in RR
É o resultado do inquérito "Riscos que Importam" da OCDE.
Um relatório da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico (OCDE) revela que os portugueses vivem preocupados com a possibilidade de ficar doentes ou com uma deficiência, pagar as despesas ou perder o emprego, e preferiam pagar mais impostos para ter melhores pensões e cuidados de saúde.
De acordo com os resultados do inquérito "Riscos que Importam", na tradução para português, que inclui as preocupações de 22 mil pessoas, entre os 18 e os 70 anos de 21 países, cerca de metade dos inquiridos apontou "ficar doente ou com uma deficiência" como uma das três principais preocupações sociais ou económicas que os afete a eles ou à família próxima no próximo ano ou dois.
Portugal não é exceção e 63% dos portugueses que responderam a este inquérito apontaram "ficar doente ou com uma deficiência" como a principal preocupação no futuro próximo, sendo um dos três países onde esta preocupação é mais elevada, abaixo da Polónia (64%) e da Finlândia (65%).
A segunda maior preocupação é conseguir fazer face a todas as despesas mensais (44,5%), seguida do receio de perder o emprego (39%), às quais se seguem a preocupação com o crime ou a violência (30,3%), o acesso a cuidados de longa duração (30,15%), habitação (25%), acesso a cuidados infantis ou educação.
Há ainda quase 5% de portugueses que diz não ter qualquer uma destas preocupações.
Os cuidados de saúde de longa duração são aqueles onde as pessoas, em geral, estão mais insatisfeitas e, em média, 50% do total de inquiridos acha que não tem acesso a "serviços públicos acessíveis e de boa qualidade na área dos cuidados a longo prazo para os mais idosos" e 45% sente o mesmo em relação às pessoas com deficiência.
Sensação de injustiça generalizada
O inquérito mostrou uma generalizada sensação de injustiça no acesso a benefícios sociais e que os governos não escutam as pessoas, sustentada na crença de que os governos não trabalham para o cidadão comum.
"Em países como França, Grécia, Israel, Lituânia, Portugal e Eslovénia, a percentagem destas pessoas atinge os 70% ou mais. Estes sentimentos estão espalhados por quase todos os grupos sociais e não estão limitados apenas aqueles que se sentem 'postos de parte'", lê-se no relatório.
Aliás, 71% dos portugueses apontam a injustiça como a principal causa para a pobreza e 75% responderam que sim quando questionados sobre se concordavam ou não em aumentar os impostos sobre os mais ricos para ajudar os mais pobres.
De uma maneira geral, as pessoas querem mais investimento nas pensões (54%) e nos cuidados de saúde (48%) de modo a sentirem-se economicamente mais seguros e à sua família, com as pensões a serem a escolha popular em 14 dos 21 países e a saúde noutros cinco, nos quais se inclui Portugal.
Quase metade dos portugueses (49%) dizem mesmo que estão dispostos a pagar mais impostos para financiar melhores pensões e cuidados de saúde.
A OCDE diz que são precisos "maiores esforços" para perceber a razão destas perceções e por que razão tantas pessoas acham que as políticas sociais não vão ao encontro das suas necessidades.
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5.11.18
Iémen é “um inferno na terra” para as crianças, diz UNICEF
in o Observador
O Fundo das Nações Unidas para a Infância (UNICEF) disse que o Iémen se tornou "um inferno na terra" para as crianças e exortou as partes em conflito a cessarem as hostilidades.
“O Iémen é hoje um inferno na terra, não para 50% ou 60% das crianças, mas para cada menino e menina do Iémen”, declarou o diretor da UNICEF para o Médio Oriente e Norte de África, Geert Cappelaere, numa conferência de imprensa em Amã este domingo. “Os números, na verdade, não dizem muito, mas são importantes porque nos mostram até que ponto a situação se tornou desastrosa”, acrescentou.
O Fundo das Nações Unidas para a Infância considerou assim que o Iémen se tornou “um inferno na terra” para as crianças, atingidas pela fome, e desafiou as partes envolvidas no conflito a cessarem as hostilidades.
O secretário-geral da ONU, António Guterres, também apelou na sexta-feira ao fim da “violência” para evitar que o país caia num “precipício”.
A guerra no Iémen opõe as forças pró-governamentais e uma coligação liderada pela Arábia Saudita aos rebeldes Huti, apoiados pelo Irão, que em 2014 e 2015 tomaram vastas áreas do país, incluindo a capital, Sanaa.
O conflito já provocou a morte de quase 10 mil pessoas, a maioria civis, causando a pior crise humanitária do mundo. Além dos casos de fome, a população sofre de doenças como a cólera.
“A cada 10 minutos, uma criança morre por causa de doenças que podem ser prevenidas”, adiantou Cappelaere.
O mesmo responsável disse à agência noticiosa AFP na quinta-feira que 1,8 milhões de crianças com menos de cinco anos sofrem de “desnutrição aguda”.
O conflito exacerbou “uma situação que já era má devido a anos de subdesenvolvimento” neste país pobre da região, referiu Cappelaere.
“Apelamos a todas as partes para que se encontrem no final deste mês sob os auspícios do enviado especial da ONU para um acordo de cessar-fogo”, declarou hoje o responsável da UNICEF.
Cappelaere sublinhou que a situação é particularmente preocupante em Hodeida, uma cidade portuária controlada pelos rebeldes no oeste do país, que as forças pró-governamentais estão a tentar recuperar.
“O porto de Hodeida é um ponto vital para 70 a 80% da população iemenita (…), porque é apenas através de Hodeida que são feitas as entregas comerciais e humanitárias que nos permitem fornecer ajuda ao norte do país”, explicou.
“Com o assalto de Hodeida, não nos preocupa apenas a vida de centenas de milhares de crianças (na região), mas também o impacto que isso terá sobre as crianças no norte do país”, acrescentou.
O Fundo das Nações Unidas para a Infância (UNICEF) disse que o Iémen se tornou "um inferno na terra" para as crianças e exortou as partes em conflito a cessarem as hostilidades.
“O Iémen é hoje um inferno na terra, não para 50% ou 60% das crianças, mas para cada menino e menina do Iémen”, declarou o diretor da UNICEF para o Médio Oriente e Norte de África, Geert Cappelaere, numa conferência de imprensa em Amã este domingo. “Os números, na verdade, não dizem muito, mas são importantes porque nos mostram até que ponto a situação se tornou desastrosa”, acrescentou.
O Fundo das Nações Unidas para a Infância considerou assim que o Iémen se tornou “um inferno na terra” para as crianças, atingidas pela fome, e desafiou as partes envolvidas no conflito a cessarem as hostilidades.
O secretário-geral da ONU, António Guterres, também apelou na sexta-feira ao fim da “violência” para evitar que o país caia num “precipício”.
A guerra no Iémen opõe as forças pró-governamentais e uma coligação liderada pela Arábia Saudita aos rebeldes Huti, apoiados pelo Irão, que em 2014 e 2015 tomaram vastas áreas do país, incluindo a capital, Sanaa.
O conflito já provocou a morte de quase 10 mil pessoas, a maioria civis, causando a pior crise humanitária do mundo. Além dos casos de fome, a população sofre de doenças como a cólera.
“A cada 10 minutos, uma criança morre por causa de doenças que podem ser prevenidas”, adiantou Cappelaere.
O mesmo responsável disse à agência noticiosa AFP na quinta-feira que 1,8 milhões de crianças com menos de cinco anos sofrem de “desnutrição aguda”.
O conflito exacerbou “uma situação que já era má devido a anos de subdesenvolvimento” neste país pobre da região, referiu Cappelaere.
“Apelamos a todas as partes para que se encontrem no final deste mês sob os auspícios do enviado especial da ONU para um acordo de cessar-fogo”, declarou hoje o responsável da UNICEF.
Cappelaere sublinhou que a situação é particularmente preocupante em Hodeida, uma cidade portuária controlada pelos rebeldes no oeste do país, que as forças pró-governamentais estão a tentar recuperar.
“O porto de Hodeida é um ponto vital para 70 a 80% da população iemenita (…), porque é apenas através de Hodeida que são feitas as entregas comerciais e humanitárias que nos permitem fornecer ajuda ao norte do país”, explicou.
“Com o assalto de Hodeida, não nos preocupa apenas a vida de centenas de milhares de crianças (na região), mas também o impacto que isso terá sobre as crianças no norte do país”, acrescentou.
25.2.16
Desigualdades sociais fazem aumentar risco de fractura da anca
Ana Gerschenfeld, in Público on-line
Entre 2000 e 2010, a maioria dos países ocidentais viu diminuir o número de fracturas do colo do fémur nas mulheres idosas – um grave problema de saúde pública que pode ser evitado. Mas pelo menos em Portugal, esta melhoria não terá beneficiado por igual todas as classes sociais.
As desigualdades sociais, exacerbadas pela crise económica mundial cujos efeitos começaram a fazer-se sentir já em 2007, tiveram um efeito nefasto imediato – mas só agora posto em evidência – na saúde óssea das mulheres idosas portuguesas das classes menos favorecidas, concluem três investigadoras portuguesas num estudo publicado na revista Journal of Epidemiology and Community Health.
Pode parecer um truísmo afirmar que as pessoas mais pobres são mais vulneráveis perante a doença. As autoras do estudo – Fátima Pina, Carla Oliveira e Sandra Alves, do Instituto de Investigação e Inovação em Saúde (I3S) da Universidade do Porto – sublinham aliás esta realidade: “É sabido que os factores sócio-económicos determinam disparidades nos comportamentos relacionados com a saúde e na incidência de doenças e a mortalidade”, escrevem no seu artigo.
Contudo, no início da última década, diversos estudos revelaram pelo menos uma excepção a esta “regra”: na sequência de uma iniciativa internacional, na maioria dos países ocidentais, incluindo Portugal, o número de fracturas do colo do fémur (vulgo fractura da anca) nas mulheres idosas começou a estabilizar ou diminuir em todas as classes sociais.
As fracturas da anca devem-se ao alastramento da osteoporose, decorrente do substancial aumento da esperança de vida nos países mais desenvolvidos ao longo do século passado. A osteoporose surge com a idade e, como o seu nome indica, torna os ossos porosos, “rendilhados” – e portanto, mais propensos à quebra. E essa fragilidade óssea faz com que mesmo um traumatismo normalmente sem gravidade possa ter consequências desastrosas.
“As fracturas do fémur são uma consequência da osteoporose e a grande maioria é causada por impactos de pequena ou média energia, como por exemplo uma queda da cama, da cadeira, quedas por tropeções”, explicou ao PÚBLICO Fátima Pina, que liderou o estudo e é especialista da epidemiologia das doenças osteoarticulares. “A osteoporose é mais frequente nas mulheres do que nos homens porque as mulheres têm uma grande perda de massa óssea após a menopausa. Até aos 50-55 anos de idade, o risco de osteoporose é semelhante entre homens e mulheres, mas após a menopausa o risco aumenta muito entre as mulheres. Por terem mais osteoporose e também por terem maior propensão às quedas, as mulheres têm um risco de fracturas aproximadamente três vezes maior do que os homens.”
Ora, não só os custos financeiros da hospitalização e dos procedimentos cirúrgicos associados são enormes, como estas fracturas causam, primeiro uma perda de autonomia e de qualidade de vida e depois a uma mortalidade muito elevada, segundo Fátima Pina: 35% dos homens e 20% das mulheres morrem no ano que se segue a uma fractura do colo do fémur.
Mas o mais irónico disto tudo é que grande parte das fracturas da anca poderia ser prevenida: “As fracturas da anca [são] das causas mais evitáveis de incapacidade nos idosos”, lê-se ainda no artigo agora publicado.
Seja como for, na viragem do milénio, as projecções da evolução desta autêntica epidemia eram tão catastróficas que foi lançada a inciativa Década do Osso para a travar, explicou-nos ainda Fátima Pina. Entre outras acções, começou-se a administrar medicamentos contra a osteoporose e a sensibilizar a população idosa para a necessidade de aprender a evitar as quedas.
E de facto, os resultados não se fizeram esperar. Logo no início dos anos 2000, verificou-se um decréscimo das fracturas da anca na maioria dos mais de 60 países ocidentais que, como Portugal, tinham aderido à iniciativa. Aliás, Fátima Pina e colegas mostraram, já em 2013, num artigo publicado na revista Bone, que essa diminuição estava em parte associada ao aumento da venda de medicamentos contra a osteoporose.
Diferenças geográficas
Entretanto, em 2008, a equipa da investigadora também tinha descoberto que, em Portugal, entre 2000 e 2002 – ou seja, antes da melhoria associada ao recurso à medicação, que neste país começou em 2003 –, existia um padrão geográfico na incidência das fracturas da anca. Uma “desigualdade” flagrante que fazia com que certas regiões do país fossem muito mais vulneráveis do que outras à osteoporose. “Portugal até tem um baixo risco nesta matéria quando comparado com certos países do Norte”, disse-nos Fátima Pina, mas em certas regiões de Portugal, como o Algarve ou Trás-os-Montes, o risco revelava-se altíssimo. “E nós queríamos saber a origem dessas diferenças geográficas”, acrescenta. Tratar-se-ia de factores ambientais, de factores sociais, de factores genéticos? Estariam as estatísticas globais que mostravam, desde 2003, uma diminuição das fracturas da anca a mascarar situações desiguais conforme o local de residência das pessoas? As três autoras do actual estudo decidiram portanto “dissecar” o fenómeno em termos de classes sócio-económicas.
Para realizar o estudo, as investigadoras analisaram os casos de 96.905 pessoas com mais de 50 anos (77% de mulheres) constantes do Registo Nacional de Altas Hospitalares e que foram hospitalizadas, entre 2000 e 2010, devido a fracturas da anca causadas por impactos fracos ou moderados. E desta vez, tiveram em conta o local de residência das pessoas, à escala dos municípios de Portugal continental, distribuindo-os por três categorias: pobres, médios e ricos. As disparidades geográficas do impacto da iniciativa da Década do Osso surgiram logo.
“A vantagem do nosso estudo é que, ao desagregarmos por grupos sócio-económicos, percebemos padrões que ficam ‘escondidos’ quando se analisa a totalidade dos dados”, frisa Fátima Pina. “Por exemplo, já era sabido que as taxas de incidência de fracturas [da anca] apresentam uma tendência de decréscimo em vários países e em Portugal também se vinha a observar esse padrão, mas não se sabia que esse decréscimo não ocorre em todas as regiões.”
“Nós mostrámos [agora] que existem desigualdades acentuadas: quando analisamos [a evolução desta incidência nas várias] faixas etárias de acordo com o grupo sócio-económico, nas mulheres de áreas mais pobres não existe tendência de decréscimo e, pelo contrário, a partir de 2007, a tendência é de crescimento [do número de fracturas da anca].” Segundo Fátima Pina, este tipo de desigualdades também poderá vir a revelar-se noutros países se forem realizados estudos deste tipo, o que ainda não aconteceu.
O resultado talvez mais marcante desta análise por área de residência verificou-se entre as mulheres com 65 a 79 anos: nas regiões “ricas”, confirmaram-se os resultados obtidos a nível nacional. E mais: houve uma diminuição contínua das fracturas da anca, de 1,7% por ano, ao longo de todo o período 2000-2010, explicam as autoras. Mas nas regiões “médias”, verificou-se “uma tendência abrupta para diminuírem (4,7% por ano)” durante um curto período (2004-2007), “seguida de uma tendência para aumentarem (3,4% por ano)”, lê-se no artigo. E nas regiões “pobres”, não houve qualquer diminuição da incidência das fracturas da anca e “só foi observada uma tendência para aumentarem entre 2006 e 2010, com um incremento de 3,3% por ano”, escrevem ainda as cientistas.
“Não podemos afirmar com certeza que foi o abandono da medicação nos grupos mais pobres e mais velhos que fez com que estes grupos tivessem um aumento das fracturas do fémur, mas essa é uma hipótese válida, porque há uma mudança brusca na tendência nestes grupos", diz-nos Fátima Pina. “As taxas de incidência vinham a diminuir e, de repente, passaram a aumentar, por volta do ano 2007.”
E não foi nesse ano por acaso. “O ano 2007 marcou o início da crise económica mundial, que teve um impacto forte no país e na vida das pessoas”, argumenta a cientista, lembrando que foi em 2007 que começou a haver algumas reduções nos rendimentos em Portugal, nomeadamente “ligeiros cortes nas pensões das pessoas idosas”. Ora, como a prevenção da osteoporose não é vista como uma prioridade face a doenças como a hipertensão ou a diabetes, os medicamentos anti-osteoporose terão sido dos primeiros a ser abandonados pelas mulheres de menores recursos financeiros.
Mas por que é que o efeito da interrupção da medicação foi tão imediato? Não deveria ter demorado mais tempo a verificar-se um aumento visível das fracturas da anca? Não, responde-nos Fátima Pina, porque os medicamentos anti-osteoporose têm, justamente, efeitos imediatos – e basta uma interrupção do tratamento de três meses para cancelar os seus benefícios.
Contudo, a austeridade e a troika só chegaram a Portugal anos mais tarde. Será que a situação piorou ainda mais nitidamente desde então? A equipa está agora a analisar dados que vão até 2015, responde Fátima Pina. No entanto, ela acredita desde já que as disparidades terão piorado e se terão estendido a outros grupos populacionais. Os novos resultados deverão ser conhecidos daqui a uns meses.
Todavia, este estudo só responde parcialmente à questão da origem das diferenças regionais em termos de fracturas da anca evidenciado pelo estudo de 2008, que é o que motivou a equipa em primeiro lugar. “As desigualdades sócio-económicas explicam parte desse padrão geográfico, mas não explicam tudo” diz Fátima Pina, “e continuamos à procura de entender por que existem diferenças geográficas tão acentuadas em Portugal”.
Há de facto uma variável ambiental que poderá fornecer um substancial elemento de resposta, salienta: a composição da água. Não se trata da qualidade da água, mas sim da sua composição química natural, que, apesar de respeitar as normas de qualidade, varia conforme as regiões do país. “A composição química da água poderá explicar grande parte das diferenças geográficas”, diz Fátima Pina. “Alguns elementos da água estão associados ao risco de fracturas, porque ao longo da vida alguns minerais presentes na água e nos alimentos vão-se depositando nos ossos, tornando-os mais frágeis.”
A confirmar-se a relevância deste factor ambiental, poderá ser possível gerir melhor os esforços de combate à osteoporose – e as suas nefastas consequências.
Entre 2000 e 2010, a maioria dos países ocidentais viu diminuir o número de fracturas do colo do fémur nas mulheres idosas – um grave problema de saúde pública que pode ser evitado. Mas pelo menos em Portugal, esta melhoria não terá beneficiado por igual todas as classes sociais.
As desigualdades sociais, exacerbadas pela crise económica mundial cujos efeitos começaram a fazer-se sentir já em 2007, tiveram um efeito nefasto imediato – mas só agora posto em evidência – na saúde óssea das mulheres idosas portuguesas das classes menos favorecidas, concluem três investigadoras portuguesas num estudo publicado na revista Journal of Epidemiology and Community Health.
Pode parecer um truísmo afirmar que as pessoas mais pobres são mais vulneráveis perante a doença. As autoras do estudo – Fátima Pina, Carla Oliveira e Sandra Alves, do Instituto de Investigação e Inovação em Saúde (I3S) da Universidade do Porto – sublinham aliás esta realidade: “É sabido que os factores sócio-económicos determinam disparidades nos comportamentos relacionados com a saúde e na incidência de doenças e a mortalidade”, escrevem no seu artigo.
Contudo, no início da última década, diversos estudos revelaram pelo menos uma excepção a esta “regra”: na sequência de uma iniciativa internacional, na maioria dos países ocidentais, incluindo Portugal, o número de fracturas do colo do fémur (vulgo fractura da anca) nas mulheres idosas começou a estabilizar ou diminuir em todas as classes sociais.
As fracturas da anca devem-se ao alastramento da osteoporose, decorrente do substancial aumento da esperança de vida nos países mais desenvolvidos ao longo do século passado. A osteoporose surge com a idade e, como o seu nome indica, torna os ossos porosos, “rendilhados” – e portanto, mais propensos à quebra. E essa fragilidade óssea faz com que mesmo um traumatismo normalmente sem gravidade possa ter consequências desastrosas.
“As fracturas do fémur são uma consequência da osteoporose e a grande maioria é causada por impactos de pequena ou média energia, como por exemplo uma queda da cama, da cadeira, quedas por tropeções”, explicou ao PÚBLICO Fátima Pina, que liderou o estudo e é especialista da epidemiologia das doenças osteoarticulares. “A osteoporose é mais frequente nas mulheres do que nos homens porque as mulheres têm uma grande perda de massa óssea após a menopausa. Até aos 50-55 anos de idade, o risco de osteoporose é semelhante entre homens e mulheres, mas após a menopausa o risco aumenta muito entre as mulheres. Por terem mais osteoporose e também por terem maior propensão às quedas, as mulheres têm um risco de fracturas aproximadamente três vezes maior do que os homens.”
Ora, não só os custos financeiros da hospitalização e dos procedimentos cirúrgicos associados são enormes, como estas fracturas causam, primeiro uma perda de autonomia e de qualidade de vida e depois a uma mortalidade muito elevada, segundo Fátima Pina: 35% dos homens e 20% das mulheres morrem no ano que se segue a uma fractura do colo do fémur.
Mas o mais irónico disto tudo é que grande parte das fracturas da anca poderia ser prevenida: “As fracturas da anca [são] das causas mais evitáveis de incapacidade nos idosos”, lê-se ainda no artigo agora publicado.
Seja como for, na viragem do milénio, as projecções da evolução desta autêntica epidemia eram tão catastróficas que foi lançada a inciativa Década do Osso para a travar, explicou-nos ainda Fátima Pina. Entre outras acções, começou-se a administrar medicamentos contra a osteoporose e a sensibilizar a população idosa para a necessidade de aprender a evitar as quedas.
E de facto, os resultados não se fizeram esperar. Logo no início dos anos 2000, verificou-se um decréscimo das fracturas da anca na maioria dos mais de 60 países ocidentais que, como Portugal, tinham aderido à iniciativa. Aliás, Fátima Pina e colegas mostraram, já em 2013, num artigo publicado na revista Bone, que essa diminuição estava em parte associada ao aumento da venda de medicamentos contra a osteoporose.
Diferenças geográficas
Entretanto, em 2008, a equipa da investigadora também tinha descoberto que, em Portugal, entre 2000 e 2002 – ou seja, antes da melhoria associada ao recurso à medicação, que neste país começou em 2003 –, existia um padrão geográfico na incidência das fracturas da anca. Uma “desigualdade” flagrante que fazia com que certas regiões do país fossem muito mais vulneráveis do que outras à osteoporose. “Portugal até tem um baixo risco nesta matéria quando comparado com certos países do Norte”, disse-nos Fátima Pina, mas em certas regiões de Portugal, como o Algarve ou Trás-os-Montes, o risco revelava-se altíssimo. “E nós queríamos saber a origem dessas diferenças geográficas”, acrescenta. Tratar-se-ia de factores ambientais, de factores sociais, de factores genéticos? Estariam as estatísticas globais que mostravam, desde 2003, uma diminuição das fracturas da anca a mascarar situações desiguais conforme o local de residência das pessoas? As três autoras do actual estudo decidiram portanto “dissecar” o fenómeno em termos de classes sócio-económicas.
Para realizar o estudo, as investigadoras analisaram os casos de 96.905 pessoas com mais de 50 anos (77% de mulheres) constantes do Registo Nacional de Altas Hospitalares e que foram hospitalizadas, entre 2000 e 2010, devido a fracturas da anca causadas por impactos fracos ou moderados. E desta vez, tiveram em conta o local de residência das pessoas, à escala dos municípios de Portugal continental, distribuindo-os por três categorias: pobres, médios e ricos. As disparidades geográficas do impacto da iniciativa da Década do Osso surgiram logo.
“A vantagem do nosso estudo é que, ao desagregarmos por grupos sócio-económicos, percebemos padrões que ficam ‘escondidos’ quando se analisa a totalidade dos dados”, frisa Fátima Pina. “Por exemplo, já era sabido que as taxas de incidência de fracturas [da anca] apresentam uma tendência de decréscimo em vários países e em Portugal também se vinha a observar esse padrão, mas não se sabia que esse decréscimo não ocorre em todas as regiões.”
“Nós mostrámos [agora] que existem desigualdades acentuadas: quando analisamos [a evolução desta incidência nas várias] faixas etárias de acordo com o grupo sócio-económico, nas mulheres de áreas mais pobres não existe tendência de decréscimo e, pelo contrário, a partir de 2007, a tendência é de crescimento [do número de fracturas da anca].” Segundo Fátima Pina, este tipo de desigualdades também poderá vir a revelar-se noutros países se forem realizados estudos deste tipo, o que ainda não aconteceu.
O resultado talvez mais marcante desta análise por área de residência verificou-se entre as mulheres com 65 a 79 anos: nas regiões “ricas”, confirmaram-se os resultados obtidos a nível nacional. E mais: houve uma diminuição contínua das fracturas da anca, de 1,7% por ano, ao longo de todo o período 2000-2010, explicam as autoras. Mas nas regiões “médias”, verificou-se “uma tendência abrupta para diminuírem (4,7% por ano)” durante um curto período (2004-2007), “seguida de uma tendência para aumentarem (3,4% por ano)”, lê-se no artigo. E nas regiões “pobres”, não houve qualquer diminuição da incidência das fracturas da anca e “só foi observada uma tendência para aumentarem entre 2006 e 2010, com um incremento de 3,3% por ano”, escrevem ainda as cientistas.
“Não podemos afirmar com certeza que foi o abandono da medicação nos grupos mais pobres e mais velhos que fez com que estes grupos tivessem um aumento das fracturas do fémur, mas essa é uma hipótese válida, porque há uma mudança brusca na tendência nestes grupos", diz-nos Fátima Pina. “As taxas de incidência vinham a diminuir e, de repente, passaram a aumentar, por volta do ano 2007.”
E não foi nesse ano por acaso. “O ano 2007 marcou o início da crise económica mundial, que teve um impacto forte no país e na vida das pessoas”, argumenta a cientista, lembrando que foi em 2007 que começou a haver algumas reduções nos rendimentos em Portugal, nomeadamente “ligeiros cortes nas pensões das pessoas idosas”. Ora, como a prevenção da osteoporose não é vista como uma prioridade face a doenças como a hipertensão ou a diabetes, os medicamentos anti-osteoporose terão sido dos primeiros a ser abandonados pelas mulheres de menores recursos financeiros.
Mas por que é que o efeito da interrupção da medicação foi tão imediato? Não deveria ter demorado mais tempo a verificar-se um aumento visível das fracturas da anca? Não, responde-nos Fátima Pina, porque os medicamentos anti-osteoporose têm, justamente, efeitos imediatos – e basta uma interrupção do tratamento de três meses para cancelar os seus benefícios.
Contudo, a austeridade e a troika só chegaram a Portugal anos mais tarde. Será que a situação piorou ainda mais nitidamente desde então? A equipa está agora a analisar dados que vão até 2015, responde Fátima Pina. No entanto, ela acredita desde já que as disparidades terão piorado e se terão estendido a outros grupos populacionais. Os novos resultados deverão ser conhecidos daqui a uns meses.
Todavia, este estudo só responde parcialmente à questão da origem das diferenças regionais em termos de fracturas da anca evidenciado pelo estudo de 2008, que é o que motivou a equipa em primeiro lugar. “As desigualdades sócio-económicas explicam parte desse padrão geográfico, mas não explicam tudo” diz Fátima Pina, “e continuamos à procura de entender por que existem diferenças geográficas tão acentuadas em Portugal”.
Há de facto uma variável ambiental que poderá fornecer um substancial elemento de resposta, salienta: a composição da água. Não se trata da qualidade da água, mas sim da sua composição química natural, que, apesar de respeitar as normas de qualidade, varia conforme as regiões do país. “A composição química da água poderá explicar grande parte das diferenças geográficas”, diz Fátima Pina. “Alguns elementos da água estão associados ao risco de fracturas, porque ao longo da vida alguns minerais presentes na água e nos alimentos vão-se depositando nos ossos, tornando-os mais frágeis.”
A confirmar-se a relevância deste factor ambiental, poderá ser possível gerir melhor os esforços de combate à osteoporose – e as suas nefastas consequências.
12.5.14
Padre Jardim Moreira teme aumento do abandono de doentes
in RR
Alerta para o fenómeno surge após um caso no Porto. Rosa, uma doente de cancro, que teve alta do Hospital de Joaquim Urbano, acabou por ser deixada, por sua vontade, junto à Igreja do Carvalhido.
Estão a aumentar os casos em que as famílias são obrigadas a abandonar doentes por não terem condições para os ter em casa. A confirmação é do padre Jardim Moreira, presidente da Rede Europeia Anti-Pobreza, já depois de o presidente da Câmara do Porto, Rui Moreira, ter alertado para o fenómeno, no seguimento de um caso naquela cidade que foi divulgado na quarta-feira.
Um doente de cancro, que teve alta do Hospital de Joaquim Urbano, acabou, esta segunda-feira, por ser deixada, por sua vontade, junto à Igreja do Carvalhido, zona onde o marido costuma arrumar carros. Segundo o “Público”, Rosa aguentou-se na escadaria da igreja cerca de cinco horas até ser transportada pela polícia para um quarto numa pensão de Cedofeita, arranjado pela Segurança Social, a mesma instituição que cortara o Rendimento Social de Inserção (RSI) ao casal, deixando-o sem capacidade de pagar uma renda.
Para o Padre Jardim Moreira, estas são situações reveladoras da fragilidade extrema a que muitas famílias estão sujeitas. “Para não deixar o doente sozinho e sem condições de acompanhamento, acho que no hospital tem quem o acompanhe e cuide da sua saúde. É quase um gesto de desespero e de impotência com que as pessoas chegam aí, porque é a luta entre o amor e o abandono em que se sentem impelidos diante de situações concretas.”
O presidente da Rede Europeia Anti-Pobreza teme que esses casos possam aumentar ainda mais no futuro.
Rui Moreira disse que muitos responsáveis de unidades hospitalares lhe têm relatado casos de famílias cuja localização é impossível de obter, na altura em que os doentes recebem alta.
Alerta para o fenómeno surge após um caso no Porto. Rosa, uma doente de cancro, que teve alta do Hospital de Joaquim Urbano, acabou por ser deixada, por sua vontade, junto à Igreja do Carvalhido.
Estão a aumentar os casos em que as famílias são obrigadas a abandonar doentes por não terem condições para os ter em casa. A confirmação é do padre Jardim Moreira, presidente da Rede Europeia Anti-Pobreza, já depois de o presidente da Câmara do Porto, Rui Moreira, ter alertado para o fenómeno, no seguimento de um caso naquela cidade que foi divulgado na quarta-feira.
Um doente de cancro, que teve alta do Hospital de Joaquim Urbano, acabou, esta segunda-feira, por ser deixada, por sua vontade, junto à Igreja do Carvalhido, zona onde o marido costuma arrumar carros. Segundo o “Público”, Rosa aguentou-se na escadaria da igreja cerca de cinco horas até ser transportada pela polícia para um quarto numa pensão de Cedofeita, arranjado pela Segurança Social, a mesma instituição que cortara o Rendimento Social de Inserção (RSI) ao casal, deixando-o sem capacidade de pagar uma renda.
Para o Padre Jardim Moreira, estas são situações reveladoras da fragilidade extrema a que muitas famílias estão sujeitas. “Para não deixar o doente sozinho e sem condições de acompanhamento, acho que no hospital tem quem o acompanhe e cuide da sua saúde. É quase um gesto de desespero e de impotência com que as pessoas chegam aí, porque é a luta entre o amor e o abandono em que se sentem impelidos diante de situações concretas.”
O presidente da Rede Europeia Anti-Pobreza teme que esses casos possam aumentar ainda mais no futuro.
Rui Moreira disse que muitos responsáveis de unidades hospitalares lhe têm relatado casos de famílias cuja localização é impossível de obter, na altura em que os doentes recebem alta.
7.5.14
O inferno de uma doente com cancro deixada na escadaria de uma igreja
Abel Coentrão, in Público on-line
Uma mulher debilitada, com cancro, teve alta do Hospital Joaquim Urbano, no Porto, mesmo sem ter uma casa para onde ir. Passou uma tarde nas escadas de uma igreja, onde não viu o céu, até a Segurança Social lhe arranjar um quarto. O inferno em que vive está agora escondido numa pensão.
Foi longa a espera de Rosa. Doente de cancro, com graves problemas de mobilidade, esta mulher de 46 anos teve nesta segunda-feira alta do Hospital Joaquim Urbano, onde lhe trataram mais uma infecção respiratória e a deixaram sair, mesmo sabendo que, naquele dia, ela não tinha uma casa para onde ir. Metida sozinha num táxi, foi parar, desamparada, às escadas da igreja do Carvalhido, na rua onde o marido arruma carros. Aguentou-se ali, deitada, umas cinco horas, até ser transportada pela polícia para um quarto numa pensão de Cedofeita, arranjado pela mesma Segurança Social que lhes cortara o rendimento social de inserção, deixando-os sem capacidade de pagar uma renda.
Felizmente está sol, reparava Paulo Natividade. É o amigo. O amigo que Armindo tem tido desde que a droga, o desemprego e a espiral descendente, contra a qual vai lutando, fizeram dele o arrumador de carros “oficial” da rua da Prelada. E o amigo que não calou a indignação pela forma como naquela segunda-feira, o Hospital Joaquim Urbano deu alta a uma mulher que não tinha, sabiam disso, para onde ir. Armindo tinha-os avisado de manhã. “Fiquei sem casa. Aguentem-na aí até eu resolver o problema” pediu ao telefone a um médico, à frente de Paulo. Às 14h, quando lá chegou, já ela não estava. Saíra num táxi. Pago, por “pena dela”, pelo director de serviço de Pneumologia, explicou ao PÚBLICO o assessor de imprensa do Centro Hospitalar do Porto.
“Ela queria sair. O médico avisou-a do problema da casa, mas a senhora disse que tinha familiares no Carvalhido e deixaram-na sair”, insistiu a mesma fonte, garantindo que, neste caso, não poderiam forçar a intervenção da Segurança Social. Não era a primeira vez que Rosa entrava e saía daquele hospital. Soma outros problemas de saúde ao cancro que, segundo a família, lhe deixa pouca esperança de vida, e “não é uma doente fácil”. Mas Armindo não entende porque cederam, e não esperaram que chegasse, tendo em conta a sua condição física débil e as dores que a obrigam a tomar morfina, entre vários outros medicamentos cujo custo não conseguem suportar. Foi deixada por um taxista nas escadas da igreja do Carvalhido às “portas do céu”, como se lê numa parede, e foi um irmão dele, Joaquim, que a descobriu assim, desamparada.
Armindo estava ainda no hospital, quando o irmão lhe telefonou. Pediu ajuda ao seu outro “irmão” Paulo Natividade, que trabalha naquela mesma rua e que acabou por passar a tarde ali, com eles. Pessoas foram chegando, incluindo o pároco responsável pela igreja cuja entrada ostenta uma imagem de Cristo e um mapa da Europa, mostrando a distância entre o Porto e Jerusalém, a Terra Prometida. Segundo o amigo, o sacerdote disse-lhes que procurassem apoio na Junta de Freguesia e, perante os apelos de quem ali estava, pediu ao sacristão que lhes arranjasse um cobertor. Depois, celebrou-se missa, e os fiéis foram saindo, indiferentes, a maioria deles, ao que ali se passava. Deixando ainda mais indignadas duas funcionárias do lar de Monte dos Burgos, Maria Nogueira e Ana Sousa que, ainda de farda, amparando Rosa, quase davam àquele escadório um ar de hospital em hora de visitas. Houvesse conforto…
Ainda assim, alguns paroquianos aproximaram-se, perguntaram, ajudaram. Um euro, dois. Um paliativo para aquela família, com um filho dependente, de 16 anos, que perdera o rendimento social de inserção, no valor de 408 euros. O rapaz deixara a escola, “para cuidar da mãe”, mas Armindo não sabia explicar se fora esse o motivo do corte. Conhecia, isso sim, as consequências dele. O senhorio do “apartamento” onde dormiam, na Rua Álvares Cabral, fechou-lhes a porta da casa. Trabalha com dinheiro à vista, sem recibos. “Só me deixa entrar se eu lhe pagar 400 euros”, queixava-se o antigo motorista que, ao mesmo tempo que luta para se afastar da droga que lhe “estragou a vida”, convivia, naquela casa partilhada por outros inquilinos, “com um “ambiente pesado, tentador” para um ex-toxicodependente.
Os haveres deles estavam, ainda ontem, todos lá dentro. Nas escadas, na segunda-feira, Rosa vestia a roupa com que saíra do hospital e aguentava, mal, a espera. Dois agentes da polícia, chamados ao local, já tinham há muito pedido ajuda, ligando para o número de emergência social, quando, passavam das 19h, receberam a indicação de que havia para eles um quarto numa pensão, em Cedofeita. E foi deitada nos bancos traseiros do carro patrulha da PSP que esta mulher, a quem foi detectado há um ano um cancro no pulmão, foi levada. O cobertor que lhe arranjaram nas escadas da igreja foi útil para conseguirem levá-la, de novo escadas acima, até um segundo andar, onde esta terça-feira foi já visitada por uma assistente social. Que ficou de ver o que se passou com o processo do rendimento social de inserção e de procurar uma solução de habitação para esta família que, durante uma tarde, deixou, às portas do céu, um exemplo vivo de como a vida pode ser um inferno.
Uma mulher debilitada, com cancro, teve alta do Hospital Joaquim Urbano, no Porto, mesmo sem ter uma casa para onde ir. Passou uma tarde nas escadas de uma igreja, onde não viu o céu, até a Segurança Social lhe arranjar um quarto. O inferno em que vive está agora escondido numa pensão.
Foi longa a espera de Rosa. Doente de cancro, com graves problemas de mobilidade, esta mulher de 46 anos teve nesta segunda-feira alta do Hospital Joaquim Urbano, onde lhe trataram mais uma infecção respiratória e a deixaram sair, mesmo sabendo que, naquele dia, ela não tinha uma casa para onde ir. Metida sozinha num táxi, foi parar, desamparada, às escadas da igreja do Carvalhido, na rua onde o marido arruma carros. Aguentou-se ali, deitada, umas cinco horas, até ser transportada pela polícia para um quarto numa pensão de Cedofeita, arranjado pela mesma Segurança Social que lhes cortara o rendimento social de inserção, deixando-os sem capacidade de pagar uma renda.
Felizmente está sol, reparava Paulo Natividade. É o amigo. O amigo que Armindo tem tido desde que a droga, o desemprego e a espiral descendente, contra a qual vai lutando, fizeram dele o arrumador de carros “oficial” da rua da Prelada. E o amigo que não calou a indignação pela forma como naquela segunda-feira, o Hospital Joaquim Urbano deu alta a uma mulher que não tinha, sabiam disso, para onde ir. Armindo tinha-os avisado de manhã. “Fiquei sem casa. Aguentem-na aí até eu resolver o problema” pediu ao telefone a um médico, à frente de Paulo. Às 14h, quando lá chegou, já ela não estava. Saíra num táxi. Pago, por “pena dela”, pelo director de serviço de Pneumologia, explicou ao PÚBLICO o assessor de imprensa do Centro Hospitalar do Porto.
“Ela queria sair. O médico avisou-a do problema da casa, mas a senhora disse que tinha familiares no Carvalhido e deixaram-na sair”, insistiu a mesma fonte, garantindo que, neste caso, não poderiam forçar a intervenção da Segurança Social. Não era a primeira vez que Rosa entrava e saía daquele hospital. Soma outros problemas de saúde ao cancro que, segundo a família, lhe deixa pouca esperança de vida, e “não é uma doente fácil”. Mas Armindo não entende porque cederam, e não esperaram que chegasse, tendo em conta a sua condição física débil e as dores que a obrigam a tomar morfina, entre vários outros medicamentos cujo custo não conseguem suportar. Foi deixada por um taxista nas escadas da igreja do Carvalhido às “portas do céu”, como se lê numa parede, e foi um irmão dele, Joaquim, que a descobriu assim, desamparada.
Armindo estava ainda no hospital, quando o irmão lhe telefonou. Pediu ajuda ao seu outro “irmão” Paulo Natividade, que trabalha naquela mesma rua e que acabou por passar a tarde ali, com eles. Pessoas foram chegando, incluindo o pároco responsável pela igreja cuja entrada ostenta uma imagem de Cristo e um mapa da Europa, mostrando a distância entre o Porto e Jerusalém, a Terra Prometida. Segundo o amigo, o sacerdote disse-lhes que procurassem apoio na Junta de Freguesia e, perante os apelos de quem ali estava, pediu ao sacristão que lhes arranjasse um cobertor. Depois, celebrou-se missa, e os fiéis foram saindo, indiferentes, a maioria deles, ao que ali se passava. Deixando ainda mais indignadas duas funcionárias do lar de Monte dos Burgos, Maria Nogueira e Ana Sousa que, ainda de farda, amparando Rosa, quase davam àquele escadório um ar de hospital em hora de visitas. Houvesse conforto…
Ainda assim, alguns paroquianos aproximaram-se, perguntaram, ajudaram. Um euro, dois. Um paliativo para aquela família, com um filho dependente, de 16 anos, que perdera o rendimento social de inserção, no valor de 408 euros. O rapaz deixara a escola, “para cuidar da mãe”, mas Armindo não sabia explicar se fora esse o motivo do corte. Conhecia, isso sim, as consequências dele. O senhorio do “apartamento” onde dormiam, na Rua Álvares Cabral, fechou-lhes a porta da casa. Trabalha com dinheiro à vista, sem recibos. “Só me deixa entrar se eu lhe pagar 400 euros”, queixava-se o antigo motorista que, ao mesmo tempo que luta para se afastar da droga que lhe “estragou a vida”, convivia, naquela casa partilhada por outros inquilinos, “com um “ambiente pesado, tentador” para um ex-toxicodependente.
Os haveres deles estavam, ainda ontem, todos lá dentro. Nas escadas, na segunda-feira, Rosa vestia a roupa com que saíra do hospital e aguentava, mal, a espera. Dois agentes da polícia, chamados ao local, já tinham há muito pedido ajuda, ligando para o número de emergência social, quando, passavam das 19h, receberam a indicação de que havia para eles um quarto numa pensão, em Cedofeita. E foi deitada nos bancos traseiros do carro patrulha da PSP que esta mulher, a quem foi detectado há um ano um cancro no pulmão, foi levada. O cobertor que lhe arranjaram nas escadas da igreja foi útil para conseguirem levá-la, de novo escadas acima, até um segundo andar, onde esta terça-feira foi já visitada por uma assistente social. Que ficou de ver o que se passou com o processo do rendimento social de inserção e de procurar uma solução de habitação para esta família que, durante uma tarde, deixou, às portas do céu, um exemplo vivo de como a vida pode ser um inferno.
15.5.13
Desemprego prejudica «consideravelmente» a saúde
in TVI24
Investigador espanhol diz que as pessoas que rodeiam os desempregados também saem afetados
O desemprego prejudica «consideravelmente» a saúde das pessoas que o sofrem e também a das que as rodeiam, disse esta terça-feira o investigador Fernando Rodrigo, coordenador do relatório sobre saúde laboral em Espanha 2001-2010.
O relatório, o primeiro realizado em Espanha sobre saúde laboral segundo os seus autores, foi elaborado por especialistas de várias universidades espanholas e norte-americanas, assim como pelo Instituto Sindical do Trabalho, Ambiente e Saúde e pela Unión de Mutuas, cita a Efe.
As conclusões do relatório foram apresentadas hoje, na Universidade de Valência, informou a agência noticiosa espanhola EFE.
Fernando Rodrigo, da Universidade Pompeu Fabra de Barcelona, considerou que «o desemprego em massa (...) é o principal problema de saúde pública» de Espanha, classificando de «tremendos» os efeitos da situação.
As pessoas sentem-se vulneráveis, registam consequências psicofísicas, aumentam os cuidados psiquiátricos, o consumo de substâncias psicotrópicas, de tabaco e de álcool, assim como os suicídios, explicou o investigador.
O estudo analisa a saúde laboral nos anos de maior crescimento económico e de emprego, e mostra os primeiros efeitos da crise e do aumento do desemprego.
Rodrigo declarou que as empresas e a administração pública, que «alegam dificuldades económicas», estão «a baixar a guarda» no seu esforço de prevenção de acidentes laborais, com o risco, na sua opinião, de «se perder o conquistado na primeira década do século XXI».
Javier Múrcia, da Unión de Mutuas, chamou a atenção para os riscos resultantes do stress, considerando que a situação leva «a baixas e a doenças comuns que prejudicam a saúde do trabalhador e a produtividade».
Investigador espanhol diz que as pessoas que rodeiam os desempregados também saem afetados
O desemprego prejudica «consideravelmente» a saúde das pessoas que o sofrem e também a das que as rodeiam, disse esta terça-feira o investigador Fernando Rodrigo, coordenador do relatório sobre saúde laboral em Espanha 2001-2010.
O relatório, o primeiro realizado em Espanha sobre saúde laboral segundo os seus autores, foi elaborado por especialistas de várias universidades espanholas e norte-americanas, assim como pelo Instituto Sindical do Trabalho, Ambiente e Saúde e pela Unión de Mutuas, cita a Efe.
As conclusões do relatório foram apresentadas hoje, na Universidade de Valência, informou a agência noticiosa espanhola EFE.
Fernando Rodrigo, da Universidade Pompeu Fabra de Barcelona, considerou que «o desemprego em massa (...) é o principal problema de saúde pública» de Espanha, classificando de «tremendos» os efeitos da situação.
As pessoas sentem-se vulneráveis, registam consequências psicofísicas, aumentam os cuidados psiquiátricos, o consumo de substâncias psicotrópicas, de tabaco e de álcool, assim como os suicídios, explicou o investigador.
O estudo analisa a saúde laboral nos anos de maior crescimento económico e de emprego, e mostra os primeiros efeitos da crise e do aumento do desemprego.
Rodrigo declarou que as empresas e a administração pública, que «alegam dificuldades económicas», estão «a baixar a guarda» no seu esforço de prevenção de acidentes laborais, com o risco, na sua opinião, de «se perder o conquistado na primeira década do século XXI».
Javier Múrcia, da Unión de Mutuas, chamou a atenção para os riscos resultantes do stress, considerando que a situação leva «a baixas e a doenças comuns que prejudicam a saúde do trabalhador e a produtividade».
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