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11.5.23

"Um mundo em mudança." Os "desafios e oportunidades" da nutrição em debate no Porto

Por Rui Cid com Carolina Quaresma, in TSF

À TSF, a presidente da Associação Portuguesa de Nutrição refere que "as alterações climáticas, os efeitos da pandemia e a guerra numa proximidade geográfica" influenciam a forma como comemos, causando "um potencial de insegurança alimentar".

desafios que "um mundo em mudança" coloca à forma como comemos, numa iniciativa da Associação Portuguesa de Nutrição.

Em declarações à TSF, a presidente da associação, Célia Craveiro, diz que, perante fenómenos como as alterações climáticas, a pandemia, ou a guerra na Ucrânia, é obrigatória uma reestruturação no modo como se pensa a alimentação e nutrição das populações.

"As alterações climáticas, os efeitos da pandemia e a guerra numa proximidade geográfica causam um potencial de insegurança alimentar devido a várias situações: situações inflacionárias, pobreza, aumento das doenças crónicas não transmissíveis e isso acaba por influenciar a forma como nos alimentamos e também como nós, profissionais da área da nutrição, principalmente, temos que abordar estas questões na atualidade", explica Célia Craveiro.

"Para isso, elaborámos um programa que vai debater os desafios e oportunidades que aparecem na investigação na área da nutrição, o impacto dos alimentos ultra processados e ainda vamos ter vários temas sobre a sustentabilidade alimentar", sublinha a presidente da Associação Portuguesa de Nutrição.

O congresso de nutrição e alimentação estende-se até sexta-feira, na Alfândega do Porto, com o objetivo de debater "a urgência da sustentabilidade, o papel da nutrição no doente e o impacto das escolhas alimentares".

17.4.23

Trabalhadores portugueses cortam nos gastos com comida devido à inflação

António Larguesa, in ECO



Mais de metade (54%) dos trabalhadores portugueses assume ter reduzido “muito ou bastante” as suas despesas para fazer face ao aumento da inflação, com apenas 15% a declarar que pouco ou nada teve de alterar para enfrentar o atual contexto. Um corte nos gastos que afetou mais quem tem contratos a prazo (65% vs. 51% nos contratados a tempo indeterminado) e está em regime 100% presencial (55% vs. 44% no modelo de trabalho híbrido).

De acordo com um estudo realizado pela Netsonda para a Edenred Portugal, a que o ECO teve acesso, a comida foi mesmo a categoria em que os portugueses mais reduziram as despesas, com mais de seis em cada dez inquiridos a afirmar ter diminuído o valor despendido com esta categoria, face ao período que antecedeu o disparo nos preços. Um fenómeno que é transversal aos vários segmentos da população.


Depois da alimentação (64%), as outras áreas em que os portugueses mais baixaram as despesas foram o turismo (57%), a categoria de lazer/desporto (54%), os combustíveis (45%) e a tecnologia (40%). Segundo o inquérito realizado pela consultora, que no mês de novembro fez perto de mil entrevistas para recolher esta informação, seguiu-se a redução dos gastos com eletricidade (29%) e noutros bens de primeira necessidade (21%), como os produtos de higiene pessoal ou da casa.

Quais foram as principais alterações nos hábitos dos trabalhadores portugueses no que toca à alimentação? Passaram a ir menos vezes a restaurantes (82%), enquanto dois terços dos que diminuíram este tipo de despesa compram agora uma menor quantidade de produtos no supermercado e fazem atualmente um maior planeamento de refeições, além de terem baixado a quantidade e a qualidade no prato.

Filipa Martins, diretora-geral da Edenred Portugal, salienta ao ECO que “tanto do ponto de vista social como económico estes são dados preocupantes”, uma vez que “evidenciam um risco crescente de incidência de má nutrição e, em situações limite, de fome junto da população ativa, que tradicionalmente está menos exposta a este risco”.


“A diminuição dos índices e qualidade da nutrição tem também impactos enormes nas empresas, uma vez que a alimentação é crucial para a saúde e esta tem uma relação direta com os níveis de absentismo e produtividade, com repercussões na receita e despesa do Estado. Aliás, é por isso que a atribuição do subsídio de refeição, enquanto facilitador de uma nutrição adequada durante a jornada de trabalho, é tão importante”, acrescenta.

Além disso, prossegue a responsável desta empresa, mantendo-se a tendência de redução das idas a restaurantes, “pode avizinhar-se um novo período de retração para o setor, ainda em recuperação dos dois difíceis anos de pandemia, pelo que é fundamental ter políticas que promovam o setor e garantam a continuidade e sustentabilidade destes estabelecimentos” ligados à restauração.

O estudo quantitativo realizado através da aplicação de um questionário online junto do painel Netsonda e de entrevistas telefónicas aponta os 373 euros como o valor médio mensal que os trabalhadores portugueses gastam com a alimentação. Os trabalhadores com mais de 45 anos (vs. 18-24 anos), com contrato de trabalho a tempo indeterminado (vs. a termo) e que trabalham no setor público (vs. privado) são os que mais gastam em comida, diferenciando-se dos outros targets em análise.

No que toca aos hábitos de consumo ao almoço, o relatório elaborado pela Netsonda, que reclama ter o maior painel online exclusivo para estudos de mercado em Portugal, indica que 45% dos almoços durante a semana de trabalho são feitos na copa da empresa com comida que levam para o escritório, enquanto quase 30% almoçam em casa. A cantina é a terceira opção (15%) e 10% vão a restaurantes – quem almoça fora pelo menos uma vez por semana paga, em média, dez euros pela refeição. Só 1% encomenda agora comida através de serviços de delivery.

As mulheres, os trabalhadores mais novos, os que trabalham em modo 100% presencial ou em empresas privadas com mais colaboradores optam mais vezes por almoçar na copa/levar comida de casa. Pelo contrário, são os homens, os inquiridos na faixa dos 45-54 anos (vs. os mais novos), os que estão parcialmente em trabalho remoto e os que trabalham em organizações privadas quem vai mais vezes aos restaurantes durante a semana de trabalho.

O período de almoço durante o dia de trabalho – para a maioria dos inquiridos (46%), a pausa mais comum dura 45 a 60 minutos – é considerado principalmente uma “maneira de regenerar e obter energia para a continuação do trabalho após o almoço” (82%). Para 37% é um “método exclusivamente necessário para garantir a nutrição”; para 30% uma “oportunidade de aprofundar o relacionamento com os colegas; e há ainda 26% que aproveita para “tratar de assuntos privados”. Apenas 1% diz não fazer intervalo para almoçar.

Para aqueles que abdicam “às vezes ou sempre” de fazer um almoço completo durante o dia de trabalho, como assumem fazer quatro em cada dez dos participantes neste estudo, os principais efeitos sentidos são fadiga/cansaço (33%) e irritabilidade (21%).


Valor médio de 5,9 euros no subsídio de alimentação

O perfil estabelecido na amostra deste estudo é o seguinte: mais de metade da população portuguesa trabalhadora é constituída por indivíduos entre os 35 e os 54 anos, vivendo cerca de um quarto na Grande Lisboa e tendo mais de um terço completado o ensino universitário ou técnico. Perto de 70% trabalha numa organização privada, a maioria tem filhos e 50% recebe entre 751 euros e 1.250 euros líquidos mensais.

Ora, outra das conclusões é que quase nove em cada dez trabalhadores recebem subsídio de alimentação, com o valor médio mensal de 127 euros (equivalente a 5,9 euros diários), isto é, um terço daquela que é a necessidade mensal calculada neste estudo. Por segmentos da população, o valor do subsídio é superior para os homens, para os funcionários abaixo dos 45 anos, para os trabalhadores em regime de trabalho 100% remoto ou híbrido, que trabalham no privado ou em empresas com 50 ou mais colaboradores.

Entre os que têm direito a subsídio de alimentação, 55% recebem-no em dinheiro e os restantes em cartão/voucher – algo que, segundo os dados deste estudo, é uma prática para mais de metade (58%) no setor privado, por contraponto com os funcionários públicos, para os quais receber o subsídio junto com o salário “continua a ser claramente a forma mais comum” (88%).

Um em cada cinco inquiridos reconhece que não sabe onde utiliza o valor do subsídio de alimentação, isto é, não faz distinção entre subsídio e ordenado. Sem surpresa, 98% dos que têm cartão/voucher conseguem mais facilmente identificar onde gastam o subsídio de refeição. A satisfação média com o cartão refeição é de 7,7, numa escala de classificação de 1 a 10.


A diretora-geral da Edenred Portugal defende que o recebimento do subsídio de refeição em cartão / vale “permite que as pessoas tenham uma maior visibilidade do seu orçamento para alimentação e onde o gastam, promovendo uma gestão mais eficiente desta verba”. “Mais do que isso, o recebimento através de vale social, seja em cartão ou voucher, assegura que o montante será, de facto, gasto com o fim para que foi atribuído”, completa.

“A maioria das pessoas que recebe o subsídio de refeição em dinheiro tem dificuldade em perceber se utilizou o valor em alimentação ou para outro fim, uma vez que os rendimentos estão todos englobados. O facto de não se conseguir identificar onde é gasto o subsídio em dinheiro pode significar que o mesmo está a ser canalizado para outros fins que não aquele com que foi atribuído [ter uma alimentação adequada], pondo em causa o benefício fiscal que lhe está associado”, sustenta Filipa Martins.


4.5.20

Pandemia faz disparar insegurança alimentar e agrava risco de obesidade

in Expresso

A perda repentina de poder de compra afeta um número considerável de famílias

pandemia de covid-19 está a ter um forte impacto na segurança alimentar dos portugueses, devido à falta de dinheiro para comprar alimentos, e a agravar o risco de obesidade, por causa do confinamento, destacaram duas especialistas.

"O impacto da pandemia não se irá fazer sentir, já está a fazer-se sentir. No último mês e meio, a insegurança alimentar cresceu muito em Portugal", alertou Ana Vizinho, da Rede Europeia Anti-Pobreza (EAPN), durante uma sessão do ciclo virtual conversas à mesa, dedicada ao tema "Emergências em saúde, alimentação e vulnerabilidade".

Segundo a responsável, a resposta ao surto do novo coronavírus está a ser "um desafio", já que, de um dia para o outro, muitas pessoas perderam parte ou mesmo a totalidade dos seus rendimentos, como os trabalhadores em 'lay-off', os que ficaram desempregados e os que trabalhavam na economia informal.

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"Houve um grande acréscimo de pedidos, uma vez que, além das pessoas que já eram apoiadas, agora há um novo perfil de pessoas a pedir apoio. E ainda há as que não estão a pedir apoios, mas que estão com um menor acesso à diversidade alimentar por falta de recursos financeiros", sublinhou Ana Vizinho.

Por seu turno, Joana Sousa, da Ordem dos Nutricionistas, apontou para o provável aumento do número de pessoas com doenças nutricionais crónicas e obesidade.

"Quase seis em cada 10 portugueses tem obesidade ou pré obesidade. Entre os idosos, o número cresce para oito em cada 10. E o impacto da situação de contingência provocada pela pandemia pode aumentar esta taxa, que já é muito elevada", sublinhou.

A perda repentina de poder de compra leva Joana Sousa a antecipar que 10% das famílias portuguesas passem por uma situação de insegurança alimentar.

"Há cada vez mais pessoas com dificuldades para comprar alimentos suficientes, e diversificados, para toda a família, por falta de recursos financeiros. A pandemia irá agravar as desigualdades em Portugal", vincou.

A especialista assinalou também que, nesta altura, a resposta política visa sobretudo o apoio à economia, deixando de lado as medidas necessárias para salvaguardar a segurança alimentar da população.

"Destaca-se a mobilização da sociedade civil para promover a ajuda alimentar aos mais carenciados", afirmou.

Na iniciativa promovida pela ACTUAR - Associação para a Cooperação e o Desenvolvimento e por parceiros do projeto Alimentação é Direito, também foi oradora Elisabetta Recine, da Universidade de Brasília, que fez o ponto de situação do impacto da pandemia no Brasil.

"Há uma franja grande da população brasileira, de milhões de pessoas, que viviam do trabalho individual, e que já estavam em situação de pobreza e ultra pobreza, e, agora, estão na miséria extrema e [a passar] fome", salientou, criticando as políticas seguidas nos últimos anos, no período pós-Dilma Rousseff, que deixaram muitas famílias "completamente desprotegidas".

De acordo com a perita, desde "o golpe parlamentar que levou à saída de Dilma e à entrada de Temer, e, depois, de Bolsonaro", a rede de apoio alimentar à população "sofreu um retrocesso profundo", devido ao desmantelamento das instituições e do fim do financiamento às equipas".

Por isso, considerou que "a pandemia chegou ao Brasil num momento em que o tecido social está muito vulnerabilizado e a sofrer os efeitos da política ultra liberal, que implica o 'desapoderamento' da política social".

Como é que a pandemia está a afetar os sistemas alimentares?

por Inês Moreira Santos, in RTP

A pandemia da Covid-19 já infetou mais de três milhões de pessoas em todo o mundo, condicionando as populações e afetando as economias mundiais. Além dos efeitos epidemiológicos, sociais e económicos, esta crise global tem exposto a fragilidade dos sistemas alimentares e a vulnerabilidade das cadeias de valor globais.

O debate não é recente: a alimentação e a nutrição têm um impacto na nossa saúde. Mas num contexto de crise a nível mundial, como o atual, esta é uma questão que tem ganho mais relevo com a abordagem dos sistemas alimentares globais, a sua organização e o tipo de alimentos que disponibiliza às populações.

Os sistemas globais alimentares estão a ser visivelmente afetados com os efeitos da Covid-19 nas sociedades, e os mais carenciados são as principais vítimas desta pandemia. É necessário que haja respostas e atuação por parte dos governos, mas também da sociedade civil, para promover sistemas alimentares sustentáveis.

A pandemia fez abrandar a economia a nível mundial e, consequentemente, levou à redução de rendimentos e à perda de empregos, afetando o poder de compra, o acesso aos alimentos e até a disponibilidade alimentar no mercado. Isto "é um problema emergente", na opinião de Joana Sousa, da Ordem dos Nutricionistas, que participou no webinar "Emergências na saúde, alimentação e vulnerabilidade", na quinta-feira.

Na sessão online, organizada pela ACTUAR - Associação para a Cooperação e Desenvolvimento, a nutricionista realçou que ainda antes da pandemia, já existiam desigualdades económicas e a nível alimentar em Portugal.

Cerca de 10,1 por cento das famílias portuguesas "experiementavam insegurança alimentar", isto é, dificuldade em "fornecer alimentos suficientes a toda a família, por falta de recursos financeiros". E pelo menos 2,6 por cento revelavam experimentar "insegurança alimentar moderada ou grave", tendo que alterar "hábitos alimentares habituais" e reduzir o consumo de alimentos.

Há ainda as famílias com rendimentos próximos ao salário mínimo nacional em que "a realidade de insegurança alimentar é significativamente mais elevada e mais severa". O que preocupa a nutricionista é que a pandemia vai agravar as desigualdades já existentes em Portugal.

"Este é que é o grande problema: o aumento da desigualdade que vai existir em Portugal relativamente à situação alimentar", lamentou Joana Sousa.
Segurança alimentar - direito a uma alimentação saudável

Existem medidas e apoios diversos - como por exemplo, o Programa Operacional de Apoio às Pessoas Mais Carenciadas e a Rede de Emergência Alimentar do Banco Alimentar - mas as medidas políticas em curso, em pleno contexto pandémico, de apoio à economia, não priorizam o "direito a uma alimentação saudável, equilibrada e adequeada".

Embora não existam medidas políticas delineadas para as questões de segurança alimentar em Portugal, Joana Sousa lembrou o papel fundamental e a mobilização da sociedade civil na promoção e no auxílio alimentar dos mais carenciados, principalmente nas últimas semanas.

"O impacto de atuação tem sido privilegiado, exclusivamente, pela sociedade civil no sentido de potenciar e promover o auxílio aos que estão mais desfavorecidos", enalteceu.

Urge o combate à pobreza extrema e à insegurança alimentar moderada e grave, situações já existentes em Portugal mas que "perante a conjuntura atual vai agravar esta realidade no país", relembra a nutricionista.

Neste sentido, e considerando o agravamento das desigualdades, a Ordem dos Nutricionistas privilegia a elaboração de uma Estratégia Nacional de Segurança Alimentar e Nutricional que assegure uma abordagem holística daquilo que é o direito a uma alimentação adequada, "reforçando o envolvimento de todos e em todos os domínios, ou seja, na globalidade do sistema alimentar", como a melhoria das práticas ambientais, económicas e sociais na agricultura e nos sistemas alimentares gerais.

É necessário, acrescentou a nutricionista, uma "melhor rentabilização de recursos".

Os efeitos da pandemia na alimentação, no entanto, não passam apenas pelos impactos na economia e na disponibilidade de alimentos, mas também na saúde da população que pode ficar gravemente deteriorada após a pandemia.

Considerando o contexto pandémico, "o confinamento a que fomos sujeitos, a alteração de comportamentos – quer do ponto de vista de saúde alimentar, quer do ponto de gasto energético – e os indicadores de excesso moderado a elevado de peso" em Portugal, a nutricionista não tem dúvidas de que se vai "incrementar significativamente esta realidade, potenciando o fator de risco também associado à insegurança alimentar e à implicação na saúde".

A nutricionista alertou, assim, que as necessidades nutricionais e a insegurança alimentar são uma realidade e que se agravam quando associadas às "doenças crónicas não transmissíveis", como a obesidade ou a diabetes, por exemplo.

O foco neste momento é a prevenção e o tratamento da Covid-19, mas é necessário não descurar deste problema. Aliás, "a promoção da saúde é tão importante como o tratamento da doença".
"Está a haver um aumento significativo da prevalência destes indicadores a nível da população, dado as alterações de comportamentos que todos fomos obrigados a adotar, nestes últimos tempos".

É necessário, por isso, colmatar as desigualdades socioeconómicas, assim como as condições de acesso aos cuidados de saúde, a alimentação e nutrição. Uma das soluções apontadas pela convidada do webinar foi o aumento da ação de profissionais.

"É fundamental o papel de um nutricionista escolar, de nutricionistas na realidade de uma autarquia, do poder local, porque o que existe a nível nacional é muito escasso para o que é a real necessidade".

Para a Ordem dos Nutricionistas, é importante não desvalorizar "a alimentação da população em geral em tempo de isolamento".

A saúde mental, por exemplo, "tem um impacto relevante nos comportamentos alimentares e nas opões e escolhas alimentares, e com aquele sentimento da compensação", esclareceu Joana Sousa.

"A verdade é que podemos estar numa fase de alteração de padrão e comportamento alimentar com um risco elevado para a saúde da população em geral".

Recorde-se que pessoas portadoras de doenças crónicas, geralmente, são mais suscetíveis a infeções, sendo consideradas grupo de risco para a Covid-19.
Soluções para a economia e a alimentação

Mesmo em contexto pandémico, o problema não é apenas a falta de alimento, mas sim de nutrição adequada.

A criação de parcerias entre entidades - como pequenos agricultores e mercados locais, por exemplo - e a seleção preferencial de alimentos de produção local e de cadeia curta são algumas das medidas propostas, como critérios de qualidade alimentar, pela Ordem dos Nutricionistas, no sentido de erradicar a pobreza, colmatar as desigualdades socioeconómicas e promover uma alimentação saudável.

O aumento das desigualdades e dos casos de pobreza, anunciadas pela chegada da pandemia e o abrandamento económico, pode potenciar a vulnerabilidade das populações a doenças relacionadas com a alimentação e até a possíveis pandemias futuras.

O surto do novo coronavírus em Portugal "já está" a agravar as desigualdades socioeconómicas em Portugal, na opinião de Ana Vizinho da Rede Europeia Anti-pobreza - EAPN, também oradora da webinar, promovida no âmbito do projeto Alimentação é Direito, da ACTUAR.

"Num mês e meio, houve muita coisa que mudou e, no ponto de vista alimentar, mudou drasticamente", afirmou, acrescentando que "a insegurança alimentar e a carência alimentar aumentaram imenso".

Não se sabe ao certo quantas famílias em Portugal já estão a ser severamente afetadas, mas desde que foi lançada a campanha da Rede de Emergência Alimentar do Banco Alimentar já foram contabilizados "cerca de 55 mil pedidos a nível nacional".

No Banco Alimentar, "as equipas de apoio integraram, num mês e meio, mais 100 pessoas" e aumentaram a distribuição de mais refeições diárias.

Também o Programa Operacional de Apoio às Pessoas Mais Carenciadas (POAPMC) prevê que, até agosto, o número de pessoas carenciadas a necessitar de auxílio passe de 60 mil para 90 mil, considerando a "identificação das necessidades".

E estes casos recentes, que começam a aumentar, são "pessoas que estão em lay-off, pessoas que ficaram desempregadas", assim como pessoas sem "vínculos laborais" ou com trabalhos temporários que, numa situação de pandemia, "ficaram sem rendimento, praticamente, de um dia para o outro".

Mas as carências que levam mais pessoas a procurar ajuda não são apenas alimentares. "Estão a surgir várias necessidades do ponto de vista do fornecimento de água", tanto para consumo como para uso na higiene, esclareceu Ana Vizinho.

A verdade é que muitos estabelecimentos de restauração forneciam água, por exemplo, a populações que viviam na rua. Agora, com o encerramento destes, estas pessoas ficaram ainda mais carenciadas.

Contudo, a responsável da EAPN salientou que há entidades, como o Banco Alimentar e "as cantinas socias", que estão a tentar dar resposta a todos os casos identificados. Também as escolas estão a fornecer refeições, lembra, "para os alunos dos escalões mais baixos" até ao Ensino Secundário.

Elogiando a atuação de diversas autarquias, Ana Vizinho frisa que as câmaras têm assegurado a resposta aos mais carenciados através de "diferentes sistemas de apoio". "Uns fornecem cabazes, outros fornecem vales para compras".
Mais apoios "não significa mais comida"

A questão, no entanto, não é apenas a garantia da resposta às carências alimentares, mas também o tipo de produtos alimentares distribuídos.

Na POAPMC "existe uma lista de 25 produtos que são mensalmente distribuídos pelas famílias apoiadas e que estão pensados no ponto de vista da alimentação saudável, das necessidades nutricionais e da faixa etária". Neste momento, não estão a ser garantidos todos os produtos da lista, "há algumas falhas", mas "há preocupações que permanecem".

Já em bancos alimentares, em algumas regiões já só há, "praticamente, massa e arroz para dar". Com o aumento de pedidos e a necessidade de distribuir a mais famílias carenciadas, "a questão da variedade e da qualidade dos produtos acaba por ser uma questão se coloca a seguir, não no imediato", explica Ana Vizinho.

"As organizações estão, neste momento, sobretudo com muita dificuldade em conseguir chegar a todas as famílias".
"E existem ainda pessoas que não estão a pedir nem a receber apoio alimentar, mas a sua contração orçamental é também uma contração alimentar".
De uma coisa Ana Vizinho tem a certeza: com a pandemia surgiram mais pessoas a necessitar de apoio, mas também "surgiram algumas respostas que não existiam, embora isso não signifique que haja mais comida".

Há ainda uma questão que, a maioria destas entidades, não consegue garantir: a variedade, o as necessidades nutricionais e a opção de escolha.

Estas organizações "não permitem nem garantem a escolha de produtos". Isto é, "não há soberania na escolha". Apenas nos cabazes distribuídos pelas autarquias, que identificam quais os produtos de que as pessoas precisam e "quais gostaria de receber", ou quando distribuídos os vales de compras.

Mesmo antes da pandemia, não existia "propriamente uma política alimentar em Portugal, muito menos direcionada para as pessoas em situação de vulnerabilidade". Mas em situações de emergência, como a que vivemos, há "uma acentuação" destes problemas, mas a "uma escala muito maior".
Fraca nutrição potencia mais doenças

Os efeitos na economia e na alimentação também se fazem sentir noutras regiões do mundo. Na verdade a dificuldade de acesso aos produtos alimentares e a variedade nutricional são apenas uma pequena parte do problema, segundo a coordenadora do Observatório de Políticas de Segurança Alimentar e Nutrição da Universidade de Brasília, Elizabetta Recine.

"O pico do iceberg deste processo são as doenças crónicas, degenerativas e a obesidade", afirmou na sua intervenção no webinar.

Neste momento, a preocupação "é que a abordagem sistémica se foque mais numa visão nutricional, na produção de nutrientes e não apenas na produção de comida".

"A pandemia atingiu o Brasil num momento em que se vivia um acelerado crescimento da pobreza e da extrema pobreza, com filas enormes nos programas de transferência de renda e a pandemia trouxe mais desemprego e subemprego. Ou seja, a Covid-19 chegou com um tecido social muito vulnerabilizado e uma política económica extremamente liberal".

Num contexto social como o brasileiro, com a chegada da pandemia impôs-se a necessidade de responder às carências de muitas famílias. Muitas crianças garantiam parte da sua alimentação na escola, mas foi necessário redefinir a agenda do programa de Segurança Alimentar e Nutricional, como "uma adaptação do Programa Nacional de Alimentação Escolar".

Nesse sentido, o orçamento destinado à alimentação escolar tem sido aplicado "na compra de alimentos para as famílias ou na entrega de vouchers para que as famílias possam adquirir alimentos", uma vez que as escolas estão encerradas em todo o país.

O maior problema, na sua opinião, é que "há uma tendência para o aumento das compras de alimentos não-saudáveis”, quando as famílias usam os vouchers nos grandes supermercados.

A Sociedade Civil brasileira, no entanto, propôs o investimento do Governo para a "intensificação da compra na Agricultura Familiar e que esta seja destina a diferentes programas públicos, como bancos alimentares".

A ACTUAR, com o projeto Alimentação é Direito - cofinanciado pela Fundação Calouste Gulbenkian e pela Fundação Bissaya Barreto - tem como objetivo criar literacia sobre o tema do direito a uma alimentação adequada em Portugal. A sessão "Emergências na saúde, alimentação e vulnerabilidade" está integrada num ciclo de "Conversas à Mesa" com temas adaptados ao contexto da pandemia da Covid-19.

Em Portugal, já existe um Conselho Nacional de Segurança Alimentar e Nutricional que prevê a intrevenção de várias entidades, mas a sociedade civil "não participa formalmente", lamenta Joana Dias coordenadora da ACTUAR.

Por isso, e "numa tentativa de estimular o dialogo entre diferentes atores da sociedade civil envolvidos nestas temáticas", estes espaços de conversação visam a reflexão crítica e a "articulação entre os diferentes intervenientes".

Pandemia faz disparar insegurança alimentar e agrava risco de obesidade

Por Notícias ao Minuto

A pandemia de covid-19 está a ter um forte impacto na segurança alimentar dos portugueses, devido à falta de dinheiro para comprar alimentos, e a agravar o risco de obesidade, por causa do confinamento, destacaram hoje duas especialistas.

"O impacto da pandemia não se irá fazer sentir, já está a fazer-se sentir. No último mês e meio, a insegurança alimentar cresceu muito em Portugal", alertou Ana Vizinho, da Rede Europeia Anti-Pobreza (EAPN), durante uma sessão do ciclo virtual conversas à mesa, dedicada ao tema "Emergências em saúde, alimentação e vulnerabilidade".

Segundo a responsável, a resposta ao surto do novo coronavírus está a ser "um desafio", já que, de um dia para o outro, muitas pessoas perderam parte ou mesmo a totalidade dos seus rendimentos, como os trabalhadores em 'lay-off', os que ficaram desempregados e os que trabalhavam na economia informal.

"Houve um grande acréscimo de pedidos, uma vez que, além das pessoas que já eram apoiadas, agora há um novo perfil de pessoas a pedir apoio. E ainda há as que não estão a pedir apoios, mas que estão com um menor acesso à diversidade alimentar por falta de recursos financeiros", sublinhou Ana Vizinho.

Por seu turno, Joana Sousa, da Ordem dos Nutricionistas, apontou para o provável aumento do número de pessoas com doenças nutricionais crónicas e obesidade.

"Quase seis em cada 10 portugueses tem obesidade ou pré obesidade. Entre os idosos, o número cresce para oito em cada 10. E o impacto da situação de contingência provocada pela pandemia pode aumentar esta taxa, que já é muito elevada", sublinhou.

A perda repentina de poder de compra leva Joana Sousa a antecipar que 10% das famílias portuguesas passem por uma situação de insegurança alimentar.

"Há cada vez mais pessoas com dificuldades para comprar alimentos suficientes, e diversificados, para toda a família, por falta de recursos financeiros. A pandemia irá agravar as desigualdades em Portugal", vincou.

A especialista assinalou também que, nesta altura, a resposta política visa sobretudo o apoio à economia, deixando de lado as medidas necessárias para salvaguardar a segurança alimentar da população.

"Destaca-se a mobilização da sociedade civil para promover a ajuda alimentar aos mais carenciados", afirmou.

Na iniciativa promovida pela ACTUAR - Associação para a Cooperação e o Desenvolvimento e por parceiros do projeto Alimentação é Direito, também foi oradora Elisabetta Recine, da Universidade de Brasília, que fez o ponto de situação do impacto da pandemia no Brasil.

"Há uma franja grande da população brasileira, de milhões de pessoas, que viviam do trabalho individual, e que já estavam em situação de pobreza e ultra pobreza, e, agora, estão na miséria extrema e [a passar] fome", salientou, criticando as políticas seguidas nos últimos anos, no período pós-Dilma Rousseff, que deixaram muitas famílias "completamente desprotegidas".

De acordo com a perita, desde "o golpe parlamentar que levou à saída de Dilma e à entrada de Temer, e, depois, de Bolsonaro", a rede de apoio alimentar à população "sofreu um retrocesso profundo", devido ao desmantelamento das instituições e do fim do financiamento às equipas".

Por isso, considerou que "a pandemia chegou ao Brasil num momento em que o tecido social está muito vulnerabilizado e a sofrer os efeitos da política ultra liberal, que implica o 'desapoderamento' da política social".

A nível global, segundo um balanço da agência de notícias AFP, a pandemia de covid-19 já provocou mais de 227 mil mortos e infetou quase 3,2 milhões de pessoas em 193 países e territórios.

Cerca de 908 mil doentes foram considerados curados.

Em Portugal, morreram 989 pessoas das 25.045 confirmadas como infetadas, e há 1.519 casos recuperados, de acordo com a Direção-Geral da Saúde.



23.6.16

U.Porto lança curso online sobre alimentação saudável

Inês Maria Pinto, in Notícias da Universidade do Porto

A U.Porto lança um MOOC para dar a conhecer a técnicas de uma alimentação simultaneamente saudável e económica.

Como ler os rótulos dos alimentos? Como preparar refeições reutilizando sobras? Como organizar o frigorífico de forma adequada? Estas são algumas das perguntas que vão ser respondidas no novo MOOC (Massive Online Open Course), lançado na plataforma digital MiríadaX pela Universidade do Porto.

Intitulado “Coma melhor, poupe mais”, este curso online começa no dia 20 de junho e prolonga-se durante quatro semanas. Desenvolvido por um grupo de professores da Faculdade de Ciências da Nutrição e Alimentação da U.Porto (FCNAUP) e pela Unidade de Tecnologias Educativas da UPdigital, pretende dar a conhecer um conjunto de conceitos e dicas úteis para mostrar à população portuguesa que é possível ter uma alimentação saudável e económica ao mesmo tempo, explorando as potencialidades do ensino massivo e global, através de conteúdos audiovisuais de elevada qualidade e permitindo uma gestão própria dos horários dos utilizadores.

Aberto a todos os interessados, este curso pretende apresentar todo o percurso dos alimentos, desde o momento de planificação da compra, até à confeção e conservação, tendo por base a Roda dos Alimentos. Mais do que sugestões de poupança, procura transmitir um conjunto de ideias práticas para comer mais saudável, que por acaso até são económicas e fazem parte da tradição alimentar de Portugal.

Este MOOC tem por base o livro “Alimentação Inteligente: coma melhor, poupe mais” – autoria de Maria João Gregório, Maria Cristina Teixeira Santos, Sara Ferreira e Pedro Graça – cujas instituições promotoras foram a Direção-Geral da Saúde e a Edenred.

O curso encontra-se agora disponível para os utilizadores registados na plataforma MiriadaX, um agregador que põe à disposição de 1345 universidades iberoamericanas um espaço de partilha de conhecimento de forma livre, sem horários, sem custos e sem barreiras. O registo na plataforma e a inscrição no curso são gratuitos e estão já atualmente disponíveis na página do curso da plataforma MiriadaX.

27.10.15

Nutricionistas congratulam-se com decisão de classificar carnes processadas como cancerígenas

Rafael Azevedo, in Diário de Notícias

Organização Mundial da Saúde classifica ainda a carne vermelha como potencialmente cancerígena

A bastonária da Ordem dos Nutricionistas congratulou-se hoje com o facto da Organização Mundial da Saúde classificar os alimentos processados como cancerígenos, e a carne vermelha como potencialmente cancerígena, considerando ser uma oportunidade para aumentar o consumo de hortofrutícolas.

Coube à Organização Mundial da Saúde (OMS) esta classificação, que coloca alimentos como o fiambre, bacon, salsichas ou presunto ao nível do tabaco, em termos de efeitos prejudicais para a saúde de quem os consome.

O estudo da Agência Internacional para a Investigação sobre o Cancro (IARC, na sigla em inglês) indica que a carne processada é cancerígena para os seres humanos e alerta para o facto de a carne vermelha também é "provavelmente" cancerígena.
"Para os profissionais de saúde, o facto não é novidade"

O relatório referiu que a ingestão diária de 50 gramas de carne processada -- menos de duas fatias de bacon - aumenta a probabilidade de desenvolver cancro colo-rectal (também conhecido como cancro do intestino) em 18%.

A classificação foi bem recebida pela bastonária da Ordem dos Nutricionistas, Alexandra Bento, que não ficou, contudo, surpreendida.

"Há estudos que associam estes alimentos ao cancro, assim como identificam os hortofrutícolas como potenciais diminuidores do risco de doença oncológica", disse à agência Lusa.

Alexandra Bento reconhece que "não é fácil mudar hábitos alimentares de um dia para o outro", mas afirmou ser esta uma oportunidade para recuperar o consumo da dieta mediterrânica, que foi abandonada nos últimos tempos.

"Se sabemos que há uma relação entre os hábitos alimentares e a saúde e que os erros alimentares podem levar a doenças, nomeadamente ao cancro, então devemos pensar nos alimentos que devem ser a base da nossa alimentação", afirmou, numa referência aos hortofrutícolas.

Em relação às carnes vermelhas, a nutricionista diz que esta apenas deve ser consumida esporadicamente.
"Em alimentação não devemos diabolizar alimentos, mas devemos consumi-los com peso e medida"

Alexandra Bento reconhece que "as fileiras vão posicionar-se", numa referência aos produtores destes produtos.

O documento foi elaborado por um grupo de trabalho composto por 22 especialistas de 10 países, que foram convocados para o Programa de Monografias da IARC, organização com sede na cidade francesa de Lyon.

O grupo de trabalho considerou que existem "provas suficientes" de que a ingestão de carne processada está ligada ao cancro colo-rectal.
"o termo carne vermelha está associado a "todos os tipos de carne muscular de mamíferos, como carne de vaca, vitela, porco, carneiro, cavalo ou cabra"

Por sua vez, a carne processada está relacionada com produtos "que foram transformados através de um processo de salga, fumeiro, fermentação ou outros processos para melhorar o sabor ou conservação".

Nesta categoria estão incluídos, entre outros, produtos como salsichas, presunto, carne enlatada, bacon e preparados ou molhos à base de carne.