15.10.07

Dia Internacional para a erradicação da Pobreza - Banca e seguros ganham milhões a explorar pobres

Secundino Cunha, in Correio da Manhã

José Maia, padre e presidente da fundação FILOS, alerta para o aumento da pobreza e acusa governantes de esquecerem as pessoas e pensarem só nos contribuintes. Até porque, na sua opinião, há muitos que ganham dinheiro à custa da pobreza

Na próxima quarta-feira vai dar-se no Norte um grito de revolta contra a pobreza, com a criação da plataforma ‘Compromisso com a Inclusão’. Com que linhas se cose essa revolta?

Padre José Maia – Vamos dar as mãos e dizer que não nos sentimos bem com as nossas consciências quando sabemos que todos os dias se cruzam na Área Metropolitana do Porto mais de dois mil toxicodependentes, 420 dos quais são sem--abrigo, a dormir todos os dias na rua; quando vemos que há milhares de pessoas idosas que vivem em condições de habitação desumanas, mergulhadas na pobreza e na solidão; e quando constatamos que o abandono e o insucesso escolar não param de crescer, sobretudo, nos bairros sociais, formando, aos poucos, uma nova geração de analfabetos.

– A plataforma ‘Compromisso com a Inclusão’ vai ser constituída por sete instituições. Fica por aqui ou está aberta à participação de outras?

– Aberta, claro. Isto é apenas o primeiro passo. A partir daqui esperamos a adesão de muitas instituições da Área Metropolitana do Porto, como instituições particulares de solidariedade social (IPSS), autarquias, administrações regionais, instituições de ensino, etc. Todos fazem falta e serão bem-vindos.

– Os problemas estão detectados. Têm ideias para os solucionar?

– A busca é contínua e as boas sugestões podem aparecer a qualquer momento. No entanto, temos algumas ideias: implementação do conceito das residências partilhadas, em que, promovendo a reconstrução de imóveis, garantimos aos idosos habitação e assistência domiciliária; criar centros de acolhimento e centros de abrigo para toxicodependentes que já passaram por tudo, os chamados “fim de linha”, retirando-os da rua; explorar o conceito da “habitação de interesse social” e perguntar ao primeiro-ministro se aceita incluir a reabilitação de casas degradadas nos chamados PIN (Projectos de Interesse Nacional), para que os projectos de reconstrução não se confrontem com as resistências burocráticas habituais.

– A vossa ideia passa pela reabilitação do parque habitacional. Acha que é concretizável?

– Vai ser uma luta daquelas! Só no Porto há cerca de dez mil casas devolutas, algo impensável num país a sério. Por que é que nunca houve vontade política para reabilitar o degradado, em vez de construir desmesuradamente? Porque há um concubinato entre as grandes construtoras e os sucessivos governos, o que é a desgraça do País.

– Em sua opinião, a pobreza tem diminuído ou aumentado nos últimos anos?

– Não tenho dúvidas nenhumas de que tem aumentado. No Mundo, na Europa e em Portugal também, apesar do aumento da riqueza proporcionado pela União Europeia. Ao contrário do que seria teoricamente natural, o que constatamos é que quanto mais riqueza, mais pobreza. A globalização da riqueza também promove a globalização da pobreza. Ora, erradicar significa cortar pela raiz e isso implica o empenho dos governos, instituições e pessoas, de todas as pessoas.

– Mas há forma de erradicar a pobreza?

– Se cada português colocar num fundo um por cento do dinheiro que tem no banco, dá-se um jeito aos casos de pobreza existentes no País. Mas de forma momentânea. Em pouco tempo voltaríamos a ter pobres, porque isto implica um combate civilizacional ou, como dizia o Papa João Paulo II, a implementação da “civilização do amor”.

– Está a dizer que a pobreza é um problema de todos...

– Todos somos cúmplices na pobreza e, por isso, temos obrigação de ser mais solidários. As relações entre pessoas, entre instituições, entre estados têm de ser humanizadas. Além disso, os mais ricos têm de passar a substituir a fobia do lucro por uma política que não promova a exploração das pessoas.

– O que quer dizer em concreto?

– Quero dizer que as seguradoras, por exemplo, ao anunciarem lucros, em Portugal, de 700 milhões de euros num ano, estão a dizer que exploraram e roubaram as pessoas. Os bancos, as seguradoras e as empresas de telecomunicações engordam à custa do empobrecimento das pessoas. Deviam fazer um exame de consciência, corar de vergonha e pedir perdão ao povo.

– Aqui entra a famosa questão da distribuição da riqueza...

– Nesse particular temos de sublinhar que, infelizmente, o Estado não dá o exemplo. Quando o Tribunal de Contas diz que se as obras públicas fossem adjudicadas de forma correcta o nosso défice passaria para metade, isso quer dizer que os impostos são mal aplicados. A nossa governação é de má qualidade.

– Acha, portanto, que o Governo não está a preocupar-se o suficiente com as pessoas?

– Um bom governante tem de possuir uma boa estrutura ética, ser politicamente consistente e tecnicamente competente. O problema é que a nossa classe política é constituída por muitos políticos sem classe. Para o Governo é muito mais importante o meu cartão de contribuinte do que o meu bilhete de identidade, o que é lamentável. Este Governo, honra lhe seja feita, chegou a demonstrar coragem em algumas áreas, mas os conflitos que teima em travar com algumas classes e instituições, como os professores, médicos e a Igreja, indiciam tempos difíceis. Como diz o Povo, quem semeia ventos, colhe tempestades.

– Está a criticar produtos como o crédito ao consumo?

– Estou. Isso é a prova de que hoje vale tudo para ganhar dinheiro. As pessoas muitas vezes nem sabem no que se estão a meter e, quando dão conta, estão empenhadas até à ponta dos cabelos. Depois há divórcios, depressões e suicídios. E, mais grave do que isso, muitas crianças a viverem as consequências de políticas socialmente homicidas. O maior défice do nosso país não é o défice orçamental, mas o défice da ética. Como é possível que a Banca portuguesa seja, no seio da União Europeia, a que menos paga pelos depósitos e a que mais juros cobra pelos empréstimos? Isto é roubar, é obrigar as pessoas a comprar pobreza a crédito. Onde está a função reguladora do Estado? Todos os dias encontramos motivos que nos levam a pensar que os políticos que nos governam não querem que essa regulação exista.

PERFIL

O padre José Maia nasceu

em Ribeirão, no concelho de Famalicão, a 6 de Março de 1942. Ordenou-se padre dos Missionários do Coração de Maria (Claretianos) a 5 de Abril de 1969. Começou por ser professor no Colégio dos Carvalhos e, em 1977, tomou conta de uma missão na Areosa, no Porto, que culminou com a fundação da paróquia. De 1989 a 1993 foi presidente da União das IPSS e de 1990 a 1996 foi Superior Provincial dos Claretianos. Hoje é presidente da Fundação Filos.

UMA CASA COM BALCÃO SOCIAL E SEMPRE DE PORTAS ABERTAS

Imagine uma mercearia das antigas, com um balcão e atendimento personalizado. A Fundação Filos, braço social dos Claretianos, na freguesia da Areosa, no Porto, é como uma dessas mercearias, só que o balcão é social, ou seja, em vez de servir de plataforma de compra e venda de produtos, serve de ponto de ajuda a quem precisa. E é uma ajuda para todos: pobres, sem-abrigo, mendigos, toxicodependentes, novos, velhos... Um ponto de ajuda a quem precisa. O padre José Maia diz mesmo que no Porto ou noutras cidades do País devia haver mais balcões sociais, “sítios onde as pessoas possam dirigir-se com a certeza de que, com muito ou pouco, com maior ou menor satisfação, vão ser ajudadas”. A Filos fica na Rua Costa Cabral n.º 929 e tem as portas abertas a todos. Além do balcão social, serve também como sede de toda a obra social que o padre Maia tem realizado na cidade do Porto: apoio a quase 500 toxicodependentes sem-abrigo, acompanhamento de mais de 280 famílias que vivem do rendimento social de inserção e luta contra o abandono escolar nos bairros sociais.

NOS BAIRROS SOCIAIS MAIS COMPLICADOS

Ficam todos naquela zona e merecem acompanhamento permanente das equipas de apoio social que funcionam no âmbito da Fundação Filos. São os bairros mais complicados da cidade do Porto, aqueles em que, como é voz corrente, nem as autoridades policiais ousam entrar: São João de Deus, Cerco e Lagarteiro. É nestes bairros, frequentes alvos de notícias pelos piores motivos, que existe a mais alta taxa de abandono e de insucesso escolar da cidade do Porto. O padre José Maia diz que os fenómenos estão todos ligados: “As políticas erráticas dos últimos anos relativamente aos bairros sociais do Porto, com grande vigor securitário e sem nenhuma perspectiva humanitária, têm impedido a resolução de problemas como o desemprego, o abandono escolar, a toxicodependência e a criminalidade. Tudo isto junto dá, como se sabe, um cocktail explosivo. Apesar de todas as dificuldades que enfrentam, as equipas da Fundação Filos todos os dias enfrentam novos problemas, apontam novos caminhos e encontram novas soluções.

'COMPROMISSO COM A INCLUSÃO

Júlio Magalhães participa na quarta-feira, 17 de Outubro, no debate ‘O Terceiro Incluído’, realizado no CACE Porto, que marca o nascimento da plataforma

O jornalista da TVI será o moderador do debate ‘O Terceiro Incluído’, que terá lugar na manhã de quarta-feira, 17 de Outubro, na Antiga Central Hidroeléctrica do Porto (actual CACE Cultural), na Rua do Freixo, n.º 1071. Este evento marca a criação da plataforma ‘Compromisso com a Inclusão’, que implica a junção de esforços de várias instituições de solidariedade social que já têm um historial de actuação na Área Metropolitana do Porto. Além da Fundação Filos, o grupo de fundadores do ‘Compromisso com a Inclusão’ engloba a APDES – Agência Piaget para o Desenvolvimento –, a Benéfica Previdente, a Norte Vida, a Santa Casa da Misericórdia da Trofa, a Associação para o Desenvolvimento Integrado de Matosinhos e a Associação Ermesinde Cidade Aberta. Novos parceiros e mais iniciativas seguem-se nos próximos meses.

200
Só na Área Metropolitana do Porto cruzam-se todos os dias mais de dois mil toxicodependentes. E estes são os considerados “fim de linha”, ou seja, dados como irrecuperáveis

420
Dos dois mil toxicodependentes referidos, 420 não têm sítio onde dormir. São literalmente sem-abrigo. Estão todos identificados pelas equipas sociais da Fundação Filos

9500
É o número de casas devolutas na cidade do Porto. Através das residências partilhadas, o padre José Maia espera recuperar e dar vida a muitas delas

280
É o número de famílias que a Fundação Filos acompanha em três dos mais complicados bairros sociais do Porto. Todas sobrevivem graças ao rendimento social de inserção