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27.7.21

Um emprego à medida para pessoas em risco de exclusão

in SicNotícias

Fundação La Caixa lançou programa Incorpora. Integrou 1.333 pessoas em 2020.

O desemprego é uma realidade que afeta milhares de pessoas. Mas há uma franja da população que é ainda mais vulnerável. É a pensar nessas pessoas que existe o Incorpora, um programa que funciona como uma espécie de serviço de emprego à medida dos candidatos. Só este ano, a Fundação La Caixa tem prevista uma ajuda de 1 milhão e 700 mil euros.

O dia chega devagar. O acampamento ainda dorme. Pouco passa das 7:00, mas na casa de Cecília já todos estão a pé. Júnio é o mais velho dos quatro filhos de Cecília. 14,12, 7 e 5 anos, todos com idades muito próximas, mas nem por isso esta mulher -cigana - fica em casa, como ainda é tradição na comunidade, a cuidar dos filhos.

A primeira paragem é no centro de Braga, a quase 20 quilómetros de distância. Só depois é que o pai leva as pequenas para a escola, mesmo ao lado de casa. O vai-e-vem faz-se porque Cecília tem de picar o ponto às 9:00. Está a trabalhar na Cáritas.

Já Rúben tem 19 anos e esteve quase um ano no desemprego. É uma das milhares de vítimas da covid-19. Trabalhava numa cadeia de fast-food quando o vírus fechou as portas dos restaurantes. Lá em casa são quatro. A irmã ainda estuda, mas todos os outros trabalhavam, antes da pandemia. De um dia para o outro, Rúben e a mãe foram atirados para o desemprego. O ordenado do pai teve de esticar para sustentar quatro pessoas.

Joaquim é um trabalhador de outra geração, que aceitou sem problemas o trabalho de contínuo, mas não só. Vai aos bancos, ao correio, abre e fecha as instalações. É uma espécie de "faz tudo", com orgulho.

O Incorpora é o programa que deu forma ao emprego de Cecília e de mais de 1.300 pessoas no último ano. Financiado pela fundação La Caixa, trabalha com 58 entidades sociais em todo o país, que analisam ao detalhe cada empresa e cada candidato, de forma a fazer o casamento perfeito.

8.6.21

Já ouviu falar em itinerário laboral?

in Público on-line

É essencial para integrar no mercado de trabalho quem está em risco de exclusão social, seja por situação de precariedade ou vulnerabilidade, mas é uma ferramenta que pode ser usada por todos, na medida do possível. Saiba do que se trata, e como esta ferramenta utilizada pelo Programa Incorpora, da Fundação “la Caixa”, pode ser útil se estiver à procura de trabalho.

Quando pensamos em instituições ou associações, pensamos em solidariedade, serviço social e donativos. Mas há muito mais além destes termos, sobretudo se falarmos na influência que as entidades e pessoas dentro deste universo têm no mercado laboral, e nas famílias que apoiam, directa ou indirectamente. O Programa Incorpora, um programa de cariz social da Fundação “la Caixa” que se destina a ajudar indivíduos em risco de exclusão social, faz a ponte entre o pedido de ajuda e o emprego em si, e chama-lhe itinerário laboral.

Para isto, o Incorpora conta com uma rede de técnicos especializados em facilitar a integração destas pessoas em determinada empresa de forma positiva, humana e eficiente. São elementos-chave que põem em contacto estas pessoas, as instituições onde estão inseridas e a entidade laboral que está prestes a recebê-las, num período de acompanhamento que pode ir até 12 meses após a integração. É o chamado itinerário laboral.

O que é o Programa Incorpora e a quem se destina?

O Programa Incorpora, que chegou a Portugal em 2018, é uma adaptação e um modelo já existente em Espanha de inserção no mercado laboral, destinado a indivíduos em risco de exclusão social, seja por vulnerabilidade (pelo facto de serem portadores de algum tipo de deficiência, física ou cognitiva) ou por estarem numa situação de fragilidade que as deixa na eminência desse risco. O programa é uma aliança entre a Fundação “la Caixa”, o BPI e as entidades responsáveis pelo emprego em cada país, e até hoje já conseguiu proporcionar mais de 300.000 empregos a pessoas.
O que é, afinal, um itinerário laboral?

“O itinerário laboral é uma espécie de caminho”, começa por dizer Márcio Guerra, 41 anos, coordenador do Serviço de Empregabilidade da Cáritas Diocesana de Beja e Técnico de Acompanhamento do Programa Incorpora desde 2019, nesta instituição. “É um trajecto que é definido em conjunto (e cuja travessia é realizada lado a lado) entre a equipa Incorpora e o participante no programa, tendo por base o compromisso, acompanhamento e superação de diferentes etapas até à integração laboral.”

Esse caminho, explica Márcio Guerra, não se faz sozinho e tem vários passos que devem fazer o indivíduo sentir-se “integrado, globalizado, participativo, realista, flexível, coordenado e comunitário” ao longo de todo o processo de integração socio-laboral. Se pensarmos de forma prática, estes passos deveriam ser ponderados por todos aqueles que estão a pensar em abraçar um novo desafio profissional.

Uma espécie de entrevista de trabalho, no Incorpora há uma avaliação, que é no fundo uma conversa para perceber “as necessidades, interesses e expectativas” de cada pessoa. “Isto permite-nos priorizar a intervenção em função do grau de risco ou de vulnerabilidade social na qual está a pessoa e que eventualmente tenham de ser colmatadas por outra resposta social da Cáritas ou por algum parceiro na rede comunitária” esclarece Márcio Guerra. “Na Cáritas Diocesana de Beja atendemos pessoas em que, ou o seu perfil profissional não está de acordo com as necessidades do mercado de trabalho ou quando lhe falta competências, hábitos pessoais e profissionais é necessário dar alguma capacitação para ocupar uma vaga de emprego” explica.

O itinerário laboral é a base de toda a filosofia do Programa Incorpora e fomenta uma sociedade mais igualitária, em que todas as pessoas, sem distinção de qualquer espécie, possam participar na sociedade, através da integração profissional, que será a etapa anterior à plena integração socialMárcio Guerra, Cáritas Diocesana de Beja
Como pode ser o itinerário laboral útil para todos?

O itinerário laboral é um dos segredos do sucesso do Incorpora. Mas se olharmos para os benefícios deste percurso – da integração ao sentido de comunidade, é possível identificar boas pistas para ter em mente antes (ou quando) procurar um trabalho. As qualidades de resiliência, autocrítica, ponderação, assertividade e responsabilidade são fundamentais, sobretudo antes de ponderar uma candidatura, ou até aceitar um emprego. O que nos leva às perguntas de sempre: «qual será o meu papel neste emprego? Que função terei, e o que preciso para a desenvolver de forma positiva? Conseguirei ser financeiramente sustentável? Serei feliz?»​

Márcio Guerra oferece como exemplo o seu papel como Técnico de Acompanhamento no Incorpora. “Através da participação na construção do itinerário, a pessoa desenvolve capacidades de reflexão e análise critica, porque é estimulada a compreender determinadas decisões na sua vida que contribuíram para a sua situação de desemprego” refere Márcio Guerra. “A partir da sua condição de vulnerabilidade desenvolveram igualmente outras aptidões de resiliência e capacidade de sobrevivência que podem ser muito úteis para prosseguir de forma orientada no seu itinerário com vista à sua integração laboral.”

Pedir ajuda pode ser o princípio do caminho. Um exemplo de sucesso

Na Cáritas Diocesana de Beja, Márcio Guerra faz o trajecto completo, do momento em que conhece a pessoa (porque recorre à instituição com frequência ou vai pedir ajuda a primeira vez) até ao momento em que se torna independente. “A Cáritas Diocesana de Beja tem sido muito solicitada em pedidos de ajuda na satisfação de necessidades básicas” onde, fundamentalmente, o que as pessoas necessitam “é de conseguir um emprego ajustado ao seu perfil e dessa forma deixarem de depender da instituição” explica.

Sobre os verdadeiros benefícios desta ferramenta, Márcio Guerra acrescenta que “o melhor do itinerário é a força que ele tem, a união que se cria trabalhando em equipa, ao mesmo tempo que se procura aumentar a consciência empresarial de uma forma muito notável.”

O Técnico de Acompanhamento reforça esta ideia: “o itinerário laboral é a base de toda a filosofia do Programa Incorpora e fomenta uma sociedade mais igualitária, em que todas as pessoas, sem distinção de qualquer espécie, possam participar na sociedade, através da integração profissional, que será a etapa anterior à plena integração social”, uma afirmação que reflecte importância do lado humano, da humildade e do empenho que um papel assim requer.

19.2.21

Viseu: 74 empregos criados para pessoas em exclusão social e com deficiência

por Redação, in Jornal do Centro

Setenta e quatro empregos foram criados em Viseu no âmbito do Programa Incorpora, da Fundação La Caixa, durante o último ano.

O balanço foi feito esta quinta-feira (18 de fevereiro) pela entidade organizadora do projeto, que visa promover a contratação de pessoas com deficiência e em situação de exclusão social nas empresas.

De acordo com a Fundação La Caixa, foram criados 72 postos de trabalho para pessoas “em situação de exclusão social” e dois para “pessoas com alguma incapacidade física/intelectual”.

“Grande parte das contratações aconteceram já no período atual de pandemia Covid-19. Devido ao fecho de inúmeras empresas, especialmente dos setores da restauração e do turismo, o Programa adaptou-se para aproveitar as oportunidades que surgiram noutros setores, como, por exemplo, no das limpezas de hospitais, higienização, assistência a pessoas idosas em lares ou ao domicílio, escolas e refeitórios, entre outros”, explicou em comunicado.

As instituições responsáveis pela implementação do Programa Incorpora em Viseu foram a Associação de Paralisia Cerebral de Viseu e a Associação Portuguesa de Pais e Amigos do Cidadão Deficiente Mental de Viseu.

A nível nacional, o Programa Incorpora estendeu-se a todo o país, tendo passado a contar com 58 entidades colaboradoras. Os 113 técnicos da iniciativa partilharam informação sobre ofertas de trabalho e acompanharam as pessoas apoiadas nos processos de seleção e inserção, tanto nas empresas locais como nos processos de recrutamento promovidos por empresas de base nacional.

O programa criou, em 2020, 1.333 postos de trabalho em Portugal e contou com a colaboração de 508 empresas.

11.1.21

Fernando era um jovem “nem-nem” até fazer trabalho comunitário

Ana Cristina Pereira (Texto) e Gabriel Sousa (Ilustração), in Público on-line

Abandonara a escola e entregara-se a uma vida de ócio e pequena delinquência, sem preocupação com o futuro. Quando o tribunal o condenou a trabalho a favor da comunidade, percebeu que podia trabalhar e ser um “igual”. Terceiro capítulo de uma série sobre inclusão laboral, em dose dupla.

Se fosse homem de discursos, Fernando Pinho poderia discorrer sobre a importância de se encontrar algo que se julga fazer bem e gosta. Andava por “maus caminhos”, perdido na estatística dos jovens entre os 15 e os 29 anos que não estudavam, não trabalhavam, nem frequentavam formação (NEET), até um tribunal o forçar a prestar serviço a favor da comunidade.

Abandonou a escola cedo. “A partir do 7.º ano, comecei a achar que era difícil [perceber a matéria].” Era como se aquele lugar deixasse de ser para ele. “Desisti.” Ia nos 16 anos. Terminara o 7.º ano. Não sabia o que ia fazer à vida, nem estava preocupado com isso. Não se lembra de ouvir a mãe reclamar. O padrasto, sim. “Ele falava, mas eu queria lá saber...” Dormia até tarde. Despertava por volta das 11h. Ia até à rua. Juntava-se aos amigos no Jardim da Corujeira, no centro da freguesia de Campanhã, na zona oriental do Porto. “Ficávamos ali. Íamos até ao café. Fazíamos algumas asneiras.”

Correu mal uma ida à praia. “Roubámos uns telemóveis. Fomos ‘caços’.” Primeira condenação: roubo, um ano e oito meses de prisão. Pena suspensa. Correu mal uma conversa com os amigos numa boca de tráfico de drogas. “A polícia chegou. Eles tinham droga escondida. De quem era? Não era de ninguém. Ninguém falou, todos para a esquadra.” Segunda condenação: cumplicidade, dois anos e três meses de prisão. Pena suspensa. Correu mal um dia de calor em que uns arriscavam entrar num supermercado em tronco nu. “Carga de ossos”, terá comentado um funcionário. “É carga de ossos, mas chega para ti”, retorquiu um dos rapazes. “Houve ali agressões. Peguei num carrinho. Aqueles de cestos pequeninos. Pumba nas costas.”

O magistrado que lhe calhou em sorte não queria enviá-lo para a prisão uns meses, mas também não o queria deixar ir para casa com outra pena suspensa. Ordenou-lhe que reparasse, ainda que de forma simbólica, o dano que provocara, fazendo um trabalho socialmente útil. Condenou-o a 420 horas de trabalho a favor da comunidade. Uma opção que tem estado a aumentar.

Um “igual"

Pediu para cumprir a pena na secção de obras da Junta de Campanhã. Havia outros a fazer o mesmo. “Não faziam nada. Não se queriam sujar. Faziam-se burros. Mas a gente tinha de cumprir aquelas horas. Eu fazia as coisas. Se não fizesse as coisas, as horas não passavam.”

Acontece o trabalho a favor da comunidade ser uma farsa representada por condenados, técnicos de reinserção social e instituições de acolhimento, mas para Fernando não foi. Alinharam-se vários factores: ia nos 20 anos, namorava, estava a poucos meses de ser pai e gostava daquilo. “Gosto de fazer o que faço. Pertinho de casa e tudo...”

Inscreveu-se num curso de Mecânica de Pesados que lhe daria equivalência ao 9.º ano – incentivara-o a equipa de acompanhamento de beneficiários de rendimento social de inserção (RSI) da Qualificar para Incluir. “Inscrevi-me a pensar no dinheiro”, admite. “Recebia 189 euros de rendimento. Mais 260 de bolsa fazia quase um ordenado.” Em 2011, o salário mínimo estava nos 485. Afinal, não havia bolsa. A bolsa fora trocada pelo transporte. Quando a notícia chegou, Fernando já descobrira que também gostava daquilo. Às vezes, à tarde, até ajudava os colegas.

Entre as 17h e as 21h, estava no curso. De manhã, três horas e meia de trabalho comunitário. Sentia-se entre iguais. Sentia-se capaz. “Não faltava, não chegava atrasado, fazia o trabalho.” O responsável pela secção de obras reparou. E os técnicos do gabinete de acção social também. Mas como mantê-lo a trabalhar num período de impossibilidade de contratação pública? Fernando esteve uns meses em casa. Voltou com um Contrato Emprego Inserção +, um programa de trabalho socialmente útil para desempregados beneficiários de RSI, criticado por ocupar postos de trabalho.

Sucessão de soluções temporárias

No pico da crise da dívida, o fenómeno NEET atingiu proporções alarmantes. A Comissão Europeia lançou a Garantia para a Juventude destinada a assegurar que todos recebiam oferta de emprego, educação ou um estágio. Os especialistas não se cansavam de explicar que esta realidade é heterogénea (pode incluir jovens desencorajados, à procura de trabalho, com trabalho precário, a cuidar de alguém, com problemas de saúde ou comportamento). Nem que os jovens com percursos escolares curtos, como Fernando, têm maior dificuldade.

Fernando tornou a casa, mas a junta precisava de alguém e a equipa não o queria largar. Como terminara o curso, voltou para um estágio profissional. Não podia pôr em prática o que aprendera, mas podia prosseguir o processo de inclusão laboral. Ainda cumpriu um Contrato Emprego Inserção, outro programa de trabalho socialmente útil, mas destinado a beneficiários de subsídio de desemprego. Outra vez para casa. Esgotadas estas respostas do Instituto de Emprego e Formação Profissional, só podia “passar recibos verdes”. E assim esteve até abrir um concurso público. “Tenho dois anos de efectivo”, diz. Nota bem a diferença. Não só no salário. “Tenho subsídio de férias e de Natal.” A mulher, no sofá, interrompe-o: “Tens ADSE.”

Daniela também foi “nem-nem”. Também desistiu da escola aos 16 anos. Também fez um curso que lhe deu equivalência ao 9.º: assistente familiar de apoio à comunidade. Trabalha como auxiliar de serviços gerais numa clínica. Têm um filho de nove anos, que está agarrado ao telemóvel, outro de três, que está a tentar apanhar a conversa, e aguardam uma filha. E quem lhes dera que as crianças tivessem uma relação melhor do que a sua com a escola. O mais novo gosta, o mais velho não. “É preguiçoso”, começa ela. “É tímido”, justifica ele. “Tem défice de atenção, dislexia, um pouco de hiperactividade, o que não ajuda”, esclarece ela. Não querem que se sinta ficar para trás, como sentiram. Procuraram soluções. “Foi para uma turma à parte. Todos os meses, vai ao psicólogo. Anda numa explicadora e tudo!”

Aos 29 anos, o passado de delinquência parece-lhe outra vida: “Éramos novos, não pensávamos.” Está focado na nova vida. Continua a gostar do que faz. “Não é o mesmo sítio. Não é preso. Não é todos os dias a mesma coisa.” Pode, por exemplo, fazer o transporte de uma cama articulada ou de uma cadeira de rodas ou a mudança inteira. Também ajuda a recuperar habitações, no âmbito de uma parceria da câmara com a junta. E a tudo isto atribui um sentido maior. “Estamos a ajudar a prestar um serviço social, estamos a prestar um serviço à sociedade.”

O programa Incorpora, da Fundação “la Caixa”, em colaboração com o BPI e o IEFP, tem como objectivo fomentar o emprego para pessoas em situação de vulnerabilidade social. Nesta série de seis reportagens, o PÚBLICO apresenta um conjunto de retratos representativos dos diversos grupos-alvo da iniciativa. As reportagens são guiadas por critérios editoriais, sem qualquer relação directa com os apoios atribuídos pelo programa.