in O Primeiro de Janeiro
Jorge Sampaio lamentou “clima social cada vez mais hostil” para os muçulmanos
Olhar de frente o problema da discriminação, dialogando sobre ele, é a chave para um combate mais activo à intolerância, à discriminação e à xenofobia. Um conceito defendido por Jorge Sampaio na Conferência sobre Intolerância e Discriminação contra Muçulmanos, em Lisboa.
O Alto Representante das Nações Unidas para a Aliança das Civilizações defendeu ontem um combate mais activo à intolerância, à discriminação e à xenofobia face ao Islão, especialmente na Europa e na América. Jorge Sampaio falava na sessão inaugural da Conferência sobre Intolerância e Discriminação contra Muçulmanos, promovida pela Organização para a Segurança e Cooperação na Europa (OSCE), que arrancou ontem na cidade espanhola de Córdoba. O ex-Presidente português frisou que deve olhar-se para o problema de frente, e reconhecer que “actualmente há ansiedade social relativamente ao islamismo e às culturas muçulmanas”. Neste quadro, a comunidade islâmica tem sido “seriamente afectada por um clima social cada vez mais hostil”, sendo crucial reconhecer que o mundo islâmico “não é um monólito, mas sim um mosaico de comunidades”.
Mais do que separar Ocidente e Islão, Sampaio sugeriu que os problemas actuais dividem “sociedades misturadas e interconectadas”, sendo vital deixar “estereótipos e dicotomias simplistas” que “alimentam a ansiedade social perante o Islão e as culturas muçulmanas”. O papel da OSCE é fundamental, por englobar tanto países ocidentais como muçulmanos, por ser um fórum para o diálogo político e por incluir entre as suas prioridades a dimensão humana, assente na busca do respeito pelos direitos humanos e pelas liberdades fundamentais. “Políticas apropriadas aplicadas no momento adequado podem ajudar a prevenir o aumento das ansiedades sociais e dos medos, que levam ao ódio e alimentam a violência”, sublinhou, frisando que “o melhor antídoto para a violência é o diálogo e o debate, falar dos nossos medos e ouvir os medos dos outros, partilhar vulnerabilidades, construir espaços para um entendimento e uma confiança mútua mais profunda”, sustentou.
Sampaio considerou que a Aliança das Civilizações pode contribuir para reduzir a intolerância e a discriminação contra os muçulmanos, e fez votos de que a iniciativa contribua para o desenvolvimento de estratégias nacionais de diálogo entre várias culturas, aproveitando a primeira reunião do Fórum da Aliança, aprazada para o mês de Janeiro em Madrid. “Precisamos de políticas que gerem solidariedade entre todos os parceiros e envolvam acções coordenadas, criando pontes de respeito e de melhor entendimento entre pessoas e comunidades”, afirmou.
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“Anarquia criativa”
Educação para a tolerância
O secretário-geral da Liga Árabe, Amr Moussa, alertou para o confronto entre Islão e Ocidente, “que leva dentro de si a semente para um confronto a longo prazo”. Moussa atribuiu as responsabilidades pelo aumento do choque aos “extremismos” das civilizações e aos que defendem comportamentos “hegemónicos”, promovendo uma “anarquia criativa”. A conferência acaba hoje em Córdoba e contará ainda com a presença do ministro dos Assuntos Parlamentares, Augusto Santos Silva, e do titular da pasta da Justiça em Espanha, Mariano Fernández Bermejo, entre outros, que abordarão a discriminação dos muçulmanos.

