Por António Marujo, in Público on-line
A Conferência Episcopal Portuguesa (CEP) está preocupada com a situação de “muitas famílias portuguesas se interrogarem [sobre] como vão chegar ao fim do mês em termos económicos”. E, em relação ao acordo sobre a ajuda externa atingido esta semana entre Portugal e a troika internacional, os bispos consideram que “tudo o que privilegiar os mais fracos é bom”.
Em conferência de imprensa ontem realizada após o final da assembleia plenária, o novo vice-presidente da CEP, D. Manuel Clemente, acrescentou que “era muito bom” que a troika que negociou a ajuda externa tivesse ouvido instituições sociais ligadas à Igreja. Isso teria permitido aos negociadores internacionais “conhecer a sociedade portuguesa”.
Na ausência do patriarca, que foi eleito presidente da CEP na terça-feira, mas estava ontem em Roma para uma conferência, foi o novo vice-presidente a responder à maior parte das perguntas.
Sobre as eleições legislativas de 5 de Junho, Manuel Clemente afirmou também que o que estará em causa são “os portugueses e a sociedade que formamos”. E acrescentou ser necessário “encontrar meios de responder à problemática de subsistência de muita gente, de formação e qualificação das novas gerações, com a requalificação de gente que ficou com a carreira a meio da vida”, bem como ao problema “dos idosos que cada vez são uma fatia maior da sociedade”.
No comunicado final, os bispos destacam a “relevância deste acto cívico”, mas alertam para o facto de a democracia não se esgotar nos actos eleitorais. E acrescentam que importa conhecer os programas das diferentes forças políticas “e verificar a atenção que prestam aos mais carenciados, económica e socialmente”.
Ainda no comunicado, os bispos fazem um forte apelo a que os eleitores “não se abstenham mas participem, responsável e livremente” e acrescentam que “as opções éticas daqueles que pedem o nosso voto devem contar na hora da votação”.
Em relação ao período pós-eleitoral, os bispos “apelam às diversas forças sociais e políticas para que se esforcem por encontrar um amplo consenso que promova a governabilidade do nosso país”. Só isso, dizem os bispos, permitirá “responder ao desafio premente da solução da actual crise, procurando sempre defender e servir os mais frágeis, e construir o bem comum”.
Na conferência de imprensa, o novo vice-presidente da CEP afirmou que “o que se pede é que as forças políticas definam estratégias para enfrentar objectivos comuns” como sejam a solidariedade. E acrescentou: “A Igreja não está do lado dos cacos, está do lado da cola.”
O bispo do Porto admitiu que a actual crise financeira coloca em questão o futuro da União Europeia: “Tudo está em causa se as pessoas deixarem de ter causas e de lutar por elas. O mais importante é que a União Europeia recupere o fôlego inicial, quando homens das antigas trincheiras se puseram em comum para construir uma Europa que se garantisse totalmente.”
Durante esta assembleia plenária, a CEP assinou um acordo de entendimento com a União das Misericórdias por causa de um decreto dos bispos do ano passado, entendido como tentativa de controlar aquelas instituições plurisseculares.
O vice-presidente da CEP referiu-se também ao projecto “Repensar a Pastoral em Portugal” que o episcopado está a dinamizar. “Pela primeira vez, foram envolvidos milhares de cristãos” num processo de debate sobre as prioridades da Igreja Católica para os próximos anos. Um processo que, acrescentou, pretende responder aos novos tempos: “O catolicismo popular já não chega para que o cristianismo seja uma resposta clara de cada um dos cristãos”, afirmou.
A CEP anunciou ainda o nome do novo reitor do Santuário de Fátima: o padre Carlos Cabecinhas substitui o padre Virgílio Antunes, nomeado na semana passada para bispo de Leiria e que ficou a meio do seu mandato de cinco anos.


