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25.1.22

Cerca de 13 mil idosos em lares votam antecipadamente

in RTP

Os residentes em lares já começaram a votar para as legislativas. A votação dos idosos decorre esta terça e quarta-feira. Inscreveram-se perto 13 mil eleitores.

O processo eleitoral é acompanhado por equipas municipais, que recolhem os votos.


26.7.19

Do IRS às creches: o que PS negou à “geringonça” e agora promete nas legislativas

Helena Pereira, in Público on-line

O programa eleitoral dos socialistas inclui várias propostas idênticas a outras que os parceiros de esquerda apresentaram nesta legislatura e que o PS ajudou a chumbar.

Votou contra no passado, promete agora para o futuro. É o que aparentemente o PS faz no seu programa eleitoral, analisado à lupa. Algumas medidas que agora os socialistas propõem foram negadas aos seus parceiros de “geringonça”, PCP e BE, na legislatura que está a terminar.

Englobamento de IRS
Esta é uma das medidas mais flagrantes. O PS propõe no seu programa eleitoral “caminhar no sentido do englobamento dos diversos tipos de rendimentos em sede de IRS, eliminando as diferenças entre taxas”. Ora, esta é uma antiga reivindicação do PCP que esteve presente, por exemplo, nas negociações do Orçamento do Estado em 2018. O Governo e o PS opuseram-se e não passou.

Mais creches
Em 2016, o PS foi o único partido a votar contra todos os pontos de uma proposta de resolução do PCP que pedia um levantamento das necessidades existentes ao nível de creches e a criação de “uma rede pública de creches, considerando o recurso a fundos comunitários para a sua concretização e calendarizando a sua concretização” e em conjunto com municípios. Agora, no seu programa eleitoral, os socialistas assumem vários compromissos como “investimento na rede de equipamentos sociais de apoio à infância, nomeadamente creches e jardins-de-infância"; criação de cheque-creche a partir do segundo filho; “promover, em parceria e com o envolvimento de diferentes actores, incluindo os municípios, um programa de alargamento das respostas sociais de apoio à família, em particular para a infância e com especial incidência nas áreas metropolitanas, onde a cobertura da rede tem maiores fragilidades, designadamente estimulando o alargamento da rede de creches"; “estimular a oferta de serviços de creche para os filhos dos profissionais de saúde”.

Julgados de paz
No seu programa eleitoral, o PS promete “reforçar significativamente, até ao final da legislatura, o número de julgados de paz, em parceria com autarquias, comunidades intermunicipais e outras entidades públicas, alargando as suas competências e criando também julgados de paz especializados, a funcionar de forma desmaterializada, designadamente em questões de regulação do poder paternal, condomínio e vizinhança”. Contudo, o projecto de lei do PCP entregue em Março de 2018, com objectivos semelhantes, ficou a marinar no Parlamento, nunca tendo sido levado a votação final. Previa, precisamente, julgados de paz de base concelhia e alargamento de competências a litígios entre vizinhos.

Leques salariais de referência
Em Setembro do ano passado, o PS chumbou um projecto do BE para estabelecer leques salariais de referência como mecanismo de combate à desigualdade salarial. O argumento de Carlos César era o de que tal matéria deveria ser levada primeiro à Concertação Social. No programa eleitoral, o PS propõe agora passos concretos como “desenvolver uma política de combate às excessivas desigualdades salariais, através de estímulos concretos à melhoria dos leques salariais de cada empresa a partir da referência do indicador de desigualdade S80/S20, quer penalizando, no plano fiscal e contributivo, as empresas com leques salariais acima do limiar definido e, pelo contrário, beneficiando as que tiverem uma trajectória positiva em contexto de valorização salarial, quer ponderando a limitação de elegibilidade como custo fiscal dos salários de cada empresa que se situem significativamente acima deste indicador de desigualdade”, promete ainda “estabelecer mecanismos de representação das comissões de trabalhadores nas administrações das empresas cotadas em bolsa e das maiores empresas, em especial no que toca às questões salariais e da distribuição de outros dividendos”.

Acesso à especialidade dos médicos
Em 2016, a proposta do BE para garantir vaga a todos os médicos que quisessem aceder à especialidade foi chumbada no Parlamento: PSD e CDS votaram contra e como o PS se absteve a maioria de esquerda foi insuficiente. Esta semana, António Costa alinhou pelo discurso do BE, criticando a Ordem dos Médicos por vedar o acesso à profissão. É obrigatório dotar Portugal com os recursos humanos necessários “e não utilizar as competências que existem para práticas restritivas da concorrência e limitar o acesso à formação com qualidade e exigência”, disse o primeiro-ministro numa visita a unidades de saúde de Sintra e Amadora. Caso contrário, advertiu, o país ficará com enormes carências para satisfazer as necessidades” da sua população. O programa eleitoral do PS, contudo, não é claro a este respeito.

Violência doméstica
A contradição, nesta promessa, já foi denunciada por Catarina Martins, que lembrou este domingo que a proposta de juízos especializados para julgar violência doméstica, anunciada na véspera por António Costa (admitindo até fazer-se uma revisão extraordinária da Constituição para isso ser possível), foi uma proposta que o partido propôs no passado no Parlamento e que foi chumbada com os votos do PS. “O BE fez esta proposta, levou-a ao Parlamento e foi chumbada há poucos dias. Todos os outros partidos votaram contra. Ontem ouvi o Partido Socialista (PS) incluir esta proposta de juízos especializados no seu programa eleitoral. Por uma vez, ainda bem que o PS recuou”, disse.

Avaliação do impacto da pobreza
Este assunto foi discutido e chumbado no último plenário desta legislatura na semana passada. Tratava-se de um projecto do BE que estabelecia “o regime jurídico aplicável à avaliação de impacto dos actos normativos na produção, manutenção, agravamento ou na diminuição e erradicação da pobreza”, ou seja, a criação de mecanismos de “poverty proofing”. Esta medida tinha o apoio da Rede Europeia Anti-Pobreza/Portugal e foi elogiada pelo Presidente da República. Agora, no capítulo intitulado “Erradicar a pobreza”, o PS promete "consolidar e desenvolver a experiência, já em curso, de avaliação do impacto das leis quanto ao combate à pobreza (poverty proofing), consagrando a obrigatoriedade de avaliação fundamentada das medidas de política e dos orçamentos na ótica dos impactos sobre a pobreza”.

2.10.15

Portugal é um país mais à esquerda ou mais à direita?

Boaventura Sousa Santos, in Público on-line

"Não conheço outro país na Europa onde os jornais de referência dêem tanto espaços a comentadores de direita".

Convém começar por definir o que é ser esquerda. Numa concepção minimalista, esquerda é toda a posição política que promove todos (ou a grande maioria dos) seguintes objectivos: luta contra a desigualdade e a discriminação sociais, por via de uma articulação virtuosa entre o valor da liberdade e o valor da igualdade plasmada no equilíbrio entre os direitos civis e políticos e os direitos sociais, económicos e culturais; defesa forte do pluralismo, tanto nos media como na economia, na educação e na cultura; democratização do Estado por via de valores republicanos, participação cidadã e independência das instituições, em especial, do sistema judicial; luta pela memória e pela reparação dos que sofreram (e sofrem) formas violentas de opressão; defesa de uma concepção forte de opinião pública, que expresse de modo equilibrado a diversidade de opiniões; defesa da soberania nacional e da soberania nacional de outros países; resolução pacífica dos conflitos internos e internacionais. Ser de direita é ser contra todos ou a grande maioria destes objectivos.

A expressão o “país” usada na pergunta é ambígua neste contexto. Se o país for o conjunto dos portugueses é difícil responder, pois os inquéritos à opinião nunca incidiram sobre todos os objectivos. Se o “país” for a opinião publicada nos meios de comunicação principais, Portugal é de direita. Excluindo os países que foram parte do bloco soviético, não conheço outro país na Europa onde os jornais de referência dêem tanto espaço (comentários regulares, últimas páginas) a comentadores de direita. Chega ser escandaloso pelo estilo trauliteiro da direita que tem voz privilegiada. Se o “país” forem os portugueses que votam nas eleições, então o pais é inequívoca e consistentemente de esquerda, se considerarmos que os partidos de esquerda são o PS, PCP, BE e agora o Livre e outros pequenos partidos que se consideram de esquerda radical. Ao longo dos anos, este conjunto tem sido quase sempre o preferido dos portugueses.

1.10.15

Apoios sociais. O que prometem os partidos aos portugueses

Ricardo Vieira, in RR

Um complemento salarial para trabalhadores pobres, abono de família para mais portugueses e prolongamento do subsídio de desemprego são algumas das medidas incluídas nos programas eleitorais dos principais partidos.

O Partido Socialista avança com uma medida para os trabalhadores com baixos salários, que declaram rendimentos à Segurança Social. O “complemento salarial” é um crédito fiscal recebido em cada ano.

“Visa aumentar os rendimentos das famílias trabalhadoras de baixos salários, uma vez que o montante de crédito concedido dependerá do número de filhos na família e do rendimento declarado à Segurança Social”, explica o programa eleitoral de António Costa.

O PS fez as contas. Este crédito fiscal anual ou imposto negativo para os trabalhadores pobres custará aos cofres do Estado 394 milhões de euros em 2017, 355 milhões em 2018 e 319 milhões em 2019. A expectativa é que este dinheiro seja recuperado através do impacto positivo que terá na economia.

Os socialistas prometem também aumentar o abono de família, o abono pré-natal, alargar a mais pessoas e reverter cortes no Complemento Solidário para Idosos (CSI) e no Rendimento Social de Inserção (RSI) para famílias em pobreza extrema.

A “renovação das políticas de mínimos sociais” tem um custo estimado de 108 milhões de euros em 2016), 135 milhões em 2017), 162 milhões em 2018 e 188 milhões em 2019, indica o estudo sobre o impacto financeiro do programa eleitoral do PS.

Também há medidas para acudir aos sobreendividados. António Costa quer proibir “execuções fiscais sobre a casa de morada de família relativamente a dívidas de valor inferior ao valor do bem executado e suspensão da penhora da casa de morada de família nos restantes casos”.

A estratégia PSD/CDS

No seu programa eleitoral, a coligação Portugal à Frente (PSD/CDS) promete alargar o abono de família a mais famílias, “nomeadamente da classe média”.

Passos Coelho e Paulo Portas vão “alterar a bonificação do abono de família por deficiência” para beneficiar os “agregados com menos recursos” e aumentar o “subsídio para assistência a filho com deficiência ou doença crónica para 100% da remuneração de referência, nos seis meses após o subsidio de parentalidade”.

A coligação PSD/CDS quer implementar um Programa de Desenvolvimento Social de combate às desigualdades, em articulação com o sector social, e reorganizar os programas de apoio alimentar, entregando a sua gestão à rede social e solidária.

Outra prioridade é a criação de uma “nova rede de serviços personalizados, para apoio a idosos e a pessoas com deficiência, assente em habitações já existentes e adaptadas às suas necessidades de acessibilidades, numa lógica de apoio à vida independente, geridas pelas instituições da rede social e solidária, como medida alternativa à institucionalização”.

CDU quer alargar protecção aos desempregados

A CDU promete apoios a quem não tem trabalho. Defende o “alargamento dos critérios de acesso e prolongamento do período de atribuição do subsídio de desemprego e do subsídio social de desemprego”.

A coligação liderada por Jerónimo de Sousa propõe abono de família para todos e a reposição das prestações do rendimento social de inserção, cortadas nos últimos anos.

Bloco diz não às portagens

O Bloco de Esquerda também quer romper com as políticas do Governo de Passos e Portas em matéria de prestações sociais e defende o regresso aos níveis pré-troika.

O partido de Catarina Martins promete a “reposição do abono de família e respectivas bonificações cortados em 2010”, dos níveis de cobertura do RSI e do complemento solidário para idosos.

O acesso ao subsídio social de desemprego a todas as pessoas em situação de desemprego e em situação de carência económica é outras das bandeiras do Bloco.

Nos seus programas eleitorais, Bloco e CDU partilham outra medida que, não sendo um apoio social, é “amiga” das populações: o fim das portagens em todas as SCUT.

Os meus singelos pedidos aos próximos governantes

Luís Fernandes, in Porto24

Há uma urgente necessidade de reinvestir a escola pública e de não tolerar práticas excludentes que se verificam nalgumas escolas privadas que trabalham para os rankings.

Nasceu no Porto, em 1961. Professor associado da Faculdade de Psicologia e de Ciências da Educação da Universidade do Porto. Tem dedicado os seus trabalhos de investigação à expressão do fenómeno droga em contexto urbano. A evolução deste fenómeno conduziu-o à pesquisa sobre o sentimento de insegurança, a violência urbana, a marginalidade e a exclusão social. Durante vários anos foi cronista dos jornais “O Comércio do Porto”, “A Página da Educação” e “Público”. Mantém actividade literária com o pseudónimo João Habitualmente.

Está a arrancar a atividade letiva dos vários níveis de ensino por todo o país. Desenvolvo o meu trabalho no ensino superior, é portanto a partir deste ponto de observação que teço as considerações a seguir:

1. Mesmo os mais distraídos, ao entrarem no recinto duma qualquer faculdade, perceberão que se retomou o frenesim do ano letivo: não têm como não ver uma data de rapaziada, muitos deles trajados a rigor, a ensaiar estranhos rituais – escutados ao longe, desprende-se deles um ulular de gritos de exortação. Ainda hoje, ao fim de muitos anos de vida universitária, não sei bem o que aquilo é e também nunca experimentei ver de perto. Falo neles porque marcam com um folclore muito particular o início do ano e é suposto estarem a receber aqueles que chegam pela primeira vez, encetando uma nova e importante fase das suas vidas.

2. Ninguém chega às nossas universidades sem ter andado primeiro nos ensinos básico e secundário. Daí a minha primeira preocupação com o ensino superior estar a montante deste: preocupa-me o crescente aprofundamento, muito acelerado nos últimos anos, da divisão entre as escolas públicas e as privadas. Não tenho nada contra o ensino privado – mas pelos vistos há quem tenha muito contra o público. É só ver como tem vindo a ser descapitalizado, como os docentes mais jovens veem as suas possibilidades de carreira darem lugar à precarização do trabalho, como se instala a ideia de que as escolas públicas “são para todos”, sendo que o “todos” começa do meio da tabela para baixo, e as privadas – sobretudo algumas privadas – são para os que estão talhados para os cursos com funil de entrada apertado. A famosa liberdade de escolha propalada pelos ideólogos deste sistema que quer peneirar o trigo do joio fica reservada para os que podem pagar a escolha…

Há uma urgente necessidade de reinvestir a escola pública e de não tolerar práticas excludentes que se verificam nalgumas escolas privadas que trabalham para os rankings. Os rankings, parecendo que são uma informação objetiva ao potencial consumidor de serviços educativos, funcionam como máquina ao serviço da divisão entre as boas escolas, as assim-assim e as más, reforçando pelos movimentos de procura que geram o fosso entre estas pseudocategorias. Se pudesse dar uma sugestão ao próximo ministro da educação – que espero ardentemente que não seja o mesmo, seria mau duas vezes, uma porque era ele outra vez e a outra porque isso quereria dizer que a coligação PCP (Passos Coelho – Portas) tinha ganho –, se pudesse então dar uma sugestão ao próximo ministro da educação seria a de acabar com a publicitação dos rankings.

3. Preocupa-me o excessivo peso do cientismo e duma cultura tecnocrática na Universidade, que secundariza o lugar do pensamento crítico e da missão cultural que aquela deve ter. Urgente substituir refrões que a repetição vai esvaziando – comecemos, por exemplo, por substituir a palavra inovação pela palavra criatividade. Com a liberdade que se solta da pedagogia da criatividade pode então emergir, como resultado espontâneo e não como objetivo administrativo, a inovação. Voltemo-nos depois para as palavras excelência e mérito – livremo-las da métrica quadrada com que andam a ser avaliadas e criaremos um clima em que surjam com naturalidade.

4. É necessário valorizar a transferência de conhecimento das universidades e dos politécnicos não apenas para os setores lucrativos da economia, mas também para o terceiro setor, constituído pelas IPSS, pelas ONG’s, pelas agências de desenvolvimento social local.

Estamos quase a decidir quem vai para o parlamento e para o governo – será que é tempo de esperança?

NOTA À MARGEM (ou não…) – Esta semana morreu Vítor Silva Tavares. A sua importância na literatura portuguesa é bem conhecida de todos quantos a seguem de perto. Para os menos familiarizados, direi que fundou a &etc, editora que publica o primeiro livro poucos meses antes do 25 de abril de 74. Pelas suas edições passaram nomes tão diversos como Gomes Leal, Herberto Hélder, Gastão Cruz, Mário Cláudio, Ramos Rosa, Luís Miguel Nava, Alberto Pimenta, Nuno Júdice,Inês Lourenço ou Adília Lopes. Das obras que fez traduzir destaco os poetas franceses Aragon, Antonin Artaud ou Jacques Prevert. Fora do texto poético há também edições em várias áreas – destaco guiões e outros escritos de João de César Monteiro e ensaios sociomusicológicos de Jorge Lima Barreto.

Do trajeto de Vítor Silva Tavares, releva a independência de ideias e de opções estéticas. Um dos resultados mais claros é o catálogo da &etc, do qual direi como elogio que é impiedoso.

Não sei se era crente. Mas um homem que assim se dedicou à arte tem de ter uma alma grande – paz à sua alma.

Dois milhões vivem em risco de pobreza. Quase 500 mil são crianças

in TSF

Portugal tem perto de 2 milhões de pessoas em risco de pobreza. Números que cresceram, pelo menos até 2013, último ano com dados disponíveis no Instituto Nacional de Estatística (INE).

Durante a campanha eleitoral, a TSF selecionou 10 perguntas para a futura legislatura. Hoje queremos saber qual a medida prioritária dos partidos para combater a pobreza?

Respostas dos partidos
Jerónimo de Sousa defende o aumento do rendimento das famílias através da valorização do trabalho como medida prioritária para combater a pobreza

Segundo o INE, a percentagem de idosos em risco de pobreza ronda os 15%. Nos adultos em idade ativa atinge os 19%. Quanto às crianças e adolescentes, uma em cada quatro (25,6%), perto de 470 mil, vivem numa família de baixos rendimentos.

A presença de crianças numa família está aliás "associada ao aumento do risco de pobreza", numa taxa que sobe para 38,4% nos agregados de apenas uma mãe ou um pai, mas também nos casais com três ou mais filhos.

Pobreza no Fim do Mundo?

Para falar sobre pobreza com crianças, a TSF visitou um bairro social de Cascais que, apesar da demolição das barracas e de um nome oficial diferente, continua a ser conhecido como Bairro do Fim do Mundo. Uma zona marcada pelo desemprego, exclusão social e insucesso escolar.
O jornalista Nuno Guedes foi a um bairro social saber o que pensam as crianças sobre pobreza. Uma reportagem com sonoplastia de João Félix Pereira

Para as crianças, contudo, a palavra pobreza refere-se a algo distante que só vêem quando saem do bairro e encontram mendigos, sem-abrigo ou pessoas com fome e "a roupa rasgada".

O coordenador pedagógico da ludoteca gerida por uma instituição católica que funciona no centro deste bairro social consegue perceber, em parte, o que leva muitas destas crianças a dizerem que não conhecem pobreza: é tudo uma questão de comparação.

Pablo Fortes explica que "a parte estética da pobreza é hoje muito diferente. O bairro já não tem barracas e as irmãs [freiras] trazem por vezes fotografias de África e os outros meninos não têm roupa, não têm calçado, não têm nada... As crianças daqui comparam-se e pobreza, para elas, será um nível ainda mais abaixo..."

O responsável da ludoteca, que acompanha há vários anos as crianças no antigo Bairro do Fim do Mundo, acrescenta que só mais tarde é que muitos destes miúdos vão perceber as dificuldades que têm quando, por exemplo, precisarem de apoio nos estudos e os pais não tiverem dinheiro ou se forem obrigados a desistir da escola.

Bernardo e Diogo têm 14 e 16 anos. Andam pelo bairro ao final da tarde e percebe-se que já chegaram à idade em que compreendem melhor aquilo que distingue os pobres. Admitem que "ninguém gosta de falar disso", mas sim, vêem "bastante pobreza" no bairro e entre os colegas.

Os dois amigos contam que cruzam-se com muitas pessoas que vão buscar comida ao banco alimentar e Diogo diz que ele próprio costuma ir: "eu vou, não tenho vergonha de dizer porque tenho necessidade e ninguém nasce rico".

O coordenador da ludoteca acrescenta aquele que para ele é um dos principais problemas da pobreza infantil: a desigualdade de oportunidades. "Estes miúdos, até aos 18 anos, não têm as mesmas oportunidades que uma criança de classe média ou média alta", pelo que "terem um percurso normal, sem grandes percalços, até ao 12º ano, já é uma grande vitória pessoal".

Para Pablo Fortes, a longo prazo, a pobreza em Portugal deve ser combatida sobretudo de uma forma: apostando em quebrar logo na infância um ciclo de pobreza que, com demasiada frequência, se prolonga durante várias gerações.

A pobreza, os pobres, as políticas governamentais e as promessas eleitorais

Maria José Casa-Nova, in Público on-line

Por razões profissionais, desloco-me com alguma regularidade a Lisboa. Numa das últimas viagens, à chegada a Santa Apolónia, com o tempo à justa para a reunião de trabalho que me esperava, almocei num pequeno restaurante existente na estação.

No final da refeição engolida rapidamente e sem tempo para a terminar, levantei-me para pousar o tabuleiro. Nesse momento, um senhor aproximou-se e, de forma muito delicada, perguntou: “Desculpe, não vai comer mais? Posso ficar com o tabuleiro?” Não interessa como reagi, mas a indignação que senti. Vejo pobres diariamente como não via desde a minha infância. Uma pobreza mais ou menos camuflada, mais ou menos envergonhada, mais ou menos flagrante, mas ver procurar alimento nos caixotes do lixo ou ver pedir os restos dos alimentos de outros, gela-me o corpo e a alma, embarga-me a garganta, rasa-me os olhos, faz doer todas as terminações nervosas do corpo.

Nos últimos anos vimos crescer o número de pobres e a pobreza (ver artigo meu e de outros colegas no Público de 09/06/2015, “Infâncias pobres e pobreza em Portugal como escolha política”); vimos crescer assustadoramente as lojas sociais e as cantinas sociais. Olho-as com o olhar de socióloga socialmente comprometida. O seu significado faz-me pensar no país em que nos tornamos: crescimento exponencial do desemprego e consequente crescimento exponencial da emigração (dos menos e dos mais qualificados). Ouvimos governantes referir que é preciso “sair da zona de conforto” e emigrar como se algum conforto houvesse nas situações em que a diferença entre emigrar ou permanecer é do tamanho da incomensurabilidade entre morrer devagar ou (sobre)viver no sofrimento do abandono familiar, da solidão, da dor de ver o seu país retroceder na humanização da sua sociedade. Vimos o fecho de hospitais, o despedimento de profissionais de saúde, o despedimento de professores, o despedimento de trabalhadores no sector privado; vimos a descapitalização da segurança social; vimos a privatização de sectores-chave da nossa economia, cujo montante arrecadado foi sorvido pelos custos dos escândalos financeiros do BPN e do BES e não na melhoria das condições de vida das portuguesas e dos portugueses. Vimos o nosso (ainda não sustentado) Estado Social transformar-se num Estado assistencialista; os Direitos Sociais transformados em caridade, em benevolência estatal, as reformas cortadas, o Rendimento Social de Inserção um luxo e não uma segurança de limiar mínimo de sobrevivência física. E hoje, atónita, vejo o ainda governo referir que “a próxima legislatura será obviamente social” (Paulo Portas, Jornal I, 29/07/2015) e o Primeiro Ministro, Passos Coelho referir, na apresentação do programa da coligação PSD/CDS-PP, que “Poderemos nos próximos quatro anos levar mais longe a aposta na Educação, a aposta na Saúde, a aposta no social. Nos próximos quatro anos poderemos devolver mais Estado Social, mais liberdade de escolha, afirmando uma política segura” (Jornal I, 29/07/2015). Estaremos a falar das mesmas pessoas que destruíram o excelente Serviço Nacional de Saúde que Portugal tinha, que transformaram o Estado Social em Estado Assistencialista, que destruíram o Estado Social? A resposta é SIM; estamos a falar das mesmas pessoas, que hoje agem querendo branquear as suas políticas; que hoje agem como se tivessem sido outros a empobrecer Portugal e os portugueses, a fazer definhar a sua economia; a fazer com que haja portugueses que aceitam trabalhar por 300 euros mensais. A fazer com que jovens de classes de menor estatuto social que, possuindo uma licenciatura e um mestrado tirados na expectativa de um futuro melhor do que o dos seus pais, não conseguem trabalho não qualificado por excesso de habilitações académicas ou têm de mentir para conseguir emprego nas caixas dos hipermercados, permanecendo assim na sua condição social de origem, sem qualquer possibilidade de mobilidade social ascendente.

Mentem. Mentem como sempre mentiram, desde o tempo em que eram oposição e depois se tornaram governo (ver artigo meu, no PÚBLICO de 08/09/2013, “Pilares da democracia e prática política actual em Portugal”). ENGANAM os portugueses, tratando-os, não como cidadãos, mas como súbditos (de sub-dito), menores (de inferiores) sem capacidades ou competências para saber distinguir a verdade da mentira.

Estes senhores deviam ser responsabilizados e penalizados por enganar os portugueses e empobrecer intencionalmente o país, indo pra além da Troika, como tantas vezes referiram. Esperemos que os portugueses e as portuguesas o façam, votando no próximo Domingo, por um Portugal com futuro, por um povo com dignidade.

Professora universitária, coordenadora do Núcleo de Educação para os Direitos Humanos, Universidade do Minho, membro do núcleo fundador do Manifesto para um Mundo Melhor (manifesto internacional de cientistas sociais). mjcasanova@ie.uminho.pt