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5.7.22

Penas entre 12 e 17 anos para padre e 'freiras' por escravizarem noviças em Famalicão

in DN

Os crimes foram cometidos durante cerca de três décadas na Fraternidade Missionária de Cristo Jovem, instalada num convento em Requião.

O Tribunal de Guimarães condenou esta sexta-feira a penas entre 12 e 17 anos de prisão um padre e três responsáveis de uma "associação de fiéis" de Requião, em Vila Nova de Famalicão, distrito de Braga, por escravizarem noviças.

O padre Joaquim Milheiro, com cerca de 90 anos, e as arguidas Maria Arminda Costa, Maria Isabel Silva e Joaquina Carvalho, hoje com idades entre os 70 e os 75 anos, estavam acusadas de nove crimes (nove vítimas, à data dos factos com idades entre os 12 e os 20 anos) de escravidão, incluindo a escravidão laboral.

Maria Arminda Costa foi condenada a 17 anos de prisão, o padre Joaquim Milheiro foi condenado a 15 anos de cadeia, enquanto a Maria Isabel Silva e a Joaquina Carvalho o tribunal aplicou as penas de 14 e de 12 anos de prisão, respetivamente.

"O tribunal deu como provado, no essencial, os factos que constam da acusação [do Ministério Público]", disse a presidente do coletivo de juízes, Paula Sá, durante a leitura do acórdão.

A juíza presidente falou em "clima de terror e medo", em "agressões bárbaras" cometidas pelos arguidos, assim como de "escravidão e de crimes hediondos praticados por alguém que se diz representante de Deus na terra", os quais levaram à total "exploração e desumanização" das vítimas, que não recebiam "qualquer tipo de contrapartida", permitindo à fraternidade aumentar o seu património na modalidade de "poupança de custos".

Os crimes foram cometidos durante cerca de três décadas na Fraternidade Missionária de Cristo Jovem, instalada num convento em Requião, concelho de Vila Nova de Famalicão, distrito de Braga, pertença do Centro Social de Apoio e Orientação da Juventude, uma Instituição Particular de Solidariedade Social sob a forma de Instituto de Organização Religiosa.

13.7.17

Leilões de escravos às portas da Europa

in El País

Licitações, chicotadas e correntes. EL PAÍS mostra casos reais, como os denunciados pela ONU: cada vez mais imigrantes estão sendo vendidos como escravos em mercados da Líbia


Na cidade de Sabha —situada ao sul da Líbia, 100.000 habitantes— existe um lugar conhecido como o gueto de Ali. É um nome que faz Abou Bacar Yaw –um jovem gambiano de 18 anos que passou dois meses ali dentro – abaixar a cabeça. O gueto de Ali é, provavelmente, e com base nas descrições de quem ali esteve, um antigo centro de detenção. Antes da guerra que culminou na queda de Muamar Gadafi, Sabha era um oásis imigratório da rota africana em direção à Europa. Muitos subsaarianos eram retidos nesse lugar e expulsos do país. Sabha era, também, um atraente destino turístico para aventureiros.

Conta Abou Bacar que hoje se trata de um prédio deteriorado, cheio de ratos e poeira, com várias celas e um pátio interno. Centenas de jovens subsaarianos se amontoam em espaços pequenos sem luz nem ventilação. O lugar é dirigido por um líbio da etnia tubu, conhecido como Ali. Ao redor, as ruas de Sabha são hoje o território de milícias, traficantes, mafiosos e moradores armados. Zona proibida para o visitante.

Abou Bacar chegou a este lugar depois de cinco dias de travessia ininterrupta pelo deserto. Partiu de Agadez, no desértico centro do Níger, onde meses depois está de regresso. Sentado em uma cadeira velha, com uma cicatriz ao lado de seu olho esquerdo –e a chamada para a reza em uma mesquita próxima–, relata suas lembranças. Conta que todo mundo em Sabha conhece o gueto de Ali. “Mas ninguém se importa porque a Líbia é o inferno. Todo mundo anda armado. Até as crianças carregam pistola. E ninguém se preocupa com o bem e o mal.” O gueto de Ali parece conduzir suas atividades sem muitos problemas.

“Eu já tinha pagado minha passagem até Trípoli. Paguei-a em Agadez antes de sair.” Abou desembolsou o equivalente a 1.450 reais, as economias de toda sua família. “Mas nunca cheguei a Trípoli.” Quando alcançaram Sabha, o motorista do veículo que os levou através do Saara os conduziu ao gueto. “Ali estavam alguns líbios, com uniformes militares e armas. Não sei se eram soldados, milicianos ou o que eram.” Abou e os demais foram levados para dentro do edifício. Disseram-lhes que não tinham pago a passagem –quando, na verdade, tinham– e os prenderam sem mais explicações.

"Sentávamos no chão e os líbios vinham nos escolher e nos comprar, como quem escolhe mangas num mercado de frutas. Depois, discutiam o preço"

Um copo de água e um pedaço de pão era o que lhe davam todos os dias nos dois meses em que Abou esteve no gueto. Ali se amontoavam, segundo estima Abou, umas 300 pessoas, todos homens. Aqueles que iam morrendo os demais tinham de retirar do local e queimar em um descampado contíguo ao centro. “Todos os dias chegavam homens árabes, às vezes com guarda-costas, e então nos levavam ao pátio. Ali tínhamos de nos sentar assim –Abou se senta no chão, com as pernas abertas–, em fila, cada um entre as pernas do que estava atrás. Era como um trem que formávamos no chão.” Abou retorna à sua cadeira e continua o relato: “O homem árabe passeava entre nós e escolhia alguns. Escolhia os fortes, os que não pareciam que iriam morrer em dois dias. Ele os escolhia como quando você escolhe manga no mercado de frutas. Depois pagava às pessoas do gueto e os levavam. Todo dia chegavam homens árabes para nos comprar”.

Abou foi vendido depois de dois meses. “Não sei quanto pagaram por mim. Diante de nós não falavam de dinheiro, iam negociar os preços num canto.” Abou fica em silêncio. Com o olhar perdido. Depois, diz: “O gueto de Ali é o lugar que você imagina quando te falam de um mercado de escravos”. Um mercado de escravos no século XXI, em uma cidade até há pouco tempo relativamente turística e em um país a 400 quilômetros da Europa.
O buraco líbio
Abou Bacar, nascido em Gambia, foi vendido em um mercado de escravos da cidade libia de Sabha. FOTOGALERÍA
Abou Bacar, nascido em Gambia, foi vendido em um mercado de escravos da cidade libia de Sabha. ALFONS RODRÍGUEZ

Antes da guerra —o conflito irrompeu no âmbito da Primavera Árabe, em 2011–, a Líbia era uma das várias rotas imigratórias em direção à Europa. As máfias optavam às vezes por transportar os imigrantes à Mauritânia e dali alcançar em caiaque as Ilhas Canárias; ou atravessar a Argélia para chegar a Marrocos e saltar a cerca de Melilla; ou cruzar a Líbia e tentar navegar em balsa até a ilha italiana de Lampedusa.

Hoje, a Líbia se perfila quase como a única rota: o caos ali é tamanho que as máfias e os traficantes de pessoas movimentam-se sem empecilhos, ao contrário das vigiadas fronteiras dos demais países. Cada vilarejo e cidade da Líbia pertence a uma milícia diferente. E nessa bagunça os imigrantes tentam se meter para cruzar o mar. Estima-se que, atualmente, cerca de 330.000 imigrantes estejam bloqueados na Líbia, segundo a Organização Internacional para as Migrações (OIM).

O problema é que esta violenta anarquia tem reverso: milhares de homens e mulheres estão sendo sequestrados, aproveitando a falta de controle. Os sequestros, já há alguns meses, foram um passo além: cada vez é maior o número de escravos.
Leilões de escravos às portas da Europa

Em abril a OIM, agência vinculada às Nações Unidas, publicou um relatório no qual denunciava que na Líbia existem, há meses, mercados de escravos. Lugares em que os imigrantes são vendidos para serem usados como mão de obra, como criados ou escravos sexuais.

Giuseppe Loprete, chefe da missão da OIM no Níger, explica em seu escritório em Niamey que “os imigrantes que voltam da Líbia nos contam histórias terríveis. Falam de licitações, de leilões, de compra e venda de escravos”. Um macabro retrocesso no tempo do outro lado do Mediterrâneo. O gueto de Ali, onde Abou foi vendido, é um desses mercados.

Não se trata de sequestros em que se pede um resgate. Não se trata de condições de exploração. Não se trata de poder pagar pela sua liberdade. Trata-se de um tráfico de escravos em que moradores da Líbia compram subsaarianos para que trabalhem em suas casas, fazendas ou plantações sem salário de tipo algum –nada além de teto e comida– e sob um regime de violência.
Fotografias extraídas do telefone de um imigrante retido na Líbia e entregues pela OIM. A agência explica que se trata de escravos em um mercado da Líbia, à espera de serem vendidos. OIM

A OIM denunciou isso e agora começam a aparecer os depoimentos dos que escaparam de tal experiência. A comunidade internacional, porém, não parece estar fazendo muito na região para pôr fim a um pesadelo típico de outro século.
Vendido por 12.000 reais

“Quero explicar ao mundo o que está se passando.” Quem diz isso é Achaman Agahli, de 39 anos, robusto, morador da cidade nigerina de Agadez. Ele nos recebe em sua casa, uma construção básica de adobe na qual pessoas e cabras compartilham o espaço.

Achaman trabalhava transportando barris entre povos do deserto. Foi um amigo que aventou a possibilidade de tentar chegar à Europa para ganhar dinheiro. Consultou sua mulher e decidiu tentar. Partiu uma noite de junho do ano passado, às três da madrugada, subindo na parte traseira de um veículo caminhonete branco marca Toyota. Quando estavam a ponto de sair, escutou que o traficante a quem haviam pago pelo transporte falava por telefone: “Te mando um lote de 25”. Achaman não deu importância naquele momento. Dias depois, a frase faria sentido.

"Fui vendido em um lote de 12 e pagaram por mim uns 12.000 reais"

“A ideia era que nos levassem até Madama, na fronteira entre o Níger e a Líbia, mas passamos ao longe e nos deixaram em Al Qatrun, já na Líbia. Ali fomos recolhidos por uns tubus líbios [os membros de uma etnia local]. Usavam barba e andavam armados. Foi quando eu me disse: ‘Aqui há problemas, algo está errado’. Levaram-nos a Sabha e nos meteram todos em um quarto de um prédio vazio.”

Achaman esteve 26 dias trancado. “Davam-nos pão e leite. Um dia um dos homens que nos guardava, nos disse: ‘Não lhes damos mais para que vocês não tenham força e escapem’”. No 27º dia chegou um homem líbio e se pôs a discutir sobre dinheiro com o chefe dos sequestradores de Achaman. Desta vez, escutaram a negociação. “Eu falo árabe. Entendi o que diziam. Acertaram a venda de um lote de 12. Sim, disse desse jeito, um lote de 12. E por cada um do lote, por cada um de nós. Iria pagar 5.000 dinares líbios.” Naquele dia compraram Achaman por 12.000 reais.

“Nosso comprador nos levou para sua casa, uma casa muito grande, com um terreno muito grande, em Ubari, a poucos quilômetros de Sabha. Era um senhor rico. Eu estive dois meses recuperando-me porque estava muito doente. Quando fiquei bom, comecei a trabalhar.” Achaman tinha que alimentar os animais do proprietário, limpar os estábulos, cuidar da horta, arar... Em troca, o dono da casa lhe dava abrigo e comida. Como falava árabe, transformou-o em seu homem de confiança. “Desprezava os outros, mas me tratava bem. Não me batia nem gritava comigo. E depois de alguns meses tinha liberdade para entrar e sair da casa se necessitava executar tarefas.”

Foi em um desses serviços. Achaman disse que tinha de ir a Sabha em busca de remédios e, no caminho, cruzou com um motorista nigerino que o ajudou a atravessar a fronteira de volta.
Achaman Agahli, de 39 anos, foi escravizado na cidade líbia de Sabha durante um mês e meio. ampliar foto
Achaman Agahli, de 39 anos, foi escravizado na cidade líbia de Sabha durante um mês e meio. ALFONS RODRÍGUEZ

A mulher de Achaman morreu na semana passada, dando à luz. “Ela se foi sem saber o que me passou. Nunca lhe disse nada. Não queria vê-la triste.”
Cintos como chicotes

Adam Souleyman usa uma camiseta amarela com um desenho de Don Quixote. Tem 24 anos, é muito magro e coloca um turbante na cabeça para se proteger do sol e da areia. Embora esteja vivendo em Agadez, onde nos recebe no quintal de terra de uma casa familiar, nasceu e cresceu em uma aldeia perto de Zinder, a segunda cidade do Níger, no sul do país. Dali, há um ano e cinco meses, partiu rumo à Líbia em busca da Europa.

A recepção se deu em Madama, localidade fronteiriça, onde, conforme se lembra Adam, alguns milicianos o jogaram no chão, bem como aos demais imigrantes com os quais viajava. “Tiraram nossos documentos e o dinheiro.” Desde esse momento Adam se transformou em mercadoria.

Esteve três dias trancado até que um homem, que Adam recorda como “gordo, grande”, chegou, discutiu preço com os milicianos e levou três deles. “Um garoto do Mali, outro de Burkina Fasso e eu. Todos em uma furgoneta. O homem nos prendeu em um porão. As janelas eram muito pequenas e o chão era de areia. Havia alguns tapetes para que dormíssemos. O homem só nos disse uma coisa: ‘Sobreviver é o melhor que vocês podem conseguir a partir de agora’.”

Era o novo dono de Adam e dos outros dois rapazes. E os alugava. “Cada dia nos levava para trabalhar em uma casa diferente, de árabes ricos, casas muito grandes. Ele nos acordava jogando água fria em cima de nós e nos tirava do porão nos golpeando com o cinto, como se fosse um chicote.” Adam reproduz o gesto, com desânimo, levantando o braço. “Quando terminávamos de trabalhar, vinha nos buscar na casa e voltava a nos trancar no porão.” Assim Adam esteve durante um mês e dez dias.

“Cada dia nos levava para trabalhar em uma casa diferente, de árabes ricos, casas muito grandes. Ele nos acordava jogando água em cima de nós e nos tirava do porão batendo em nós com o cinto, como se fosse um chicote”

“Havia dias em que não tínhamos de trabalhar, que o homem não vinha nos buscar. E passávamos o dia sem comer, trancados. O garoto do Mali falava em acabar com tudo isso, em se suicidar, dizia que não aguentava.” E você? “Eu, não. Eu queria ver minha família.” Você se sentia como um escravo? “Não me sentia. Eu era um escravo.”

Adam passava as noites maldizendo o dia em que decidira ir para a Líbia. Viu a luz uma tarde em que o dono de uma casa o mandou sair até um poço de água para consertar um defeito. “Eu ia caminhando e cruzei com uma caminhonete em que estavam trabalhadores africanos. Um deles era hausa, como eu. Assim, gritei e lhe pedi ajuda."

Aquele homem acolheu Adam em sua casa e depois lhe conseguiu lugar em um caminhão para regressar a Agadez, onde agora trabalha para poder reunir dinheiro e voltar a Zinder. “Não sei o que se passou com os outros dois rapazes, o de Mali e o de Burkina Fasso”, diz Adam. “Talvez ainda continuem lá.” Depois, aperta as mãos contra os olhos, e chora.
Sete meses sem ver o céu

Marian cobre a cabeça com um véu vermelho. Saiu de Lagos, Nigéria, em julho do ano passado. Disseram a ela que depois de uma curta viagem de carro e de cruzar um rio, estaria na Itália.

Marian tem 23 anos e dorme no chão da rodoviária de Agadez, onde aguarda para poder voltar a sua cidade. Ali, ninguém sabe que Marian foi transformada, durante sete meses, em escrava sexual.

Foi em Trípoli, Líbia, depois de atravessar o deserto com mais dias de caminho do que o previsto, depois de um erro de orientação do condutor que os levou a ter de beber água de charcos que encontravam. “Quando chegamos a Trípoli nos colocaram em um sótão sem janelas. Perguntei quando chegaríamos à Itália e um homem me disse: nunca”. Para Marian, começou o suplício.
Marian, nigeriana de 23 anos, foi escrava sexual em Trípoli durante 7 meses. ampliar foto
Marian, nigeriana de 23 anos, foi escrava sexual em Trípoli durante 7 meses. ALFONS RODRIGUEZ

“Uma mulher explicou a situação ao nosso grupo de meninas que estava no sótão. Nos disse que, se quiséssemos voltar a ser livres, precisávamos pagar um valor (Marian não quer dizer quanto) e que a única maneira de conseguir era sendo prostitutas nesse sótão”.

Marian suspira: “Eu não parava de chorar. E me neguei. Chegou um senhor no primeiro dia e me disse ‘sente-se aqui’, apontando para as pernas, e eu disse que não. Então, o marido da mulher que nos explicou tudo me deu um tapa na cara. Disse: ‘Se não obedecer, te bato’. Falei para ele bater. E dei a cara”. Marian gira o rosto, oferecendo a bochecha. Depois acrescenta: “Mas chega uma hora em que você não quer mais apanhar”.

Se Marian ou qualquer das outras meninas se negava, a mulher rasgava a folha em que ia anotando o que era arrecadado por elas. “E tínhamos que começar de novo.” Marian demorou sete meses para recuperar sua liberdade. Durante esse período, nunca saiu do sótão. Nunca chegou a ver o céu.

“Agora quero voltar para Lagos. E recuperar minha vida de antes. E esperar que jamais alguém de minha família saiba o que aconteceu comigo.”
Amarrados pelos pulsos

Quando explica sua trágica experiência, Nasser Abdul Kader sorri. Como um mecanismo de defesa, como uma válvula de escape para não sucumbir . Ninguém comprou Nasser. O homem que o escravizou, o roubou.

Como quase todos os demais, chegou à Líbia com a promessa de chegar à Itália em quatro dias. Partiu de Agadez, onde nasceu e, depois do périplo, foi abandonado nas ruas de Sabha, sem dinheiro ou documentos, com seis outros imigrantes. “Chegamos a uma praça à qual vinham homens para pegar trabalhadores para trabalhos avulsos. Toda vez que aparecia algum, os rapazes se jogavam sobre eles para que os levassem”.

No terceiro dia, Nasser e outro rapaz foram com um homem que precisava de mão-de-obra. “Nos levou para uma granja, cheia de galinhas. Nos mostrou a granja e nos disse que nosso trabalho era alimentar as galinhas e mantê-las acordadas à noite”. Nasser faz um gesto de incompreensão e encolhe os ombros. “No dia seguinte nos apresentou a dois homens armados, muito fortes, e nos disse que eram encarregados da segurança da granja.”

Nasser ficou por um mês e dez dias descarregando sacos de ração, alimentando galinhas e mantendo-as acordadas à noite. Tudo mudou quando Nasser perguntou a um dos homens da segurança quando iam receber. “Me olhou, levantou o dedo assim —Nasser coloca o indicador reto, em gesto de advertência— e me disse: ‘Preste atenção: neste lugar não se pagam salários’. Me assustei, mas no dia seguinte, irritados, nos negamos a descarregar o caminhão”.

"Para trabalhar nos amarravam com uma corrente de dois metros, pelos pulsos. Só a tiravam para dormirmos”

A atitude de Nasser e seu amigo teve consequências quando os dois vigilantes viram os sacos de ração sem descarregar. “Vieram nos buscar no quarto e nos deram uma surra com um cabo grosso e também com um cinto. Depois nos mostraram um revólver e nos disseram: ‘Se não trabalharem, os matamos e vamos atrás de outros dois negros’.”

Desde esse dia, os dois rapazes tiveram de trabalhar amarrados um ao outro. “Com uma corrente de cerca de dois metros, amarrada com força aos pulsos. E a partir daí nos batiam com o cabo enquanto trabalhávamos. Aí me tornei escravo.”

Nasser e seu colega só eram desamarrados quando voltavam ao quarto para dormir. “Ninguém sabia onde estávamos, não tínhamos dinheiro, nem documentos, nem contato com o exterior. Era como se estivéssemos mortos.” A tragédia durou cinco meses, até que Nasser conseguiu escapar da granja em uma manhã na qual os dois homens de segurança ficaram dormindo bêbados. “Para os meninos que querem ir para a Europa, lhes digo: não faça isso. Não vá. Você vai morrer ou vai ser escravo. E conto a eles minha história”. E te escutam? “Não, nenhum deles. Sempre respondem a mesma coisa: não tenho escolha”.



1.3.17

Crianças escravizadas no Congo

in SicNotícias

Uma investigação da SKY News nas minas de cobalto da República Democrática do Congo revelou as condições chocantes em que é explorado o trabalho escravo de centenas de crianças. A extração de cobalto, utilizado no fabrico de baterias para telemóveis e computadores, é agora um negócio de milhões. As crianças mais pobres e vulneráveis das zonas mineiras são as primeiras vítimas.

[veja aqui a reportagem]

11.12.15

Freiras infiltram-se em bordéis para combater a escravidão

Pedro Rainho, in "Jornal I"

Rezar já não era suficiente. Para combater o tráfico de seres humanos - sobretudo, de mulheres - e a escravidão um grupo de freiras decidiu despir os hábitos e infiltrar-se em bordeis para resgatar vítimas das redes organizadas. O grupo de freiras (são cerca de 1100 dedicadas a esta missão) partiu literalmente para o terreno para combater o tráfico de mulheres que, depois de apanhadas nestas redes internacionais, são sexualmente exploradas e deixadas reféns, sem meios próprios para escapar. Estima-se que haja cerca de 73 milhões de pessoas vítimas de tráfico humano.

A maior parte- os números oficiais apontam para 70% - são mulheres. E a maior parte delas acaba transformada em escrava sexual. O objectivo das freiras, numa missão delineada em 2009, foi entrar no mundo da exploração sexual, infiltran- do-se em bordéis e cruzando-se com estas mulheres.

Actualmente, estão presentes em 80 países. "Estas irmãs não confiam em ninguém. Elas não confiam nos governos, não confiam em corporações, e não confiam na polícia local. Em alguns casos, elas não podem sequer confiar no clero masculino", refere John Studzinski, um banqueiro e filatropo que preside à Talitha Kum. É em torno desta organização (cujo nome se pode traduzir por pequena menina, levanta-te) que se reúnem as freiras envolvidas na missão. É um trabalho quase sem rede e que vive emergido no mais profundo secretismo. As freiras estão perfeitamente nos bordéis e nas ruas onde trabalham para resgatar as mulheres sexualmente exploradas e ninguém, além das pessoas ajudadas, conhece a sua verdadeira identidade. A vida das freiras depende dessa absoluta reserva. "Não pretendo ser sensacionalista, mas estou a tentar sublinhar o facto de que o mundo perdeu a sua inocência e as forças negras permanecem activas", explicava John Studzinski. Há dois anos, quando se assinalava o Dia Internacional contra o Tráfico, já a coordenadora da organização, Estrella Castalone, destacava a importância desta missão. "Sabemos que a escravatura tem um rosto feminino. Isso força-nos, a nós, mulheres religiosas, a juntarmos mãos e parar isto." As freiras também recolhem dinheiro para "comprar" crianças.

Aqueles menores, vendidos pelos pais em países como o Brasil, as Filipinas, Índia e várias nações africanas ficam a salvo de um futuro não muito diferente do das mulheres envolvidas nas redes de exploração. A organização estabeleceu "uma nova rede de casas para crianças de todo o mundo que, de outra forma, seriam vendidas para a escravidão. É chocante, mas é real", volta a destacar Studzinski. "Estas irmãs não confiam em ninguém. Elas não confiam nos governos, não confiam em corporações e não confiam na policial local. Em alguns casos, elas não podem sequer confiar no clero masculino" John Studzinski

18.11.15

Freiras e padre suspeitos de maus-tratos e escravidão em convento

in iOnline

A Polícia Judiciária (PJ) constituiu hoje como arguidos três freiras e um padre da Fraternidade Missionária Cristo Jovem, convento situado em Requião, Famalicão, por suspeitas de cárcere, escravidão e maus-tratos, após a realização de buscas.

Em declarações à Lusa, o advogado da instituição, Ernesto Salgado, disse que as buscas da PJ ao convento realizaram-se hoje entre as 07:00 e 13:00, tendo sido apreendidos objectos e documentos.

A denúncia de cárcere, escravidão e maus-tratos partiu de três noviças (denominação dada à pessoa que se prepara, no noviciado, sob a direcção de um mestre ou mestra, para a sua consagração religiosa), com idades entre os 20 e 30 anos, que, ao longo dos últimos dois anos, abandonaram o convento de “livre vontade”, adiantou.

“As noviças decidiram não seguir a vida religiosa e saíram da instituição, tendo agora a sua vida pessoal”, frisou.

Ernesto Salgado realçou que as freiras são as fundadoras do convento e o padre é o actual dirigente.

Os quatro arguidos vão ser presentes na segunda-feira, às 09:30, ao Tribunal de Famalicão.
Lusa

9.11.15

Terroristas vendem mulheres “como escravas"

in RR

A denúncia é do Observatório Sírio dos Direitos Humanos.

O autoproclamado Estado Islâmico (EI) vendeu várias prisioneiras de guerra não muçulmanas "como escravas" aos seus combatentes feridos ou mutilados no nordeste da Síria, denunciou o Observatório Sírio dos Direitos Humanos (OSDH).

O director do OSDH, Rami Abderrahman, explicou que estas mulheres são "exploradas sexualmente", além de efectuarem trabalhos domésticos e ajudarem os combatentes.

A organização não-governamental acrescentou que os terroristas do EI decidiram vender as escravas por as famílias das populações locais não autorizarem casamentos das suas filhas com 'jihadistas' feridos em combate.

O OSDH, com sede em Londres e uma ampla rede de activistas na Síria, obteve testemunhos sobre as escravas na periferia da zona leste de Deir al Zur, capital da província homónima, sob controlo do EI.

A ong explicou que a venda de mulheres capturadas pelo EI, na Síria e no Iraque, é um negócio muito lucrativo para os dirigentes e membros do grupo.

Os jihadistas consideram estas mulheres, na maioria dos casos yazidis, minoria religiosa do norte do Iraque, "espólio da guerra contra os hereges".

Em Julho passado, o EI vendeu 42 prisioneiras yazidis na localidade de Al Mayadin, no leste da província síria de Deir al Zur, por valores que rondavam entre os 500 e os dois mil dólares por mulher.

Os terroristas proclamaram, em Junho de 2014, um califado nas zonas que controla na Síria e no Iraque.

25.7.14

Aterrorizados por clãs que lhes ficavam com o salário

Alexandre Panda e Nuno Silva, in Jornal de Notícias

Obrigados a trabalhar de sol a sol em quintas de Espanha, eram espancados e não tinham direito a salário. Caso de escravidão de trabalhadores portugueses levará mais seis indivíduos a julgamento, no Porto.

Os arguidos - cinco homens e uma mulher, residentes em localidades de Trás-os-Montes - terão integrado grupos organizados, ou "clãs", que se dedicavam a angariar trabalhadores que depois exploravam para ter lucros. São indivíduos ligados àquela que foi considerada a maior rede de escravidão detetada em Portugal, com 48 arguidos e atualmente a ser julgada. Neste novo processo, que chega a tribunal em outubro, nas Varas Criminais do Porto, são identificadas 11 vítimas, embora haja referência de outras dezenas que terão estado na mesma situação. Muitos não quiseram queixar-se às autoridades por medo, como é referido na acusação do Departamento de Investigação e Ação Penal (DIAP) do Porto.

Os "clãs" tinham alvos bem definidos. Recrutavam preferencialmente pessoas em situação de maior vulnerabilidade: desempregados, de baixa escolaridade e qualificação profissional, e por vezes com deficiência e viciados em álcool e drogas.


30.9.13

Mortes e escravidão ensombram obras no Qatar para o Mundial de 2022

in Público on-line

Escravidão, fome, falta de condições de higiene, salários nunca pagos ou em atraso. Qatar é acusado de admitir empresas de construção que exploram trabalhadores.

Pelo menos 44 nepaleses morreram no período de dois meses em obras no Qatar. O país está a preparar-se para receber o Mundial de futebol de 2022. Uma investigação do jornal britânico The Guardian revela casos de exploração, fome e várias tentativas de fuga de trabalhadores devido a falta de pagamento de salários e condições sub-humanas em que são forçados a viver.

“Trabalhámos de estômago vazio durante 24 horas, 12 horas de trabalho e sem comida durante toda a noite”, contou ao jornal Ram Kumar Mahara, um nepalês de 27 anos. Mahara manifestou a sua indignação a um dos responsáveis da empresa que o contratou e a resposta foi a sua expulsão da obra, sem o pagamento de salários. “Tive de pedir comida a outros trabalhadores”. Além da falta de alimentos, o Guardian ouviu histórias de trabalhadores a quem era negada água apesar do calor abrasador que se faz sentir naquela região do Médio Oriente, onde as temperaturas podem chegar aos 50 graus Celsius.

Outro nepalês, que se identificou ao Guardian através das iniciais SBD, trabalhador de uma empresa subcontratada para os projectos de construção da Lusail City, uma nova cidade que está a ser construída no país e que se prevê que tenha capacidade para alojar mais de 200 mil pessoas. É aqui que está a ser construído o estádio principal do Mundial. SBD denunciou que a empresa ficou com dois salários a cada um dos trabalhadores destacados para a zona da marina que tentaram fugir devido às condições de trabalho e de alojamento. Durante a sua investigação o jornal britânico diz ter encontrado situações em que 12 pessoas dormiam no mesmo quarto e outras “ficavam doentes devido às condições repugnantes dos hostels” em que eram alojados.

Após as tentativas de fuga, os trabalhadores viram os seus passaportes confiscados, bem como os cartões de identificação emitidos pelas autoridades do Qatar para poderem circular no país. Pelo menos 30 nepaleses conseguiram escapar e procurar refúgio na embaixada do seu país em Doha, indica o jornal.

Ataque cardíaco ou acidente de trabalho
Os dois testemunhos recolhidos entre os milhares de nepaleses, que se encontram a trabalhar nas obras de preparação para o Mundial 2022, mostram a existência de casos de escravidão, dos quais terão resultado a morte de mais de quatro dezenas de trabalhadores entre 4 de Junho e 8 de Agosto, segundo dados a embaixada do Nepal em Doha, capital do Qatar. Mais de metade morreu de ataque cardíaco, falhas cardíacas ou acidentes de trabalho.

“As alegações sugerem a existência de uma rede de exploração entre as aldeias pobres do Nepal e os líderes qataris. O quadro geral é de uma das nações mais ricas a explorar uma das mais pobres para se preparar para o torneio desportivo mais popular do mundo”, escreve o Guardian. A maioria dos nepaleses que concordaram em viajar para o Qatar devido à oferta de trabalho tem agora uma dívida para pagar a empresas de recrutamento de trabalhadores no Nepal, o que os obriga a permanecer em situações como as agora descritas.

O sentimento de impotência de não conseguir sair da situação é confessado por outro nepalês. “Estou enfurecido com a forma como esta empresa nos está a tratar, mas não temos ajuda. Arrependo-me de ter vindo para aqui, mas o que posso fazer? Somos desafiados a vir ganhar a vida mas não tivemos qualquer sorte”.

Qatar é uma “prisão aberta”
Ao Guardian, o embaixador do Nepal no Qatar, descreveu o país árabe como uma “prisão aberta”. O secretário-geral da Federação Geral de Sindicatos do Nepal, Umesh Upadhyaya, lamenta que a discussão sobre as condições que o Qatar tem para receber o Mundial 2022 se resuma ao calor extremo que os jogadores vão sentir. “Estão a ignorar as dificuldades, sangue e suor de milhares de trabalhadores imigrantes que vão construir os estádios para o Mundial em turnos que podem durar oito vezes mais do que o tempo de um jogo de futebol”.

O Comité Supremo do Qatar 2022, responsável pela organização do Mundial, “lamenta profundamente as alegações feitas contra certas empresas a trabalhar na construção da Lusail City e considera que se trata de um questão da maior seriedade”. Ao Guardian, a organização disse ter conhecimento que “autoridades governamentais estavam já a investigar essas acusações”.

O Ministério do Trabalho qatari sublinha, por sua vez, que se “uma empresa não cumpre a lei do país, o ministério aplica penalizações e reporta o caso às autoridades”. A tutela assegura que são realizadas inspecções periódicas para “garantir que os trabalhadores recebem o salário a tempo” e que são respeitas as regras sobre o trabalho sob o conhecido calor que caracteriza aquele país árabe. O mesmo discurso foi feito pela empresa responsável pelo projecto Lusail City. “Com base nesta investigação [do Guardian], vamos tomar as acções necessárias contra qualquer indivíduo ou empresa que tenham violado a lei ou o contrato connosco”.

Mega-projecto, mega-polémica
Os valores certos de investimento no mega-projecto de construção das infra-estruturas de apoio ao Mundial não são exactos. Estima-se que 74 mil milhões de euros sejam aplicados nos próximos nove anos. Está ainda previsto um investimento multimilionário em estradas, vias férreas para comboios de alta velocidade e hotéis.

A escolha do Qatar para receber o Campeonato do Mundo de futebol em 2022 não foi tranquila e já tinha posto em causa a decisão da FIFA. Três anos após o anúncio do país como sede do torneio, o presidente da FIFA, Joseph Blatter, reconheceu que se terá "cometido um erro", não só pelas condições meteorológicas mas também devido às “realidades geopolíticas".

Numa entrevista a um jornal alemão Die Zeit, Blatter foi mais longe e afirmou que a escolha do Qatar “teve influências políticas directas”. “Chefes de Governo europeus aconselharam os representantes dos seus países com direito de voto a pronunciarem-se a favor do Qatar, porque estavam ligados a esse país por interesses económicos importantes”, admitiu.