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2.2.22

Pobreza extrema na América Latina aumentou em 2021

in Público on-line

Pandemia foi responsável por um retrocesso de 27 anos, diz relatório das Nações Unidas, apesar da recuperação económica registada no ano passado.

A pobreza extrema na América Latina voltou a crescer em 2021, atingindo 86 milhões de pessoas, mais cinco milhões do que em 2020, revelou esta quinta-feira a Comissão Económica para a América Latina e Caribe (CEPAL).

A agência da ONU estima que a taxa de pobreza extrema aumentou de 13,1% para 13,8% no ano passado, enquanto a taxa de pobreza geral diminuiu de 33% para 32,1%, afectando 201 milhões de pessoas.

“Apesar da recuperação económica vivida em 2021, os níveis de pobreza e pobreza extrema permaneceram acima dos registados em 2019, reflectindo a continuação da crise social”, lê-se no relatório Panorama Social da América Latina, apresentado pela CEPAL, agência sediada em Santiago do Chile.

De acordo com o relatório, a América Latina sofreu um retrocesso notório na luta contra a pobreza em 2020 por causa da pandemia. Tanto a pobreza como a pobreza extrema aumentaram pelo sexto ano consecutivo, sendo que a pobreza extrema cresceu para níveis só registados há 27 anos. Já a taxa geral de pobreza registou um nível semelhante ao final dos anos 2000.

“A recuperação económica de 2021 não foi suficiente para mitigar os profundos efeitos sociais e laborais da pandemia, intimamente ligados à desigualdade de rendimento e género, pobreza, informalidade e vulnerabilidade em que vive a população”, disse Alicia Bárcena, secretária executiva da CEPAL, na conferência de imprensa virtual em que foi apresentado o relatório.


No estudo, a CEPAL indica que, em 2020, a proporção de mulheres que não auferem rendimento próprio aumentou, sendo que a pobreza permaneceu elevada nas zonas rurais e indígenas. A agência da ONU examinou diferentes índices para elaborar o relatório, incluindo o coeficiente de Gini, concluindo que houve também um aumento da desigualdade na região.

A CEPAL avisa também que, sem o controlo da crise sanitária, a recuperação económica não será sustentável, alertando que a América Latina e o Caribe são a região mais vulnerável do mundo à pandemia de covid-19.

A região tinha, a 31 de Dezembro de 2021, o maior número de mortes por covid-19 em todo o mundo, 1.562.845, um número que continuará a crescer enquanto a pandemia persistir. O valor representava 28,8% do total de mortes por covid-19 mundialmente, apesar de a população da ser 8,4% do total mundial.

Em 26 de Janeiro de 2022, 62,3% da população da América Latina e do Caribe (cerca de 408 milhões de pessoas) possuía o esquema completo de vacinação.

5.1.22

Pandemia criou mais 32 milhões de novos pobres na América Latina

João Ruela Ribeiro, in Público on-line

Os níveis de pobreza na região mais afectada a nível económico pela covid-19 atingiram os valores mais elevados em duas décadas.

A pandemia da covid-19 teve um impacto devastador sobre a economia da América Latina, que assistiu a um aumento da pobreza para níveis com mais de duas décadas, e cuja recuperação ainda vai tardar, de acordo com um relatório elaborado por várias instituições e organizações internacionais.

O estudo Perspectivas Económicas da América Latina 2021, redigido pela OCDE, Comissão Económica para a América Latina e Caraíbas das Nações Unidas (CEPAL), pelo Banco de Desenvolvimento da América Latina e pela Comissão Europeia, nota que “o impacto da crise da covid-19 foi assimétrico e afectou especialmente os grupos mais vulneráveis”.

O destaque vai para o aumento exponencial da pobreza e da pobreza extrema para os níveis mais elevados nos últimos 20 e 12 anos, respectivamente. O número de pessoas na região que já era a mais desigual do planeta a viver com rendimentos considerados baixos aumentou em 32 milhões desde o início da crise pandémica. Em sentido contrário, houve 13 milhões de latino-americanos que desceram da classe média para níveis mais baixos de rendimento.

Apesar do aumento da pobreza, o estudo ressalva que a generalidade das medidas de emergência adoptadas por quase todos os governos da região – muitas das quais passaram pela transferência directa de subsídios para os mais pobres e aqueles que ficaram sem trabalho – conseguiram mitigar os efeitos da crise. Sem essas ajudas, o coeficiente de Gini, que mede a desigualdade, teria subido 5,6% em vez de 2,9% nos últimos dois anos.

Na região que engloba a América do Sul, Central e as Caraíbas, o Produto Interno Bruto (PIB) contraiu 7% desde que foi declarada a pandemia, em Março de 2020. No ano passado, diz o relatório, registou-se um crescimento em torno de 6%, mas os cálculos apontam para que a recuperação do ritmo anterior a 2020 não seja retomado antes de 2023 ou 2024.

O impacto económico acentuado que a covid-19 teve na América Latina está relacionado com o elevado nível de trabalhadores sem qualquer tipo de vínculo ou protecção contratual. Quando a pandemia se instalou e a actividade económica começou a paralisar, na região perto de 45% dos habitantes morava em agregados que dependiam em exclusivo de rendimentos obtidos informalmente, embora o relatório refira níveis diferentes entre os vários países.

No Chile e no Uruguai, por exemplo, o nível de informalidade da economia é inferior a 20%, enquanto em países como a Bolívia ou as Honduras, mais de 60% da população activa trabalha neste tipo de actividades.

Os autores do relatório deixam algumas recomendações para os decisores políticos nacionais e internacionais para que a América Latina recupere economicamente no período pós-pandémico. Aos governos é aconselhado que desenvolvam os seus programas de protecção social de forma a “garantir a cobertura universal” da população.

“Os governos responderam rapidamente à crise da covid-19 aprovando ajudas sociais específicas para populações vulneráveis não cobertas pelos programas sociais ou pelos mecanismos de protecção social tradicionais. Esta resposta inovadora poderia fornecer as bases de sistemas de protecção social mais sólidos no futuro”, conclui o estudo.

A degradação das condições de vida tem tido reflexos na estabilidade política, com a profusão de protestos e uma cada vez maior desconfiança face às instituições democráticas. Para minorar esses efeitos, os autores do relatório propõem “um novo contrato social para o mundo pós-pandémico” que possa “garantir o bem-estar das pessoas e a participação cidadã”.


14.6.21

“Pandemia elevou e mudou as expetativas dos cidadãos em relação ao emprego e a pobreza”

por Notícias ao Minuto

Cerca de 8,2 milhões de menores trabalham na América Latina e no Caribe, onde se está "longe" de erradicar o trabalho infantil, sobretudo, devido à pandemia de Covid-19, alertaram sexta-feira a Organização Internacional do Trabalho (OIT) e a Unicef.

Segundo o novo relatório da OIT-Unicef, dos 8,2 milhões de menores que trabalho na região, a maioria são rapazes e 33% são raparigas.

Por setor, destaca-se o trabalho nas explorações agrícolas (48,7%), sendo que mais de metade das crianças realizam trabalhos considerados perigosos.

"A combinação entre a perda de empregos, o aumento da pobreza e o encerramento de escolas é a tempestade perfeita para a proliferação do trabalho infantil", considerou, citado pela EFE, o diretor regional da OIT para a América Latina e Caribe, Vinicius Pinheiro.

Segundo este responsável da OIT, "o abandono escolar e a entrada prematura no mercado de trabalho reduzem a possibilidade de se conseguir melhores empregos no futuro, perpetuando assim a pobreza".

A OIT e a Unicef (Fundo das Nações Unidas para a Infância) apontaram ainda que a covid-19 está a "neutralizar os esforços" destas regiões para o cumprimento da meta de eliminar o trabalho infantil até 2025.

As duas entidades notaram que, apesar do trabalho infantil naquela região ter diminuído em 2,3 milhões entre 2016 e 2020, esta situação pode ser revertida face a pandemia de covid-19.

A pandemia de provocou, pelo menos, 3.775.362 mortos no mundo, resultantes de mais de 174,7 milhões de casos de infeção, segundo um balanço feito pela agência francesa AFP.

12.3.21

118 milhões de mulheres latino-americanas vivem sob o limiar da pobreza

in o Observador

A secretária-geral Ibero-americana estimou que 118 milhões de mulheres vivam abaixo da pobreza na América Latina. O ano de 2020 acabou com um aumento de 22% de pobreza feminina.

A secretária-geral Ibero-americana, Rebeca Grynspan, estimou esta segunda-feira em 118 milhões o número de mulheres latino-americanas que vivem abaixo do limiar da pobreza, número agravado pela crise provocada pela pandemia de Covid-19.

Numa intervenção num evento organizado pelo Governo espanhol a propósito do Dia da Mulher, que se assinala esta segunda-feira, Grynspan recordou que o ano de 2020 acabou com um aumento de 22% da pobreza feminina na América Latina.

Além disso, recordou que a maioria dos três milhões de empresas que deverão perder-se devido à pandemia na América Latina são de mulheres.

Grynspan disse que as mulheres estão sobre-representadas no trabalho informal, nas micro e pequenas empresas, e nos setores dos serviços, turismo e comércio, que foram os mais afetados pela pandemia.

Acrescentou que não haverá recuperação se as mulheres forem arredadas da tomada de decisões e afirmou que se as mulheres forem marginalizadas, serão tomadas decisões equivocadas.

“Não temos espaço para equivocar-nos” nesta situação “dramática e complicada”, afirmou a responsável pela Secretaria-Geral Ibero-Americana.

A pandemia de Covid-19 provocou, pelo menos, 2.593.872 mortos no mundo, resultantes de mais de 116,7 milhões de casos de infeção, segundo um balanço feito pela agência francesa AFP.

Em Portugal, morreram 16.565 pessoas dos 810.459 casos de infeção confirmados, de acordo com o boletim mais recente da Direção-Geral da Saúde.





















A doença é transmitida por um novo coronavírus detetado no final de dezembro de 2019, em Wuhan, uma cidade do centro da China.
Mulheres sofrem maior desnutrição que os homens na América Latina, revelou o Fundo das Nações Unidas para a Agricultura e Alimentação

As mulheres latino-americanas e caribenhas sofrem níveis maiores de desnutrição do que os homens, alertou esta segunda-feira a FAO, que pediu políticas que promovam a igualdade do género e processos de empoderamento feminino para contribuir para a sua autonomia económica.

“Na Meso América, bem como em toda a região da América latina e do Caribe, as mulheres sofrem em maior percentagem das duas faces da desnutrição: de um lado, a fome e, do outro, de peso a mais ou de obesidade”, indicou o Fundo das Nações Unidas para a Agricultura e Alimentação (FAO, na sigla em inglês), numa declaração pública divulgada na Cidade do Panamá.


A FAO explicou que, no mais recente relatório Panorama de Segurança Alimentar na região, elaborado com base entre os anos de 2017 e 2019, é mostrada “uma prevalência de insegurança alimentar nas mulheres” da região da Meso América de 13,6%, percentagem que, nos homens, desce para 11,3%.

Em todos os países da América Latina e do Caribe, indicou a FAO, o “excesso de peso nas mulheres é maior do que nos homens e que, em 19 Estados, a diferença é de, pelo menos, 10 pontos percentuais.


As mulheres vivenciam a coexistência de desnutrição e, ao mesmo tempo, do excesso de peso e obesidade com consequências diretas na prevalência de doenças não transmissíveis relacionadas com uma dieta”, disse Verónica Chicas, especialista em Género no escritório da FAO para a Meso América.

“É necessário entender melhor a relação entre o funcionamento dos atuais sistemas alimentares e como estes influem em níveis maiores de má nutrição entre crianças, jovens e adultas”, acrescentou.


Para a FAO, a raiz da situação é a desigualdade económica, pelo que é a partir deste ponto que a agência da ONU procura contribuir para a diminuição das disparidades do género em diferentes níveis, trabalhando, por exemplo, em coordenação com os governos para promover a implementação de políticas, programas e projetos com uma perspetiva de igualdade de género.

A FAO, prosseguiu Verónica Chicas, está também a trabalhar para o empoderamento e recuperação económica das mulheres rurais e indígenas, bem como em ações de reforço de capacidades de planeamento, empreendedorismo e negócios para contribuir para a sua autonomia económica pessoal e familiar.

Nesse sentido, e no quadro do Dia Internacional da Mulher, que se celebra esta segunda-feira em todo o mundo, a FAO destacou que está ainda a promover uma campanha sobre o papel fundamental da mulher para uma reativação inclusiva e transformadora dos sistemas alimentares.

“[Tal tem] o objetivo de tornar visível que a transformação dos sistemas alimentares é também uma questão de igualdade de género: as desigualdades marcantes vividas por mulheres e jovens são tanto a causa como o resultado de sistemas alimentares insustentáveis e do acesso injusto à alimentação, consumo e produção”, refere-se no documento da FAO.

Entre outras questões, refere a FAO, a campanha “sugere” ser necessário “repensar o papel das mulheres” como produtoras e consumidoras, com atenção especial às mudanças climáticas.

Por isso, tem de se instá-las a observar como as respostas das mulheres às mudanças climáticas fortalecem a resiliência dos sistemas alimentares.








14.7.20

Covid-19: pandemia pode criar 45 milhões de novos pobres na América Latina, diz a ONU

in Público on-line

A quebra do Produto Interno Bruto (PIB) nesta região em particular será na ordem dos 9,1%, o pior valor num século. A taxa de pobreza nesta zona do mundo deve aumentar 7% este ano.

A pandemia da covid-19 pode deixar na pobreza 45 milhões de pessoas que actualmente integram a classe média na América Latina e Caraíbas, considerada a região com mais desigualdades no mundo, alertou hoje a ONU.

“Num contexto de desigualdades já gritantes, de taxas elevadas de trabalho informal e de uma fragmentação dos serviços de saúde, as populações e as pessoas mais vulneráveis são, uma vez mais, as mais afectadas”, disse o secretário-geral da ONU, António Guterres, num comunicado. 

Com mais de três milhões de infectados com o novo coronavírus, dos quais mais de metade registados no Brasil, a região tornou-se neste momento o epicentro da pandemia da doença covid-19.

A par do Brasil, os outros países mais afectados são o México, Peru e Chile.

Segundo o secretário-geral da ONU, que divulgou nesta quinta-feira um documento dedicado às consequências da pandemia na América Latina e Caraíbas, a quebra do Produto Interno Bruto (PIB) nesta região em particular será na ordem dos 9,1%, o pior valor num século.

A organização realçou que o impacto económico será devastador, lembrando que a pandemia atingiu a região após sete anos de um crescimento económico lento e num cenário em que persistem desigualdades profundas, com milhões de pessoas sem cobertura de cuidados de saúde ou sem acesso a água potável.

As Nações Unidas prevêem que a taxa de pobreza nesta zona do mundo aumente 7% este ano, mais 45 milhões de pessoas, para um total de 230 milhões de pobres, o que representa 37,2% da população total que vive nos países da América Latina e Caraíbas.

Os níveis de pobreza extrema na região também vão aumentar, cerca de 4,5% (na ordem das 28 milhões de pessoas), elevando para 96 milhões o número de pessoas que vivem em condições extremamente precárias.

Este valor representa 15,5% da população total da região.

Estas pessoas vão estar “em risco de fome”, afirmou, em declarações à comunicação social, Alicia Barcena, uma responsável da ONU citada pelas agências internacionais.

Para enfrentar a crise e ajudar esta população, a organização internacional defende que os governos devem fornecer um rendimento mínimo de emergência e subsídios contra a fome.

Nesta região em particular, e segundo as contas da ONU, o valor médio mensal a atribuir por pessoa deveria rondar os 140 dólares (cerca de 123 euros).

Ainda no comunicado divulgado, António Guterres apelou à comunidade internacional para que “forneça liquidez, uma assistência financeira e um alívio da dívida” aos países da região da América Latina e Caraíbas.

26.5.20

COVID-19 deixará 11,5 milhões de novos desempregados na América Latina em 2020 (Cepal/OIT)

in Isto é Dinheiro

Pessoas fazem fila nas proximidades de agência da Caixa Econômica Federal no Rio de Janeiro para receber ajuda do governo durante a pandemia do novo coronavírus, em 29 de abril de 2020 - AFP

A crise econômica causada pela pandemia do novo coronavírus deixará 11,5 milhões de novos desempregados em 2020 na América Latina, o que aumentará o total de desocupados para 37,7 milhões de pessoas, estimaram nesta quinta-feira (21) a Cepal e a OIT em um relatório.

A contração econômica estimada na América Latina pela Cepal será de 5,3% este ano – a pior desde 1930 – e terá “efeitos negativos” na taxa de desocupação na região, que passará de 8,1% em 2019 para 11,5% este ano, segundo as projeções apresentadas pelas duas instituições em sua sede regional em Santiago.

“Projeta-se um aumento da taxa de desocupação de pelo menos 3,4 pontos percentuais, o que equivale a mais de 11,5 milhões de novos desempregados”, indicou o informe, intitulado “Coyuntura Laboral en América Latina y el Caribe. El trabajo en tiempos de pandemia: desafíos frente a la enfermedad por coronavirus (COVID-19)” (Conjuntura trabalhista na América Latina e no Caribe. O trabalho em tempos de pandemia: desafios frente à doença do coronavírus – COVID-19, em tradução livre).

Juntamente com o aumento da desocupação, as duas organizações esperam uma deterioração marcante da qualidade do emprego na região, onde a taxa média de trabalho informal já alcança 54%, afetando principalmente os setores mais vulneráveis.

A Organização Internacional do Trabalho (OIT) estima em 10,3% a redução de nas horas de trabalho, o que afetará 32 milhões de pessoas, devido à crise sanitária e às medidas de confinamento adotadas pelos países latino-americanos.

As cifras do desemprego afetarão duramente os mais vulneráveis da região, provocando o aumento da pobreza em 4,4 pontos percentuais e a extrema pobreza em 2,6 pontos percentuais com relação a 2019.


“Isto implica em que a pobreza atingiria, então, 34,7% da população latino-americana (214,7 milhões de pessoas) e a pobreza extrema, 13% (83,4 milhões de pessoas)”, alertou a Cepal.

As duas instituições veem um futuro incerto para o mercado de trabalho regional e antecipam uma recuperação bastante lenta dos empregos perdidos, o que exigirá uma profunda formação e educação dos trabalhadores em segurança sanitária, protocolos de saúde e horários defasados de entrada e saída para evitar aglomerações e focos de contágio.

“Para isso, são necessários recursos institucionais e orçamentários reforçados que garantam seu cumprimento”, destacou o informe.

O coronavírus provocou mais de 600.000 contágios e mais de 33.000 mortes em toda a América Latina, segundo o último balanço da AFP.

29.4.20

Coronavírus agravará fome e pobreza na América Latina, diz FAO

in Terra.com

A fome e a pobreza devem disparar na América Latina e no Caribe, uma vez que o impacto do novo coronavírus está devastando as economias da região e transtornando as cadeias de suprimento, de acordo com um relatório da Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO).

A maioria dos países da América Latina foi forçada a paralisar suas economias devido ao avanço do coronavírus, o que acabou com a esperança de crescimento e fez as previsões de desemprego dispararem.

A agência das Nações Unidas disse que, mesmo assim, deve haver alimento suficiente à disposição tanto nas reservas regionais quanto internacionais, mas alertou que as cadeias de suprimento afetadas podem complicar o acesso a estes estoques, especialmente para os pobres.

"Medidas sanitárias para evitar a disseminação do vírus têm consequências diretas no funcionamento dos sistemas alimentares", disse a FAO no documento, que foi apresentado à Comunidade de Estados Latino-Americanos e Caribenhos (Celac).

O vírus chegou na América Latina mais tarde do que na Europa ou na Ásia, mas a região já confirmou 150 mil casos de coronavírus e mais de 7.200 mortes até o momento.

De acordo com a FAO, um terço da população da América Latina e do Caribe já vive em estado precário de "insegurança alimentar".

Estas populações são especialmente vulneráveis, e os países precisam priorizar o acesso à comida e a ajuda aos pobres à medida que a crise se intensifica, alertou a agência no documento.

"É crucial que os governos declarem a alimentação e a agricultura como estratégicas e de interesse público nacional... para que esta crise de saúde não se torne uma crise alimentar".

A agência da ONU disse que a pandemia global pode afetar tanto a oferta quanto a demanda, e alertou que muitos da América Latina verão seu poder de compra ser dizimado, enquanto agricultores locais podem ter mais dificuldade para obter mão de obra, insumos como fertilizantes e capital.

Os preços dos alimentos provavelmente também oscilarão, disse a entidade, devido aos transtornos globais nas cadeias de suprimento, forçando nações a buscar novas fontes de comida.

Em 2018, os países com os índices mais altos de fome eram

Haiti (49,3%), Venezuela (21,2%), Nicarágua (17%), Bolívia(17,1%) e Guatemala (15,2%), disse a agência.


8.4.20

Quando a fome é mais assustadora que um vírus

in SicNotícias

Face à pandemia do coronavírus, trabalhadores são obrigados a ficar em casa, não só porque assim os governos o dizem, como a falta de trabalho o dita. Mas, na América Latina, há uma preocupação acrescida. Sem trabalho, muitas famílias ficam sem rendimentos e sem possibilidades de comprar mantimentos.

A fome é mais assustadora que o vírus.

De Bogotá, na Colômbia, chega o testemunho emocionado de um empresário da restauração, que durante uma visita a dois bairros sociais da capital colombiana, viu famílias não comiam há vários dias.

Em 2019, um quarto dos colombianos vivia abaixo do limiar da pobreza

Nos campos, a realidade não é tão diferente. Os agricultores continuam a trabalhar a pedido dos governos, mas a falta de informação torna-se assustadora para todos aqueles que não podem abandonar os campos.

Em Guaqui, na Bolívia, uma agricultora confessa que face ao coronavírus, há menos recursos. "Não estamos a vender nada e não temos dinheiro. Vamos viver de quê?"

Na capital boliviana, La Paz, uma taxista queixa-se da falta de trabalho perante o medo das pessoas em saírem à rua. A fome também é uma preocupação para esta mãe que não sabe como vai continuar a alimentar o filho: "Como mãe, é doloroso porque abres o frigorifico e vês que está vazio"

O Presidente da Bolívia decretou o pagamento de 66 euros a 1,6 milhões de famílias carenciadas.

22.4.16

Crise adia transição da América Latina para economia de classe média, diz Banco Mundial

in ONU

Enquanto entre 2002 e 2012, mais de 10 milhões de latino-americanos entraram para a classe média anualmente, em 2014 esse volume caiu para 3,5 milhões. Caso a evolução tivesse se mantido no mesmo ritmo, a região seria predominantemente de classe média em 2017.

A desaceleração das economias latino-americanas tem prejudicado a expansão das classes médias nesses países, de acordo com o Banco Mundial. Enquanto entre 2002 e 2012, mais de 10 milhões de pessoas entraram na classe média anualmente, esse número caiu para 3,5 milhões em 2014.

Caso a evolução tivesse se mantido no ritmo de 1% ao ano, a América Latina se tornaria uma região predominantemente de classe média em 2017, segundo cálculos do Laboratório contra a Pobreza na América Latina (LAC Equity Lab), do Banco Mundial.

A mudança foi prejudicada pela redução dos preços das matérias-primas, que vinham impulsionando o crescimento econômico na América Latina entre 2002 e 2012. O resultado foi uma desaceleração do crescimento econômico, especialmente no Brasil. Na média ponderada, a América Latina está entrando no quinto ano consecutivo de retração.

O novo cenário fez economistas descartarem qualquer previsão sobre quando os países da região poderão chegar à condição de economias predominantemente de classe média.

Apesar do contexto mais difícil, o percentual de latino-americanos de classe média não diminuiu, ficando estável em 35% entre 2013 e 2014, segundo o Banco Mundial. Além disso, mesmo diante do menor crescimento da renda para os 40% mais pobres da América Latina, a taxa de pobreza continuou a cair, passando de 24,1% em 2013 para 23,3% em 2014.

Segundo o Banco Mundial, o cenário ruim tem ampliado o número de pessoas consideradas vulneráveis, que vivem com de 4 a 10 dólares por dia. O grupo, que mais tem crescido nos últimos anos, está mais sujeito a cair na pobreza do que migrar à classe média.

Na classificação do Banco Mundial, são consideradas de classe média pessoas que vivem com de 10 a 50 dólares por dia, enquanto são considerados pobres aqueles que vivem com até 4 dólares diários.

“Por isso, minimizar esse risco (de queda dos vulneráveis à pobreza) será um importante objetivo em toda a região durante o ajuste ao novo ambiente econômico”, disse o economista Oscar Calvo-González, gerente do departamento de pobreza e igualdade para a América Latina do Banco Mundial.

21.4.16

2015 foi um ano de "declínio profundo" da liberdade de imprensa no mundo

Ana Fonseca Pereira, in Público on-line

Pela primeira vez, América Latina ficou atrás de África no índice dos Repórteres Sem Fronteiras. Organização denúncia "paranóia" de muitos governos contra o jornalismo independente.

Há poucas boas notícias no índice de liberdade de imprensa divulgado nesta quarta-feira pelos Repórteres Sem Fronteiras (RSF). Por todo o mundo, há jornalistas mortos, presos, acusados, intimidados e pressionados por governos e interesses económicos, cada vez mais apostados em silenciar vozes críticas e assumir o controlo da informação, num retrocesso a que nem a Europa escapa.

“É tristemente claro que muitos dos líderes mundiais estão a desenvolver uma forma de paranóia em relação ao jornalismo legítimo”, receosos do debate que a imprensa livre promove, lamentou Christophe Deloire, secretário-geral da organização, ao dar conta de “um declínio profundo e preocupante” da liberdade de imprensa a nível mundial durante o último ano.

São muitos os maus exemplos na lista de 180 países analisados pela organização no seu relatório anual e que volta a colocar a China (176.º), Síria, Turquemenistão, Coreia do Norte e Eritreia (180.º) nos últimos lugares da classificação – nações “onde exercer jornalismo é sinónimo de bravura.”

Uma constatação que é também cada vez mais verdadeira em boa parte da América, a região que regista a maior queda no índice de liberdade de imprensa e é pela primeira vez ultrapassada por África, apesar das guerras, dos conflitos sectários e das ditaduras que o afligem o continente, que surge em segundo lugar atrás da Europa. De novo, o lugar do fundo volta a ser ocupado pelo Médio Oriente e Norte de África, “a região onde os jornalistas estão mais sujeitos a constrangimentos de todo o tipo”. A Tunísia, único exemplo de sucesso das primaveras árabes, é a grande excepção, subindo 30 posições (96.ª) graças "à consolidação dos efeitos positivos da revolução" de 2011.

O relatório sublinha a acentuada descida de El Salvador (13 posições para o 68.º lugar), um país “carcomido pela violência dos cartéis” e onde o Presidente ataca a imprensa, acusando-a de promover “uma campanha de terror psicológico” contra o seu Governo. Mas lembra também os homicídios de jornalistas no México (149.º), “a violência institucionalizada” na Venezuela (139ª), o crime organizado na Colômbia e na maior parte dos países da América Central, a corrupção no Brasil, os monopólios de imprensa na Argentina e a cibervigilância nos EUA como “os principais obstáculos” à liberdade de informação no continente.

Na lista há “os suspeitos do costume” – de Cuba (171.º) à Rússia (148.º), que sobe quatro posições apenas “devido ao declínio a nível mundial”, uma vez que “as autoridades estão a aumentar a pressão sobre o jornalismo independente”. Há também uma denúncia clara das “crescentes tendências autocráticas” em países como o Egipto, onde o antigo general Abdel Fatah al-Sissi é agora rei e senhor, e da Turquia (151.º), onde em 2015 se assistiu a acentuada deterioração da liberdade de imprensa, com o Governo de Recep Tayyip Erdogan a presidir a um “ataque maciço contra meios de comunicação social” a pretexto da luta contra o terrorismo, que inclui a tomada de jornais e a detenção de jornalistas.

Mas há também dedos apontados a países até há pouco insuspeitos e o exemplo mais claro é a Polónia, onde o governo ultraconservador do Partido Direito e Justiça (PiS) aprovou em 2015 uma lei que lhe dá total controlo sobre a nomeação e afastamento dos directores da rádio e televisão pública – decisão que lhe valeu uma “espectacular queda” de 18 posições, para o 47.º lugar no índice do RSF. Exemplos de um autoritarismo que cresce também na Hungria.

Mas no relatório, os RSF criticam ainda a excessiva concentração da propriedade dos media em alguns países da Europa, caso de França, lembrando que o reforço dos monopólios constitui “uma ameaça para o jornalismo independente” e “ameaça o modelo europeu” de liberdade de informação. “Hoje em dia é cada vez mais fácil a todos os poderes dirigirem-se directamente ao público graças às novas tecnologias”, afirma Deloire, assumindo que nesta “nova era da propaganda” os “jornalistas são cada vez mais vistos como desmancha-prazeres.”

10.7.15

Papa Francisco diz que a pobreza é a dívida que a América Latina tem

Rita Siza, in Público on-line

No seu primeiro discurso à chegada ao Equador, Pontífice defende medidas para "garantir um futuro melhor aos nossos irmãos mais frágeis e às minorias mais vulneráveis".

Na sua primeira intervenção à chegada a Quito, onde iniciou um périplo latino-americano com passagens pelo Equador, Bolívia e Paraguai, o Papa Francisco prescindiu da subtileza e num discurso ostensivamente político sobre a justiça social, referiu-se ao “desafio actual” que é “garantir um futuro melhor para os nossos irmãos mais frágeis e para as minorias mais vulneráveis”. “Os pobres”, declarou o Papa, “são a dívida que a América Latina tem”.

O Papa, que tinha à sua espera no aeroporto um grupo de crianças indígenas vestidas com trajes tradicionais, agradeceu a alegria com que foi recebido na capital – e ignorou o coro de protestos e críticas dirigidos ao Presidente do Equador, Rafael Correa, censurado por tentar aproveitar-se politicamente da visita do Papa para ultrapassar a contestação popular às suas propostas de reformas fiscais e laborais.

A crispação sentia-se no ar, relatou a imprensa estrangeira, mas à chegada Francisco optou por um tom conciliatório. Depois de ouvir Correa enumerar uma longa lista de iniciativas governamentais nas áreas sociais e ambientais, o Papa ofereceu a “colaboração” da Igreja e garantiu o seu apoio e “compromisso” com medidas destinadas a promover o desenvolvimento e a paz social do país. E para que não restassem equívocos, arriscou indicar o caminho que, segundo frisou, está no Evangelho: “A chave para enfrentar e resolver os desafios actuais passa por valorizar as diferenças, fomentando o diálogo e a participação sem exclusões”.

O Pontífice de origem argentina desviou-se da linha que foi seguida pelos seus antecessores João Paulo II e Bento XVI, cuja principal preocupação em visitas à região tinha a ver com a perda de fiéis e enfraquecimento da Igreja Católica, por causa da expansão de outros movimentos religiosos cristãos concorrentes. O fenómeno acentuou-se nos últimos anos, mas a principal mensagem de Francisco, transmitida no seu idioma natal, foi sobre o tema da justiça social, do combate às desigualdades, e da protecção da natureza.

Ao comentar essa mudança, alguns vaticanistas e observadores do Papa Francisco diziam que a escolha de um filho do continente para dirigir a Igreja Católica devolveu o protagonismo perdido para outros cultos na América Latina, onde vivem dois em cada cinco dos 1,2 mil milhões de católicos do mundo. As audiências concedidas no Vaticano a todos os líderes da região, e ainda o envolvimento pessoal do Pontífice em dossiers políticos importantes para a a população hispânica, como por exemplo as negociações de paz entre o Governo da Colômbia e as FARC ou a recuperação da ligação diplomática entre Cuba e os Estados Unidos, elevou a sua popularidade para níveis muito superiores à dos seus predecessores.

Mas a principal diferença tem a ver com a compreensão demonstrada pelo Papa dos problemas, dificuldades e sofrimento dos pobres, marginalizados e excluídos do mundo. A mensagem de Francisco, incansável na sua defesa, parece ter sido escrita para os seus concidadãos sul-americanos (na Bolívia, por exemplo, um em cada quatro habitantes vive com menos de dois dólares por dia, segundo as estatísticas do Banco Mundial). O Papa sabe como falar com eles – no conteúdo e na forma. Antes da partida de Roma, o porta-voz do Vaticano saudava a “oportunidade para Francisco se exprimir no seu próprio idioma, que certamente o fará improvisar por cima das intervenções já escritas”.

Esta não é a primeira vez que o Papa Francisco visita a América do Sul: em 2013, pouco depois da sua eleição, esteve no Brasil, no âmbito das Jornadas Mundiais da Juventude. Mas é a primeira viagem que foi planeada por si: como sublinhava a imprensa latino-americana, o circuito de cerca de 25 mil quilómetros pelo Equador, Bolívia e Paraguai foi desenhado deliberadamente por Francisco, que deu prioridade aos países mais pobres do continente, e que compôs uma agenda de contactos destinada a expôr ao mundo os flagelos e da região.

Como disse ao El País o vice-presidente da Comissão Pontifícia para a América Latina, Fermín Carriquirym “a geografia de Francisco é a de uma Igreja solidária com o sofrimento dos povos, sejam ou não católicos. Como se viu nas suas duas encíclicas, Francisco propõe um encontro que derrube muros e construa pontes”. O secretário de Estado do Vaticano, Pietro Parolin, reconhecia que para além da importância ecuménica, o périplo latino-americano do Papa tinha uma “inegável conotação política”, até porque o continente se tinha transformado num “laboratório onde se experimentam novos modelos de participação e formas de Governo mais representativas, que dão voz a faixas da população que até agora não eram suficientemente ouvidas”.

6.7.15

Papa leva mensagem de justiça social aos três países mais pobres da América Latina

Rita Siza, in Público on-line

Equador, Bolívia e Paraguai foram os países escolhidos por Francisco para um primeiro périplo no continente americano. Em Setembro visita Cuba e os Estados Unidos. Argentina, Chile e Uruguai ficam para 2016.

Francisco, o primeiro Papa latino-americano, inicia este domingo um périplo de sete dias pela América do Sul, com paragens no Equador, Bolívia e Paraguai – três dos países mais pobres da região e que o Vaticano acredita serem particularmente receptivos ao discurso evangelizador voltado para os mais necessitados e desfavorecidos, “os velhos, os doentes, os presos, os pobres e todos os que são vítimas da actual cultura de usar e deitar fora”, como confirmou o próprio Papa numa curta mensagem em vídeo antes da partida.

A agenda de Francisco na região demonstra claramente qual o “público” que pretende tocar durante a sua deslocação. Ali constam 13 discursos oficiais e seis homilias, visitas a lares de terceira idade, hospitais pediátricos, estabelecimentos prisionais e contactos com representantes de organizações de ambientalistas, ou activistas de movimentos como os sem-terra.

A viagem do Papa à sua região natal ocorre num momento em que a Igreja Católica sofre uma forte concorrência dos ramos cristãos evangélicos e protestantes. Os números do último estudo realizado pelo Pew Research Center mostram que com 425 milhões de fiéis, o território latino-americano ainda se mantém predominantemente católico, mas apesar de 84% da população confirmar ter uma educação católica, só 69% se identifica como praticante.

Como assinalava esta semana o jornal Miami Herald, o carinho especial de Francisco pela América Latina tem sido demonstrado pelo seu envolvimento pessoal em processos diplomáticos ou negociais vistos como politicamente “sensíveis”: a Colômbia beneficiou da sua bênção às negociações de paz em curso entre o Governo e a guerrilha das FARC, e os opositores e presos políticos da Venezuela encontraram no Papa um porta-voz, defensor do diálogo junto do Presidente Nicolás Maduro.

No próximo mês de Setembro, Francisco visita Cuba e os Estados Unidos – Havana e Washington confirmaram que o Papa desempenhou um papel de intermediário fundamental para o “descongelamento” da relação bilateral ao fim de 50 anos de ostracismo e isolamento.

O primeiro circuito latino-americano do Papa Francisco ignora propositadamente a Argentina, onde nasceu Jorge Mario Bergoglio: o país vive um período de pré-campanha eleitoral e o Vaticano não quis que a presença do Pontífice pudesse servir propósitos políticos. Uma visita papal àquele país está agendada para 2016, ano em que também está previsto passar pelos vizinhos Chile e Uruguai.

Para além das questões ecuménicas, e das matérias relativas à pobreza, desigualdades e justiça social, o Vaticano espera que a presença de Francisco na região andina possa também chamar atenção para a sua mensagem ambiental. Há dias, o Pontífice assinou a sua primeira encíclica dedicada à defesa do planeta, assumindo a necessidade de medidas urgentes para travar os efeitos nefastos do aquecimento global e alterações climáticas, potenciados pela actividade humana.

As agências diziam que o Papa estava preparado para dar conta das suas “preocupações” com os custos ambientais do processo de desenvolvimento nos seus encontros com os Presidentes Rafael Correa e Evo Morales. Em particular, deveria assinalar a importância do papel de cuidador e guardião da natureza assumido pelos povos indígenas como por exemplo os guarani – que mantém uma disputa de anos para proteger o seu território da exploração de gás natural.

Francisco aterra em Quito este domingo: a capital do Equador terá o “imenso privilégio” de servir de palco à primeira intervenção de Papa perante “uma multidão que fala a mesma língua”, congratulava-se o arcebispo Fausto Gabriel Trávez, presidente da Conferência Episcopal.

Na quarta-feira o Papa chega a Bolívia, onde seguramente deixará os repórteres de imagens num afã para captar o momento em que levará à boca as folhas secas de coca, remédio tradicional utilizado pelos locais para combater os efeitos da altitude e que Francisco quer ter à disposição para mascar. “O Papa fica sempre muito feliz por respeitar as tradições dos locais por onde passa”, explicou o porta-voz do Vaticano, Federico Lombardi.

O pedido do Papa alimentou uma pequena polémica antes da sua chegada: o consumo de folha de coca é encarado pelos bolivianos, sobretudo os mais pobres, como medicinal, e está despenalizado desde 2013, mas mesmo assim o produto figura na lista oficial de drogas e narcóticos das Nações Unidas. Além de sofrer de ciática, o Pontífice teve de remover uma parte do pulmão na juventude: por causa dos possíveis riscos para a sua saúde, a permanência em La Paz, que fica 3650 metros acima do nível do mar, foi restringida a apenas quatro horas.

Ignorando os cuidados do Vaticano para manter o carácter puramente religioso da viagem papal, vários grupos de interesse estão a aproveitar a chegada de Francisco para promover as suas causas políticas. No Paraguai, grupos conservadores esperam que o Papa apoie a decisão oficial num caso que dividiu as opiniões no país: o de uma menina de dez anos que engravidou quando foi violada pelo padrasto e a quem foi recusado um aborto. Na Bolívia, os sindicatos dos transportes e dos mineiros fizeram pré-anúncios de greve para os dias da visita de Francisco, para pressionar o executivo a aceitar as suas reivindicações. Mais tenso ainda é o ambiente no Equador, onde o Governo do Presidente Rafael Correa está a tentar defender uma proposta para um controverso e impopular novo imposto sucessório em cartazes com citações do Papa.

14.3.13

É pelo Sul do mundo que a economia está a crescer

Clara Barata, in Publico on-line

Entre 1980 e 2010, as trocas comerciais dos países em desenvolvimento quase duplicaram: passaram de 25% para 47% do mercado, diz o Relatório do Desenvolvimento Humano da ONU

Se o planeta fosse uma ampulheta, podia-se dizer que tinha sido virado ao contrário por volta de 1980: o Sul é o novo pólo de desenvolvimento do planeta, diz o Relatório de Desenvolvimento Humano de 2012 do Programa de Desenvolvimento das Nações Unidas (PNUD). Em 2020, a produção combinada da China, Índia e Brasil, as três maiores economias do Sul, deverá mesmo ultrapassar a dos Estados Unidos, Alemanha, Reino Unido, França, Itália e Canadá.

Não é novidade que a categoria “países em desenvolvimento” já não é adequada aos dias de hoje. Entre 1980 e 2010, esses países em desenvolvimento quase duplicaram a sua quota das trocas comerciais internacionais: passaram de 25% para 47% do mercado.

E não foi apenas por venderem muito aos países ricos do Norte, ao chamado “Ocidente”, que estes países cresceram: foi o aumento das trocas comerciais entre os países que serviram de motor a esse crescimento, sublinha o relatório deste ano do PNUD: “O comércio entre os países do Sul foi o principal factor dessa expansão, que passou de menos de 10% para 25% de todo o comércio nos últimos 30 anos, enquanto as trocas comerciais entre países desenvolvidos caíram de 46% para menos de 30%”, lê-se no comunicado de imprensa sobre o relatório deste ano.

Na Ásia e na América Latina, em África, há cada vez mais telemóveis e ligados à Internet, substituindo-se aos telefones fixos, uma tecnologia que custa mais e é mais morosa a implantar. E esses telefones baratos são produzidos por alguns desses países do Sul, tecnologicamente mais avançados. “Brasil, China, Indonésia, Índia e México têm mais tráfego nos sites de Internet social do que qualquer outro país, excepto os Estados Unidos”, diz o relatório do PNUD.

Pelo menos 40 países fizeram grandes avanços de desenvolvimento que ultrapassaram as expectativas nas últimas décadas, mas 17 nações tiveram resultados excepcionais. Alguns são gigantes económicos, como a China, a Índia ou o Brasil, mas há alguns pequenos países que são também casos exemplares de sucesso, como o Gana, a Tailândia ou o Chile.

São países muito diversos, com histórias e sistemas políticos muito diferentes, mas o que têm em comum são coisas como uma atitude proactiva no desenvolvimento, tirando partido das oportunidades estratégicas do comércio internacional, e o forte investimento no capital humano, através de programas de educação e saúde e outros serviços sociais básicos, diz o relatório.

As classes médias destes países têm aumentado progressivamente. Em 2050, o Índice de Desenvolvimento Humano pode subir 52% na África subsariana e 36% no Sul da Ásia. “A Revolução Industrial foi uma história de talvez 100 milhões de pessoas, mas esta é uma história de milhares de milhões de pessoas”, declarou Khalid Malik, o principal autor do relatório de 2013.