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21.3.23

Supermercados encostados à parede para baixar preços

Textos Joana Pereira Bastos e Raquel Albuquerque, infografia Carlos Esteves, in Expresso

Se os preços dos produtos alimentares essenciais não baixarem nas próximas semanas, o Governo vai atuar. Estão a ser estudadas alterações à lei para fixar um limite para as margens de lucro

As principais cadeias de supermercados em Portugal estão sob alta pressão. Depois de, na semana passada, ter sido lançada pela ASAE uma megaoperação nacional para detetar casos de especulação, esta quarta-feira à tarde o primeiro-ministro chamou a São Bento o diretor-geral da Associação Portuguesa das Empresas de Distribuição (APED) para pedir explicações sobre o aumento do preço de vários produtos alimentares, sobretudo aqueles em que foram apuradas margens de lucro brutas acima dos 40%. António Costa quis saber a justificação, um a um, para o custo de alimentos como as cebolas, as cenouras, as laranjas, os ovos ou as febras de porco. E o Expresso sabe que o Governo vai mesmo atuar, se os supermercados não baixarem os preços nas próximas semanas.

O Executivo está neste momento a estudar várias medidas e não exclui, por exemplo, vir a fixar — mesmo que excecionalmente e com carácter temporário — um limite para as margens de lucro de produtores, indus­triais e distribuidores. Até 1984, a lei estipulava um teto máximo de 15%, mas desde então não há qualquer valor definido, o que dificulta o combate à especulação, reconhece o inspetor-geral da ASAE. “Para a ação inspetiva, seria mais linear se houvesse margens predefinidas”, diz ao Expresso Pedro Portugal Gaspar.

Numa altura em que milhares de famílias enfrentam cada vez mais dificuldades para assegurar a sua alimentação básica, o responsável admite que a fixação de uma margem de lucro neste sector pode ser feita como “medida de exceção”, tal como aconteceu durante a pandemia no caso das máscaras e do gel — em que a margem de lucro foi limitada a 15% —, embora ressalve que “essa avaliação é claramente do plano político”.

Além da especulação, autoridades estão a investigar eventual concertação de preços entre os supermercados

Mais recentemente, em outubro de 2021, o Governo aprovou um decreto-lei que permite fixar as margens de lucro máximas na comercialização de combustíveis, impondo limites sempre que se verifiquem aumentos injustificados. O Executivo nunca chegou, no entanto, a usar esta “arma”, já que naquele sector os preços baixaram entretanto. Mas o mesmo não está a acontecer no caso dos alimentos.

Esta semana, o preço de um cabaz alimentar básico voltou a bater novo recorde, custando mais 26% do que há um ano, segundo a Deco/Proteste. A taxa de inflação dos produtos alimentares atingiu em janeiro 21,1% o valor mais elevado da Europa Ocidental e que representa mais do dobro do valor da inflação geral registada no país. “Queremos uma explicação cabal sobre porque é que isso acontece”, frisa o secretário de Estado do Comércio, Nuno Fazenda (ver entrevista).

Contudo, existe a expectativa de que a pressão pública colocada nas últimas semanas sobre os supermercados seja suficiente para levar o sector a baixar os preços, sem serem necessárias mais medidas. Ao Expresso, o diretor-geral da APED lamenta que o Governo e a ASAE estejam a fazer dos supermercados o seu alvo e considera “inaceitável que se esteja a lançar uma suspeição” sobre a distribuição, sem sequer estar concluída uma análise a toda a cadeia, incluindo a produção e a indústria alimentar, onde a inflação até é mais alta do que no retalho.

“Não somos nós que estamos a provocar este aumento dos preços”, frisa Gonçalo Lobo Xavier. “É toda a cadeia agroalimentar que está a ser impactada pela subida dos custos de produção”, como energia, combustíveis, fertilizantes ou rações. O diretor-geral da APED garante que a concorrência entre os supermercados é tão grande que “todos já fazem um esforço diário para conseguir os preços mais baixos”. “Não sei se é possível fazer um esforço ainda maior”, diz.

O EXEMPLO FRANCÊS

Lá fora, vários países já estão a tomar medidas para conter a inflação dos produtos alimentares. Na Grécia, o Governo obrigou os supermercados a ter pelo menos um produto de cada categoria.

O modelo francês, que passa pela negociação e não pela imposição de limites às margens de lucro, é visto em Portugal como um caminho possível, tendo sido discutido na reunião entre a APED e o primeiro-ministro. “É uma medida interessante. Estamos disponíveis para encontrar soluções”, diz Lobo Xavier.

Já a redução do IVA ou a fixação de preços estarão, à partida, postas de parte. No caso do IVA, a experiência feita com alguns produtos, como as conservas de peixe, que baixaram de 23% para 6%, não resultou em qualquer benefício para os consumidores, uma vez que o preço final não só não baixou como até aumentou 4%.

Para já, no entanto, o foco do Governo está apenas no reforço da fiscalização. Foram já instaurados 51 processos-crime por especulação, sobretudo devido a situações de desvio entre o preço cobrado nas caixas dos supermercados e o anunciado nas prateleiras, com diferenças que chegaram aos 70%, e pela desconformidade no peso de produtos embalados.

Além da especulação, estão também a ser investigadas situações de eventual concertação de preços pela Autoridade da Concorrência (AdC), que esta semana foi igualmente convocada pelo primeiro-ministro. Nos últimos anos, foram abertos 15 processos a cadeias de supermercados, tendo sido aplicadas multas que ascenderam a €676 milhões. “As práticas sancionadas foram essencialmente de alinhamento de preços entre distribuidores, através de um fornecedor comum, sendo que todos beneficiavam com este alinhamento, com exceção do consumidor”, especifica a AdC.

No caso dos produtos em que foram agora identificadas pela ASAE margens de lucro brutas médias acima de 40%, como as cebolas, as autoridades vão apurar se a margem é semelhante entre as três maiores cadeias de distribuição, o que, a confirmar-se, poderá indiciar uma eventual concertação de preços.

Ressalvando que existe uma forte concorrência neste sector e que o alinhamento de preços não é comparável ao das gasolineiras, o diretor-geral do Gabinete de Planeamento, Políticas e Administração Geral do Ministério da Agricultura explica que a grande concentração que existe no retalho — os quatro maiores grupos detêm mais de 70% do mercado — dá aos supermercados um enorme poder negocial. “Esta concentração pode levar a situações de oligopólio”, diz Eduardo Diniz.

Muitos produtores acusam a distribuição de esmagar as suas margens de lucro, impondo-lhes preços de aquisição de produtos que praticamente não cobrem os custos de produção. Já os supermercados garantem que em muitos bens, como o leite, têm uma margem de lucro zero, porque o preço subiu exclusivamente devido ao aumento imposto pelos produtores.

Seja qual for a origem da escalada de preços, a verdade é que, de semana para semana, o cabaz básico tem estado a aumentar, tornando-se inacessível para cada vez mais famílias.

SALMÃO É o peixe que tem estado quase sempre entre os produtos com maiores subidas de preço. Segundo a Deco, o quilo custa agora mais €6 do que há um ano. Só desde janeiro subiu €3,10

CENOURA Como noutros produtos hortícolas, a subida do custo dos fertilizantes refletiu-se no preço de venda ao público, com um aumento de 59% (mais €0,47 do que há um ano). É um dos produtos onde a ASAE identificou uma margem de lucro bruta mais elevada, chegando aos 45%

LARANJA O produtor está a vender o quilo, em média, a €0,40. E o embalador cobra o dobro (€0,80 a €0,90) à distribuição. Nos supermercados é vendida, em média, a €1,49. É o segundo produto onde a ASAE identificou maior margem de lucro bruta (48%)

AZEITE Foi um dos bens alimentares cujo preço começou a subir logo depois do início da guerra e é um dos dez que mais aumentaram. Por garrafa, paga-se agora em média €6,91, mais €2,23. É uma subida de 48%. Só na última semana ficou €0,42 mais caro

LEITE Segundo a Deco, um pacote custa agora, em média, mais €0,30 do que há um ano. É uma subida de 43%. No caso do leite, os supermercados dizem ter margem de lucro zero, alegando que a subida sentida no consumidor se deveu apenas ao aumento definido pelos produtores

FEBRAS É um dos produtos do porco mais consumidos e tem margem de lucro bruta de 45% nos supermercados. Os produtores dizem ter aumentado em 60% o preço a que vendem os animais aos matadouros, mas estes dizem estar a pagar mais 107% do que há um ano. Contas feitas, os consumidores pagam agora quase mais um euro (22%) por quilo

AÇÚCAR Um quilo chega, em média, a custar €1,69, mais 56% do que em março do ano passado. Esse salto põe o açúcar na lista dos dez produtos que mais encareceram

OVOS O custo das rações e a escassez provocada pela gripe das aves (um surto nas duas maiores explorações nacionais obrigou ao abate de milhares de animais) fizeram disparar em 35% o preço (mais €0,42). A margem de lucro bruta nos supermercados é de 43%

BATATA Produto básico na mesa dos portugueses, subiu 40% no último ano, custando agora, em média, €1,28 por quilo, segundo as contas da Deco/Proteste. São mais €0,37

CEBOLA É o produto em que a ASAE identificou a maior margem de lucro bruta média (52%). O quilo custa agora mais €0,68 do que há um ano, o que representa uma subida de 64%. É um dos maiores aumentos

POLPA DE TOMATE É um dos produtos que mais aumentaram, tendo quase duplicado. Custava €0,79 há um ano e agora o preço médio é de €1,49. É uma subida de 87%

ALFACE O custo dos fertilizantes disparou, levando os produtores a aumentarem em 150% o preço de venda aos supermercados. Uma crise de produção no Reino Unido obrigou o país a ir ao mercado internacional, aumentando a procura e os preços. Segundo a Deco, o preço por quilo saltou de €1,96 para €3,22 (mais 64%)

FARINHA Há um ano, foi um dos primeiros produtos a ficarem mais caros, devido ao impacto da guerra na exportação de cereais. Um quilo já não está longe dos €2 (€1,83), o que se traduz num salto de 31%


ENTREVISTA

Nuno Fazenda

Secretário de Estado do Comércio

O que é que o Governo planeia fazer para travar a subida do preço dos alimentos?

O Governo está a promover uma fiscalização intensa em duas frentes: a especulação, que passa pelo desvio dos preços cobrados nas caixas dos supermercados em relação aos que estão indicados nas prateleiras, e a análise da composição dos preços, confrontando a fatura do preço a que o supermercado comprou [o produto] com o preço a que está a vender ao público, para analisar as margens de lucro brutas. E depois temos de ver o que são as margens de lucro líquidas. Estamos a alargar essa análise a toda a cadeia agroalimentar, até ao produtor, para podermos agir com mais eficácia.

Admitem tabelar o preço de alguns produtos essenciais ou fixar um teto máximo para as margens de lucro?

Depois da fiscalização o Governo tomará as medidas necessárias, e estão todas em aberto. Não há nenhuma que se exclua e podem passar por iniciativas de natureza legislativa.

Até 1984, a lei definia um limite de 15% para a margem de lucro líquida, mas desde então não existe nenhum limite.

Sim, mas quer o Governo quer a Assembleia da República podem desenvolver legislação para reforçar a defesa dos consumidores. É uma hipótese que não excluímos.

A partir de que margem de lucro é que vão agir por considerarem que é ilegítima?

Essa percentagem será definida em função dos dados que recolhermos e da análise que está a ser feita neste momento.

E admitem reduzir o IVA de alguns produtos alimentares?

Em Espanha, o que sabemos é que o [corte do] IVA foi absorvido pelos operadores. Os consumidores não tiveram qualquer benefício.

Como explica que a inflação dos bens alimentares em Portugal seja mais do dobro da inflação geral?

É isso que queremos saber e é por isso que estamos a investigar. Queremos uma explicação cabal por parte de todos os envolvidos na cadeia agroalimentar sobre por que é que isso acontece. Há produtos que aumentaram 40%, 50%, 60% e 70%. Este é um desafio que convoca todos: o Estado, no seu papel de regulador e fiscalizador, mas também os operadores, a nível da sua responsabilidade social.

A ASAE tem as ferramentas necessárias para atuar no caso das margens de lucro?

A ASAE dispõe de meios, mas o Estado tem também outras instituições que podem ser mobilizadas para esta temática. Não deixaremos de mobilizar todos os meios, instituições e recursos humanos para fazer face a este desafio do aumento do preço dos bens alimentares. O Governo está a agir e irá agir ainda com maior intensidade.


12.11.20

Câmara de Lisboa proíbe abertura de hipermercados às 6h30 nos próximos dois fins de semana

 Bruno Contreiras Mateus, Ana Laranjeiro, in Dinheiro Vivo

O presidente da Câmara de Lisboa, na SIC Notícias, esclareceu que tomou a decisão de proibir a abertura de lojas de retalho alimentar às 6h30 por questões de "de equidade e de transparência". Superfícies comerciais podem abrir a partir das 8 horas.

A Câmara de Lisboa proíbe a abertura de hipermercados e supermercados às 6h30, contrariando a cadeia de supermercados da Jerónimo Martins, Pingo Doce, que anunciou a abertura antecipada das suas lojas para os próximos dois fins de semana, que estão sujeitos o recolher obrigatório a partir das 13 horas em 121 concelhos.

"O horário vai ser igual para todos, a partir das oito da manhã." A garantia foi dada por Fernando Medina, presidente da Câmara de Lisboa, em direto na SIC Notícias.

O autarca justificou a decisão por questões de "equidade e de transparência". "Seria incompreensível que, face à natureza de um estabelecimento, por ter o nome de supermercado e não de mercearia, que um pudesse abrir" mais cedo que o outro, disse em declarações na estação de televisão.

Fernando Medina criticou o posicionamento dos estabelecimentos comerciais que, devido ao recolher obrigatório que vai vigorar nos próximos dois fins de semana, deliberaram abrir antecipadamente as lojas, deixando no ar que se trata de oportunismo.

"Acho lamentável que tenha havido um aproveitamento por parte de cadeias comerciais que, num período tão difícil, que exige um esforço de solidariedade e de trabalho comum, para, de uma forma facciosa, tentarem contornar as regras, a coberto de que estão a fazer um melhor serviço aos clientes, tentar ir buscar um pouco mais de negócio ao vizinho do lado", disse.

O presidente da Câmara de Lisboa sublinhou ainda que é "lamentável" este posicionamento, tal como "são lamentáveis práticas de anúncios de promoções especiais de vendas de brinquedos" nestas datas, considerando que é aproveitar "uma situação de dificuldade coletiva".

Questionado sobre se tinha falado com o grupo Jerónimo Martins, o autarca da capital disse que: "Não procurei falar com ninguém porque o anúncio foi unilateral". Além disso, sublinhou que, na visão da Câmara um grupo não pode unilateralmente determinar a hora de abertura dos espaços comerciais. "Mas, para que não restem dúvidas, estabelecemos o mesmo horário" para todas.

Já esta quarta-feira, o presidente da Área Metropolitana do Porto (AMP) pediu que o Governo se pronuncie sobre os horários de abertura das superfícies comerciais nos fins de semana e critica "decisões individuais" que "podem pôr em risco o espírito das regras".

Pingo doce quer abrir às 6h30

Esta quarta-feira, a Jerónimo Martins, dona dos supermercados Pingo Doce, revelou que pretende "abrir a maioria das suas lojas às 6h30m e encerrar às 22h, procurando assim contribuir para evitar a concentração de pessoas nas lojas no período da manhã".

Os supermercados da Sonae, o Continente, vão estar de portas abertas a partir das 8 horas da manhã e o grupo Dia, dono do Minipreço e da Clarel, explicou esta quarta-feira ao Dinheiro Vivo que, "durante esta fase", as lojas das duas cadeias"terão horário flexíveis" de abertura e fecho, "adaptados às localidades" onde estão inseridas. "Como insígnia de proximidade, devemos continuar a servir da melhor maneira possível os nossos clientes, adaptando horários em função das especificidades de cada localidade", frisa fonte oficial.

Já a Mercadona assegurou que não haverá mexidas nem na abertura nem no encerramento das suas lojas. "Vamos manter o horário de funcionamento habitual (9:00h - 21:30h) por forma a conseguirmos assegurar o normal abastecimento aos portugueses, garantindo sempre a segurança e saúde dos nossos colaboradores e clientes", disse fonte oficial da marca ao Dinheiro Vivo.

Os supermercados Lidl vão funcionar, no próximo fim de semana, sem qualquer alteração nos seus horários habituais. "Este fim de semana, os clientes poderão continuar a contar com o Lidl, realizando as suas compras com tranquilidade, ao longo de toda a tarde de sábado e domingo. Não é por isso necessário ir a correr às lojas da parte da manhã, podendo os clientes utilizar este tempo para tratar de assuntos que só poderão ser tratados até as 13h", refere fonte oficial do grupo.

Direitos dos trabalhadores dos supermercados "não estão suspensos"

O sindicato dos trabalhadores de supermercados confirmou hoje à Lusa ter recebido queixas sobre abertura antecipada para as 06:30 no fim de semana e diz que "com ou sem estado de emergência, os direitos dos trabalhadores não estão suspensos".

"Agumas lojas estão a comunicar aos trabalhadores que vão abrir mais cedo", confirmou à Lusa a coordenadora do Sindicato dos Trabalhadores do Comércio, Escritórios e Serviços de Portugal (CESP), Filipa Costa.

O CESP disse, também, estar a "receber denúncias dos trabalhadores do setor retalhista, onde estão a querer alterar dias de descanso e alterar horários". "O que estamos a dizer é que há leis; não se pode agora à última da hora, porque dá mais jeito ao patrão, alterar horários, para poder ganhar mais", defendeu a dirigente sindical, argumentando que estas alterações provocam constrangimentos à organização da vida de cada trabalhado.

6.8.20

Desperdício alimentar. É preciso ajustar logística entre supermercados e instituições

Marta Grosso , Beatriz Lopes (entrevistas), in RR

Portugal desperdiça, em média, um milhão de toneladas de alimentos por ano. Um vídeo divulgado nas redes sociais lançou a polémica e a Renascença foi saber mais, junto da Associação de Empresas de Distribuição e do Banco Alimentar.

Numa altura em que muitas pessoas passam mais dificuldades por causa da pandemia de Covid-19, o desperdício alimentar assume ainda mais relevância. Segundo o diretor-geral da Associação de Empresas de Distribuição (APED), os consumidores são quem mais desperdiça comida.

“Os estudos indicam que o retalho, a distribuição é responsável por 5% do total de desperdício alimentar e os consumidores domésticos são responsáveis por 42%”, indica Gonçalo Lobo Xavier à Renascença.

Em média, Portugal desperdiça um milhão de toneladas de alimentos por ano, muitas delas deitadas ao lixo por super e hipermercados, como mostrou um vídeo que circulou nas redes sociais.

“Não podemos ter na loja produtos em fim de vida que, do ponto de vista legal e do ponto de vista da qualidade alimentar, não cumpram os requisitos necessários”, explica o diretor-geral da APED.

O responsável reconhece que os supermercados são obrigados a adotar práticas muito exigentes para assegurar a qualidade alimentar dos produtos e a saúde dos consumidores, mas admite que “há procutos que não estão, do ponto de vista comercial, disponíveis para serem apresentados em loja e têm a qualidade suficiente para serem consumidos e doados”.

Nesse sentido, garante, são cada vez mais as medidas adotadas pelos supermercados para combater o desperdício alimentar, nomeadamente através da venda de produtos em final de prazo a preços reduzidos ou no aproveitamento dos chamados "legumes feios" para sopas.

Ponte frágil entre supermercados e instituições

Porque não chegam mais “sobras” dos supermercados às famílias portuguesas carenciadas? Gonçalo Lobo Xavier aponta para uma carência no voluntarismo.

“Há cada vez mais voluntários junto das IPSS para levantar os produtos nas nossas instalações. Temos muitos protocolos com estas instituições, mas também verificamos que nem sempre há o voluntarismo das pessoas para fazer chegar, em tempo útil, os produtos às famílias mais necessitadas”, afirma.

São mais de 700 as instituições privadas de solidariedade social (IPSS) que recebem alimentos para entregar a famílias carenciadas. No ano passado, foram entregues mais de 16 mil toneladas de alimentos, o que representa um crescimento de 14 % em relação ao ano anterior.

Então, o que se passa? Isabel Jonet, presidente do Banco Alimentar Contra a Fome, explica que o problema não está na falta de voluntários, mas nos horários de recolha.

“Estamos a falar muitas vezes de produtos perecíveis, como o pão, os bolos, fruta já madura, legumes que já não podem ser vendidos e todos estes produtos requerem um cuidado, seja na sua angariação seja depois na sua distribuição. E a grande questão que existe hoje é sobretudo logística, de horários. As cadeias de distribuição, os supermercados fecham às 21h00, quase todos à mesma hora, há ainda os hipermercados que encerram mais tarde e a essa hora a maior parte das instituições de solidariedade social já está encerrada”, começa por dizer.

Neste sentido, “mesmo havendo boa vontade de voluntários, há aqui um desajuste entre as horas a que se pode recolher os produtos e aquelas em que estes produtos podem ser distribuídos e entregues”.

Nestas declarações à Renascença, Isabel Jonet diz ainda que é preciso ter cuidado com os vídeos que alertam para o desperdício alimentar quando não se conhece a realidade e as dificuldades logísticas no terreno.

Eis o vídeo que correu as redes e lançou a polémica.

5.8.20

Depois do Pingo Doce, vídeo denúncia comida no lixo de super da Auchan

Ana Marcela, in Dinheiro Vivo

Face às dificuldades de recolha das doações sentidas pelas IPSS, Auchan está a reorganizar para garantir que tem sempre instituições disponíveis. 

Depois de terem denunciado num vídeo que comida prestes a terminar o prazo estava a ser atirada para o lixo por um supermercado do Pingo Doce em Lisboa, Hugo Breda e João Relógio, da produtora Swag On, voltaram a fazer uma ronda pelos supermercados da cidade e, mais uma vez, encontraram alimentos em condições para consumo no lixo, desta vez da Auchan. A cadeia assegura que a “redução do desperdício é um compromisso da Auchan Retail Portugal” e que, face às dificuldades das IPSS, geradas pela pandemia, em recolher as doações, estão a reorganizar para garantir ter “sempre associações disponíveis para a doação.”

“Ontem fomos dar mais uma volta (pelos supermercados), chegamos a uma loja do Auchan e é melhor ver o vídeo”, diz Hugo Breda. O vídeo, que só no Instagram já acumula cerca de 39 mil visualizações, mostra pacotes de saladas, vários quilos de legumes e fruta retirados de um contentor de lixo de um supermercado da Auchan, em Lisboa. A situação encontrada, acredita Hugo Breda, “é um pouco mais recorrente do que as grandes superfícies querem achar. Por mais esforços que façam há muito a ser feito. Isto é uma gota no oceano”. 

O número de mensagens que recebeu desde que publicou um vídeo a denunciar o ocorrido num supermercado do Pingo Doce leva-o a acreditar que, efetivamente, há muito a fazer no que se refere ao combate ao desperdício no retalho alimentar. “Recebemos mensagens de muitos colaboradores, e não só do Pingo Doce, a dizer que isto é prática comum diária. Que são obrigados a deitar lixívia para contentores, a trancá-los, a deitar detergente em pó para evitar que vão lá pessoas buscar comida”, descreve. “Não podem levar comida para casa. Temos relatos de pessoas que se despediram de lojas porque não conseguiam compactuar mais com isso. De todas as cadeias”, assegura. 

“Não temos a informação toda do nosso lado, não somos especialistas no assunto, isto foi quase uma bomba que nos explodiu nas mãos por acaso, certamente haverá pessoas que terão respostas ou teses sobre este assunto. Nós só demos um testemunho”, diz João Relógio, referindo que aguardam resposta de algumas organizações que fazem recolha de alimentos, que contactaram depois da avalanche de mensagens que receberam com pedidos de ajuda e oferta de voluntariado. 

“Temos do nosso lado centenas de pessoas a se oferecerem para voluntariado a pedirem mais informações, temos centenas de testemunhos de colaboradores e ex-colaboradores horríveis de se ler, centenas de mensagens de pessoas e famílias à beira do desespero a nos tratarem como salvadores e a nos pedirem comida. E nós não queremos fazer isto, não queremos ir ao lixo, não é digno de ninguém, nem seguro”, diz João Relógio.

“Isto é um acaso na nossas vidas, quisemos foi mostrar com este acaso que este é um problema um bocadinho maior do que pensamos. Este é um assunto sério. Estamos a falar da sobrevivência de pessoas, a comida tem de ser tratada quase como sagrada e não como possível lixo”, lamenta Hugo Breda. 

O que diz a Auchan? 

“A redução do desperdício é um compromisso da Auchan Retail Portugal. Por isso mesmo, procuramos sempre novas soluções que combinem a prevenção de desperdícios alimentares com a conveniência do melhor preço para o consumidor, sem prejuízo da qualidade dos produtos”, reage fonte oficial do retalhista, quando contactada pelo Dinheiro Vivo. 

Um combate ao desperdício que passa por doações, a entidades como a Refood e a Dar i Acordar, “que servem de intermediários com as associações, sendo facilitadores nestas doações de produtos em aproximação de fim de validade”. O ano passado, a cadeia doou 2,4 mil toneladas de produtos alimentares, num total de mais de 2,5 milhões de euros, a cerca de 80 IPSS e 30 associações de apoio a animais. 

Mas, face ao impacto disrutivo da pandemia no circuito, está a reorganizar. “Neste contexto específico de pandemia, verificamos que, em situações pontuais, algumas das IPSS com que temos uma parceria estão a ter dificuldades em recolher os alimentos. Nestes casos específicos, estamos a reorganizarmo-nos no sentido de garantirmos que temos sempre associações disponíveis para a doação”, adianta fonte oficial. 

Recentemente, firmaram uma parceria com a Too Good To Go, a aplicação que combate o desperdício alimentar, para a venda de excedentes alimentares em Magic Boxes. “Disponibilizamos as Magic Boxes em 32 Hiper/Supers e 26 lojas de proximidade (MyAuchan). Este projeto arrancou na Auchan de Almada em novembro de 2019, em teste, e foi desmultiplicado nas restantes, em junho deste ano. Conseguimos já salvar cerca de 8 mil refeições e evitámos a emissão de 20 mil kg CO2 equivalentes”. 

Estão igualmente a promover a venda de produtos de economia circular. “É o caso do bolo de banana, vegan, disponível em todas as lojas de fabrico próprio, que é feito com as bananas demasiado maduras da loja. Temos também disponível a venda de pão do dia anterior, para culinária, com desconto, bem como de pão ralado, feito com pão com mais de dois dias”, refere. 

Para diminuir o número de alimentos desperdiçados, a Auchan tem em marcha o projeto Desperdício Zero. Uma estratégia que passa por “uma oferta comercial que oferece ao cliente a possibilidade de comprar apenas a quantidade que necessita, como a venda avulso, a venda na área self-discount de frutas e legumes com características estéticas que, por norma, retiram estes produtos do circuito comercial, e a venda de produtos cuja data de validade se aproxima do fim a preços de desconto, identificados com uma etiqueta laranja”. Mas, também, por uma “gestão operacional rigorosa (como o controlo da temperatura dos alimentos) para minimizar qualquer desperdício e apostamos na formação e sensibilização dos colaboradores para esta questão.” 

A cadeia tem ainda um “serviço que contratualizamos a uma empresa de valorização de resíduos, que recolhe alguns dos nossos excedentes, sendo estes usados para produzir ração de animais, fertilizantes, entre outros fins.”