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12.1.22

Porto: sala de consumo assistido já tem gestão e abre em março

 André Manuel Correia, in Expresso

O investimento da Câmara Municipal do Porto ronda os 650 mil euros. A sala de consumo vigiado amovível vai ser instalada junto ao Bairro Novo da Pasteleira

A Câmara do Porto vai mesmo avançar com a criação de uma sala de consumo vigiado amovível. O espaço vai ser montado junto ao Bairro Novo da Pasteleira, na rua 25 de Julho, e o investimento total do município irá rondar os 650 mil euros. A abertura está prevista já para o mês de março.

Em reunião privada realizada esta segunda-feira, o executivo liderado por Rui Moreira atribuiu, por unanimidade, a gestão do projeto ao consórcio “Um Porto Seguro”, liderado pela APDES – Agência Piaget para o Desenvolvimento. Esta entidade vai receber 270 mil euros para a operacionalização do equipamento durante um ano, a título experimental.

O programa de consumo vigiado resulta de um protocolo entre a Câmara Municipal do Porto, a ARS Norte, o Serviço de Intervenção nos Comportamentos Aditivos e nas Dependências (SICAD) e o Instituto de Segurança Social, refere a autarquia em comunicado.

Durante a reunião, Rui Moreira frisou que esta “não é uma sala de consumo assistido da Câmara do Porto”. Também a vereadora Cristina Pimentel, com o pelouro da Ação Social, reforçou que “não é o município que define a abordagem” nem tampouco o caderno de encargos. “Nesta matéria não temos sequer competência técnica, essa é da Administração Regional de Saúde do Norte e do SICAD”, esclareceu.

O programa de consumo vigiado será monitorizado e avaliado trimestralmente por uma Comissão de Implementação, Acompanhamento e Avaliação composta por elementos da autarquia, SICAD, ARS Norte, Centro Distrital do Porto da Segurança Social e ainda por um representante do consórcio responsável pela gestão do espaço.

20.9.17

Mulheres estão a consumir mais álcool, tabaco e cannabis

Ana Cristina Pereira, in Público on-line

Dados do Inquérito Nacional à População Geral apresentado terça-feira ainda são preliminares mas vão obrigar a afinar estratégia nacional. "Há que encontrar formas mais eficazes de fazer prevenção junto das mulheres”.

O comportamento das mulheres está a alterar-se. Respondem em boa parte, por vezes ainda mais do que os homens, pelo aumento do consumo de bebidas alcoólicas, tabaco e cannabis que se verificou nos últimos cinco anos em Portugal. É o que consta no Inquérito Nacional à População Geral apresentado nesta terça-feira em Lisboa, que vai obrigar o Serviço de Intervenção nos Comportamentos Aditivos e nas Dependências (SICAD) a repensar estratégias.
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“Há que encontrar formas mais eficazes de fazer prevenção junto das mulheres”, admite João Goulão, director nacional do SICAD. A intervenção está muito limitada às grávidas e visa, sobretudo, prevenir o síndrome fetal alcoólico. “Há que alertar para outras consequências, como o cancro da mama.” Há estudos epistemológicos que confirmam que o álcool causa cancro da faringe, laringe, esófago, fígado, cólon, recto e mama.
Continua a subir consumo de bebidas alcoólicas e de cannabis
Continua a subir consumo de bebidas alcoólicas e de cannabis

Já lá vão 16 anos desde o primeiro inquérito que permite perceber o consumo de substâncias lícitas (álcool, tabaco, medicamentos, isto é, sedativos, tranquilizantes e/ou hipnóticos, e esteróides anabolizantes) e ilícitas (cannabis, ecstasy, anfetaminas, cocaína, heroína, LSD, cogumelos mágicos e novas substâncias psicoactivas). Fez-se em 2001 e repetiu-se em 2007, 2012 e 2016/17.

Esta terça-feira de manhã foi apresentado um resumo com os dados preliminares das respostas recolhidas entre Dezembro de 2016 e Julho de 2017, através de inquéritos aplicados a 12 mil pessoas entre os 15 e os 74 anos. Os investigadores estão ainda “a validar a consistência de alguns pontos de amostragem cujos efeitos poderão permitir ajustar alguns resultados”. Porém, o resumo deste relatório fornecido pelo SICAD não menciona números comparativos.
Subida nos últimos cinco anos

O estudo – coordenado pelo sociólogo Casimiro Marques Balsa, professor da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade de Lisboa – mostra que houve um aumento de consumos entre 2001 e 2007 e uma estabilização ou até uma ligeira redução entre 2007 e 2012, embora com subidas nalguns indicadores, e que nos últimos cinco anos houve uma subida dos consumos de álcool, tabaco e cannabis.
Quase metade dos jovens nos centros educativos cometeu crimes por diversão
Quase metade dos jovens nos centros educativos cometeu crimes por diversão

Se olharmos para a prevalência ao longo da vida, o consumo de bebidas alcoólicas apresenta uma tendência de subida quer entre homens, quer entre mulheres. Os valores acima da média foram encontrados entre os consumidores mais velhos (35 e os 64 anos). No consumo de tabaco a subida é ligeira e deve-se, sobretudo, às mulheres. Nos medicamentos há uma descida, sem diferença de género.

Na cannabis, nota-se uma subida nos dois géneros atendendo à população total, uma descida entre os homens e uma subida entre as mulheres atendendo à população jovem, isto é, entre os 15 e os 34 anos. Na cocaína a tendência é de ligeira subida na população total e de descida entre jovens. Já no que diz respeito à heroína, a prevalência encontrada é igual à verificada em 2012, quer entre a população total, quer entre a população jovem. O estudo detecta um recuo entre os homens e uma subida entre as mulheres. Em todas as outras substâncias ilícitas há uma descida das prevalências de consumo ao longo da vida.
Aumentos de consumo sem explicação

João Goulão não encontra nos dados agora revelados quaisquer explicações para os aumentos nos consumos. “Temos de cruzar variáveis para obter mais informação e orientar a nossa acção”, comenta, numa conversa telefónica. Lança, ainda assim, algumas hipóteses para cima da mesa.
No Alentejo bebe-se e fuma-se mais, no Algarve os jovens preferem a cannabis
No Alentejo bebe-se e fuma-se mais, no Algarve os jovens preferem a cannabis

O aumento do consumo de cannabis, de que já tinha conhecimento por outras vias, não lhe parece alheio aos movimentos pró-legalização. “A regulamentação do uso terapêutico, que já existe em alguns Estados, é usado como cavalo de Tróia por quem defende a legalização do uso recreativo”, diz. “Passa-se a ideia de que é tão bom que até é usado no tratamento de doenças. E essa discussão vai fazendo um caminho que é difícil de desmentir”, apesar de a cannabis herbácea que se produz a nível doméstico, na Europa, nunca ter tido tanto teor de THC. E de não serem suaves os canabinóides sintéticos detectados pelo sistema de alerta rápido da União Europeia.

O aumento do consumo de bebidas alcoólicas afigurar-se-lhe mais difícil de interpretar. Julga que diversos factores podem concorrer para esse fim. Importa, por exemplo, perceber os efeitos da crise financeira, económica e social. Será evidente que a vida nocturna é hoje mais vibrante em muitas cidades portuguesas. “A retoma económica, que já se vai sentido de algum modo, reflecte-se no consumo recreativo?”, questiona. “As pessoas têm mais dinheiro no bolso para gastar nisso?”

Não lhe parece adequado usar estes dados para questionar a eficácia das campanhas que foram sendo feitas nos últimos anos. “O que teria acontecido se não tivéssemos feito campanhas?”, pergunta. “Se olharmos para outros países europeus vimos consumos muito superiores.”

A esmagadora maioria da população nunca experimentou substâncias psicoactivas ilícitas (90%). Quase toda a gente se absteve de consumir cogumelos alucinogénios e novas substâncias psicoactivas (99,8%). O mesmo não se poderá dizer das substâncias lícitas. Só metade da população se abstém de fumar cigarros. E só 13% dizem o mesmo sobre bebidas alcoólicas.
Bebidas alcoólicas são a droga de eleição

As bebidas alcoólicas são a droga de eleição de quase metade dos consumidores recorrentes de algum tipo de substância (48%). No caso especifico das drogas ilícitas, a cannabis é a que apresenta maior número de declarações que assumem um consumo com frequência mais regular.

De acordo com o resumo do estudo, “4,9% da população apresenta um consumo de bebidas alcoólicas sem risco, 37,1% um consumo de baixo risco e 12,6% um consumo de risco médio”. É de 3,6 “a percentagem de consumidores de risco elevado/dependentes alcoólicos”. E “é de 1% a prevalência da população residente em Portugal consumidora abusiva ou dependente de bebidas alcoólicas”. O valor é mais elevado entre os homens (1,7%) do que entre mulheres (0,4%).

No caso do consumo de cannabis, “0,6% da população apresenta um risco moderado ou elevado”. Há ainda 0,8% que apresenta um risco baixo e 3% que não apresenta quaisquer riscos associados ao consumo desta droga. Estes consumos de risco moderado e elevado são mais significativos entre homens.

A idade média do início dos consumos varia de acordo com a substância. O primeiro cigarro fuma-se, em média, aos 17 anos. A primeira bebida alcoólica também é ingerida, por norma, nessa idade. O consumo regular de tabaco e de cannabis, esse, tende a acontecer por volta dos 18 anos.

Quando se procura analisar a duração dos consumos, nenhuma substância bate o álcool. A duração média é de 25 a 26 anos. Segue-se o tabaco, acima dos 20 anos. Entre as substâncias ilícitas, a cannabis e na cocaína são as drogas associadas aos consumos mais longos (em torno dos 15 anos).

“Para já, este estudo levanta mais inquietações do que respostas”, conclui. Mesmo assim, irá usá-lo para “afinar a estratégia 2013-2020”. Chega a tempo do Plano de Acção para a Redução dos Comportamentos Aditivos e das Dependências 2017-2020, que deverá ser lançado até ao final do ano.

6.3.17

Consumo de canábis: "É bué fixe mas não é assim tão fixe"

Fernanda Câncio, in Diário de Notícias

Miúdos de 18, adultos de 60. Estudantes, artistas, bancários, empresários. Em comum, a canábis. No momento em que o BE prepara propostas de legalização de uso recreativo e terapêutico, dizem porque consomem e como se dão com isso

"A grande maioria dos meus colegas fuma. São pessoas que para entrarem no curso tiveram médias altas, são bons alunos. Toda a gente com quem me dou fuma regularmente, e isso não afeta em nada o desempenho. Não são nenhuns carochos." Sara Anselmo, 19 anos, aluna do 1.º ano de Ciência Política e Relações Internacionais na Universidade Nova de Lisboa, ri-se. Fuma também, mas "no máximo duas vezes por mês; às vezes não chega a tanto". E nunca comprou: "É sempre oferecido, e geralmente é erva [marijuana, a flor da planta]."

Sara, que entrou no curso com 16,8, começou a fumar no último ano antes da faculdade, aos 18. E não escondeu da mãe, com quem vive: "Ela agradeceu-me ser sincera e alertou-me para os excessos. Acho que há um grande estigma à volta de todo este assunto, as pessoas tendem a pensar que uma ganza faz logo de uma pessoa uma drogada. Mas é como com o álcool, não temos todos de beber em excesso. Também sei de pessoas que estão constantemente a fumar e ficam um pouco alheadas. E isso sou contra. Uma coisa é de vez em quando, outra é viveres para aquilo."

E fuma porquê? "O álcool puxa-nos mais para a parvoíce, a erva dá para sermos introspetivos, para termos conversas mais sérias. Mas já tive experiências de não gostar da moca - lá está, nunca sabemos o que estamos a fumar, por ser ilegal." Sara é uma das dezenas de pessoas que responderam ao pedido, feito no Twitter, de testemunhos de utilizadores de canábis. Houve quem aventasse que se podia tratar de um truque da PJ, mas muita gente quis falar.

Gonçalo Ferreira, 18 anos, fumou o primeiro charro há quatro meses e fuma uma ou duas vezes por mês. Disse aos pais e juntos pesquisaram na net quais os efeitos adversos

Caso do também universitário Gonçalo Ferreira, que começou a fumar exatamente na festa dos seus 18 anos, há quatro meses. Consome esporadicamente, como Sara - duas a três vezes por mês, quando sai com os amigos -, e também ele informou os pais. "Não é coisa que apoiem, mas sabem. Fumaram tabaco durante 40 anos e aceitaram porque sabem que é de vez em quando. E em tempo de exames e de muitos trabalhos não fumo." Quanto à "normalidade", faz coro com Sara: "Hoje em dia na faculdade qualquer um fuma ou já experimentou. É como fumar um cigarro." Desportista desde criança (joga basquete), Gonçalo esteve com os pais a pesquisar na net as consequências do consumo. "Pode trazer perdas de memória, cancro do pulmão... Mas o tabaco, que é legal, tem seis mil e tal substâncias que fazem mal." Entre as pesquisas feitas, porém, falhou uma informação importante: confundia legalização com descriminalização do consumo, a qual, em vigor desde 2001, significa não ser delito penal consumir embora continue a ser proibido (se apanhado, o prevaricador é presente a uma Comissão de Dissuasão de Consumo e pode ser multado; em 2015, houve 8608 processos de contraordenação relativos a posse/consumo de canábis, 85% do total das contraordenações relativas a consumo de substâncias ilícitas). Uma confusão provavelmente muito comum entre os mais jovens. "Achei que era permitido, e que vivíamos um paradoxo, com consumo legal e venda ilegal. Mas acho que não faz sentido nenhum ser proibido. Para já trazia lucro ao Estado, por causa dos impostos, e seria bom para a saúde porque saberíamos o que estamos a comprar, haveria controlo de qualidade. E fazer mal não é motivo para proibir - o tabaco e o álcool fazem e são legais - nem alterar o estado de consciência, porque beber também altera. As pessoas devem estar informadas dos benefícios e malefícios e decidir por elas. Cabe a cada um decidir o que quer fazer com a sua vida."

"Aos 63 anos arrisco ir de cana"

Sara e Gonçalo integram-se nos 5% de jovens adultos (15/34 anos) que assumiram, no último estudo publicado sobre consumo - o "III Inquérito Nacional ao Consumo de Substâncias Psicoativas na População", efetuado em 2012 -, ter fumado canábis no último ano. Essa faixa etária corresponde a mais de metade dos cerca de 200 mil portugueses entre 15 e 64 anos que consumiram nos últimos 365 dias. Muitos mais - 700 mil - são os que, no mesmo intervalo de idades, asseveram ter consumido a substância alguma vez ao longo da vida.

Alberto Lopes está no extremo superior do intervalo. Aos 63 anos, conta mais de metade da vida a fumar regularmente canábis. "Comecei nos anos 1970. Lembro-me bem da primeira vez, foi uma pedra fenomenal. De repente foi como se os meus ouvidos se abrissem. Achei um fenómeno muito curioso, essa alteração da perceção. Agora já conto com isso." A experiência ocorreu aos 17, durante um ensaio da banda em que tocava, antes do 25 de Abril. "Quando andava no liceu houve um grupo de malucos que fez uma plantação no jardim da Praça de Londres. Ainda esteve lá uns anos até a polícia descobrir e haver uma grande bronca nos jornais. Aí percebemos que estávamos no capítulo "drogados"." Ri-se. "A maneira como isto é tratado pela sociedade é completamente idiota e inexplicável. Não há qualquer fundamento científico para proibir ou para tratar isto como comportamento desviante. Há um fundo de fé, ou moralista." Definindo-se como artista - faz teatro, música e vídeo - só houve uma altura da vida de adulto em que não consumiu canábis, a que correspondeu à infância dos filhos, nos anos oitenta. "Consumir diariamente ou não depende do ciclo em que estou. Neste momento estou a escrever, não consumo. Mas quando estou a ensaiar estou sempre a fumar. É uma forma de estar concentrado." Irrita-o "andar a brincar aos cowboys com a polícia aos 63 anos e arriscar ir de cana". É ridículo, comenta: "Não devíamos ser forçados a lidar com pintas para comprar."

João Quadros, humorista, 53 anos, fuma “várias vezes por dia”, e quando está a trabalhar: “Como há quem beba uns copos, eu fumo enquanto escrevo”

Jorge, 53 anos, agente imobiliário, não podia concordar mais. Fumando "praticamente todos os dias" desde os 17/18, conta 35 ou 36 anos de consumo consistente. Efeitos? "Li tudo o que pude sobre a substância para ver o que podia ser problema, e não reconheço nenhum efeito em mim que não possa ser atribuído a outra coisa. Tenho falhas de memória, mas acho normal nesta idade. E imponho-me fases de abstinência regularmente. Fico duas ou três semanas sem fumar." E sente falta? "Claro que sinto. E como agora não estou numa fase muito boa profissionalmente ainda sinto mais, porque quando fumo sinto menos as agressões."

Um dos efeitos adversos mais comummente apontados em quem consome canábis com muita frequência é o síndroma amotivacional, uma indolência desinteressada, "mole", falta de iniciativa, dificuldade de concentração, problemas com as obrigações normais da existência, alheamento social. Jorge está atento: "Faço um esforço enorme de lucidez e no contacto com os outros para perceber se há alguma coisa diferente em mim. Mas já vi amigos terem um comportamento antissocial por causa disto. Tiveram de largar." Há porém um efeito indesmentível do fumar quotidiano: no bolso. São cerca de 150 euros por mês, mais coisa menos coisa. Compra como? "Eles vendem placas de 200 e compro meia. Tento arranjar alguém de confiança. Agora costumo comprar a um tipo que está desempregado e faz isto para ter com que pagar a renda. Confesso que me custa alimentar a economia paralela, acho esta situação uma estupidez, para mais com esta idade. Não posso sequer ter umas plantas no terraço, porque tenho um polícia no prédio, senão tinha."

Em casa, a filha, de 17, sabe desde os 11 que aqueles cigarros que o pai enrola não são só tabaco. Mas o convívio não parece tê-la contaminado: "Ela não fuma sequer tabaco. Ajudei-a a fazer as escolhas dela. Disse-lhe que ter fumado o primeiro cigarro foi a maior estupidez da minha vida. E comecei a afastar-me quando fumo."

Isabel, 52 anos, tem uma história similar. O facto de ser empresária impede-a de "dar a cara", mas voluntaria-se, por e-mail, para entrevista presencial: "Tenho uma porta aberta ao público e não posso ser identificada - é uma questão de prudência, não de cobardia, na minha vida pessoal não escondo -, mas falo porque me irrita profundamente que se meta a canábis no mesmo saco das drogas duras, deixando convenientemente de lado o álcool, quanto a mim bem mais nefasto. Posso passar o ano inteiro sem beber uma gota de álcool e sempre disse aos meus filhos que prefiro vê-los fumar um charro do que beber um whisky ou um shot! Infelizmente conheço de perto tanto o alcoolismo como a toxicodependência e creio que teremos todos a ganhar com a desmistificação da canábis. Àqueles que defendem que leva ao consumo de outras substâncias respondo que pelo contrário, se os miúdos não tivessem de ir comprar a vendedores sem escrúpulos, que aproveitam para lhes impingir outras coisas, essas sim perigosíssimas, talvez as coisas corressem melhor."

"Já levei ganza para a TV"

Mora a cem quilómetros de Lisboa, com o marido e dois filhos, de 22 e 15 anos, e tanto ela como o marido fumam diariamente, exceto quando viajam ("Não dá para passar fronteiras com substâncias ilícitas na bagagem", comenta com uma gargalhada). Costumam consumir à noite e "às vezes ou muito frequentemente depois do almoço". E porquê? Isabel reflete. "Acho que passa muito pelo ritual de enrolar a ganzinha. E claro que há um efeito relaxante. Mas não estamos a falar de consumos idiotas, uma pessoa não anda a fumar ganzas o dia inteiro. É um vício, sim, mas está ao nível do café ou do tabaco." Sequelas, sente? "Muitas vezes penso que a minha falta de memória pode vir daí. Mas tenho imensas amigas que não fumam e têm as mesmas brancas. Sem qualquer arrogância, tenho esta idade, dois filhos, e uma empresa que funciona há 20 anos; acho que não me prejudicou." E como é com os filhos? "Sempre nos viram fumar. Um dia, devia ter uns 12, o mais novo apareceu com um pacotinho de erva a perguntar o que era. Explicámos, dissemos que era ilegal e reagiram com muita naturalidade, nunca mais perguntaram nada. Mas nunca lhes disse: "Vamos lá fumar ganzas que é muito bom para a saúde." Acho que o mais velho experimentou mas não se interessa por isso, é supersaudável, não fuma, não bebe..." Aliás, prossegue Isabel, "o combate ao álcool devia ser muito mais importante, aceita-se que um miúdo de 14 anos apanhe uma bebedeira de caixão à cova".

Gustavo Godinho, 36 anos, operador turístico, aqui com a cadela, Catarina, nunca fuma quando trabalha. “Não dá para acordar, fumar duas ganzas e querer fazer coisas produtivas”

O humorista João Quadros, um ano mais velho do que Isabel, concorda: "Acho que dificilmente daqui a uns anos os meus filhos vão perceber que uma pessoa pudesse apanhar uma bezana com shots e ficar estendida no chão e não pudesse fumar uma ganza." Como Isabel, João tem dois filhos, de 10 e 12, uma rapariga e um rapaz. Ainda não teve uma conversa com eles sobre o assunto e nunca fuma quando estão presentes. "Evito estar ganzado quando estou com eles. Se quero que os meus filhos fumem? Não me importo, mas espero que saibam fazê-lo. E não serei daqueles pais que dizem "embora aí fumar uma ganza"." Afirmando "detestar vícios e dependências", só consome "drogas leves": "Metade da minha geração morreu por causa das drogas. Haxe é aquela coisa a meio. Não gosto de coisas em que deixe de me controlar. Comecei a consumir aos 18 e nessa altura havia haxixe a sério. Desde há uns 20 anos deixou de haver, só há bolota e pólen. A bolota é muito forte e muito cara. Geralmente fumo pólen. E a erva que há é skank [marijuana modificada em laboratório para ser mais potente]. Fuma--se e fica-se a olhar para a parede." Coisa que não convém a quem fuma para trabalhar: "Não tem a ver com ideias novas. Tens mais paciência para estar dentro do texto e ficas mais obsessivamente dentro do texto. Fumo várias vezes por dia. Como há pessoas que bebem uns copos, eu gosto de fumar enquanto trabalho."

Defensor da legalização, o humorista até já levou a substância para um programa de TV. "Foi na SIC Radical, quando a GNR andou a revistar as camionetas dos putos que iam de viagem de finalistas à procura de droga. Apanharam garrafas e garrafas de álcool e só quatro gramas de canábis, de modo que levei uma pedra de quatro gramas para mostrar, em pleno programa. O Pedro Boucherie [diretor do canal] dizia que não era verdadeira, e eu: "É, é ganza."" Ri-se. "É ridículo ser proibido. Já passei pelas piores coisas para comprar, inclusive ser roubado. Isto enquanto temos uma cultura de beber em todas as circunstâncias, incluindo no horário de trabalho." Ainda assim, não nega riscos. "Pode dar alguma dependência. Como tantas outras coisas. Se paro de fumar, e de vez em quando faço isso durante uns 15 dias, fico um bocado ansioso. E já houve alturas em que tive mesmo de parar. Sou meio bipolar e sei que por vezes o fumar me conduz a processos obsessivos. O meu psiquiatra diz que não é muito bom fumar quando estou nesses estados."

"Não é bom estar sempre mocado"

Fazer pausas no consumo para aferir da capacidade de controlo parece ser uma constante em quem fuma diariamente ou com muita frequência. Assim é também com Gustavo Godinho, 36 anos: "Há dias em que fumo duas vezes por dia, outros cinco, e semanas em que faço uma pausazinha para o corpo descansar." Tem uma empresa turística em Lisboa e, ao contrário de Quadros, quando está a trabalhar não fuma: "Ganzas a trabalhar não funciona. Claro que se pode acordar e fumar duas ganzas e querer fazer coisas produtivas, mas não dá. Já me aconteceu e não é bom." Depende, decerto, do que se faz na vida. Bernardo Fachada, conhecido como B Fachada, músico, 32 anos, também fuma todos os dias e reconhece na erva um potencial criativo. Mas nem sempre. "Nem toda a erva é criativa. A componente criativa é muito recente, tem que ver com o facto de a erva ter ficado muito mais forte [devido às modificações laboratoriais citadas]." De todos os entrevistados, é o único que vaporiza em vez de fumar. "A minha relação com a erva mudou muito desde que comecei a vaporizar. O ato de fumar é muito mais pesado, deixa muito mais problemas no corpo." Mostra o vaporizador, que comprou pela net: um tubo de metal prateado, com uma extremidade que se desenrosca e onde se coloca a erva. "É muito mais difícil ter consciência da própria tolerância quando se fuma. Com o vaporizador já não uso quantidades relevantes nem preciso de paragens longas. E gasto muito menos, uns 30 euros por mês." Uma das razões pelas quais as pessoas param, explica, para além da aferição da dependência - "que é psicológica, daí a importância de se saber que se mantém o controlo" -, é para voltarem a sentir com intensidade. "Porque acontece a tolerância à substância disparar para níveis em que já não se sente nada."

Bernardo Fachada, o músico conhecido como B Fachada, 32 anos, consome há dez. Agora, nos últimos dois anos, vaporiza em vez de fumar, e considera que é “menos pesado”. Defende uma legalização “à europeia”, com o Estado a controlar a venda, “como os nórdicos fazem com o álcool.”

Também músico, dois anos mais novo, Pedro está precisamente num momento de paragem: não consome há duas semanas. "Adoro fumar erva. Recreativamente é altamente. Mas pode dar dependência. Se tiver, passo a vida a fumar. Portanto, a minha solução é não ter. Se alguém com quem estou tiver posso fumar, se ninguém tem nem penso nisso." Não quer identificar-se, explica, não porque esconda o facto de consumir, mas porque não quer fazer a apologia: "É bué fixe mas não é assim tão fixe. Fumar não é bom, não é saudável." Já lhe sucedeu, numa altura em que viveu fora do país, fumar sem parar. "Foi fixe, só que não é assim tão bom estares sempre mocado. Para certas funções criativas é ótimo, para fazer arranjos de canções, por exemplo, quando precisas de estar mesmo livre. Tira-te o filtro. E aguento sessões de estúdio mais longas. Mas também se corre o risco de estar tudo uma merda e achares que está ótimo." Alguma vez teve medo de estar a ficar dependente? "Não. Mas fiquei com medo de passar a achar que precisava de fumar para fazer música. E acho que é assim que se torna um vício. Sei que não preciso, mas a questão é que te põe num sítio diferente, num mundo à parte, um mundo especial. É como o álcool, mas numa versão mais funcional." Começou a beber e a fumar relativamente tarde - "Na minha escola toda a gente fumava aos 16. Só comecei a beber aos 18, e só fumei o primeiro cigarro por essa altura. Sempre tive um bocado de aversão à ideia de ter de fumar e beber para me integrar"- e nunca experimentou outras substâncias, além do álcool: "Não sinto falta e se gostasse acho que correria um sério risco de me passar para o outro lado. Ninguém lixa a vida toda por causa de ganzas."

Há quem conteste isso. Caso de Ricardo, 40 anos, emigrado nos EUA. Começou a fumar diariamente a partir dos 21, quando foi para a faculdade, longe da terra natal. E foi aí, diz, que as coisas se complicaram. "Sempre gostei do efeito da erva, a maneira como expande o cérebro. Na altura andava a reler Eça e, lembro-me, apontava nas margens os paralelismos com a sociedade e os tempos que corriam. (A Relíquia com moca da erva é um fartote de rir.) Mas rapidamente tudo deixou de ter graça. Como vim a descobrir anos mais tarde, a entrada na universidade, a distância para com o núcleo familiar e amigos de sempre, desencadeou uma depressão que continuou a agravar-se enquanto se agravava o consumo de álcool e haxixe. No segundo ano da universidade já ia para as aulas sob o efeito da droga. A droga aliada à depressão isolou-me." Casou-se e desistiu da universidade. Com a mulher, fumavam "duas ou três ganzas por noite, depois do trabalho"

Gastavam cerca de 20 euros por dia (600 por mês) e, acumulando dívidas, Ricardo começou a desfalcar a empresa em que trabalhava. "Nessa altura já só fumava para me alienar. Em 2009, dei o berro. Começaram os ataques de pânico, os vómitos constantes, o deixar de comer e o perder peso. O casamento, que há muito não andava bem, acabou." Confessou-se ao patrão e foi despedido. Pesava 43 quilos quando finalmente, após uma cirurgia no hospital, lhe marcaram uma consulta de psiquiatria. "A psiquiatra disse-me que nunca ia curar a depressão enquanto continuasse a fumar, porque o THC [o princípio ativo da canábis] acaba por ter um efeito depressivo e, além disso, enquanto fumasse era impossível organizar a minha vida, fator indispensável para a cura da depressão." Parou de fumar quando emigrou, em 2012. "Nos primeiros dois anos não toquei em nada. Mas tenho a depressão controlada e a anorexia curada e voltei a fumar há dois anos. Agora fumo pelo prazer da moca, limito-me a dar três bafos no cachimbo uma vez por semana. Ver a Fox News com a moca dá-me quase tanto gosto como ler A Relíquia." Conclui: "A erva tem os seus encantos, no entanto não deixo de sorrir quando leio ou ouço alguém dizer que não tem nem traz coisas más."

"Faz sorrir às portas da morte"

É inevitável concluir que tudo depende das pessoas. Há quem toda a vida beba álcool e nunca fique alcoólico ou sequer se embebede; há quem morra de cirrose. De acordo com o estudo citado, foram 2,8% as pessoas que, tendo consumido canábis ao longo da vida, sentiram necessidade de recorrer a ajuda. Não chegaram a 1% (0,8) aquelas que associaram o consumo a não realização de atividades importantes e menos ainda (0,7) a problemas de saúde. É quase inexistente o número dos que reconhecem mau rendimento escolar ou profissional (0,1%). O forte desejo pela substância e não resistência (2,9%) e o seu menor efeito (2,4%) são as alíneas com mais queixas. E há 10% dos consumidores que não conseguem imaginar a sua vida sem a canábis. O estudo conclui que 0,7% da população residente em Portugal, ou seja, 70 mil pessoas, "apresenta sintomas de dependência do consumo de canábis". Trata-se de um décimo dos que assumiram ter consumido ao longo da vida e de um terço dos que consumiram no último ano. E se o número dos que pedem ajuda por causa da dependência de canábis está a aumentar, mantém-se muito baixo: em 2015 foram contabilizadas 2637 pessoas em tratamento por consumo desta substância; em 2014 tinham sido 2315 e em 2013 foram 2045.

Justificarão estes números a proibição por motivos de saúde? Para Manuel, 39 anos, residente em Vila Real e estudante de Enfermagem, nem pensar: "É estúpido." Defende aliás que a substância deve ser legalizada precisamente por motivos de saúde. "Tive um grande amigo que estava com cancro no fígado e fumava. Via nos olhos dele o antes e o depois. Imagine que está às portas da morte e há algo que a põe bem-disposta, a faz sorrir e ser capaz de estar com os seus filhos, mesmo sabendo que vai morrer. Não há medicação química que dê esse efeito. É daqueles assuntos que nem têm discussão." Daí que Manuel, que fuma de vez em quando com a mulher, também enfermeira, e os amigos ("A última vez que fumei foi no concerto dos Waterboys, com a minha mulher e um grupo de amigos que incluía professores universitários e outra gente de bem"), e é apologista da legalização, preconize que se comece pela legalização por razões médicas.

Alberto Lopes, artista, 63 anos, começou a fumar aos 17, antes do 25 de Abril. Crê que “não há qualquer fundamento científico para proibir ou para tratar isto como comportamento desviante. Há um fundo de fé, ou moralista”

O consumo de canábis por motivos médicos, legalizado em 29 estados americanos, é, de acordo com os resultados de uma revisão recente de milhares de estudos, eficaz no alívio das náuseas relacionadas com a quimioterapia, na redução dos espasmos da esclerose múltipla e no alívio da dor crónica. Mas os consumidores garantem outras benesses. B Fachada, que conhece quem, estando a fazer quimioterapia, se tenha inscrito num "clube de canábis" catalão para ter acesso à substância de forma segura, crê que fumar "ajuda a lidar com a ansiedade, o stress, as "dores de músico", tendinites, toda a parte de desgaste físico da profissão". Ana, 52 anos, funcionária da banca privada, recomeçou a consumir, depois de muitos anos sem tocar em canábis, para aliviar sintomas de "uma pré-menopausa horrível": "Tinha problemas para dormir, passei por períodos de quase anorexia, e aquilo regularizou-me o sono. Também me ajuda com as dores nas costas, cheguei a estar quase entrevada."

Tinha experimentado aos 17, numa altura em que, admite, provou "praticamente todas as drogas". Depois, ter sido mãe muito cedo (aos 19) e tido de ser autossuficiente levou-a a abandonar consumos. "Só voltei a consumir quando as minhas filhas estavam na faculdade." Fuma habitualmente ao chegar a casa do trabalho, ou antes de dormir. Como Manuel, acha que se deve começar pela legalização do uso terapêutico. Admitindo, porém, que o consumo possa de algum modo prejudicar-lhe aspetos da saúde enquanto melhora outros, questiona: "Com quem é que falo sobre isso? A que médico? Como sei que está informado e que o meu diagnóstico de outras coisas não poderá ser afetado, por causa dos preconceitos e da falta de informação?"

31.5.16

Outras tendências no tráfico e consumo de drogas

Natália Faria, in Público on-line

Do tráfico por via electrónica às novas drogas sintéticas, muito continua mudar na oferta de drogas na Europa e no mundo.

Tráfico vale 24,3 mil milhões de euros

O mercado retalhista de drogas ilícitas na União Europeia valia 24,3 mil milhões de euros em 2013, de acordo com uma estimativa conservadora do Observatório Europeu da Droga e da Toxicodependência. Os produtos de cannabis, com um valor retalhista estimado de 9,3 mil milhões de euros, eram responsáveis por 38% do mercado total, constituindo assim a maior quota do mercado europeu de drogas ilícitas. Seguiam-se a heroína, com um valor estimado de 6,8 mil milhões de euros, e a cocaína, com um valor estimado de 5,7 mil milhões. A América do Sul, a Ásia Ocidental e o Norte de África são origem de grande parte das drogas ilícitas que entram na Europa, sendo as novas substâncias psicoactivas oriundas da China e da Índia. Mas a Europa também é uma região produtora de cannabis e drogas sintéticas: “a primeira é sobretudo produzida para consumo local, enquanto algumas drogas sintéticas se destinam à exportação”.

Na última década, uma percentagem cada vez mais significativa do tráfico faz-se por via electrónica, seja na Internet “de superfície”, com a venda de químicos precursores não controlados, de novas substâncias psicoactivas ou de medicamentos falsificados ou contrafeitos. Mas o comércio ilegal de drogas opera também na Internet “oculta” (deep web), através de mercados privados ou encriptados, como o Alphabay ou o extinto Silk Road. Com características muito semelhantes ao eBay ou à Amazon, mas dedicados à venda de serviços e bens ilícitos, estes mercados privados protegem a privacidade dos utilizadores com recurso a tecnologias cada vez mais avançadas. E tendem a crescer nos próximos anos.
Apreensões: cannabis no topo da lista

A cannabis é a droga com maior número de apreensões, correspondendo a mais de três quartos das apreensões efectuadas na Europa (78%). A cocaína ocupa o segundo lugar (9%), seguida pelas anfetaminas (5%), pela heroína (4%) e pela MDMA (2%). Ainda quanto à cannabis, e entre marijuana e haxixe, em 2014 foram notificadas 682.000 apreensões na União Europeia. Nesse mesmo ano, Portugal somou 4.027 apreensões de haxixe e marijuana, para um total de 32.985 quilos daquela substância apreendidos.

A Espanha, porém, continua a ser um importante ponto de entrada na Europa da cannabis produzida em Marrocos, tendo sido por isso responsável por dois terços da quantidade total apreendida na Europa em 2014. Aliás, a Espanha foi, juntamente com o Reino Unido, responsável por cerca de 60% das apreensões realizadas na União Europeia. Os dados relativos às apreensões apontam também para um crescimento continuado do mercado de novas drogas. Em 2014, foram efectuadas quase 50.000 apreensões de novas substâncias em toda a Europa, com um peso aproximado de quatro toneladas. E os canabinoides sintéticos foram responsáveis pela maioria das apreensões (quase 30.000, o equivalente a 1,3 toneladas)
Oferta de heroína volta a crescer

O Afeganistão continua a ser o maior produtor ilegal de ópio a nível mundial e o maior fornecedor da heroína encontrada na Europa. Contudo, a descoberta de dois laboratórios de conversão de morfina em heroína em Espanha e na República Checa levou os autores do relatório a apontar a possibilidade de a heroína estar também a ser fabricada actualmente na Europa. Os dados relativos ao número de apreensões de heroína apontam para um declínio de cerca de 50.000 apreensões em 2009 para apenas 32.000 em 2014. A quantidade de heroína apreendida também revelou um declínio, tendo passado de 10 toneladas em 2002 para cinco toneladas em 2012. Porém, em 2014, a quantidade de heroína apreendida voltou a subir para as 8,9 toneladas, com vários países a registar apreensões recorde de heroína em 2013 e 2014. Existe assim “um potencial para uma maior oferta desta droga”, lê-se no relatório, consubstanciado também no facto de a pureza daquela substância ter aumentado em 2014.
Detectadas 98 novas substâncias em 2015

Em 2015, o Observatório Europeu da Droga e da Toxicodependência detectou 98 novas substâncias psicoactivas. Elevou-se assim para 560 o número de novas substâncias monitorizadas por aquele organismo, das quais 380 (70%) foram detectadas nos últimos cinco anos. Entre os psicoactivos (catinonas sintéticas, fenetilaminas, opiáceos, benzodiazepinas…), destacam-se os 160 novos canabinoides sintéticos detectados desde 2008, incluindo os 24 novos canabinoides comunicados em 2015. Os canabinoides sintéticos são vendidos como substitutos “legais” da cannabis e podem ser publicitados como uma “mistura exótica de incenso” e “não destinado a consumo humano”, numa tentativa de contornar as leis de defesa do consumidor e dos medicamentos. As autoridades europeias reiteram, por isso, a preocupação com a rapidez com que os produtores conseguem colocar novos canabinoides no mercado, logo que os produtos existentes são sujeitos a medidas de fiscalização.
MDMA com 6,1 milhões de comprimidos apreendidos

Os comprimidos de ecstasy voltaram a ser o principal produto de MDMA presente no mercado europeu. Após um período em que os relatórios sugeriam que a maioria dos comprimidos vendidos como ecstasy não continha MDMA (ou apenas a continham em doses reduzidas), os dados mais recentes sugerem que essa situação mudou e apontam um aumento de oferta, tanto de comprimidos de MDMA de dosagem elevada, como sob a forma de pó ou cristais. Sem surpresas, os autores do relatório apontam o recrudescimento da sua produção, tradicionalmente concentrada em redor dos Países Baixos. Os dados disponíveis estimam que poderão ter sido apreendidos 6,1 milhões de comprimidos de MDMA na Europa em 2014.


17.3.16

Drogas matam 200 mil pessoas por ano

Nuno Noronha, in "Sapo Lifestyle"

Quase 200 mil pessoas morrem anualmente devido ao consumo de narcóticos ilegais, entre sobredoses e outros problemas associados, afirmou esta segunda-feira, em Viena, o diretor executivo do Escritório das Nações Unidas sobre Drogas e Crime (UNODC, no acrónimo inglês).

Yuri Fedotov falava na abertura de uma reunião da Comissão de Estupefacientes das Nações Unidas (CEONU), iniciada esta segunda-feira na capital austríaca, que conta com a presença de ministros e de altos responsáveis de 53 países e de numerosas instituições e organismos internacionais, com vista a consensualizar posições para a próxima sessão especial sobre drogas da Assembleia Geral da ONU, de 19 a 21 de abril.

Segundo Fedotov, atualmente existem 27 milhões de toxicodependentes com problemas graves de saúde, em que 12 milhões deles utilizam drogas injetáveis, como a heroína.

O diplomata russo sublinhou que o tráfico de drogas e as enormes receitas que gera constituem um "grande problema" em várias regiões do mundo, entre elas, destacou, a América Central.

"As crescentes ligações entre os grupos do crime organizado e a violência extremista e terrorista estão a sair beneficiados pelo tráfico de drogas", lembrou Fedotov, que lamentou que os programas de prevenção, tratamento e reabilitação de consumidores "continuem escassos em muitos países".

Apelando aos vários países para que apliquem medidas baseadas no respeito pelos direitos humanos, com base em programas de prevenção e de reinserção social, Fedotov realçou que há alternativas à detenção por delitos menores, como a posse de droga para consumo pessoal.

Com essas medidas, sublinhou, evitar-se-á que os indivíduos vulneráveis na prisão possam ser recrutados por criminosos ou mesmo por terroristas.

Fedotov destacou também que a aplicação da pena de morte por delitos relacionados com drogas "não está nem na letra nem no espírito das convenções internacionais".

Numerosas organizações não governamentais mostraram-se críticas ao atual enfoque internacional no combate ao tráfico de drogas e têm defendido uma revisão na próxima reunião da Assembleia Geral da ONU, em abril, a primeira em quase duas décadas.

Segundo um relatório recente da ONG Harm Reduction International, com sede em Londres, anualmente, em todo o mundo, são investidos 100 mil milhões de dólares (cerca de 89.670 milhões de euros) no combate repressivo às drogas, quando 83% dos delitos relacionados com estupefacientes são apenas a posse de pequenas quantidades para consumo próprio.

Apesar dos esforços internacionais, o número de consumidores aumentou quase 20%, passando de 206 milhões em 2006 para 246 milhões em 2013, indica a ONG britânica, citando dados das próprias Nações Unidas.

4.6.15

Cannabis é a droga com mais dependentes em Portugal

in Jornal de Notícias

Nos últimos três anos os pedidos de ajuda relacionados com o consumo de cannabis suplantaram os ocasionados pelo uso da heroína ou da cocaína, sendo essa a "grande mudança" no que diz respeito à droga.

Palavras do responsável do Observatório Europeu da Droga e da Toxicodependência, João Goulão, esta quinta-feira a propósito do lançamento do Relatório Europeu sobre Drogas de 2015, em Lisboa.

Em declarações aos jornalistas após a apresentação do relatório, João Goulão lembrou que "a realidade portuguesa foi muito marcada pela presença da heroína, durante muitos anos", e que, em Portugal e no resto da Europa houve um decréscimo da importância da heroína e uma "importância crescente" da cannabis.

"Esta é talvez a grande mudança" - disse João Goulão - traduzida nos pedidos crescentes de ajuda nos centros de tratamento, e que tem a ver com a perda de importância da heroína e da cocaína "mas também com as alterações na própria cannabis, que hoje tem uma potência muito superior ao que era tradicional" e que está "longe" de ser considerada uma "droga leve" como no passado foi caracterizada.

João Goulão defendeu a importância de se fazer a distinção entre o uso terapêutico e recreativo do cannabis e disse que não tinha "qualquer resistência" a que se possa usar clinicamente o cannabis, desde que se mostre cientificamente os benefícios em determinadas situações clínicas.

Mas insistiu no facto, como de resto vem no relatório hoje divulgado, de a cannabis (planta de onde sai a chamada vulgarmente marijuana e a resina de cannabis ou haxixe) estar cada vez mais potente. Se há alguns anos tinha uma potência relativa, com três por cento de substancia psicotrópica, o tetrahidrocanabinol (THC), hoje "há plantas com 20 por cento de THC", disse.

A grande consequência é a criação de dependência, aliada a casos de surtos psicóticos ou ataques de pânico ou outros, alertou.

Com níveis de consumo de drogas em Portugal abaixo da média europeia, João Goulão salientou os números ainda elevados mas com "descida consistente" de infeções por HiV junto dos usuários de drogas, e defendeu que é preciso prestar muita atenção à vende de drogas através da internet.

Dimitris Avramopoulos, comissário europeu responsável pela Migração, Assuntos Internos e Cidadania, que presidiu à cerimónia de apresentação do relatório, também falou da preocupação de que a internet se esteja a tornar "numa nova fonte de oferta de substâncias psicoativas".

"O relatório mostra que estamos confrontados com um mercado de drogas globalizado, em rápida mudança, e por isso é necessário estarmos unidos, sermos rápidos e determinados na nossa resposta face a esta ameaça", disse, afirmando depois aos jornalistas que há uma ligação entre contrabando de pessoas e de droga já que ambos são inimigos da Europa.

30.3.15

Consumo diário de canábis aumenta cinco vezes o risco de psicose

in SicNotícias

O consumo de canábis em doses diárias e muito fortes aumenta cinco vezes o risco de psicose, revela um estudo realizado no Reino Unido, que teve a participação do investigador e médico português Tiago Reis Marques.
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O estudo, conduzido pelo Instituto de Psiquiatria, Psicologia e Neurociências do King's College de Londres, concluiu, ainda, que um em cada quatro novos casos de psicose se deve à ingestão diária de canábis de "alta potência".

"A canábis é uma droga, é uma substância que tem um efeito pernicioso. A mensagem de que faz mal tem de passar", afirmou à Lusa Tiago Reis Marques, coautor da investigação, assinalando que "o que está a chegar à rua é uma planta muito mais forte".

A equipa, liderada pelo psiquiatra escocês Robin Murray, analisou uma amostra de mais de 400 doentes de várias idades, do sul de Londres, que acorreram entre 2005 e 2012, pela primeira vez, ao instituto com sintomas de psicose e com historial de consumos de canábis.

Os resultados obtidos foram comparados com um grupo de controlo de 370 pessoas saudáveis.

Segundo Tiago Reis Marques, o estudo revelou que o risco de psicose aumenta nos doentes psicóticos proporcionalmente à frequência do consumo e à potência da droga ingerida, chegando a ser cinco vezes superior num dos grupos de pacientes, de 103 elementos - que fumavam diariamente canábis muito forte, com alto teor de tetrahidrocanabinol.

O psiquiatra enfatizou que, apesar de a investigação se centrar na população de Londres, as suas conclusões "seriam as mesmas" se fosse feita noutra cidade, ou noutro país.

O estudo foi publicado esta semana na revista The Lancet Psychiatry.

Depois deste trabalho, Tiago Reis Marques pretende analisar os efeitos da canábis no cérebro de pessoas saudáveis.

Lusa

7.1.15

Cinco pessoas por dia iniciaram tratamento contra a toxicodependência em 2013

in Diário de Notícias

Os pedidos de ajuda vêm de pessoas cada vez mais jovens, e aumentam os casos relacionados com a cannabis.

Mais de cinco pessoas por dia iniciaram tratamento contra a toxicodependência em 2013, verificando-se uma tendência de aumento de pedidos de ajuda de pessoas cada vez mais jovens e por causa da cannabis, segundo um relatório hoje apresentado.

Nesse ano, estiveram em tratamento, em regime de ambulatório da rede pública, 28.133 utentes com problemas relacionados com o uso de drogas, revela o relatório anual "A situação do país em matéria de drogas e toxicodependência 2014", do Serviço de Intervenção nos Comportamentos Aditivos e nas Dependências (SICAD).

Dos que iniciaram tratamento em 2013, 2.154 eram readmitidos e 1.985 fizeram-no pela primeira vez, constatando-se nos últimos quatro anos "uma tendência para o aumento de novos utentes, cerca de metade dos quais tendo como droga principal a cannabis".

Em 2013, as Unidades de Desabituação (unidades para internamentos de curta duração) registaram 1.631 internamentos (1.535 em redes públicas e 96 em redes licenciadas), 55% dos quais por problemas relacionados com o uso de drogas.

O número de internamentos em Comunidades Terapêuticas (instituições para internamento prolongado) foi de 3.534 (127 em públicas e 3.407 em licenciadas), 71% por problemas relacionados com o uso de drogas.

Quanto aos consumos, a heroína continua a ser a droga principal mais referida, exceto entre os novos utentes em ambulatório, em que foi a cannabis (49%), e os utentes das Comunidades Terapêuticas públicas, em que predominou a cocaína (61%).

O relatório destaca um aumento de utentes que referem a cannabis e a cocaína como drogas principais, nos últimos três anos, face aos anos anteriores.

O documento aponta também para "evidentes" reduções de consumo recente de droga injetada (prevalências entre 3% e 25% nos utentes das diferentes estruturas, em 2014) e de partilha de material deste tipo de consumo, existindo no entanto, "bolsas de utentes" ainda com prevalências elevadas destas práticas.

Por outro lado, e sobretudo nos quatro últimos anos, constata-se uma maior heterogeneidade nas idades dos utentes que iniciaram tratamento no ambulatório, com um grupo cada vez mais jovem de novos utentes e, outro, de utentes readmitidos, cada vez mais envelhecidos.

No âmbito do tratamento em sistema prisional, em 2013 estiveram integrados em Programas Orientados para a Abstinência 185 reclusos e 466 estavam em Programas Farmacológicos.

Segundo o relatório, verifica-se uma tendência de decréscimo de reclusos nos Programas Orientados para a Abstinência, mas em contrapartida, e sobretudo a partir de 2009, constata-se um aumento de reclusos em Programas Farmacológicos, seja da responsabilidade dos estabelecimentos prisionais, seja em articulação com estruturas de tratamento exteriores.

25.9.13

40% dos universitários já consumiram canábis

por Patrícia Jesus, in Diário de Notícias

Quarenta por cento dos alunos da Universidade de Lisboa já consumiram canábis pelo menos uma vez e o número dos que tinham consumido no último mês ronda os 11%. Dados bem acima das médias da população geral, revelados hoje no estudo Consumos e Estilos de Vida no Ensino Superior.

O estudo feito junto de mais de três mil alunos da Universidade de Lisboa, no âmbito dos projeto ComSUMOS Académicos, foi apresentado esta terça-feira, na Reitoria da Universidade de Lisboa.

Para o presidente do Conselho Nacional de Juventude (CNJ), a entidade responsável pelo projeto, é preocupante que 25% dos quase 3327 jovens que responderam ao inquérito considerem que o consumo de canábis "é pouco ou nada prejudicial para a saúde".

O consumo de álcool no último mês também é significativo: 72,6% dos que responderam ao inquérito admitiram ter bebido. É de destacar que 37% dos estudantes assumiram ter bebido cinco ou mais copos na mesma ocasião no mês anterior.

"Não queremos fazer nenhuma caça às bruxas, mas é importante compreender a realidade para poder minimizar os consumos nocivos", explica o presidente da CNJ.

Para o presidente da Associação Académica da Universidade de Lisboa, André Machado, é de destacar pela positiva o facto de "o consumo de drogas, nomeadamente de drogas pesadas, ser muito pouco significativo".

Quanto ao consumo de álcool, o jovem reconhece que as associações de estudantes "têm de repensar aquilo que é a sua responsabilidade social", nomeadamente na promoção de festas. "Não vamos deixar de fazer festas, mas precisamos de repensar o seu funcionamento e a política de preços."

André Machado destaca também que 46,7% dos jovens disseram que o seu estilo de vida se tornou menos saudável após a entrada na universidade. Apenas 40% dos que responderam ao inquérito praticam desporto regularmente.

5.9.13

Plano para reduzir 10% do consumo de drogas em três anos

Ana Cristina Pereira, in Público on-line

O objectivo é reduzir a prevalência de consumo de drogas ilícitas de 2,3% para 1,8% até 2020. O consumo nocivo de álcool deverá cair de 5,1% para 4,6%.

Entrou esta sexta-feira em discussão pública o Plano Nacional para a Redução dos Comportamentos Aditivos e das Dependências. A estratégia, que deverá vigorar entre 2013 e 2020, dirige-se às adições com e sem substâncias psicoactivas, tem em conta os vários ciclos de vida e estabelece metas quantitativas: a prevalência de consumo de drogas em Portugal terá de diminuir 10% nos próximos três anos.

Das avaliações ao Plano Nacional Contra a Droga e as Toxicodependências 2005/2012 e ao Plano Nacional para a Redução dos Problemas Ligados ao Álcool 2010/2012 resultou a opção de alargar a estrutura de coordenação aos comportamentos aditivos que não o álcool e as drogas ilícitas.

O atraso na apresentação do plano é imputado à mudança que, em Dezembro de 2011, extinguiu o Instituto da Droga e da Toxicodependência e criou o Serviço e Intervenção nos Comportamentos Aditivos e Dependências (SICAD), transferindo para as administrações regionais de saúde a resposta ao fenómeno.

Segundo o documento, acessível no portal da saúde, “a estratégia seguida e os modelos utilizados constituem a base de uma política pública adequada, que carece de melhoria e de investimento”. Delineou-se então esta nova estratégia, partindo do princípio que o orçamento não encolherá.

O texto é uma espécie de tratado sobre dependências. Está muito orientado para a redução da oferta e da procura. E deverá ser complementado com planos de acção baseados em diagnósticos.

A estratégia, agora em debate, propõe que a intervenção que faça atendendo aos contextos sociais e aos ciclo de vida. Esses ciclos compreendem a gravidez, o período pré-natal, as crianças até nove anos, as crianças e jovens dos 10 aos 24, os adultos dos 25 aos 64 e os idosos a partir dos 65. O objectivo é reduzir todas as dependências em todas as idades.

As prevalências de consumo de bebidas alcoólicas e drogas ilícitas variam em função do sexo, do tipo de substância e da idade. Os rapazes tendem a experimentar primeiro do que as raparigas e a usar mais ao longo da vida.
Os dados disponíveis mostram como o consumo se pode tornar problemático muito cedo. Estima-se que entre 2006 e 2010 tenha havido 222 casos de Síndrome Alcoólica Fetal por cada dez mil nascimentos Só em 2011, terão sido diagnosticadas 12 casos de cirrose e hepatite alcoólica de crianças até nove anos.

O objectivo é reduzir a prevalência de consumo de qualquer droga ilícita de 2,3% para 1,8% até 2020. As metas de redução traçadas para o consumo nocivo de bebidas alcoólicas não são menos ambiciosas: em três anos, as situações de embriaguez a prevalência devem passar de 5,1% para 4,6%.


27.7.13

Droga da austeridade invadiu Atenas

Micael Pereira, in Expresso

É tão forte como o 'crack', mas é mais destrutiva e é dez vezes mais barata. Chama-se sisa e para já é um fenómeno apenas grego.

A sisa, como é conhecida entre traficantes e consumidores, está a ser vendida nas ruas de Atenas por cinco ou seis euros a grama, dez vezes menos do que o 'crack' Getty Images A sisa, como é conhecida entre traficantes e consumidores, está a ser vendida nas ruas de Atenas por cinco ou seis euros a grama, dez vezes menos do que o 'crack'

Foi detectada pela primeira em 2011 e o seu consumo está a subir vertiginosamente desde o início de 2013, segundo Emilios Katsoulakos, psiquiatra e diretor de uma das unidades que a OKANA, Organização Grega Contra as Drogas, tem a funcionar em Atenas.

A sisa, como é conhecida entre traficantes e consumidores, está a ser vendida nas ruas da capital da Grécia por cinco ou seis euros a grama, dez vezes menos do que o crack.

Feita a partir de uma substância sintética estimulante, a metanfetamina, a sisa produz efeitos parecidos com o crack, mas as suas consequências para a saúde são ainda piores. "Ainda não temos informação suficiente para caracterizar com rigor a sisa, mas eu diria que existem determinados efeitos laterais provocados pelo seu consumo, nomeadamente os sintomas psicóticos e os problemas de pele, que são mais severos do que os observados com o crack", admite a especialista Ionna Siamou, do Instituto Universitário de Investigação de Saúde Mental (UMHRI), o organismo responsável pela monitorização oficial de drogas na Grécia.

25.7.13

Papa falou da importância da educação contra o consumo de drogas

in Sol

O Papa Francisco mostrou-se contra a legalização do consumo de drogas, dizendo que é preciso enfrentar os problemas que estão na base da sua utilização, educando os jovens com os valores da vida comum.

O líder católico fez estas declarações durante a sua visita ao hospital São Francisco de Assis na Providência de Deus, no Rio de Janeiro, onde inaugurou o novo centro para a recuperação de toxicodependentes, sobretudo dependentes do crack.

"Não é na liberalização do consumo de drogas, como se está a discutir em várias partes da América Latina, que se poderá reduzir a propagação e a influência da dependência química", disse, sublinhando que "é preciso enfrentar os problemas que estão na base do seu uso, promovendo uma maior justiça, educando os jovens nos valores que construam a vida comum, acompanhando os necessitados e dando esperança para o futuro".

Francisco condenou "a praga do narcotráfico", que favorece a violência e que promove a dor e a morte

O Papa referiu que é necessário olhar com os olhos do amor de Cristo e aprender a abraçar aqueles que estão necessitados, para expressar proximidade, afecto e amor.

"Mas abraçar não é suficiente, estendamos a mão a quem se encontra em dificuldade, a quem caiu no abismo da dependência, talvez sem saber como dizer-lhe: podes levantar-te, podes subir, vai custar, mas podes conseguir, se quiseres de verdade", sublinhou.

Francisco lançou uma mensagem de esperança aos jovens toxicodependentes, mas disse que é imprescindível que desejem sair desta situação.

"Encontrarás a mão estendida de quem quer te ajudar, mas ninguém pode subir por ti, entretanto, nunca estas sozinho", disse, assegurando que a Igreja e muitas pessoas estão com eles.

Francisco apelou para um olhar de confiança para o futuro.

"A travessia é longa e cansativa, mas veja mais à frente, há um futuro certo, que se encontra numa perspectiva diferente das propostas ilusórias dos ídolos do mundo, mas que dá um impulso e uma força nova para viver a cada dia", acrescentou.

O Papa foi recebido no hospital, no bairro da Tijuca, pelo arcebispo do Rio de Janeiro, Orani Tempesta, e recebeu uma estátua de São Francisco, feita pelos toxicodependentes em tratamento.

Ex-toxicodependentes, emocionados, relataram ao Papa a sua luta contra as drogas.

O Papa Francisco, que realiza sua primeira viagem internacional desde que se tornou papa, está no Brasil para a 28.ª Jornada Mundial da Juventude (JMJ) no Rio de Janeiro, que decorre até ao domingo.

Ontem, em Aparecida, no interior de São Paulo, o Papa celebrou uma missa no Santuário de Nossa Senhora Aparecida e abençoou a estátua de Frei Galvão - tornado santo em 2007 - no seminário de Bom Jesus, local onde almoçou com cerca de 60 pessoas do clero e descansou antes de voltar ao Rio de Janeiro.

Ainda em Aparecida, o Papa disse que voltará ao Brasil em 2017, ano em que Santuário Nacional vai comemorar os 300 anos da descoberta da imagem de Nossa Senhora no Rio Paraíba.

Lusa/SOL

4.7.13

Reincidências na heroína quase triplicaram

Dina Margato, in Jornal de Notícias

Os antigos consumidores de heroína voltaram a esta droga. Quase triplicaram em três anos. O álcool e a cocaína seguem igual tendência. A relação com a crise é reportada pelos técnicos no terreno.

Os dados foram apresentados, esta quarta-feira, por Manuel Cardoso, subdiretor geral dos Serviços de Intervenção nos Comportamentos Aditivos e nas Dependências (SICAD), numa audição parlamentar sobre os problemas relacionados com o álcool. Em 2010, os que voltaram a pedir ajuda às unidades de tratamento chegaram aos 1008. Em 2011, subiram para 1843 e, no ano passado, atingiram os 2881. Este ano, no primeiro semestre, parece assistir-se a um abrandamento, com 856 registos.

O retrocesso a lembrar padrões antigos, assinala João Goulão, presidente do SICAD, traduz o que os técnicos iam comunicando e reflete o agravar das condições económicas destes grupos por natureza vulneráveis ao desemprego e outras adversidades. Outros relatos dão conta de utentes que interrompem tratamento por dificuldade em deslocarem-se.

11.3.13

ONU estima até 253 mil mortes anuais causadas pelo consumo de drogas

in iOnline

As Nações Unidas estimam que as mortes anuais causadas pelo consumo de drogas no mundo possam atingir até 253 mil pessoas, com os derivados do ópio a revelarem-se como as mais letais, revela um relatório divulgado hoje.

“Estima-se que entre 99 mil a 253 mil mortes possam estar associadas ao uso de drogas ilícitas, e a maioria dessas mortes, que poderia ser evitada, resultou de ‘overdose’ de opiáceos”, afirma o relatório do escritório da ONU contras as Drogas e o Crime (ONUDC).

O documento, citado pela agência espanhola Efe, foi entregue pela organização aos países que participam esta semana na Comissão de Estupefacientes das Nações Unidas e adverte para o aumento do uso de narcóticos na América Latina, África e Ásia.

As zonas do mundo com mais mortes relacionadas com drogas são a América do Norte e a Oceânia, um em cada 20 mortos entre as pessoas com idades entre os 15 e os 64 anos, o que a organização explica nao só pelo maior consumo como também pela melhor monitorização e comunicação dos dados.

"Os opiáceos continuam a provocar os maiores prejuízos a nível mundial, a julgar pela procura de tratamento, pelo consumo por injeções e pelas infeções por VIH, assim como pelas mortes relacionadas" a essa substância, assegura o relatório.

A planta de cannabis é a droga que mais se consome a nível mundial, seguida pelas anfetaminas e seus derivados.

Segundo o relatório, se os consumos de estupefacientes tradicionais, como a cocaína, a heroína ou o cannabis, estabilizaram ou mesmo reduziram nos Estados Unidos e na Europa, o mesmo não aconteceu em partes da América do Sul, África e Ásia, onde têm vindo a crescer.

Em 2010, este departamento da ONU calculava que “de 153 a 300 milhões de pessoas, ou seja, de 3,4 a 6,6 por cento das pessoas com idades entre os 15 e os 64 anos em todo o mundo”, tinham consumido algum tipo de droga pelo menos uma vez no ano.

Quanto aos considerados “consumidores problemáticos de drogas”, este organismo estimava que entre 15,5 e 38,6 milhões de pessoas usam de forma habitual cocaína ou derivados do ópio ou mesmo ambos.

Os consumidores de narcóticos injetáveis, os mais perigosos, ascendem a entre 11 e 22 milhões de pessoas e, só para a cocaína, estima-se que em 2010 houve entre 13 a 19,5 milhões de consumidores, sublinha o documento, que alerta para o facto de apenas 20 por cento dos casos mais problemáticos terem acesso a tratamentos.