, a desumanização e a estigmatização dos ciganos ainda existem hoje sob outras formas. Ficamos tristes em ver que a violência direcionada contra indivíduos e comunidades ciganas e o preconceito perduram em muitas partes do mundo”, lamentaram.

Os especialistas alertaram que “muito ainda precisa ser feito para estabelecer o direito e a possibilidade de os ciganos lembrarem e rememorarem a data com dignidade”. A relatora e o conselheiro pediram aos Estados-membros que identifiquem e preservem os túmulos e locais de despojo em massa dos corpos das vítimas, permitindo aos sobreviventes o direito à memória e ao luto.

Diante da atual onda de extremismo político e social, a relatora e o conselheiro solicitaram aos Estados-membros que adotem legislações para combater crimes de ódio.

Articular entidades a nível nacional, regional e local também foi considerado fundamental por Izsák-Ndiaye e Dieng para prevenir e erradicar violações dos direitos humanos dos ciganos.

Políticas de integração que envolvam a criação de instituições específicas e a reserva de orçamento para a proteção de ciganos foram outras das recomendações dos dois especialistas, que pediram ainda que as nações onde o Pharrajimos ocorreu tornem o dia 2 de agosto a data oficial para a memória das vítimas.

28.1.15

Para os sobreviventes as memórias de Auschwitz não se apagam

Clara Barata, in Público on-line

Muitos dos que saíram vivos dos campos de concentração nazis continuam a ter comportamentos motivados pela experiência traumatizante que marcou as suas vidas.

Aos 91 anos, o rosto da polaca Zofia Posmysz ainda se crispa de emoção e de terror ao recordar o que passou em Auschwitz. “Ninguém pode imaginar o grito de uma pessoa que está a morrer electrocutada”, conta. “À noite, as raparigas desesperadas atiravam-se contra as cercas electrificadas para pôr fim à vida. Era horrível. Era mesmo horrível.”

Os últimos sobreviventes de Auschwitz são anciãos – têm 80, 90 anos e até mais. São frágeis, e carregam memórias muito pesadas Os mortos que não suportavam mais o sofrimento do campo são o maior peso que Zofia Posmys carrega. “Vi cadáveres de pessoas que se enforcaram no arame farpado. E à noite éramos acordadas por gritos medonhos”, contou à AFP a antiga prisioneira número 7566.

Cerca de metade dos 114 mil sobreviventes do Holocausto que vivem hoje nos Estados Unidos habitam na área metropolitana de Nova Iorque, e têm uma idade média de 79 anos. Metade deles morreram na última década e pelo menos metade dos que restam devem morrer nos próximos sete anos, disse à Reuters said Hillary Kessler-Godin, porta-voz da Conferência de Pedidos de Indemnização Judaicos contra a Alemanha.

A maioria é pobre, e precisa de um apoio especial, por causa do stress, que os afectou para toda a vida, bem como a má-nutrição. Em Auschwitz, como noutros campos de concentração, os que não eram mortos de imediato eram forçados a trabalhar quase sem alimentos. Eram mortos de fome e de trabalho, e deixados ao frio.

Muitos continuam a ter comportamentos motivados pela experiência traumatizante que marcou as suas vidas: acumulam e escondem comida, e não conseguem confiar em ninguém. E recusam-se a tomar duches, pois esse era o engodo usado para levar os prisioneiros a entrar nas câmaras de gás onde eram mortos.

As memórias são coisas difíceis de largar. Hy Abrams, 90 anos, tem uma agenda pequenina, de capa azul, onde escreveu os nomes que o assombram ainda, passados 70 anos: Auschwitz, Plaszow, Mauthausen, Melk and Ebensee.

Foram os campos de concentração por onde passou este checo que hoje vive em Brooklyn, Nova Iorque, desde que soldados da Alemanha nazi o levaram e o separaram da sua mãe, pai, irmão e três irmãs. “À noite via as chaminés, o fogo e o fumo”, que cheirava a carne, recordou à Reuters. “Aquele fogo é para onde ia o nosso pai e a nossa família”.

Abrams nunca mais viu os pais, mas ainda vislumbrou as três irmãs, quando foi de Auschwitz para o campo de Plaszow, também na Polónia, onde o puseram a fabricar botas para os militares alemães. Com o cabelo rapado, reduzidas a ossos por causa da fome, não tinham nada a ver com as bonitas raparigas que eram. Uma chamou-o e perguntou pela mãe, mas ele não respondeu. “Estava tão deprimido que nem consegui olhar para o sítio de onde vinha a voz”, contou Abrams, quase a sufocar de emoção. “Isto pesa-me na consciência.”

Golda Pollac, de 89 anos, também vive hoje em Brooklyn, mas a sua história começou na Roménia. Nunca mais viu os pais desde que chegou a Auschwitz. Ela tinha 19 anos, e acabou por ser enviada para um campo de trabalho, para Buchenwald, onde trabalhou numa fábrica de aviões. Raparam-lhe o cabelo e tatuaram-lhe um número no braço – que passou a ser a sua única identificação, como acontecia a todos os que entravam nos campos de concentração nazis.

Durante as marchas forçadas de campo para campo, ela arrancava erva do chão, para tentar não morrer de fome. “Eu dizia: ‘Há o Céu e aqui é o Inferno. Agora estamos no Inferno. Aqui as pessoas fazem tudo.”

"Como é que isto está a acontecer outra vez", perguntam sobreviventes do Holocausto

Rita Siza, in Públio on-line

Cerimónia assinala o 70.º aniversário da libertação do campo de concentração de Auschwitz, na Polónia. “Pensávamos que o ódio aos judeus tinha sido erradicado mas em vez de 2015 mais parece 1933", lamenta presidente do Congresso Mundial Judaico.

Com idades entre os 80 e os 90 anos, os últimos sobreviventes de Auschwitz viajaram até ao Sul da Polónia para assinalar o 70º aniversário da libertação do que foi o maior campo de concentração e extermínio nazi, conscientes de que, provavelmente, seria a sua derradeira homenagem às mais de 5,5 milhões de judeus vítimas do Holocausto.

“Fizemos um esforço especial para os termos aqui hoje”, admitiu o presidente do Congresso Mundial Judaico, Ronald Lauder. “Sabemos que esta deve ser a última vez que teremos uma presença tão proeminente de sobreviventes. Muitos já não vão estar connosco quando marcarmos o 75º aniversário”, observou ao diário britânico The Guardian.

Mas mais do que recordar o passado, o que estes octogenários pretendem é reflectir sobre as lições da História, num momento em que ressurgem ataques anti-semitas e se verifica expansão territorial assente em conflitos étnicos e sectários na Europa. Como é possível que, ali ao lado, os judeus sejam abatidos em ataques terroristas em França, ou que as fronteiras de um país sejam ultrapassadas e regiões sejam sumariamente anexadas, como na Ucrânia, questionam-se – será que não se aprendeu nada?

“Nós, sobreviventes, jamais esqueceremos o que se passou aqui”, declarou Roman Kent, um dos antigos prisioneiros e membro do Conselho Internacional de Auschwitz. “Mas lembrar não é o suficiente. Palavras são importantes mas acções são cruciais”, declarou, defendendo como “obrigação dos sobreviventes mas também dos líderes políticos” educar as gerações para o respeito e a tolerância, “ensinar que o ódio nunca está certo e o amor nunca está errado”.

Numa longa intervenção, a voz de Roman Kent, de 86 anos, só tremeu uma vez, quando disse que “não queremos que o nosso passado seja o futuro dos nossos filhos”. “Não queremos que o nosso passado seja o futuro dos nossos filhos”, repetiu, em lágrimas, pelo que a promoção do “pluralismo, da tolerância e dos direitos humanos tem de incluir a oposição ao anti-semitismo e ao racismo. Essa devia ser a norma e não a excepção”.

Na mesma linha, Ronald Lauder, um descendente de judeus húngaros nascido em Nova Iorque em 1944, evocou a indiferença, que leva o ódio a insinuar-se nas sociedades até ser tarde demais. “Queria fazer outro discurso aqui , mas depois do que aconteceu recentemente em Paris, não posso deixar de falar. Os judeus estão novamente a ser atacados na Europa”, lamentou. “Pensávamos que o ódio aos judeus tinha sido erradicado mas agora acordamos e em vez de 2015 mais parece 1933. Como é que isto está a acontecer outra vez? E porquê?”

Uma realidade insuportável
As mesmas dúvidas e inquietações que afligem os judeus e os sobreviventes do Holocausto foram mencionadas ao longo do dia por alguns dos chefes de Estado europeus presentes na cerimónia em Auschwitz. Antes de viajar para a Polónia, o Presidente de França, François Hollande, homenageou os cerca de 75 mil judeus franceses deportados pelo regime colaboracionista de Vichy, numa cerimónia no Memorial do Holocausto de Paris. O anti-semitismo e o racismo serão, a partir de agora, “agravantes” a ter em conta na aplicação do código penal gaulês, anunciou.

Hollande descreveu o aumento dos actos contra judeus, que duplicaram em França em 2014, como uma “realidade insuportável”, e reconheceu que o “flagelo” do anti-semitismo está a levar muitos membros da comunidade a “interrogar-se sobre a sua presença em França”. Mas num apelo vigoroso, três semanas depois dos atentados terroristas que atingiram o jornal satírico Charlie Hebdo e um supermercado kosher, o Presidente garantiu a todos os franceses de confissão judaica que não têm de fugir: “A França é a vossa pátria. O vosso lugar é aqui. O nosso país não seria o mesmo se tivesse de viver sem vós”.

Também a chanceler alemã Angela Merkel lamentou que, 70 anos depois da libertação de Auschwitz, continue a haver quem seja “ameaçado, atacado e agredido, na Alemanha, por dizer que é judeu ou por tomar partido por Israel". "É vergonhoso”, considerou. “Temos de nos opor ao anti-semitismo e todas as formas de racismo, não podemos admitir palavras racistas contra os judeus ou contra as pessoas que encontraram na Alemanha um local de abrigo da guerra e da perseguição”.

Reconhecendo que o seu país tem uma “responsabilidade eterna” pelas atrocidades cometidas pelo regime nazi em Auschwitz e muitos outros lugares, Merkel sublinhou que a ameaça do mal continua a pairar hoje em dia, sob a forma do terrorismo islamista e do anti-semitismo. Mas “cada um deve poder viver em segurança e liberdade, independentemente da sua religião ou da sua origem”, contrapôs. “Muçulmanos, judeus ou cristãos, crentes ou ateus, não nos vamos deixar dividir”, declarou.

Onda de ódio

Tal como Merkel, Ronald Lauder fez questão de frisar durante o seu discurso em nome dos “Pilares da Memória”, que a “onda de ódio que está a varrer o mundo” não atinge só os judeus. “Os cristãos estão a ser massacrados em África. As mulheres e crianças são atacadas por ir à escola no Afeganistão e Paquistão. Os jornalistas são decapitados no Médio Oriente”, enumerou. “Todos os países deviam criminalizar o ódio. E qualquer país que defende a aniquilação de outros países devia ser expulso da comunidade das nações. Se não agirmos depressa, a tragédia deste lugar terrível voltará a ensombrar o mundo. Não deixem que isso volte a acontecer”, pediu.

O Presidente da Rússia, Vladimir Putin, que se tornou uma presença incómoda por causa das acções beligerantes de Moscovo na vizinha Ucrânia, não foi oficialmente convidado para a cerimónia em Auschwitz, mas nem por isso deixou de prestar tributo às vítimas do Holocausto e de elogiar os esforços do Exército soviético na Segunda Guerra Mundial.

Numa sessão no museu do Judaísmo de Moscovo, Vladimir Putin condenou as tentativas de “silenciar, distorcer ou falsificar os acontecimentos para reescrever a História” como “inaceitáveis” e “imorais”, e ofereceu a sua própria interpretação para esse comportamento: “É o desejo de esconder a vergonha da cobardia, hipocrisia, traição, e da cumplicidade tácita, passiva ou activa, com os nazis”.

O Presidente russo nem precisou de referir explicitamente os alegados culpados dessas tentativas, uma vez que há vários anos vem acusando as autoridades ucranianas de reclamarem um falso protagonismo na libertação de Auschwitz. A discórdia aprofundou-se depois de declarações do ministro dos Negócios Estrangeiros polaco que atribuiu a soldados ucranianos a responsabilidade pela libertação de Auschwitz: perante essas palavras, o embaixador russo nas Nações Unidas clarificou que a 322ª divisão de artilharia do Exército soviético, que entrou no campo em 21945, era designada como a primeira frente ucraniana por ter “libertado a Ucrânia dos nazis antes de chegar à Polónia”.

Sem "vergonha", Europa volta a permitir "novo êxodo" de judeus

Por Diogo Vaz Pinto, in iOnline

Merkel recorda a "responsabilidade eterna" que recai sobre os ombros da Alemanha de recordar o Holocausto e proteger os judeus no mundo

A data, o septuagésimo aniversário da libertação de Auschwitz, faz o futuro baixar a cabeça para ser arrastada de volta ao passado, com inúmeras cerimónias a assinalar um dos mais sangrentos episódios na saga da perseguição aos judeus na Europa e um pouco por todo o mundo. Mas se é certo que a história se repete, uma cultura de ódio que nunca foi reeducada tem por estes dias uma série de manifestações que permitem temer um novo êxodo da comunidade judaica da Europa. O aviso vem do chefe do Congresso Judaico Europeu, Moshe Kantor. Também a chanceler alemã, Angela Merkel, disse ontem que o facto de nos dias de hoje os judeus ainda terem de suportar na Alemanha insultos, ameaças ou violência é "vergonhoso".

Ao lado de alguns dos sobreviventes de Auschwitz, a líder alemã foi para lá da solenidade sempre tão barata nestas cerimónias e trouxe convicção a um evento na capital alemã, que, sendo comovente, não separou a assombração do passado de uma ameaça que no máximo dorme do outro lado da porta, deixando um olho aberto.

Auschwitz, sublinhou Merkel, é um "aviso" daquilo que as pessoas são capazes de fazer umas às outras. Falou no orgulho de um país que apesar do fardo histórico que carrega é ainda a casa de mais de 100 mil judeus. Por outro lado, disse que, "infelizmente, não sem razão", muitos hoje voltam a recear ser alvo de insultos ou de ataques. "É uma vergonha que as pessoas na Alemanha sejam vitimadas, ameaçadas ou atacadas quando de algum modo dão sinais de ser judias ou quando assumem posições favoráveis ao estado de Israel", acentuou. E foi ainda mais clara ao notar que as sinagogas e as instituições judaicas terem de ser vigiadas pela polícia é "uma mancha no nosso país".

E aqui, para que não venham os eternos "mas" e as comuns ressalvas, Merkel pôs acima de tudo a "eterna responsabilidade" que pesa sobre os alemães no sentido de não deixar que sejam esquecidos os horrores desencadeados pelos nazis, e que a memória do Holocausto molda a própria imagem que a Alemanha tem de si mesma. "Entre nós, todos terão de se sentir capazes de viver em liberdade e em segurança, independentemente da sua religião ou origem."

Num fórum sobre o Holocausto na capital da República Checa, Praga, o líder da comunidade judaica europeia Moshe Kantor afirmou que "o jihadismo está muito próximo do nazismo". "Pode-se até dizer que são as duas faces de um mesmo mal." Sem especificar números, repetiu o que vários líderes da comunidade têm dito ao longo das últimas semanas: que a tensão e o anti-semitismo na Europa "estão prestes" a provocar um novo êxodo do Velho Mundo.

Na semana passada, o primeiro vice- -presidente da Comissão Europeia, Frans Timmermans, protagonizou um eloquente discurso defendendo que a Europa enfrenta um "enorme desafio" que passa por tranquilizar os judeus quanto à segurança do seu futuro no continente que, ao longo da história, procurou expulsar ou extinguir esta comunidade.

Em França - país que abriga a maior comunidade judaica da Europa, estimada em cerca de 600 mil -, no rescaldo dos ataques do início do mês ao "Charlie Hebdo" e a um supermercado kosher, muitos estão com medo de não atender aos primeiros sinais de hostilidade, como os milhões de judeus que acabaram por ser exterminados pelos nazis.

De acordo com dados revelados pela polícia de Londres, os crimes com motivação anti-semita mais que duplicaram na capital no período de 12 meses até Novembro do ano passado. As sondagens indicam que quase metade dos judeus britânicos receiam não ter, a longo prazo, um futuro, seja ali, seja em algum outro país europeu.

Falando em Bruxelas sobre estes receios da comunidade judaica europeia, Frans Timmermans disse que o desafio de segurar a população judaica é um teste à firmeza dos pilares sobre os quais assenta o projecto de integração europeia. "Podemos ficar a discutir até o céu fazer desabar os problemas do euro, dos mercados internos, sobre a próxima iniciativa que pretendemos adoptar, qualquer que ela seja, mas se falhar este valor fundamental na sociedade europeia - que nos garante que há espaço para todos, independentemente dos seus credos, origens, raça ou opções que façam na vida em sociedade -, se isto for posto em causa, então temos de responder a este desafio com uma política que ofereça esperança e um futuro para todos na sociedade europeia."


28.3.14

A música salvou a vida de Alice

Texto de Nancy Rodrigues, in Público on-line (P3)

A Alice era a mais antiga sobrevivente do holocausto nazi, morreu este ano em Londres, aos 110 anos. Ficaria a ouvir as suas historias horas sem fim


Sempre adorei gente mais velha. Quando digo mais velha refiro-me mesmo aos nossos avós, bisavós, aqueles que já viveram muitos anos, sofreram muitas dores e viveram muitas alegrias. Gente que já viveu o suficiente para poder dar os conselhos, gente que já tem matéria para verdadeiramente avaliar uma vida. Gente que já pôs os pés num futuro que ainda não é meu. Por isso, fiquei absolutamente fascinada ao ver o documentário “Alice: The Lady in Number 6: Music Saved my Life”, vencedor de um Óscar para melhor documentário este ano.

E porquê este fascínio? A Alice era a mais antiga sobrevivente do holocausto nazi, morreu este ano em Londres, aos 110 anos. Ficaria a ouvir as suas historias horas sem fim. E pensam vocês, caros leitores: "Ah sim, deve ter sofrido imenso, sobreviveu ao holocausto e, por isso, como tantos outros judeus , é uma personagem inspiradora". Contudo, quem viu este documentário sabe que se trata de muito mais do que isso. Percebe que há uma mensagem muito maior que vai mesmo além do próprio holocausto.

“There were beautiful moments there. Even the bad was beautiful when you know where to look for. It has to be”, diz Alice com uns olhos enternecedores que espelham uma imensa vida já vivida. Esta foi a frase que mais me marcou e que para mim sintetiza este documentário.

Como é que se pode ter esta postura, esta atitude, quando se esteve preso num campo de concentração nazi? Percebi então que Alice sobreviveu e tem esta atitude positiva perante uma das mais horrendas realidades da humanidade porque, para aquele campo de concentração, levou consigo uma das suas grandes paixões: a música.

Alice era uma excelente pianista no seu país de origem, a Republica Checa. Em 1943 foi levada para Terezin, um dos campos concentração nazis situado na actual Republica Checa. Ali, Alice junta-se a um grupo de judeus eruditos seleccionados pela Gestapo para fazer a chamada "propaganda", com o objectivo de enganar o mundo ao tentar mostrar o quão bem tratados eram os judeus. No caso de Alice, enquanto pianista, tinha de tocar piano para os colegas prisioneiros como se à sua volta nada de estranho acontecesse.

Agora perguntamo-nos: "Quem é que consegue tocar piano e sentir prazer com isso, estando num campo de concentração com um único fim — a morte?" Conseguem pessoas como a Alice. Se na vida amarmos algo como a Alice amava a musica — "music is the only thing that helps me to have hope, it's a sort of religion, actually. Music is God" , estamos preparados para enfrentar as maiores dificuldades da vida.

Agarremo-nos, por isso, a algo que nos dê prazer, descubramos uma forma de arte que nos eleve, seja a música, a leitura, a escrita, o cinema, a pintura... O gosto pela arte faz certamente de nós não só melhores seres humanos como também seres preparados para enfrentar os desafios e as dificuldades da vida com mais esperança e dignidade.

29.10.12

Sampaio diz que o Holocausto nazi "não foi um acidente da História"

in Jornal de Notícias

Jorge Sampaio, alto comissário das Nações Unidas para a Aliança das Civilizações, disse, esta segunda-feira, na abertura das conferências "Portugal e o Holocausto", que o nazismo não pode ser esquecido e que o genocídio não foi obra do acaso.

"O genocídio não foi um acidente da História, foi um produto de um extrato social", alertou Jorge Sampaio na abertura das conferências sobre "Portugal e o Holocausto" que começaram, esta segunda-feira, na Fundação Calouste Gulbenkian, em Lisboa, e que se prolongam até terça-feira.

Jorge Sampaio, que já anunciou que vai abandonar o cargo na Aliança das Civilizações em fevereiro, considerou que o ensino da História do século XX é fundamental para a "procura" de pontos para a resolução de conflitos e sublinhou que é preciso não esquecer os acontecimentos do passado recente.

"Tony Judt (historiador e pensador) alerta-nos para a falta de atenção que dedicamos ao passado recente. O século XX ainda há pouco nos deixou e os seus medos já estão a ser empurrados para a memória espúria. O passado recente é o mais difícil de perceber e nós tratamos o século passado com ligeireza", citou Sampaio, ao referir-se ao período da II Guerra Mundial (1939-1945).

O ex-presidente português disse ainda que a herança traumática da II Guerra Mundial e a catástrofe do Holocausto "marcaram o século XX" e por isso, afirmou, é preciso fazer tudo para que a "as vítimas não fiquem em silêncio". Recordou também que a "Europa política" foi construída nos escombros "da tragédia".

A conferência "Portugal e o Holocausto - Aprender com o Passado, Ensinar para o Futuro" vai reunir especialistas, académicos e políticos portugueses e internacionais.

"O objetivo desta conferência é contribuir para o aumento do conhecimento académico e promover a compreensão do Holocausto e do papel de Portugal durante esse período da História, bem como apoiar o ensino do Holocausto em Portugal", refere a organização da conferência.

Hoje, é ainda inaugurada na Fundação Gulbenkian a exposição "Os Refugiados do Holocausto e Portugal" e ao final da tarde terá lugar a sessão Música e Memória do Holocausto pela Escola de Música de Nossa Senhora do Cabo e a projeção do documentário "Testemunhos", de Esther Mucznik, da Fundação Memoshoá/Portugal.

As conferências são organizadas pela Embaixada dos Estados Unidos em Portugal, pela Fundação Luso-americana para o Desenvolvimento e pela Fundação Calouste Gulbenkian.