16.6.07

Prisão testa projecto para filhos de reclusos

Denisa Sousa, Alfredo Cunha, in Jornal de Notícias

Inovador Projecto VIP, apresentado ontem, visa evitar os constrangimentos das visitas numa cadeia, reforçando laços entre pais e filhos


"O meu filho já não me chama tio, chama-me pai outra vez. Recuperou a confiança em mim", relata, emocionado, um homem a cumprir pena na prisão de Braga, a propósito de um projecto europeu que está a ser testado naquele estabelecimento prisional. A ideia reforçar os laços familiares entre os reclusos e os filhos, para que a célula familiar não se desintegre. Isto através de um simples esforço de proximidade que incluiu a criação de uma sala de visitas própria. Se correr bem, o projecto será estendido a todas as cadeias do País.

Chama-se VIP (Visiting In Prison) e começou, sem alarido, no dia do pai, a 19 de Março. Ontem, foi formalmente apresentado na presença de parceiros vindos de oito países europeus, que estão a aplicar também o mesmo sistema, no âmbito do Programa Sócrates. José Alves Sousa descreveu-o como uma "experiência- piloto" em Portugal. No final do teste, dentro de um ano e meio, haverá uma avaliação prática dos seus resultados, pelo trabalho "desinteressado" de Rui Abrunhosa Gonçalves, psicólogo e investigador da Universidade do Minho.

A partir daí, através da análise de vários índices, apurados por questionário às crianças e às mulheres dos presos, se decidirá, ou não, pela sua implementação generalizada. À força de afectos, os reclusos construíram uma sala, com móveis, brinquedos e livros, doados por alunos da Escola EB 2,3 André Soares. Um espaço modesto que se espera poder alterar percursos de vida. "Isto também é feito numa perspectiva de prevenção do crime, evitando que os filhos sigam exemplos", explica Rui Gonçalves.

Há 22 reclusos inscritos, com os seus filhos. As idades das crianças oscilam entre os dois e os 15 anos. Tudo parte de um esquema de visitas próprio, num local acolhedor que aboliu barreiras físicas. Quatro dias por semana, das 8.30 às 18 horas, há hora marcada para recuperar tempos perdidos. "Cada família tem direito ao seu momento, sem mais ninguém", revela o director.

O novo projecto, um mês e 70 visitas depois, já quebrou impessoalidades. Poder dar um beijo ou segurar um filho nos braços faz toda a diferença. Todos estão a gostar da experiência. "É muito bom", assumem, antecipando a continuidade do projecto.