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22.1.18

Estes 9 multimilionários têm mais dinheiro que metade da população mundial junta

in Notícias Magazine

Estes números tornam por de mais evidentes as desigualdades e a injustiça que persistem (e crescem) no planeta.

Um relatório recente da Oxfam, organização não governamental internacional que luta contra a pobreza, citada pela Business Insider, revela que os 1 por cento mais ricos do mundo acumulam mais riqueza do que todo o resto da população mundial.

Atente nos números: uma elite que representa 1 por cento da população tem mais recursos do que os 99 por cento da restante população mundial junta.

E mais: se as fortunas destes nove homens fossem somadas, a riqueza daí resultante suplantaria a da soma dos proventos dos 4 mil milhões de pessoas mais pobres.

Segundo a mesma Business Insider, atualmente existem 1500 multimilionários no mundo, 560 deles nos Estados Unidos. A China, a Alemanha e a Índia têm cem ou mais, cada uma. Os restantes estão espalhados um pouco por todo o mundo, incluindo os países mais pobres, onde o fosso das desigualdades é assustadoramente maior.
Percorra a galeria de imagens acima clicando sobre as setas.

4.10.17

"A China vai dos pobres mais pobres aos bilionários da Forbes"

Helena Tecedeiro, in Diário de Notícias

Em Lisboa para participar na conferência Em Que Pé Está a Igualdade?, organizada pela Fundação Francisco Manuel dos Santos, no Teatro Nacional de São Carlos, Branko Milanovic falou da China e da Índia. O economista sérvio-americano desvalorizou impacto de Donald Trump no sistema americano e explicou que Emmanuel Macron está a tentar combater o populismo causado pelo neoliberalismo com mais neoliberalismo.

A China está a abrandar. Podemos esperar que continue a ser a locomotiva da economia mundial?

A taxa de crescimento da China costumava andar nos dois dígitos, depois passou para 8% e agora anda nos 6,5%. Mesmo assim é um nível de crescimento muito elevado. Sobretudo quando os países ricos baixam as expectativas, considerando taxas de crescimento de 1,5% ou 2% satisfatórias. A longo prazo, à medida que se aproxima da fronteira tecnológica, a China vai deixar de crescer ao ritmo a que cresce agora. Mas não estou preocupado. E mesmo que a China já não seja uma locomotiva tão boa, temos países como Índia, Indonésia, Vietname, até a Birmânia mais recentemente, e países em África, como a Etiópia, que estão a crescer muito rapidamente.

A China é uma sociedade capitalista com um regime comunista. Esta contradição pode ser um problema?

Devíamos esquecer a forma como os partidos se chamam. O que temos na China é uma economia capitalista com um sistema de partido único. Nesse sentido, a China representa um potencial parceiro para as sociedades ocidentais - democracias liberais e multipartidárias - por serem ambas capitalistas. E se olharmos para a percentagem do produto interno bruto (PIB) produzida pelo setor privado ou para a percentagem de empregos privados, é de 60% ou 70%.

O aprofundar das desigualdades é o maior desafio para o governo chinês?

É um desafio por várias razões. Em primeiro lugar, a China é geograficamente muito desigual. Tem as províncias costeiras com as grandes cidades, como Xangai ou Pequim, que se estão a dar muito bem. E tem as áreas rurais. Se olharmos para a distribuição de riqueza na China em termos globais, há pessoas nas zonas rurais que estão no fundo da tabela. A China, um pouco como o Brasil, cobre a totalidade da distribuição de riqueza - dos mais pobres que vivem no que o Banco Mundial define como pobreza absoluta aos bilionários na lista da Forbes. Deixando de parte chamar-se comunista, o partido no poder tem preocupações de justiça social. A campanha anticorrupção que lançaram está ligada à conclusão de que as desigualdades e a corrupção podem minar a legitimidade do partido.

Falava da Índia. Uma população mais jovem será segredo para o seu sucesso?

A Índia está a crescer em termos populacionais mais rapidamente do que a China. Irá ultrapassá-la dentro de dez anos, talvez menos. Estou bastante otimista em relação à Índia, até porque tem um número crescente de jovens educados. Também tem a vantagem da língua inglesa, que não sendo falada por todos é falada por uns 200 milhões de pessoas. E é uma democracia. Está permanentemente num alto nível de instabilidade, mas, graças à democracia, é uma instabilidade que tem sido gerida desde a sua fundação, há 70 anos. O perigo agora é que a coabitação entre hindus e muçulmanos se deteriore.

Perante os emergentes, Trump terá de lutar para tornar a América grande outra vez ou basta gerir a vantagem?

Ninguém sabe o que ele vai fazer. Acho que nem ele sabe. Além disso, temos de ver se ele e a administração chegam ao fim do mandato... pode haver um impeachment. O que é mais interessante é o tipo de sistema que permitiu a Trump chegar ao poder. Ele aparece devido a uma grande insatisfação entre os americanos - com os níveis de rendimento, a falta de emprego, a falta de oportunidades, o sentimento de que tinham sido abandonados pelos políticos de ambos os partidos. É mais interessante perceber quais as forças que o trouxeram ao poder do que o que ele vai fazer. Não acredito que ele tenha efeito a longo prazo no sistema americano.

Podemos dizer que foi um falhanço da administração anterior que trouxe Trump ao poder?

Não é só um resultado da última administração, mas sim das últimas administrações. Foram 20 e tal anos de políticas neoliberais. E enquanto a percentagem de pessoas insatisfeitas era relativamente pequena, as elites liberais não lhes prestaram atenção.

O protecionismo defendido por Trump pode prejudicar a economia americana e reforçar desigualdades?

Sim, mas não acredito que vá acontecer. O NAFTA [acordo de comércio livre entre EUA, México e Canadá] está a ser renegociado, mas o sistema construído nos últimos 70 anos não será refeito. E como se viu com a NATO, Trump diz uma coisa e faz outra. Vai ser um presidente populista que na verdade é um plutocrata.

A insatisfação, as desigualdades também existem na Europa e estão a alimentar movimentos populistas. Os líderes europeus têm de lidar com isto?

Na Europa a perceção desse fenómeno é bastante forte. Primeiro foi o brexit, depois [Marine] Le Pen e agora a AfD na Alemanha. Se olharmos para a alternativa proposta por Macron, tem logo problemas a nível interno em França - há uma enorme oposição às suas políticas, de facto, neoliberais. É interessante que este problema tenha sido originado pelo neoliberalismo e que agora Macron se proponha salvar a França do populismo com mais neoliberalismo. Esse neoliberalismo seria equilibrado por uma UE mais forte. Mas isso parece pouco provável depois das eleições alemãs. Todos sabem que é um problema, não sei se há muito a fazer. Olhemos para os grandes países: a Alemanha tem a extrema-direita pela primeira vez no Parlamento na história recente; a França tem um problema com a mudança das leis laborais; o Reino Unido está ocupado com o brexit; a Polónia tem um governo nacionalista/populista e a Espanha está ocupada com a Catalunha. Não vamos resolver os problemas da UE quando os países têm os seus próprios problemas.

Portugal sofreu muito com a crise financeira. O que acha da opção da Europa pela austeridade?

Não sou macroeconomista, mas quando olhamos para a Grécia, era uma questão de matemática. O rácio de dívida em relação ao PIB é mais alto do que no início da crise e vai ficar ainda mais alto. É claro que, a menos que a dívida fosse perdoada ou tornada mais leve através de uma restruturação extravagante, a Grécia não ia conseguir sair do buraco onde estava. E de onde ainda não saiu. Para a Grécia, estas políticas foram claramente erradas. Mas para outros países funcionou. Portugal é muitas vezes dado como bom exemplo por ter aplicado medidas de austeridade e agora estar a sair dela. A Espanha também. Em certos casos, estas políticas de austeridade funcionaram. Mas há casos extremos, como o da Grécia, em que é difícil ver como poderiam ter resultado.

17.1.17

Cimeira de Davos: cada vez maior o fosso entre ricos e pobres

in RTP

Os oito homens mais ricos do mundo têm mais dinheiro que a metade mais pobre. Ou seja: mais do que 4.000 milhões de pessoas. Esta realidade impressionante é revelada num relatório da ONG britânica, Oxfam.

À frente da lista dos oito maiores multi-milionários está Bill Gates, o patrão da Microsoft, com uma fortuna avaliada em 70 mil milhões de euros.

Amancio Ortega, do grupo Inditex (dono da Zara) está em segundo com 63 mil milhões.

Em terceiro lugar surge o investidor Warren Buffett, com 57 mil milhões de euros.

O mexicano Carlos Slim é o quarto mais rico do mundo com 47 mil milhões.

Jeff Bezos, da Amazon, está em quinto lugar com uma fortuna de 42 mil milhões de euros- praticamente o mesmo que o fundador do Facebook, Mark Zuckerberg.

O sétimo homem mais rico do mundo é Larry Ellison, da Oracle. Tem uma riqueza acumulada de quase 38 mil milhões de euros.

Em oitavo lugar está Michael Bloomberg com o mesmo valor. Este relatório conclui ainda que é cada vez maior o fosso entre os mais ricos e os mais pobres do mundo.

O documento foi apresentado no dia em que na suíça, começa mais uma edição do Fórum Económico Mundial em Davos.


31.5.16

Será a desigualdade inevitável?

Salvador Luz, in "Sábado"

Em plena globalização, o fosso entre ricos e pobres continua cada vez mais profundo. Sabe-se que a maior parte da riqueza mundial é detida por apenas uns poucos e que a desigualdade está a aumentar nos países desenvolvidos. O que causa afinal a desigualdade? Será verdadeiramente inevitável?

Numa TED Talk intitulada Quem controla o mundo?, o físico James Glattfelder apresentou um estudo matemático que tinha realizado para tentar descobrir quais seriam os verdadeiros key players na finança internacional. Com esse objectivo em mente, analisou cerca de 43 mil empresas multinacionais e as respectivas ownership networks, isto é, as relações de controlo e propriedade detidas pelas várias empresas entre si e pelos respectivos accionistas.

Através dos seus cálculos, Glattfelder descobriu que uma percentagem de apenas 36% das multinacionais detinha cerca de 95% do valor total de todas as multinacionais em análise. Revelou também que os 737 maiores accionistas controlavam 80% do valor total de todas as multinacionais em análise. Ainda mais relevante, pela gritante desproporcionalidade, conclui a sua exposição indicando que 40% do valor total em jogo (das tais 43 mil empresas) era detido por apenas 146 accionistas, os quais denominou de top players. Em termos genéricos, o que estes dados nos dizem ao fim e ao cabo é que uma percentagem muito inferior a 1% da população mundial controla cerca de 40% da riqueza existente.

Esta afirmação, e outras do mesmo tipo, provêm de variadas fontes e apesar de indiciarem uma desigualdade mundial impressionante, não constituem já surpresa para a grande maioria. Estamos habituados a saber que pequenas minorias controlam maiorias, estamos, de certo modo, conformados com desproporções chocantes.
Sendo verdade que a desigualdade entre países está a diminuir em termos absolutos, devendo-se esta diminuição a alguma redução da pobreza mundial, mas sobretudo a novas fortunas, principalmente na China e na Índia, o que é facto é que a desigualdade dentro dos vários países continua a aumentar.

No fundo, o que se passa é que, apesar da diferença de rendimentos entre um europeu médio e um chinês médio estar a diminuir, a diferença de rendimentos entre um chinês rico e pobre ou entre um europeu rico e pobre continuam a aumentar. O caso dos EUA é especialmente relevante: em 2011, sabia-se que apenas 1% dos agregados familiares detinha 40% de toda a riqueza nacional.

Chrystia Freeland, autora do bestseller Plutocratas: a ascensão dos novos super-ricos e a queda de todos os outros constata que vivemos numa época em que a desigualdade na distribuição de rendimentos é cada vez mais gravosa. Para o demonstrar, estabelece uma comparação: enquanto que em 1970, uma franja de 1% da população americana detinha cerca de 10% de todo o rendimento nacional, já actualmente, aos mesmos 1% corresponde uma percentagem de 20% de todo o rendimento nacional.

A jornalista e política alerta então para um conjunto de causas políticas que estarão na base desta crescente desigualdade entre os super-ricos e os restantes: a desregulação do sector financeiro, a redução de impostos redistributivos, as privatizações e as protecções legais mais frágeis no mercado laboral. Mas desenganem-se aqueles que lhe atribuem um tom mais socialista no discurso. Freeland defende abertamente o capitalismo e a componente de meritocracia que ele acarreta. Afirma, contudo, que uma plutocracia meritocrática rapidamente se pode transformar numa plutocracia "do compadrio", em que uns poucos se debateriam para manter o controlo sobre a maioria, perdendo relevância o mérito individual.

Freeland faz também referência ao conhecido problema que a chamada Curva Great Gatsby demonstra: quanto maior for a desigualdade de rendimentos, maior será a imobilidade social. Esta constatação é algo intuitiva, pois sabemos que as vantagens daqueles com maior riqueza são cumulativas – pessoas nascidas em famílias mais prósperas terão um melhor acesso à saúde e à educação, melhor estimulação intelectual e um maior capital social e rede de conhecimentos para usar ao longo da vida, o que acaba por implicar maiores hipóteses de sucesso, existindo um ciclo vicioso em que os ricos ficam mais ricos e os pobres deixados para trás.

Na mesma linha, o economista francês Thomas Piketty afirma no seu recente bestseller O Capital no Século XXI que a desigualdade não se trata de um mero acidente da História, mas sim de uma característica inerente a um qualquer sistema capitalista, que só pode ser reduzida ou anulada através de intervenção estatal. Vem fundamentalmente dizer, através de demonstrações matemáticas, que a desigualdade continuará a aumentar enquanto a taxa de rendimento do capital for superior ao crescimento económico, originando uma maior concentração de capital.

No entanto, o que releva especialmente da análise de Piketty é o facto de afirmar que a desigualdade terá sempre existido, através do que ele chama de capitalismo patrimonial ou riqueza herdada (de certa forma associada à mencionada curva de Gatsby e ao imobilismo social); a razão por detrás do facto de a desigualdade parecer estar a aumentar actualmente deve-se simplesmente a uma "regresso à normalidade" – é que o século XX terá sido um século sui generis, excepcional, em que uma Grande Depressão, revoluções comunistas e duas Guerras Mundiais terão feito com que a redistribuição de riqueza fosse uma absoluta prioridade política, estando estes acontecimentos na origem da afirmação do Estado-Providência, e mais tarde, o Estado Social.

O que acontece é que as últimas décadas, marcadas pelo fenómeno da globalização e pelo surgimento de políticas neoliberais, estarão por detrás da crescente desigualdade que se observa actualmente. Thomas Piketty chega a dizer que estaremos a regressar ao período pré-1914, em que existem uns poucos herdeiros imensamente ricos.

De certa forma, a visão de Piketty encaixa nos cálculos de Glattfelder e nas conclusões de Freeland, que por sua vez acabam por se concretizar, de forma algo simplificada num adágio popular: dinheiro chama mais dinheiro. Fica claro que a disparidade entre aqueles mais prósperos e menos prósperos tende sempre a crescer, numa espécie de ciclo vicioso exponencial.

Mas nem tudo é mau, e não estamos condenados a viver segundo as leis da Economia porque sabemos que existe Estado – existe um poder político que pode interferir e procurar modificar as tendências económicas através de intervenções variadas, orientadas por ideais de justiça e de igualdade.

Os instrumentos à disposição dos Estados para redistribuir riqueza e contrabalançar os crescentes efeitos da desigualdade são vários e conhecidos: um novo aumento da regulação dos mercados financeiros, a implantação de tributação progressiva, a celebração de acordos internacionais que impeçam as empresas de contornar o devido pagamento de impostos, e fundamentalmente, a garantia de igualdade real de oportunidades para todos, através de uma educação acessível e universal.

Mesmo em casos de extrema desigualdade e pobreza, existem soluções quase-milagrosas. No Brasil, nas últimas décadas, cerca de 40 milhões de brasileiros terão saído do limiar da pobreza e ingressado na classe média. Para além de crescimento económico em geral, um dos factores por detrás deste espectacular facto terão sido as "Bolsas Família", uma revolucionária medida de apoio social extremamente simples implantada por Lula da Silva: às famílias mais desfavorecidas era entregue uma pequena quantia em dinheiro em troca de determinadas contrapartidas, isto é, comportamentos socialmente positivos que os beneficiários teriam que levar a cabo, como por exemplo, garantir a frequência dos filhos na escola ou o cumprimento do plano de vacinação.

Nos primeiros três anos o programa reduziu a pobreza extrema em 15% e estudos recentes indicam que a "Bolsa Família" terá ajudado a reduzir a disparidade de rendimentos no Brasil num terço. Tal foi o sucesso no combate à pobreza desta medida que 40 são os países que procuraram já seguir o exemplo do Brasil, implantando programas semelhantes.

Mesmo no mundo globalizado dos dias de hoje, os governos têm uma efectiva e real capacidade para tomar medidas relevantes para reduzir a desigualdade. Por demasiado tempo, políticos e economistas têm visto o problema de modo algo conformado, encarando a desigualdade como uma realidade lamentável, mas imutável. No entanto, as soluções existem e estão nas suas mãos.

17.5.16

Fosso entre 'ricos e pobres' agrava-se e rendimento das famílias recua 10 anos - INE

In "Dinheiro Digital"

O fosso entre as famílias portuguesas com maiores rendimentos e as de mais baixos recursos aumentou entre 2004 e 2014, sendo que a quebra do rendimento médio da população em geral atingiu 16,5% entre 2010 e 2013, revela informação do Instituto Nacional de Estatística (INE).

- Crise global e 'troika'
Embora evidenciando um crescimento face a 2013, o rendimento dos portugueses situava-se em 2014 praticamente ao nível dos valores de 10 anos antes, uma realidade que refletiu o impacto da crise financeira global e as restrições impostas pelo resgate internacional da troika (FMI; BCE e CE) a Portugal.

De acordo com os resultados definitivos do Inquérito às Condições de Vida e Rendimento (EU-SILC), publicados hoje pelo INE, o rendimento monetário disponível médio por agregado familiar foi de 17 017 euros anuais em 2014, ou seja, 1 418 euros por mês.

Dez anos antes, refere o documento, o rendimento monetário disponível médio por agregado familiar era de 16 999 euros, «o que equivale a situar o nível de rendimento de 2014 no patamar de 2004». Depois de um período de crescimento contínuo deste rendimento até 2009 (10,2% em 2009 face a 2004), sucederam-se quebras no rendimento nos anos de 2010 a 2013 (-9,6% em 2013 quando comparado com 2009), situa o relatório sobre as condições de vida dos portugueses.

No entanto, em 2014, o rendimento monetário disponível médio por agregado familiar registou um aumento face ao ano anterior, de 82 euros por agregado familiar, precisa o INE.
Ao contrário, «a quebra do rendimento médio em 2010- 2013 em termos reais (-16,5%) resulta bastante mais significativa por comparação com os valores nominais».

- Mais emprego e mais educação «significam mais rendimento»

De acordo com o destaque que sumariza o relatóiro «Rendimento e Condições de Vida» de 2015, publicado nesta sexta-feira, «Emprego e mais educação significam mais rendimento». No conjunto dos 20% da população com rendimentos mais elevados em 2014 (rendimentos disponíveis superiores a 1 110 euros mensais), 57,5% tinha completado o ensino superior e 26,2% tinha emprego.

Mais de 50% da população que tinha terminado o ensino secundário posicionava-se nas duas classes de rendimento mais elevadas.

«Em contraste, quase metade da população que apenas tinha completado o ensino básico e mais de 60% da população desempregada vivia em 2014 com um rendimento equivalente inferior a cerca de 610 euros mensais».
- Assimetrias «muito significativas» na distribuição dos rendimentos

O limiar de pobreza, ou linha de pobreza relativa, que corresponde a 60% da mediana da distribuição rendimento monetário disponível mediano por adulto equivalente, foi de 5 061 euros em 2014, ou seja, cerca de 422 euros por mês. Nesse ano, 19,5% da população residente estava em risco de pobreza, mantendo-se o valor estimado para 2013.

Em 2014, assinala o relatório, «reduziu-se a assimetria na distribuição dos rendimentos entre os grupos da população com maiores e menores recursos, observando-se a redução dos indicadores de desigualdade face ao ano anterior». No entanto, «manteve-se uma assimetria muito significativa relativamente aos 10% da população com maiores recursos em comparação com as restantes classes de rendimento», segundo a mesma fonte.
Em 2014, o rendimento monetário disponível por adulto equivalente dos 10% da população com maiores recursos (em média, 26 127 euros anuais) e o rendimento dos 10% da população com mais baixos recursos (em média, 2 469 euros no ano), foi de 10,6.

A análise dos rendimentos médios equivalentes por classes de rendimento entre 2004 e 2014 «evidencia não só esta desigualdade entre extremos da distribuição, mas também a permanente assimetria do rendimento da população com maiores recursos relativamente às restantes classes».

Por exemplo, refere o INE, «em 2014 o rendimento do 9º decil era 6,1 vezes maior do que o rendimento do 1º decil, significativamente inferior à distância entre o 1º e o 10º decis (10,6)».

23.2.15

Fosso entre pobres e ricos aumenta em Portugal há cinco anos consecutivos

Nuno Guedes, in TSF

A ONU comemora hoje Dia Mundial da Justiça Social. Há cinco anos que Portugal assiste a um aumento do fosso entre os rendimentos dos 10% mais ricos em relação aos 10% mais pobres.

É cada vez maior o fosso entre os mais ricos e os mais pobres em Portugal. Há cinco anos que não pára de aumentar a desigualdade na distribuição dos rendimentos. Os especialistas alertam para a crescente falta de justiça social na Europa, mas também em Portugal.

Depois de vários anos a descer, a desigualdade na distribuição dos rendimentos no país voltou a subir em 2009. Nesse ano, os 10% mais ricos tinham um rendimento 9,2 vezes superior ao dos 10% mais pobres. Um número que, segundo o Instituto Nacional de Estatística, subiu para 9,4 em 2010, 10,0 em 2011, 10,7 em 2012 e, finalmente, 11,1 em 2013 (últimos dados disponíveis).

Um estudo recente da fundação alemã Bertelsmann, numa abordagem que não se ficou pela análise dos rendimentos, concluiu, também, que Portugal é um dos países europeus que tem andado para trás na justiça social. Somos o nono país da Europa (a 28) pior na fotografia. As notas mais negativas registam-se nas áreas da justiça entre gerações, educação igual para todos e pouca capacidade de inclusão do mercado de trabalho nacional.

O sociólogo e especialista em pobreza Alfredo Bruto da Costa defende que a progressiva falta de justiça social é um problema na Europa e ainda mais em Portugal: «estamos claramente a andar para trás, em primeiro lugar devido ao acordo assinado com a troika». Um «retrocesso» que segundo o antigo presidente do Conselho Económico e Social é «particularmente grave porque o conceito de justiça social foi banido do debate político nacional».

Há cinco anos que o fosso entre pobres e ricos aumenta por cá

Por Noticias Ao Minuto

As diferenças entre pobres e ricos estão a aumentar há cinco anos. As desigualdades estão, cada vez mais, a proporcionar injustiça social.

Há cinco anos que o fosso entre pobres e ricos aumenta por cáHá cinco anos que o fosso entre pobres e ricos aumenta por cá Há cinco anos que o fosso entre pobres e ricos aumenta por cá

Por ocasião da passagem sobre o Dia Mundial da Justiça Social, data que a ONU celebra hoje, a TSF revela que, em Portugal, há cinco anos que o fosso entre os 10% mais pobres e os 10% mais ricos vem a aumentar.

19.1.15

Os 80 mais ricos do mundo têm tanto dinheiro como os 3,5 mil milhões mais pobres

in Diário de Notícias

O fosso entre os mais ricos e os mais pobres está a crescer e, no próximo ano, segundo prevê a Oxfam, o património acumulado pelos bilionários do 1% vai ultrapassar o dos restantes 99%.

Um por cento da população mundial está muito perto de ter mais dinheiro e riqueza do que o resto do mundo, ou seja, que os restantes 99%. Aliás, segundo um relatório da organização não-governamental britânica Oxfam, as 80 pessoas mais ricas do mundo já têm tanto dinheiro como 50% da população do planeta, ou seja, 3,5 mil milhões de pessoas.

Mais grave é que essa riqueza tenha crescido 50%, mais 600 mil milhões de dólares, em apenas quatro anos, entre 2010 e 2104, nota o relatório. Ou seja, o fosso entre os mais ricos e os mais pobres está a crescer e, no próximo ano, segundo prevê a Oxfam, o património acumulado pelos bilionários do 1% vai ultrapassar o dos restantes 99%.

E quem são os bilionários do 1%? Baseando-se nos dados da lista da Forbes, a Oxfam nota que 30% dos 1645 bilionários são norte-americanos, e que mais de um terço herdou parte ou a totalidade da sua riqueza. Mais 90% são homens e a única mulher no top 10, no último lugar, é Abigail Johnson, presidente da Fidelity Investments.

A organização não-governamental britânica salienta ainda a predominância de bilionários ligados ao setor financeiro e a ascensão de outros com negócios no setor da saúde - dois setores que, nota, gastam muitos milhões em lobbying.

No outro extremo, uma em cada dez pessoas não tem o suficiente para comer e mais de mil milhões vivem com menos de um euro por dia, salientou a diretora-executiva da agência, Winnie Byanyima, que vai copresidir ao Fórum Económico Mundial de Davos, na Suíça. Aliás, 80% da população mundial tem de viver com apenas 5,5% de toda a riqueza produzida.

O documento é apresentado em vésperas do arranque do Fórum Económico, onde Byanyima vai pedir ações urgentes para combater as desigualdades, a começar pelo apertar das regras fiscais para contrariar a evasão fiscal, pela criação de salários mínimos ou ainda através da criação de sistemas de proteção social para os mais pobres.

Mais de 300 dirigentes mundiais, incluindo a chanceler alemã, Angela Merkel, o presidente francês, François Hollande, o primeiro-ministro chinês, Li Kepiang, e o secretário de Estado norte-americano, John Kerry, deverão participar na 45.ª edição do fórum.

25.3.14

Diferença entre muito ricos e muito pobres continuou a subir em Portugal

Cláudia Bancaleiro e Sérgio Aníbal, in Público on-line

Índice de Gini baixou em 2012, mas diferencial de rendimentos entre os 10% mais ricos e os 10% mais pobres aumentou. O indicador de risco de pobreza subiu para o valor mais alto desde 2005.

Um estudo publicado este mês pelo FMI, que defendia que Portugal tinha sido um dos países em que a austeridade mais tinha poupado os de menores rendimentos, relançou o debate: estaria a desigualdade de rendimento em Portugal a aumentar ou a diminuir desde a chegada da troika ao país?

Os números oficiais do Instituto Nacional de Estatística (INE) para 2012 publicados nesta segunda-feira não dão apenas uma resposta a esta questão. Se, por um lado, o índice de Gini – o indicador mais usado para medir a desigualdade dos rendimentos – diminui em 2012 face a 2011, outros indicadores, como a diferença de rendimentos entre os 10% mais ricos e os 10% mais pobres, voltam a alargar-se.

Estes dados, à primeira vista contraditórios, o que mostram é que, no Portugal atingido pelas medidas de austeridade, os rendimentos tornaram-se cada vez mais iguais nos escalões intermédios, mas ficaram mais distantes uns dos outros nas extremidades, ou seja, entre os muito ricos e os muito pobres. Este cenário é ainda reforçado pelo aumento do número de pessoas em risco de pobreza em 2012 e pelo acréscimo do indicador de privação material em 2013, dados também revelados agora pelo INE.

Carlos Farinha Rodrigues, economista que se tem dedicado às questões da pobreza e desigualdade, dá uma explicação para a diferença na evolução entre o índice de Gini e os outros indicadores de desigualdade. “Observou-se em 2012 uma igualização dos rendimentos na parte central da distribuição. Mas nas classes de rendimento menos dependentes dos salários e das pensões – os mais ricos e os mais pobres – as disparidades aumentaram”, afirma.

O índice de Gini, que leva em consideração todos os escalões de rendimento, tinha subido de 34,2% para 34,5% em 2011, mas regressou em 2012, ano de aplicação de fortes medidas de austeridade, para 34,2% (uma diminuição representa uma redução da desigualdade). No entanto, os 10% mais ricos ganham agora mais 10,7 vezes que os 10% mais pobres, quando esse diferencial era, em 2011, de dez vezes.

Segundo este especialista, este alargamento do fosso entre os mais ricos e os mais pobres “deve-se às reduções registadas em prestações como o Rendimento Social de Inserção (RSI) ou o Complemento de Solidariedade para Idosos”, a par da subida do desemprego provocada pela recessão económica.

O facto de, entre os escalões intermédios de rendimento, se ter registado um recuo da desigualdade encontra explicação naquilo que foi dito pelo FMI no seu recente relatório sobre este tema. As medidas de austeridade aplicadas em Portugal – nomeadamente nos salários da função pública e nas pensões – tiveram uma característica de progressividade. Isto é, a percentagem de corte aplicada foi mais alta quanto maior era o rendimento sobre o qual incidia. Foi assim que se operou uma igualização dos rendimentos na classe média. O FMI também assinalava no seu relatório que os cortes nas prestações sociais não tiveram a mesma característica de progressividade, afectando particularmente os mais pobres.

Agravamento da pobreza
Onde parece não haver duas leituras possíveis é na evolução da pobreza. A taxa de risco de pobreza em Portugal – que mede o número de pessoas que vivem com menos de 60% do rendimento mediano em Portugal – aumentou em 2012 para 18,7%, ou seja, afectava quase dois milhões de portugueses, segundo os dados recolhidos pelo INE. Esta é a taxa mais elevada desde 2005 e representa uma subida face aos 17,9% de 2011.

Esta evolução é ainda mais preocupante se se levar em conta que o limiar do risco de pobreza agora considerado se tornou ainda menos exigente do que em 2011, uma vez que se registou, em termos globais, uma redução dos rendimentos em Portugal. Para entrar nesta contabilidade, uma pessoa tinha de receber menos 4904 euros anuais, ou seja, pouco mais de 400 euros por mês. Estes valores representam uma quebra relativamente aos valores de 2011: 4994 e 416, respectivamente.

No relatório do INE, calcula-se quanto é que seria a taxa de risco de pobreza, caso se considerassem os rendimentos medianos de 2009 (apenas actualizados com a inflação). Nesse caso, o indicador teria subido de 20,1% em 2011 para 22,4% em 2012.

A taxa de risco de pobreza para as famílias com crianças dependentes subiu para 22,2%, contra os 20,5% de 2011. A maior incidência revelou-se nas famílias monoparentais com um filho a cargo (33,6%) e nas famílias constituídas por dois adultos e três ou mais crianças (40,4%) e por três ou mais adultos com menores (23,7%).

Depois dos menores e das famílias com filhos, os desempregados estão entre os que mais arriscavam em 2012 uma situação de pobreza, como uma taxa de 40,2%, que compara com os 38,3% do ano anterior.

Outro indicador de pobreza (que tem a vantagem de não depender do rendimento médio da população) é o que mede a privação material das pessoas. O INE faz um inquérito em que avalia de que modo é que as pessoas conseguem satisfazer necessidades que vão da compra de roupa nova até às condições da habitação, passando pela possibilidade de ter momentos de lazer. Neste caso, já há dados para 2013.

No ano passado, 25,5% dos residentes em Portugal viviam em privação material, mais 3,7 pontos percentuais do que em 2012 (21,8%), enquanto 10,9% da população estavam em privação material severa, ou seja, existiam famílias sem acesso a pelo menos quatro dos itens considerados pelo INE.

Para Carlos Farinha Rodrigues, os dados agora publicados são “a fotografia mais completa e consistente do impacto da austeridade na pobreza e na desigualdade” e os números registados “são extremamente preocupantes”, nomeadamente no que diz respeito ao aumento da pobreza entre as crianças e os jovens. Para este economista, o que se está a assistir é “uma completa inversão do ciclo de redução da pobreza que se tinha verificado atá 2009”.

17.3.14

Crise Mundial: ricos cada vez mais ricos e aumento da pobreza!

António Ferraz, in Correio do Minho

A revista norte americana Forbes divulgou recentemente a sua lista dos mais ricos do mundo em 2014. Analisando-a será de realçar o facto de apesar da crise global haver mais ricos e os que já eram ricos terem ficado ainda mais ricos.

Pelo contrário, as estatísticas oficiais apontam para o aumento da pobreza no mundo. Os 1645 multimilionários mundiais listados agregam uma fortuna avaliada em 6,4 biliões de dólares (5,4 biliões em 2013). Os Estados Unidos lideram a lista, com 492 multimilionários, seguidos pela China (492) e Rússia (111). O empresário americano Bill Gates, cofundador da Microsoft retornou ao lugar cimeiro dos mais ricos mundialmente (76 mil milhões de dólares) destronando o anterior líder o empresário mexicano Carlos Slim ligado aos negócios do mundo da comunicação social.

A crise global parece de forma paradoxal a reforçar as desigualdades sociais no mundo.
Portugal segue a tendência mundial havendo cada vez mais ricos e os antigos ricos viram aumentar as suas fortunas, pese embora, o contexto de forte crise, de excessiva austeridade e de empobrecimento crescente da maioria das famílias portuguesas em que vivemos!

Américo Amorim proprietário da Corticeira Amorim e maior acionista da Galp Energia apresenta a maior fortuna no País, subindo 46 posições no ranking dos mais ricos mundiais situando-se agora na 267ª posição com uma fortuna de 5,31 mil milhões de dólares. Embora descendo para a 609ª posição, Alexandre Soares dos Santos (do grupo Jerónimo Martins) mantém o 2º lugar dos mais ricos no mundo com uma fortuna de 2,8 mil milhões de dólares. Em 3º lugar, está Belmiro de Azevedo (Grupo Sonae) que teve uma subida espetacular de 337 posições no citado ranking situando-se agora na 687ª posição com uma fortuna de 2,5 mil milhões de dólares.

É aceitável esta cada vez maior disparidade social? A resposta em minha opinião é claramente não. Seguem, a propósito, algumas narrativas refletivas sobre o assunto:

1.Para os trabalhadores (em geral), a tendência atual é para a degradação das suas condições de vida e para o aumento da pobreza. A desigualdade social em Portugal que é uma das mais elevadas na União Europeia não tem deixado de parar, fruto, em grande medida, da desregulamentação do mercado do trabalho, da desresponsabilização económica e social do estado, da maior facilidade de despedimento dos trabalhadores, dos enormes aumentos de impostos, dos cortes de salários e pensões, da redução dos apoios soc iais, da existência de níveis inaceitáveis de desemprego, etc.

2.Pelo contrário, para os mais ricos a vida parece não correr nada mal. São normalmente empresários em sectores altamente lucrativos, por contraditório que seja, em tempos de crise, especificamente, o sector da grande distribuição (as grandes superfícies comerciais) e o sector da energia (os combustíveis são a parcela maior do aumento das exportações portuguesas).

3.Contrariando a lógica da estacionaridade a longo prazo do modo de produção capitalista preconizada no século XIX por Karl Marx e outros autores clássicos como David Ricardo e Stuart Mill, o capitalismo tem mostrado historicamente a sua capacidade de reprodução a longo prazo, pese embora, as crises cíclicas mais ou menos profundas que lhe são inerentes. Para isso, utiliza vários meios conforme os momentos históricos em concreto. Exemplificando, a valorização do trabalho, em especial, pela criação do estado social (Europa nos anos 1950 e 1960), a expansão do comércio internacional, o alargamento dos mercados, a integração económica, a internacionalização das empresas e o aumento do investimento externo.
Quanto ao investimento externo, os “nossos” ricos tem vindo a transferir avultados capitais para novos mercados mais rentáveis (países emergentes e países onde o custo da mão de obra é ainda mais barata que a verificada em Portugal), cite-se o Leste Europeu, a América Latina e a África.

4. Os lucros dos grandes grupos económicos também se acumulam através da fuga aos impostos, quer por mudanças das suas sedes fiscais quer através de transferências para os chamados paraísos fiscais “offshores” (onde as tributações são muito mais favoráveis).

5. O funcionamento sem regras dos mercados financeiros esteve na origem da atual crise global. Porém, esses mesmos mercados continuam a ser uma das maiores fontes de lucros especulativos dos mais ricos com as suas volumosas participações nas bolsas de valores tradicionais e de futuros, nas transações sobre ações, obrigações e título de dívida soberana nos mercados primário e secundário, etc.

Em conclusão, apesar da crise global constata-se que há cada vez mais ricos e os que já eram ricos viram aumentar as suas fortunas enquanto a pobreza aumenta a nível mundial e nacional o que é uma situação profundamente imoral e comprometedora do bom funcionamento da economia e da sociedade a longo prazo.
Haja vontade política de mudança!

20.5.13

OCDE aponta aumento de abismo entre pobres e ricos na Europa

in DW

Estudo da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico constata que crise econômica intensificou a desigualdade social. OCDE adverte que medidas de austeridade econômica podem acirrar ainda mais o problema.

O abismo entre pobres e ricos não cresce somente desde a crise econômica e financeira global. Segundo a Organização de Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), no entanto, a crise econômica e financeira intensificou essa tendência. Segundo o estudo divulgado nesta semana em Berlim, a desigualdade da renda bruta nos países da OCDE aumentou mais intensamente entre 2008 e 2010 do que nos 12 anos anteriores – ao menos na maioria dos países, afirmou o especialista da OCDE Michael Förster em entrevista à Deutsche Welle.

A Alemanha está entre as exceções. No país, não só as diferenças de renda são menores do que a média da OCDE: segundo Förster, nos três primeiros anos da crise, a renda bruta também cresceu, tanto entre os altos assalariados, como entre os de média e baixa renda – ainda que apenas marginalmente.

Alemanha como exemplo?

Uma razão para isso seria a moderação dos sindicatos nas negociações coletivas. "Nos anos anteriores à crise, de 2000 a 2005, houve na Alemanha um aumento extremo da desigualdade salarial, com um número cada vez maior de empregos precários. Porém o ápice foi atingido em 2005/2006. Os empregos criados desde então são, em grande parte, regulares, sujeitos às normas de seguridade social."

Michael Förster: salários na Alemanha aumentaram, mesmo na crise

Além disso, como nação exportadora, a Alemanha se beneficiou da fraqueza do euro, prossegue Förster. Ela permite, por exemplo, que muitas empresas ofereçam seus produtos mais barato do que a concorrência.

Mas nem por isso a Alemanha está livre da pobreza. Segundo o estudo da OCDE, em 2010 ela atingia 9% dos alemães. Isso coloca o país num campo intermediário, abaixo da média da OCDE de cerca de 11%.

Pobreza relativa ou absoluta

Mas: o que é exatamente pobreza? Nos estudos, isso é geralmente definido por uma determinada renda. Quem estiver abaixo desse rendimento, é considerado pobre. A OCDE tomou como padrão o salário médio de cada um dos diferentes países. Como esse valor está em mudança constante, e, portanto, também o limite de pobreza, fala-se então de "pobreza relativa".

Seguindo essa definição, nos anos da crise econômico-financeira houve somente um leve aumento na porcentagem de pobres nos Estados da OCDE. Por isso, o especialista Förster considera mais significativos os dados da pobreza absoluta.

Para tal, considera-se como limite de pobreza a renda média de um país a partir de um determinado ano – no presente caso, 2005 – e se observa que porcentagem da população desceu abaixo desse limite nos anos de crise. Particularmente afetados foram a Itália, a Espanha e a Grécia. Ou seja, países altamente endividados, cuja política de austeridade econômica também afetou duramente a população.

Jovens têm preocupações financeiras

Nos países em crise, mas não apenas neles, prossegue Förster, são sobretudo os mais jovens a reclamar de falta de dinheiro. Também neste ponto a Alemanha é uma exceção, por garantir postos de trabalho a grande parte de sua população jovem.

"Mas na maior parte dos países europeus, jovens e famílias jovens com crianças perderam uma boa parcela de renda", diz o especialista da OCDE. Em comparação, os cidadãos acima de 60 anos registraram menos perdas.

Christoph Schröder: distribuição de benefícios não é fórmula para combater pobreza

Para Förster, as fórmulas para uma solução se encontram sobretudo na política educacional, uma vez que está constatado que um nível educacional alto da população garante que o abismo entre os de alta e baixa renda não se torne tão pronunciado.

Christoph Schröder, do Instituto da Economia Alemã (IW) em Colônia, tem opinião semelhante, e acredita, além disso, que deveria haver mais ofertas de cuidado em tempo integral para as crianças, a fim de que, justamente, os pais e mães solteiros possam combinar melhor trabalho e família.

"Mais benefícios não é solução"

Nem Förster nem Schröder acreditam que um acréscimo dos benefícios sociais possa tirar as pessoas da miséria e cerrar o abismo entre pobres e ricos. "Não procede que haja menos pobreza nos países com maior redistribuição de renda", comentou Schröder à Deutsche Welle.

No início da crise, os sistemas de seguridade social poderiam ter absorvido alguns encargos, complementa Förster. Mas agora é hora de os políticos entrarem em ação. E, entre outras coisas, eles devem lançar um olhar crítico sobre a própria política de austeridade econômica, caso contrário o abismo entre ricos e pobres se tornará ainda mais extremo. Porém, acima de tudo, as medidas de economia não devem ser empreendidas em detrimento dos mais pobres.