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11.8.23

Emigração de licenciados é "uma calamidade... dava para pagar 36 aeroportos do Montijo"

André Rodrigues, in RR

Segundo o INE, alojamento e restauração são responsáveis pelo crescimento do emprego a níveis máximos, mas são, também, os campeões da precariedade. Presidente da associação Pro.Var, Daniel Serra, diz não ver solução para o problema. A menos que o Governo decida baixar a carga de impostos sobre o trabalho.

O investimento com a formação de licenciados que saem do país daria para construir “36 aeroportos no Montijo”, admite o economista Pedro Brinca.

Em declarações à Renascença, o economista e docente da Nova School of Business and Economics (Nova SBE) fez as contas aos números do Instituto Nacional de Estatística, que indicam que – apesar dos ténues sinais de retoma – o país continua a perder recursos qualificados.

No segundo trimestre do ano, Portugal perdeu, pelo menos, 128 mil trabalhadores com curso superior.

Se, por um lado, o discurso político prefere sublinhar a excelência da geração mais bem formada, Pedro Brinca nota que “o Governo vive no mundo destes fluxos, quando o importante é a perspetiva global. Se é verdade que, em Portugal, os jovens já se licenciam a uma percentagem superior à da União Europeia, também é verdade que o número de licenciados que abandona o país equivale a cerca de 40% dos novos licenciados, todos os anos”.

Olhando para os números com maior detalhe, este especialista refere que, “entre 2000 e 2019, foram 194 mil licenciados que emigraram. Se pensarmos quanto é que custa formar um licenciado, são cerca de 96 mil e 500 euros – isto a preços pré-crise pandémica.

Ou seja, 194 mil licenciados a 96 mil e 500 euros cada um, são cerca de 18 mil milhões de euros... isso dava para 36 aeroportos do Montijo. Realmente é uma calamidade”.

Noutro plano, o INE confirma uma subida recorde dos contratos precários, que está a impulsionar o aumento do emprego em Portugal.

Entre abril e junho, havia quase cinco milhões de pessoas empregadas em Portugal, o que, para Pedro Brinca já reflete a sazonalidade, através do “emprego precário que visa satisfazer o aumento da procura de equipamentos turísticos”.

Mas, segundo o professor da Nova SBE, há duas outras razões que explicam a tendência.

Em primeiro lugar, uma questão “quase geracional: temos uma geração que tem uma proteção no emprego muito grande, sobretudo a geração acima dos 40 a 45 anos. Depois, temos a outra geração, que são os mais novos que estão a entrar agora e que têm relações laborais muito mais precárias”.

Adicionalmente, “em 2019, Portugal era o terceiro país da OCDE com maior índice de legislação de proteção laboral e era, também, o terceiro país da Europa com maior percentagem de trabalhadores com contrato temporário”.

Para Pedro Brinca, a leitura é simples: as leis do trabalho em Portugal criam “ineficiências que permitem que os empregadores possam contornar a lei e muitas vezes”.

“E, muitas vezes, o Estado é o primeiro a prevaricar, ao recorrer a empresas de trabalho temporário, para garantir a prestação de alguns serviços, como, por exemplo, a limpeza dos edifícios públicos”, exemplifica.

Alojamento e restauração campeões da precariedade

Por serem atividades associadas ao aumento da atividade turística nesta altura do ano, o INE identifica o alojamento e a restauração como os setores que explicam o facto de a criação de emprego estar em valores máximos.

O problema é que são atividades marcadas pela precariedade, seja na instabilidade dos contratos, seja nas remunerações auferidas pelos trabalhadores.

Em nome do setor da restauração, Daniel Serra, da associação Pro.Var recusa a ideia de que os baixos salários sejam uma prática recorrente.

O problema, diz à Renascença, é que “o setor que não está regulado, tem uma sobrecarga de impostos bastante grande”.

“Neste momento, é verdade que muitos dos trabalhadores estão com contratos precários, mas estão a ganhar acima da média, até de outros setores e isto também tem a ver com a dificuldade na obtenção de mão-de-obra, o que obriga os empresários a ter de pagar bem melhor para reter e captar mão-de-obra”, explica.

No entanto, Daniel Serra também reconhece que “muitos empresários não querem arriscar a ter contratos sem termo, porque a situação é muito, é muito oscilante”.

Tem tudo a ver com a oscilação dos fluxos de faturação: “temos altos e baixos e já se está a verificar, no terceiro trimestre, que está a haver uma perda entre 10 e 20%”, porque os clientes “estão a gastar muito menos… estão a evitar as entradas e as sobremesas, substituem vinhos por cerveja ou então pedem vinhos mais baratos”.

Na hora de tirar a conta, “o ticket médio está a baixar de forma significativa e isto é uma dificuldade para os empresários”.

O presidente da Pro.Var garante “os empresários neste momento serão os mais interessados em ter nos seus quadros, pessoas estáveis, com contratos a longo prazo”.

Mas reconhece que “não há condições e, enquanto o Governo não criar condições para essa estabilidade – ou seja, impostos que sejam razoáveis – vai ser muito difícil que se evite esta precariedade”.

5.7.22

Ter canudo compensa? Salários de licenciados caíram 11% em 10 anos

Sandra Afonso, in RR

O relatório "Estado da Nação: Educação, Emprego e Competências em Portugal" revela que a pandemia dificultou a entrada dos jovens no mercado de trabalho e o ensino à distância provocou perdas de aprendizagem que podem ser irreversíveis.

Na última década, o salário médio só aumentou para os menos qualificados, segundo a edição do “Estado da Nação: educação, emprego e competências em Portugal” - o relatório anual da Fundação José Neves.

Entre 2011 e 2019 os trabalhadores somaram perdas no salário real, ter um canudo ainda garante um ordenado melhor, mas a diferença é cada vez mais curta.

Em comparação com os restantes Estados-membros, Portugal é dos que paga pior e tem menor produtividade.

Ainda vale a pena estudar?

O salário médio em 2019 ficou claramente abaixo do de 2011, mas um canudo aumenta em 16% a probabilidade de encontrar emprego e em 50% a possibilidade de estarem entre os 40% da população que ganham mais.

A má notícia é que o salário médio, nestes dez anos, só aumentou para quem tinha o ensino básico. Uma subida na ordem dos 5%, puxada pelo aumento do salário mínimo.

Quem tem o ensino superior perdeu 11% do rendimento, quem concluiu o secundário, viu o salário médio cair 3% em dez anos.

Para os jovens que acabam de entrar no mercado de trabalho ainda foi pior, com perdas entre os 15%, nos licenciados, e os 22% entre os doutorados.

Alguns acabam por ir trabalhar para o estrangeiro, onde vários países oferecem melhores condições.

Em 2019, antes da Covid-19, 13 países da União Europeia pagavam melhor aos trabalhadores com o secundário do que Portugal aos trabalhadores com o ensino superior. Em cinco Estados-membros até os menos qualificados recebiam mais que os trabalhadores universitários em Portugal.

Em paridade de poder de compra, o rendimento anual médio em 2019 foi o 7.º mais baixo da União Europeia.

E quanto à produtividade?

Relatório assinala ser essencial para subir os salários, mas refere que em Portugal é cada vez menor, face à média europeia. Em 2019, foi o sexto país com a menor produtividade e nem as qualificações dos mais jovens ajudaram a economia.

Carlos Oliveira, presidente executivo da Fundação José Neves, aponta uma conclusão relevante: “Que as gerações mais qualificadas e mais jovens só começam a ter impacto na produtividade de uma empresa quando representam, pelo menos, 40% da força de trabalho. Se os jovens qualificados, portanto, até aos 34 anos, representarem apenas entre 20 a 40% da força de trabalho, não há impactos relevantes e se for inferior a 10%, até pode haver diminuição da produtividade de uma empresa.”

A pandemia teve consequências?

Segundo o estudo, durante a pandemia, "o emprego dos jovens foi o mais afetado e ainda não tinha recuperado totalmente no último trimestre de 2021, com perdas de 27.500 empregos face ao mesmo trimestre de 2019".

Além do impacto nos jovens no mercado de trabalho, a crise sanitária dificultou a entrada dos jovens no mercado de trabalho.

“Em 2021, apenas 74% dos jovens entre os 20 e os 34 anos que tinham completado um nível de escolaridade nos últimos três anos estavam empregados, uma queda acentuada face a 2019 que interrompe a tendência positiva que se vinha a verificar desde 2012”, pode ler-se no relatório.

A queda foi mais acentuada entre os que terminaram um curso superior, apesar da taxa de emprego dos recém-diplomados continuar acima dos que terminaram o ensino secundário.

Além de penalizar a entrada no mercado de trabalho dos jovens, diz o estudo, “a pandemia teve implicações na aquisição e no reforço de competências em diferentes fases da vida, comprometendo o futuro profissional de indivíduos e trabalhadores e também o crescimento económico do país”.

13.2.17

Rendimentos dos licenciados baixaram 20% desde 1998

in iOn-line

Salários mais altos são pagos em setores que ficam menos expostos à concorrência, como banca e energia

O saber não ocupa lugar. Todos conhecemos este ditado popular e ninguém contesta a ideia que está na base. No entanto, a recompensa para quem estuda em Portugal já foi maior tendo em conta os rendimentos.

De acordo com os dados do Instituto Nacional de Estatística (INE), o rendimento salarial médio mensal líquido dos trabalhadores por conta de outrem com ensino superior baixou 19,5% em duas décadas.

Os trabalhadores com formação universitária chegaram a receber, em 1998, a preços de 2016, 1518 euros líquidos mensais. No ano passado, esse valor tinha caído para 1223 euros.

A verdade é que desde o início da crise económica que afetou Portugal nos últimos anos, os salários destes trabalhadores têm descido.

Ainda assim, não é apenas o salário dos trabalhadores com ensino superior que tem estado a diminuir. Há quebras para todos os níveis de escolaridade.

Salários mais altos Os salários mais altos concentram-se sobretudo nos seguros, banca, energia e no Estado.

“Esses salários mais altos ocorrem em setores de bens ou serviços não transacionáveis. A começar pelos bancos, onde os custos salariais têm aumentado de forma exponencial, como foi o caso da Caixa Geral de Depósitos (CGD). A troika e o governo anterior tentaram alterar este panorama de setores protegidos, mas está à vista que não conseguiram”, explicou recentemente Pedro Ferraz da Costa, presidente do Fórum para Competitividade.

Por exemplo, o salário médio no setor financeiro e seguros foi de 1409 euros no ano passado. Um valor que representa um aumento de 49 euros em relação ao ano anterior.

Mas a banca é apenas um exemplo. No entender de João Carlos Cerejeira, professor da Universidade do Minho, é preciso ter em conta que “os vários subsetores do Estado têm, por vezes, pessoal mais qualificado e, portanto, vencimentos mais elevados. No entanto, olhando para as estatísticas do INE, é bem verdade que os salários mais altos estão muitas vezes em setores protegidos”.

E é também neste sentido que Ferraz da Costa sublinha que uma das intenções da troika foi “reduzir o número de ordens profissionais e estas recorreram a Bruxelas. No fim do processo, Portugal tinha mais ordens profissionais do que em 2011. A resistência à liberalização no acesso a profissões encontra um bom exemplo na atitude dos taxistas perante a Uber”.

Em suma, os dados do INE mostram que os maiores salários acabam por ser pagos em setores que ficam muito menos expostos à concorrência. Mais: muitas das subidas que se registaram nos valores médios salariais aconteceram em setores que pouco contribuem para as exportações nacionais. Feitas as contas, falamos de subidas que chegam a ser cinco vezes superiores à média nacional.

Recentemente, um estudo da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico (OCDE) sobre a economia portuguesa mostrava que 30% dos trabalhadores em Portugal ganham menos de 600 euros por mês.



17.12.14

Das enciclopédias aos call centers empregos para licenciados

por António Costa Santos, in Diário de Notícias

Um jovem finalista de engenharia, camisola de gola alta, calças à boca de sino, mocassins e um blaser de bombazina, apresenta-se à porta do segundo andar de um prédio da avenida. A dona da casa pergunta que deseja o moço e ele propõe-se tomar-lhe meia hora para lhe mostrar uma magnífica enciclopédia de lombada vermelho e ouro, cujos trinta volumes lhe serão entregues no dia seguinte, caso se assine já o contrato. Pode pagar a prestações suaves.

Estamos nos anos 70 do século passado e há legiões de estudantes universitários a fazer o porta-a-porta, nas cidades, vendendo coleções de livros para alegrar as estantes da pequena burguesia, maravilhas do reino animal, dicionários, imagens da arte nos séculos. Não é esse o seu primeiro emprego. Quando saírem das faculdades, os de Direito serão juristas, os de Engenharia, engenheiros, os de Letras, letrados, ou professores. Trata-se apenas de ter dinheiro para comprar o último disco dos Beatles, juntar para um carro, ou acrescentar umas notas de cem à mesada e poder ir à Feira Popular mais vezes.

Os jovens licenciados da geração de 70-80 foram os últimos portugueses com emprego garantido nas suas áreas de estudo. Se a sua primeira ocupação foi vender enciclopédias ou realizar "inquéritos", os antepassados dos estudos de mercado, o caso não se compara com os trabalhos a que os doutores do século XXI se sujeitam para arranjar trabalho.

Daniel Mirrado, 28 anos, acabou em 2010 o curso de zootecnia, é engenheiro em produção animal e, à falta de emprego no ramo, acabou por iniciar outra licenciatura em agronomia, mesmo não tendo garantias de isso lhe servir para trabalhar naquilo de que gosta e para o que estudou.

"Ao fim de quatro anos, verifico que só trabalhei seis meses na minha área, num estágio profissional", lamenta. "De resto, o mais próximo que estive da zootecnia foi quando trabalhei um ano no Continente, pensando que podia subir na empresa, na área da produção animal", acrescenta. Não subiu.

Tentou também a emigração, mas teve azar. "Tinha um contrato firme para trabalhar em produção animal, comprei o voo, tratei da papelada, meti-me no avião e fui barrado à entrada porque me faltava um exame da tuberculose. Nem cheguei a entrar no país." Recambiado, foi viver para Santarém com a namorada, para uma casa emprestada pela família, e é de novo estagiário profissional numa pequena empresa. Ganha pouco, muito menos do que "os 900-1000 euros que se ganhavam quando entrei para a licenciatura". Não está propriamente arrependido de ter estudado, mas acha "indecente" ter 28 anos e ainda não ter começado uma carreira profissional. Quer acreditar que "daqui por 10 anos já possa ter uma vida minimamente estável", mas é só uma esperança, nada de garantido.

Garantias tinha a geração de Luís Pinheiro de Almeida, jornalista, que, ainda a estudar em Direito, onde se licenciou, deu a volta a Portugal, em 1968-69, graças ao biscate que arranjou numa agência de publicidade, a fazer estudos de mercado para várias marcas de detergentes, caldos de galinha e lâminas de barbear.

"Tínhamos emprego certo, mas, enquanto estudávamos, podíamos vender enciclopédias ou, no meu caso, fazer inquéritos sobre produtos para as marcas", conta o jornalista. "Aos 18, 19 anos ganhava dinheiro para os livros, os discos, os cigarros e para o cinema. E o mesmo se passava com a minha namorada da altura e vários amigos e colegas. Calhou-me trabalhar para a (agência de publicidade) Latina, no edifício Franjinhas, em Lisboa, onde conheci o Ary dos Santos. Com o primeiro dinheiro que me pagaram fui aos Grandes Armazéns do Chiado e comprei uma rocket chair, que ainda tenho". Depois, foi trabalhar "a sério" para os jornais e fez carreira. Não havia licenciaturas em jornalismo, mas se as houvesse, haveria trabalho para os licenciados.

Passadas umas décadas, Isabel Condeça, 27 anos, queria ser jornalista, acabou o curso, fez mais um (profissional) no Observatório de Imprensa e, através de um protocolo, foi em estágio de um mês para a Rádio Pax, de Beja. No final do tempo, ficou por lá, a recibos. "Colaborava com o departamento de publicidade, fazia recados. Estive assim um ano, sempre a recibos", conta. Depois, houve que reduzir o quadro de colaboradores e foi despedida.

Ainda em Beja, trabalhou seis meses numa "estação" de televisão digital, três dos quais sem receber. Saiu e não teve direito a subsídio de desemprego. Esteve 14 meses sem ganhar um cêntimo, tirando um trabalho pontual para uma revista de publicidade ", que precisava de uns textos" para embrulhar os anúncios, e teve de ir trabalhar para um call center igual aos muitos que são hoje a fonte de emprego mais fácil dos jovens (e menos jovens desempregados) licenciados.

Ao mesmo tempo fez um casting para a Vodafone FM e ficou em Beja como correspondente da Rádio Renascença. Ao fim de dois anos, a receber à peça, fazendo 200 euros, no máximo, por mês, "começou a desvanecer-me a esperança de viver do jornalismo e voltei para Lisboa".

Hoje, já nem procura trabalho na sua área. "Os call centers é o que dá mais probabilidade de arranjar qualquer coisa". E evita pensar em jornalismo, naquilo que estudou, naquilo que sempre pensou fazer "para não sentir a frustração".

28.10.14

O testemunho de uma arquiteta várias vezes no desemprego

Sandra Henriques, in RTP

O presidente da Ordem dos Arquitetos revelou em entrevista à Antena 1 que o desemprego na profissão atinge quatro vezes mais pessoas do que em 2009. Ana Neves viveu esta estatística na pele. Licenciada em Arquitetura há 11 anos, já esteve no desemprego várias vezes.

Ana Neves é uma das milhares de pessoas que assinaram a petição pública apoiada pela Ordem dos Arquitetos no início do mês contra duas propostas de lei em estudo no Parlamento. Estes profissionais acreditam que a mudança da legislação vai desvalorizar os arquitetos ao permitir que outros técnicos assinem projetos.

4.2.13

Muitos licenciados estão na Suíça a aceitar trabalhos “miseráveis”

in RR

O PCP, na Suíça, alerta para situação "dramática" dos novos emigrantes portugueses e critica a falta de apoio e acompanhamento das estruturas consulares e diplomáticas de Portugal.

O responsável pela Organização do PCP na Suíça alertou para o facto de que há cada vez mais portugueses com formação universitária que emigram para aquele país, em "situação de desespero" e em busca de emprego, acabando por aceitar qualquer trabalho "miserável".

A descrição foi feita à agência Lusa por Manuel Alho, no final de uma reunião da Organização do PCP, na Suíça, para discutir os problemas da comunidade portuguesa.

Segundo Manuel Alho, muitos dos novos emigrantes portugueses na Suíça são "quadros" e pessoas com "formação superior" que, em "situação de desespero", optam por tentar a sorte naquele país, onde também já é "muito difícil" arranjar trabalho, pelo que acabam por aceitar tarefas, por mais desqualificadas que sejam.

Na reunião deste domingo, em Berna, estiveram presentes portugueses que emigraram para a Suíça e que se encontram a viver com muitas dificuldades, tendo apenas a ajuda de amigos, já que, de acordo com Manuel Alho, a Embaixada portuguesa não tem dado qualquer apoio aos emigrantes, apesar de informada dos casos em concreto que atingem os compatriotas.

Outra das críticas de Manuel Alho vai para as dificuldades do ensino do português na Suíça, observando que o Governo português tem "empurrado essa responsabilidade" para o país de acolhimento dos emigrantes, tendo recentemente sido despedidos cerca de 20 pessoas que se dedicavam ao ensino da língua lusa, que devia ser vista por Portugal como um "investimento e uma mais-valia".

20.7.12

O emprego ali ao lado

in RR

Têm entre 25 e 31 anos, são licenciados, mas trabalham fora da área de formação. São portugueses que, apesar das previsões cinzentas, estão a conseguir ter sucesso. Numa altura em que o desemprego jovem subiu quase 30% desde Maio do ano passado, estas são três histórias de quem tenta inverter as estatísticas.

Foi há sete anos. Miguel Freire acabava de se formar em Educação Física, mas o diploma acabou guardado. O destino trouxe-lhe a oportunidade de dar continuidade a um negócio de família em vias de encerrar e há imprevistos que se tornam forma de vida. Hoje, com 31 anos, é agricultor, pai de quatro filhos e gasta todos os dias mais de uma hora para chegar a terras alentejanas.

Numa altura em que o desemprego jovem subiu quase 30% desde Maio do ano passado, Miguel Freire está do lado oposto das estatísticas. "Vir para o terreno, tocar às campainhas e não ficar sentado no café a fazer bolinhas nos jornais" foi a atitude que tomou.

Quando deu os primeiros passos no campo, Miguel Freire "sabia muito pouco". "Mas fui perguntando, estudando e hoje tenho uma base que me permite ir avançando", conta. Os conhecimentos deixados pela a experiência do pai e do tio não bastaram para domar a "vida no campo". Um curso para jovens agricultores e outro de gestão mostraram-se essenciais para gerir a herdade.

Alto, de cabelos bem escuros e sem as esperadas botas de borracha de um típico agricultor, fala ainda sobre a necessidade de apostar em produtos diferentes. No caso de Miguel, é o figo-da-Índia, uma espécie de cacto "pouco conhecido em Portugal". Espera-se que a planta, presente em vários hectares de terra, possa vir ser a alma do negócio em pouco tempo.

E o que diz desta moda de regressar à terra? "A agricultura pode estar na moda, mas esta é feita o ano inteiro", lembra Miguel. É aqui que o diploma de Educação Física pode dar uma mão: estar em forma é melhor do que não estar para resistir ao ano inteiro.

Pequenos de barriga para cima
Diogo Simões sabe hoje o que é andar nas estrelas, mas já provou a infelicidade de não poder voar. Depois de se formar em Língua e Cultura Portuguesa, esteve ano e meio à procura de trabalho na área - nem sequer excluiu a aventura além-fronteiras. Quando as alternativas pareciam esgotar-se, "surgiu um anúncio no jornal": "monitor pedagógico" e o contacto da empresa era a única referência no papel.

Como "trabalho com crianças desde os 14 anos, respondi ao anúncio e estou cá há quatro anos", explica Diogo, que tem 31 anos. Levar planetários insufláveis a várias escolas do país é o que faz. Um projector instalado no meio de uma grande cúpula permite que as crianças, alunos do básico e secundário, possam mergulhar em cenários como o interior do corpo humano ou possam viajar por entre os planetas da galáxia. Diogo, rodeado por pequenos de barriga para cima, coordena tudo aquilo que é projectado no centro do planetário.

Mas há mais. Para exercer o negócio das estrelas, teve de aprender conceitos de astronomia e ciência. E de tempos em tempos, viaja para o estrangeiro para actualizar conhecimentos e as tecnologias dos equipamentos utilizados.

O projecto, pioneiro em Portugal, surgiu há cerca de dez anos e, "por ser diferente", está a "correr bem", explica Diogo Simões. O canudo, "já não tão valorizado", pode não ensinar tudo, mas "deu ferramentas para ser possível trabalhar".

Perante a situação do país, critica a "falta de oportunidades idênticas dadas aos jovens, independentemente da área que se esteja a estudar". As opções são poucas e, refere Diogo, é preciso "começar por baixo" para se ter sucesso.

Costurar o emprego
Para Mafalda Tavares, de 25 anos, "desviar-se do caminho normal" parecer ser também uma alternativa ao desemprego. Tirou o curso superior em Design Industrial e deu o próximo passo: tentar encontrar uma oportunidade de trabalho. Acabou por não conseguir.

Mafalda, que tem mãos de pianista, "precisava de estar ocupada e ganhar algum dinheiro". Conseguiu um "part-time" num teatro de Lisboa, onde ainda trabalha, e mergulhou de cabeça num mestrado que ficou por acabar. A formação, defende Mafalda, "é sempre importante", mas "há pessoas que não nascem para ter uma licenciatura". Nos tempos que correm, "as coisas começam a ficar saturadas e, se calhar, muitas pessoas não o deveriam estar a fazer".

Apesar de não encontrar o trabalho idealizado, não baixou os braços e começou o próprio negócio como costureira. Pediu emprestada a primeira máquina e agora divide o próprio quarto com um "atelier" de costura.

Tudo o que sabe aprendeu sozinha e com a mãe. Não deixou de lado a licenciatura e tentou "trazer os processos do 'design' para as costuras". Hoje, tem já uma loja "online" e cria peças de vestuário com um estilo próprio. O emprego, afinal, estava ali ao lado da licenciatura em "design".