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18.10.21

A alimentação, a pobreza e um sistema pervertido

Mariana Álvares, in Público on-line

O sistema alimentar actualmente em vigor não previne o desperdício alimentar, não garante o acesso universal à alimentação e não prevê a sua própria sustentabilidade. Se nós não fizermos nada para o melhorar, ele acabará, inevitavelmente, por sucumbir.

Licenciada em Ciência Política e Relações Internacionais. Actualmente a trabalhar no Instituto Marquês de Valle Flôr na qualidade de Assistente de Projetos. 16 de Outubro de 2021, 9:01

Este fim-de-semana, a 16 e 17 de Outubro, celebram-se o Dia Mundial da Alimentação e o Dia Mundial para a Erradicação da Pobreza, respectivamente. Não deixa de ser curioso que num fim-de-semana se celebrem dois fenómenos simultaneamente correlacionados e contraditórios. Por um lado, o sistema alimentar actual produz alimento em quantidade suficiente para alimentar todas as pessoas do mundo e, desta forma, erradicar a pobreza alimentar; por outro lado, este mesmo sistema alimentar não consegue impedir que um terço dos alimentos produzidos no mundo sejam desperdiçados, nem que aqueles que trabalham na agricultura sejam os mais vulneráveis à insegurança alimentar e a estados de pobreza. Mas, chegados a 2021, não seria de esperar que os conceitos de desperdício alimentar e erradicação da pobreza fossem já obsoletos?

Em 2015, as Nações Unidas lançaram os Objectivos de Desenvolvimento Sustentável e com eles propuseram alcançar globalmente 17 objectivos até 2030. A abrir este leque de objectivos, encontra-se a erradicação da pobreza em todas as suas formas e em todos os seus níveis. Neste sentido, para que, pelo menos, a pobreza alimentar seja erradicada, toda a população mundial deve ter acesso a uma alimentação nutricionalmente saudável. No entanto, a Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura estima que entre 720 e 811 milhões de pessoas no mundo passaram fome em 2020. Mas então o que está a falhar no sistema alimentar mundial?

Primeiramente, as cadeias alimentares mundiais são actualmente responsáveis por 30% das emissões globais de Gases com Efeito de Estufa (GEE), maioritariamente provenientes da emissão de óxido nitroso (N2O) presente nos fertilizantes e de metano (CH4) resultante da produção de gado. Em segundo lugar, as cinco maiores produtoras de carne e leite mundiais emitem a mesma quantidade de GEE que a Exxon, um gigante petrolífero. Em terceiro lugar, a agricultura e produção de gado são o principal motor da desflorestação, sendo que estas actividades foram já responsáveis pela desflorestação de 63% do território da Amazónia.

O sistema alimentar actualmente em vigor é um dos principais contribuidores para as alterações climáticas e é, curiosamente, também dos sistemas que mais será afectado por estas alterações. Esta situação alarmante tem motivado o surgimento de várias campanhas, manifestações e acções que reivindicam uma restruturação do sistema alimentar. A título de exemplo, a campanha Our Food Our Future pretende torná-lo mais justo, digno e sustentável, apontando como alvo as grandes empresas alimentares, os supermercados europeus e os decisores políticos europeus.

Estamos a aproximar-nos de 2030, mas ainda tão longe de alcançar em pleno um único objectivo que seja. Talvez as Nações Unidas os tenham feito propositadamente utópicos, suportados na crença de que os esforços de todos na concretização destes objectivos fosse suficiente para alcançar um mundo melhor. Mas, infelizmente, esse parece não ser o caso. O sistema alimentar actualmente em vigor não previne o desperdício alimentar, não garante o acesso universal à alimentação e não prevê a sua própria sustentabilidade. Se nós não fizermos nada para o melhorar, ele acabará, inevitavelmente, por sucumbir. A única diferença será o estágio de deterioração em que o clima e o planeta se encontrarão.

23.10.20

Projeto português Fruta Feia vence o Prémio LIFE para o Ambiente da União Europeia

Carla Tomás, in Expresso

Pelo seu trabalho inovador e eficaz, o projeto "FLAW4LIFE - espalhar a fruta feia contra o desperdício alimentar", venceu o galardão "Ambiente" do programa "Life" da União Europeia e da votação do público. Em meia dúzia de anos conseguiu evitar que 2.500 toneladas de fruta e legumes fossem para o lixo.

A criação de um mercado alternativo para os frutos e produtos hortícolas considerados “demasiado pequenos, demasiado grandes ou demasiado feios” para venda em super ou hipermercados ou outras lojas valeu à cooperativa Fruta Feia o Prémio LIFE 2020 para o Ambiente, pelo seu papel no combate ao desperdício alimentar. O galardão, entregue esta quarta-feira numa cerimónia inserida na Semana Verde da União Europeia, salienta assim o valor do trabalho desenvolvido por esta cooperativa, que conseguiu evitar o desperdício de mais de 2.500 toneladas de alimentos em meia dúzia de anos.

O projeto, denominado em inglês FLAW4LIFE — cujo acrónimo não é traduzível —, pretende alterar hábitos de consumo e criar um mercado alternativo para a fruta e outros produtos hortícolas que não correspondam em tamanho, forma ou cor aos padrões estabelecidos pelo mercado “normalizado”. A iniciativa contou com um investimento de 574 mil euros (comparticipado em 55% pelo programa LIFE) e conseguiu envolver uma rede internacional de associações que combatem o desperdício alimentar, que avançaram com projetos semelhantes na Holanda, no Brasil e nos EUA.

Nascido em Lisboa em 2013, o projeto Fruta Feia conseguiu criar um mercado alternativo, envolvendo 32 pequenos agricultores e 450 consumidores associados, evitando que cerca de 460 toneladas de fruta e legumes vão parar ao lixo por ano. Atualmente, estende-se a outras cidades (Porto, Gaia, Matosinhos, Amadora e Almada). Envolve 257 agricultores e 6.400 consumidores e permitiu criar 12 postos de trabalho.

Os promotores do projeto garantem que o Fruta Feia foi mais longe do que esperavam, conseguindo evitar menos 14,6 toneladas de resíduos de fruta e vegetais por semana; aumentar a eficiência agrícola, poupando por semana 16.054 m3 de água e 20.975 kWh de energia; e reduzir as emissões de gases de efeito de estufa do transporte e decomposição destes alimentos em 13.021 quilos de CO2 equivalente.

Além do prémio Life Ambiente para Portugal, outros dois projetos europeus receberam o galardão de 2020, nas categorias “Natureza” e “Ação Climática”. Uma equipa da Eslovénia que geriu e monitorizou as populações de urso pardo nos Alpes Dináricos e nos Alpes Orientais-Sul recebeu o prémio Life Natureza 2020; e uma da Hungria, que se dedicou à prevenção de incêndios florestais, reduzindo a sua ocorrência em cerca de um terço e a superfície danificada em perto de 90%, foi galardoada com o Life Ação Climática.

Selecionados entre 15 finalistas, “pelo seu contributo excecional para o progresso a nível ambiental, económico e social”, os premiados foram reconhecidos como "os mais inovadores, inspiradores e eficazes" nos domínios a que se dedicaram.

Artigo atualizado às 13h00 de 22 de outubro com correção de números

1.10.20

Desperdício alimentar? Há cada vez mais famílias a precisar do que não se vende nos supermercados

André Rodrigues, in RR

Assinala-se, nesta terça-feira, o primeiro Dia Internacional da Consciencialização para o Desperdício Alimentar. A Renascença acompanhou a doação de alimentos de uma cadeia de supermercados e falou com as instituições envolvidas.

É em contexto de pandemia que se assinala, pela primeira vez, o dia instituído pelas Nações Unidas de Consciencialização para o Desperdício Alimentar. O desemprego e a perda de rendimentos são das faces mais preocupantes dos tempos que vivemos e que, para muitas famílias, passaram a ser tempos de carência alimentar.

Em Portugal, todos os anos, cada pessoa deita uma média de 100 quilos de alimentos para o lixo – alimentos que, muitas vezes, estão em perfeitas condições para consumo.

Mas, face à crescente realidade de fome e pobreza (sem contar com a necessidade de cuidar dos recursos), algumas cadeias de supermercado e estabelecimentos de restauração decidiram assumir um papel contra o desperdício.

A Renascença acompanhou um desses momentos. Pela porta dos fundos da loja Pingo Doce da Avenida da República, em Gaia, passavam os produtos alimentares em fim de vida nas prateleiras das lojas.

São vítimas da sua própria imagem. Frutas e legumes menos apresentáveis para consumidores exigentes, pacotes de arroz e massa danificados, caixas de cereais rasgadas, garrafões de água sem rótulo e que, por isso, não podem ser vendidos.

Mas o que conta mesmo é o interior. E esse está intacto.

Em meia hora, a Cruz Vermelha chega, carrega uma carrinha e segue viagem.

"Hoje foram 100 quilos", diz Jorge Rodrigues, diretor adjunto de operações da cadeia Pingo Doce para o Norte do país, enquanto exibe a guia dos produtos doados.

É assim todos os dias e há sempre uma instituição que vem recolher aquilo que os consumidores rejeitam, mas ainda tem lugar no prato de quem mais necessita.

"Normalmente, os produtos mais doados são o pão, os iogurtes, charcutaria e as frutas. Por exemplo, uma maçã dentro de um saco que não esteja em tão bom estado, o saco é retirado da loja e é doado na totalidade", diz.

Desta vez, foi a vez da Cruz Vermelha vir à loja buscar produtos doados. Ana Marques trabalha na instituição há 20 anos e, desde o início da pandemia, integra as equipas que recolhem as doações alimentares de espaços de restauração e grandes superfícies.

Ana reconhece que "o manuseamento de alimentos em tempo de pandemia segue regras muito mais apertadas".

Carregar caixas pesadas é um trabalho físico difícil, "principalmente quando temos de ter sempre a máscara colocada, quando temos de entregar os alimentos seguindo as regras de distanciamento, quando temos de desinfetar as mãos com muita frequência".

Segue-se a etapa da verificação dos produtos quando chegam ao destino. E quando a mercadoria é entregue no destino, há uma dupla verificação "para ver se todos os produtos estão dentro dos sacos e se não estão amassados".

Pandemia aumentou 20 vezes os pedidos de ajuda

Antes da Covid-19, a delegação da Cruz Vermelha de Vila Nova de Gaia apoiava entre 30 e 40 famílias, mas a crise sanitária trouxe desemprego e perda de rendimentos.

E o problema não é um exclusivo das classes mais desfavorecidas. Em declarações à Renascença, António Santos Machado, que dirige o núcleo da Cruz Vermelha de Gaia, explica que, em abril e maio, os pedidos de ajuda "dispararam para as 600 famílias” e “mais de metade delas tinha situações económicas e familiares estabilizadas" antes.

A outra preocupação da Cruz Vermelha é a fome crescente na população sem-abrigo.

António Santos Machado recorda que, "no estado de emergência, com a restauração fechada e com as pessoas confinadas em casa, havia pessoas sem abrigo nos seus cantos a passar fome".

Feito o levantamento, a Cruz Vermelha registou um crescimento assinalável de pessoas nessa situação, "sobretudo no centro da cidade", e surgiu a ideia de apoiar os sem-abrigo "com uma refeição reforçada feita, em muitas situações, com matéria prima doada por grandes superfícies comerciais".

Uma ajuda que ainda hoje se mantém.

6.8.20

Desperdício alimentar. É preciso ajustar logística entre supermercados e instituições

Marta Grosso , Beatriz Lopes (entrevistas), in RR

Portugal desperdiça, em média, um milhão de toneladas de alimentos por ano. Um vídeo divulgado nas redes sociais lançou a polémica e a Renascença foi saber mais, junto da Associação de Empresas de Distribuição e do Banco Alimentar.

Numa altura em que muitas pessoas passam mais dificuldades por causa da pandemia de Covid-19, o desperdício alimentar assume ainda mais relevância. Segundo o diretor-geral da Associação de Empresas de Distribuição (APED), os consumidores são quem mais desperdiça comida.

“Os estudos indicam que o retalho, a distribuição é responsável por 5% do total de desperdício alimentar e os consumidores domésticos são responsáveis por 42%”, indica Gonçalo Lobo Xavier à Renascença.

Em média, Portugal desperdiça um milhão de toneladas de alimentos por ano, muitas delas deitadas ao lixo por super e hipermercados, como mostrou um vídeo que circulou nas redes sociais.

“Não podemos ter na loja produtos em fim de vida que, do ponto de vista legal e do ponto de vista da qualidade alimentar, não cumpram os requisitos necessários”, explica o diretor-geral da APED.

O responsável reconhece que os supermercados são obrigados a adotar práticas muito exigentes para assegurar a qualidade alimentar dos produtos e a saúde dos consumidores, mas admite que “há procutos que não estão, do ponto de vista comercial, disponíveis para serem apresentados em loja e têm a qualidade suficiente para serem consumidos e doados”.

Nesse sentido, garante, são cada vez mais as medidas adotadas pelos supermercados para combater o desperdício alimentar, nomeadamente através da venda de produtos em final de prazo a preços reduzidos ou no aproveitamento dos chamados "legumes feios" para sopas.

Ponte frágil entre supermercados e instituições

Porque não chegam mais “sobras” dos supermercados às famílias portuguesas carenciadas? Gonçalo Lobo Xavier aponta para uma carência no voluntarismo.

“Há cada vez mais voluntários junto das IPSS para levantar os produtos nas nossas instalações. Temos muitos protocolos com estas instituições, mas também verificamos que nem sempre há o voluntarismo das pessoas para fazer chegar, em tempo útil, os produtos às famílias mais necessitadas”, afirma.

São mais de 700 as instituições privadas de solidariedade social (IPSS) que recebem alimentos para entregar a famílias carenciadas. No ano passado, foram entregues mais de 16 mil toneladas de alimentos, o que representa um crescimento de 14 % em relação ao ano anterior.

Então, o que se passa? Isabel Jonet, presidente do Banco Alimentar Contra a Fome, explica que o problema não está na falta de voluntários, mas nos horários de recolha.

“Estamos a falar muitas vezes de produtos perecíveis, como o pão, os bolos, fruta já madura, legumes que já não podem ser vendidos e todos estes produtos requerem um cuidado, seja na sua angariação seja depois na sua distribuição. E a grande questão que existe hoje é sobretudo logística, de horários. As cadeias de distribuição, os supermercados fecham às 21h00, quase todos à mesma hora, há ainda os hipermercados que encerram mais tarde e a essa hora a maior parte das instituições de solidariedade social já está encerrada”, começa por dizer.

Neste sentido, “mesmo havendo boa vontade de voluntários, há aqui um desajuste entre as horas a que se pode recolher os produtos e aquelas em que estes produtos podem ser distribuídos e entregues”.

Nestas declarações à Renascença, Isabel Jonet diz ainda que é preciso ter cuidado com os vídeos que alertam para o desperdício alimentar quando não se conhece a realidade e as dificuldades logísticas no terreno.

Eis o vídeo que correu as redes e lançou a polémica.

5.8.20

Depois do Pingo Doce, vídeo denúncia comida no lixo de super da Auchan

Ana Marcela, in Dinheiro Vivo

Face às dificuldades de recolha das doações sentidas pelas IPSS, Auchan está a reorganizar para garantir que tem sempre instituições disponíveis. 

Depois de terem denunciado num vídeo que comida prestes a terminar o prazo estava a ser atirada para o lixo por um supermercado do Pingo Doce em Lisboa, Hugo Breda e João Relógio, da produtora Swag On, voltaram a fazer uma ronda pelos supermercados da cidade e, mais uma vez, encontraram alimentos em condições para consumo no lixo, desta vez da Auchan. A cadeia assegura que a “redução do desperdício é um compromisso da Auchan Retail Portugal” e que, face às dificuldades das IPSS, geradas pela pandemia, em recolher as doações, estão a reorganizar para garantir ter “sempre associações disponíveis para a doação.”

“Ontem fomos dar mais uma volta (pelos supermercados), chegamos a uma loja do Auchan e é melhor ver o vídeo”, diz Hugo Breda. O vídeo, que só no Instagram já acumula cerca de 39 mil visualizações, mostra pacotes de saladas, vários quilos de legumes e fruta retirados de um contentor de lixo de um supermercado da Auchan, em Lisboa. A situação encontrada, acredita Hugo Breda, “é um pouco mais recorrente do que as grandes superfícies querem achar. Por mais esforços que façam há muito a ser feito. Isto é uma gota no oceano”. 

O número de mensagens que recebeu desde que publicou um vídeo a denunciar o ocorrido num supermercado do Pingo Doce leva-o a acreditar que, efetivamente, há muito a fazer no que se refere ao combate ao desperdício no retalho alimentar. “Recebemos mensagens de muitos colaboradores, e não só do Pingo Doce, a dizer que isto é prática comum diária. Que são obrigados a deitar lixívia para contentores, a trancá-los, a deitar detergente em pó para evitar que vão lá pessoas buscar comida”, descreve. “Não podem levar comida para casa. Temos relatos de pessoas que se despediram de lojas porque não conseguiam compactuar mais com isso. De todas as cadeias”, assegura. 

“Não temos a informação toda do nosso lado, não somos especialistas no assunto, isto foi quase uma bomba que nos explodiu nas mãos por acaso, certamente haverá pessoas que terão respostas ou teses sobre este assunto. Nós só demos um testemunho”, diz João Relógio, referindo que aguardam resposta de algumas organizações que fazem recolha de alimentos, que contactaram depois da avalanche de mensagens que receberam com pedidos de ajuda e oferta de voluntariado. 

“Temos do nosso lado centenas de pessoas a se oferecerem para voluntariado a pedirem mais informações, temos centenas de testemunhos de colaboradores e ex-colaboradores horríveis de se ler, centenas de mensagens de pessoas e famílias à beira do desespero a nos tratarem como salvadores e a nos pedirem comida. E nós não queremos fazer isto, não queremos ir ao lixo, não é digno de ninguém, nem seguro”, diz João Relógio.

“Isto é um acaso na nossas vidas, quisemos foi mostrar com este acaso que este é um problema um bocadinho maior do que pensamos. Este é um assunto sério. Estamos a falar da sobrevivência de pessoas, a comida tem de ser tratada quase como sagrada e não como possível lixo”, lamenta Hugo Breda. 

O que diz a Auchan? 

“A redução do desperdício é um compromisso da Auchan Retail Portugal. Por isso mesmo, procuramos sempre novas soluções que combinem a prevenção de desperdícios alimentares com a conveniência do melhor preço para o consumidor, sem prejuízo da qualidade dos produtos”, reage fonte oficial do retalhista, quando contactada pelo Dinheiro Vivo. 

Um combate ao desperdício que passa por doações, a entidades como a Refood e a Dar i Acordar, “que servem de intermediários com as associações, sendo facilitadores nestas doações de produtos em aproximação de fim de validade”. O ano passado, a cadeia doou 2,4 mil toneladas de produtos alimentares, num total de mais de 2,5 milhões de euros, a cerca de 80 IPSS e 30 associações de apoio a animais. 

Mas, face ao impacto disrutivo da pandemia no circuito, está a reorganizar. “Neste contexto específico de pandemia, verificamos que, em situações pontuais, algumas das IPSS com que temos uma parceria estão a ter dificuldades em recolher os alimentos. Nestes casos específicos, estamos a reorganizarmo-nos no sentido de garantirmos que temos sempre associações disponíveis para a doação”, adianta fonte oficial. 

Recentemente, firmaram uma parceria com a Too Good To Go, a aplicação que combate o desperdício alimentar, para a venda de excedentes alimentares em Magic Boxes. “Disponibilizamos as Magic Boxes em 32 Hiper/Supers e 26 lojas de proximidade (MyAuchan). Este projeto arrancou na Auchan de Almada em novembro de 2019, em teste, e foi desmultiplicado nas restantes, em junho deste ano. Conseguimos já salvar cerca de 8 mil refeições e evitámos a emissão de 20 mil kg CO2 equivalentes”. 

Estão igualmente a promover a venda de produtos de economia circular. “É o caso do bolo de banana, vegan, disponível em todas as lojas de fabrico próprio, que é feito com as bananas demasiado maduras da loja. Temos também disponível a venda de pão do dia anterior, para culinária, com desconto, bem como de pão ralado, feito com pão com mais de dois dias”, refere. 

Para diminuir o número de alimentos desperdiçados, a Auchan tem em marcha o projeto Desperdício Zero. Uma estratégia que passa por “uma oferta comercial que oferece ao cliente a possibilidade de comprar apenas a quantidade que necessita, como a venda avulso, a venda na área self-discount de frutas e legumes com características estéticas que, por norma, retiram estes produtos do circuito comercial, e a venda de produtos cuja data de validade se aproxima do fim a preços de desconto, identificados com uma etiqueta laranja”. Mas, também, por uma “gestão operacional rigorosa (como o controlo da temperatura dos alimentos) para minimizar qualquer desperdício e apostamos na formação e sensibilização dos colaboradores para esta questão.” 

A cadeia tem ainda um “serviço que contratualizamos a uma empresa de valorização de resíduos, que recolhe alguns dos nossos excedentes, sendo estes usados para produzir ração de animais, fertilizantes, entre outros fins.”

15.1.20

Desperdício alimentar anual daria para alimentar dois mil milhões de pessoas

André Rodrigues , Paulo Teixeira, RR

A Phenix App, permite comprar alimentos considerados excedentes de produção de restaurantes, padarias, pastelarias, mercearias, frutarias ou floristas. Tudo isto a preços reduzidos
Todos os anos, o mundo desperdiça um terço da produção alimentar global, ou seja, um terço da comida que se produz está condenada ao lixo.

Se este desperdício fosse aproveitado, seria suficiente para alimentar dois mil milhões de pessoas. Daria para dar de comer duas vezes a todos aqueles e aquelas que passam fome em todo o mundo.

Este é um problema tão grande e tão complexo que, obviamente, não se resolve de um dia para o outro. Mas há esperança para o futuro e a resposta pode estar na tecnologia.


A Phenix App, disponível para Android e iOS, foi criada há cinco anos em França e encontra-se disponível em Portugal desde 2016.
Esta aplicação permite comprar alimentos considerados excedentes de produção de restaurantes, padarias, pastelarias, mercearias, frutarias ou floristas. Tudo isto a preços reduzidos, e já disponível em Lisboa, Cascais e, dentro de pouco tempo, também no Porto.

Portugal tem 10,3 milhões de habitantes e deita ao lixo um milhão de alimentos que correspondem a 50 mil refeições diárias, equivalentes a um sexto da produção alimentar em Portugal.
Deixe-se impressionar pelos números porque eles merecem reflexão. 17% da produção alimentar correspondem a 50 mil refeições diárias desperdiçadas por 10,3 milhões de pessoas.

Mas enquanto esses 10,3 milhões de pessoas desperdiçam 50 mil refeições diárias, o mundo inteiro deita ao lixo 1,3 mil milhões de toneladas de comida. Não por ano, não por mês, nem por semana. Por dia.

1,3 mil milhões de toneladas de alimentos que dariam de comer a dois mil milhões de pessoas. Daria para alimentar 2 vezes os mil milhões de seres humanos que passam fome em todo o mundo.
Desde 2014, a Phenix salvou mais de 60 milhões de refeições e 150 toneladas de produtos não alimentares do caixote do lixo em toda a Europa.

Desde 2016, em Portugal, esta aplicação poupou 900 mil refeições e cerca de 100 toneladas de produtos não alimentares, evitando fossem emitidas mais de duas mil toneladas de dióxido de carbono para a atmosfera.

2.9.19

Um restaurante, um frigorífico e dois portugueses na Finlândia contra o desperdício alimentar

in Públio on-line

Quando chegou à Finlândia, Tiago Pinto ia buscar comida ao frigorífico comunitário onde agora ajuda a reduzir o desperdício alimentar. Também em Helsínquia, Carlos Henriques abriu o Nolla, um restaurante sem caixote do lixo. “Num mundo ideal, deveríamos evitar o lixo de ser produzido.”

Carlos e Tiago estão emigrados em Helsínquia, na Finlândia, e além da morada partilham um objectivo: o combate ao desperdício alimentar. Enquanto o mangualdense gere um restaurante sem caixotes do lixo, o segundo, portuense, é voluntário num frigorífico comunitário.

Numa altura em que a presidência da União Europeia (UE) é assumida pela Finlândia, o tema da sustentabilidade ambiental foi colocado na agenda comunitária, com Helsínquia a querer uma região mais ‘verde’, mas os esforços do país – e destes emigrantes – não são de agora.

No Nolla, o restaurante de Carlos Henriques que abriu portas em Helsínquia no início do ano passado, a meta de desperdício zero é seguida à letra, não fosse este o segundo restaurante no mundo com esta designação (após um primeiro que surgiu no Reino Unido há quatro anos, o Silo). As fardas dos funcionários foram feitas de antigas vestimentas de hospitais, os copos surgiram de garrafas de vidro reutilizadas, a cozinha não tem caixotes do lixo, o óleo e as bebidas destiladas chegam ao espaço em barris, os alimentos vêm todos de produtores locais e a cerveja é artesanal e ali produzida. Proibidas são as embalagens, os sacos a vácuo e a película aderente.

“Foi preciso repensar a estrutura toda de um restaurante”, confessa à agência Lusa Carlos Henrique, 32 anos, natural de Mangualde, que mora há sete em Helsínquia. Quase em tom de anedota, Carlos conta a história de um português (ele), um sérvio e um espanhol que, um dia, trabalhavam como chefs de cozinha num restaurante de luxo e começaram a idealizar uma cozinha sem desperdício orgânico, já lá vão alguns anos. Depois de um ano e meio de pesquisa e um investimento de 350 mil euros (80 mil dos quais conseguidos através de financiamento comunitário) abriu o Nolla, servindo hoje “comida mediterrânica com ingredientes finlandeses”, em menus que rondam os 60 euros por pessoa. “Não temos caixotes do lixo na cozinha porque esse seria um ponto fácil de saída […]. Todos os chefs têm uma pequena caixa que é transparente – e pode ser vista e controlada por todos – onde põem o próprio desperdício e isto é muito importante”, vinca Carlos.

O jovem português explica que “a ideia do Nolla não é que se tenha de usar tudo, é que se tenha a consciência do que não se está a usar”, já que, no sector da restauração, “o desperdício normalmente é normalizado e aqui não é”. “Ainda há muito desperdício na área da restauração e quem disser o contrário está a mentir”, atesta, agora em tom sério. O compostor do restaurante consegue processar 85 quilos de compostagem num só dia. Recentemente, descobriram que, cozendo cascas de abóbora por alguns dias, conseguem uma textura semelhante à do alho fermentado, que podem usar para criar molhos. “Num mundo ideal, deveríamos evitar o lixo de ser produzido e essa é a mensagem do Nolla", adianta.

Também para evitar que a comida tenha este fim surgiu o Keru FoodSharin, um frigorífico comunitário instalado numa colectividade perto do centro de Helsínquia que enche barrigas a pensar no ambiente. O investigador e artista visual portuense Tiago Martins Pinto, de 34 anos, chegou à capital finlandesa em Setembro do ano passado, na mesma altura em que o Keru arrancou. E se hoje é a vontade de acabar com o desperdício alimentar que o faz ser um dos 60 “Claro que isto depois também abrange outras áreas, como o cariz social, o significado de pertença para os nossos voluntários, o sentimento de comunidade e [a possibilidade] de se conhecer novas pessoas, o desenvolvimento sustentável e a educação ambiental e ainda a partilha de experiências culturais”, elenca.

Leis que proíbem sacos de plástico para fruta e louça de plástico publicadas esta segunda-feira
O Keru recolhe cerca de 100 quilos de comida diariamente, que provêm de pequenos supermercados da zona e é transportada maioritariamente por bicicleta, — ainda que no Inverno isso seja impossível por a comida congelar. À disposição das mais de 20 pessoas que ali vão buscar comida com frequência estão, normalmente, carne, peixe, lacticínios, pão, fruta e vegetais. Desde o início do projecto até agora foram mais de dez mil os utilizadores daquele frigorífico comunitário e quase 20 mil as toneladas de alimentos reaproveitados.


Enquanto a maior parte das pessoas que ali vão buscar comida são finlandeses, entre estudantes e idosos, os voluntários são quase todos estrangeiros, dos quais fazem parte alguns refugiados e alunos internacionais. Tiago não conhece e afirma não querer saber quem são estas pessoas — o projecto prevê o seu anonimato, apenas tendo de indicar o peso da comida que levam consigo — mas espera conseguir mudar bocadinho a sua vida e a sua visão. “Cria-se aqui uma consciência nas pessoas que fazem voluntariado e nas pessoas que vêm cá. De, por exemplo, quando se vai às compras, ir-se às coisas em promoção, à fruta mais tocada que também está boa ou até mesmo em reduzir o consumo de novos produtos e vires cá levar estes, que também estão bons, e evitas que vão para uma lixeira produzir desperdício”, realça.

11.12.17

Re-Food Coimbra celebra dois anos de atividade com vontade de crescer

por Notícias de Coimbra

Refood Coimbra celebra dois O núcleo de Coimbra da Re-Food, que celebra dois anos de atividade e assume vontade de crescer, anunciou hoje que necessita de um centro de operações e de mais voluntários para alargar a sua ação.

A organização sem fins lucrativos Re-Food, que combate os desperdícios alimentares, instalou-se em Coimbra no final de 2015 e, segundo os seus responsáveis, “desde então tem combatido o desperdício alimentar distribuindo excedentes por uma rede com cerca de 120 beneficiários”.

Até ao momento, a instituição distribuiu “mais de 4.000 pães e 3.500 bolos”, pois tem atuado essencialmente através da campanha “Pão e bolos”.

No entanto, segundo os gestores do Núcleo da Re-food Coimbra, “para estender o tipo de aproveitamento de excedentes é necessário encontrar instalações para um centro de operações e alargar o corpo de voluntários”.

O projeto funciona de forma regular e os seus parceiros são vários estabelecimentos da cidade relacionados com a restauração, que entregam excedentes alimentares para serem distribuídos diretamente por uma rede de beneficiários constituída por instituições de solidariedade social.

“Até ao momento, este projeto tem envolvido 14 fontes de alimentos e cerca de 120 beneficiários. Durante 2016, resgataram-se 1.590 pães e 1.278 bolos, em 2017 foram já distribuídos 2.673 pães e 2.391 bolos”, é referido numa nota hoje enviada à agência Lusa.
O projeto “Pão e bolos” tem sido “secundado por recolhas extraordinárias de alimentos excedentes, que tantas vezes surgem após jantares, festas ou cerimónias pontuais”, refere a fonte.

Segundo a Re-Food, todo o trabalho desenvolvido em Coimbra é realizado por voluntários “com sentido de cidadania, motivação e vontade de dedicar duas horas semanais ao combate ao desperdício alimentar”.

“O sucesso desta missão depende destas pessoas e, portanto, o convite à comunidade para integrar este projeto em regime de voluntariado mantém-se”, salientam os responsáveis.

No entanto, para alargar o leque de ação e conseguir que o aproveitamento de excedentes chegue a um maior número de pessoas, a Re-Food Coimbra lembra que tem procurado um espaço que possa servir como centro de operações.
“À semelhança do que já acontece noutros núcleos da Re-Food, este espaço permitirá a logística para tratar e manipular mais excedentes e, desta forma, uma redistribuição mais abrangente pelos beneficiários”, explica na nota.

A instituição procura um espaço – “no coração de Coimbra, próximo dos voluntários e dos parceiros, mas sobretudo próximo dos beneficiários” – que tenha cerca de 100 metros quadrados de área, facilidade de acesso e que permita o funcionamento de máquinas industriais para a preparação, acondicionamento e armazenamento das refeições.

A Re-Food é uma organização sem fins lucrativos, criada por Hunter Halder, em 2011, com o objetivo de reaproveitar excedentes alimentares e ajudar a alimentar quem mais precisa.

4.9.17

Um supermercado de oportunidades para poupar e combater o desperdício

Sérgio Pires, in Diário de Notícias

A Good After é uma plataforma de compras única na Península Ibérica: vende os produtos que não cabem nas prateleiras dos retalhistas devido a alterações na embalagem ou à aproximação da data de consumo preferencial
Massas, champôs, azeite, bolachas, um carrinho de compras num corredor, encomendas devidamente embaladas noutro. No pequeno armazém do Hipercentro, parque empresarial na Areosa, Porto, encontra-se desde mercearia a produtos de higiene ou de limpeza.

Será este um supermercado? Sim e não. A Good After está no retalho, mas joga num campeonato diferente do dos grandes players do setor.

"Somos um supermercado de oportunidades", explica ao DN Chantal Gispert, catalã de 41 anos que vive no Porto há quase vinte "por culpa do amor". Juntamente com um grupo de sócios, criou a única plataforma de compras na Península Ibérica a adotar um conceito que já existe nos Estados Unidos e no Norte da Europa: "Um dos sócios é jurista e verificou a viabilidade da nossa ideia face à lei portuguesa. Durante um ano estivemos a preparar o arranque da empresa, tivemos a aprovação da Direção-Geral de Alimentação e Veterinária, consultámos a ASAE, fizemos tudo o que devíamos fazer antes e em junho de 2016 abrimos portas."

Na Good After - o nome surgiu por oposição à expressão inglesa "Best Before", indicação de consumo preferencial utilizada nos produtos - vendem-se com um desconto que vai dos 20% aos 70% artigos que não têm lugar nas prateleiras dos supermercados convencionais: por terem mudado o grafismo ou o tamanho da embalagem, alguns, mas sobretudo aqueles cujo prazo de consumo preferencial está a expirar - há que sublinhar as diferenças entre os produtos que têm "prazo preferencial de consumo", que podem continuar a ser consumidos depois dessa data sem ser colocada em risco a segurança alimentar, e aqueles que têm uma "data-limite", os frescos, que não são vendidos aqui.
"Os lotes que nos chegam às mãos [vendidos pelas marcas à plataforma] não estão disponíveis nos pontos habituais por algum motivo. Tudo isto são ineficiências de stock (aponta em volta). Os clientes que nos procuram têm por base um consumo responsável, além de pouparem querem combater o desperdício", explica Chantal, percorrendo os corredores até apontar um exemplo concreto: "Estas bolachas têm uma embalagem natalícia, mas nós vendemo-las fora do Natal... Estão ótimas, mas não podem ser comercializadas fora da época numa superfície comercial por causa da embalagem, ou seja, o fornecedor teria de deitá-las ao lixo porque os custos logísticos de as reembalar são demasiado elevados."
Mais de 20 mil clientes registados
O crescimento da Good After faz-se conquistando aos poucos a confiança dos clientes, mas também dos fornecedores, cativando cada vez mais marcas para colaborarem nesta nova forma de consumo sustentável (ver outros exemplos nos destaques).

"A fatura detalha o motivo pelo qual se está a comprar a um preço mais baixo: é um procedimento importante para o cliente não ser levado ao engano e uma forma de a marca não se ver diminuída. No fundo, é como ir aos saldos. Apelamos à responsabilidade social que as marcas têm no combate ao desperdício, porque tudo isto iria parar ao lixo", diz a responsável.

Em pouco mais de um ano, a plataforma chegou aos 20 mil consumidores registados no site e mais de 30 mil seguidores no Facebook. Há "fregueses" em Portugal, a maioria na Grande Lisboa, mas também em Espanha.
O consumidor pode levantar a sua encomenda no armazém no próprio dia (caso a faça até às 13.00) ou em alternativa recebê-la na morada indicada ou levantá-la nos CTT ou numa loja Phone House (no dia seguinte).

Sara Parente, 46 anos, vive no Porto, é uma cliente habitual e pela proximidade aproveita para levantar as suas compras no armazém. "Assim poupo nos portes de envio e nos custos com a embalagem. A minha motivação é economizar e também combater o desperdício. Sou muito criteriosa no que compro, até porque tenho de gerir o orçamento de um agregado familiar com dois filhos, que passam a quatro a cada 15 dias. Comparo sempre os preços e, por exemplo, um gel de banho que custa quatro ou cinco euros num supermercado habitual só com uma promoção grande é que atinge os 2,5 euros, o preço habitual na Good After, onde agora faço cerca de 40% das compras mensais", diz ao DN esta profissional da área da assessoria, salientando que compra através da plataforma produtos de higiene e sobretudo bens alimentares.

"O que vendemos mais é mercearia: atum, polpa de tomate...", revela Chantal Gispert, explicando que a percentagem de desconto aplicada aos produtos está diretamente relacionada com o número de dias que lhe restam: "À medida que a data de consumo preferencial se vai aproximando, o desconto aumenta, até um máximo de 70%."

Apesar do crescimento, o sonho de abrir uma loja convencional não está previsto para breve. "Começámos por esta plataforma porque é um conceito novo e achámos que era a maneira mais prudente de testar o mercado. Uma loja física requer um investimento bem maior, mas gostaríamos de vir a dar esse passo. Para já, o nosso principal objetivo é ter sempre arroz, massa, etc. para que os meus clientes consigam comprar aqui sempre que quiserem um cabaz razoável, independentemente das marcas. Aliás, se tivéssemos sempre aqui os mesmos produtos seria um sinal de que eles não estavam a funcionar no mercado. Aqui dependemos das ineficiências de stock deste ou daquele fornecedor. É por isso é que digo: somos um supermercado de oportunidades", conclui a responsável pela Good After.

10.2.17

«O mundo não necessita de mais comida»

Texto F.P.,in Agência Ecclesia

Organização Mãos Unidas lança campanha de sensibilização para o desperdício alimentar e para a luta contra a fome, um flagelo que afeta 800 milhões de pessoas em todo o mundo

«O mundo não necessita de mais comida. Necessita de gente comprometida». Esta é a frase chave da nova campanha da organização Mãos Unidas, que apela a um compromisso para lutar contra o flagelo da fome e combater os «dados vergonhosos» que dão conta da existência de 800 milhões de pessoas que não têm o que comer.

Segundo Clara Pardo, presidente da organização, «uma altíssima percentagem da população mundial – uma em cada nove pessoas – sofre de fome», o que exige «vozes, denuncias, ações e mudanças de atitude e de estilos de vida». «Esta terrível realidade afeta 800 milhões de pessoas e condiciona as suas vidas presentes e futuras, quando um terço dos alimentos que se produzem acaba no lixo», sublinha.

Com esta campanha, a Mãos Unidas pretende também conseguir que «o Direito Humano à Alimentação, reconhecido e admitido como fundamental por grande parte da comunidade internacional e lamentavelmente ignorado pela maioria, deixe de ser uma ilusão para tantas pessoas».

«A fome não é nem uma fatalidade, nem um fruto do destino; a fome é a consequência inaceitável de um mundo organizado de forma a que os interesses económicos prevaleçam sobre os interesses das pessoas», acrescenta Clara Pardo, denunciando «a total indiferença» do mundo perante este flagelo.

18.7.16

Toneladas de frutos e legumes vão para o lixo porque são feios

Joana Capucho, in Diário de Notícias

Agricultores portugueses dizem que quase 30% da produção anual não chega a ser comercializada porque apresenta defeitos na cor, no formato ou no tamanho

O "culto da perfeição" está a fazer que os americanos deitem para o lixo quase tanta comida como a que consomem. Por apresentarem pequenos defeitos ou escaparem aos padrões definidos, muitas toneladas de alimentos não chegam aos supermercados e, em muitos casos, ficam a apodrecer nos campos. Por cá, é estimado que os portugueses desperdicem um milhão de toneladas de alimentos por ano, o equivalente a 17% do que é produzido. Tal como nos EUA, muitas toneladas de vegetais e fruta são descartadas por não serem "perfeitos".

Uma grande quantidade de produtos frescos produzidos nos EUA é deixada a apodrecer nos campos, usada para alimentar gado ou depositada nos aterros, devido a padrões de beleza "irrealistas e inflexíveis." A informação é avançada pelo jornal The Guardian, que entrevistou agricultores, distribuidores e outras pessoas ligadas ao setor alimentar.

De acordo com as estatísticas oficiais do governo norte-americano, cerca de 60 milhões de toneladas de alimentos são desperdiçadas anualmente, o que corresponde a um terço da produção. Mas o novo estudo aponta para uma realidade mais dramática: metade do que é produzido não chega aos consumidores. Isto não só aumenta a fome e a pobreza, como tem graves consequências ambientais.

Em Portugal, é estimado que um milhão de toneladas de alimentos seja deitado para o lixo anualmente. "Seguramente, entre 20 e 30% do que é produzido pelos agricultores não é comercializado", adiantou ao DN João Dinis, dirigente da Confederação Nacional de Agricultores. Em causa estão pequenos defeitos na cor, no calibre ou no formato. "As pessoas têm de se desfazer deles: ou dão ao gado ou vão para o lixo", explicou o agricultor. Mas, se não houver escoamento, há quem prefira não colher, para não ter mais custos. "Há situações em que o agricultor fica a chorar a olhar para o que não consegue escoar", explicou.

Apesar de não atingir os padrões de consumo, João Dinis ressalva que "há muita produção nacional que, não tendo a calibragem exigida, é de grande qualidade alimentar". E o custo da produção recai sobre tudo o que é produzido, pelo que há um grande prejuízo para os agricultores.

Ao DN, Isabel Jonet, presidente do Banco Alimentar contra a Fome, explica que "na agricultura, não se pode falar em desperdício, uma vez que, quando fica no solo, há reposição de matéria orgânica e, noutros casos, a produção é usada para alimentar os animais". Só quando vão para aterros é que a fruta e os legumes são considerados desperdício. "Se não forem, será excedente." Não se sabe que percentagem de produção é deixada nos campos, mas Isabel Jonet lembra que "há muitos incentivos para a doação de hortofrutícolas. Os agricultores são pagos para não destruírem o excedente e o doarem aos bancos alimentares".

Anualmente, o Banco Alimentar distribui cerca de 30 mil toneladas de alimentos. "75% são excedentes alimentares, que seriam destruídos, com impacto ambiental e custos associados", adianta.

Para combater o problema, os americanos estão a criar serviços de venda de produtos que fogem aos padrões de beleza, à semelhança do que acontece em Portugal com o projeto Fruta Feia, que desde 2013 evitou que 300 toneladas de fruta e legumes fossem descartados. Joana Baptista, membro da cooperativa, explicou ao DN que compram aos agricultores "produtos que têm um defeito estético - problemas na forma, cor, tamanho - mas que têm a mesma qualidade", para serem colocados em cestas e vendidos nos pontos de distribuição. As mais pequenas (três a quatro quilos) custam 3,5 euros e têm sete variedades de produtos, as maiores (seis a oito quilos) têm oito variedades e custam sete euros.

"Os olhos também comem e a estética é apelativa, mas as pessoas que consomem Fruta Feia ligam à qualidade e não à aparência", diz Joana Batista, acrescentando que o movimento trabalha para "inverter a tendência" do culto da perfeição.

Nos últimos anos, várias organizações mostraram-se empenhadas em reduzir a quantidade de alimentos que vai para o lixo ao longo de toda a cadeia. Ana Isabel Morais, diretora-geral da Associação Portuguesa de Empresas de Distribuição, diz que "há muito que o setor desenvolveu políticas, ações e parcerias para encaminhar para reutilização o que pode resultar em desperdício". Entre outras medidas, procura fazer "uma gestão mais eficiente de stocks, embalagens adequadas ao perfil do consumidor, transformação de excedentes, formação de colaboradores". Em Portugal, a Assembleia da República declarou 2016 como Ano Nacional de Combate ao Desperdício Alimentar, tendo sido lançadas várias recomendações nesse sentido.

16.6.16

Criado supermercado com produtos perto do fim do prazo

in Jornal de Notícias

Têm "todas as condições de segurança" e descontos até 70%.

Os consumidores portugueses (e espanhóis) têm a partir desta quinta-feira um supermercado com produtos perto ou fora da data preferencial de consumo.

A iniciativa, no ano em que se assinala o combate ao desperdício alimentar, surgiu de uma empresa portuguesa e é destinada a portugueses e espanhóis. Tem também como objetivo sensibilizar os consumidores para a questão dos prazos de validade dos produtos, porque "consumir até" não é o mesmo que "consumir de preferência antes de", dizem os responsáveis.

O supermercado, em www.goodafter.com, vende os produtos através da sua página na internet e garante a entrega (via correios) em menos de 24 horas. E os produtos são fornecidos pelos próprios fabricantes, como explicou à Lusa uma das fundadoras responsáveis pelo supermercado online, a gestora Chantal de Gispert.

O supermercado está repleto de "marcas conhecidas", porque "precisamos que o consumidor acredite na ideia", e não vendemos frescos e pretendemos ter tudo, mas sim "oportunidades que vão surgindo", produtos alimentares ou não, em fim de linha, obsoletos ou descontinuados, acrescentou.

O objetivo é facultar uma nova vida a todos os produtos que já não têm lugar nos seus canais habituais e cujo destino seria muito possivelmente o lixo, explica a empresa, que tem a plataforma logística em Vila do Conde, norte de Portugal, e tem a aprovação da Direção Geral de Alimentação e Veterinária (DGAV) e é do conhecimento da Autoridade de Segurança Alimentar e Económica (ASAE).

"Nascemos com três ideias, a pensar numa nova vida de produtos moribundos: poupança das famílias, combate ao desperdício, alimentar e não só, e educar sobre os prazos. Porque deitar fora comida é pecado", diz Chantal de Gispert.

A responsável garante que o supermercado online terá cada vez mais produtos e admite que no futuro possam existir mesmo espaços físicos, explicando que a ideia já há muito tempo foi posta em prática em países do norte da Europa e com sucesso.

Uma coisa é certa, assegura, nenhum produto à venda estará impróprio para consumir, ainda que possa ter passado o prazo "de preferência", e os preços são muito mais baixos. Porque, diz, não se comercializarão produtos fora de prazo, mas sim produtos que podem estar fora da data de consumo preferencial.

Numa volta pelo supermercado encontram-se por exemplo gel de limpeza com 40% de desconto, bolachas e sumos ou champôs a metade do preço, frutos secos ou alimentos para animais 70% mais baratos.

"Fala-se muito de economia circular e faz todo o sentido. O que não faz sentido é deitar fora produtos que podem ter um ciclo económico", refere a responsável.

Leia mais: Criado supermercado com produtos perto do fim do prazo http://www.jn.pt/economia/interior/criado-supermercado-com-produtos-perto-do-fim-do-prazo-5220470.html#ixzz4BjbaqL00
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26.4.16

Desperdício alimentar. Sobras e produtos quase fora do prazo salvam alimentação dos portugueses

SÓNIA PERES PINTO, in "Jornal I"

Os consumidores estão cada vez mais sensibilizados e grandes superfícies não ficam alheias a esta questão. Só no ano passado, o Continente distribuiu 1,1 milhões de refeições

Todos os anos são desperdiçados cerca de 1,3 milhões de toneladas de alimentos, com custos na ordem dos 600 milhões de euros, o que dava para alimentar os mais de 925 milhões de pessoas que passam fome. Portugal não fica alheio a esta realidade mas, ainda assim, apresenta valores ligeiramente superiores em relação a outros países no que diz respeito ao combate do desperdício alimentar.

De acordo com os últimos dados disponíveis, o nosso país encontra-se a um nível de desperdício de 17%, abaixo da média mundial, que está fixada nos 35%. E a par dos milhões de euros que são desperdiçados é preciso contar ainda que estas más práticas estão a contribuir para aumentar as emissões de gases de efeito de estufa e para diminuir as reservas de água potável e, consequentemente, a biodiversidade no planeta.

O setor da distribuição não fica alheio a esta tendência e tem vindo a apostar em projetos para contornar esta situação. Incentivar boas práticas na produção dos alimentos é um desses exemplos, mas não fica por aqui. Doações a instituições como Re-Food e DariAcordar – Movimento Zero Desperdício, a reutilização de produtos – salvaguardando a qualidade, higiene e segurança alimentar, com chefes a ensinar a cozinhar com “restos”, venda de fruta feia e áreas em loja com descontos em produtos em final de prazo de validade – e a sensibilização para boas práticas em casa dos portugueses são outras técnicas usadas pelas grandes superfícies.

“Todas estas técnicas já permitiram doar mais 1,1 milhões de refeições no ano passado e contamos com mais de 600 instituições em parceria ”, explica ao i a diretora de relações públicas da Sonae MC, Nádia Reis.

Luta ganha novos contornos De acordo com a responsável, este combate ao desperdício não é novo, apesar de ter ganhado novos contornos nos últimos anos, uma vez que contam atualmente com 250 lojas dispersas em todos o país. “Termos excedentes é natural na nossa atividade e é uma obrigação para empresas deste ramo fazerem acontecer. É importante mudar os hábitos de consumo dos clientes de forma a terem um consumo mais consciente”, salienta.

Nádia Reis lembra que muitos dos produtos doados não estão próprios para venda porque têm, por exemplo, a embalagem estragada, mas apresentam todas as condições para serem consumidos. “A ideia é criar uma série de iniciativas com vista a sensibilizar tanto os produtos como os clientes para esta questão, apostando ao mesmo tempo em ações de formação, já que a grande maioria do desperdício que ainda se verifica é na casa dos portugueses.” Daí a aposta do Continente na apresentação de receitas de chefes para ajudar a aproveitar os alimentos que sobram nas refeições.

A responsável lembra que estas tendências têm vindo a ser implementadas um pouco por todo o mundo e que, nalguns casos, passam pela aposta em supermercados que vendem produtos perto do fim do prazo de validade. A responsável reconhece, no entanto, que em Portugal “a regulamentação nesta matéria ainda é muito apertada”.

Ajuda em crescimento A Re-Food surgiu em março de 2011 pelas mãos do norte-americano Hunter Halder, a viver em Portugal há mais de 20 anos. O projeto surgiu apenas com Halder na freguesia de Nossa Senhora de Fátima, em Lisboa, com a ideia de distribuir comida recolhida em restaurantes por famílias carenciadas. A rede de voluntariado foi crescendo – com a exceção do núcleo duro, que tem de estar mais disponível para se dedicar a este projeto sempre numa lógica microlocal, os restantes elementos trabalham duas horas por semana – e já conta com mais de quatro mil voluntários e 30 núcleos abertos em todo o país. Tem mais outros 30 em desenvolvimento, “mas que estão à espera de arranjar um espaço para poderem arrancar”, salienta ao i Francisca Vermelho, da Re-Food.

Atualmente já são distribuídas mais de 50 mil refeições por mês. Esses alimentos são recolhidos tanto nos restaurantes como nas cantinas e nas grandes superfícies. Mas a ajuda não fica por aqui. Sempre que são identificadas outras necessidades, além das alimentares, as pessoas são reencaminhadas para outras instituições de solidariedade. Além disso, para poderem beneficiar de uma refeição completa, essas pessoas têm de estar integradas num sistema organizado, nomeadamente serem acompanhadas por uma assistente social. E se faltarem mais de três vezes seguidas sem avisarem, há penalizações. “Quem precisa não falta e têm sempre a vantagem de poderem levar as refeições para casa, e não sendo um take-away, há sempre a preocupação de levarem aquilo de que mais gostam, sempre adaptado às suas necessidades”, conclui Francisca Vermelho.

30.3.16

Portugal desperdiça um milhão de toneladas de alimentos por ano

Ana Bela Ferreira, in "Diário de Notícias"

Parlamento Europeu recomendou que Estados membros reduzam para metade a comida que vai para o lixo até ao fim do ano
Por cá, 2016 é o ano nacional do combate ao desperdício, para ajudar nesse objetivo

Todos os anos, os portugueses deitam para o lixo um milhão de toneladas de alimentos, ou seja, cada um desperdiça em média 132 quilos de comida por ano. Só as famílias desperdiçam 324 mil toneladas. E 17% da comida é deitada fora ainda antes de chegar aos consumidores. Um desperdício que no conjunto da União Europeia chega aos 89 milhões de toneladas. Foi para reduzir a grandeza destes números que o Parlamento Europeu recomendou aos Estados membros um corte para metade no desperdício até ao fim do ano.

Em Portugal são vários os programas que têm por objetivo limitar as quantidades de comida no lixo. É o caso do Dose Certa, que já levou um restaurante no Porto a reduzir a quantidade de arroz e batatas no prato. Sem que os clientes estranhem as doses "mais saudáveis".

Até porque os cálculos da FAO (Organização das Nações Unidas para a Alimentação e Agricultura) indicam que os países industrializados desperdiçam 1,3 mil milhões de toneladas de alimentos por ano. O que chegaria para alimentar os cerca de 925 milhões de pessoas que passam fome no mundo.

Por cá, 2016 foi declarado Ano Nacional do Combate ao Desperdício Alimentar. E, apesar de não sermos os europeus que mais comida deitam fora - na Holanda o desperdício por habitante/ano é de 541 quilos, seguido da Bélgica, com 345, e do Chipre, com 327, e Espanha desperdiça pouco mais do que nós (135 quilos) -, têm-se multiplicado as iniciativas para evitar deitar tanta comida fora.

Ajudar restaurantes a mudar
É o caso do Dose Certa, que junta a Associação Nacional de Nutricionistas (APN), a empresa Lipor e cerca de 30 restaurantes do Norte. Até agora, este projeto tem conseguido cortar no desperdício entre os 30% e os 35%. No Café Progresso, no Porto, onde de segunda a quinta-feira são servidas em média 50 refeições diárias, subindo para as 75, às sextas e sábados, o objetivo era reduzir em 40% os resíduos e só com a implementação do programa atingiram de imediato os 30%. De inevitável contam com um desperdício de "sete a dez quilos", mas antes havia muito comida que ficava nos pratos dos clientes e não se podia reutilizar. Em especial, os "acompanhamentos da categoria dos hidratos de carbono", como o arroz e as batatas, explica Alcina Fernandes, do Café Progresso. E os clientes que antes estavam habituados a "doses bem servidas" já não estranham as quantidades mais saudáveis.

Travar o desperdício alimentar é uma questão que tem impacto ambiental, económico e social. Daí que o programa Dose Certa comece por pedir "aos estabelecimentos que pesem os alimentos que desperdiçam, para que tomem consciência da realidade do custo", aponta Susana Freitas, da divisão de valorização orgânica da Lipor (Serviço Intermunicipalizado de Gestão de Resíduos do Grande Porto).

Ainda assim, como "a maior fatia do desperdício alimentar está nas famílias", é urgente "ensinar as pessoas a fazer uma correta seleção dos alimentos, leitura dos rótulos e aprenderem a olhar para o alimento como sendo passível de ser utilizado por inteiro", aponta Helena Real, secretária-geral da APN.

A declaração do ano nacional prevê ainda medidas como estipular uma percentagem de produtos locais a utilizar por parte das instituições públicas e criar "um programa de ação" que "fixe objetivos e metas para a redução". Bem como ensinar na escola a gestão dos alimentos tornando clara a diferença entre "consumir antes de" e "consumir de preferência até".

Todos os anos, os portugueses deitam para o lixo um milhão de toneladas de alimentos, ou seja, cada um desperdiça em média 132 quilos de comida por ano. Só as famílias desperdiçam 324 mil toneladas. E 17% da comida é deitada fora ainda antes de chegar aos consumidores. Um desperdício que no conjunto da União Europeia chega aos 89 milhões de toneladas. Foi para reduzir a grandeza destes números que o Parlamento Europeu recomendou aos Estados membros um corte para metade no desperdício até ao fim do ano.


Doar comida para não ir para o Lixo

BANCO ALIMENTAR Muitas vezes a comida que vai para o lixo nem sequer está estragada ou fora do prazo, apenas não cumpre as regras de comercialização (como é o caso dos calibres da fruta ou quando há erro na embalagem de um produto). Uma das formas de evitar que alimentos excedentes não vão parar ao lixo é doá-los a instituições como os bancos alimentares. Já houve anos, como em 2011, em que estas estruturas conseguiram recuperar mais de 30 mil toneladas de produtos que teriam ido para destruição. Dos quais seis mil toneladas eram fruta. O que levou Isabel Jonet, a presidente da Federação Nacional dos Bancos Alimentares contra a Fome, a defender que era preciso educar as pessoas para comprar menos quantidade. Além do aproveitamento doe excedentes, os bancos alimentares sobrevivem também graças às campanhas. Na última, em novembro, foram angariadas 2270 tendências.


TRUQUES

PLANEAR REFEIÇOES
A nutricionista da APN Lembra que uma das formas de reduzir o desperdício é planear as refeições e elaborar uma lista de forma a comprar apenas o essencial, escolhendo sempre os prazos de validade mais alargados.

CONSERVAR ALIMENTOS
Fazer uma correta conservação dos alimentos na despensa, frigorífico ou congelador evita que se deteriorem com facilidade. Fazer quantidades adequadas também ajuda a poupar.

APROVEITAR TUDO
As folhas e talos (couves, alho francês, nabo) ou cascas (curgete, cenoura, batata, banana) podem servir para molhos, bases de sopas, caldos ou sobremesas. As espinhas ou ossos podem dar caldos ou aroma aos pratos.

29.2.16

Dose Certa, um projecto para acabar com o desperdício nos restaurantes

Texto de Idalina Barros e Carolina Campos/ JPN, in Público on-line (P3)

A Lipor, a Associação Portuguesa de Nutricionistas e cerca de 30 estabelecimentos juntaram-se no projecto Dose Certa para diminuir o desperdício de alimentos


São 29 os restaurantes e cantinas que fazem até agora parte do projecto Dose Certa promovido pela Lipor e que conta com o apoio da Associação Portuguesa de Nutricionistas (APN). A iniciativa surgiu em 2008 e segundo Susana Freitas, gestora da divisão de valorização orgânica, divide-se em dois grandes objectivos: “Por um lado quantificar e reduzir o desperdício alimentar na área da restauração e, por outro lado, incentivar a população portuguesa a ter uma alimentação mais equilibrada”.

A ideia é ser um projecto voluntário, mas a maioria dos participantes são contactados pelas duas instituições. Apesar de nunca terem ouvido um não, a adesão não tem sido a esperada: “As candidaturas não foram aquelas que gostaríamos que fossem. Tivemos dois actos voluntários até à data, outros [estabelecimentos] contactamos directamente e mostraram-se logo receptivos ao projecto. Até agora nunca tivemos um não.”

O resultado tem sido positivo e, segundo a Lipor, o potencial da redução do desperdício de alimentos pode atingir os 30-35%, variando de acordo com a tipologia do restaurante, do menu e dos clientes. Em 2011, a APN juntou-se ao projecto para garantir que os aspectos nutricionais não eram esquecidos: “O nosso objectivo é garantir que existe menos desperdício alimentar, sem nunca descurar as necessidades alimentares. Ou seja, reduzir as quantidades servidas nos restaurantes, sem nunca pôr em causa as necessidades nutricionais da população”, afirma Delphine Dias, nutricionista e assessora técnica da direcção da APN.

Após ser assinado um compromisso entre as partes, o processo inicia-se com a pesagem dos restos do "stock", confecção e empratamento durante uma semana, de modo a obter-se uma caracterização inicial: “Há sítios que já têm noção que ao fim do dia colocam muitos alimentos fora e há outros casos que ainda não têm essa noção. A primeira etapa é consciencializar, colocar os restaurantes a pesarem os alimentos que desperdiçam. Fazê-los contabilizar é uma forma de os consciencializar.”

De seguida, é realizada uma formação com os voluntários, relativamente a práticas ambientais e nutricionais, na qual as ementas são adaptadas à realidade dos estabelecimentos. Tenta evitar-se o desperdício alimentar e trazer vantagens a nível económico, ambiental e nutricional. “Consoantes as falhas daquela unidade, educamos os cozinheiros, damos técnicas e formas para diminuírem os desperdícios na preparação. Se for na questão da quantidade servida no prato, consciencializa-los de que estão a servir muito acima das necessidades de um adulto normal”, remata Delphine Dias. Um mês após o início do processo, é feita uma monotorização das práticas que foram implementadas após a formação. Se cada estabelecimento envolvido no projecto cumprir as propostas, é-lhe atribuído o reconhecimento Dose Certa.

Aprender com o que sobra

Contactado pela Lipor em 2014, Vasco Relvas, proprietário do restaurante Solar do Pátio, afirma que aceitou integrar o projecto “para aprender”. Para o restaurante, situado na Rua Mouzinho da Silveira, a preparação dos pratos sempre gerou desperdício orgânico. Mas era do empratamento que surgiam as maiores falhas. “Onde nós aprendemos foi sem dúvida no que vinha dos pratos. Basicamente, o que há a mais, o que servíamos a mais”, realça Vasco Relvas.

A ideia foi bem aceite pelos funcionários, que reagiram positivamente, disponibilizando-se para aprender. Quanto aos clientes, o impacto não foi negativo e Vasco Relvas afirma que as alterações não se chegaram a sentir: “Os nossos clientes são quase sempre turistas, são pessoas que vêm uma vez e que raramente repetem, porque os turistas no Porto não ficam muito tempo. [Quanto aos] portugueses, a qualidade não baixou, por isso, se notaram não tivemos essa noção”.

Mas a questão que prevalece é se o programa promovido pela Lipor em parceria com a APN apresenta ou não resultados práticos. No caso do Solár do Pátio, a iniciativa valeu a pena: “Apesar de sermos um restaurante, há sempre algum impacto, não muito grande, mas há sempre algum impacto financeiro, em termos de poupança e principalmente em termos de 'stock'.” Vasco resume: “Nunca é demais saber e aprender. Acho que era benéfico para toda a gente”.

28.1.16

Re-food Aveiro marca presença no 2º Encontro Nacional contra o desperdício alimentar

in Notícias de Aveiro

O 2º encontro nacional da Re-food, movimento que luta diariamente contra o desperdício alimentar, teve lugar no passado dia 23 de janeiro, em Lisboa, e juntou mais de 400 delegados de Norte a Sul de Portugal, em prol de um bem maior: acabar com o desperdício alimentar e com a fome em Portugal.

Pela primeira vez, o núcleo de Aveiro marcou presença num encontro desta natureza, marcado pela partilha de um ano de crescimento exponencial do movimento a nível nacional e pela abertura próxima de um núcleo em Madrid, Espanha.

Para além de temas relacionados com a consolidação do movimento em Portugal e partilha de experiências e boas práticas, houve ainda lugar para a criação da Equipa de Formação Re-food que levará a cabo sessões de formação a todos os voluntários que farão parte deste movimento solidário e sustentável. Rita Sanches e Fernando Santos são os formadores do Núcleo Re-food Aveiro.

A aposta na formação é um dos valores que distingue a Re-food. Por isso mesmo, todos os núcleos terão formadores para que seja transmitido o melhor e maior conhecimento do movimento e para que, dentro do mesmo, sejam levadas a cabo as melhores práticas assentes no conhecimento profundo do que é o voluntariado, a segurança alimentar e a legislação, em vigor.

A Re-food Aveiro encontra-se, atualmente, na sua fase de implementação, o que significa que a equipa reúne todas as condições para arrancar com o projeto na cidade, faltando apenas uma sede (centro de operações) que reúna as condições necessárias para suprir as necessidades das famílias e pessoas carenciadas.
Rita Sanches, membro do grupo de gestores do núcleo Re-food em Aveiro, afirma que “sendo este um movimento 100% voluntário, não existe uma estrutura financeira que nos permita alugar um espaço. Nesse sentido, toda a equipa de 50 gestores trabalham diariamente para alcançar este objetivo, seja através de uma renda simbólica, ou através de mecenato. Toda a ajuda é preciosa para que a luta contra o desperdício alimentar seja uma realidade em Aveiro”.

“Enquanto este processo se vai consolidando, a Re-food Aveiro continua a querer envolver toda a comunidade neste movimento, esperando encontrar um espaço para a instalação da sede o mais brevemente possível, de forma a acabar com o desperdício e a fome em Aveiro”, explica.

O 2º Encontro Nacional de um dos movimentos que se posiciona atualmente como sendo um dos mais importantes para acabar com a fome em Portugal, contou ainda com a presença do representante da FAO Portugal (Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura), Hélder Murteiro.

Sobre a Re-food

A Re-food é uma organização independente, orientada por cidadãos, 100% voluntária, que trabalha para eliminar 100% do desperdício de alimentos e, consequentemente, a fome em cada bairro. Opera na e para a comunidade. A Re-food tem um modelo de baixo custo / alta produtividade que melhora a qualidade de vida das pessoas carenciadas, enquanto reforça o tecido social da comunidade local.

O Movimento Re-food vive uma situação ímpar, em Portugal: além de contar com perspectivas de forte crescimento, com 25 Núcleos já em funcionamento e com 27 em implementação, conta já também com um elevado número de voluntários (5.000, em Outubro de 2015).

29.12.15

Fruta Feia expande-se para o Porto depois de evitar 200 toneladas de desperdício

in Público on-line

O projecto Fruta Feia, que nos últimos dois anos evitou que 200 toneladas de fruta e legumes fossem parar ao lixo só na região de Lisboa, vai agora viajar para o Porto, onde procura instalar dois pontos de entrega.

Actualmente com 800 consumidores repartidos pelos três pontos de entrega no distrito de Lisboa – dois na capital e outro na Parede, em Cascais – e 50 agricultores associados, sobretudo da zona Oeste, a Fruta Feia vai agora expandir-se para a zona norte.

Isabel Soares, uma das mentoras da Cooperativa Fruta Feia, explicou que o balanço destes dois anos de actividade é "superpositivo e que supera largamente as expectativas". "Evitámos quatro toneladas de desperdício por semana e, para a próxima, vamos chegar às 200 toneladas de desperdício evitado desde a data do arranque, em Novembro de 2013, são números muito altos, que não esperávamos", confessou.

A cooperativa Fruta Feia resulta de uma ideia de quatro amigos para aproveitar cerca de um terço da fruta e vegetais que os supermercados desperdiçam, por considerarem que não têm o aspecto perfeito que os consumidores procuram.

O próximo desafio é, segundo Isabel Soares, abrir dois pontos de entrega no Porto, em Maio do próximo ano, de forma a dar resposta aos agricultores da região norte que contactaram o projecto quando este teve início em Lisboa, pedindo ajuda pois não conseguem escoar os seus produtos devido à sua aparência.

"A ideia de ir para o Porto é ajudar os agricultores da região. Neste momento, com os três pontos de entrega em Lisboa, só conseguimos ajudar os agricultores da região Oeste", frisou, adiantando que já começaram a ser reactivados os contactos com esses agricultores, que demonstraram interesse quando a iniciativa arrancou.

Neste momento, Isabel Soares revelou que a Fruta Feia vai contratar duas pessoas para dinamizarem os pontos de entrega no Porto, seguindo o modelo de negócio já instalado, que "de grosso modo" um ponto de entrega justifica um posto de trabalho. "As duas pessoas vão, primeiro, fazer uma formação connosco em Lisboa, e depois iremos apoiá-las no norte. Gostava de arrancar com a entrega de 500 cabazes nos dois pontos, não no primeiro dia, mas ir crescendo ao longo do primeiro mês. Começar com 100 na primeira semana e ir aumentando", explicou.

Actualmente, as cestas de 'fruta feia' – pequenas com 3/4kg e cinco a sete variedades e a grande com 6/8kg e sete a nove variedades, compostas por frutas e hortaliças, que variam semana a semana conforme a altura do ano – podem ser recolhidas às segundas-feiras na Casa Independente, no Intendente, às terças-feiras no Ateneu Comercial de Lisboa e às quintas-feiras na Sociedade Musical União Paredense, na Parede.

"Gente bonita come fruta feia" é o lema do projecto, que pretende associar "bons ideais às pessoas que estão dispostas a comer" esta fruta não normalizada, para evitar o desperdício alimentar, concluiu Isabel Soares.

Segundo os últimos dados da Organização para Alimentação e Agricultura da ONU 1,3 mil milhões de toneladas de alimentos são desperdiçados anualmente.

18.11.15

“A ironia trágica é ter 70% dos agricultores do mundo com fome”

Ana Rute Silva, in Público on-line

Eric Holt-Gimenez, presidente da Food First, organização não-governamental americana, defende que a forma como hoje a comida chega ao prato, num complexo percurso que vai do campo ao supermercado, tem de sofrer “reformas estruturais” e não ficar refém dos 1% mais ricos do planeta.

O pretexto para a vinda de Eric Holt-Gimenez a Portugal era uma conferência sobre o polémico Acordo de Parceria Transatlântica de Comércio e Investimento que está a ser negociado entre os Estados Unidos e a União Europeia. O convite partiu do CIDAC (Centro de Intervenção para o Desenvolvimento Amílcar Cabral), e, em conversa com o PÚBLICO, o presidente da organização não-governamental Food First, defensora da soberania alimentar, traçou o seu retrato do que é hoje o sistema alimentar do mundo, ou seja, a forma como a comida nos chega ao prato: Agricultores com cada vez menos terra para cultivar (a maioria hipotecada e vendida nos mercados de crédito internacionais), que comercializam os seus produtos a preços cada vez mais reduzidos. Quando chegam às prateleiras, os alimentos são ultra-processados para que possam aguentar ciclos longos de distribuição, num mundo em que se come soja plantada no Brasil, processada nos EUA e consumida na China.

Defende que há um sistema alimentar capitalista a operar no mundo. O que é que isso significa?
Trata-se de um regime alimentar corporativo. Basicamente há uma série de instituições e regras que determinam a forma como cultivamos, processamos, vendemos e consumimos a nossa comida. Este é o terceiro de três sistemas. O primeiro foi o colonialista, no qual os países do Sul forneciam alimentos baratos e matérias-primas à indústria do Norte, para que o Norte se pudesse industrializar. A revolução industrial teve sucesso porque as matérias-primas e a comida eram muito baratas e não era preciso pagar muito aos agricultores. A cesta básica era muito barata. O segundo sistema nasce depois da II Guerra Mundial. Os Estados Unidos criaram uma capacidade industrial tremenda depois da guerra, que permaneceu intocável, assim como uma capacidade tremenda de produzir comida. Acumulou nitratos, que transformou em fertilizantes, e venenos que transformou em insecticidas. Estes produtos geram uma produção massiva de alimentos. Chegou à Europa, durante a reconstrução.

Até essa altura não se usavam fertilizantes e insecticidas?
Havia mas não eram baratos, e tornaram-se baratos depois da Guerra. Os Estados Unidos emprestaram dinheiro à Europa para que reconstruísse e a Europa comprou estes químicos e rapidamente começou a produzir em excesso. Foi, por isso, preciso exportar esta comida para o hemisfério Sul, que até agora tinha alimentado os Estados Unidos e a Europa. O Norte teve de tornar o Sul dependente no acesso a alimentos, tudo ajudado pelo Banco Mundial e o Fundo Monetário Internacional. O regime alimentar corporativo nasce depois de meio século de produção alimentar excessiva. Há, agora, a globalização do controlo corporativo. Existem cadeias longas de abastecimento, mas concentradas em poucas mãos. Produz-se soja no Brasil, que é processada por uma empresa norte-americana e é enviada para a China onde é usada para alimentar para animais. Dá-se ainda a emergência das grandes cadeias de distribuição alimentar, como a Tesco, a Walmart ou a Carrefour, que controlam grande parte da cadeia de valor. São monopólios.

Os acordos de comércio "determinam o preço das sementes em todo o mundo e nada disto é democrático, não o votámos"

Algumas dessas empresas também estão a investir na produção alimentar. Em Portugal, por exemplo, um dos maiores operadores é dono de uma fábrica de transformação de leite. Não estão apenas a distribuir, estão a produzir.
Essa é uma tendência muito perigosa, porque a comida passa a ser controlada por muito poucas mãos. A comida não é uma commodity elástica, comemos até um certo ponto e tendemos a entrar em fases de produção excessiva. O que se faz com toda esta comida? O único mercado que está a crescer é o dos pobres. De repente torna-se muito importante alimentar os pobres. Isto é cíclico. De tempos a tempos, quando o mercado precisa de se expandir, preocupamo-nos muito com os pobres. Actualmente, a pobreza está a crescer 13% ao ano e não podemos vender-lhes iPads ou carros Tesla. Mas podemos vender-lhes comida, sementes e fertilizante. Há muitos monopólios hoje: o das sementes, o dos supermercados, as instituições como o Departamento da Agricultura dos Estados Unidos [USDA na sigla inglesa] que é global. As regras em vigor são as dos acordos de comércio livre, a da Política Agrícola Comum na União Europeia ou a do Farm Bill nos Estados Unidos [lei agrícola]. Determinam o preço das sementes em todo o mundo e nada disto é democrático, não o votámos. Nada disto é feito por necessidade e há [795 milhões] de pessoas com fome no mundo.

Ao mesmo tempo, temos um elevado desperdício alimentar.
Produzimos 1,5 vezes mais de comida do que o necessário por cada mulher e criança no planeta. Fazemos isso há meio século porque a comida não é distribuída com base na necessidade. É distribuída com base na procura. Há fome porque as pessoas não têm dinheiro para comprar alimentos, não por falta de comida.

Os consumidores das sociedades desenvolvidas abastecem-se nas grandes cadeias de distribuição. Estão também a contribuir para esta realidade?
Absolutamente. Os supermercados dependem dos clientes e mantêm os preços baixos. E isso faz com que tenham de esmagar os lucros dos produtores e, ao mesmo tempo, tirar vantagem de uma enorme economia de escala. Para garantir essa economia de escala têm de usar muitos conservantes nos alimentos, processam muita comida, o que faz com que contribuam de forma expressiva para o aparecimento de doenças relacionadas com a alimentação. Doenças cardíacas, obesidade, diabetes… Produzem comida em massa que está a ser cada vez mais consumida pelos pobres, que representam a maioria da população do planeta. São muito poucos os que podem pagar comida de qualidade…

Refere-se a comida biológica, produtos frescos…
Sim, comida produzida localmente, diversidade nos vegetais, na carne. Esse tipo de dieta está apenas disponível a uma classe média alta.

Não acho que o poder esteja nos consumidores. Penso que são os cidadãos que têm o poder. É um problema estrutural e não vamos poder votar com o nosso garfo porque a maioria das pessoas do mundo são demasiado pobres para o fazer. Não têm o poder de compra que pode fazer mudanças.

O acesso a terra não poderia mudar essa realidade? Numa lógica de produção para auto-sustento?
A ironia trágica é ter 70% dos agricultores do mundo com fome. E a maioria são mulheres. Podemos dizer que a maioria das pessoas que alimentam o mundo têm fome e são mulheres. Este é um problema de injustiça e de alocação de recursos. Porque hoje os produtores já não têm terra suficiente. Têm cada vez menos terra para cultivar, vendem os seus produtos mas não têm capacidade financeira para os comprar. As diferentes crises e as bolhas (a tecnológica, a imobiliária, a financeira) fazem com que a riqueza fique concentrada num número muito pequeno de pessoas. Perante a insegurança, já não há onde investir esse dinheiro e não é sensato, como capitalista, manter a riqueza em forma de dinheiro.

Por isso compram terra?
Exacto. Há aquisições de terra por todo o mundo, não necessariamente para produção. Há compras de terra para produzir, sobretudo, soja ou óleo de palma, mas parte é pura especulação. É um bom local para investir em tempos de grande volatilidade.

Quem lidera essas aquisições de terra?
Os 1% da população mais rica do mundo.

O TTIP "vai fazer descer os preços pagos à produção, vai fazer aumentar a volatilidade do preço dos alimentos, vamos assistir a uma concentração da posse de terra e a uma 'financeirização' da terra".

O consumidor não terá o poder de inverter essa lógica ao, por exemplo, escolher produtos produzidos de forma socialmente responsável, ou exigindo à indústria preços justos aos produtores?
Não acho que o poder esteja nos consumidores. Penso que são os cidadãos que têm o poder. É um problema estrutural e não vamos poder votar com o nosso garfo porque a maioria das pessoas do mundo são demasiado pobres para o fazer. Não têm o poder de compra que pode fazer mudanças. Não digo que não devemos comer de acordo com determinados valores, se tivermos essa capacidade financeira, mas isso não vai resolver o problema. O que vai resolver são reformas estruturais no sistema alimentar que vão afectar o sistema político e financeiro.

Que reformas são essas?
Primeiro que tudo, os agricultores devem receber um preço justo pelos seus produtos, o que não acontece hoje. Falamos muitos em subsídios para compensar, sobretudo, os maiores produtores, e isso tem como consequência o aumento do preço dos alimentos. Mas a verdade é que a maioria do valor de um alimento é gerado no processo de transformação e distribuição. Em segundo lugar, o poder político dos monopólios na alimentação deveria ser retirado. O que pode ser produzido localmente, deve ser produzido localmente. Isto deve ser incentivado e a melhor forma de o fazer é tornar o campo um bom local para viver. Por outras palavras, melhorar os salários, ter bons sistemas de saúde, água, saneamento, estradas no campo para que as pessoas não tenham de sair para ter uma vida boa. Em terceiro lugar, a comida não devia estar sob alçada da Organização Mundial do Comércio (OMC). Diria até para acabarmos com a OMC. Outra medida seria anular os acordos livres de comércio e imediatamente suspender as negociações do Acordo de Parceria Transatlântica de Comércio e Investimento [TTIP na sigla inglesa]. São muito perigosos para as economias locais, que podemos ajudar a reconstruir, reparando o sistema alimentar.

A negociação do TTIP tem gerado muita polémica. Qual é a leitura que faz do impacto deste acordo para os agricultores?
Vai fazer descer os preços pagos à produção, vai fazer aumentar a volatilidade do preço dos alimentos, vamos assistir a uma concentração da posse de terra e a uma “financeirização” da terra. O que se passa agora nos Estados Unidos é que a maior parte da terra agrícola é hipotecada. Essas hipotecas são vendidas nos mercados internacionais de crédito. São divididas, distribuídas e vendidas no mundo continuamente. Pequenos pedaços de terra são vendidos à volta do globo e é do interesse do sector financeiro fazer aumentar o seu preço. O valor da terra está, por isso, a aumentar. Contudo, devido à volatilidade do preço dos alimentos, o valor da produção (que é excessiva) é muito inferior ao da própria terra. Com o TTIP é de esperar a “financeirização” da terra na União Europeia, como aconteceu nos Estados Unidos.

O que se passa agora nos Estados Unidos é que a maior parte da terra agrícola é hipotecada. Essas hipotecas são vendidas nos mercados internacionais de crédito. São divididas, distribuídas e vendidas no mundo continuamente.

Os alimentos deveriam ser protegidos dessa volatilidade, tratando-se de bens essenciais à sobrevivência humana?
Mais importante do que isso, são os salários justos. Se as pessoas fossem remuneradas de forma justa não teriam de se preocupar com o preço da comida. O maior empregador privado do mundo é a Walmart. E sempre que esta cadeia de supermercados americana abre uma loja, a comunidade paga um milhão de dólares de subsídios. É dinheiro público. Quem trabalha no Walmart não ganha dinheiro suficiente para comprar coisas na loja e precisam de recorrer aos vales de refeições. Se o Walmart fosse forçado a pagar um salário mínimo, os cofres públicos não teriam de suportar esses vales. A questão do preço é, por isso, uma questão laboral.

Qual é a diferença de preço entre o que o produtor ganha e o que o consumidor paga?
Há 50 anos os produtores recebiam 80 cêntimos por cada dólar, ou seja, 80%. Agora recebem 10%. O restante fica nas mãos da indústria transformadora e da distribuição.

Notícia corrigida: Há 50 anos os produtores recebiam 80 cêntimos por cada dólar e não oito cêntimos como erradamente se escreveu

27.7.15

"Um terço da produção alimentar vai para o lixo"

por Céu Neves, in Diário de Notícias

A política agrícola está errada: produzimos demais e desperdiçamos, apesar da fome em muitas áreas do mundo. Hilal Elver está em Lisboa para a conferência "Direito humano a uma alimentação adequada".

É desde 2014 relatora da ONU para o Direito à Alimentação. O que é que fez neste primeiro ano?

Não estava familiarizada com os pormenores e há que definir prioridades. A minha prioridade, o que penso que é mais importante, é o empoderamento das mulheres, a relação entre o direito à alimentação e o papel das mulheres na agricultura. É uma das formas de eliminar a fome e de fazer que as crianças sejam mais saudáveis.

As mulheres podem fazer diferente?

Têm um papel fundamental, especialmente as mulheres rurais em África e no Sul Asiático. Os homens vão para as cidades trabalhar ou são refugiados. As mulheres ficam em casa, com as terras e as crianças. Mais de 60% dos agricultores são mulheres e só têm 2% do direito da propriedade, esse pertence ao pai, ao marido ou aos irmãos. Elas tratam da terra e dos filhos e não têm dinheiro nem apoios. Isso tem de mudar. Há projetos dedicados às mulheres, nomeadamente na ONU, mas é minha intenção incrementá-los para que o seu papel se torne mais visível.

Falou em crianças saudáveis, mas vivemos num mundo de contrastes. Se, por um lado, se morre de fome, por outro morre-se por comer em excesso e mal.

7.4.15

Cantinas de Coimbra registam oito toneladas de desperdício alimentar por mês

in Público on-line (P3)

Nova campanha da Universidade de Coimbra quer reduzir os resíduos alimentares. Incentivar as pessoas a pedirem apenas o que realmente vão consumir é uma das medidas

Os Serviços de Acção Social da Universidade de Coimbra (SASUC) prevêem que haja um desperdício de oito toneladas de resíduos alimentares por mês nas cantinas e querem sensibilizar estudantes e colaboradores para reduzir o actual valor.

Para combater o desperdício registado, os SASUC vão lançar uma campanha à comunidade académica para reduzir desperdícios, bem como implementar medidas na própria preparação das refeições, disse à agência Lusa a administradora dos serviços, Regina Bento.

A redução do desperdício alimentar "depende muito da adesão da comunidade académica" à campanha, referiu, sublinhando que alunos, docentes e funcionários estão "sensibilizados" para este tipo de questões. Quando uma pessoa é servida nas cantinas deve "pedir ao empregado para dosear", levando só no prato "aquilo que realmente vai consumir", explanou.

Segundo Regina Bento, a mudança de comportamentos numa divisão de alimentação que serve "um milhão de refeições por ano" é fundamental para um impacto na redução do desperdício, apesar de outras medidas previstas. A confecção de batatas com casca e o aproveitamento da casca da maça na salada de fruta e dos talos de couve e alface na confecção de sopa são alguns dos exemplos de práticas que vão ser implementadas na preparação de refeições nas cantinas, salientou a administradora dos SASUC.

Também na divisão de alimentação dos SASUC há o "desafio" de todos os meses ser apresentado "um novo produto que decorra de aproveitamentos de comidas", o que já levou, a título de exemplo, à introdução de uma nova sobremesa — pudim molotov — que surgiu como forma de "aproveitar as claras que, de outra forma, iam para o lixo", frisou.

A campanha agora lançada está inserida num plano da Secretaria de Estado da Alimentação e da Investigação Agrolimentar para a redução do desperdício alimentar que, em Portugal, segundo um comunicado dos SASUC, representa um milhão de toneladas por ano — 17% da produção anual de alimentos.