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28.2.22

Alterações climáticas: “Meias medidas já não são uma opção”, alerta IPCC

Claudia Carvalho Silva, in Público on-line

Com um planeta mais quente, as medidas terão de ser cada vez mais fortes. O IPCC apresentou esta segunda-feira um relatório que é sobre “as consequências da inacção” num mundo em que as alterações climáticas já afectam milhões de pessoas.

As alterações climáticas são uma ameaça gigante para o nosso bem-estar e para um “planeta saudável” e “é agora claro que mudanças pequenas, marginais e reactivas não serão suficientes”, alerta o Painel Intergovernamental para as Alterações Climáticas (IPCC). O novo relatório feito pelo Grupo de Trabalho II do IPCC foi apresentado na manhã desta segunda-feira e indica que são precisas (mais) medidas urgentes para nos adaptarmos aos efeitos das alterações climáticas, em simultâneo com um corte nas emissões de gases com efeito de estufa para impedir que o planeta continue a aquecer. Chegámos a um ponto em que não se pode continuar a pensar só a curto prazo. “Meias medidas já não são uma opção”, assevera o presidente do IPCC, Hoesung Lee.

“As nossas acções de hoje definirão como as pessoas se adaptam e como a natureza responde aos riscos crescentes causados pelas alterações climáticas”, lê-se nas conclusões do relatório. Nas próximas duas décadas e com um aumento da temperatura global de 1,5 graus Celsius, as ameaças serão uma realidade e são “inevitáveis”. Se o aumento da temperatura for superior – mesmo que temporariamente –, alguns destes impactos serão irreversíveis.

Apesar de muitos indicadores serem alarmantes, ainda há esperança: as acções que limitem o aquecimento global a 1,5 graus Celsius “reduziriam substancialmente as perdas e danos previstos” – “mas não os poderão eliminar a todos por completo”.

Dependência dos combustíveis fósseis é um “beco sem saída”

O secretário-geral da ONU, António Guterres, afirmou na conferência de imprensa virtual desta manhã que metade da humanidade está agora a viver na zona de perigo das alterações climáticas. O relatório é sinal do “sofrimento humano”, de uma “catástrofe” que se avizinha.

Diz que os combustíveis fósseis estão a “esganar” a humanidade e que a dependência destes recursos nos deixa vulneráveis a crises e a choques geopolíticos. “Os combustíveis fósseis são um beco sem saída para o planeta, para a humanidade e para as economias”, afirmou Guterres, dizendo que a adaptação pode salvar vidas. Mas há urgência.

Na mesma conferência de imprensa, a directora executiva do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente, Inger Andersen, manteve o tom: “Estamos numa emergência à espera de um desastre”, afirmou, dizendo que as medidas têm sido “demasiado fracas”. “A natureza pode salvar-nos – mas só se a salvarmos primeiro.”

Certo é que, a cada subida da temperatura global, as medidas tornam-se menos eficazes. Existem “grandes lacunas” entre o esforço que está a ser feito por uns e a adaptação que é necessária para se responder ao ritmo a que galgam as alterações climáticas. Sem nunca esquecer que tudo está interligado: o clima, a biodiversidade, as pessoas.

De resto, os riscos das alterações climáticas já são conhecidos: haverá mais ondas de calor, mais seca, mais cheias – que já estão a desafiar os limites dos animais e das plantas, causando a morte e extinção de espécies, incluindo árvores e corais. Não é um problema do futuro: “É inequívoco que as alterações climáticas já estão a prejudicar os sistemas humanos e naturais.”

3,6 mil milhões vivem em zonas vulneráveis

O relatório sublinha também que as alterações climáticas interagem com outros riscos: a população mundial está a aumentar, há um consumo de recursos excessivo e insustentável, há cada vez mais pessoas a morar nas cidades e as desigualdades e pobreza permanecem. Como acontece noutros contextos, quem sofre mais são as populações mais vulneráveis. O IPCC estima que cerca de 3,3 a 3,6 mil milhões de pessoas vivem em contextos altamente vulneráveis às alterações climáticas. Os riscos para as sociedades estão a aumentar, incluindo quem vive em zonas costeiras.

O grupo de trabalho alerta que os impactos e os riscos estão a ser cada vez mais “complexos e difíceis de gerir”. Há fenómenos causados pelas alterações climáticas que passarão a acontecer com mais frequência e em simultâneo. “O aumento de extremos climáticos levou a alguns impactos irreversíveis, enquanto os sistemas naturais e humanos são levados além da sua capacidade de se adaptarem.”

O diagnóstico vai sendo feito nas linhas do relatório. As alterações nos ecossistemas aumentam o risco de doenças nos animais e nas pessoas. Há mais alturas perigosas de risco de incêndios florestais e a área ardida é cada vez maior. Também “as condições de seca se tornam mais frequentes em muitas regiões, afectando negativamente a produção agrícola e de energia das centrais hidroeléctricas”. Foi o que aconteceu em Portugal neste mês de Fevereiro.

Estes perigos estão a tornar-se evidentes “em todas as regiões” do planeta, desde “o fundo do oceano até ao topo das montanhas mais altas”, assim como em cidades e zonas rurais – e a magnitude destes impactos “é maior do que se estimava anteriormente”, revela este documento do IPCC. O aumento das temperaturas faz com que os animais e as plantas tendam a migrar em direcção aos pólos, para altitudes mais altas ou para águas mais profundas. “Muitas espécies estão a atingir o limite das suas capacidades de se adaptarem às alterações climáticas”, lê-se. As que não conseguirem ficam em risco de extinção.

Qualquer atraso adicional numa acção global concertada fará com que percamos a oportunidade de assegurar um futuro habitável Hans-Otto Pörtner, vice-presidente do IPCC

Como se pode resolver esta ameaça à vida e à biodiversidade? “É preciso uma acção ambiciosa e acelerada para nos adaptarmos às alterações climáticas” – tudo isto enquanto se fazem “cortes profundos” nas emissões de gases com efeito de estufa. Por enquanto, denuncia o relatório, as medidas têm sido tomadas de forma desigual pelos países.

“Qualquer atraso adicional numa acção global concertada fará com que percamos a oportunidade de assegurar um futuro habitável”, garante o vice-presidente do IPCC, Hans-Otto Pörtner​, citado em comunicado. Salvaguardar a biodiversidade e os ecossistemas é essencial. As decisões que se tomarão nesta próxima década ditarão a resiliência climática, mas tudo isto será limitado “se as emissões de gases com efeito de estufa actuais não diminuírem rapidamente”.

Uma das soluções é restaurar ecossistemas danificados, já que os meios saudáveis conseguem enfrentar melhor as alterações climáticas. A natureza é a nossa melhor aliada, já que consegue absorver e armazenar carbono. Já certas práticas humanas são vistas como inimigos: o uso intensivo e pouco sustentável de recursos naturais, uma urbanização crescente, desigualdades sociais, e as perdas causadas por eventos extremos e por uma pandemia. O IPCC refere que há milhões de pessoas por todo o planeta que sofrem já o impacto da escassez de água e de alimentos.

Quem fica em risco não somos só nós – é o futuro. Para o IPCC, é preciso uma resposta coordenada: estes desafios precisam de uma resposta de todos, dos governos à sociedade, ao sector privado e à comunidade científica e escolar, desenvolvendo também “parcerias com grupos tradicionalmente marginalizados”, como os jovens, as mulheres, minorias étnicas e comunidades locais. As alterações climáticas são um desafio global, mas muitas das respostas devem ser locais, refere o grupo de trabalho.

O relatório, intitulado Alterações Climáticas 2022: Impactos, Adaptação e Vulnerabilidade, era para ser apresentado em Setembro de 2021, mas a pandemia atrasou o processo. É a segunda vez que o IPCC apresenta um relatório destes de forma virtual. O IPCC tem três grupos de trabalho e este segundo dedica-se aos impactos, adaptação e vulnerabilidade das alterações climáticas.

As cidades em risco

As cidades têm um lugar especial neste relatório. É nas cidades que vive mais de metade da população mundial e é lá que muitos dos impactos das alterações climáticas se fazem sentir, como as ondas de calor, as tempestades e outros fenómenos mais lentos, como a subida do nível médio da água do mar. “As zonas quentes estão a ficar mais quentes e está a reduzir-se drasticamente o tempo que as pessoas podem passar ao ar livre.”

Quem vive nas cidades sofre também com uma qualidade do ar mais fraca. Tudo isto pode afectar a saúde mental de quem lá vive – mas também a saúde física, podendo causar mortes.

Nas cidades em que há maiores níveis de pobreza e pouco planeamento urbano, o risco é maior. Ainda assim, estas malhas urbanas podem também ser uma oportunidade: há que apostar em “edifícios mais verdes, segurança no abastecimento de água potável e de energias renováveis, sistemas de transportes sustentáveis que conectem as áreas urbanas e rurais”, resume Debra Roberts, também vice-presidente do IPCC. Tudo isto poderá contribuir para uma “uma sociedade mais inclusiva e mais justa”.

Na Europa, as medidas em curso não estão a ser suficientes

Na parte do relatório dedicada à Europa, fica claro que o mundo actual (que já está 1,1ºC mais quente) está a afectar os sistemas humanos e naturais no continente. Os efeitos já são visíveis, incluindo nas ondas de calor e secas que se tornaram mais frequentes. Em Portugal, 2022 está a ser um dos piores anos de seca e um dos mais secos. Com o aumento de temperaturas, haverá também um maior número de mortes e de pessoas com complicações de saúde.

“Em muitas partes da Europa, as medidas de adaptação existentes e planeadas não são suficientes para evitar o risco”, lê-se no documento do IPCC, sobretudo com a subida da temperatura global perto ultrapassar os 1.5ºC em relação aos níveis pré-industriais. Este risco pode levar a uma perda de habitats e de ecossistemas, falhas na produção agrícola e até a um racionamento de água durante as secas no sul da Europa.

O IPCC refere precisamente que as zonas a sul da Europa serão as mais afectadas do continente e que haverá perdas significativas na produção agrícola na maior parte da Europa. A escassez de água agravará este cenário. No Sul da Europa, aliás, “mais de um terço da população estará exposta à escassez de água”, se as temperaturas subirem 2ºC. Isto também afectará as indústrias que estão dependentes da água e da energia hidroeléctrica.

A subida do nível médio da água do mar é outro dos riscos identificados na Europa. Os danos causados pelas inundações costeiras poderão ser dez vezes mais frequentes até ao final do século. “A subida do nível do mar representa uma ameaça da existência de comunidades costeiras e da sua herança cultural, sobretudo depois de 2100”, lê-se.

As soluções passam por uma melhor gestão da água, repensar a forma como se rega na agricultura, uma melhor gestão dos incêndios florestais, sistemas de aviso para inundações, e também intervenções em edifícios para se enfrentar as ondas de calor.

Como “barreira” a estas medidas está o pouco financiamento, “um reduzido sentido de urgência” e também “falta de liderança política”. É urgente deixar de pensar a curto-prazo, ressalva o IPCC. E há que pensar a nível local: “O sucesso da adaptação dependerá do nosso conhecimento de quais as opções de adaptação são fazíveis e eficazes num contexto local”.

11.8.21

Alterações climáticas: Portugal já sabia o que aí vem, mas não está totalmente preparado

Patrícia Carvalho, in Público on-line

Portugal, a par com os restantes países do Sul da Europa, enfrenta um futuro mais quente, com mais ondas de calor, secas e a possibilidade de cheias causadas por períodos de chuva muito muito intensos. “A chuva de um ano a cair numa semana”, alerta um dos especialistas ouvidos pelo PÚBLICO.

Os cientistas que há anos estudam as alterações climáticas em Portugal são unânimes: o mais recente relatório do IPCC (sigla inglesa de Painel Intergovernamental para as Alterações Climáticas) não traz grandes novidades quanto à forma como o país, e a região do Mediterrâneo em geral, serão afectados. Subida de temperatura, aumento dos períodos de seca e ondas de calor, períodos de chuva menos frequentes mas mais intensos, e uma linha de costa ameaçada pela subida do nível médio do mar são as principais consequências que se retiram das conclusões do IPCC - que se basearam em milhares de artigos científicos, incluindo portugueses -, mas se estamos preparados para isso já é outra questão.

“Por muito que os decisores políticos queiram tomar este relatório como novidade, isso pode ser visto como uma desresponsabilização. É claro que hoje temos uma informação mais detalhada, um conhecimento mais vasto, mas do ponto de vista substancial, não há ali grandes novidades”, diz Pedro Matos Soares, físico da atmosfera do Instituto Dom Luiz da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa (FCUL), reforçando: “Os resultados não são manifestamente diferentes do que sabíamos, o que mostra coerência [no trabalho desenvolvido], mas têm uma fundamentação mais forte. Há mais corpo científico, mais observações e melhores modelos.”

Também Filipe Duarte Santos, coordenador, em 2006, do Projecto SIAM II - Climate Change in Portugal. Scenarios, Impacts and Adaptation Measures (Mudanças do Clima em Portugal. Cenário, impactos e medidas de adaptação), em que já eram apresentadas projecções da evolução do clima na linha do que o IPCC vem agora definir, afirma: “Em relação à região do Mediterrâneo, o relatório confirma-o como um hot spot das alterações climáticas. A temperatura média tem estado a aumentar mais do que à escala global, na ordem de 1,5 graus Celsius, quando a nível global rondará os 1,09, 1,1graus. Também já se observa uma redução da precipitação média anual, que é muito clara em Portugal e é um dos aspectos mais preocupantes, por causa dos recursos hídricos e também por causa dos fogos florestais. Na Europa há uma área ardida anual muitíssimo maior na região do Mediterrâneo - Portugal, Espanha, sul de França, Itália, Grécia - e a tendência é para continuar porque vamos ter ondas de calor mais frequentes, mais intensas e secas”, diz o especialista em alterações climáticas da FCUL.

Rui Perdigão, professor catedrático em Física de Sistemas Complexos e Dinâmica do Clima e presidente do Meteoceanics Institute for Complex System Science, em Viena (Áustria) diz “passar a vida a fazer contas para salvar vidas”, trabalhando com modelos que permitiram, por exemplo, antecipar em algumas semanas a probabilidade da chegada das cheias que, no mês passado, deixaram devastadas várias partes da Europa central. Saúda no relatório do IPCC, a maior atenção dada aos extremos, e em relação a Portugal, deixa um alerta: “Não nos podemos esquecer das cheias. Não é por o sul da Europa esperar uma probabilidade inferior de termos cheias regulares que devemos pensar que o nosso problema é apenas a seca. Porque a quota de água [da região] continua a existir na atmosfera e vai ter de ser escoada. Ou seja, o que veremos é uma excessiva concentração [de água] na atmosfera, que em vez de cair regularmente, cai de repente, é a chuva de um ano a cair numa semana. Esse é o problema: num clima árido haver situações em que se passam meses a fio sem cair um pingo e depois cair uma quantidade brutal extremamente concentrada no tempo e o espaço, o que faz com que áreas como o Alentejo, com a terra ressequida, percam capacidade de infiltração. Mesmo em Lisboa, os planos de drenagem são para um regime de extremos que já não existe”, diz.
Mais adaptação

O ministro do Ambiente e da Acção Climática, João Pedro Matos Fernandes, reconhece que o país tem um caminho a fazer do lado da adaptação. Apesar de Portugal ser várias vezes citado como um exemplo no trabalho desenvolvido ao nível de clima - nomeadamente, ao nível energético e de redução de emissões -, o ministro defende que “quem está na linha da frente da redução de emissões tem a obrigação de começar a fazer um discurso complementar a esse, que é o do restauro e valorização dos ecossistemas, do território”. E aí, diz ao PÚBLICO, ainda não estamos “na linha da frente”.

No rescaldo da divulgação das principais conclusões do relatório do IPCC, Matos Fernandes diz ter encontrado sobretudo “duas novidades, uma técnica e outra de linguagem”. Do lado técnico, o ritmo a que o planeta poderá tornar-se 1,5 graus mais quente do que no período pré-industrial, foi o que mais o marcou. “Chegarmos a esse valor em menos de 20 anos é um factor novo, há um sentimento de urgência maior do que o que vinha de trás”. E que, refere, a própria linguagem usada na transmissão das conclusões sustenta: “Não me recordo de ver uma linguagem tão escatológica como esta num documento destes, tão de vida ou de morte. E este sentido de comunicação é de maior importância, a três meses da cimeira [da COP26] de Glasgow, que é importantíssima, diria mesmo a mais importante desde Paris”.

Esta segunda-feira, na apresentação do relatório, a co-presidente do Grupo I, responsável pelo documento, Valérie Masson-Delmotte, frisava que a comunidade científica estava a dar aos decisores políticos o conhecimento e os instrumentos para saberem o que vai acontecer em diferentes cenários de aquecimento do planeta, cabendo-lhes decidir o que fazer e até onde estão dispostos a ir.

Filipe Duarte Santos mostra algumas dúvidas sobre se haverá a capacidade de dar a resposta necessária, que tem de ser, obrigatoriamente, global. “Em relação ao resto do mundo, a União Europeia está a fazer bastante. Pode-se fazer mais, mas é indiscutivelmente líder no processo de descarbonização. O problema é que o mundo é muito fragmentado, muito complexo, e temos casos muito complicados, que não conseguirão fazer a transição sem um grande auxílio exterior. Mas o sentido de urgência em diminuir as emissões de gases com efeito de estufa vem no momento certo”, diz.

Pedro Matos Soares também chama a atenção para a antecipação da data em que o planeta poderá ultrapassar a barreira do aumento do aquecimento global de 1,5 graus, o que considera “muitíssimo severo”, já que, defende: “Estamos a falar de uma sociedade impreparada para este tipo de extremos, tanto ao nível das pessoas como economicamente.” E Portugal tem pela frente “grandes desafios”. Se seremos capazes de responder é uma incógnita: “Portugal até é pioneiro em algumas áreas, mas há quatro anos ainda estávamos a manifestar-nos contra a exploração de petróleo em Portugal. É tudo muitíssimo recente”, diz.

Num mundo em mudança e em que a componente humana tem uma quota parte inegável no que aconteceu e no que irá acontecer, Rui Perdigão deixa mais um aviso: “As autarquias, os agricultores, os agentes económicos têm de redimensionar as perspectivas de adaptação e mitigação. As estruturas têm de ser dimensionadas para extremos em que a magnitude e frequência não se coadunam mais com o que foi desenhado. Na altura, fizeram-no correctamente com os dados que havia, mas esses modelos já não servem, têm de ser refeitos com a ciência construída hoje. A agricultura, por exemplo, tem de preparar um sistema de resposta a infiltrações num regime de precipitação brutal. Há que redimensionar estruturas de engenharia civil, práticas agrícolas, tendo em atenção esta ciência emergente que nos fornece informação clara e objectiva quanto às tendências.”


15.1.20

Oceanos nunca foram tão quentes na história humana como em 2019. E aumento da temperatura está a acelerar

Patrícia Carvalho, in Público on-line

Cientistas de institutos de todo o mundo avisam que, mesmo que se reduzam os gases com efeito de estufa, a temperatura da água vai continuar a aumentar no futuro mais próximo.

Os últimos anos têm sido de recordes para os oceanos, mas daqueles que eram dispensáveis. Os dados de um estudo agora revelado mostram que os oceanos atingiram nos últimos cinco anos as temperaturas mais elevadas desde os anos 1950 e que não há registo na história humana de as suas águas alguma vez terem estado mais quentes do que em 2019. E como se este cenário não fosse já suficientemente pesado, os 14 cientistas de 11 institutos de todo o mundo que participaram no estudo concluíram que este aumento da temperatura tem acelerado e muito nos últimos anos e que, apesar de a necessidade de agir ser urgente, a resposta dos oceanos será lenta e não é previsível que a situação melhore rapidamente.

O artigo com os resultados obtidos pela equipa de cientistas liderada por Lijing Cheng, do Centro para o Clima e as Ciências Ambientais do Instituto da Física Atmosférica (IAP, na sigla inglesa) da Academia Chinesa de Ciências, foi publicado esta segunda-feira na edição online da Advances in Atmospheric Sciences, e vai no mesmo sentido dos relatórios mais recentes sobre o estado dos oceanos, nomeadamente o do ano passado do Painel Intergovernamental para as Alterações Climáticas (IPCC) das Nações Unidas dedicado aos oceanos e à criosfera.

A história do azeite conta-se num museu com a Serra da Estrela à vista
Um dos efeitos das emissões crescentes de gases com efeito de estufa (GEE) é o aumento da temperatura dos oceanos (que absorvem mais de 90% do excesso de temperatura), sobretudo até aos 2000 metros de profundidade, com todas as consequências negativas que daí advêm para a biodiversidade, as zonas costeiras (por causa da subida do nível médio do mar) e o aumento de fenómenos climáticos extremos, que em conjunto causam perdas de vidas e prejuízos económicos e ambientais elevadíssimos. Os alertas para a necessidade urgente de redução dessas emissões têm-se sucedido, com particular impacto no último ano e após a divulgação de três importantes relatórios do IPCC, mas a verdade é que os dados disponíveis mostram que elas têm continuado a aumentar e que a capacidade de o mundo cumprir as metas do Acordo de Paris – que apontam para um aumento da temperatura abaixo dos dois graus Celsius e, se possível, não superior a 1,5 graus em relação aos níveis pré-industriais – está cada vez mais comprometida, a menos que se actue de imediato.

A análise dos dados recolhidos pelo IAP e também pela NOAA, a agência dos Estados Unidos para o oceano e a atmosfera, mostra que o aquecimento global está a fazer-se sentir em toda a sua intensidade na temperatura da água dos oceanos. Lijing Cheng e os restantes cientistas concluíram que os últimos dez anos estão no Top 10 dos mais quentes para os oceanos, desde os anos 1950, e que, desse grupo, os últimos cinco foram os mais quentes de todos. Já o ano de 2019 foi aquele em que os oceanos do mundo apresentaram as temperaturas “mais quentes registadas na história humana”, lê-se no artigo. Esse aquecimento faz-se sentir sobretudo em profundidades até aos 2000 metros, mas ele está presente em toda a extensão dos oceanos, até ao seu fundo, indicam os dados analisados.

3600 milhões de bombas de Hiroxima
Os cientistas precisam também que o aumento da temperatura dos oceanos tem vindo a acelerar muito nos anos mais recentes. Olhando para o período entre 1955 e 1986, os investigadores concluíram que o aquecimento dos oceanos “foi relativamente constante”, mas tudo mudou no período seguinte, entre 1987 e 2019. Aí, refere-se no artigo, o aquecimento foi cerca de 450% do anteriormente registado, “reflectindo um grande aumento no nível das alterações climáticas globais”.

No comunicado que acompanha o artigo, explica-se que em 2019 a temperatura dos oceanos estava cerca de 0,075 graus Celsius acima da média alcançada no período entre 1981 e 2010. Aí, Lijing Cheng compara a quantidade de calor que o oceano teve de absorver para atingir este aumento com a energia libertada pela bomba de Hiroxima. “A quantidade de calor que colocámos nos oceanos do mundo nos últimos 25 anos equivale a 3600 milhões de explosões da bomba atómica em Hiroxima”, disse. Para o cientista não há mais lugar para quaisquer dúvidas sobre as alterações climáticas e o que as está a causar. “Este aquecimento dos oceanos é irrefutável e mais uma prova do aquecimento global. Não há alternativas razoáveis para o explicar além da emissão de gases que aprisionam o calor provocada pelos humanos.”

As vozes destes cientistas juntam-se, assim, às de tantos outros que têm pedido uma acção imediata na redução de emissões de GEE. O problema é que mesmo que ela aconteça e que as metas do Acordo de Paris sejam alcançadas, nos próximos anos o aquecimento dos oceanos vai continuar. Isto porque eles, tais como outros sistemas terrestres (incluindo os lençóis de gelo), são lentos a responder a alterações. Ainda assim, defendem os investigadores, “os níveis e a magnitude do aquecimento dos oceanos e os riscos associados serão menores com menos emissões de GEE”. Por isso, “acções humanas apropriadas” são essenciais para inverter o cenário actual, “reduzindo assim os riscos para os humanos e outra vida na Terra”, avisam.